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TEXTOS SOBRE A TEOLOGIA QUEER

Por Mauro Arcanjo

 

Se em alguma época de sua vida, se na infância ou adolescência, você se sentiu fora do eixo, sem encaixe, seja na família ou na sociedade, talvez você seja queer. Mas, o que seria um indivíduo queer?



Queer é tudo aquilo que não se inclui, que está fora, para além da ordem. Implica transgressão, indefinição ou desarmonia. Não é ambíguo, equivocado, mas também não compreende sentido exato.

O movimento Queer surgiu em Londres e Nova York no fim do século 20. Lá, a Cultura Queer adquiriu projeção na política e no comportamento, mas o termo acabou associado aos gays. Esse conceito, dada a excentricidade e inovação, ganhou status acadêmico e passou a originar uma corrente doutrinário-filosófica denominada Teologia Queer.

A Teologia Queer abole todo e qualquer pensamento excludente. Visa resgatar não só os pobres, mas também os sexualmente excluídos. Prega a existência de um deus multifacetado e contesta o caráter ideológico heterossexual dos livros sagrados. Em suma, defende uma fé que abrigue a diversidade sexual, que não imponha a igualdade entre os seres, e, sim, respeite suas diferenças.

Uma de suas propostas é entender como os diferentes grupos sexuais lidam com o sagrado, qual a sua concepção de Deus. Há muito o modelo proposto pelas principais religiões monoteístas entrou em desuso. O mundo pós-moderno não se organiza mais em torno da família e da dualidade. Na teoria queer, chega-se ao consenso não pela imposição de dogmas, mas pelo diálogo aberto, pelo acolhimento propriamente dito. Afinam seu discurso com o de gays e lésbicas, bissexuais e transgêneros.

Entre os tantos comportamentos sexuais "condenáveis", um dos mais defendidos pelos teólogos "queerianos" é a bissexualidade. Estes defendem o sexo multíplice e livre de tabus. Crêem que, do mesmo modo que gays e lésbicas não devem ser discriminados, eles também não o façam. Afinal, se o deus "queeriano" não se limita à definição de uma identidade fixa, suas criaturas também não. Portanto, há espaço para todos, excluídos ou não.

O ponto mais polêmico é a não-adoção de uma identidade sexual divina. Na teologia "queeriana" Deus não representa o pai, o que contrapõe o princípio de que o criador é representado por uma entidade masculina. Critica também as feministas que defendem o contrário, a divinização da mulher, pois isto não apresentaria uma mudança estrutural, e, sim uma troca de papéis. Feministas pregam a mãe ao invés do pai. Buscam igualar os gêneros quando o ideal seria considerar as diferenças e fortalecê-las. Os conflitos entre os gêneros e seus papéis sociais são, portanto, os maiores causadores de contendas dentro das religiões segundo "queerianos".

Igualmente abolidas pelos "queers", demonstrações de homofobia e misoginia complementam a cartilha doutrinária das três grandes religiões monoteístas conhecidas: judaísmo, cristianismo e islamismo. A mulher é impura e o sexo entre iguais é carregado de abominação. O homem foi divinizado, à mulher atribuiu-se um papel ruinoso, a representação do vício. Um exemplo do quão nocivo é o pensamento desse segmento são as denúncias de aborto em conventos e pedofilia por parte do clero católico. Não houvesse discriminação entre homens e mulheres, talvez a Igreja promovesse a comunhão que tanto apregoa, já que, para judeus e muçulmanos a mulher fica em segundo plano ou mesmo plano nenhum.

A teologia queer, embora escândalo para os conservadores, vem propor uma visão de mundo onde "minorias sexuais" não sejam relegadas, vistas como personas non gratas e possam não só participar ativamente da sociedade mas, da mesma forma, legitimar seus direitos civis. Tudo o que é queer atrita com a tradição religiosa e seu representativo no Estado. Um representativo que fala em nome de Deus, mas não age como prescrito por Ele. Que bane, ultraja e se assoberba diante daqueles que considera inferiores por estarem em menor número ou por não disporem de meios de defesa eficazes.

Portanto, minoria ou não, já somos uma comunidade na aldeia global. Há muito deixamos de nos ilhar, de sofrer sanções. Temos a nosso favor não só uma bandeira, uma luta. Agora temos doutrina, uma filosofia e, quem sabe, estejamos a um passo, o primeiro passo em direção à terra prometida onde emanam leite e mel para os considerados esquisitos, queers.
3. Reflexão bíblico-teológica feminista latino-americana para o século XXI

Em 2004, teólogas biblistas latino-americanas, assessoras de RIBLA[1], se reuniram no Brasil para discussão das pautas hermenêuticas que norteiam a reflexão bíblico-teológica feminista. O objetivo era listar as prioridades e ênfases na reflexão teológica para que a hermenêutica bíblica feminista latino-americana continue seguindo seu caminho sem abandonar seus pilares, seus valores centrais, abrindo, porém, novos tópicos no debate de gênero, religião e teologia bíblica. Ali se reafirmam alguns paradigmas para a hermenêutica bíblica feminista latino-americana no despontar do séc. XXI[2]:


a) A parcialidade interpretativa e a pluralidade de paradigmas é critério interpretativo em nossas abordagens;
b) a hermenêutica feminista latino-americana é filha do movimento bíblico-teológico latino-americano e continua tendo como objetivo “a construção de relações justas e de superação de todas as formas de violência, partindo de nossos [...] corpos, experiências e relações de construção de “um outro mundo possível”[3].
c) três enfoques de semelhante prioridade para a reflexão são estabelecidos: libertação, ecofeminismo e étnico-racial.
d) Parcialidade, provisioriedade, ambigüidade, diversidade, experiência e simultaneidade foram categorias assumidas pelas biblistas como categorias hermenêuticas de crítica aos poderes hegemônicos.

Alguns teólogos pouco familiarizados com os estudos de gênero ironizam as iniciativas feministas classificando tais categorias como “falta de objetividade” dizendo que as biblistas feministas não são claras nem diretas quanto ao que querem discutir teologicamente. Entretanto, para as biblistas latino-americanas este é um paradigma e nosso maior diferencial: não dar respostas prontas, antes levantar novos questionamentos, novas suspeitas hermenêuticas e apontar novos caminhos ou caminhos antigos a serem revisitados. É pedagógico pois o educador não é aquele que formata o pensamento do educando, antes o ensina a pensar e a refletir.


Não podemos desconsiderar os fatores sociológicos que deram origem à teologia feminista neste continente, muito menos esquecer que a militância feminista latino-americana, muito mais do que uma luta por igualdade de direitos, nasceu pela ausência de entes queridos, a partir das casas governadas por mulheres, casas cujos homens morreram nas lutas de resistência política ou ficaram trancafiados, sendo torturados por décadas como prisioneiros políticos em nossos países que sofriam sob a pesada mão da ditadura militar nos anos 70 e 80. Os motivos deste nascimento foram só nossos.


Tais princípios (parcialidade, provisioriedade, ambigüidade, diversidade, experiência e simultaneidade) são assumidos justamente por sabermos que, mesmo numa crítica ao poder instituído, nem tudo é criticável, nem tudo pode ser visto de forma negativa, estabelecer valores generalizantes, definitivos, objetivos, unilaterais, teóricos e sucessivos implica em desprivilegiar os aspectos positivos e benéficos que também devem ser mencionados em nossas abordagens cada vez que tentamos, através de nossas reflexões, propor “um novo mundo possível”.


O principal desafio é o de não tornar nosso discurso um modelo feminilizado do discurso patriarcal tão criticado. Isto é, não permitir que o discurso feminista se torne tão militante que termine por marginalizar quaisquer pessoas que não sejam mulheres, e acabe se tornando uma cópia invertida do modelo machista. Cotidiano e corporeidade passam a ser categorias hermenêuticas articulando o pensamento feminista com as preocupações básicas de nossos povos pobres, o sistema de mercado, as políticas neoliberais e seus efeitos na vida do continente latino-americano.

4. Teologia Queer ... do que se trata, afinal?

Apropriando-se das teorias de gênero como roteiro para o questionamento dos papéis sociais entre homens e mulheres, os integrantes do universo GLBTT começaram a participar dos Estudos de Gênero, direcionando seus esforços para a pesquisa sobre sexualidade[4].

Desde os finais do século XVIII os estudos sobre sexualidade humana estabeleceram uma ruptura com o conceito de que sexualidade é alguma coisa fixa e homogênea e que padrões diferentes de sexualidade não sejam identificáveis. Os estudos de Michel Foucault muito contribuíram para a compreensão de que a sexualidade humana tem uma história. Suas teorias formam os princípios germinais da Teoria Queer.


No início dos anos 90 o termo queer foi adquirindo significado mais específico e seu principal objetivo foi questionar o centrismo da heterossexualidade que estrutura as sociedades, com isso propôs caminhos mais diversos e menos dualistas. Queer é tudo que não se enquadra, nem se encaixa no dualismo homem – mulher que define as relações heterossexuais normativas e consideradas “normais”, isto é não-desviantes. Sexualidade queer é justamente a sexualidade que se desvia do padrão normativo estabelecido na construção social.

“O questionamento do binarismo/dualismo homo-heterossexual não implica apenas o rompimento com a normatividade da sexualidade heterossexual, mas a problematização da organização social que está organizada ao redor dela. [...] a vida pessoal não é apenas política, mas sexualizada e, consequentemente, heterossexualizada. Por isso seu objetivo tem sido dar um passo além dos estudos de Gênero e tornar a sexualidade um assunto de relevância acadêmica, não só nos discursos e estudos da medicina e psicologia, mas em áreas tão diversas quanto economia, sociologia, antropologia, política e religião”[5].

Pesquisas recentes de cientistas renomados[6] como Berte Pakkenberg, Gunther Dorner, Dick Swaab (Netherland Institute of Brain Research) e a geneticista britânica Anne Moir têm trazido importantes descobertas no campo da sexualidade na última década. Estudos sobre codificação do DNA têm cooperado para o entendimento sobre quais seriam estas sexualidades entendidas como “desviantes” ou múltiplas, como o nome queer deseja definir. Tais estudos estão nos conduzindo a uma revisão do pressuposto de que homossexualidade seria doença, opção sexual ou atitude imoral e que na verdade tem muito mais conexão com o código genético que uma pessoa recebe durante seu processo embrionário[7].

Diante destes novos postulados, que papel desempenha a reflexão teológica? Pode existir uma teologia queer relevante para a vida da igreja? Que formulações éticas tais aproximações conseguem oferecer? Como uma hermenêutica queer pode contribuir para uma teologia pastoral mais humana? Que tipo de contribuições uma hermenêutica queer oferece à interpretação bíblica num momento em que a lista de direitos civis conquistados pelos gays aumenta a cada dia? Uma reflexão teológica queer é necessária?


Entender como os teólogos gays pensam teologia não significa aprovar e adotar suas práticas homossexuais. Que ninguém entenda isso de maneira equivocada! Entender o diversificado mundo queer implica em compreender um universo sempre sectarizado e marginalizado pela sociedade e para o qual, durante muitos séculos, a igreja se recusou a exercer uma prática pastoral inclusiva. Afinal é o “corpo de quem não se encaixa” que terá a oportunidade de ser ouvido neste exercício. “A teologia queer parte das histórias vividas pelas pessoas homossexuais como forma de devolver-lhes a palavra e permitir que articulem seus próprios anseios e necessidades”[8].

Sérias questões pertinentes à corporeidade e à sexualidade entraram no debate teológico através dos teóricos queer. Gays também lêem a Bíblia, estudam teologia, fundam igrejas cristãs e pastoreiam estas igrejas e não há nada que façamos que consiga deter o crescimento destes segmentos. Eles existem, simplesmente, estão na sociedade crescendo em número de fiéis.Meu objetivo aqui não é entrar no mérito da questão se é certo, se não é, se é bíblico ou não, se é pecado ou não. Estou me limitando neste texto a ser apenas descritiva. Nem sequer emito minha opinião sobre o assunto, não é mesmo minha intenção.


A teologia/hermenêutica queer apropria-se de vários eixos hermenêuticos da teologia feminista, por exemplo, questões de corporeidade, a luta contra a opressão social, contra a violência sexista, a favor da inclusão dos marginalizados etc. O momento de globalização, as lutas pelos direitos humanos e as ênfases mais recentes contra homofobia, discriminação sexista e racismo, e principalmente as recentes mudanças no código civil brasileiro, exigem que tais temas sejam revisitados e tratados não apenas com olhos espirituais, mas com seriedade jurídica e civil para que a Igreja, não se torne instrumento de segregação de alguns grupos específicos de marginalizados, ao invés disso, contribua para relações mais humanizadoras, que espelhem mais fielmente o amor inclusivo de Jesus, que nunca interditou a entrada nem dos coxos, nem dos mancos, nem das prostitutas e pecadores no banquete do noivo, o filho do Rei (Mt 22,1-10).

5. Depois disso tudo, em que pé está o “mundo dos machos”?

Recentemente ouvi de um senhor na faixa de cinqüenta anos o seguinte: “parece que a sociedade enlouqueceu, as mulheres deixaram a casa para trabalhar fora e de repente virou obrigação para os homens se tornarem gays!”. Logicamente a afirmação exagerada deste senhor não tinha qualquer fundamento científico nem qualquer verificação estatística. Os homens não estão deixando de ser “hétero” para serem gays, e ser gay não implica em adotar um terceiro sexo e deixar de ser homem. Mas de fato, o que ele estava sentindo era o sacudir inevitável das rápidas mudanças que a sociedade tem passado e principalmente a quebra do modelo patriarcal e a ruptura com o sistema androcêntrico. Uma contribuição valiosa que os estudos queer trouxeram para o debate sobre gênero são as análises sobre identidade masculina gay, que por simples questão de eliminação acabam definindo também a identidade masculina heterossexual.


As mudanças sociais andam mexendo em várias áreas, que vão desde saúde sexual masculina até desemprego, afirmação de identidade e auto-estima à síndrome do pânico e depressão. O mundo dos homens está sofrendo reviravoltas muito mais rápidas do que o das mulheres ou dos gays, está sacudido com a mutação cultural que vivenciamos nesta velocidade astronômica. Ninguém estava preparado para mudanças tão radicais de forma tão rápida.

É crescente o número de programas de televisão ou até mesmo de canais por assinatura dedicados aos homens e aos seus apetites, como que a preservar os pequenos espaços reservado para um machismo que não seja sufocado pelas críticas que deixaram de ser puramente feministas para serem sociais. Ser machista na sociedade pós-moderna, implica em começar a ficar deslocado, ser taxado como ignorante e pouco evoluído. É crescente o número de homens que criticam outros homens por se manterem com uma mentalidade androcêntrica e patriarcal. E isto é um sinal que os paradigmas realmente estão sendo trabalhados, mas todo extremismo é perigoso. Há valores importantes que precisam ser mantidos, não entraremos aqui num detalhamento porque este seria o tema para um outro artigo.

Estudos teológicos e hermenêuticos sobre masculinidade são conquistas recentes e ainda não se chegou a uma década de estudos no Brasil, mas sua relevância para o campo da teologia é simplesmente inquestionável, uma vez que nosso institucionalismo religioso ainda é majoritariamente masculino. A cada dia cresce o número de fóruns de masculinidade, grupos de reflexão teológica a partir dos varões, enfim, finalmente a leitura de gênero conquistou o coração dos homens e eles agora também trabalham com questões de gênero.


Vale a pena ressaltar os números temáticos da revista Estudos Bíblicos: (n. 86) Bíblia e Masculinidade e (n.87), Bíblia e Corpo, ambos resultantes de grupos de gênero orientados para o debate sobre masculinidade. Também o grupo de teólogos-biblistas latino-americanos publicou este ano o número 56 da Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana sob o tema Re-imaginando a masculinidade, contendo 15 artigos debatendo a questão à luz de uma teologia bíblica. Também devo ressaltar o vol. 12 da revista Mandrágora, publicação anual do NETMAL – Núcleo de Estudos Teológicos da Mulher na América Latina da Universidade Metodista de São Paulo, que é um dos grupos de estudos feministas mais antigos do continente. Coordenei pessoalmente a edição de Mandrágora n. 12 sob o tema Gênero, religião e masculinidades. O último ensaio desta edição traz, de forma bem-humorada, mas não menos séria a necessidade que estudantes de teologia sentem de debater as questões de masculinidade em nível curricular nas graduações de teologia. Neste ensaio sob o título: “Masculinidade: queremos conversar sobre isso! Uma proposta curricular para graduações de teologia” inserimos diversos insights fornecidos pelos alunos de teologia, quase uma pesquisa de campo realizada em dois semestres onde a Temática Teologia e Gênero foi introduzida em seminários batistas em cidades da Baixada Fluminense.


No segundo semestre de 2007 novamente a disciplina voltou à graduação de teologia e foi desenvolvida em nível curricular sob o título Teologia e Gênero (seminário de pesquisa) oferecida na graduação de teologia da FATERJ (Faculdade de Teologia do Rio de Janeiro). Mais uma vez a reflexão está alcançando um significativo nível de maturidade acadêmica e ficamos felizes que Incertezas abra também este espaço de reflexão. Mencionamos na bibliografia todos os números temáticos de revistas que resultaram dos movimentos mencionados desde o início deste ensaio.

Conclusão

O grande desafio para os estudos de gênero no ambiente teológico e das Ciências da Religião tem sido trazer os discursos de gênero para uma confluência de objetivos comuns. Tecnicamente isso atinge tudo que já foi mencionado.


O objetivo é equiparação jurídica, social e religiosa dos gêneros, sejam eles femininos, masculinos ou queer. E o maior desafio encontra-se na transformação das estruturas patriarcais e androcêntricas em estruturas de gênero equiparáveis entre si. É trazer os gays para o diálogo sem que a militância termine por segregar e discriminar os heterossexuais. É trazer os varões para o diálogo, ouvindo-os e percebendo os próprios caminhos criados por eles para a construção de uma nova masculinidade possível, que consiga ser uma leitura de gênero sem ser androcêntrica.

Acima de tudo é imprescindível acompanhar os avanços dos estudos de geneticistas e bioquímicos sobre sexualidade, constituição hormonal, estruturação sexual do cérebro humano e tantos outros componentes científicos que irão nos auxiliar na reformulação de novos postulados teóricos e para um estudo de gênero relevante para a teologia brasileira e latino-americana e principalmente para a práxis pastoral no seio da igreja.

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Ecofeminismo: novas relações, nova terra, novos céus...; 175/176, Fontes e caminhos ecofeministas.

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Notas:
[1] RIBLA – Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana.


[2] RICHTER REIMER, Ivoni, Respiros... entre transpiração e conspiração, p. 158.
[3] Idem.
[4] Devemos fazer a devida diferenciação entre sexo (gênero da pessoa, constituição bio-física) e sexualidade (comportamento sexual), podendo esta ser resultante da constituição bioquímica e endócrina de uma pessoa (exposição hormonal determinada no código genético) bem como da estruturação neuro-psíquica (cérebro e inteligência emocional). Para aprofundar esta questão vale conferir: PEASE, Allan; PEASE, Bárbara. Porque os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? Especialmente os capítulos que trabalham a estrutura hormonal e cerebral de heterossexuais e de homossexuais , p. 36-59 e 115-124.
[5] TURNER, William.B. A genealogy of Queer Theory, p. 22, citado e traduzido por: MUSSKOPF, André Sidnei. Corporeidade queer: Hermenêutica Bíblica e Teologia. André Sidnei Musskopf é o teólogo sistemático brasileiro pioneiro nas pesquisas sobre teoria/teologia queer. Sua vasta bibliografia é acessível pelo seu currículo na plataforma lattes.
[6] PEASE, Op. Cit., p. 115-124.
[7] Idem.
[8] MUSSKOPF, André. Além do arco-íris, p.155.

ENTREVISTA
MARCELLA ALTHAUS-REID
Teologia indecente

Polêmica e provocadora, a professora de Ética Cristã da Universidade de Edimburgo reivindica um Cristo bissexual





No fim dos anos 90, a teóloga Marcella Althaus-Reid começou a escrever um livro para ela e para seus amigos. Era um desabafo de quem, ainda na infância, sentia que não cabia em nenhuma fôrma: nem a da família, nem a da sociedade. O livro fez tamanho sucesso em particular que ela foi convencida a publicá-lo. Indecent Theology (Teologia Indecente) foi lançado no Reino Unido em 2000 e Marcella nunca mais parou de produzir polêmica. No ano passado, ela botou no mercado outro livro provocador: The Queer God (O Deus ''Esquisito''). A palavra inglesa queer é habitualmente traduzida como ''gay'', mas Marcella a usa no sentido original da Cultura Queer, um movimento que surgiu em Londres e Nova York no fim do século XX e ganhou importância na política e no comportamento. Nele, Queer é compreendido como aquilo que está fora da possibilidade de formatação ou definição, para além da ordem. É transgressor, mas também indefinível.

Os dois livros de Marcella - há mais três no prelo - giram em torno desse pensamento, ainda pouco conhecido no Brasil. Marcella defende a idéia de que a teologia precisa resgatar o que é tradicionalmente excluído: não só os pobres, mas a sexualidade. Propõe uma teologia ''sem roupas íntimas'', contesta a ''ideologia heterossexual'' da Bíblia e lança um Deus de muitas faces - à imagem e semelhança de todos e de nenhum em específico. Provocadora - por convicção e por marketing -, essa argentina convertida em escocesa, criada na religião protestante quacre, esteve no Brasil pela primeira vez no fim de agosto, a convite da Universidade Metodista de São Paulo. Fez conferências e esvaziou as livrarias paulistanas dos livros do poeta Glauco Mattoso, de quem é fã confessa. Deu a seguinte entrevista a ÉPOCA.



ÉPOCA - Você diz que a Teologia Indecente é como levantar as saias de Deus. O que isso significa exatamente?
Marcella Althaus-Reid -
A Bíblia está cheia de metáforas sexuais. O cristianismo vem de uma metáfora sexual - um Deus que tem amores com uma mulher e dessa relação amorosa nasce Cristo. Sai tudo de uma matriz sexual que querem sempre dessexualizar. Uma nuvem, uma pomba, um anjo. E essa mulher é comprometida, aparece com uma gravidez que não sabem de onde vem. ''Mas quem é teu pai?'', deviam dizer a Jesus quando ele andava por Israel. Então, em vez de rechaçar a metáfora sexual, eu brinco com ela. O cristianismo entende e organiza o mundo a partir de uma ideologia heterossexual: a família, a subordinação, a dualidade. Minha proposta é pensar uma fé e uma teologia a partir de experiências sexuais diferentes. Não a dos gays, ou a das lésbicas, ou a dos travestis, mas a partir da Teoria Queer, uma espécie de guarda-chuva que abriga toda a diversidade sexual. Quero saber, por exemplo, como um travesti se relaciona com o sagrado, como é o Deus do transexual. Minha teologia não é sobre igualdade, é sobre diferença.

ÉPOCA - Como é o Deus ''Queer''?
Marcella -
É um Deus que não está terminado. Temos Deus saindo do armário ao dizer ''não posso ser Deus, tenho outra identidade, preciso ser homem''. Não é um gesto de doação aos homens, mas uma necessidade de Deus de revelar-se. Dizer: ''Sou frágil, sou humano''. Sair desse armário lhe custou caro. Essa é uma interpretação nova de Deus, a partir de outra maneira de se relacionar com a divindade. Essas metáforas do Deus perfeito, da sabedoria suprema, do terminado vêm de uma maneira de pensar pré-moderna. Eu trabalho com o pós-moderno. O Deus Queer é um Deus inacabado. Em processo, ambíguo, de múltiplas identidades, que nunca terminamos de conhecer porque, quando o abarcamos, escapa, há mais. Não quero um Deus do centro hegemônico, um rei que vem te visitar na favela, te dá a mão e diz: ''Eu sou Deus, tenho um reino e sou tão bom que venho te visitar. Mas, agora, dá licença que tenho de voltar ao Reino dos Céus''. Falo de um Deus que abre seu armário e diverte seus amigos, dizendo: ''Agora sou Marlene Dietrich''.

ÉPOCA - Por que indecente? O que, então, é decente?
Marcella -
Eu vivi na Argentina durante toda a ditadura militar. A dialética decente-indecente foi muito importante para minha geração. Os militares tinham uma moral sexual muito restrita. E tudo isso no meio de um discurso político, mas também religioso: o discurso da decência. E nada mais indecente, no sentido ruim da palavra, do que o que eles diziam e faziam. Então eu tomo o oposto. Se isso é decente, então sou indecente. Não quero incluir-me. Eu quero permanecer às margens e quero reivindicar um Deus que é marginal. Sou indecente, graças a Deus.




ÉPOCA - Você fala de um Bi-Cristo, um Cristo bissexual…
Marcella -
Que sabemos da sexualidade de Jesus? Nada. O que dizem os Evangelhos? Dizem que foi circuncidado. Que falava nas sinagogas e conhecia as escrituras. Esses são os poucos detalhes que sabemos de Jesus. Eu sei que Jesus foi homem, mas gosto de dizer que sabemos que foi homem por uma ou duas coisas. Da sexualidade de Jesus não sabemos nada. Porque ser homem não significa ser homem. Então, por que não assumir que Jesus teria outra sexualidade? E qual poderia ter sido? Busco elaborar um Bi-Cristo. Mas não para buscar experiências sexuais. É a forma de pensar que me interessa. Bissexualidade é tabu. Os gays não gostam. As lésbicas não gostam. Dizem: ''Decida-te''. Aí pensei em levantar essa bandeira que, por ser crítica, é muito interessante. O Bi-Cristo é um Deus que está no meio, pode entender as diferenças e amá-las. Um Deus que não pode ser encaixado em uma identidade fixa porque nunca se define completamente. É um Messias amplo.

ÉPOCA - Você é uma crítica da teologia feminista. Diz que o gênero não é uma mudança estrutural, apenas uma troca de roupa. Como é isso?
Marcella -
Critico a teologia feminista porque é uma teologia de igualdade. E eu busco uma teologia da diferença. Deus não é mãe. Botar a mãe no lugar do pai é só uma troca de roupagem. Não me interessam as metáforas de maternidade e de paternidade. São coloniais. Madre Espanha, Madre Portugal, Madre Igreja. Elas implicam a existência de um menor de idade. E eu quero sair disso.

ÉPOCA - Você também diz que a Teologia da Libertação está estagnada...
Marcella -
Está estagnada, mesmo, em todo o mundo. Mudou o cenário político. A Teologia da Libertação tinha uma análise marxista antiga que não pode pensar bem os temas da globalização, que é um fenômeno mais cruel. Continua fixa numa perspectiva histórica dos anos 70. É um discurso do pobre, não do excluído, que é outra história. É muito bonito dizer que existe um cristianismo da América Latina, uma Igreja do pobre, comprometida. Mas o que foi proletariado está hoje nas ruas, não tem onde viver. A Teologia da Libertação perdeu tudo isso. Os teólogos ainda querem falar sobre fábricas e operários, mas fábricas e operários não fazem mais parte da realidade.

ÉPOCA - Você acusa a Teologia da Libertação de autoritária...
Marcella -
Ela é. Tem estrutura colonial, da Igreja européia. O pobre é visto como o nativo, a criança, o inocente. Tem de ser pobre e inocente, não pode ser pobre e gay. Tem de ser pai de família. As mulheres têm de dizer obrigada, padre, o senhor é muito amável. Mas o pobre rebelde, que não diz por favor, mas diz ''me dá o que eu preciso'', instala toda uma tensão de poder. O teólogo da libertação é paternal, é bom, sempre concede, não te trata por igual. Aí há um problema. Eu sempre digo: onde estão os discípulos de Leonardo Boff, de Gustavo Gutiérrez? Não há. Nem sequer formaram discípulos porque são muito centrados em si mesmos. Eu entendo que no tempo da ditadura se necessitava de líderes, mas os téologos da libertação não fizeram a transição para a democracia.

ÉPOCA - E o que vai ocupar esse vazio, a Teologia Indecente?
Marcella -
Não estou questionando o compromisso com os excluídos, mas quem são eles. Teologia é uma caminhada. Temos de seguir. A Teologia Indecente é uma forma de seguir, mas há outras. Elas tratam de refletir todas as lutas, não só a luta do pobre. Mas a luta do travesti, do negro, do amarelo, de todos. O mais importante, penso, é que não se façam ideologias, que são sempre impostas. O único jeito é o diálogo dos diferentes.

ÉPOCA - Mas o fundamentalismo não pára de crescer...
Marcella -
Marx dizia que a religião é o ópio do povo. Mas ópio, no tempo de Marx, era remédio, acalmava a dor. Por isso eu sou cuidadosa antes de sair tachando de falsa consciência. Se você precisa sobreviver 24 horas por dia e não tem nada, necessita agarrar-se a algo religioso, sólido, fundamental. É uma necessidade emocional num mundo sem sentido. Que seja falsa consciência, que seja ópio, aplacar a dor não é pouco. Tem de respeitar as pessoas quando elas dizem que precisam rezar o rosário para seguir a vida. Basta ver que o pentecostalismo, a idéia de que o Espírito Santo cura, cresce nos países onde a Medicina é cara. Os dons do Espírito Santo são materiais, refletem uma vida material difícil. Por outro lado, há coisas interessantes nesse processo, como a ruptura com um tipo de igreja burocrático, uma espiritualidade intelectual, que não se relaciona com o povo.

ÉPOCA - No Brasil, o Supremo Tribunal Federal se prepara para votar uma ação que permite a interrupção da gestação em casos de anencefalia. A Igreja Católica se opõe. Por que você acha que esse tema é tão caro à Igreja?
Marcella -
A Igreja Católica, como outras, tem um problema com a definição de vida. Preocupa-se com o feto, mas não com as mulheres que morrem nas macas do aborto. Tem um conceito de vida estranho e seletivo. É misógina. A mulher é inimiga, representa a tentação, a queda. O homem tem algo que representa a divindade, a mulher não. Por isso não pode ser sacerdote. Há outros casos, como quando é preciso escolher entre a vida da mãe e a do feto. Os católicos santificaram aquela mulher, como é mesmo o nome?

ÉPOCA - Gianna Beretta Molla. (Em 1962, Gianna, com um tumor no útero, preferiu morrer a abortar a quarta filha. Foi santificada em maio.)
Marcella -
Essa. Porque preferiu deixar três filhos órfãos a abortar o feto e salvar sua vida. Incrível. Imagino que deva ter sido assim: ''Antes de cuidar de todas essas crianças, eu morro. É muito trabalho!''. Virou santa. Esse é o componente misógino. Mas nem todos os católicos são assim. Estou convencida de que a Igreja tem um falo muito grande e, ao mesmo tempo, tem uma base homossexual muito grande. Misógina e homossexual porque a misoginia impede seus membros de conhecer e amar as mulheres. Não que tenham amantes, mas é como são formados. A mulher é um marciano. Na questão do aborto, o que dói é que a Igreja não discute com seriedade. É autoritária. Diz que isso não se discute porque Deus disse. Mas Deus disse o quê? Tem de acabar com esse discurso. Deus não disse nada. Toda doutrina é escrita por contendas políticas. Assim, o que tem de acontecer é que o debate do aborto tem de ser retirado da Igreja, tem de acontecer na esfera dos direitos humanos.








ÉPOCA - O que você achou do último documento do Vaticano (''Carta aos bispos sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo'')?
Marcella -
Quase morro de rir. É um documento primitivo. Se um aluno meu escreve um ensaio desses, eu devolvo e mando ele ler mais. Me assombra um papel tão ignorante, porque na Igreja Católica há gente muito inteligente. Um discurso baseado na interpretação simplista da Bíblia, da Arca de Noé, mas o que são essas mitologias depois de Marx, de Freud? E ao final diz que as mulheres têm de ser mães. Não podem ser sacerdotes, mas podem contribuir muito porque são especiais. Estou sempre contra aqueles discursos que falam de como a mulher tem mais ternura, cuida mais das pessoas. Eu, não. Sou um desastre, não cuido de ninguém. Fui chamada para comentar o documento numa rádio da Grã-Bretanha. Eu não tenho nada a dizer. Algumas feministas ficaram indignadas. Achei engraçado. Não é para levar a sério. É para rir.

ÉPOCA - Qual foi a repercussão de Teologia Indecente?
Marcella -
Eu me surpreendi, fui bem recebida e não estou acostumada. Ganhei muitos rosários. Teólogos me escreveram dizendo que estavam no armário. Não porque são gays ou se vestem de mulher, mas porque estão no armário heterossexual. Falo de adultério, de promiscuidade. O casamento às vezes funciona, às vezes não, funciona para alguns, para outros não. Eu não funciono com o monoamor. Sou poliamorosa.

ÉPOCA - Como você se define?
Marcella -
Eu não me defino nunca. Sou Queer.

ÉPOCA - Você é bissexual?
Marcella -
Suponho que sim. Amei homens, amei mulheres, nunca sei a quem vou amar. Amo. Na Grã-Bretanha não me interessam os homens. Já no Brasil vejo os homens e penso: hum… até poderia chegar lá.






















União civil homoafetiva reconhecida. Entrevista com Frei Gilvander Moreira  

Dia 13 de maio de 2011, o jornal O Globo, publicou a entrevista com frei Gilvander Moreira sobre a decisão do STF que reconheceu juridicamente a União Civil Homoafetiva.

A entrevista enviada, via e-mail, para o jornal não foi publicada na íntegra. Vários cortes foram feitos.

Eis, abaixo, a íntegra da entrevista enviada por Frei Gilvander Moreira.

Frei Gilvander Luís Moreira é padre da Ordem dos carmelitas, mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblica, de Roma, Itália; é professor de Teologia Bíblica; assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT -, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI -, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB - e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis a entrevista.

Como o senhor recebeu a decisão do STF?

 Com alegria, pois é uma vitória dos Movimentos e Grupos que historicamente vêm lutando pelo direito à liberdade sexual homossexual. Nesse caso, o STF posicionou-se com justiça e equidade. A sociedade está em constante transformação, e esse grupo em questão existe e está no dia a dia vivendo e construindo suas relações à margem da sociedade. Devido a isso o Direito não podia mais se esconder ou por uma venda e continuar negando esse direito par as relações homoafetivas. Nesse caso, o STF deu exemplo de coragem e cidadania. Tornou-se visível o invisível. Declara-se assim o início do fim da hegemonia da moral heterossexual. Abre caminho para a afirmação à luz do dia das mais de 60 mil uniões estáveis entre homossexuais no Brasil (Cf. último Censo do IBGE) que até aqui pagavam um altíssimo preço pela sua orientação sexual. 

Dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal, ao decidir por unanimidade reconhecer, juridicamente, a união civil homoafetiva, reconheceu como legítimas e constitucionais decisões que já acontecem em dez estados brasileiros em 1ª e 2ª instâncias e em mais de vinte países. Nessa decisão, o STF está de parabéns. Esperamos que assim prossigam as decisões do Supremo, pois em muitas outras decisões, o STF não tem seguido os princípios constitucionais do respeito à dignidade humana, do republicanismo, da função social da propriedade... deixando campear pelo Brasil uma série de injustiças estruturais, tais como a falta de reformas agrária e urbana.

Como o senhor vê hoje a situação dos homossexuais no Brasil?

Segundo o pesquisador Luiz Mott (prof. emérito da UFBA), o mais preocupante é que o registro de violência contra a população LGBT vem aumentando ao longo dos anos. “Nunca se matou tanto homossexual no Brasil quanto agora”, afirmou.

De janeiro a novembro de 2010, Luiz Mott contabilizou 205 assassinatos entre a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais)  no País.

Mott, que faz o levantamento desse tipo de crime desde 1960, relatou que, entre 1960 e 1969, foram 30 ocorrências; na década seguinte, chegaram a 41. De 1980 a 1989, o número de registros chegou a 369; saltou para 1.256 nos anos 90 e atingiu 1.429 casos na primeira década deste século. Estima-se que o número de casos de discriminação da população LGBT atinge entre 10 mil e 12 mil por ano no País.

O senhor considera a sociedade brasileira preconceituosa e intolerante?

Infelizmente estamos sim numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica. Ainda há muito moralismo, fundamentalismos e sectarismos em segmentos conservadores de igrejas e da sociedade que ficaram irritados e questionam o acerto da decisão do STF. No último censo do IBGE foi declarado que há mais de 60 mil uniões estáveis homoafetivas no Brasil. O movimento que defende os direitos dos homossexuais está crescendo, o que é muito bom. Na decisão do STF - que reconheceu a união civil entre as pessoas do mesmo sexo - não se pode deixar de destacar e parabenizar a luta do Movimento pelos direitos dos homossexuais, que incansavelmente, no Brasil e no mundo, vem marchando pelas ruas, erguendo suas bandeiras, gritando de diferentes formas o direito que agora é reconhecido. Os ministros do STF não criaram uma novidade, mas em cada voto ecoaram os clamores das pessoas homossexuais que lutam pela afirmação de seus direitos há tanto tempo.



O senhor já ouviu confissões de pessoas que se declararam homossexuais? Que conselhos costuma dar para as que reclamam de preconceito?

Eu já ouvi sim confissões de pessoas homossexuais. Uma, por exemplo, chegou e me disse: “Gostei muito da sua homilia na missa de ontem. Por isso resolvi vir confessar. Frei Gilvander, ser homossexual é pecado?” Diante de uma pergunta tão direta assim ainda no início da confissão, percebi que tinha que conversar antes de responder sim ou não. A pessoa acabou me dizendo que após refletir muito  tinha resolvido contar para a família que estava assumindo a orientação sexual homossexual. Disse que estava sofrendo muito, sendo discriminado pela família, por colegas na escola, nas ruas, por onde ia. Disse que resolveu me perguntar se era ou não pecado, porque tinha lido em um livro da Renovação Carismática onde se dizia que não era pecado ser homossexual, desde que não colocasse em prática o sentimento. Ele me disse que não tinha como não colocar em prática. Por isso queria  saber se é ou não pecado, pois se for pecado, preferia suicidar a ter que viver sendo discriminado e humilhado.

Ouvi e conversei com essa pessoa mais de uma hora. Eu disse a ela que se o elo mais forte de uma corrente é o elo mais fraco, só poderá ser mais justo e aplaudido por Deus, um mistério de amor que nos envolve, o que for tratado a partir do elo enfraquecido e discriminado. Numa sociedade preconceituosa, intolerante, hipócrita e cínica, os homossexuais são um dos elos discriminados. Feliz do povo que houve os clamores dos que fazem outra opção sexual senão a hegemônica.  Quanta dor! Quanta lágrima derramada! Quanta cruz carregada! Deus ouve os clamores de todas as pessoas que são oprimidas. Deus é amor e não discrimina ninguém e nem pune ninguém por opção ou orientação sexual. Deus não faz acepção de Deus. Deus acolhe a todos sem distinção.

Eu disse ainda que devemos respeitar todos, mas não podemos respeitar todos da mesma forma. Devemos respeitar as minorias - – sem terra, mulheres, negros, deficientes, idosos, indígenas, homossexuais, sem casa etc – nos colocando na e da  perspectiva deles para a partir deles nos posicionar sobre o que deve ser considerado justo e ético. E devemos respeitar os diferentes que estão na classe dominante – latifundiário, machistas, racistas, “normais”, fortes, brancos, heterossexuais, especuladores etc – fazendo de tudo para retirar das mãos deles as armas de opressão com as quais discriminam, muitas vezes, inconsciente e involuntariamente.

Sentindo-se compreendida e acolhida, a pessoa desistiu do suicídio. Ergueu a cabeça, levantou-se e foi embora.

A união civil entre pessoas do mesmo sexo ameaça a instituição familiar?

Penso que não por vários motivos. São minorias e há uma grande pluralidade de famílias hoje. Há familias tradicionais; famílias só com mãe e filhos (monoparental); 80 mil famílias sobrevivendo debaixo da lona preta em acampamentos clamando por reforma agrária; milhares de famílias que sobrevivem apertadas em um único quarto de cortiço; milhões de famílias arrochadas em barracos nas favelas; famílias só “marido e mulher” sem filhos etc. Por que não pode haver também famílias homossexuais? Por moralismo? Mais: concordo com Gerson Henrique, que, em monografia sobre Famílias Reconstituídas, pondera: “Sendo o Brasil um estado laico, que consagra o pluralismo, o respeito à diversidade e a autonomia da pessoa, não é coerente que a ordem infraconstitucional estabeleça modelos ideais de família, excluindo outros já existentes no cenário social. Uma vez reconhecida a autonomia da pessoa na formação da sua família e a natureza sócio-cultural desta, o ordenamento jurídico terá de reconhecer-lhes os efeitos apesar dos matizes com as quais se apresentar. Importa destacar o vínculo afetivo e o reconhecimento de pertença dos membros ao grupo por eles designado como família.” No Direito de Família contemporâneo existe uma crescente abertura às distintas modalidades de constituição familiar e a dimensão do afeto é muito considerada na hora de reconhecer direitos, o que considero pertinente eticamente.



Como o senhor entende as referências diretas ou indiretas da Bíblia sobre o tema? Ser homossexual é ser impuro, como sustentam os mais conservadores?

Na Bíblia, o primeiro relato da Criação (Gênesis 1,1-2,4a) mostra o ser humano profundamente ligado e interconectado a todas as criaturas do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Nas ondas da evolução, Deus, ao criar, sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom! Muito bom!” O livro de Atos dos Apóstolos resgata, nas primeiras comunidades cristãs, essa mística ao dizer que não há nada impuro. Tudo é puro, é sagrado. Deus não faz acepção de pessoas, não discrimina. O apóstolo Pedro ressalta a ordem divina de não chamar de profano ou de impuro nenhuma pessoa (Atos dos Apóstolos 10,28). Pedro muda de atitude e passa a perceber que Deus não faz discriminação de pessoas. O importante é a prática da Justiça (Atos dos Apóstolos 10,34-35). O autor da Carta de Tiago nos alerta que Deus não faz distinção de pessoas, mas faz opção pelos pobres. Não é tolerável rico discriminar pobre. (cf. Carta de Tiago 2,1-9). Numa sociedade hegemonicamente heterossexual, os homossexuais são pobres. Por isso, devem ser respeitados e compreendidos.



Como o senhor avalia o desempenho do movimento gay no Brasil?

evoluiu bastante, mas não pode ficar só nas reivindicações corporativistas, ou seja, defendendo só os direitos deles. É preciso se aliar aos outros movimentos populares que lutam pela construção de uma sociedade justa, solidária e sustentável ecologicamente. Fará um bem enorme ao povo quando os vários movimentos populares, que lutam pelos direitos das minorias - que numericamente são maiorias -, atuarem em unidade e solidariamente: os movimentos dos Sem Terra, dos negros, dos indígenas, dos sem casa, dos deficientes, dos homossexuais, dos desempregados etc, enfim, toda a classe trabalhadora unida e lutando pelos direitos de todos, defendendo toda a biodiversidade e construindo uma sociedade que caiba todos.



A postura da Igreja em determinadas questões atrapalha a conversão de novos fiéis?

Há igrejas e não apenas igreja. Por exemplo, na Igreja católica há Igreja instituição - diáconos, padres, bispos e papa – e há a igreja que é povo de Deus. É óbvio que quando membros da Igreja instituição se posicionam de forma moralista, proselitista e autoritária afugentam muitas pessoas. Mas quando membros da igreja ouvem, dialogam e, inspirados no evangelho de Jesus Cristo, testemunham um projeto de vida que busca realizar o grande sonho do Deus da vida, que é vida e liberdade em abundância para todos e para toda a biodiversidade, aí, sim, cativam muitas pessoas para se engajarem em projetos humanizadores.



O que o senhor tem a dizer sobre o uso da camisinha?

É claro que devemos preservar a vida nossa, do próximo e de toda a biodiversidade. Para isso é necessário várias coisas. É necessário sim usar camisinha nas relações sexuais, por questão de saúde pública e por respeito à sacralidade de cada pessoa. Não podemos correr o risco de contrair HIV e/ou doenças sexuais transmissíveis que matará o outro aos poucos. Isso não tem o apoio do Deus da vida. Mas camisinha não é panacéia para todos os males. Além do uso da camisinha, é necessário, para preservar a vida das pessoas, realizar reformas agrária, urbana e educacional. É preciso mudar o modelo de programação televisiva e dos meios de comunicação. Enquanto houver o sexismo, imoralidades e erotismo sendo trombeteados aos quatro ventos através de novelas e filmes, reduzindo a mulher a objeto, infelizmente só usar camisinha será um paliativo. É preciso educação de qualidade e elevar o nível cultural da sociedade. Estrangular o narcotráfico e mudar a política econômica destinando a maior fatia do orçamento do país, não para pagar dívida pública e investir em infraestrutura que viabilize crescimento das grandes empresas, a fina flor do capitalismo, mas investir pesadamente nas áreas sociais. Isso tudo junto com os uso da camisinha poderá nos levar a vida com mais dignidade.



Sua posição a respeito de tais temas é solitária na Igreja?

Não. Há muitos teólogos e teólogas, cristãos e cristãs, que partilham conosco essas posições. Todo o povo da igreja que participa da Teologia da Libertação. Comunidades Eclesiais de Base – CEBs -, pastorais sociais e muitos movimentos eclesiais. Na Igreja Instituição há membros que comungam conosco dessa visão mais compreensiva com os direitos das minorias e há também outros profissionais do sagrado que ficam indignados com essas posturas mais ecumênicas e proféticas.



O que ainda há a ser feito pelo direito das minorias no país?

A luta continua. Luta contra a homofobia, o preconceito e o conservadorismo que só excluem e negam a liberdade e a dignidade constitucionalmente garantidas e biblicamente amparadas. Faz-se imprescindível, como ensinou Paulo Freire, educar para a indignação. Indignação diante das injustiças sociais e das violações aos direitos humanos e planetários. Enfim, é ético seguir o seguinte princípio: No necessário, a unidade; no discutível, a liberdade; em tudo, o amor.

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