Marcas de amor



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MARCAS DE AMOR

- Virgin on her wedding night-

Lynne Graham

Paixão 189


Sofisticação e sensualidade em cenários internacionais.

Eles resolveriam pendências do passado... do modo dele!

Assombrado por uma infância de ilegitimidade e pobreza, Valente Lorenzatto jamais perdoou Caroline Hales por tê-lo abandonado no altar. Agora, ele ganhou milhões, reivindicou sua herança aristocrática veneziana... e está determinado a ter sua vingança. Valente arruinará a família de Caroline ao se tomar dono de tudo o que têm... a menos que ela lhe dê o que lhe negou cinco anos atrás...
Digitação: Silviacrika

Revisão: Cris Veiga

PROJETO REVISORAS

Querida leitora,
Caroline Hales havia se apaixonado e desejado construir uma vida com Valente Lorenzatto, mas, para sua família, ele não passava de um reles caminhoneiro. Ela fora forçada a desistir de seu amor e se casar com outro. Anos depois, no entanto, ele estava de volta, e parecia disposto a se vingar dos Hales... e de Caroline em particular. Ela precisava garantir a segurança de seus pais, mas, para isso, teria de arriscar seu coração...

Equipe Editorial Harlequin Books

Tradução Angela Monteverde

HARLEQUIN Books 2010

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.


Título original: Virgin on her wedding night

Copyright © 2010 by Lynne Graham


Originalmente publicado em 2010 por Mills & Boon Modem Romance

Arte-final de capa: Isabelle Paiva

Editoração Eletrônica: ABREU'S SYSTEM

Tel.: (55 XX 21) 2220-3654/2524-8037

Impressão: RR DONNELLEY

Tel.:(55 XX 11)2148-3500

www.rrdonnelley.com.br

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Aos cuidados de Virginia Rivera

virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

Capítulo Um

— É tudo seu, já assinado, selado e entregue... o negócio, a casa e as terras — confirmou o advogado.

Quando Valente Lorenzatto sorria, seus inimigos se escondiam. Até seus empregados haviam aprendido a temer a turbulência que viria a seguir. Em geral o sorriso era encoberto por algo sombrio, que trazia a ameaça de um lobo. Enquanto contemplava os documentos à sua frente, o sorriso na boca larga e sensual deixava seu belo rosto com a dureza do mármore.

— Excelente trabalho, Umberto.

— É tudo mérito seu — replicou o homem mais velho. — Seu plano de aquisição foi um triunfo.

Porém Umberto abriria mão de seu bônus anual para saber por que, exatamente, seu empregador, que era bilionário, devotara tanto tempo e energia na planejada queda e aquisição de uma empresa inglesa de transportes, além de uma residência particular, sendo que nenhuma das duas propriedades tinha suficiente valor financeiro ou estratégico que justificasse tamanho interesse. Umberto duvidava dos rumores que diziam que Valente trabalhara ali antes de realizar seu primeiro grande negócio. Fora depois desse primeiro triunfo que a orgulhosa família Barbieri o reconhecera, finalmente, como neto ilegítimo do conde Ettore Barbieri.

Essa revelação causara uma comoção pública, o que favorecera muito que Valente mantivesse seu suntuoso estilo de vida e acelerasse sua espetacular ascensão para a fama, com uma série de investimentos audaciosos. Valente era muito inteligente e tinha um faro excepcional para os negócios, mas era ainda mais conhecido por ser impiedoso nas negociações.

O clã dos Barbieri tivera muita sorte em encontrar uma “galinha dos ovos de ouro” como ele na sua árvore genealógica, no momento em que suas fortunas precisavam ser restauradas. Entretanto, o sucesso de Valente nesse sentido provou ser de pouca valia aos seus parentes, quando o velho Ettore Barbieri passou a idolatrar seu neto por suas conquistas espetaculares. O conde acabara por deserdar os outros descendentes, a fim de deixar tudo o que possuía, com exceção de seu título de nobreza, para Valente.

Tal atitude fora objeto de incessantes manchetes nos tabloides durante meses, todos falando sobre Valente, que fora solicitado a adotar o nome da família para justificar sua enorme herança. Mas sendo quem era, um rebelde que não aceitava obedecer a ninguém, comparecera ao tribunal com o argumento de que se orgulhava muito do sobrenome de sua falecida mãe, Lorenzatto, e que seria uma ofensa à sua memória e a tudo que ela fizera pelo filho, caso se desfizesse desse nome. As mães por toda a Itália o aplaudiram por essa atitude. Valente então se tornara um dos mais ilustres bilionários do país, com freqüência consultado por pessoas importantes, e suas opiniões eram depois publicadas e divulgadas pela imprensa.

Tendo dispensado Umberto e outros membros de sua equipe particular, Valente foi tomar ar em uma das maravilhosas sacadas que davam para o Grande Canal de Veneza. A família Barbieri ficara muito chocada quando ele transformara o antigo Palazzo Barbieri no quartel-general de seus negócios, fazendo o imóvel retomar às suas origens medievais de mercado do século XIV. Mantivera apenas uma parte da vasta propriedade como moradia. Antes de ser italiano, Valente era um autêntico veneziano, nascido e crescido em Veneza. Prometera ao falecido avô Ettore que faria de tudo para preservar o Palazzo para as futuras gerações, quando talvez o dinheiro não pudesse ser gasto com tanta liberalidade.

Valente bebeu seu café amargo e saboreou seu instante de triunfo após cinco longos anos no aguardo. Agora era o proprietário da Hales Transportes, que por fim desmoronara diante do gerenciamento fraudulento e incompetente de Matthew Bailey. Valente também se tornara o dono de uma velha casa caindo aos pedaços chamada Winterwood. Era para ele um momento de profunda satisfação pessoal. Em geral não costumava ser nem paciente nem vingativo. Afinal, não tentara se vingar da própria família, que deixara sua mãe doente trabalhar como empregada para poder alimentar e vestir o filho. Na verdade, se questionado, Valente, que costumava viver para o presente, diria que atos de vingança eram perda de tempo, e que o melhor seguir adiante, esquecer o passado, pois o futuro poderia ser um desafio mais excitante e valioso.

Entretanto, mesmo depois de cinco anos, ainda não encontrara uma mulher que o excitasse tanto quanto sua ex-noiva inglesa, Caroline Hales. A pequena Caroline com seus cabelos claros, que podia chorar quando alguém maltratava os animais, mas que, sem hesitação aparente nem desculpas, largara-o no altar, optando por um homem mais rico e mais bem situado na sociedade.

Há cinco anos Valente não passava de um trabalhador comum, um caminhoneiro, que trabalhava longas horas enquanto lutava para terminar um curso de administração de empresas no seu tempo livre. A vida era dura, mas boa, até que cometera o grande erro de se apaixonar loucamente pela filha do dono da Hales Transportes. E Caro, como era chamada pela família que adorava, levara-o a fazer papel de tolo desde o início, algo que Valente descobrira somente mais tarde. Ela tinha manipulado Matthew Bailey e Valente o tempo todo, e por fim, apesar de jurar seu amor a Valente, casara-se com Matthew em uma cerimônia grandiosa, cheia de ostentação.

Valente saboreou a perspectiva de punir as ofensas que haviam lhe causado. Já não era pobre e humilde. Na verdade, fora a visão da mulher que tanto amara, nua e fogosa, nos braços de outro homem, que o incitara a progredir e buscar seu sucesso. Mas em breve Caroline iria se deitar, nua e fogosa, em seus braços, refletiu Valente com um sorriso sombrio. Só esperava que a viúva chorosa, que vira trajada de negro, valesse o esforço e o dinheiro que já gastara por sua causa.

De qualquer modo, pelo menos poderia garantir que quando ela despisse as roupas de luto, estivesse usando o que ele gostava. Valente ligou pelo celular para o dono do ateliê italiano mais requintado de roupas íntimas, a fim de fazer um pedido especial; uma encomenda no manequim de Caroline, tudo em tons pastéis, que realçariam sua tez pálida e suas curvas graciosas, com os melhores tecidos e acabamentos.

Ao imaginá-la desfilando o corpo pequeno na sua frente, vestida com a lingerie transparente para o seu prazer, ficou muito excitado. Sabia que era um homem sexualizado demais para refrear seus desejos. Iria visitar sua atual amante, Agnese, antes de voar para a Inglaterra e tomar posse de sua nova amante e de tudo que lhe era precioso.

Era a sua hora.

Seu momento chegara. Valente fez pelo celular a ligação que esperou cinco anos para fazer...


Vinte e quatro horas antes de Valente fazer essa ligação, Caroline Bailey, antes Hales, mantinha um diálogo cada vez mais perturbador com seus pais.

— Sim, é claro que percebi que a empresa tinha problemas no passado! Mas quando foi que hipotecaram a casa?

— No outono. A empresa precisava de capital, e dar a casa como garantia foi a única maneira de obter um empréstimo bancário — disse Joe Hales, acomodando o corpo pesado em uma poltrona. — Nada podemos fazer agora, Caro. Perdemos. Não conseguimos honrar os pagamentos e a casa passou para outras mãos...

— E por que, em nome de Deus, não me contaram isso na época? — inquiriu Caroline sem conseguir acreditar.

— Você havia perdido seu marido poucos meses antes — lembrou o pai. — Já tinha muito com que se amofinar.

— Temos prazo de duas semanas para deixar a nossa casa! — exclamou Isabel Hales. Era uma loura pequena na casa dos 60 anos, e com um rosto estático e sem mobilidade, o que sugeria muitas cirurgias plásticas. Era o oposto do marido, alto e corpulento. — Não posso acreditar. Sabia que tínhamos perdido o negócio... mas nossa casa também? É um pesadelo!

Dando um aperto de consolo no ombro do pai, Caroline resistiu ao ímpeto de tentar consolar também a mãe. Ela sempre fora sensível ao toque, mas sua mãe não. Enquanto seu pai crescera como o filho de um grande empresário da região, sua mãe fora criada por pais ansiosos, que se ressentiam por não ter status social, nem dinheiro. Isabel puxara a eles de todos os modos e tinha as mesmas ambições e respeito pela riqueza.

Por mais que Joe e Isabel parecessem um par desastroso, a única frustração em seu casamento acabara sendo a esterilidade de Isabel. Os Hales tinham 40 anos quando adotaram Caroline, com três anos na época. Como sua única filha, desfrutara de excelente educação e vida doméstica estável, e jamais pensaria em revelar que sentia maior afinidade com o pai de bom coração, do que com a mãe sempre muito crítica e mandona. Na verdade, nunca compartilhara as aspirações ou interesses da mãe adotiva, e tinha a desagradável sensação de saber que várias de suas opiniões e escolhas haviam desapontado seus pais.

— Como é possível só termos duas semanas para nos mudar? — exclamou Caroline, com voz fraca.

Joe balançou a cabeça careca.

— Temos sorte de dispor desse tempo. Fiquei aliviado por ver que encontraram um comprador para a Hales Transportes.

— E de que nos adianta isso? — retrucou a esposa, com raiva.

— Perdi o negócio que meu pai criou — respondeu Joe, com tristeza. — Faz idéia de como isso me envergonha? Perdi tudo aquilo pelo qual meu pai trabalhou arduamente para conquistar.

Com lágrimas nos olhos, Caroline mordeu os lábios e calou-se, sem se queixar pelos pais não confiarem nela antes de hipotecar sua casa. Ela os teria alertado contra isso. Imaginou se a mãe, que era tão apegada à casa imponente e ao estilo de vida luxuoso, havia pressionado o pai para que salvasse o negócio a qualquer custo. Infelizmente, Joe Hales nunca tivera muito tino comercial.

Joe herdara a Hales Transportes de seu pai, e até recentemente, nunca soubera o que era se preocupar com dinheiro. Isabel, com sua crença esnobe de que dirigir uma empresa de transportes era algo inferior para pessoas da sociedade, nunca permitira que o marido arregaçasse as mangas e defendesse o que era seu de direito, trabalhando arduamente. Ao contrário, incentivado pela esposa, Joe contratara Giles Sweetman, um excelente gerente geral, para que tomasse conta da empresa e, por sua vez, fora jogar golfe e pescar. Durante anos, a empresa fora muito rentável. Porém, bastaram dois golpes para ocasionar a crise que enfrentavam no momento.

Primeiro, Giles Sweetman encontrara outra colocação e pedira demissão de um momento para o outro, sendo substituído pelo marido de Caroline, Matthew. A troca de gerentes fora desastrosa. O segundo golpe fora o surgimento, no cenário local, de uma empresa rival de transportes, sedenta por sucesso.

A Hales perdera seus contratos um a um, e reduzir a força de trabalho de nada adiantara para deter seu declínio.

— Quem é o comprador? — quis saber Caroline. — Irei negociar um prazo maior.

— Não estamos em posição de pedir nada. Já não somos os donos desta casa — enfatizou o pai secamente. — Só espero que o comprador da Hales não pretenda demitir os funcionários que restaram e vender os ativos da empresa, pela oferta mais alta.

Caroline analisou seus pais, dolorosamente ciente de que estavam velhos e com a saúde debilitada, o que os tomava inadequados para lidar com tanto estresse e danos. Seu pai adotivo tinha angina, e às vezes a artrite de sua mãe a impedia de dar uma simples volta pelo quarto. O que lhes aconteceria sem proteção financeira? Como iriam sobreviver?

Winterwood era uma encantadora moradia um tanto dilapidada, construída na virada do século XX, por uma grande família cheia de empregados. Sempre fora grande demais para seus pais, mas Isabel Hales estivera determinada a mostrar para os vizinhos que era casada com um homem de posses.

O novo proprietário talvez estivesse querendo simplesmente derrubar Winterwood e criar um condomínio. Só em pensar nessa possibilidade, Caroline sentiu uma pontada no coração, imaginando as velhas paredes sendo derrubadas e os jardins destruídos por escavadeiras.

— Nunca deveria ter se mudado da casa da família de Matthew e voltado a morar conosco — disse Isabel Hales à filha. — Só Deus sabe para onde iremos agora!

— Ainda acho difícil de acreditar que Matthew só lhe deixou dívidas — admitiu Joe, balançando a cabeça de novo. — Tinha um conceito melhor dele. É dever do marido, antes de morrer, garantir o futuro da esposa.

— Matthew não esperava morrer tão jovem — argumentou Caroline, como costumava fazer em relação a comentários desse tipo; tinha muita prática em manter o segredo sobre seu infeliz casamento para si mesma. — Porém, gostaria que ele tivesse comprado uma casa, pois assim, pelo menos, teria um lar para nós três.

— Os Bailey deveriam tê-la ajudado mais — comentou a mãe, com azedume. — Porém, é claro que você não teve o bom-senso de pedir um acordo financeiro.

— Não foi culpa deles se Matthew não fez seguro de vida, e eles conseguiram saldar todas as suas dívidas... e não vamos nos esquecer que tinham uma participação na Hales também, e que perderam um bom dinheiro nisso — recordou Caroline, com frieza.

— O que importa isso agora, quando perdemos tudo que possuíamos? — choramingou Isabel. — Os Bailey ainda têm sua casa, a criadagem. E meus amigos deixaram de me telefonar! As notícias correm depressa. Ninguém lhe procura quando você está falido!

Caroline cerrou os dentes e ficou calada. Era um fato lamentável que as amizades de sua mãe também só pensassem em aparências, status e dinheiro. Destituída de seus atributos, Isabel fora cortada das listas de convidados dos poderosos. Era triste para uma mulher da sua idade descobrir que de repente se tomara pária, nada poderia fazer Os dias de diversões caras, roupas de grife e férias esplendorosas haviam acabado para sempre.
Nessa mesma noite, Caroline voltou a trabalhar em seu ateliê, um anexo na parte de trás da casa dos pais. Ali ela martelava, moldava e soldava prata e pedras preciosas para criar as jóias que desenhava e vendia pela Internet. Era um trabalho minucioso e delicado, que requisitava olho clínico e muita concentração. Enquanto trabalhava, sua elegante gata siamesa, Koko, sentava-se como uma sentinela no banco ao seu lado. Ao sentir uma pressão nas têmporas, Caroline soube que uma enxaqueca se aproximava, como acontecia de vez em quando.

Logo ela encerrou os trabalhos e foi dormir.

Porém, mesmo tendo tomado seu remédio para enxaqueca, a inquietação não a deixou conciliar o sono. No dia seguinte precisava começar a procurar moradia, refletiu, lutando contra o pânico. Não seria fácil encontrar um bom lugar para morar, porque também precisava de espaço para o seu trabalho. Seu negócio de jóias no momento era o único meio de vida da família, fora a pequena pensão.
— Caro? — Na manhã seguinte Isabel entrou claudicando na cozinha onde a filha preparava o café. — Acha que os pais de Matthew lhe fariam um empréstimo? — perguntou com voz esperançosa.

Caroline ficou pálida e tensa.

— Acho que não. Pagar as dívidas de Matthew foi uma questão de honra para eles, mas não são do tipo esbanjador, a não ser em beneficio próprio.

— Se ao menos você tivesse lhes dado um neto, seria diferente — replicou a mãe em tom de reprovação.

Os Bailey também a haviam culpado por isso quando Caroline ainda morava com eles. Sem dúvida, a incapacidade de gerar uma criança fora a pior falha de sua nora, mas os Bailey também haviam insinuado que se ela fosse uma esposa melhor para Matthew, ele ficaria mais tempo em casa. Caroline tivera vontade de revelar a verdade sobre seu casamento, mas não o fizera. Não gostava de lembrar dos anos que dedicara ao casamento frustrado e ninguém se beneficiaria conhecendo a verdade. Isso só iria arrasar os pais de Matthew e aborrecer os seus próprios pais.

— Você nunca foi prática — lamuriou-se Isabel. — Nunca pensou no futuro.

O olhar perturbado de Caroline repousou na figura delgada da mãe, que se apoiava na bengala e saía da cozinha, devagar. A velha parecia muito frágil e vulnerável. Seus pais já dormiam em um quarto no térreo por causa dos problemas de saúde. Joe estava numa lista de espera por um marca-passo. De fato, a casa já não era o ideal para eles, refletiu Caroline, procurando saída para a situação. Porém Joe e Isabel serem forçados a deixar seu lar dos últimos 40 anos era muito difícil, mesmo usando o argumento da saúde e do bom-senso.

Koko se enroscou em seus tornozelos, procurando atenção, e sua dona conversou com o animalzinho enquanto preparava o café. Mas nada comeu, preocupada em fazer a lista das pendências urgentes. Tempo, custo e locação eram fatores cruciais. Nessa altura da vida seus pais não iriam querer mudar de bairro. Levaria séculos para encontrar a casa ideal e economizar o suficiente para o aluguel.

Era uma benção o fato de adorar seus pais adotivos. Embora nunca a tivessem aconselhado de maneira sábia, sempre acreditaram que estavam lhe dando o melhor. Caroline se sentia feliz por tentar retribuir o que haviam feito por ela.

O telefone tocou quando lavava os pratos.

— Pode atender? — pediu ao pai, que lia o jornal na sala ao lado.

A ligação foi atendida. Um instante depois, Caroline ouviu o tom urgente das vozes de seus pais confabulando de modo preocupado, e tratou de enxugar as mãos e ir até a sala.

— Caro... pode vir aqui um momento? — chamou a mãe com voz tensa.

O telefone foi estendido para ela como se fosse uma arma mortífera.

— Valente Lorenzatto — anunciou a senhora, com lábios trêmulos.

Caroline ficou rígida como uma boneca de cera, o rosto sem expressão. Não ouvira esse nome desde que ficara viúva, meses antes, porém ainda tinha o poder de fazê-la empalidecer e tremer como se um vento gelado a atingisse. Valente, a quem amara acima de tudo; Valente, a quem tratara tão mal. Não entendia por que ele estava ao telefone.

Segurando o fone com dedos úmidos, dirigiu-se ao vestíbulo.

— Alô? — atendeu com um fio de voz.

— Quero encontrar você — Valente foi logo dizendo, com sua voz sonora e profunda, a ponto de fazê-la estremecer. — Como o novo proprietário da Hales Transportes e da casa de seus pais, tenho vários interesses a discutir

Era demais para Caroline digerir tudo isso de uma só vez.

— Você é o dono da Hales... e da casa? — questionou com descrédito.

— Surpreendente, não? Fiz fortuna, como disse que eu faria — murmurou Valente, com frieza. — Infelizmente, você apostou no cavalo errado cinco anos atrás.

Caroline quase soltou uma gargalhada, porque descobrira isso da maneira mais dura, e não pelas razões que ele imaginava. O que a arrancou dessas lembranças foi o olhar dos pais do outro lado do vestíbulo que, sem dúvida, haviam ouvido o que ela dissera, pois seus rostos traíam o profundo choque. A mera menção de Valente Lorenzatto os deixava nervosos, quanto mais um telefonema anunciando que era o novo proprietário de tudo que, até pouco tempo atrás, pertencera a eles.

— Não pode ser verdade! — protestou Isabel Hales, com um grito.

Caroline assim esperava também, mas lera, há muito tempo, sobre o primeiro grande negócio de Valente que lhe aportara milhões na bolsa de valores. E precisara enfrentar a fúria de Matthew quando o marido soubera que andara pesquisando na Internet sobre Valente. Nunca mais se deixara levar pela curiosidade a respeito de Lorenzatto, mesmo depois de viúva. Seria melhor deixar o passado para trás.

— Ele era apenas um motorista de caminhão. Impossível ter ganho tanto dinheiro! — exclamou Joe Hales.

— Deve ser mentira — concordou a esposa, com lábios entrecerrados.

Caroline mantinha o fone colado ao ouvido para que Valente não ouvisse os comentários embaraçosos. O fato do pai de seu pai também ter sido um motorista de caminhão, um homem que se fizera sozinho e construíra sua empresa do nada, apenas com o esforço pessoal, jamais era mencionado em sua casa. Os Hales mais velhos tinham vergonha do início humilde da família e admiravam muito os pais de Matthew, que haviam freqüentado colégios particulares e eram parentes distantes de nobres. Joe e Isabel Hales eram esnobes, sempre foram, e provavelmente assim seriam enterrados, pensou Caroline, com tristeza. Valente nunca estivera à altura deles. Fora julgado pelo trabalho que tinha e por suas origens, em vez de ser admirado por sua inteligência e motivação pessoal.

Caroline entrou em outra sala para ter um pouco de privacidade.

— Por que deseja me ver? — perguntou sem fôlego.

— Descobrirá quando nos encontrarmos — replicou ele, com impaciência. —Amanhã às 11h da manhã, no escritório que costumava ser do seu marido.

— Mas por que, em nome de Deus...? — A voz de Caroline se interrompeu quando ouviu um clique encerrando a ligação.

— Dê-me o telefone, por favor — pediu Joe Hales para a filha, que o ouviu ligar para o advogado e exigiu saber o nome do novo proprietário da Hales Transportes.

— Aquele menino italiano... — A expressão de Isabel era de um desdém furioso. — Imagino que já tenha descoberto que está viúva. É muito próprio dele... Por que não pode apenas deixá-la em paz com decência?

— Não faço a menor idéia. — Caroline não conseguia achar graça na sua mãe, que chamava de menino, um homem de mais de 1,80m de altura e 31 anos. Refletiu com tristeza que Valente nunca fora menino. Sempre possuíra uma maturidade acima de seus anos de vida. E também não achou engraçado quando a mãe sugeriu que Valente poderia ter um interesse romântico a seu respeito.

Com expressão surpresa, o pai encerrou a ligação.

— Tudo que nos pertencia foi adquirido por um enorme conglomerado de empresas italianas conhecidas como Grupo Zatto, de propriedade de Valente Lorenzatto — proferiu sem calor na entonação.

Valente virará o jogo, revertendo a ordem natural das coisas, segundo a opinião de Isabel. Entre os três, Caroline era a que menos se surpreendera.





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