Maquiavel e a Liderança Moderna



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Michael A. Ledeen


Maquiavel e a Liderança Moderna
por que as ”regras de ferro” de Maquiavel

são tão oportunas e importantes hoje

quanto ha cinco séculos
Traduçao MERLE SCOSS
EDITORA CULTRIX São Paulo

Titulo original: Machiavelli on Modern Leadership.


Copyright © 1999 Michael A. Ledeen <
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio, eletronico ou mecanico, inclusive fotocopias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados, sem permissão por escrito, exceto nos casos de trechos curtos citados em resenhas criticas ou artigos de revistas.
**
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Edição
Ano
1-2-3-4-5-6-7-8-9-10-11
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Direitos de tradução para o Brasil
adquiridos com exclusividade pela
EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA.
Rua Dr. Mario Vicente, 368 - 04270-000 - São Paulo, SP
Fone: 272-1399 - Fax: 272-4770
E-mail: pensamento@cultrix.com.br
http://www.pensamento-cultrix.com.br
que se reserva a propriedade literaria desta tradução.
Impresso em nossas oficinas grdficas.


SuMARIO


INTRODUÇÃO: FOR QUE OS Líderes DO MUNDO
PRECISAM DE MAQUIAVEL 7
CAPÍTULO 1: O CURSO DOS ACONTECIMENTOS HUMANOS
”Os assuntos humanos se encontram num estado de
movimento perpétuo, seja ascendendo ou declinando...” 21
CAPÍTULO 2: A SORTE
”E se alguem quiser se opor [ao propósito da deusa
Fortuna], ela o matara ou o privara de toda faculdade
de fazer o bem.” 49
CAPÍTULO 3: A GUERRA DA POLiTicA , ,
”E fácil persuadi-los de alguma coisa; dificil e mante-los
nessa persuasão.” 73
CAPÍTULO 4: Do BEM E DO MAL
HAMLET: Alguma novidade? 97

ROSENCRANTZ: Nenhuma, meu senhor, exceto que o mundo


tornou-se honesto.
HAMLET: Então o fim do mundo esta próximo
próximo.
CAPÍTULO 5: COMO GOVERNAR
”Sabes que o principal dever de todo Príncipe e evitar ser odiado e desprezado. (...) Sempre que ele o consegue, tudo vai bem.”
CAPfruLO 6: LIBERDADE
”Pois e tão dificil tornar livre um povo que esta decidido a viver em servidao quanto sujeitar a servidao um povo que esta determinado a ser livre.”
117
143
CONCLUSÃO..;...... 179
AGRADECIMENTOS 183

INTRODUÇÃO


POR QUE OS LÍDERES DO MUNDO PRECISAM DE MAQUIAVEL
Os soldados da Força Delta, grupo de elite dos Estados Unidos, provavelmente estão mais perto de ser super-homens do que quaisquer outras pessoas que possamos conhecer. Somente os individuos mais aptos e fortes são convidados a concorrer as poucas centenas de vagas e passam por intensos testes físicos e psicológicos que selecionam os melhores dentre os melhores. Dia após dia, eles percorrem grandes distâncias carregando pesadas mochilas, cada homem sozinho, tendo apenas um mapa e uma bussola para achar o caminho. Eles precisam atravéssar bosques densos e cruzar rios e riachos; embora haja estradas e trilhas, estas raramente são o caminho mais curto, e os homens precisam cobrir a distância num período de tempo limitado. Ninguem Lhes diz em quanto tempo eles precisam chegar ao destino e, desse modo, a tensão e maximizada. As rações de comida são distribuidas desigualmente: uma quantidade abundante hoje, um magro suprimento amanhã. Os homens que não conservarem uma sobra do dia de fartura serão incapazes de mostrar desempenho satisfatório no dia de escassez, que pode durar algo como dezoito horas. Exige-se deles que estejam prontos para partir num dado momento da madrugada, mas não ha alarme para desperta-los. Quem não estiver de pé, está fora. Eles vivem sob vigilância constante, mas raramente vêem os ob-

servadores e nunca recebem a menor indicação sobre a qualidade de seus esforços. O teste físico é extremo; mas é a tensão mental, somada ao isolamento dos companheiros, que acaba quebrando todos eles, exceto a nata. Dia após dia, diminui o numero de sobreviventes. E raro que mais de 25% dos candidates sobrevivam ate a fase final.


No têrmino do processo de seleção - mais de duas semanas e meia - a gordura corporal desses homens reduziu-se a quase zero e eles foram levados ao limite da resistencia psicologica. Eles recebem então a ordem de fazer uma marcha final de mais de sessenta quilometros, carregando uma mochila que pesa mais de vinte quilos. Embora eles não saibam, como sempre, o limite de tempo para completar a marcha é inferior a 24 horas. As vezes, durante essa marcha, eles começam a consumir tecido muscular porque não tern mais gordura para ser metabolizada.
Fisicamente esgotados e privados de sono por dois dias inteiros, os poucos sobreviventes tem permissão para tomar um banho de chuveiro e o punhado de candidatos a oficial recebe um livro - um livro pequeno - para ler, juntamente com um exame escrito. Eles devem relacionar as ideias apresentadas nesse livro com suas experiências durante o processo de seleção e com as missões que poderão comandar se forem escolhidos como oficiais da Força Delta. Eles tern dezoito horas para convencer a banca julgadora de que compreenderam as sábias ideias expostas no livro e de que são capazes de aplica-las, mesmo quando física e psicologicamente exaustos, as tarefas árduas e desagradaveis que virão a realizar.
O livro que eles tiveram de ler é O Príncipe, escrito no início do SÉCULO XVI por Niccolo Machiavelli (Nicolau Maquiavel).

POR QUE MAQUIAVEL?


Ninguem discutiu as exigências politicas e morals da liderança com a mesma clareza brutal de Maquiavel. As ideias de Maquiavel sobre o uso adequado do poder sempre fascinaram os grandes pensadores. Minha edição italiana de O Príncipe tem uma longa introdução de Hegel, um grande fã de Maquiavel; desde a publicação do livro, práticamente todos os grandes filósofos políticos sentiram necessidade de escrever algo sobre Maquiavel. Essa atenção obsessiva indica um debate apaixonado sobre o significado e a posição de Maquiavel. Ha quarenta anos, sir Isaiah Berlin contou vinte interpretações diferentes, variando desde ”Maquiavel, o anticristo” ate ”Maquiavel, o humanista torturado”. Isso certamente surpreendera a maioria daqueles que leram O Príncipe na escola, ja que poucos dos grandes livros foram escritos com tanta clareza e ausencia de ambiguidade; mas o debate continua. E o debate também surpreenderia o próprio Maquiavel, porque a maior parte de sua obra destinava-se aos homens e mulheres de ação e, sobretudo, aos líderes: líderes de religioes, líderes de exércitos e líderes de Estados, monarquicos ou republicanos, ditatoriais ou democráticos. Maquiavel passou a maior parte do tempo em combate, seja no campo de batalha, na corte ou na camara legislativa. Ele não esperava nem queria ser levado para as bibliotecas dos eruditos. Preferia, e muito, a companhia de comandantes militares, capitães da indústria e estadistas; e todos esses retribuiam a sua estima. Durante a campanha italiana da Segunda Guerra Mundial, os comandantes dos dois exércitos - o general norte-americano Mark Clark e o marechal-de-campo Albert Kesselring, da Alemanha nazista - proibiram suas tropas de se apróximar da antiga propriedade toscana de Maquiavel em Sant’Andrea, na Percussina. Nenhum dos dois queria ser responsavel por quaisquer danos ao local historico.
10 - Maquiavel e a Liderança Moderna
Maquiavel teve muitas oportunidades de trabalhar com esses líderes ao longo de sua carreira. Seu pai foi um advogado de relativo sucesso, que preferia cuidar das terras e das colheitas. A confortavel villa rural da familia Maquiavel - com a escrivaninha e a pena de Nicolau, onde ele as usou - ainda esta de pé na minuscula aldeia de Sant’Andrea, na Percussina, aninhada nas colinas da estrada Florença-Siena, e o maravilhoso vinho Chianti ainda e produzido nos vinhedos dos Maquiavel e de seus vizinhos. Mas Nicolau também era um rapaz de cidade, um avido participante da grande explosão artistica, musical, filosofica e cientifica que foi a Renascença florentina. Sua capacidade intelectual e sua energia aparentemente inesgotavel - teve sete filhos, o ultimo dos quais nascido apenas dois anos antes de sua morte, aos 57 anos de idade - foram reconhecidas pelos líderes da República Florentina e ele, nos ultimos anos do SÉCULO XV, foi nomeado Secretario da República. Tratava-se de um emprego excelente, uma mistura de chefe de gabinete da Casa Branca de hoje e embaixador plenipotenciario, com responsabilidades militares adicionais oferecidas como bonus. Ate a queda da República, em 1512, Maquiavel não so participou de discussoes politicas de alto nivel como também viajou por toda a Europa, levando mensagens para papas e reis, negociando tratados e outros acordos, organizando e treinando a milicia e comandando-a em batalha. Ele era um verdadeiro ”viciado no trabalho” e floresceu sob esse regime de ritmo veloz. Mas não sacrificou o coração e a alma ao trabalho; encontrou tempo para a diversão e para o amor e, desde os primeiros dias no cargo, escreveu prolificamente.
Qualquer pessoa na posição de Maquiavel precisaria escrever muito: seus superiores esperavam relatorios completes das viagens, sugestoes para a legislação, relates sobre acontecimentos de possivel importância para a República e coisas do genero. Mas Maquiavel foi muito alem dessas exigências burocraticas; ele buscava

Por que os líderes do mundo precisam de Maquiavel - 11
constantemente os princípios mais gerais baseados em suas experiências. Muitas das famosas regras para líderes, em seus livros O Príncipe e Discursos, foram desenvolvidas em centenas de cartas a amigos e colegas. Uma edição recente da correspondencia de Maquiavel tem 429 paginas impressas com tipo bastante miudo, e contem apenas parte de suas cartas; no correr dos SÉCULOs, muitas cartas se perderam.
Grande parte das criaçoes literarias de Maquiavel foi composta depois de exercer as funções de Secretario da República Florentina, embora ele, de algum modo, tenha encontrado tempo, ainda no cargo, para escrever varios ensaios e uma cronica poetica sobre os principaís acontecimentos da época. Desde o início, a qualidade de seus escritos foi altissima; suficientemente boa, na verdade, para ser plagiada (depois de ganhar um processo legal contra o ladrao literario, A Primeira Década foi publicada sob o próprio nome de Maquiavel). Suas principaís obras, incluindo dramas de sucesso, narrativas e livros sobre politica e guerra, seguiram-se a queda da República e a tomada do poder pela familia Medici no outono de 1512. Maquiavel foi demitido, banido da atividade politica e condenado a um ano de exilio dentro dos limites da cidade de Florença. Poucas semanas mais tarde, foi acusado de conspirar para a queda do governo Medici. Foi atirado na prisão, torturado durante um mes e, enfim, declarado inocente. Banido de participaçao direta na politica, ele seguiu o conhecido proverbio: ”Quem puder fazer, que faça; quem não puder, que ensine.” Ja que estava proibido de entrar no jogo, ele se tornaria o ”técnico”; como a invençao da imprensa tornava os livros cada vez mais comuns, ele chegaria ate muitos jogadores por meio de seus livros e alcançaria um numero ainda maior de pessoas por meio de suas peças.
Maquiavel se lança na nova carreira com a mesma paixao e energia que o alcançaram aos mais altos niveis do governo de Florença.

DESCULPA AI GENTE, FOI MAL, É A PRÓXIMA PÁGINA!

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Quando cai a tarde, volto a casa e entro no meu estudio; na soleira da porta, tiro minhas roupas de trabalho cotidiano (...) e visto os trajes da corte e do palacio. Adequadamente vestido, penetro nas veneraveis cortes dos Antigos, onde, solicitamente recebido por eles, nutro-me com aquele alimento que, só ele, é meu e pelo qual nasci; onde, sem sentir vergonha, converse com eles e os questiono sobre o motivo de suas ações, e eles, em sua gentileza humana, me dao resposta. E eu, durante quatro horas, não sinto tedio, esquego todos os meus problemas, não temo a pobreza e não me deixo aterrorizar pela morte. (...) Anotei tudo o que aprendi conversando com eles e compus um pequeno estudio.*
Essas famosas linhas de uma carta a um amigo intimo anunciam o aparecimento de O Príncipe. Como ele diz ao amigo, os exemplos de Maquiavel são tirados do passado, sobretudo da antigiiidade classica, o que era muito aprópriado as plateias da Renascença. Ja que o nosso sistema educacional não nos oferece mais os conhecimentos necessaries para apreciar ou avaliar os exemplos de Maquiavel, neste livro eu substitui muitos deles por exemplos modernos. E como as regras da liderança são as mesmas em todas as esferas da vida, inclui empresarios e esportistas ao lado de líderes militares, políticos e religiosos. Em vez dos Borgias e Sforzas, dos Cesares e Medicis, aqui você encontrara Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, Bill Gates e Warren Buffett, Leo Durocher e Vince Lombardi.
Maquiavel apreciaria essa atualização, mas ele certamente insistiria que uma pessoa, para compreender a dinamica do poder e
*. James Atkinson e David Sices, orgs., Machiavdli and His Friends: Their Personal Correspondence (De Kalb, in, 1996), p. 264.

Por que os líderes do mundo precisam de Maquiavel - 13

os métodos da liderança bem-sucedida, precisa estudar a Historia. Não basta ler jornais, ou assistir televisão, para uma pessoa compreender por si mesma o mundo de hoje. A natureza humana não muda, sobretudo no topo, onde as questoes do sucesso e da sobrevivência são supremas e pouco tempo sobra para sutilezas. O estudo serio do passado oferece a materia-prima para as decisoes sabias de hoje e do amanha. Estamos propensos a cometer os mesmos tipos de erros que nossos predecessores cometeram, e precisamos seguir o exemplo dos grandes atos dos heróis do passado.


Nossos líderes precisam tremendamente de um curso de reciclagem. Entre outras ”mancadas”, eles invariavelmente dao a resposta errada a uma das perguntas basicas de Maquiavel: E melhor ser mais amado do que temido, ou mais temido do que amado? Alguns líderes ocidentais, de John Major e Bill Clinton a Newt Gingrich, Silvio Berlusconi e Benjamin Netanyahu, procuraram desesperadamente o amor de amigos e inimigos e so conseguiram a ruina de seus empreendimentos nacionais e internacionais. Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Lee Kwan Yu, Bill Gates e o papa Joao Paulo II foram mais espertos e remodelaram o mundo.
Uma última pergunta precisa ser respondida antes de entrarmos na batalha: Como e possivel que, depois de quase quinhentos anos, as percepções intuitivas de Maquiavel ainda nos desafiem e nos inspirem tão poderosamente? Claro, ele e um genio, ”um genio italiano”, como enfatizou corretamente o filósofo Benedetto Croce, com aquela singular combinação de sagacidade, talento retorico e análise implacavel que caracteriza as mais elevadas conquistas dos pensadores italianos. Porem, ha algo mais. Na Florença renascentista, toda a sabedoria recebida era contestada por alguns dos maiores intelectos, aventureiros e artistas que o mundo ja conheceu. Novos mundos estavam sendo descobertos, novas obras-primas eram criadas e novas ideias se propunham a cada mes que passava. Tumultos e mudanças çãoticas eram coisas comuns.

14 - Maquiavel e a Lideran^a Moderna


I
Um ano depois de Maquiavel começar a trabalhar para a República Florentina (1498), Michelangelo terminava a Pieta. O Davi foi começado logo depois; completado em 1504, foi colocado diante do Palazzo della Signoria, onde se localizava o gabinete de Maquiavel. Em 1505, Americo Vespiicio lançava velas para a sua segunda viagem as Indias Ocidentais. As quatro viagens de Colombo tinham se realizado, com os judeus expulsos da Espanha no ano de sua primeira viagem - o mesmo ano (1492) em que morrera Lourenco, o Magnifico -, e os exploradores Portugueses exigiam a posse de areas do globo ate então somente imaginadas. Em 1510, quando Maquiavel era um bem-sucedido funcionario do governo florentino, Martinho Lutero foi a Roma registrar seu protesto contra a corrupção da Igreja catolica. Nenhuma pedra deixaria de ser virada, era o que parecia.

Antes da Renascença, o senhor de um dominio podia se proteger contra os inimigos externos construindo um castelo e uma muralha. Se fosse cercado, podia contra tar mercenaries ou procurar aliados para levantar o cerco; nesse meio-tempo, as muralhas protegeriam a ele e aos seus súditos. Mas na época em que Maquia-


vel galgou uma posição de grande poder no governo de Florença, os exércitos ja possuiam artilharia capaz de abrir buracos nas muralhas em questão de minutos; não havia como procurar aliados ou contratar mercenaries para defender o senhor e seus súditos enquanto o inimigo entrava pelas brechas da muralha. A partir dai, a sobrevivência depende da vontade dos súditos de lutar e morrer pelo seu senhor. Convencer o povo a fazer isso e uma tarefa politica. Exige métodos de liderança que eram desconhecidos ou, como diria Maquiavel, que foram esquecidos durante a Idade Media. E por isso que Maquiavel insiste na criação de exércitos nacionais, não mercenaries. Ele compreende que os soldados desses exércitos nacionais precisam ser motivados. Morrer pelo próprio país não e uma coisa que surge naturalmente; exige do soldado a crença no valor da sua causa e na nobreza dos seus líderes. A politica moderna nasceu dessa necessidade e nos, modernos, a ignoramos mesmo que nossa vida esteja em risco. Os inimigos estão sempre prontos para marchar, voar ou lançar-se ao mar.
Maquiavel rejeita a ideia simplista de que a guerra e um desvio drastico do comportamento normal. Tendo estudado Historia, Maquiavel sabe que a paz e mais rara do que a guerra. Talvez não saibamos quem será o nosso próximo inimigo, mas podemos ter certeza de que havera um inimigo; e os líderes que deixarem de se preparar para a próxima guerra - no campo de batalha, nas urnas ou no mercado - provavelmente serão derrotados. Maquiavel nos diz como projetar e implementar estratégias vencedoras.
Alem da mudança, Maquiavel compreende o papel da sorte. No auge do poder, embora não Lhe coubesse a mínima culpa, ele e demitido, preso, torturado e banido das atividades a que devotara quase todos os seus pensamentos e paixoes. Ma sorte! Ele lambe as feridas, volta seu genio para a escrita e passa a maior parte do tempo numa estalagem local, bebendo, praguejando e jogando gamão e um carteado toscano. Esses jogos envolvem tanto a sorte

/#».
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quanto a habilidade. Num momento qualquer, mesmo o melhor jogador do mundo pode ser derrotado por uma mare de azar, embora, com o tempo, e certo que o grande jogador ganhará e o novato (ou o incompetente) perderá. Suspeito que o amor de Maquiavel pelo baralho teve alguma importância no desenvolvimento da sua politica, pois quem joga cartas vive num mundo bem diferente daquele em que vive quem joga jogos de tabuleiro. O tabuleiro nada esconde e o jogador não precisa se comunicar com os outros. Nos carteados, a maioria das cartas fica escondida durante grande parte de cada rodada e a comunicação - seja por lances ou apostas - e parte íntegrante da partida. Onde ha comunicação, surge toda uma serie de problemas: se você revela tudo ao seu parceiro, seus inimigos obte°m a mesma informação e talvez ela seja mais valiosa para eles do que para o seu aliado. Você então opta por lograr os inimigos, mas com isso corre o risco de induzir o parceiro a errar antes deles e traz a ruina para o seu próprio lado.
Não t por acaso que esse amante do baralho aprecia a importância - e o risco - da comunicação, incluindo o sigilo e o logro. Maquiavel usa códigos em parte da sua correspondencia oficial, e foi um dos primeiros pensadores políticos a explorar a nova tecnologia da imprensa para divulgar suas ideias. Ele se sentiria bem em casa nos escaloes superiores das grandes corporações ocidentais, onde prlncipes modernos como Warren Buffett e Bill Gates passam muitas horas felizes jogando bridge, o jogo que mais bem combina todos esses elementos da comunicação com enormes desafios técnicos, embora conserve o elemento de sorte, que pode destruir o piano mais brilhante ou transformar um tolo no herói do dia.
Finalmente, assim como nós, Maquiavel fica entristecido, frustrado e as vezes ate enfurecido ao ver a liderança mediocre, mais corrupta do que corajosa, mais autocomplacente do que grande de espírito. Ele sabe, pelo estudo da Historia, que os homens e as mulheres geralmente são assim mesmo, mas também sabe o que

por que os líderes do mundo precisam de Maquiavel - 17


e a grandeza e como ela pode ser alcançada pelos melhores dentre nós. Ele não e otimista quanto ao curso dos assuntos humanos, mas não foge ao desafio de despertar, educar e talvez inspirar uma nova linhagem de líderes. As pessoas que se preocupam com o país, Maquiavel pede que arrisquem tudo, mesmo a alma imortal, para chegar’ao poder e tirar o povo do lodo moral no qual tombou.
O propósito de Maquiavel e a Liderança Moderna e o mesmo do próprio Maquiavel: apresentar os princípios básicos do uso aprópriado e bem-sucedido do poder em linguagem que os líderes comtemporâneos possam compreender, para melhor promover o bem comum. Assim como Maquiavel, vivemos um momento de mudanças profundas em todas as areas da atividade humana. Assim como ele, vemos a corrupção se alastrando profundamente pelas sociedades ocidentais no momento exato em que derrotamos muitos dos nossos mais perigosos inimigos. Parece que o sucesso carrega seus próprios riscos; ser ”o líder” [seja como individuo, grupo ou empresa] nos torna mais vulneraveis a autocomplacencia e menos atentos as exigências de virtude que estão por tras de todo empreendimento duradouro.
Maquiavel e visto comumente como o cínico absoluto, como um apologista dos ditadores. O adjetivo ”maquiavelico” tern sido aplicado a líderes crueis e prontos a fazer de tudo para conservar ou aumentar sua riqueza e seu poder. Talvez seja surpreendente, portanto, descobrir que Maquiavel prefere as instituições livres as arbitrarias, e reserva seu maior desdem aos tiranos. Maquiavel também tem muito a dizer sobre a importância da fé religiosa e da virtude. Ele acredita que, junto com bons soldados e boas leis, o melhor Estado - aquele que repousa sobre a livre atividade de seus cidadãos - requer boa religião. Ele considera Moisés como o maior de todos os líderes por ter criado uma nova religião e um novo Estado e por ter conversado com Deus. Maquiavel acredita que o temor a Deus forma o alicerce do respeito pelo ser humano. Na

/«•
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I
verdade, seu conceito de cristianismo esta em franco desacordo com a teologia e a prática predominantes em sua época. Maquiavel considera a Igreja catolica romana demasiado corrupta e negligente. Ele quer uma versão mais dura, mais viril da fe, capaz de inspirar os homens a lutarem pela glória de seu país; e ele quer uma Igreja mais espartana, devotada a glória do espirito e não a riqueza material da corte papal.
Sempre realista, ele sabe que os líderes as vezes terao de violar restrições religiosas para VENCER inimigos e concorrentes implacaveis ou para devolver a SAÚDE a uma empresa corrompida. Mas ele condena os líderes que fazem do oportunismo CÍNICO a marca registrada de suas carreiras. Ele quer que seus líderes sejam virtuosos e transmitam pADroes virtuosos aos seus seguidores.
Maquiavel usa a palavra ”virtude” de muitas maneiras diferentes, as vezes indicando ”poder” e, em certos momentos, referindo-se ao orGão masculino ereto. Em sua pec. a O Asno, ele escreve:
I Minha mão não se deteve num único lugar;
Mas, percorrendo partes do corpo dela, i. a virtude perdida firme retornou.
Mas ele também usa a palavra ”virtude” no sentido tradicional de valor, excelencia, merito, perfeição moral. Isso e bem diferente do uso corrente e, como observou certa vez o filósofo Leo Strauss, e misterioso que ”uma palavra usada para indicar a masculinidade do homem tenha chegado a indicar a castidade da muLher”. Mas esse e um problema diferente, do qual não nos ocuparemos aqui. Maquiavel e da velha escola e considera a virtude, no seu sentido tradicional, como um ingrediente essencial - na verdade, a mais elevada conquista possivel - da boa liderança. Esse e o significado de virtude nas paginas que vem a seguir. , .••
Por que os líderes do mundo precisam de Maquiavel - 19
Meditando sobre a falta de virtude dos líderes italianos, Maquiavel pouco encontra que Lhe cause surpresa. Afinal de contas, a corrupção e desíntegração das grandes empresas não e fato novo nem chocante. E a nossa historia e o nosso destino. Mesmo as mais gloriosas conquistas humanas, as criações dos líderes mais virtuosos, geralmente tiveram vida curta. Todas elas cai’ram, na maioria das vezes por causa de deterioração interna. A Israel de Moisés foi destruida, hem como o Imperio Persa de Giro. Teseu, o terceiro na trilogia maquiavelica dos líderes mais gloriosos, colocou Atenas no rumo da civilização, mas a Idade de Ouro da Atenas de PÉRICLES durou menos que um SÉCULO.
Maquiavel compreende a patologia dessa DOENÇA fatal do corpo político. Ele identificou e catalogou os MICRÓBIOS que infectam a mente e o espirito dos líderes, arrastando a todos nÓs para a ruina. Quem olhar para o mundo moderno através dos olhos de Maquiavel, vera - como ele viu em sua época - uma epidemia de corrupção, causando uma perigosa escassez de líderes virtuosos e uma AMEAÇA crescente a liberdade. Seu diagnostico nos ajuda a compreender melhor nossos problemas de hoje e as qualidades exigidas dos líderes capazes de restaurar a virtude e conservar livres as instituições. Embora Maquiavel não seja otimista quanto ao resultado final, ele oferece a cura.
Mas e uma terapia dolorosa.

CAPÍTULO UM


O CURSO DOS ACONTECIMENTOS HUMANOS
Os assuntos humanos se encontram num estado de movimento perpétuo, seja ascendendo ou declinando...
Se você vai liderar, tera de lutar. Quer esteja subindo a ladeira, batalhando para ganhar mais poder, ou ja tenha se instalado no topo, lutando para manter e expandir o seu poder, você esta envolvido numa batalha. E já que, como diz Maquiavel, ”os homens estão mais prontos para o mal do que para o bem”, os líderes e candidates a líder tern sede de sangue.
A sede de sangue deriva da ambição e a ambição humana e ilimitada, tanto a dos individuos quanto a das instituições que eles criam. A luta pelo poder começa com a tentativa de criar para si uma zona livre dos outros, e continua com a extensão do dominio sobre os outros. ”Primeiro, [os homens] procuram se garantir contra o ataque; depois, eles atacam os outros.”1 Primeiro vem a luta pela sobrevivência, ou para libertar-se da dominação, e depois vem a ”luta pela ambição, tão poderosa no coração humano que, por
1. Discursos sobre os primeiros dez livros de Tito Livio, I, 46. [O autor utilizou Discorsi sopra la Prima Deca di Tito Livio (Turim, 1983, Corrado Vivanti: editor) como fonte das citações de Nicolau Maquiavel.]

22 - Maquiavel e a Liderança Moderna


.•m
mais que este se eleve, ela nunca o abandona”.2 Vimos esse processo em muitas das novas democracias formadas depois da queda da Uniao Sovietica. Anticomunistas heróicos, como Lech Walesa, rapidamente desenvolveram a paixao pelo poder e continuaram a lutar, não mais por uma causa, mas por seu avanço pessoal. Depois de derrotar a ditadura comunista na Tchecoslovaquia, Vaclav Havel tornou-se um herói internacional, em parte por ser um dramaturgo que jurou voltar ao trabalho literario apos um breve período no governo - mas ele ainda esta no Castelo de Praga.
A meta e o poder, que significa dominar os outros, e os vencedores nele se refestelam, saboreando aquilo que Maquiavel chama de ”a docura da dominação”. O poder sobre os outros e uma droga que vicia, estimula o desejo por mais e mais. Esse desejo, porem, nunca e totalmente satisfeito; os homens, portanto, mesmo os mais poderosos, estão sempre insatisfeitos. Eles querem tudo, mas não podem ter tudo. Ja que o desejo de mais poder e riqueza

- as armadilhas do poder - e sempre maior do que nossa capacidade de acumula-los, Maquiavel observa francamente: ”Dai resulta continuamente um descontentamento.” Maquiavel não acredita que os ”que tem” sejam intrinsecamente diferentes dos ”que não tem”, nem inatamente superiores a eles. Na verdade, eles agem de maneiras diferentes, mas isso e apenas o resultado das circunstâncias: os homens são ”insolentes quando seus negócios estão prósperando e abjetamente servis quando a adversidade os fere”. Ele sabe que, tendo a oportunidade, os ”que não tern” se comportarao tão mal quanto os ”que tern”; e tudo uma questão de oportunidade, de sorte, bem como da firmeza, energia, determinação, esperteza e tenacidade - e as vezes sabedoria - daqueles que manobram em busca de mais riqueza e poder.


O impulse para a expansão, portanto, é intrínseco em todas as instituições humanas. O poder e a riqueza existem para serem
2. Discursos, I, 37.

O curso dos acontecimentos humanos - 23


agarrados e, se você não os pegar, outra pessoa os pegará. E uma ilusão, uma ilusão potencialmente fatal, acreditar que sua familia, seu país, sua empresa ou sua equipe, uma vez estabelecidos com conforto e sucesso, conseguirao viver felizes para todo o sempre. Você não tem a opção de sair do jogo. ”E impossivel para uma república [ou, na verdade, para qualquer outra instituição humana] permanecer por muito tempo no tranquilo desfrute de sua liberdade dentro dos limites de suas fronteiras”, ensina Maquiavel:
Pois mesmo que essa república não moleste os outros, os outros a molestarão; ao ser molestada, nascera nela o desejo e a necessidade de conquistas; e ela, se não tiver inimigos externos, encontrara inimigos internos entre seus f. próprios cidadãos.3

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