Maria João Lopo de Carvalho



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Maria João Lopo de Carvalho

VIRADA DO AVESSO
Vidas tecidas de pequenos instantes que nada têm de pequenos nem nada de instantes. Uma história de hoje, na Lisboa de hoje. Teresa, Diogo, Eduardo, Luísa, caminhos desencontrados ou talvez paralelos, onde todos partilham com a mesma intensidade o amor ou o desamor, a alegria transbordante ou a dor verdadeira.

Virada do Avesso, uma história pela mão de Teresa. Teresa mãe, Teresa professora, Teresa amante. Teresa que, ao percorrer tantas vidas em simultâneo, não deixa de ser ameaçada pela paixão que espreita perigosamente à frincha de cada porta. Virada do Avesso é sobretudo um passeio cá dentro, ao longo de sentidas e inconfessáveis emoções!
Maria João Lopo de Carvalho

VIRADA DO AVESSO

OFICINA DO LIVRO
© 2000, Maria João Lopo de Carvalho

e Oficina do Livro   Sociedade Editorial, Lda.

Avenida Eng. Duarte Pacheco, n.º 19, 7º esq.

1070 100 Lisboa

Tel. 21 384 4830, Fax. 21 384 4831

E mail: oficinadolivro@jazztel.pt

Título: Virada do Avesso

Autor: Maria João Lopo de Carvalho

Revisão: Teresa Reimão Pinto / Helena Santos

Composição: Oficina do Livro

Capa: Susana Leite

Impressão e acabamento: Rolo & Filhos, Lda. (Portugal)

3.' edição: Julho, 2000   3000 exemplares

ISBN 972 8579 07 1

Depósito Legal n.º 153952/00
Prefácio
Como traduzir, desmontar uma impressão, perceber por que gostámos de um livro? Pode agarrar nos pelos colarinhos desde a primeira página, mas daí até sabermos explicar o que aconteceu passam dias, passam meses. Depois descobre se, de repente, sem se dar por isso. Há neste livro uma música que mulher nenhuma desconhece. É um chorar baixinho por detrás das palavras e do riso. O coração aderiu antes da cabeça, sinal do que não se explica. Venham os críticos, venham os escolásticos, venham os académicos de lupa na mão para estudar o fenómeno. Não importa: ouve se esta história como sendo a nossa. Uma sucessão inglória de dias, onde tudo o que existe, a única realidade, talvez seja mesmo, só, a expectativa. Não é ela que nos mantém vivos? Acordados? Em prova? A história é a de qualquer de nós, mesmo dos que vivem a dizer a si mesmos que existem mais coisas para além do amor. Ou que conseguem viver sem ele. Claro que existem. Claro que conseguem. Mas conseguem o quê? Sem ele, a vida tem o sabor de um cozinhado sem sal. A narradora é um pássaro triste que esbanja a

última esperança sem saber que é a última no aceno de um homem, nas palavras de um outro, nas mentiras que ouve e diz a si mesma. São assim, muitas vezes, as heroínas dos romances. Elas perdem, a esperança vence   que remédio  , ganharão quando muito uma resposta qualquer. E a resposta, onde está? Nem isso. É assim a vida: troca se tudo por uma resposta que pode não vir, que pode nunca vir, ou vir apenas quando já a vivemos sem a reconhecermos. Teresa, Diogo, Luísa, Eduardo. Nomes comuns, sentimentos comuns, somos nós aqui. No que concedemos, no que transgredimos, no que esperamos e desesperamos, no que quase nunca passa por nós. Ou que passa, claro que passa, mas ignoramos por onde, o que vai dar no mesmo. A vida é assim. Igual a si própria, sem momentos de glória ou fins grandiosos, ou com tudo isso e uma testemunha apenas: nós. O sexo disfarçado de amor, ou o contrário a baralhar ainda mais. E depois a pergunta, sempre nova e a mesma: «Quem está aí?» Somos nós ou o outro? Nós, claro, quase sempre, mas só mais tarde nos reconhecemos. Depois do trabalho do tempo. E do amor. Porque também o descobrimos no desamor, ou no mau amor, ou nos gestos desajeitados, nas cobardias, nas traições, nas batotas, nas precipitações. Amor. Anda por aqui, neste livro, pairando como uma alegria possível, mas só parece existir na cabeça da Teresa. É isso, finalmente: o amor da Teresa já existe. Intenso, brutal, disponível, humilde, devastador talvez. Tão grande que mete medo a quem se aproxima e afugenta quem ainda não está preparado para ele. Ou arranjou, há muito, uma definição de amor prática e portátil. Amor já há, sempre houve, mesmo naqueles que o temem ou declinam. Falta o objecto, sempre o objecto que o mereça ou não. E o amor, merece se? Ou é sortilégio, como juram os poetas? Não sei, ninguém sabe ainda, ninguém sabe nada, sobretudo quem ama. E a Teresa limita se a perguntar. Baixinho, muito baixinho:

«Onde está o amor a que eu tenho direito?» Tão baixinho.Mais baixo que o riso para não o espantar. E o riso será finalmente a última coisa. A última? A única? Não, há também a esperança. Mas não se sabe, no fim, se ela começa ou acaba. A Teresa continua a rir e a chorar ao mesmo tempo. E a esperança pode estar na dor ou no júbilo porque ninguém sabe onde a procurar. A Teresa procurou . Tê la á encontrado? É importante porque se a encontrou, talvez também o encontre. O amor, sim, que outra coisa? Hoje. Qualquer dia. «Até quando?», como ela mesma pergunta. «A mãe está diferente», diz lhe a filha no fim. Diferente? Diferente porquê? Será paz ou renúncia, lucidez ou cansaço? Mas é tão fácil aldrabar uma criança, não é? Reparem no que fazemos connosco   alguma diferença?

Rita Ferro
VIRADA DO AVESSO
Ao meu Pai, que com tantas palavras bonitas me ensinou a

gostar de histórias.

Ao João, que com poucas palavras me ensinou a ser

paciente.

1
Fui para a cama com o Eduardo. Aconteceu. Não por raiva ou despeito, não por sentir o Diogo longe, afastado, num Alentejo distante por debaixo de cobertores fortes e pesados, a consumar o seu casamento, os seus doze anos de compromisso. Esse Alentejo que o Diogo me contou, o Alentejo das noites frias, do crepitar das chamas na lareira da sala, das oliveiras e dos bezerros, era nosso um dia. Ruiu.

Fui para a cama com o Eduardo para povoar de outros sonhos o meu corpo. Ainda posso sonhar? Será que devo? Vingança? Nem sei... Escrúpulos? Talvez... Foi uma entrega amarga, era batota, não havia amor, é de facto possível transformar a ausência de amor em desejo, e esgotá lo, consumi lo. Pensei que não conseguia mas fui capaz... Aqui estou depois de ter traído o Diogo. Nua e crua é esta a verdade.

O Eduardo ensinou me o que era efémero no sexo: um momento mágico que se esgota na entrega dos nossos corpos... O Eduardo ensinou-me a não amar. Fiquei

proibida ou acabava se o jogo. Aceitei as regras. Queria chegar ao Diogo através do corpo do Eduardo. Também traí o Eduardo. Da mesma forma. Pensava no Diogo o tempo todo. Fui capaz disso.

Um dia o Diogo disse me que eu era "enorme" na minha dignidade. Não me senti menos digna por isto... Percebi que há um princípio e um fim. Quando o Eduardo refez o nó da gravata, vestiu o casaco, deu me um beijo apertado e largou um "até amanhã" despido de intenção, era o fim do que tivera início umas horas atrás. São assim as leis da vida. Não fiquei só, nem triste. Adormeci logo contente por ter sido Mulher. Acho que gostei daquela noite.

No outro dia, sol e vento forte, mais um sem o Diogo... Tirei as beatas dos cigarros, já frias, apodrecendo no cinzeiro. Recordações? Não sei, nem pensei nisso. Roubaram me o rádio do carro. Sempre desconfiei das sextas feiras treze. Nem a música me vai ajudar a chegar perto do Diogo. Para quê? Imagino o a beber o seu café antes de entrar no Banco. Da mesmíssima maneira. Com ou sem mim, os ritmos são os mesmos... maquinais pela sua repetição. A emoção é diferente? Será que cada minuto custa assim tanto a passar?

Dobro a esquina a correr. Já vou atrasada. Afinal a toda a gente já aconteceu roubarem o rádio do carro. Porque é que me havia de importar? O trabalho, sempre o mesmo... Estou cheia de frio e vem aí o Natal. Ai, O Natal, não vou agora pensar nisso... Mas porque é que não dei cem escudos ao arrumador? Não me tiinham roubado o rádio. Também não posso telefonar ao Diogo a contar. Quebrar regras? Rotinas? Não. O Diogo não existe. E digo para mim própria: Teresa, ele não existe. Nem ia gostar de ouvir a minha voz, está diferente ou é só impressão?

2
Hoje o Diogo faz anos. Lembrei me. Nem sequer penso em falar lhe. Para quê dar lhe os parabéns? A mesma palavra que se repete ano após ano, amarelecida pelo tempo, seca ou calorosa. Não, isso não. Passei à porta do Banco. Deixei um envelope ao segurança: Diogo Teixeira. Quando o abrir tem lá dentro uma só frase para repensar: "Tu tornas te eternamente responsável por aquilo que cativas", o Principezinho sempre me lembrou a importância do que vamos cativando e se torna único no mundo para nós. É altura de lhe passar a mensagem.

Detesto fazer anos, a obrigação de estarmos felizes e risonhos, a expectativa de que se lembrem de nós e cumpram a etiqueta de nos darem os rotineiros parabéns. Tudo seria menos mau, se não houvesse sistematicamente uma pessoa mais importante para mim, que também sistematicamente não telefona. O grau de importância que desempenhamos nos outros é de facto diferente da ansiedade que criamos em relação aos pequenos gestos, que nos tornam momentaneamente felizes.

A vida é assim: um permanente desencontro emocional.

Já lá vai o tempo, que agora tenho a sorte de reviver com os meus alunos e com as minhas filhas, em que fazer anos tem toda a dimensão de uma festa. O prazer que sentimos é directamente proporcional ao tamanho do presente que nos dão. Começa por uma noite mal dormida, com sonhos de todas as cores. Depois é uma sucessão de rituais, sempre com o sabor de novidade, em que o coração bate mais depressa a cada minuto que passa. A professora que nos dá um beijinho especial, faz nos sentir que somos mesmo especiais. Um dia mágico em que temos mais uma vela no bolo. Ficamos com a pretensa sensação de importância, de que somos só nós que contamos para o mundo.

Nunca mais me esqueço de um piano enorme em casa dos meus pais, ao qual, nem nas pontinhas dos pés chegava. Ano após ano era, em todas as festas, local de exposição dos presentes que recebia. Ao fim do dia, cansada, com o laço do vestido desabotoado e a boca suja de mousse de chocolate, subia a uma cadeira para apreciar o imenso espólio que a minha mãe ali arrumara meticulosamente por categorias: livros, jogos, discos, bonecas, guloseimas. Depois, cabia me a espinhosa tarefa de escolher um e só um para levar comigo. Hoje, ainda vivo esses momentos especiais, sentindo o cheiro da novidade nas páginas dos livros por abrir, no celofane à volta das caixas. Tudo por estrear!

Muito mais emocionante do que ouvir cantar os parabéns de mãos dadas com os dois eternos palhaços que nos vinham "distrair"! E por isso que continuo com medo de palhaços: homens estranhos com caras disfarçadas que são e não são o que vemos ali. Deixei de acreditar em palhaços quando, numa destas festas, entreabri a porta da cozinha e dei de caras com dois homens "normais", sentados à mesa com as empregadas, a falarem alto e a rirem muito.

Custou me esta decepção. Afinal não são palhaços, não têm nariz redondo, nem pés enormes e nem sequer estão a cantar a música do "Carrossel Mágico". Desde esse dia, nunca mais quis palhaços nas minhas festas. Era tudo mentira

Hoje, o dia é do Diogo. Com ou sem palhaços, com ou sem pretensa ilusão em que nos fazem crer, é um dia em que, se possível, estou mais próxima. Não existe já a magia das velas acesas, só a vaga sensação de que tudo acaba em fumo.

Sou de certeza a pessoa que ele espera, do outro lado da linha.

Não vai ouvir.

Fica no ar, apenas o eco de três palavras sem som: "Estou , Diogo!"

3

Passei com o Diogo só um final de Verão. Só? Uma eternidade. Juntos ou separados? A diferença é pouca... Cruzámos caminhos, encontros perdidos, que não tiveram lugar nem razão de existir. Pensei que era a sua "mulher". O Diogo viu me sofrer. Interromper a vida. Durante anos senti me adormecida ao lado de um "marido" chamado João. Ainda acredito em contos de fadas? Talvez. Fiz do João um homem seguro.

Veio para mim perdido, emocionalmente desamparado. Foi ganhando confiança, fi lo acreditar ser um cientista de mão cheia: o melhor, o mais inteligente, o mais poderoso. A referência para o próximo século.

Era assim o meu marido: um nicho de vida, um alienar de todas as emoções, uma entrega total e absoluta aos distintíssimos valores da ciência. Foi deste modo que o admirei, sem ver o fundo, sem tentar entrar desenfreada nessa toca de números, símbolos e fórmulas com que sempre me traiu. Não tentei descobrir o homem, mas admirá lo pelo lado de fora. Como a avó Salomé sempre me dizia: "para amar, primeiro

tens de admirar"

Esgotei me no meu total e irreparável fascínio. Era este o João, tal como o desenhei: vaidoso da sua pessoa, da sua mulher, consciente das suas faculdades, dos dons que Deus lhe deu. Invejado por uns, desdenhado por outros, cobiçado na fortuna de ser o mais distinto, o mais elogiado, o mais perdido. Nem a si próprio tentou encontrar. Andava por lá vagueando entre tubos de ensaio e compostos químicos, andava para lá, onde não havia espaço para si, para as nossas filhas, para mim.

Fui arrumando o João em prateleiras, cada vez mais altas, onde mal chegava em bicos dos pés. Arrumadinho, pronto a ser visto, lido, saboreado, talvez. Sempre que olhava para dentro dos seus olhos esverdeados, sempre que me deitava a seu lado, sempre que descobria as suas mãos brancas e finas e adivinhava nelas sonhos que não passavam por mim, tinha pena. Pena por me ter perdido. Pena por não ser a sua prioridade, só constatação de um facto. Ser só, sua mulher. E, pela mulher que é a nossa, não se luta, está lá. Não é um raciocínio que se pretende mostrar como verdadeiro, é só uma mulher. Ali, para nos dar filhos, amor e sexo.

Perdeu me, ao deixar a vida passar ao lado.

É assim que acaba o que a sociedade denomina de casamento. Hoje é tão fácil, demasiado fácil pôr pontos finais. União de ideias na construção de um só projecto. Se calhar, nem projecto havia. Se calhar, é bem mais fácil desistir. E mais cómodo. Ninguém censura, ninguém nos aponta o dedo. Não deu certo, não se entenderam. Separaram se. Coitadas das crianças, elas é que sofrem. E só enquanto não houver outra história mais fascinante, vai esta bailando de boca em boca para logo, logo cair no esquecimento. Varremos as cinzas e deitamos tudo fora. Num gesto impetuoso, rasgamos as fotografias adormecidas nas molduras, sacudimos a escova de dentes do

armário e com raiva deitamos para lavar o guardanapo abandonado na argola de prata. Acabou.

Ficaram as nossas filhas, para nos lembrar que existimos, para nos forçar a dar o nosso testemunho. Falhámos como marido e mulher, não falharei enquanto mãe. Deixarei que sigam o seu percurso na construção de um pai ausente, teórico, que um dia virá para constatar que existem e que estão crescidinhas e tão iguais como duas gotas de água. Nessa altura não sei qual será a factura a pagar. Anos de ciência corroem a ligação com aquela parte de nós que se libertou e se fez sozinha. Mas, se calhar não existe, não se traduz num número nem numa experiência enganadoramente correcta. As nossas filhas somos nós. Parte integrante.

Foi no final desse Verão conturbado e "deserto", quando vivia um período de exclusividade ao lado da Cuca e da Marta, que tropecei no Diogo. Durante todos estes anos de João, nunca tentei descobrir nenhum Diogo.

Tudo começou com uma ida ao T Clube na Quinta do Lago. Parece uma história banal, igual a tantas. Uns amigos desafiaram me, amigos de circunstância, de Verão. Nem ia especialmente bonita, nem especialmente pintada, nem especialmente satisfeita. Fomos dançar, era suposto dançar se no T; mostrar se o bronze, mostrar que ali estávamos, de férias, risonhos e boémios, aliviados e distantes da vida. Fui para o meio da pista, aos cotovelões, encontrões, "desculpe lá...", dançava sem grande vontade e como sempre fazia, entretinha me a olhar à volta e imaginar o que faziam ali tantas "clonagens" de nós próprios. Mais mini saias, mais botas altas, mais brincos de arrasar, decotes ou calças justas, todas iguais, todas diferentes. Lembrava me das minhas tenebrosas aulas de ballet, forçada a equilibrar me nas pontas dos pés e imitar as meninas ágeis e bonitas. Esquecia me da mão e de tornar elegantes os meus dedos,

esquecia me das pontas dos pés, da barriga para dentro e, pensativa, punha me a imaginar letras românticas, palavras que rodopiavam no ar em piruetas e pliés chocando com as notas do plano. Acordava de rompante com o ponteiro de madeira a apunhalar me pelas costas. "Então Teresa, estamos aqui ou onde estamos?" Naquele momento, Senhora professora de ballet, encontrava me no meio de uma pista, numa bôite, cheia de veraneantes conhecidos e desconhecidos com o olhar subitamente fixo, parado, colado num homem. Um homem de "mão fria" como, com alguma deselegância, chamamos àqueles seres que vivem encostados aos bares, com copos de whisky na mão. O da "mão fria" ficou também fixo, parado, colado, numa mulher: Eu! E, como nos contos de fadas, assim começou o feitiço. Tossi, virei me de costas, disfarcei, nada. Os olhos continuavam colados. Mesmo de costas viradas. Peguei na mão do meu par e fomo nos sentar. Passei por ele, mesmo perto. Estava sozinho, continuava, já sem disfarçar nada, só não disfarçava o seu silêncio. Só o seu silêncio existia. Percebi que estava viva. Se a minha amiga Luísa assistisse a esta cena pateticamente vazia diria: "Chega de galanço! Se quiser aqui tem o meu telefone". Eu seria incapaz, nem sequer ousava sair de perto dos outros, com medo de ser abordada, como é costume dos homens muito homens, na ida para a casa de banho!

Sentámo nos numa mesa cá fora. Pelo menos corria uma aragem. Pensava comigo: também, que ridículo, já vi centenas de homens bonitos, centenas de homens sensuais, centenas olharam para mim. Não daquela forma, não com aquela intensidade. Encolhi os ombros sem resposta.

- E se fossemos embora Teresa, já vão sendo horas! - sugeriram os meus amigos. Levantei me mais depressa do que nunca, fazendo um esforço sobre humano para descolar os olhos do bar.

  Vamos. Já chega e a música não está grande coisa.

O caminho para casa tinha o sabor de um suplício acabado. Uff, suspirei de alívio, aquele homem não era pêra doce, que cansaço!

Imaginava a sua voz, o seu cabelo liso e aloirado, a camisa de ganga e os olhos castanhos brilhantes, intensos. Reparei no relógio: um swatch último modelo, desportivo; sapatos de vela, calças beges claras sem cinto, uma cigarrilha na mão que fumava de uma forma quase imperceptível, deixando o fumo escapar se pelo canto da boca e...

Recomeçava, como se rebobinasse a cassete: cabelos lisos, tão lisos, tão lisos, olhos castanhos luminosos, expressivos, meus. Meus? Uma imagem, só uma imagem, por enquanto uma imagem. Difusa. Concreta.

Descalcei as botas e deitei me vestida sobre a cama, olhava o luar e pensava nas suas mãos, na maçã de Adão que não parava quieta no pescoço alto e esguio, nos cabelos lisos que com um só gesto sacudia para trás, na música: "do you believe in love after love..." E assim me tomou como sua. E assim o recebi, ausente, distante, vencida por uma imagem virtual, por uma outra dimensão. Será casado? Será? Será meu? Não, meu porquê? Será que o vou voltar a ver? Será que se lembra de mim? Será... e esvoacei para lá e para cá. Não havia distância possível que me separasse, nem qualquer vontade que me prendesse ali. E assim fiquei longas horas a olhar o reflexo do céu estrelado de Verão, e a luz pálida, desmaiada, projectada nas paredes brancas e quentes de um quarto branco e quente. A mesma luz de tantas noites com o sabor a Algarve. Abafado. O cheiro húmido, o som dos grilos, a minha respiração acelerada, o coração em batidas descompassadas sem conseguir adormecer!

Naquele dia de Setembro, ausente de mim perante a trivialidade de encher as férias das minhas filhas de dias inesquecíveis, de lhes dar tempo, o meu tempo,

abandonar me por elas, para as ver rir, correr, dar mergulhos fantásticos, ganhar campeonatos de "prego" na areia fina da praia da falésia. Naquele dia, o Diogo veio de mansinho, sem eu dar por isso. Tinha o descoberto na véspera, olhares intermináveis numa noite que me pareceu infinitamente grande. Desapareci. Depois, ainda pensei que tinha sonhado, nunca mais o iria ver.

Chegou. Vazio de ciência, a transbordar de vida. Mostrou me onde se punha o sol, que as conchas contavam histórias, como era bom ler na praia. Puxou me por um braço:

  Venha cá, leia isto.

Ri me com a sua ousadia. Não era daqueles textos que se mostram à primeira: "Na cama com a Psicanalista"! Foi a maneira que descobriu de se mostrar à primeira. Percebi o nas entrelinhas. Encontrei o por trás de si. Foi mágico esse encontro imprevisto, Julgava o adiado para sempre. Depois, os dias sucederam se às noites e as noites aos dias.

  Você é diferente Teresa, não a imaginava tão forte.

  Não sou forte, tenho o rótulo de forte. Luto para manter as aparências   disse, enquanto remexia o açúcar na chávena do café.

  Gostava de ser assim, "grande".

  É uma questão de sobrevivência, Diogo.

  Tem me a mim   e o seu café arrefecia.

  Só em meias palavras...

  Dei lhe o melhor de mim.

  Quase tudo, Diogo!

  Quando menos esperar paro o carro em frente da sua porta. Definitivo, irremediável esse momento, princesa...

Um final bonito, antes do último golo de café que adormecia nas nossas chávenas.

Acreditei no Diogo. Encheu me o cabelo de algas, as pernas de areia molhada. Transbordou em beijos a saberem a mar e a água salgada. Percorreu o meu corpo com as suas mãos finas e hábeis.

Fui sua. Numa noite, noutra e mais outra em que amei profundamente cada instante de si. Fiquei irremediavelmente perto. É isto o que há de mais sublime no sexo: sermos nós, num só, numa compaixão e dádiva absolutamente únicas pelo valor que lhe damos, pelo sentido do que ali entregamos um ao outro, em momentos que não têm passado nem futuro e que permanecem para sempre na nossa pele, no nosso corpo, tão vivos, tão intensos e tão prontos a ressuscitarem que nos fazem acreditar em tudo. O que dizemos, o que fica por dizer...

Foi assim, ao crepúsculo de um suave amanhecer no Algarve, enquadrados por um biombo de rocha escarlate que o Diogo me falou do seu medo:

  Não tem saudades do João?

  Tenho saudades de si   desconversei.

- Admiro a Teresa, conseguiu pôr um ponto final.

Àquela hora da madrugada, tudo sabia a uma verdade inquestionável.

  Não me admire Diogo, isso não é tudo.

Encostei a cabeça ao seu ombro e fechei os olhos, invadida por um desejo imenso de adormecer assim, para sempre.

  Não sei se sou capaz Teresa, mas acho que a posso fazer feliz. Temos a vida suspensa. Um dia conto lhe uma história entre Cupido e Deus.

  A sério?

  Tonta! Como é que quer que seja a sério?

Deitados na areia, comungámos um do outro, momentos de pura intimidade. Nas minhas costas, queimadas pelo sol, ao som do rebentar das ondas e do piar distante de

um mocho vagabundo, o Diogo passeava os seus dedos atrevidos, numa infindável sessão de "regalinhos", enquanto me segredava finais felizes para uma história que mal tinha começado. Adormecemos na areia da praia.

A minha inocência fascinava o. O Diogo tinha medo. Percebi que era impossível a ruptura com o passado. Um confronto inviável. Nunca a balança pesaria mais do meu lado, os doze anos, a família, um imenso privilégio, que força tão brutal!

Naquele momento pressenti que o tinha perdido para sempre...

A primeira aula do dia começava daí a meia hora! O liceu ficava longe e continuava sem comprar um rádio novo para o carro. Enfrentar o trânsito de Lisboa, comer um croquete a correr, esquecer me do Diogo e mergulhar na lírica de Camões, nada mau! Ah! A Cuca tinha prova de História. Prometi lhe fazer uns resumos. Troca me os cognomes todos. Não resisto!

4

A caminho do liceu, no meu carro encarnado com a chapa toda amolgada e sem rádio, normalmente aproveito para fazer uns quantos telefonemas em atraso, sem medo de ser apanhada pelos polícias que invariavelmente se comovem com o meu ar cândido... Marco a depilação, ligo à minha mãe que quer sempre saber coisas bizarras como por exemplo, quem ficou na pole position no grande prémio do Mónaco, o que destinei para o jantar daqui a nove dias ou onde encontrar linha bordeaux do tom exacto para rematar a bainha de umas calças que até já são velhas, mas ainda podem dar jeito. Nunca faço a menor ideia de nenhuma das respostas. Nunca tenho um lápis e um papel à mão para assentar o que ela me diz e a pouco e pouco acho que vai desistindo de me massacrar com interrogatórios fúteis! Quanto a mim, perco tempo e gasto chamadas. Aproveito também para dar os últimos recados à empregada: "não se esqueça de coser os botões no bibe da Marta" ou "deixei queimar o casaco na lareira da sala"... Naquele dia, nem isso me apetecia. Olhei para o telemóvel sem vontade e deixei o cair nas

profundezas da minha carteira.

Pensei no Diogo, nas suas palavras bonitas, quejá há tanto tempo não ouvia, a saber a mar, a areia, a saber a Diogo, no mais fundo da sua voz. Daquelas vozes que falam do coração, como vasos intercomunicantes que jorram cá para fora segredos, sensações, energia. Que arrepio na espinha só de me lembrar.

Aquele Diogo da "mão fria", que eu não sabia ser Diogo, nem casado, nem nada; aquele Diogo que no dia seguinte tropeçou em mim na praia e me deu a ler uma passagem do livro, sem timidez, sem medo, sem escrúpulos; aquele Diogo que em cinco minutos me conhecia há anos. E ao final da tarde confessava o que há tanto trazia consigo:

  Ando no seu rasto há muito tempo. Vi a almoçar no Chá da Lapa. Conversava com uma amiga, lembra se de mim? Eu lia o Independente na mesa ao lado   que não, não me lembrava.   e vai ao supermercado nas Amoreiras, e tem duas filhas, que adoram o Mcdonald's sim, com esses mesmos óculos escuros, foi o seu marido que lhe deu? Vê, eu sei tudo. Naquela noite no Stone's estava linda de morrer! Quando foi andar de bicicleta com as miúdas na Expo, fantástica, desesperada para tentar meter as bicicletas dentro de um Fiat Punto. Viu me lá ao fundo? Não vai dizer que não!

Desconcertante, esta fixação que desconhecia por absoluto e me envolvia como uma arte mágica. Uma rede de mil fios prendia me cada vez com mais força, não me deixando espaço nem tempo, para um básico movimento de espírito. Diogo um predador?

As gémeas brincavam ali em frente ausentes de tudo.

  Ontem fui ostensivo? Para ver se reparava em mim. Quem era o outro? Não precisa de me dar explicações. Um gajo seu amigo? Anda a fazer se ao piso? Pudera você provoca!

Lembro me como hoje daquele turbilhão de perguntas e respostas do Diogo. Uma torrente de emoções mal disfarçadas. Nunca me falou de si.

Assim me perdia no Diogo, acordando com uma buzina frenética de uma senhora transfigurada pelos nervos, numa longa fila de carros ávidos de se ultrapassarem antes do semáforo cair.

  Então é para hoje ou para amanhã?   esbracejava, debruçada sobre a janela, com um tom de voz irónico e metálico.

Hoje ou amanhã? Pois, hoje, é verdade! O trânsito, o liceu, vou a caminho. Acorda Teresa, não estás no Algarve, nem no T, por aqui não há nem sombras do Diogo. Não, não podes pôr música, roubaram te o rádio.

Encontrei o Manuel, filho do Diogo, lá no liceu. Vinha a correr. Já tinha dado o segundo toque. Passei comovida para a geração seguinte. Partidas do destino. Calho no liceu do filho, calha ele reconhecer me. Foi um acaso? Acaso que me virou do avesso.

Faz me ternura, o Manuel. Caracóis dourados, olhos cinzentos, umas botas enormes e o mesmo sorriso inconfundível. Põe se sempre em bicos dos pés para me dar um tímido beijo. Para ele, não passo de uma agradável mistura entre "tia" e Setôra. Só isto, mais nada. Como é bom acreditar que os muros não se abatem, que os adultos têm sempre razão, que o pai é um herói. Às vezes vejo o sair à tarde. Acena me de longe, mas hoje veio ter comigo.

  Sabe, vou ter 4 a Português!

  Boa Manuel, quer dizer que estudaste!

  Foi o pai.

  O pai?   perguntei admirada. Não era costume.

  O pai. Leu me uma história e explicou me tudo.

  E então?   aferi, sem perceber onde queria chegar.

  Fiz uma redacção igual e a minha Setôra adorou.

  Ah sim? E sobre quê?

  Uma aventura entre Cupido e Deus.

  Fiquei sem pinga de sangue. Compus me, tossi, respirei fundo e assumi a minha postura de Setôra. Dei lhe uma festa nos caracóis e vi o partir a correr. Um Golf cinzento buzinava furiosamente à porta do Liceu.

São assim as crianças, prontas a ensinarem nos. Com pequenas e grandes lições são nossas mestras, nossas amigas, nossas também para que as moldemos, para que connosco construam Pontes e criem circuitos. Adoro as. A cada momento, em cada esquina, não me esqueço de pensar que aprendo mais com elas, do que elas comigo.




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