Marcelo Almeida do Nascimento



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Marcelo Almeida do Nascimento

Do amor

e outras imperfeições da vida

Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida?”


Milan Kundera

jan/2005

Personagens:


Stella (Estrelinha)........................................................Sra. Estela

Agnes (Docinho)..........................................................Sra. Agnes


Mauro (Bam Bam)...........................................................Sr. Mauro
Regina (Rê)...................................................................Sra. Regina
Thiago (T.T.).................................................................Sr. Thiago
Ariosvaldo (Ari)

Duas vidas todos temos,

Muitas vezes sem saber.


A vida que nós vivemos,

E a que sonhamos viver.

ATO I

(No palco há uma fachada da varanda de uma casa de fazenda. As janelas são de cor azul e as paredes de cor branca. Há três portas. Uma grande, central, e duas laterais, também pintadas de cor azul. Um pequeno telhado vermelho protege a varanda, cujo chão é de madeira envernizada. Mesas, poltronas e cadeiras estão distribuídas pelo local. Adornando o espaço há vários vasos com flores e plantas de tipos e tamanhos variados. Lampiões a gás pendem do telhado em ambas laterais. Ouve-se um agradável som de águas correndo em um ribeirão e pássaros gorjeando ao longe. Uma luz amarela pálida clareia todo lugar. É final de tarde de um dia quente).


Surge Stella. Veste roupas leves e coloridas. Em uma mão carrega uma mochila e em outra um ramo de flores. Está radiante e feliz, falando de forma maravilhada.

Stella – Nossa! Que lugar lindo! Que maravilha! Que Maravilha! Aí, Meu Deus! Acho que eu não vou nunca mais querer sair daqui. Olha! Tudo pintadinho, tudo tão bonitinho. Hei! Passarinhos! Tem passarinhos por aqui! Olha! Escuta! Aí que gostoso. Tudo tão bonito. Tão... Tão... Nossa! Tão perfeito. Essas flores, esse dia. Meu Deus, que lindo! Que lindo!

Entra a Sra. Estela. Veste roupas sóbrias e quentes. Traz uma mala com rodinhas, um lap top e uma bolsa de mão. Está cansada e contrariada. Senta-se espalhafatosamente em uma das poltronas da varada, falando de maneira estapafúrdia. Stella fica a observá-la.

Sra. Estela – Olha eu aqui de novo! De novo! Eu não acredito! No meio do mato, longe da civilização, longe de qualquer coisa que realmente importe. Maldito lugar. Quente e cheio de bichos peçonhentos. Droga! (abre sua bolsa e saca um aparelho de telefone celular) Sabia! Eu sabia! Essa merda não pega num fim de mundo como esse. Tomara que pelo menos tenha telefone fixo aqui. Preciso fazer uma reunião ainda hoje. Merda! Por que diabos eu fui aceitar voltar aqui? Por quê? Por quê? Graças a Deus eu não tenho mais nada a ver com esses idiotas. É que a Regina... A Regina e o Mauro conseguiram encher tanto a minha paciência que eu acabei cedendo. Mas maldita hora em que resolvi voltar aqui. Maldita! Na verdade, maldito dia em que os encontrei, maldito dia em que eles entraram na minha vida. Maldito!

Stela – (olhando para Sra. Estela e segurando o ramo de flores) Num lugar tão bonito como esse o mundo parece ser tão perfeito, um paraíso...

Sra. Estela – (cansada, jogando a cabeça para trás) – Paraíso! Paraíso! Quem disse que um lugar enfiado no meio do mato onde nem o celular pega é um paraíso? Um lugar perfeito? Não tem t.v. a cabo, não tem lavanderia, não tem restaurante, não tem cabeleireira, nada. Nada. Só esse tédio. Só o tédio de não se ter nada de útil para fazer.

Stella – Embora, sinceramente, eu ainda prefira uma praia. Água, sol, gente malhada e bonita. É até mais divertido. O campo, o mato, ou até mesmo uma fazenda como essa têm lá seu encanto, sua simpatia.

Sra. Estela (abrindo o lap top) – Um lugar frio. Esse lugar é frio. Distante. Estranho. Principalmente à noite. As plantações, os bosques, as vegetações ao longo do rio se tornam tristes, escuras e esquisitas... Sinistras com a tênue luz do luar a tentar iluminar aquela plenitude negra e misteriosa, deixando uma vertiginosa sensação de que não estamos sós... Como se algo estivesse escondido entre as árvores e as plantações. Como se na escuridão, naquele tremendo breu, algo, alguma coisa, ficasse sempre a sua espreita... Te observando, pronto a atacar a qualquer momento.

Stella – Aqui nesse lugar, em contato direto com a mãe natureza a gente se sente mais perto de Deus. Da essência que é a vida. Da simplicidade que a nossa vida deve ser. (fecha os olhos, imaginando) Da luz do sol, da delicadeza das flores, da pureza do ar, da beleza dos animaizinhos. Da vida. Isso é que é vida. Vida!

Sra. Estela – (erguendo-se do sofá) E eu. De novo aqui. Tendo que deixar a minha vida para trás por culpa deles. Tudo sempre por causa deles. Foi sempre assim. Desde os tempos da faculdade. Desde os tempos da faculdade... Nossa! E faz tanto tempo...

Stella – Eu sempre fico pensando... Será que a vida na cidade realmente importa? Se formar, conseguir um emprego bom, ter muito dinheiro e muita dor de cabeça... Será que é isso que a gente deve buscar? É isso que deve ser a nossa vida? É isso o que realmente importa? Ou ser feliz é viver bem, é estar bem, é se sentir bem? É viver num lugar perfeito como esse, longe da poluição, do stress, da vida caótica da cidade? Ah... Como eu gostaria de viver para sempre num lugar como esse... Para sempre. Para sempre!

Sra. Estela (aproxima-se de Stella) De dia essa fazenda era maravilhosa... Parecia ter vida, parecia ter paz... Eu me lembro como era diferente, como transmitia paz e serenidade...

Stela – (com os olhos fechados e inalando o perfume das flores) Viver uma vida feliz. Ter felicidade, porque a felicidade não está apenas em viver. Está também no saber viver.

Sra. Estela – (encostada nas costas de Stela) A luz do sol encantava a terra, as flores o rio... Era diferente. Tudo era diferente. A vida era outra. (fecha os olhos e, como Stella, fica a imaginar e recuperar em sua memória coisas boas.) Tinha cheiro! (sorri) Cheiro de delícias! Cheiro de vidas!

Stela – Viver junto com um marido lindo e atencioso...

Sra. Estela – O cheiro do mato crescendo, da chuva levantando a poeira da estrada de terra, das flores, dos eucaliptos...

Stella – Filhos amorosos, lindos e inteligentes...

Sra. Estela – Um café passado na hora, uma broa de milho tirada do forno...

Stella – Leve, leve, muito leve;

Sra. Estela – Um vento muito leve passa;

Stella – E vai-se, sempre muito leve;

Sra. Estela – E eu não sei o que penso nem procuro sabe-lo1;

Stella – Eu quero apenas isso... Essa paz... Essa tranqüilidade...

Sra. Estela – Arroz com quiabo e tubaina de abacaxi.

Surge a Sra. Regina. Está extravagantemente vestida, com um tailler roxo, chapéu da mesma cor, sandália salto agulha e bolsa de mão combinando com o chapéu. Traz apenas uma pequena mala e se surpreende tirando os óculos escuros ao ver a Sra. Estela parada no meio da varanda com os olhos fechados, como que sonhando.

Sra. Regina – Credo Estela! O que houve? Tá surtando, meu bem? Ou o calor dessa droga de lugar já cozinhou o seu cérebro? Hei! Psiu! Hei! Acorda mulher! Acorda! Arroz engorda... Ainda mais se a tubaina não for diet!

No mesmo instante surge Regina. Está radiante e feliz como Stella. Veste roupas alegres e despojadas, trazendo uma mochila. Balança a cabeça negativamente ao ouvir o comentário da Sra. Regina.

Regina – Estrelinha! Estrelinha! Amiga! Cheguei! Eu cheguei!

Ambas despertam do devaneio. Sra. Estela abre os olhos e faz uma cara de reprovação a sua própria atitude, indo juntar-se a Sra. Regina, enquanto Stella abre os olhos e um grande sorriso ao ver sua amiga Regina ali. As duas se abraçam e soltam gritinhos juvenis de felicidade, sendo observadas com descaso pelas Sra. Regina e Sra. Estela, que apenas se cumprimentam com dois beijos no rosto e se sentam nas poltronas com ar de enfado.

Sra. Regina – Oi querida! Como tem passado? Credo! Você me assustou com aquela cena. Pensei que tivesse pegado uma insolação!

Sra. Estela – Aí Regina... Você bem sabe que esse lugar não me faz bem... Me deixa... me dá coisas, né? Comecei a passar mal já quando você me convenceu a voltar aqui. Eu odeio esse lugar. Sempre odiei. Desde a primeira vez em que estivemos aqui.

Sra. Regina – Você não é a única a quem esse lugar dá asco. Você há de convir que para mim é muito mais difícil largar tudo e voltar aqui porque ele quis. Mas te agradeço muito por estar aqui comigo. (estende as mãos para a Sra. Estela) Você não tem noção da angústia que estou passando. (recolhendo as mãos e fazendo um ar de enfado) E o trabalho? A quantas anda?

Sra. Estela – Ah... Você sabe. Ser vice-presidente de uma empresa não é fácil. E lá eu aprendi que homem não gosta de mulher que não descruza as pernas quando estão em reunião. Eles sequer olham para você. Ficam lá, com seus ares arrogantes e superiores de macho, fingido não dar a mínima para sua presença, mas dando uma de gostosos, espichado os olhos para sua bunda quando você se levanta, tentando ver se você está usando calcinha. Mas eles aprenderam a me respeitar rapidinho. Era simples. Eu tinha mais poder que eles. Ou diziam sempre sim senhora ou olho da rua. E você sabe. Entre se humilhar para uma mulher e se humilhar na fila do desemprego, eles preferem a minha enérgica companhia, claro.

Stella – (admirando a amiga Regina) – Rê! Você tá ótima! Tá linda! Toda linda!

Regina – (suspirando) Aí! Você gostou mesmo da minha roupa nova? E o cabelo? Será que com esse calor ele não vai ficar feio? Eu pensei em alisar, mas fiquei com medo de pegar chuva. Eu trouxe umas chuquinhas e umas piranhas para prendê-lo. O que você acha? É melhor eu prender ou deixar assim?

Stella – Não. Assim tá ótimo! Você tá muito bonita! Lindinha! E esse lugar não pode deixar ninguém feio. Ele é maravilhoso. Ele é tudo... tudo, você não acha? Eu tava até pensando em morar aqui.

Regina – Quem sabe... Acontecendo o que eu quero até deixo você vir me visitar aqui! (soltam risadinhas)

Stella – Ai amiga! Esse lugar me deixa tão à vontade... Eu acho que sempre quis morar no campo. Talvez na minha outra encarnação eu tivesse vivido no campo, ter sido alguma camponesa ou algo parecido. Eu tenho muita afinidade com a terra, com as árvores... Embora eu goste muito de uma praia cheio de gatinhos saradões!

Regina – Eu já sei! Eu já sei! A gente passa seis meses aqui e seis meses na praia. O que você acha? Você com seus gatinhos saradões e eu com o meu amor... Com o amor da minha vida!

Mostrando um ar de enfado, a Sra. Estela, olha com certo interesse para o sapato da amiga.

Sra. Estela – Gostei do seu scarpim. Você comprou aqui no Brasil?

Sra. Regina - Não! Eu comprei na Gucci de Bervely Hills na última vez que estive por lá. Tive sorte em achar uma peça boa como essa. Não gostei de nada da última coleção.

Sra. Estela – Você é corajosa vindo pra esse fim de mundo vestida decentemente.

Sra. Regina – Tá bom! E você acha que eu usaria uma calça jeans, por exemplo? Nem morta eu entro num trapo daqueles. E você sabe que eu agora não posso abrir mão de me cuidar, de estar sempre bem produzida. Não posso abrir mão de nenhum detalhe da minha aparência. (abre a bolsa e tira um espelho. Fica a se olhar ansiosamente) Ainda mais agora. Ainda mais agora com essa... Com essa...

Sra. Regina suspira fundo, segurando o choro. Abre novamente a bolsa e procura por um lenço de papel. Na outra ponta da varanda, Regina e Stela estão radiantes.

Regina – Aí Estrelinha... Será que ele vai reparar em mim? Hein? Será? Eu tô bem, hein amiga? Vou chamar a atenção dele? Ele vai ficar olhando para mim? Hein?

Stella – Claro amiga! Você tá linda! E não se preocupa com isso, Rê... Você é bonita. Mais bonita do que a outra lá. Pode acreditar.

Regina – Mais bonita que ela, né? Eu sou né? Mais bonita que a Agnes, né? Aí Estrelinha! Se você soubesse como eu sofro. É horrível. Eu sei que ele não gosta dela. Ele não pode gostar. Ela não tem nada a ver com ele. Nada. Eu sim. Eu tenho dinheiro. Tenho berço. Sou melhor que ela, uma empregadinha de escritório. Não se arruma, tem a pele cheia de espinha, não sabe nada. Eu sou a melhor para ele não sou? Eu quero ser a melhor para ele.

Sra. Estela – Pare de se lamentar Regina! Nem fica bem para uma mulher como você ficar chorando por causa de homem. Você sempre teve essa mania de ficar com idéias fixas na cabeça. Antes era aquela maldita dúvida se ele gostava ou não de você.

Stella – (afagando os cabelos de Regina) – Mas ele gosta de você sim! Não se preocupe amiga. Ele sabe disso tudo. Eu sei. E tenho certeza também que ele gosta muito de você.

Sra. Estela – Não é querendo passar a mão na sua cabeça, mas levando em consideração os anos que vocês estão casados e tendo em vista as circunstâncias que levaram vocês a se casarem, eu acho, suponho, um tanto remotamente é verdade, que ele goste, vá lá, um pouco de você. Afinal de contas, a tarefa mais difícil da vida é aprender a esquecer de quem aprendemos a gostar. Seja por bem, seja por mal... Ou quando não existe opção.

Stella – Nós nunca devemos duvidar de quem amamos. Jamais. Devemos sempre procurar entendê-los. Eu acho que os homens são indiferentes às coisas do amor. Para eles, o amor é uma coisa aparte, uma espécie de imposição social. É um sentimento que brota neles por acaso e está relacionado ao sexo assim como... Assim como o futebol à cerveja. É isso. Diferente da gente, de nós mulheres, que sabemos que ele é essencial para nossa vida. Para toda nossa vida.

Sra. Regina – Eu tento acreditar nisso, Estela. Eu tento. Juro. Mas a cada dia que passa ele está mais distante. Cada vez mais distante de mim. Não consigo ignorar isso. Não consigo. Temo que ele vá me deixar. Cada dia que passa eu sinto mais isso. Ele vai querer me deixar. Ele vai me abandonar Estela.

Regina – Eu não sei Estrelinha! Eu não sei! Parece que a cada dia que passa ele fica mais distante de mim. Mais longe. E mais perto dela. Daquela... Daquela desgraçada! Daquela vagabunda! Droga! Aí Estrelinha. Você sabe no que eu acredito, né? Eu sei que não existe amor sem coragem e que não há coragem sem amor. E eu tenho lutado tanto por ele, tenho feito tudo por ele e faria qualquer coisa para me ver livre daquela nojentinha, tirá-la de uma vez do meu caminho e deixar o Mauro livre só para mim. Só para mim.

Sra. Regina – Eu sempre fiz tudo por ele Estela.Oh! Ninguém mais além de você sabe o quanto eu já lutei por esse homem. O quanto eu me sacrifiquei, o quanto batalhei por ele. Chorei, briguei, humilhei-me... Fiz de tudo. Tudo para ficar ele. Tudo para tê-lo nos meus braços.

Stella – Calma amiga. Calma. Não se desespere. Você se lembra do que aprendemos no último curso sobre misticismo? Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor. Lembra disso que a professora falou? Aí ele vai aprender a te respeitar e ver que o seu amor é natural, é puro, é honesto e sincero.

Sra. Estela – Não! Não! Nada disso. Regina! Você parece uma criança chorosa. Pôxa. Você já é uma mulher feita. Já devia ter aprendido que na vida se ganha e se perde sempre. Não existe um campeão constante. Você pode muito bem amá-lo e ir para cama com outro. Qual é o problema? Ou você acha que ele não faz isso com você?

Sra. Regina – Que vai para cama com outra?

Regina – Será que ele vai me amar para sempre? Ser fiel comigo?

Sra. Estela – É claro. É lógico, notório e evidente que a vida conjugal de vocês já acabou faz tempo.

Stella – Claro que sim.Ou você acha que aquela vez que vocês transaram lá na praia foi só por curtição? Hein? Para chegar até onde vocês chegaram é porque existe um algo mais, muito mais além do que uma simples amizade ou uma curtição barata.

Sra. Regina – Disso eu sei. Eu sempre soube. Quer dizer... Eu sempre quis não acreditar que eu soubesse. Achava que o meu amor por ele era cego. E que ele também me amava cegamente e apenas saia com outras mulheres por puro prazer carnal. Mas seu amor, seu verdadeiro amor era por mim. Por mim. E por isso, por esses anos todos, eu sempre me iludi, fiquei acreditando nisso, fingindo não ver as loucuras que ele cometia, seus adultérios, suas mais baixas traições. Afinal de contas, ele sempre voltava para mim. Fosse a qualquer hora, de noite ou de madrugada, depois das mais depravadas orgias, era para mim, ao meu lado que ele voltava. A cabeça de onde pendia o seu sono sincero e tranqüilo ficava ao lado da minha. O seu corpo relaxado depois de uma noite de prazer comigo ou com outra ficava ao meu lado. Eu sempre fui a sua mulher. Sempre. E continuarei sendo. Pode escrever, Estela. Eu sou e serei até fim das nossas vidas sua única esposa e companheira. A única. E não vou assinar nada. Nada. Nada de divórcio, de separação. Nada. É isso o que ele quer. É isso o que ele deve estar querendo. Trouxe-me pra cá, para esse fim de mundo, para que eu não tivesse para onde correr. Sim. É isso mesmo. Ele quer me convencer. Vencer-me pelo cansaço. Deixar-me aqui sem escapatória. Forçar-me a dividir tudo aquilo que eu o ajudei a construir. Para que eu assine os papéis. Os malditos papéis do divórcio. Por isso ele me trouxe de volta para cá e vocês como testemunhas. Mas não Estela. Ah! Não mesmo. Ele não vai conseguir isso de mim. Não vai.

Regina – Sabe com o que eu sonhei, amiga? Eu sonhei que o motivo pelo qual estávamos aqui era porque ele iria me pedir em namoro. Que iria me tirar para dançar, e depois sussurrar no meu ouvido se eu gostava dele. Mas depois, na outra música, ele já me pedia em namoro. E na outra em casamento. E na última música já estávamos casados, juntinhos, dançando sozinhos. Marido e mulher. E ele dizendo que me amava. Que era completamente apaixonado por mim e eu era a mulher da sua vida. Oh Estrelinha! Isso seria tão maravilhoso! Seria tão maravilhoso. De repente... De repente ele pode me pedir mesmo em namoro, você não acha?! É amiga! Até em casamento. Por que não? Os pais deles virão. Os meus também. Aí Estrelinha. Ele me ama, amiga. Ele me ama!

Sra. Estela – Regina! Posso ser sincera com você? Não agüento mais esses seus rompantes de certeza. Alias, de devaneios, pois você nunca teve certeza de nada. Apenas tem essa mania de sabe tudo. Até parece que você nunca erra. Nunca errou. Talvez esse não seja o real motivo pelo qual estamos aqui. Pode até ser mais eu duvido. E deixe-me ser sincera com você definitivamente Regina. Vamos encarar os fatos. Desista do Mauro. Esqueça ele. É isso mesmo amiga. Desista do Mauro!

Stella – Você deve estar certa amiga... Eu acho que é sim. Por isso estamos nesse lugar maravilhoso, amiga. É para que tudo dê certo. Eu sabia que algo de bom ia acontecer aqui nesse lugar logo que cheguei. Parecia que os duendes e todas as fadas me diziam isso. Sim minha amiga. Ele te ama sim. Eu tenho certeza.

Sra. Estela – Ele nunca te amou. Ele nunca gostou sinceramente de você. E o motivo você sabe porquê.

Sra. Regina – Não diga tolices você, Estela. O que você está querendo insinuar? Hein? Que o Mauro ainda se lembra daquela... Daquela mulher maldita? Ora! Por favor, querida! Ele já a esqueceu faz muito tempo. Ele já a esqueceu para ficar comigo. Comigo!

Regina – Eu o quero muito Estrelinha! Quero muito mesmo que ele fique comigo! Nem... Nem que eu tenha que me humilhar, dar tudo o que tenho, abrir mão de tudo, de tudo para ficar com ele.

Sra. Estela – É como dizem por ai. O amor é cego, surdo é burro! Eu estou convicta do que acabei de lhe dizer. Ele nunca esqueceu a Agnes. O amor é uma perigosa doença mental. Dissolve o cérebro e com ele todas as virtudes, valores e amor próprio do individuo. Quando alguém ama, a moral, a consciência, o discernimento, tudo isso acaba. Dissolve-se como açúcar no chá. E apesar dele ter ficado com você, de ter se casado com você, pode ter certeza de que ele nunca esqueceu a Agnes. Meu conselho, meu sincero conselho de amiga, é que você não crie muitas expectativas quanto a ficar sempre com ele e esteja muito bem preparada para o que pode vir a acontecer aqui.

Sra. Regina (levantando-se indignada e indo ao lado de Regina, triste e cabisbaixa, onde pousa sua mão no ombro dela como a consolá-la) – Que idéia! Mas... O que está acontecendo com você Estela? Por que resolveu me chatear agora? Por que está querendo acabar comigo e a minha felicidade? O Mauro me ama. Ele já esqueceu por completo aquela vadia. Eu sei disso.

Regina – O amor é algo engraçado. Nos faz sofrer, nos faz sentir mais fracos, mais vulneráveis... Mas ao mesmo tempo nos dá forças para lutar, para irmos em busca dos nossos desejos, das nossas realizações. E eu o amo, Estrelinha. (vira-se para Sra. Regina) Eu o amo. E eu tenho toda essa força dentro de mim a me mover, a me fazer crescer e ficar forte para não deixá-lo escapar.

Sra.Regina (voltando-se para perto da Sra. Estela) – Viu? Mas eu entendo você Estela. Eu entendo essa sua amargura, esse seu mau agouro contra mim. É você. É você que na verdade não consegue esquecer ele. É você quem entregou os pontos e desistiu de lutar pelo seu amor. E agora quer que eu faça o mesmo. Quer que eu abandone a minha felicidade para entrar no seu clubinho cheio de mulheres recalcadas, encalhadas e abandonadas, não é isso? Não é isso o que você quer?

Sra. Estela – O quê? Eu? Esquecer? Esquecer de quem, oras? Do que você está falando?

Regina – É amiga...Eu vejo nos seus olhos que você não está só feliz por mim. Eles estão tão brilhantes, radiantes. Você também tem esperanças, né Estrelinha? Você também acredita que o T.T. queira você?

Sra. Regina – Não disfarce Estela. Você nunca foi boa nisso. Confesse. Afinal, não é culpa sua. O primeiro amor é um pouco de loucura e muita curiosidade. Você estava louca por ele, louca para conhecê-lo, louca para trepar com ele, não foi? Não foi assim que aconteceu? E depois...

Stella – Oh, Rê... Eu já nem sei o que sinto pelo T.T. É algo tão... É tão forte em mim, mas não sei se ele sente o mesmo. Você e o Mauro estão tão mais pertos, parecem tão mais felizes e feitos um para o outro do que eu e ele. Acho que para ele somos apenas amigos. Ele não presta atenção em mim. Não repara em mim. Nem sei se sabe que eu... Que eu gosto mesmo dele.

Regina – Mas isso é fácil de saber amiga. A distância entre a amizade e o amor pode ser medida por um beijo. Você está preparada para medi-la? Está pronta para saber se vale à pena entregar todo o seu amor para ele? Lembra-se de quando fez o seu último mapa astral e ele revelou que você seria feliz com um homem forte, ousado e sincero? É ele. Só pode ser o T.T.

Sra. Estela – Não me faça perder a cabeça com você, Regina! Não me insulte! Não me faça ficar nervosa, pois você vai se arrepender! Eu já lhe disse e você sabe muito bem que eu não quero mais nada com aquele crápula do Thiago. Eu fui enganada, passada para trás. Fui uma besta. Uma besta. Se alguma vez eu te disse que estava apaixonada por aquele... Por aquele canalha, esqueça. Foi tudo um erro. Um erro imperdoável. Imagina sentir alguma coisa por ele! Não. Na verdade ainda sinto algo por ele sim. Nojo. Nojo. Eu tenho nojo dele. Eu fui iludida. Completamente iludida por ele através desse sórdido embuste que a natureza criou para continuarmos com a preservação da nossa espécie.

Sra. Regina – Cruz credo! Deveria ter ficado quieta. Agora vou ter que ouvir justificativas filosóficas sobre o amor.

Sra. Estela - É. O amor. É só para isso que serve o amor. Justificar sublimamente o que é um mero ato animal, carnal. Trepar. Transar. Foder. Fazer um, dois, quatro, dez filhos, criar estrias, flacidez e ficar com os peitos caídos. O amor existe apenas para justificar tudo isso perante Deus, os outros e nós mesmas quando nos vemos peladas frente ao espelho. É só para isso que ele serve. E eu te digo pela última vez. Eu não sinto mais nada pelo Thiago. Nada.



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