Manuela porto santos



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NIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA–UNEB

AUTORIZAÇÃO: DECRETO Nº92937/86, DOU 18.07.86 – RECONHECIMENTO: PORTARIA Nº909/95, DOU 01.08.95

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E TECNOLOGIAS - DCHT



CAMPUS UNIVERSITÁRIO DR. SALVADOR DA MATTA

IPIAÚ – BAHIA


MANUELA PORTO SANTOS



FICÇÃO E POLÍTICA EM MACHOMBONGO

Ipiaú-BA,

2010.
caixa de texto da citação.]

M


ANUELA PORTO SANTOS

FICÇÃO E POLÍTICA EM MACHOMBONGO

Monografia apresentada ao Curso de Licenciatura em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Literatura do Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias, Campus XXI, da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciado.

Orientador: Profº Dr. Vitor Hugo Fernandes Martins.

Ipiaú-BA,

2010.

D


EDICATÓRIA

A meu pai, Milton José dos Santos (in memoriam), minha educação e inspiração.

A

GRADECIMENTOS

A Deus, por ter me concedido a sabedoria, a saúde e inteligência para elaboração desta monografia.
Ao Prof. Dr. Vitor Hugo Fernandes Martins, orientador e amigo, pelo estímulo e competente orientação durante a pesquisa. De cor...
Aos professores que realmente compreendem a significação do “ser” mestre, amigo, colega... Adilma Rocha, José Humberto, Luciana Leitão, Maria Conceição do Sacramento, Otávio de Assis e Tarcísio Cordeiro.
Aos funcionários, pelas horas de distração e pelo aconchego. O esforço de vocês durante o período que permanecir aqui, de uma gentileza excepcional no trato comigo e com os meus colegas, fazendo com que jamais nos esqueçamos desse tempo maravilhoso que passamos juntos.
O destino nos fez encontrarmo-nos num mesmo caminho. Viemos de pontos distantes. Vimos o crescer de cada um, passo a passo. Agora chegou a hora de seguirmos sozinhos, cada um seguindo o seu próprio destino. Resta uma saudade e a certeza de que sempre estaremos juntos, mesmo distantes, isto é, estaremos juntos em pensamentos. Nós não nos despedimos, apenas nos afastamos, para darmos ao destino o prazer de nos reencontramos. Brigamos diversas vezes, afinal, que família no mundo não se desentende algumas vezes? Porém, quando todos nós estávamos em apuros, nos uníamos como se não existissem diferenças. Hoje nos respeitamos e nos amamos como irmãos, e vemos em nós um pouco de cada um que conviveu conosco durante esses anos. Ana Luiza, “a observadora”, Ana Flora, “o cacique”, Ana Pula, “meu eterno Anjo”, Bruna, “ a menininha”, Caline, “a motoqueira”, Dany Pomp., “As histórias”, Elton, “Esse Beco de Ondina”, GeiZa, “Essas pernas, Auad te pega!”, Ione, “Índia... Irmã de Potira”, Izael, “as brincadeiras deram certo”, Jalândia, “A mamãe”, Jeane, “a criativa”, Juliana, “Potira, Coroguete, Caduquete”, Luiza, “espevitada... Bailarina, anti-professora”, Marta, “a atenciosa”, Maradona, “Mau caráter, do olho junto”, Eu, “gostou das brincadeiras”, Menina Dani, “a vergonhosa”, Mônica, “quero me casar!”, Sheyla, “ A brilhante”.
N

o final dessa jornada, na realização desse sonho, meus familiares foram imprescindíveis; Vocês sempre torceram por mim, como sempre... estão a me aplaudir! E é com eterna gratidão que lhes deixo o meu muito obrigada! Amo muito vocês!


“Rogaciano Boca Rica é o exemplo bem talhado do homem truculento que, escudado num mandato parlamentar, se sente ainda mais acima da lei. Com o golpe de 1964, ele passa a personificar a mais truculenta mentalidade da repressão. Comunista, para ele, tem que ser esmagado, sem piedade. Se o governo tinha até metralhadora, porque não acabava de vez, com os comunistas?” (Elieser Cesar, O romance dos excluídos, 2003: p. 72-73)


R

ESUMO


A relação entre Literatura e Política, mais precisamente entre Romance e Política, é pouco estudada na Literatura Brasileira, embora saibamos da existência do ROMANCE DE 30, ou ROMANCE REGIONALISTA NORDESTINO, ou NEO-REALISMO, como preferem os portugueses, narrativas ficcionais altamente engajadas e que denunciavam a realidade sócio-política da região nordeste do País. É o caso justamente de Jorge Amado (1912 – 2001). Seguindo os passos deste, pelo menos no que se refere ao mundo rural, telúrico, das roças, outro baiano, Euclides José Teixeira Neto (1925 – 2000), insistiu em mostrar, em sua ficção, essa relação. Neste trabalho monográfico de final de Curso, objetivamos analisar a ficção e política, tendo como corpus o romance Machombongo (1986), de Euclides Neto. Para a elaboração desta pesquisa, foram utilizados, como referencial teórico, os seguintes críticos e ensaístas: Elieser Cesar, com O Romance dos Excluídos (2003), João Batista Cardoso, com Literatura do Cacau: ficção, ideologia e realidade (2006). Nossa pesquisa, porém, não se limitará aos estudos bibliográficos, mas também, contaremos com os informantes (amigos e familiares) que conviveram com ele, Euclides Neto, e ainda moram em Ipiaú. Podemos dizer aos leitores que as obras deste ficcionista despertam várias emoções: indignação, raiva, compaixão, revolta. Tudo por causa do seu estilo literário, direto, regional, quase oral, mas poético, de que se vale para apresentar a realidade dos trabalhadores rurais do sul da Bahia. Tudo isso é atribuído a sua formação acadêmica e política, na primeira como um advogado do “povo” e na segunda, conhecido como um homem engajado com o Partido do Homem.
PALAVRAS-CHAVE: análise; ficção; política; Euclides Neto; Machombongo.

A


BSTRACT

The connection between Literature and Politcs, more precisely between novels and policy, is a few disregarded in Brasilian literature studies. However we have acquaintance of the 30 decade Novels, or the Regionalists Northeast Brazilians Novels, or about the New Realism, as the Portuguese prefers to name, all these ficcional literature highly engaged that denounce the political and social reality of the northeast of Brazil. Like the author Jorge Amado (1912 – 2001), following his ideas, at least in the rural, landed, and farmer’s world, other author from Bahia, Euclides José Teixeira Neto (1925 – 2000), insisted in show in his novels this relation. In this monograph we will analyze fiction and politics having as base for this the novel Machobongo (1986), by Euclides Neto. To the research we used as theoretical basis the following critics and analyzers: Elieser Cesar, with O Romance dos Excluídos (2003), João Batista Cardoso, with Literatura do Cacau: fiction, ideology and reality (2006). However our reasearch Will not be limited to the bibliography studies, but, with the information of the persons that lived with him, that are still alive and living in Ipiaú, birth city of the author. We can tell the readers that the literature of this novelist cause diferents feelings: indignation, angry, compassion, revolt. All this because of his straigh, rustic, almost oral but, poetical literary style. Style that is used to present the reality of the rural mens from south of Bahia. All these questions are realationed to his academic and political formation, First as a lawyer of people, and then as a engaged person with the Mens Side.


Key words: Analysis, fiction, politcs, Euclides Neto, Machobongo.

S


UMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................... 10


CAPÍTULO I: SOBRE O ROMANCE POLÍTICO ...........................................13

CAPÍTULO II: O ROMANCE POLÍTICO EM MACHOMBONGO, DE EUCLIDES NETO: A CATEGORIA NARRATIVA PERSONAGEM .............................................................................................................................17

CAPÍTULO III: O ROMANCE POLÍTICO EM MACHOMBONGO, DE EUCLIDES NETO: A CATEGORIA NARRATIVA ESPAÇO-TEMPO ............................................................................................................................26

CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 34

REFERÊNCIAS ............................................................................................... 36


INTRODUÇÃO


Euclides José Teixeira Neto nasceu em Ubaira, na Bahia. Era filho de fazendeiro e estudou em escola pública da zona rural. Depois de alguns sacrifícios financeiros, seus pais o mandam estudar em Salvador. Com 18 anos publica seu primeiro livro, Por que o homem não veio do macaco (1943), e mais tarde ingressa na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursou Direito.


Depois dos estudos concluídos, tornou-se prefeito de Ipiaú, onde pôde exercitar suas ideias “revolucionárias”, tendo sido também secretário de Reforma Agrária do governo de Valdir Pires (1987-1989). Euclides Neto era um homem que defendia a reforma agrária, e estava sempre preocupado com a classe dos trabalhadores rurais. Classe que estava sempre subordinada aos desejos dos seus patrões e à vida de extrema pobreza. Sua obra ficcional e não-ficcional retrata justamente essa luta de classes. Homem e político da terra só podiam dar num escritor telúrico (Influência do solo de uma região nos costumes, caráter, etc, dos habitantes [...]) (Novo Aurélio - Século XXI, 1999, p. 1939)
Notamos que esta temática vem da geração de 30, a de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, entre outros. Uma geração de novos escritores comprometidos com a realidade social do País, deixando sua marca presente na ficção longa, cuja finalidade era denunciar as injustiças sociais, econômicas e políticas, principalmente do Nordeste brasileiro. Não à toa, esses autores, com exceção de José Lins do Rego, eram politicamente da esquerda e pertenceram ao Partido Comunista Brasileiro, fundado em 1922. Por isso mesmo, segundo Eleonora Ziller Camenietski (2006, p. 69), “Os intelectuais tinham a responsabilidade de pôr seu conhecimento ao alcance do povo, para que este passasse a ser o grande protagonista das transformações políticas do país”.
Machombongo, de Euclides Neto, apesar de distanciado dessa geração de 30 no tempo (mas não no espaço, porque também se refere a região nordestina), tem afinidades com ela no que diz respeito ao plano do conteúdo. Até porque Euclides Neto desde cedo também nutria certas simpatias pelas ideias socialistas. Sendo este livro um romance de denuncia social e política, chamou nossa atenção por revelar a realidade da nossa região cacaueira, os senhores e os servos ali envolvidos, o que justifica, assim, nosso interesse pelo autor e obra e a realização dessa monografia.
Nosso objetivo aqui é analisar a ficção e a política, em Machombongo. Primeiro, compreenderemos o romance político, como se dá essa fusão na obra literária; segundo, com destaque para a trajetória do deputado Rogaciano Boca Rica, protagonista do romance, fazendeiro de cacau e gado, que não mede esforços para continuar rico e poderoso; terceiro, para as categorias espaço e tempo, ou seja, os contextos geográficos (serra do Machombongo) e históricos (tempo político da fábula), que estão sempre juntas, configurando o que chamamos de romance político.
Para melhor resultado, a nossa pesquisa foi dividida em três seções. Na primeira delas analisaremos, “O Romance Político”, abordando as características existentes nas obras engajadas. Uma obra só pode ser considerada como engajada quando apresenta fortes indícios de denuncia e conscientização, cabendo ao escritor usar a ficção e o tempo histórico como instrumentos alquimistas a ponto de provocar umas mudanças nos leitores e na realidade que retrata.
Na segunda seção, “O romance político em Machombongo, de Euclides Neto: a categoria narrativa personagem”,. mostraremos como o personagem principal reflete fielmente a era do coronelismo. Nosso ficcionista baiano dá voz e poder ao deputado Rogaciano Costa Sobrinho, para descrever como funcionava a dominação e prepotência dos homens com dinheiro.
Na terceira seção, “O romance político em Machombongo, de Euclides Neto: a categoria narrativa espaço-tempo”, analisaremos o conjunto dos acontecimentos presentes num texto literário, com o foco narrativo do nível descritivo o espaço e o tempo. O espaço se caracteriza por meio da serra do Machombongo, um lugar simples e pertencente a todos, por isso, promovia tranquilidade e paz de espírito tão almejado pelo personagem Dr. Quirino.
A categoria tempo não está para a época da escrita da obra, que foi em 1986, e sim para a era da ditadura militar e a do coronelismo. Momento que marcou o País, principalmente na região nordestina por possuir uma imensidão de terras com plantações de cacau, o ouro baiano. Com essa realidade, Euclides monta Machombongo engajado e politizado.
Para a elaboração desta monografia, recorremos a vários estudiosos e críticos que complementaram a nossa pesquisa, ajudando-nos a ratificar os assuntos em pauta. No primeiro instante, procuramos entender a vida de Euclides Neto, para assim, iniciarmos as leituras específicas. Depois empenhamo-nos em estudar obras, ensaios, blogs, entre outros para corroborar com a análise.
Entre vários estudiosos destacaremos: Elieser Cesar (2003), em “O Romance dos Excluídos: terra e política em Euclides Neto” onde reúne análises e características do perfil do escritor baiano com as obras: A enxada, Os Magros e Machombongo. Utilizamos também João Batista Cardoso (2006), com seu livro Literatura do cacau: ficção, ideologia e realidade em Adonias Filho, Euclides Neto, James Amado e Jorge Amado, onde reúne estudos das obras desses escritores, sendo nosso foco Euclides Neto. Lemos ainda a página do blog do Profº Dr. Vitor Hugo Fernandes Martins, “A Prosa Telúrica de Euclides Neto”, que nos ajudou a compreender o homem e escritor da terra.
Para entender o contexto histórico do Brasil e as correntes que influenciaram Euclides Neto contamos com Alfredo Bosi (1994), Nelson Werneck Sodré (2002) e Afrânio Coutinho (2004).
Utilizamos para a elaboração desta monografia a edição de Macombongo, da editora Letras / Cacau: Itabuna, 1986.

CAPÍTULO I – SOBRE O ROMANCE POLÍTICO


A ficção é uma transposição da vida para um plano artístico. Ficção é, dessa maneira, invenção, mas sempre tendo como referente a vida. Os romanos, gregos e portugueses já utilizavam a técnica da narrativa, em versos, chamada EPOPÉIA, para relatar as viagens e conquistas de novas terras e também de suas próprias terras. Várias obras de épocas distintas vão caracterizar esta técnica, como a Eneida (séc. I a. C.), de Virgílio, a Odisséia (séc. VIII a.C.), de Homero, e Os lusíadas (1572), de Luís Vaz de Camões.
Essas obras promoveram uma explosão artística no primeiro instante. Os navegadores não tinham o conhecimento sistematizado, interpretavam os fenômenos naturais como algo fantástico e promovido pelos deuses ou monstros. Todo esse conhecimento assistemático e empírico promoveu esse arsenal de poemas. Depois desse período, novas técnicas surgiram para escrever a narrativa de ficção, ganhando espaço o ROMANCE, que vai ter o seu apogeu no final do século XVIII e começo do XIX, com o Romantismo. Assim, vão aparecer os romances histórico, indianista, de tese, regionalista, político etc. Segundo Georg Lukács (2000, p. 55)
O romance é a epopéia de um tempo em que a totalidade extensiva da vida não é já dada de maneira imediata, de um tempo para o qual a imanência do sentido à vida se tornou problema mas que, apesar de tudo, não cessou de aspirar à totalidade.

O romance político, objeto desta monografia, a partir da leitura de Machombongo, de Euclides Neto, não é muito estudado na Literatura Brasileira, apesar de haver várias obras ficcionais brasileiras em que questões políticas e sociais estão representadas claramente, como, por exemplo, os primeiros romances do modernista Jorge Amado, da Geração de 30, ou do Neo-Realismo.


O ano de 1922 é um marco na história brasileira, não só porque acontece a Semana de Arte Moderna, que revoluciona a arte no País, mas também porque se instala o Partido Comunista Brasileiro-PCB, ao qual vão se filiar Jorge Amado e Euclides Neto.
O povo estava sedento da vida brasileira, de se ver retratado no romance, assim como a sua terra, o seu cotidiano, o seu trabalho, as suas paixões, o conflito político, as lutas de classes, o crescimento econômico do País, entre outros temas tabus.
Não só no Brasil mais em Portugal também a literatura marca uma época revolucionária. O Neo-Realismo, corrente literária e artística do século XX, promove romances engajados politicamente. Até porque seus autores, no Brasil, em sua grande maioria, pertenciam ao PCB. Assim, a temática em destaque é a realidade político-social, o caráter humano, voltada para o sociológico. Basta vermos, por exemplo, o romance Cacau (1933), de Jorge Amado.
A nova ficção era direta, simples, mas literariamente expressiva, incomodava a burguesia, os latifundiários e os políticos. O romance havia re-nascido, a imaginação ganhou novas características. Os temas mais abordados eram os costumes populares, a oralidade, o homem do campo, o proletariado, os aspectos religiosos.
Afrânio Coutinho (2004, p. 275) afirma que a segunda fase do Modernismo trouxe um “extraordinário surto novelístico, nas duas direções tradicionais da ficção brasileira: a regionalista e a psicológica e de costumes, ambas marcadas por um cunho de brasilidade...” A ficção dá vez e voz ao homem da cidade e do campo; o primeiro traz o conflito urbano, as lutas de classes, o crescimento do proletariado; o segundo mostra o homem no ambiente rural, com seus problemas sociais, as lutas com os fazendeiros, o cangaço, a seca, a religiosidade popular, entre outros.
Nesse período os escritores Graciliano Ramos, Jorge Amado, Adonias Filho e outros estavam promovendo ficção com estilo documental. Cada região do Brasil ganhou destaque na ficção regionalista, principalmente a do Nordeste do País. Estavam sendo denunciadas as mazelas sociais, abordando temas regionais, o ciclo do cacau, o cangaço, o coronelismo, efetivando o caráter documental.
Com essas transformações literárias, a Geração de 30 ou Neo-Realismo estava revolucionando mais uma vez a ficção brasileira. Luís Costa Lima (COUTINHO 2004) observa que esses escritores promoveram a mais alta ficção modernista da Literatura Brasileira. Sendo assim, o romance político passa a ser lido, as novas publicações estavam mais agressivas e partidárias, os ambientes sociais e geográficos foram mais explorados.

Os escritores foram chamados de militantes políticos, usavam os pseudônimos e mais uma vez a ficção para lutar contra as mazelas sociais. O novo panorama ficcional estava baseado no real. Podemos citar Rachel de Queiroz, escritora cearense, que colocava como um dos temas centrais de sua obra a mulher. As figuras femininas eram esboçadas com a temática do conflito social, econômico e de gênero, a mulher estava vivendo em um período de transformações sociais, buscando sua independência.


A tônica regional cresce ainda mais com os dramas sociais e as lutas dos proletariados. Fixando o teor documental, a ficção ganha numerosos assuntos, pois o cenário rural é ampliado, com a zona do açúcar, do cacau, do garimpo, dos pampas, da Amazônia, ampliando o conflito político em todo Brasil. Estes aspectos, todavia, ampliam o valor de denuncia e análise social da realidade brasileira.
O romance político retrata o panorama brasileiro e mundial, pois não só no Brasil, mas em outros países luta-se a favor das classes marginalizadas e contra a política opressora da classe dominante. Exemplos disto temos no Brasil o Estado Novo do presidente Getúlio Vargas, nos anos 30, e o Golpe de 64; na Europa, o fascismo na Itália, liderado por Mussolini (1883-1945), e o nazismo na Alemanha, liderado por Adolf Hitler (1889-1945).
A literatura tem um comprometimento com a realidade, sempre vimos romancistas e poetas comprometidos com a vida político-social. Várias obras fundem o real com o ficcional, sem perder sua literariedade. O leitor não pode se inocentar diante do trabalho artístico que revela o nosso mundo. A ideologia do autor também acompanha sua escrita, por isso, Eleonora Ziller afirma que “O que importa é a mensagem, a politização, a organização das massas” (2006. p, 65), o compromisso é com o povo.
O romance político se caracteriza por trazer para discussão fatos históricos que marcaram (marcam) um país. Eles são convertidos em ficção para serem aceitos, até porque estamos falando de obras literárias. As relações promíscuas entre os políticos é uma realidade que não temos ideia de quando serão banidas dos congressos, parlamentos, prefeituras e câmaras de vereadores. Apoiar o governo é sinal de grandes benefícios, a moeda que circula entre eles é a de conceder bons empregos para os coligados, resolução de alguma causa jurídica e a própria extorsão de dinheiro dos cofres públicos.
Essas trocas de favores entre políticos sempre trouxe para o nosso país um favorecimento com relação aos empregos. Muitas pessoas conseguiram emprego público por indicação, sem fazer nenhuma seleção, literariamente pela “janela”, a indicação do nome é feita sempre por um político influente. O engajamento político é formado a partir do momento em que o escritor observa a realidade e nela busca inspiração para escrever a condição social, política e religiosa de um povo.
“Só o compromisso popular tem validez como ação cultural para transformar a realidade, sendo este o caminho que todos os artistas devem seguir” (Idem. p, 66). Estudando o poeta Ferreira Gullar, que procurou apontar em sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro, Eleonora Ziller acredita que o escritor tem o dever de proporcionar aos leitores uma obra que os “perturbe”, que os faça questionar as relações sociais do seu país.
Podemos afirmar que o romance de espaço, o romance político e o romance histórico apresentam grandes coisas em comum. O ambiente geográfico, as personagens (baseadas na realidade) e a época dos acontecimentos vão ser os principais elementos para a construção de um romance político. A liberdade que o artista tem serve para ele escrever estes romances politizados que trazem em si a visão da realidade, a estrutura social e política do povo.
Todo o contexto político que encontramos na ficção euclidiana revela a realidade do interior da Bahia, mas também do Brasil, confirmando esta hipótese Vitor Hugo Fernandes Martins (2010) observa, “significa dizer não só quem é de Ipiaú (o grande cenário de seus textos, por certo), mas também, repetimos, quem é da Bahia, do Brasil e – por quê não? – da Humanidade, deste planeta”. Por isso, as obras são classificadas como romance político, pois se debruçam sobre o engajamento social e promovem uma escrita que denuncia o sofrimento de todo um povo.
Apesar de na Literatura Brasileira o romance político não ser muito praticado pelos romancistas, excetuando-se, é claro, os do período do Neo-Realismo ou Romance de 30 e os do Romance dos Anos 70 do século passado, Machombongo, do baiano Euclides Neto, exemplifica perfeitamente o romance político brasileiro. É o que veremos nos capítulos seguintes.

CAPÍTULO II – O ROMANCE POLÍTICO EM MACHOMBONGO, DE EUCLIDES NETO: A CATEGORIA NARRATIVA PERSONAGEM



Tudo que lemos ou a que assistimos provoca-nos diversas reações. Na vida fictícia nada acontece por acaso. Quantas vezes choramos e rimos, odiamos e amamos uma personagem. Esse faz-de-conta aflora todos os sentidos dos telespectadores, espectadores e leitores. Não importa qual o grau de envolvimento, o receptor “aceita” o mundo fantasioso da obra, criado pelo autor. “Aceita”, sobretudo se houver verossimilhança.
As histórias trazem na estrutura elementos da narrativa, tais como: enredo, personagens, tempo, espaço e narrador. Narrar é uma técnica que acompanha o homem desde sua origem. Tomemos como exemplo os hieróglifos, as histórias contadas nas tribos, os mitos que serviam para passar o tempo e desenvolver um caráter moral nas pessoas, os ensinamentos bíblicos, as lendas, as narrativas navais etc.
Muitas são as formas de narrar. Podemos usar a oratória ou a escrita, ambas foram desenvolvidas ao longo do desenvolvimento humano. Quanto à forma, podem ser em prosa ou verso. Não importa qual modo é usado, as duas têm seu espaço na literatura.
Na narrativa ficcional, os personagens são essenciais para dar vida e sentido à história que está sendo criada. “A personagem constitui um elemento estrutural indispensável da narrativa romanesca. Sem personagem, ou pelo menos sem agente [...] não existe verdadeiramente narrativa”. (BARTHES apud AGUIAR E SILVA, 1991, p. 687). Geralmente, as obras ficcionais projetam nas personagens ações que valorizam o percurso da trama.
Os estudiosos ficam a se perguntar como analisar o perfil do personagem. Será que quando o escritor elabora uma obra, ele tende a colocar seu perfil psicológico, seus anseios, sua alma? São perguntas que levaram estudiosos a estudarem as possibilidades de caracterização do personagem, um dos primeiros foi Aristóteles.
A pesquisadora Beth Brait explica, em seu livro A personagem (2004), que Aristóteles atribuiu função à personagem, acreditando que a mimesis, “imitação do real”, vai caracterizar a personagem. A vida real é imitada e transformada em ficção, permitindo que o autor da obra colocasse a realidade em pauta. Esta ideia fixa do pensador grego não admite analisar a categoria personagem sem a realidade e a ficção estarem juntas.
Porém, na metade do século XVIII esta teoria é questionada, e outros estudiosos atribuem novos valores para caracterizar a personagem. Neste momento a personagem é “vista” como a reprodução psicológica do autor. O momento literário em transição ajuda a afirmar essa nova teoria. O Romantismo proporciona a “análise de almas”, todo teor romântico das obras projetam o psicológico das personagens. Mesmo assim, existe um paralelo entre a primeira e a segunda teoria. Assim, “Os estudos desenvolvidos durante esse longo período nada mais fazem que reproduzir por prisma diversos a visão antropomórfica da personagem” (BRAIT, 2004, p. 38).
Outras teorias vão surgindo no século XX. “É somente com a obra Teoria do romance, de Györgi Luckács, publicada em 1920, que essas questões são retomadas em novas bases” (Idem, p. 39). O mundo burguês é palco da nova abordagem, o personagem é vista como representante desse mundo, por isso, Brait afirma que essa teoria não distancia das outras supracitadas.

A classificação do personagem quanto ao seu desenvolvimento psicológico dentro da trama fictícia pode ser constante e não-complexa, sendo assim, denomina-se personagem plana; ou , quando seu desempenho é dinâmico e demonstra muitas mudanças psicológicas, personagem redonda.

Além dessas duas classificações, E.M. Forster (apud BRAIT, p. 41) classifica as personagens em tipos e caricaturas. Os tipos são personagens simples e marcantes, que conseguem expressar uma característica “real” da coisa, ela não exerce exageros. As personagens caricaturas tendem a expressar um exagero na sua construção, “provocando uma distorção propositada, geralmente a serviço da sátira”.
Outras classificações foram encontradas para caracterizar a personagem. A semiótica, por exemplo, serviu como base para interpretação: “[...] a personagem é estudada sob a perspectiva semiológica, isto é, como um signo dentro de um sistema de signos, como uma instância de linguagem” (Idem, p, 44). A personagem passa a pertencer a qualquer sistema semiótico, deixando de estar restrita à literatura.



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