Manuela porto santos



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A. J. Greimas propõe uma nova substituição da nomenclatura “personagem” por ator. Mesmo assim, subdivide a categoria em seis actantes: sujeito, objeto, destinador, destinatário, opositor e adjuvante. Mais à frente, alguns estudiosos perceberiam que esta nova linha de estudo provocava “um reducionismo muito forte de complexidade psicológica, sociológica, ética e religiosa das personagens dos textos narrativos” (AGUIAR E SILVA, op. cit. p. 692).


Verificamos, em Machombongo, o contexto regional do interior baiano, por meio da oralidade, da questão política e geográfica. A verossimilhança projeta a maneira de ser das pessoas de tal forma que do plano fictício, a simples vida roceira dá um ar de realidade. Tudo isto é possível por causa da linguagem, o romance só existe por causa da palavra, e que força ela exerce, “pois a personagem não existe fora da palavra” (BRAIT, 2004, p.11).

As personagens são classificadas em categorias de ação e importância dentro da obra: personagens principais ou protagonistas, personagens secundárias, figurantes ou coadjuvantes, personagens antagonistas. A categoria protagonista é estabelecida quando a personagem é o herói da história ou quando a história gira em torno dela; a categoria secundária tem o papel de ajudar o herói, geralmente essa personagem é um amigo ou parente, não exerce função importante durante a trama; a personagem antagonista tem função contrária da secundária, ela atrapalha o protagonista alcançar seu objetivo, sendo classificada de o vilão da obra.

A observação da vida real dá ao artista a possibilidade de criar fantásticas obras e marcantes personagens. A iniciativa de escrever um texto, para alguns escritores, é suficiente, quando percebem os gestos, as falas, os olhares das pessoas comuns. AÍ, sim, é dado o ponta pé inicial para a imaginação.

Vestiu a cadeira com a sua própria camisa e sentou-se, derramando a barriga em dobra sobre as pernas. A papada em pança escondia o queixo, indo até a ponta da orelha. Começava a faina do jantar. Arrastava o terço de cada travessa ao prato [...] Não usava garfo. Habilmente enchia toda a faca, metendo-a na boca, e, como o padeiro joga lá dentro do forno a sua paeta cheia de pães e puxa, deixando-os lá no fundo, assim o deputado retirava a lâmina, desocupando-a, para, novamente, enchê-la no prato. (Machombongo, p, 15)

O narrador apresenta um perfil do protagonista. O coronel Rogaciano é descrito como um fazendeiro que se comportava de forma indevida. Quando a refeição noturna estava para ser servida, não tinha modos para se assentar à mesa. Comia a maioria das coisas e seu corpo obedecia à lei da gordura. Seus filhos e esposas estavam acostumados aos seus modos, as empregadas sabiam que o coronel apreciava uma mesa farta.

Rogaciano mantinha alguns hábitos que não eram apreciados. A vida do ócio, do prazer carnal, das comilanças, das crueldades. O povo do interior estava acostumado a presenciar a vida fácil do coronel, nada mais era surpresa. Tudo que ele queria, conseguia com facilidade ou não.

Que bicho mais danado: matar um cigano para tomar a mulher, manter três fêmeas dentro da mesma sala. Diziam que moça ele comia com farinha, toda semana. (Idem, p, 35).

Desde o início do romance, podemos conhecer a força do protagonista. A mulher que caísse no seu gosto seria “conquistada” a qualquer preço, não temia o pai, o marido, a ninguém. A lei estava ao seu favor, até porque ele era a lei. Várias mulheres eram obrigadas a conviver sob o mesmo teto: D. Anália (a gorda), Gertrudes (a loura), Matilde (a cigana).

Para representar o político corrupto, Euclides Neto cria o Rogaciano, um homem cheio de esperteza e que não deixava escapar uma oportunidade sequer. Sabia que o Dr. Quirino e sua família tinham prestígio no Rio Novo, e isto facilitaria a conquista de novos eleitores.

A última vez que o deputado apareceu foi perguntando se queriam ser padrinhos do menino. (Idem, p, 34).

O outro deputado de Rio novo, até o mais votado, o Dr. Cardoso, cidadão de cultura [...] via com ciúmes aquela aproximação. Mas nada podia fazer. Rogaciano, para aliciar um cabo eleitoral, não media recursos [...] também agora ele arrancava votos em todos os seus apriscos. Se, agora, se juntasse ao Dr. Quirino, nem mesmo Dr. Cardoso, com a sua moral, seria capaz de vencê-lo, afastando o perigo do prestígio do homem. (Idem, p, 35)

Neste momento podemos observar como os personagens tipos (que caracterizam duas classes a médica e a política) são envolvidos pelo coronel. Homem esperto e oportunista procurou logo ter laços inseparáveis com a família do Dr. Quirino convidondo-os para batizar um dos seus filhos. As pessoas do interior têm o hábito de observar quais famílias vão apoiar os candidatos, para assim, decidirem se vão votar ou não.

A caricatura do personagem Rogaciano chama-nos a atenção. O exagerado coronel justifica suas ações por conta de proteger suas terras e “tratar bem seus empregados”, afirmando pagar tudo certinho. Seus trabalhadores não podiam reclamar da falta de material para “labutar” com a terra. Por conta disto, não admitia nenhum trabalhador fazer alguma reclamação na Justiça do Trabalho.


Certamente, ali na Ronco D’Água, ninguém passaria por gato mestre. Jamais tivera caso na Justiça do Trabalho, em Rio Novo. Já pensava mesmo em tomar medida enérgica junto aos poderes competentes, para acabar com aquela tal justiça.[...]
Um juiz comunista daquele! Pretendia que os fazendeiros pagassem férias para a cambada ganhar, sem vender um dia de trabalho [...] Onde já se viu dono de fazenda tomar esporro? Pois aquele juizinho de merda, bigodinho de cantor de rádio, gravatinha de dândi [...] queria aplicar leis, Leis, leis... leis uma bosta, o deputado batera a mão na mesa do Dr. Esequiel, com o escritório apinhado de clientes. Uma merda! Vão tudo à puta que pariu. (Idem, p, 45)
O coronel se gabava de não ter nenhum caso na justiça do trabalho, também o empregado que o denunciasse teria que contar os dias com vida. O juiz que tentasse mover alguma causa contra o deputado sabia também que seus dias estavam contados na cidade do Rio Novo, seria transferido o mais rápido possível. Para defendê-lo o Dr. Ezequiel estava pronto a qualquer momento, Rogaciano sabia como intimidar as pessoas, por isso, aonde chegava mostrava o seu poder.
Rogaciano é um personagem plana, não apresenta evolução psicologia dentro da trama. Seu jeito de ser, sua ambição sempre falava mais alto. O fazendeiro é um autentico ditador e representa toda uma classe de latifundiários, por isto pode ser classificado também como personagem tipo. Estava sempre habituado a controlar a região e seus empregados. Com o poder do dinheiro, foi eleito deputado. Ele protagoniza a real força do dinheiro, seus subordinados temiam causar-lhe qualquer aborrecimento, pois o homem virava uma “onça” indomada.

- Sim, Zé da Noite, que você quer?

O estufeiro coçou a bolso de trás da calça puída. Sungou a carteira azul e em tom de súplica:

- Pedia que vosmecê assinasse minha carteira, se puder... Se não... É a mesma coisa.



A explosão do ódio do deputado não dava tempo de alguém correr. Não deu naquele dia. Primeiro ficou vermelho de fogo.

Depois empalideceu na tapioca. Por fim... já o bofetada derrubava Zé da Noite do último degrau na quina do passeio da frente de casa [...]

O fazendeiro arrastava a montanha de gordura escada abaixo, já fora de se, estrebuchando, jofrando sangue, cabeça desgovernada. (Idem, p. 108 – 109) (grifo nosso).
Na citação podemos observar a crueldade do deputado Rogaciano, que assassinou o estufeiro Zé da Noite, porque este lhe pediu para assinar a carteira de trabalho. Qualquer empregado que tivesse a ousadia e a petulância de contrariar as normas da fazenda seria punido severamente. O coronel não tinha medo de nada e ninguém, sabia que justiça não seria feita contra ele.
O protagonista sempre foi um homem esperto e vingativo. Quando encafifava com algum trabalhador, logo o colocava à prova. Procurava um serviço bem pesado para saber se o “cabra” era marcho o suficiente para aguentar. Caso não desse conta da atividade, saberia que era um comunista disfarçado que tentava aliciar seus empregados.
- Esta quem vai montar é Zacarias, gritou o deputado. [...] Quando Deoclécia ouviu o nome de Zacarias, encheu-se de temor. Nunca ele dissera que amansava burro. [...]
Para que melhor o fizesse, ficou de frente, abriu as pernas e puxou a cabeça do animal para baixo num safanão. Moça Branca, aos trancos, forçava levantar o pescoço. Em vão: já o da orelha cravava-lhe os dentes rudes. Um terceiro passou a corda no beiço, torceu, a mula gemendo, dominada [...]
- Esse de comunista não tem nada, é sertanejo dos brabos... Se não pertenceu ao grupo de Lampião é que não era nascido ainda, cochichou Dr. Quirino. (Idem, 69-70)

O personagem Zacarias vai ser alvo de desconfiança do protagonista coronel Rogaciano em quase todo o romance. Zacarias era colocado à prova para amansar burro bravo, capar animais, lavrar a terra. Assim, o coronel poderia descobrir que o homem não era de nada, aplicaria um castigo para nunca mais esquecer. O trabalhador rural conseguiu passar na prova, até o Dr. Quirino o elogiou.


A construção do personagem envolve vários atributos da vida real ou imaginária. O autor vai utilizando a linguagem para montar esse ser tão marcante como é o caso do nosso cruel deputado. Este, apesar de gozar de muito poder e prestígio, sempre temia a existência de comunistas nas suas terras. Nada fugia aos seus olhos, tinha como aliado os personagens secundários Cacheado e o Dr. Ezequiel, o primeiro vivia vigiando os empregados nas roças e dentro da casa; o segundo sempre estava pronto para defender na justiça a “pele” do coronel.
– Olha, Cacheado... vê aquela mulherzinha enxerida que fica no pego da mata... Aquela cabuleté me cheira a coisa ruim.

– Ela faz é vida, deputado.

– Mas olha ela.

– Vai numa reza dela.

– sim, senhor (Idem, p, 87)
Tudo não se comparava ao negócio da Sorte Linda. E no rolo! Na troca do avião estropiado e mais pagamento das arrobas de cacau vendidas na baixa, inchadas no reajustamento do legatário não poder pagar no prazo do contrato. Tinha nada a ver com as maluqueices dele e do advogado dele! O próprio Dr. Ezequiel fez a composição da dívida para o deputado e, ainda remontou honorários de vinte por cento em riba e mais despesas de viagem, ninguém sabe para onde. Que se lascassem. (Idem, p, 63)
O empregado Cacheado recebia ordens para vigiar as pessoas que trabalhavam na fazenda. Tudo que se passava nas terras do deputado era de obrigação do capataz saber e comunicar ao coronel.
Dr. Ezequiel sabia de todos os trambiques do coronel. E estava comprometido em ajudar o amigo a esconder seus erros. Sempre tirando um pouco mais de dinheiro, até porque o coronel não desconfiaria.

O personagem Rogaciano sempre foi ambicioso e nada o intimidava. Em oposição, temos o personagem Dr. Quirino. A esposa deste, Julita, por sua vez, opõe-se ao marido. O médico é um personagem redondo, pois trava uma luta interior, com sua consciência, ao obedecer aos mandos e desmandos de Rogaciano; sua companheira, plana, porque desejava uma vida luxuosa, não importando a que preço. Este conflito vai marcar a vida do casal.

Dr. Quirino temia intimidade com Rogaciano. Sentia o intuito de ele envolvê-lo. Temia-o. Sabia que, amarrado em suas peias, ficaria sem condições de agir livremente. Assim aconteceu com Dr. Campos da Aiquara, Dr. Temístocles de Jequié e mais meia dúzia de médicos que, a troco de cargos e votos, viviam laçados na política dele. (Idem, p. 30)

Dr. Quirino não almejava uma vida luxuosa, sempre buscou sobreviver com o salário digno que seus pacientes pagavam. Os médicos que se aliavam ao coronel Rogaciano recebiam auxilio financeiro e tinham nas mãos os benefícios de ser amigo do homem que ditava as leis na cidade do Rio Novo. Dr. Quirino, inicialmente, resiste aos mandos e desmandos de Rogaciano, porém, ao final se submete também aos caprichos do deputado corrupto e da sua esposa vaidosa, pelo que vai se arrepender mais tarde.

O tema central do romance gera em torno da política. O clima de tortura vaga pelo romance, na fazenda Ronco D’Água. As histórias de horror são inúmeras, o deputado não tem escrúpulo: as mulheres são objetos de prazer, os peões como se fossem máquinas de trabalho. Outro momento marcante é quando Cacheado pega a menina Mundica, uma personagem figurante roubando um pedaço de toucinho na cozinha e conta para o deputado:
- Traz essa burra para o escritório, Cacheado.

Obedecida a ordem, a menina amedrontou-se no conto.

- Traz boa praça!

Cacheado mal acreditou

- Traz o cachorro! [...]
Ao ver Mundica cheirou-lhe as pernas, enfeitou-se e já soltava a espiga, cor de goiaba. Ela quis gritar, imaginou ser agredida pela fera, mas, na realidade, o animal não mordia, não agredia, tentava somente derrubá-la para cobri-la. [...]
- Vamos ver, Cacheado, se dizendo a palavra comunista ele pega mesmo. Segura bem a corrente. É só para experimentar.

Já Boa Praça sacudia o seio, que mal inchava dentro da blusa de Mundica.

(Idem, p.193).

Mundica foi castigada com um cachorro que estava sendo preparado para estuprar mulheres comunistas. A expressão “tentava somente derrubá-la para cobri-la” refere-se ao ato animalizado que o cachorro tem para cruzar com uma cadela. O deputado não se arrependia de nada. A menina foi um alvo fácil. O coronel estava querendo testar o animal e não surgira uma oportunidade até então.


A estrutura da narrativa sempre chamou a atenção dos estudiosos das letras (literalmente e literariamente). Sendo assim, as pesquisas foram evoluindo, e a cada característica acrescentada ao texto, enriqueciam-se os estudos e a compreensão das narrativas. A categoria personagem aqui analisada trouxe uma grande significação para a obra Machombongo.

CAPÍTULO III – O ROMANCE POLÍTICO EM MACHOMBONGO, DE EUCLIDES NETO: A CATEGORIA NARRATIVA ESPAÇO-TEMPO


Espaço e tempo são categorias narrativas que frequentemente estão juntas, inseparáveis, como é o caso aqui de Machombongo. O espaço vai situar aos leitores em um dado lugar onde se passa a ação. O tempo não é menos importante, pois estabelece conexões com o espaço para o receptor compreender a “época” da fábula.

O espaço constitui uma das mais importantes categorias da narrativa, não só pelas articulações funcionais que estabelece com as categorias restantes, mas também pelas incidências semânticas que o caracteriza. (REIS & LOPES 1988, p. 204)

O tempo da história constitui um domínio de análise em princípio menos problemático do que o tempo do discurso. Ele refere-se, em primeira instância, ao tempo matemático propriamente dito, sucessão cronológica de eventos suscetíveis de serem datados com maior ou menor rigor. (idem, p. 220)

Estes dois professores portugueses esclarecem que o espaço serve para marcar onde está acontecendo a história, o lugar (geográfico, histórico, social, político, psicológico, mítico etc) e, se bem lido, pode dar índices significativos para o leitor captar corretamente a mensagem do texto.


Já a categoria tempo pode ser classificada em cronológico ou matemático, histórico, psicológico, tempo do discurso, sincrônico, anacrônico etc. Vamos nos atentar no tempo matemático que é assinalado pelo tempo do relógio, as personagens estão representando um acontecimento “cronológico”. Os dias, as semanas, os meses, os anos; os fenômenos naturais podem ser relatados também, o tempo chuvoso, o tempo quente, o tempo frio, todas essas marcas são utilizadas para conectar as informações da narração.
Machombongo também pode ser classificado como romance de espaço, cuja ação prioriza uma cidade interiorana da Bahia, Ipiaú. Este tipo de romance “se caracteriza pela primazia que concede à pintura do meio histórico e dos ambientes sociais nos quais decorre a intriga” (SILVA 1991, p, 685). O que é da terra traz o espaço telúrico (mostra a vida rural), sendo assim, o homem que estiver ligado à terra será representado no seu ambiente natural.

O aguaceiro estourou tudo, quebrando pontes, cortando a estrada. Por mais que esperassem, elas não apareciam. Havia pessoas ilustres de Salvador, deputado e até o futuro governador lá estava à procura de diversão que não lhe comprometesse a honorabilidade impecável.

Veio a noite e o aguaceiro não deixou Agripina voltar para casa, ali um pouco abaixo do curral. Ficaram somente os homens, um cozinheiro de virilidade oblíqua. (Euclides Neto, Machombongo, p. 08)

O espaço telúrico é bem representado quando a cena aborda o prejuízo causado pela chuva forte: pontes quebradas, rios transbordando, estradas ruins. A festa preparada pelo coronel Rogaciano para receber seus amigos políticos tem o fim antecipado, as mulheres-damas que foram contratadas não chegavam, e os trabalhadores não conseguiam voltar para suas casas.


As categorias espaço e tempo, para D’Onofrio (2006), são consideradas como elementos de enfoque particular de uma narrativa, Sendo divididas em topoanálise (o espaço) e cronoanálise (o tempo), considerados facilitadoras da ficção, dando-nos a impressão de naturalidade na obra, como se o espaço e o tempo fossem reais.
Em Machombongo, o limite do espaço e tempo tem uma relação ficcional muito próxima do real. Euclides Neto elaborou uma obra que relata aspectos regionais e lugares reais, como Rio Novo (atual Ipiaú), Jitaúna, Jequié, Aiquara, entre outros municípios da região cacaueira. Com esses aspectos, os leitores podem criar uma “insegurança” sobre até que ponto existiu ou não o deputado Rogaciano e a Serra do Machombongo.
D’Onofrio divide a espacialidade em dimensional e não-dimensional. Na dimensional, o espaço pode caracterizar-se com horizontal-real – que é o espaço natural do homem, o mundo concreto casa, cidade, rua, fazenda, luta, sofrimento, desejo; ou pode ser vertical – é o lugar sobrenatural, divino, o encontro dos deuses, dos demônios.
No espaço horizontal (humano), podemos destacar o espaço tópico – o lugar seguro, conhecido; o atópico – o lugar hostil, desconhecido, (o lugar de sofrimento e luta); e o utópico – o lugar de desejo, o querer estar bem, significa o prazer da personagem.
A temporalidade é um artifício muito importante na obra literária, fazendo relação entre passado – presente – futuro e os mecanismos aspectuais incoativo – durativo – terminativo. Todo texto literário pressupõe um começo, um meio e um fim; os valores temporais implicam o tempo do narrador, o tempo do relator e o tempo do leitor. Sendo assim, a trama existente em Machombongo referenda a época da ditadura militar.
O tempo pode ser compreendido a partir do eu que fala e o tempo do tu que ouve. O tempo do leitor é diferente do tempo do autor, mas não interfere no significado da obra. O tempo pode ser dividido em linear - é característico da ordem cronológica dos fatos; já o invertido - é a antecipação dos fatos, não existe uma lógica cronológica dos acontecimentos.
Vitor Manuel (1991) esclarece que, no tempo da diegese, a história é narrada num tempo cronológico, caracterizado por indicadores temporais, anos, meses, dias, estações do ano. Esse tempo também está presente em Machombongo. Sendo assim, a diegese comporta outro tempo, um tempo mais flexivo e não-linear, o tempo subjetivo ou psicológico, onde não existem padrões fixos, é o tempo ditado pela memória do personagem; o presente - passado – futuro não existem, o contar representa tudo, traz as lembranças do sujeito.
João Batista (2006, p. 99) afirma que “A apreensão estética da realidade na arte pressupõe que, por meio das partes privilegiadas no texto, se possa vislumbrar o todo”. Por isso, nas obras literárias temos um homem representando uma classe social, em um dado contexto, em uma dada época, com um conflito acentuado, despertando a verossimilhança. O personagem Rogaciano representa muito bem a classe dos latifundiários. Estas marcas servem para o leitor e o pesquisador observarem as relações sociais e como estas estão sacramentadas nos textos ficcionais.
O coronel Rogaciano goza de todo benefício que o dinheiro pode oferecer: casa grande e boa, vários trabalhadores, cozinheira, lavadeira, motorista, tudo para aproveitar a vida. Em contra- partida, os trabalhadores nem casa têm para morar, tinham que se arranjar em qualquer lugar na fazenda. Esta cena vem afirmar a questão espacial que é caracterizada pelo poder sócio-econômica presente no romance em análise.
Zacarias e Deoclécia levaram a surraca e a trouxa ao porão da cozinha. Encontraram um cômodo, sem janela, metade ocupado por lenha. Algumas galinhas também dormiam, ali, sobre as achas. A cozinheira ciscou a vida dos chegantes, ofereceu vassoura, recomendou cuidado com as pixilingas. (Idem, p.50).

Os fazendeiros estavam acostumados a oferecer o quase nada para os seus empregados, quando chegavam a oferecer alguma coisa. Ao contrário, estes deveriam se arrumar em qualquer lugar na fazenda. Isto era o que menos importava para aqueles, desde que não usufruíssem dos seus bens.


A espacialidade horizontal-real caracteriza a região do sul da Bahia, retratando lugares simples, com pessoas poderosas que sempre buscavam mais dinheiro e explorando seus empregados. A política também faz parte deste contexto social, a corrupção e as trocas de favores entre os políticos e fazendeiros.
– Vocês são os culpados! Vocês, ouviram? Advogados de merda, que deixam esses comunistas tomarem conta do município. Estamos cheios deles. Esse não me escapa. Esse eu pego. Pego e sei o que faço. Não quero defesa, não quero nada. Vou pagar o que ele pedir. Nem advogado preciso. Uns bananas, uns merdas, uns bostas. Tudo para os infernos. Tudo é comunista! Ouviu? Comunistas... Você, também. (Idem, p. 78)

Podemos destacar e observar o espaço da cidade do interior com as lutas de classes entre os trabalhadores rurais e os latifundiários. E o tempo que caracteriza o conflito político existente no Brasil na época de 64. O golpe militar transformou nosso país, os estudantes estavam sendo acusados de implantar o comunismo, por isso, viraram alvos dos policiais. Caracterizando este conflito, o deputado Rogaciano achava que a cidade do Rio Novo já estava cheia de comunistas.


“É natural que eventualmente se estabeleça uma verdadeira integração do espaço no tempo” (REIS & LOPES 1988, p. 222). No romance analisado, o espaço é a base para a marca temporal fundir o artístico com os acontecimentos nacionais. Euclides Neto escreveu Machombongo em 1986, ano em que os conflitos políticos já estavam atenados, a ditadura já tinha acabado, o Partido Comunista já estava com seu espaço garantido e as pessoas olhavam o mundo com outros olhos. A repressão política não mais censurava as pessoas.
O que nos atrai em Machombongo é todo este clima político. A ficção euclidiana retrata muito bem os conflitos que existiram na região cacaueira baiana. De acordo com alguns informantes, Euclides Neto buscava inspiração na própria redondeza de Ipiaú, como político, advogado e fazendeiro. Presenciou e conheceu vários casos e pessoas que pareciam, muitas das vezes, se tratarem de personagens e histórias de obras de ficção, quando na verdade tudo não passava da mais dura realidade. Realidade esta que mais tarde lhe serve de inspiração em suas obras, o que o leva a escrever textos, obras e romances totalmente engajados e comprometidos com o povo.
O panorama geográfico da Bahia é utilizado por Euclides Neto “– Já foi ao Ministério do Trabalho em Ilhéus, ao Delegado de Jequié.” (Idem, p. 125). As cidades circunvizinhas de Ipiaú são citadas a todo o momento na obra para efetivar o contexto regional. Com isto, ele coloca em cena a região do cacau e os conflitos sociais, econômicos e políticos.
O mundo do personagem Rogaciano serve como ponte para expressar a espacialidade e a temporalidade. Sem ele,

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