Marian keyes



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MELANCIA


MARIAN KEYES






PREFACIO
Quinze de fevereiro é um dia muito especial para mim. É o dia em que dei à luz meu primeiro filho. E também o dia em que meu marido me deixou. Como ele esteve presente ao parto, só posso supor que os dois acontecimentos tiveram alguma relação entre si.

Eu sabia que deveria ter seguido meus instintos.

Era a favor do papel clássico, ou, digamos, tradicional, que o pai desempenha no nascimento dos seus filhos. Que é o seguinte: tranque-o num corredor do lado de fora da sala de parto. Não deixe que entre, em momento algum. Dê-lhe quarenta cigarros e um isqueiro. Instrua-o a caminhar até o fim do corredor. Quando chegar a essa feliz posi­ção, instrua-o a dar a volta e retornar ao local de onde veio.

Repita, se necessário.

A conversa deve ser reduzida. Tem permissão para trocar algu­mas palavras com qualquer outro pai em perspectiva caminhando ao seu lado.

"Meu primeiro" (sorriso amarelo).

"Parabéns... meu terceiro" (sorriso pesaroso).

"Mandou brasa" (sorriso forçado - ele está tentando sugerir que é mais viril do que eu).

A essa altura, os sentimentos tendem a se exacerbar.

Ou eles têm permissão para se jogar em cima de qualquer médico que saia exausto da sala de parto, coberto de sangue até os cotovelos, e arquejar: "Alguma notícia, doutor???" Ao que o médico poderá res­ponder: "Ah, meu Deus, não, cara! Está com uma dilatação de ape­nas três centímetros". E seu marido fará um sinal afirmativo com a cabeça, como se entendesse tudo, embora não entenda nada além do fato de que ainda há um bocado de vaivens pela frente.

Ele também tem permissão para deixar um espasmo de angústia passar por seu rosto, ao ouvir as agonias de sua amada lá dentro. E quando tudo termina, mãe e filho estão limpos: a mãe, com uma camisola imaculada, está recostada em travesseiros rendados, com um ar exausto, mas feliz, e o bebê perfeito está mamando; então, e apenas então o pai deve ter permissão para entrar.

Mas não, cedi à pressão das colegas e concordei em agir de uma maneira inteiramente New Age a respeito do assunto. Só posso dizer que as dúvidas foram muitas. Quero dizer que não desejava nenhu­ma de minhas amigas íntimas e nem parentes na remoção do... diga­mos... meu apêndice. Humilhante! A pessoa fica numa situação de tamanha desvantagem. Todas aquelas pessoas olhando-a, reparando em lugares que você mesma nunca viu, nem sequer com um espelho. Eu não sabia como era o aspecto do meu intestino grosso. E, como prova do que digo, não sabia como era o aspecto do colo do meu útero. Nem queria saber. Mas metade do pessoal do Hospital St. Michael sim.

Senti-me em grande desvantagem. Assim, não estava fazendo justiça a mim mesma.

Em poucas palavras, eu não estava com a minha melhor aparên­cia. Como digo, uma coisa bastante humilhante.

Eu vira na televisão, uma porção de motoristas de caminhão, machistas, que mal sabiam se expressar, com lágrimas nos olhos, a voz embargada, esforçando-se para nos dizer que estar presente no nascimento do seu filho fora a coisa mais pr... pro... prof.. funda que já acontecera com eles! E ouvira histórias sobre atléticos jogadores de futebol americano, entornadores de cerveja, que convidaram a equipe inteira para fazer uma visita e assistir ao vídeo da mulher deles parindo.

Mas, novamente, a gente fica imaginando seus motivos.

De qualquer jeito, James e eu ficamos muito emocionados com relação ao parto e decidimos que ele deveria estar presente.

E esta é a história de como ele estava lá, na sala de parto. A his­tória do motivo pelo qual ele me abandonou, e como o fez... é um pouquinho mais longa.



CAPÍTULO 1
Desculpe, você deve achar que sou muito grosseira. Mal fomos apre­sentados e aqui estou eu lhe contando as coisas terríveis que me aconteceram.

Vou apresentar-lhe rapidamente meu perfil e deixarei os detalhes para depois; por exemplo, se tivermos tempo para isso, vou contar como foi o meu primeiro dia na escola.

Vejamos então. O que devo contar-lhe? Bem, meu nome é Claire, tenho 29 anos e, como disse, tive meu primeiro filho há dois dias (uma menina, com quase três quilos, lindíssima) e meu marido (contei que o nome dele é James?) me comunicou, há cerca de vinte e quatro horas, que vem tendo um caso, já há seis meses - saca essa -, não é nem a sua secretária ou outra mulher charmosa do seu trabalho, mas com uma mulher casada que mora no apartamento dois andares abaixo do nosso. Incrível como isso soa suburbano!. E não apenas tem um caso, mas quer divorciar-se de mim.

Desculpe se estou sendo desnecessariamente frívola quanto a isso. Estou muito confusa. Dentro de um instante estarei chorando novamente. Ainda me encontro em estado de choque, assim acho eu. O nome dela é Denise, e eu a conheço muito bem.

Não tão bem quanto a conhece James, é óbvio.

O terrível é que ela sempre pareceu tão boazinha.

Tem 35 anos (não me pergunte como sei disso, simplesmente sei. E, correndo o risco de parecer que falo por pura inveja e de perder a simpatia de quem me lê, a aparência dela é de quem tem mesmo trin­ta e cinco), é mãe de dois filhos e tem um bom marido (ou seja, bem diferente do meu). E, pelo que parece, saiu do seu apartamento e ele do dele (do nosso, melhor dizendo) e ambos se mudaram para um novo, em endereço secreto.

Não é incrível?! Como se pode chegar a um drama desses? Sei que o marido dela é italiano, mas realmente não vejo nenhuma probabili­dade de que ele mate o casal. É garçom, não é um mafioso; então, o que vai fazer? Envenená-los com pimenta do reino? Fazer com que entrem em coma, após tantos boa noite, senhores? Ou atropelá-los com o carrinho das sobremesas?

Novamente pareço frívola.

Mas não sou.

Estou é com o coração partido.

Um desastre completo. Nem sei como devo chamar minha filhinha. James e eu tínhamos discutido alguns nomes - ou, pensando retrospectivamente, eu os discutira e ele fingira ouvir -, mas não decidimos nada. E agora pareço ter perdido a capacidade de tomar decisões. Patético, eu sei, mas o casamento é isso. Acaba com o nosso senso de autonomia pessoal!

Mas nem sempre fui assim. Antigamente, eu tinha força de von­tade, era independente. Agora tudo isso parece que foi há muito, muitíssimo tempo.

Fiquei com James por cinco anos e estávamos casados há três. E, meu Deus, como eu amo aquele homem.

Embora houvéssemos tido um início não muito auspicioso, a magia tomou conta de nós muito rapidamente. Ambos concordamos que nos havíamos apaixonado um pelo outro cerca de quinze minu­tos depois de nos conhecermos, e assim permanecemos.

Ou, pelo menos, eu permaneci.

Durante muito tempo, nunca pensei que encontraria um homem que quisesse se casar comigo.

Bem, talvez eu devesse amenizar isso.

Nunca pensei que conheceria um bom homem que quisesse se casar comigo. Muitos malucos, sem dúvida. Mas um bom homem, um pouquinho mais velho do que eu, com um emprego decente, boa aparência, engraçado, gentil. Sabe como é - alguém que não me olhasse de esguelha quando eu mencionasse a "Novela das Seis", nem alguém que prometesse sair comigo para uma noite no McDonald's logo após seu curso noturno, nem alguém que se desculpasse por não poder me dar um presente de Natal porque sua ex-esposa havia conseguido ganhar todo o seu salário num processo de pensão alimentí­cia, nem alguém que me fizesse sentir antiquada e intimidada porque me zangara quando ele disse que tinha transado com sua ex-na­morada na noite seguinte àquela em que transara comigo ("Meu Deus, vocês, garotas de convento, são tão caretas"), nem alguém que me fizesse sentir constrangida por não saber a diferença entre Piat d'Or e Zinfandel (seja lá o que for isso!).

James não me tratava de nenhuma dessas maneiras desagradá­veis. Até parecia bom demais para ser verdade. Ele gostava de mim. Ele gostava de quase tudo em mim.

Quando nos conhecemos, estávamos ambos morando em Lon­dres. Eu era garçonete (explico direito mais tarde), e ele, contador.

Entre todas as espeluncas ao estilo texano-mexicano ao redor do mundo, ele entrou justamente na minha. Eu não era uma garçonete de verdade, você entende, era formada em Inglês, só que passara por minha fase rebelde bem mais tarde do que a maioria das mulheres, lá pelos 23 anos. Que foi quando pensei que seria bem divertido deixar meu emprego permanente em Dublin, com direito a aposentadoria e até bem pago, e partir para a pecaminosa cidade de Londres, para viver como uma estudante irresponsável.

Algo que deveria ter feito quando era mesmo uma estudante irresponsável. Mas, naquele tempo, estava ocupada demais obtendo experiência de trabalho em minhas férias de verão, e então minha irresponsabilidade teve de esperar até eu estar inteiramente prepara­da para ela.

Como eu sempre digo, há tempo e lugar para a espontaneidade.

De qualquer modo, dei um jeito de arrumar um trabalho para mim como garçonete naquele badalado restaurante de Londres, com música alta, telões e pequenas celebridades.

Bem, para ser honesta, havia mais pequenas celebridades entre os empregados do que na clientela, já que a maior parte dos funcio­nários era composta de atores e modelos desempregados.

Nunca cheguei a entender como consegui um emprego ali. Talvez tenha sido contratada como símbolo da Garçonete Saudável. Antes de mais nada, eu era a única garçonete mais para baixinha e gordinha. E, embora pudesse não ser uma modelo em potencial, acho que tinha um certo tipo, digamos, de encanto natural - sabe, cabelo curto e brilhante, olhos azuis, sardas, belo sorriso, esse tipo de coisa.

E era tão inexperiente e ingênua. Nunca percebia quando entra­va um rostinho bem maquilado de alguma estrela do teatro ou da televisão.

Mais de uma vez, eu estava servindo (e uso a palavra em seu sen­tido mais livre possível) alguma mesa com algumas pessoas (e também uso essa outra palavra em seu sentido mais livre possível), quando uma das outras garçonetes me dava uma cotovelada (derramando molho de churrasco escaldante na virilha de um infeliz cliente) e sus­surrava algo como: "Esse sujeito que você está servindo não é fulano de tal, daquela banda?".

E geralmente eu respondia: "Que sujeito? Aquele com roupa de couro?” (Lembre-se, eram os anos 80.).

"Não", sussurrava ela, em resposta. "Aquele com cachos louros e usando o batom Chanel. Não é aquele cantor?"

"Ah, é?", gaguejava eu, sentindo-me por fora e tola, por não sa­ber quem era aquela pessoa.

De qualquer jeito, eu adorava trabalhar. Emocionava-me até a medula de classe média dos meus ossos burgueses. Parecia tão char­moso e excitante acordar todos os dias a uma da tarde, ir trabalhar as seis, terminar à meia-noite, embriagar-me em seguida com o barman e, mais tarde, com os ajudantes de garçom.

Enquanto estava lá na Irlanda, minha pobre mãe chorava lágri­mas amargas ao pensar em sua filha, com educação universitária e servindo hambúrgueres a estrelas pop.

E nem sequer estrelas pop lá muito famosas, para piorar as coisas.

Trabalhava ali há cerca de seis meses, na noite em que conheci James. Foi uma sexta, tradicionalmente a ocasião em que os BE fre­qüentavam nosso restaurante. BE, claro, queria dizer “babacas-de-escritório”.

Toda sexta-feira, às cinco horas, qual túmulos expelindo seus mortos, os escritórios em todo o centro de Londres liberam seu pes­soal para o fim de semana, e então hordas de funcionários pálidos, com espinhas, mal vestidos, caem em cima de garçonetes, todos de olhos arregalados e cheios de ansiedade, procurando as estrelas e querendo encher a cara - qualquer das duas coisas em primeiro lugar.

Era norma para nós, garçonetes, ficarmos ao largo, com um ar de desdém para a clientela desse tipo, sacudindo nossas cabeças com piedade descrente diante dos trajes, cortes de cabelo etc. dos pobres clientes, ignorando-os durante os primeiros cerca de quinze minutos de sua visita, passando por eles às pressas, com brincos e braceletes tilintando, obviamente fazendo alguma coisa mais importante do que atender às suas patéticas necessidades e, afinal, após reduzi-los até quase as lágrimas de frustração e fome, seguir requebrando até suas mesas com um imenso sorriso, caneta e um bloco de pedido. "Boa noite, cavalheiros, desejam uma bebida?"

Isso os deixava tão agradecidos, entende? Depois, não fazia a mínima diferença se os pedidos de bebidas estavam completamente errados ou se a comida jamais aparecia; mesmo assim, deixavam uma gorjeta enorme, a tal ponto se sentiam com sorte por receber nossa atenção.

Nosso lema era: "Não apenas o cliente está sempre errado, como provavelmente estará muito mal vestido para ganhar a discussão."

Na noite em questão, James e três dos seus colegas sentaram-se em meu setor e atendi a seus pedidos da minha maneira normal, ou seja, irresponsável e avoada. Não lhes dei a menor atenção, mal ouvindo o que diziam ao anotar o pedido, e não os olhei diretamen­te sequer uma vez. Se tivesse feito isso, talvez notasse que um deles (sim, James, claro) era muito simpático, com seu jeitão, cabelos negros, olhos verdes, um metro e 80. Eu deveria olhar para além do terno e ver a alma do homem.

Ah, superficialidade, vosso nome é Claire.

Mas eu queria ficar lá nos fundos com as outras garçonetes, bebendo cerveja, fumando e falando de sexo. Clientes eram uma interferência mal recebida.

Será que a carne pode vir mal passada, por favor?

Humm - disse eu, distraída. Estava ainda menos interessada do que o habitual, porque notara um livro em cima da mesa. Era um livro realmente muito bom, que eu havia lido.

Eu adorava livros. Adorava ler. E adorava homens que liam. Ado­rava o homem que soubesse distinguir Existencialismo de Realismo Mágico. E passara os últimos seis meses trabalhando com homens que mal conseguiam ler sua revista de gente chique e famosa (soletrando com esforço, em silêncio, cada palavra). De repente, percebi, com uma pontada no peito, o quanto sentia falta de um pouquinho de conversa inteligente.

Porque eu podia dar as cartas em qualquer conversa sobre ro­mance americano moderno. Verei seu Hunter S. Thompson e ergue­rei para você um Jay Mc lnerney.

De repente, os homens daquela mesa pararam de ser simples cha­tos e assumiram para mim uma espécie de identidade.

-De quem é esse livro? - perguntei abruptamente, interrom­pendo o pedido. (Não ligo para como você quer que façam seu bife.)

A mesa dos quatro homens surpreendeu-se. Eu falara com eles! Eu os tratara quase como humanos.

- É meu - disse James e, enquanto meus olhos azuis encontravam seus olhos verdes, por cima do daiquiri de manga que ele estava bebendo (embora, na verdade, tivesse pedido um copo de cerveja), aconteceu: o mágico pó prateado foi salpicado em cima de nós. Naquele instante, houve algo maravilhoso. A partir do momento em que realmente nos olhamos, embora nada soubéssemos um do outro (a não ser que gostávamos do mesmo livro - ah, sim, e que gostávamos das nossas respectivas aparências), ambos percebemos que havíamos encontrado alguém especial.

Sustento que nos apaixonamos imediatamente.

Ele não sustentou nada do gênero e disse que eu era uma tola romântica.

Disse que demorou pelo menos trinta segundos para se apaixo­nar por mim.

Os historiadores discutirão.

Antes de mais nada, tinha de descobrir se eu também lera o livro em questão. Porque pensou que eu devia ser algum tipo de modelo ou cantora burra, se estava trabalhando ali como garçonete. Sabe, do mesmo jeito como eu o descartara, considerando-o algum tipo de funcionário público chato. Bem feito para mim.

- Você leu? - perguntou ele, obviamente surpreso, com seu tom de voz na verdade querendo dizer: "Será que você consegue mesmo ler uma coisa desse nível?"

- Sim, li todos os livros dele - contei-lhe.

- Sério? - perguntou, pensativamente, enquanto se recostava em sua cadeira, olhando-me com interesse. Um cacho do seu cabelo negro e sedoso caíra-lhe em cima da testa.

- Sim - dei um jeito de responder, sentindo-me ligeiramente enjoada de tanto desejo.

- As perseguições de carro são boas, não?

Agora, devo dizer aqui a vocês que não havia nenhuma persegui­ção de carro em qualquer dos livros sobre os quais falávamos. Eram livros sérios, profundos, sobre vida, morte e questões parecidas.

Deus do céu pensei alarmada: bonito, inteligente e, ainda por cima, engraçado. Será que sou capaz de ganhar esse cara?

E então James sorriu para mim, um sorriso lento, sensual, uma espécie de sorriso de quem sabe das coisas, que em nada combinava com o terno de riscas que usava, e juro a você que minhas entranhas viraram sorvete quente. Você sabe, tudo assim meio quente, gelado e formigante e... ora... como se estivesse se dissolvendo ou algo pare­cido.

E, durante anos, muito tempo depois que a magia inicial já se desgastara e a maioria de nossas conversas era sobre política de seguros, tudo que eu precisava fazer era me lembrar daquele sorriso para me sentir exatamente como se tivesse acabado de me apaixonar outra vez.

Trocamos mais algumas palavras.

Apenas umas poucas.

Mas foram o bastante para me fazer saber que ele era gente boa, inteligente e engraçado.

Ele pediu o número do meu telefone.

Era uma falta punível com a demissão dar a um cliente o número do meu telefone.

Dei a ele o número do meu telefone.

Quando ele saiu do restaurante, aquela primeira noite, com seus três companheiros, um borrão de pastas, guarda-chuvas, exemplares enrolados do Financial Times e ternos escuros, sorriu para mim em despedida e (ora, digo isso com o benefício da visão retrospectiva. É muito fácil prever o futuro, quando já aconteceu, se é que você me entende) eu sabia que olhava para meu destino.

Meu futuro.

Alguns minutos depois, ele estava de volta.

- Desculpe - sorriu. - Como é mesmo seu nome?

Logo que as outras garçonetes descobriram que um sujeito de terno pedira o número do meu telefone e, pior ainda, que eu lhe dera, fui tratada como uma pária. Basta dizer a você que demorou muito para que eu fosse novamente convidada para o cantinho delas para cheirar cocaína.

Mas não me importei. Estava realmente caída por James.

Apesar de toda minha conversa sobre independência, eu era, de fato, do fundo do coração, uma pessoa muito romântica. E, apesar de toda a minha conversa sobre rebeldia, eu era a pessoa mais classe média do mundo.

Desde a primeira vez em que saímos juntos, foi tudo maravilho­so. Tão romântico, tão bonito.

E lamento dizer isso a você, mas vou ter de usar uma porção de clichês aqui. Não vejo nenhuma maneira de escapar disso.

Tenho vergonha de contar-lhe que eu andava nas nuvens. E la­mento mais ainda ter de lhe dizer que me sentia como se o tivesse conhecido durante toda a minha vida. E vou agravar as coisas, con­tando ainda que achava que ninguém me entendia do mesmo jeito que ele. E, como perdi toda a credibilidade com você, também posso dizer que não sabia que era possível ser tão feliz. Mas não vou for­çar a barra contando-lhe que ele me fazia sentir segura, sexy, inteli­gente e meiga. (E, lamento, mas realmente devo dizer-lhe que achava que havia encontrado minha outra metade e agora eu era inteira, e prometo que vou parar por aqui.) (Exceto, talvez, para mencionar que ele sabia rir e era ótimo de cama. Agora falo sério, fico por aqui, já disse tudo mesmo.)

Quando começamos a sair juntos, eu trabalhava como garçonete quase todas as noites; então, só podia vê-lo quando acabava de trabalhar. Mas ele me esperava acordado. E, quando eu chegava, exausta, após horas servindo fosse lá o que fosse grelhado ao pessoal de Londres (ou da Pensilvânia ou de Hamburgo, para ser mais exata), ele - até hoje não acredito - banhava meus pés doloridos e os massageava com loção de hortelã para pés da Body Shop. Mesmo sendo mais de meia-noite e ele tendo de estar no trabalho às oito da manhã para ajudar as pessoas a sonegar seus impostos, ou seja lá o que fazem os contadores, mesmo assim ele fazia tudo isso. Cinco noites por semana. E me deixava atualizada quanto às novelas. Ou ia até o posto 24 horas, quando eu ficava sem cigarros. Ou me con­tava historinhas engraçadas sobre seu dia no trabalho. Sei que é difí­cil acreditar que qualquer história sobre contabilidade possa ser engraçada, mas ele conseguia.

E, por causa do meu trabalho, nunca podíamos sair aos sábados à noite. E ele não se queixava.

Estranho, não?

Sim, eu também achava.

E ele me ajudava a contar minhas gorjetas. E me dava ótimos con­selhos sobre como investi-las. Ações de estatais, esse tipo de coisa.

Eu geralmente comprava sapatos.

Pouco depois, tive a sorte de ser demitida do emprego de garçonete (um tolo mal-entendido envolvendo-me, junto com várias gar­rafas de cerveja importada, um caso de "jantar servido no colo" e um cliente irracional, que não tinha o menor senso de humor. De qualquer jeito, acho que as cicatrizes dele desapareceram quase por completo).

E consegui arrumar outro emprego com um horário mais regular. Então, nosso romance prosseguiu do modo mais tradicional.

Depois de algum tempo, fomos morar juntos. Depois de um tempo um pouco mais longo nos casamos. E, alguns anos depois, decidimos ter um bebê, afinal, meus ovários pareciam estar prontinhos, os espermatozóides dele não registraram nenhuma queixa a respeito, meu útero não levantou nenhuma objeção e, então, engravidei. E dei à luz uma menina.

E foi aqui que você entrou.

Então, acho que estamos bem atualizados.

E, se você está na expectativa de algum tipo de descrição terrivel­mente macabra do parto, com conversas sobre contrações, fórceps e gemidos de agonia, além de comparações vulgares, como expelir um sacão de batatas, então lamento desapontá-la (o).

(Ora, tudo bem, apenas para animar você, imagine a pior cólica menstrual que já sentiu e a multiplique por sete milhões, fazendo também com que dure vinte e quatro horas e, então, terá uma idéia de como são os trabalhos de parto.).

Sim, foi assustador, confuso, humilhante e doeu até dizer chega. Foi também emocionante e maravilhoso. Mas a coisa mais impor­tante para mim foi que terminou. Eu podia mais ou menos lembrar a dor, mas ela não tinha mais o poder de me ferir. Porém, quando James me deixou, percebi que preferia passar pela dor de cem traba­lhos de parto do que passar pela dor de perdê-lo, que senti então.

Eis como ele soltou a notícia de sua iminente separação de mim.

Depois que segurei meu bebê nos braços pela primeira vez, as enfermeiras o levaram para o berçário e a mim para meu quarto, onde dormi por algum tempo.

Quando acordei, James estava em pé, acima de mim, olhando-me com seus olhos muito verdes no rosto branco. Sorri para ele, sonolenta e triunfante.

- Olá, querido - disse.

- Olá, Claire - disse ele, formal e educadamente.

Tola como era, pensei que ele estava com aquele ar grave e sério por algum tipo de sinal de respeito. (Vejam só minha esposa, ela pariu uma criança hoje, é uma mulher, dá a vida - sabe esse tipo de coisa.).

Ele se sentou na beirada da cadeira dura do hospital, com aspec­to de quem ia levantar-se e sair correndo a qualquer instante. O que de fato faria.

- Esteve no berçário para vê-la? - perguntei-lhe, com ar sonha­ dor. - É tão linda.

- Não, não estive - disse ele, sumariamente. - Ouça, Claire, vou embora - prosseguiu, com rispidez.

- Por quê? - perguntei, afundando em meus travesseiros. - Você mal acabou de chegar. - (Sim, eu sei, também não consigo acreditar que ele disse isso; afinal, quem escreve minhas falas?).

- Claire ouça - disse ele, começando há ficar um pouco agita­do. - Vou deixar você.

- O quê? - perguntei, lenta e cuidadosamente. Devo admitir que agora ele tinha toda a minha atenção.

- Ouça, Claire, lamento muito, mas encontrei outra pessoa e vou ficar com ela. Desculpe quanto ao bebê e todo o resto, deixar você desse jeito, mas devo fazê-lo - despejou ele, branco como um fantasma, com os olhos brilhantes de angústia.

- O que quer dizer com "encontrou" outra pessoa? - pergun­tei perplexa.

- Quero dizer que... bem... apaixonei-me por outra pessoa - assumiu ele, com ar arrasado.

- Você quer dizer... outra mulher ou algo assim? - perguntei, com a sensação de ter levado uma pancada na base do crânio com um taco de beisebol.

- Exatamente - disse ele, sem dúvida aliviado porque eu parecia ter entendido o básico da situação.

- E você vai me deixar? - repeti o que ele dissera, em tom de descrença.

- Vou - disse ele, olhando para seus sapatos, para o teto, para minha garrafa de suco, para qualquer outra coisa, menos para os meus olhos.

- Mas você não me ama mais? - surpreendi-me perguntando.

- Não sei. Acho que não - respondeu ele.

- Mas, e o bebê? - perguntei, pasma. Era inacreditável que me deixasse, sobretudo agora, quando acabávamos de ter nosso bebê. - Você tem de tomar conta de nós duas!

- Desculpe, mas não posso - disse ele. - Garantirei sua proteção financeira, e decidiremos alguma coisa sobre o apartamento e a hipoteca, sobre todas essas coisas, mas tenho de ir.

Eu não conseguia acreditar naquela conversa. Sobre que diabo falava ele, apartamentos, dinheiro, hipoteca, toda aquela bosta? Se­gundo o roteiro, deveríamos estar nos babando com nosso bebê e discutindo carinhosamente a quem ela puxara na família. Mas James, meu James, falava em me deixar. Quem é o encarregado aqui? Gostaria de me queixar da minha vida. Claramente, pedi uma vida feliz, com um marido amoroso, para combinar com meu bebê recém-nascido, e que falsificação grotesca era aquela que me ofereciam?

- Meu Deus, Claire - disse ele -, detesto deixar você assim. Mas, se eu for para casa com você e o bebê agora, nunca mais serei capaz de sair de lá.

Mas a idéia não era exatamente essa?, pensei, confusa.

Sei que não existe uma boa hora para lhe dizer uma coisa des­ sas. Mas não podia dizer quando você estava grávida, para que não perdesse o bebê. Então, estou lhe dizendo agora.

- James - disse eu, fracamente -, tudo isso é muito estranho.

- Eu sei - ele se apressou em concordar. -- Você já passou por muita coisa nas últimas vinte e quatro horas.

- Por que você estava presente no parto, se planejava me deixar no minuto em que terminasse? - perguntei-lhe, segurando seu braço, tentando fazer com que ele me olhasse.

- Porque prometi - afirmou, sacudindo minha mão para livrar seu braço, e sem me olhar nos olhos, parecendo um colegial repreen­dido.

- Só porque prometeu? - perguntei, tentando encontrar algum sentido naquilo. - Mas você me prometeu toneladas de coisas. Co­ mo me dar carinho e me amar até que a morte nos separe.

- Desculpe - gaguejou ele. - Mas não posso cumprir essas promessas.

- Então, o que vai acontecer? - perguntei, atordoada. Nem por um segundo aceitei uma única palavra do que ele dizia. Mas a banda continua a tocar mesmo quando ninguém está dançando. Eu estava mantendo o que, para todos os efeitos, podia parecer ao observador imparcial, de fora, uma conversa com James. Mas não era absolutamente uma conversa, porque eu não tinha a menor intenção de fazer o que eu mesma dizia e não aceitava nada do que ele dizia. Quando lhe perguntei o que aconteceria, não precisava de uma resposta. Sabia o que se seguiria. Ele iria para casa comigo e com o bebê, e toda aquela tolice acabaria.

Acho que eu quase sentia que, se o mantivesse conversando, ali, junto de mim, ele perceberia como estava sendo tolo por chegar a ter pensado em me deixar.

Ele se levantou longe demais de mim para eu poder tocá-lo. Usava um terno negro (havíamos brincado, muitas vezes, sobre o fato de que ele usava aquele terno para supervisionar falências e liquidações), tinha um ar sombrio e estava muito pálido. De certa forma, jamais me parecera tão bonito.

- Vejo que você está usando seu terno de empresário - disse eu, amarga. - Um toque simpático.

Ele sequer tentou sorrir, e então percebi que o perdera. Ele tinha a aparência de James, falava como James, cheirava como James, mas não era James.

Como num filme de ficção científica dos anos 50, no qual o corpo da namorada do herói é ocupado por um extraterrestre - e mantém a mesma aparência (um suéter de lã angorá cor-de-rosa, bolsinha bonita, sutiã tão pontudo que furaria um olho etc.) ... só que com olhos diferentes.

O observador casual ainda podia pensar que era James. Mas eu percebi, olhando-o nos olhos, que meu James se fora. Havia em seu corpo um estranho frio, sem amor. Soube então que meu James partira.

Talvez ele estivesse na nave espacial.

-Já tirei de casa a maior parte das minhas coisas - disse ele. - Vou ficar em contato com você. Cuide-se.

Deu meia volta e rapidamente deixou o quarto. Na verdade, quase saiu correndo. Desejei correr atrás dele, mas o filho da puta sabia que eu não podia me levantar, por causa dos vários pontos que levara na vagina.

Ele se fora.

Fiquei deitada em minha cama de hospital, imóvel por um longo tempo. Estava atordoada, chocada, horrorizada, incrédula. Mas, de uma maneira muito estranha, havia alguma coisa em que eu real­mente acreditava, em tudo aquilo. Havia alguma coisa quase fami­liar nessa sensação.

Sabia que não podia ser uma sensação de familiaridade, porque eu nunca fora largada por um marido. Mas havia definitivamente alguma coisa fora do lugar, ali. Acho que existe uma parte no cérebro de uma pessoa - certamente há no meu - que se mantém de vigia em algu­ma elevação rochosa, no alto das montanhas, esperando sinais de peri­go. E sinaliza de volta para o resto do cérebro, quando enxerga o pe­rigo. A versão emocional de "Os índios estão chegando". Quanto mais eu pensava a respeito, mais percebia que essa parte do meu cére­bro provavelmente tinha feito brilharem espelhos e enviado sinais de fumaça como uma louca, no curso dos últimos meses. Mas o resto do meu cérebro estava no acampamento das carroças, no agradável e verdejante vale da gravidez, e não queria tomar conhecimento do perigo iminente. Então ignorou inteiramente as mensagens que lhe foram enviadas.

Eu soubera que James sentira-se infeliz durante a maior parte de minha gravidez, mas atribuíra isso às minhas mudanças de estado de espírito, à minha fome constante, ao meu sentimentalismo rasgado, eu chorando por causa de tudo, desde a novela ao informativo eco­nômico.

E claro que nossa vida sexual fora drasticamente reduzida. Mas eu pensava que, logo que tivesse o bebê, tudo voltaria ao normal. Só que a um normal melhor, se é que você me entende.

Pensei que a infelicidade de James fosse apenas resultado do fato de eu estar grávida, com os efeitos colaterais daí decorrentes, mas, olhando para trás, talvez eu tivesse ignorado coisas que não deveria.

Então, o que fazer? Sequer sabia onde ele estava hospedado. Mas algum instinto me disse para deixá-lo em paz por algum tempo. Levá-lo na piada. Fingir que estava topando tudo.

Mal podia acreditar naquilo.

Abandonar-me, francamente! Minha reação normal ao fato de sentir-me magoada ou traída deveria vir em seguida, mas de alguma forma eu sabia que isso, naquela situação, não me faria bem, de maneira nenhuma. Eu tinha de permanecer calma e sã, até poder decidir o que fazer.

Uma das enfermeiras passou por mim com seus sapatos de sola de borracha, parou e sorriu.

- Como se sente? - perguntou.

- Ah, ótima - disse eu, desejando que ela fosse embora.

- Acho que seu marido virá ver você e o bebê mais tarde - disse ela.

- Eu não contaria com isso - respondi, com amargura.

Ela me lançou um olhar espantado e se afastou rapidamente na direção de uma das mães boazinhas, civilizadas, corteses, estalando sua caneta e me lançando olhadelas nervosas.

Decidi telefonar para Judy.

Judy era minha melhor amiga. Éramos amigas desde os 18 anos. Viéramos para Londres juntas. Ela fora minha dama de honra.

Eu não conseguiria enfrentar aquela situação sozinha. Judy me diria o que fazer.

Cautelosamente, ergui-me da cama e, tão rápido quanto permitia minha condição, segui até o telefone público. Ela atendeu imediatamente.

- Ah, oi, Claire - disse. - Eu já estava a caminho daí.

- Ótimo - foi tudo que eu disse.

Só Deus sabe o quanto eu desejava cair em prantos e contar a ela sobre o suposto abandono de James, mas havia uma fila de mulheres de cor-de-rosa, arrastando suas camisolas atrás de mim, à espera de sua vez de usar o telefone (sem dúvida, a fim de ligar para seus dedi­cados maridos) e, contrariando todas as probabilidades, ainda me restava algum orgulho.

"Essas filhas da puta presunçosas", pensei, com amargura (e irracionalmente, devo admitir), enquanto coxeava de volta para a cama.

Logo que Judy chegou, soube que ela já sabia de tudo a respeito de James. Soube por que ela disse: "Claire, já sei tudo a respeito de James". E também porque não chegou com um imenso buquê de flo­res, um sorriso maior ainda e um cartão do tamanho de uma mesa de cozinha, cheio de cegonhas. Tinha um aspecto ansioso e tenso.

Meu coração estourou de dor. Se James estava contando a outras pessoas, então devia ser verdade.

- Ele me deixou - disse eu, dramaticamente.

- Eu sei - ela afirmou.

- Como ele pôde fazer uma coisa dessas? - perguntei-lhe.

- Não sei - ela respondeu.

- Ele se apaixonou por outra pessoa - eu disse.

- Eu sei - ela disse.

- Como sabe? - perguntei, sacudindo-a para que me informas­ se de tudo.

- Michael me contou. Aisling contou a ele. George contou a ela. (Michael era o namorado de Judy. Aisling trabalhava com ele. George era o marido de Aisling. George trabalhava com James).

- Então, todo mundo sabe - eu disse, em voz baixa.

Houve uma pausa. Judy estava com cara de quem gostaria de morrer.

- Então deve ser verdade - disse eu.

- Acho que é - ela disse, obviamente constrangida.

- Sabe quem é essa outra mulher? - perguntei-lhe, sentindo-me nojenta por colocá-la em posição tão constrangedora, mas eu tinha de saber e estava chocada demais para perguntar a James antes de ele ir embora.

- Hã, sim - disse ela, meio sem graça. - É aquela Denise. Demorei um minuto para perceber sobre quem ela estava falando.

- O quê!? - gritei. - Não me diga que é aquela Denise do an­ dar de baixo!

Um infeliz sinal afirmativo com a cabeça por parte de Judy. Foi bom que eu já estivesse deitada.

- Aquela filha da puta! - exclamei.

- E há mais - ela murmurou. - Ele está falando em se casar com ela.

- Que diabo você quer dizer com isso? - gritei. - Ele já é casa­ do. Comigo. Não sabia que tinham tornado a poligamia legal nos últimos dias.

- Não tornaram - disse ela.

- Mas então... - interrompi-me, perplexa.

- Claire - ela suspirou, falando com um tom desanimado -, ele diz que vai se divorciar de você.

Como eu disse, foi bom que eu já estivesse deitada na cama. A tarde foi passando, juntamente com a paciência de Judy e qual­quer esperança que eu ainda pudesse abrigar. Olhei para ela, desesperada.

- Judy, o que vou fazer?

- Escute - disse ela, com objetividade. - Dentro de dois dias você vai sair daqui. Ainda terá um lugar para morar, terá dinheiro suficiente para alimentar a si mesma e ao bebê, voltará ao trabalho dentro de seis meses, e tem uma filha recém-nascida para cuidar. Dê a James algum tempo e, finalmente, vocês dois vão chegar a alguma conclusão.

- Mas Judy - gemi -, ele quer o divórcio.

Embora James parecesse ter esquecido de um pequeno detalhe: não há divórcio na Irlanda. James e eu éramos casados na Irlanda. Nosso casamento fora abençoado pelos padres da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Embora ela nos tivesse prestado muito pouco socor­ro, na verdade. Tchau, Socorro.

Eu estava completamente perdida. Sentia-me sozinha e com me­do. Queria puxar os cobertores por cima da minha cabeça e morrer. Mas não podia, porque tinha uma pobre criança indefesa para criar.

Que início de vida ela estava recebendo...! Menos de dois dias e já fora abandonada por seu pai, e sua mãe estava à beira de um colapso.

Pela milionésima vez, imaginei como James podia fazer isso comigo.

- Como James pôde fazer isso comigo? - perguntei a Judy.

- Você já me perguntou isso cerca de um milhão de vezes - ela disse.

E era verdade.

Eu não sabia como James podia ter feito aquilo comigo. Sabia apenas que fizera.

Até então, suponho que pensava que a vida repartia as coisas desagradáveis para mim em pequenos pedaços e a espaços regulares. Nunca me dava mais do que eu podia enfrentar de cada vez.

Quando ouvia falar de pessoas que sofriam desastres cumulati­vos (por exemplo, um acidente de automóvel, perder o emprego e pegar o namorado na cama com a irmã, tudo numa única semana), pensava que a culpa era dessas pessoas. Bem, não exatamente culpa. Mas, se as pessoas se comportassem como vítimas, tornar-se-iam vítimas. Se esperassem que o pior acontecesse, então ele invariavel­mente aconteceria.

Via, agora, como estava errada. Algumas vezes, as pessoas não se apresentam voluntariamente para serem vítimas, mas se tornam víti­mas, de qualquer jeito. Não é culpa delas. Certamente não era minha culpa que meu marido achasse que se apaixonara por outra pessoa. Não esperava que acontecesse e certamente não queria que aconte­cesse. Mas aconteceu.

Soube, então, que a vida não respeitava circunstâncias. A força que atira em nós os desastres não diz: "Bem, não darei a ela aquele caroço no seio antes de pelo menos um ano. É melhor deixar que se recupere primeiro da morte da mãe." A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade.

Percebi que ninguém está imune à síndrome do desastre cumulativo. Não que eu pensasse que ter um bebê fosse um desastre. Mas cer­tamente ele não deveria ter vindo em circunstâncias tão tumultuadas.

Eu acreditava controlar inteiramente a minha vida e, Deus me perdoe, se alguma coisa chegasse a dar errado comigo mesma e com James, eu seria capaz de dedicar todo o meu tempo e energia para resolver a situação. Não esperava exatamente ser abandonada menos de vinte e quatro horas depois de dar à luz meu primeiro filho, quando meus níveis de energia estavam mais baixos do que nunca e os de vulnerabilidade mais altos do que nunca.

Sem falar em como eu estava obviamente gorda, naquele momento.

E um bumbum gordo jamais agradou ao belo James.*

Judy e eu ficamos sentadas na cama em silêncio, ambas tentando pensar em algo construtivo para dizer. De repente, ocorreu-me a solução. Bem, talvez não a solução perfeita, mas uma solução. Alguma coisa para tapar o buraco, por enquanto.

- Sei o que vou fazer - disse a Judy.

"Ah, graças a Deus", pude sentir que ela pensou, com fervor. "Graças a Deus."

E, como Scarlett O'Hara, nas últimas linhas de... E o Vento Levou, eu disse, queixosamente: "Vou para casa. Vou para minha casa em Dublin."

Sim, concordo com você. "Dublin" não soa tão bem quanto "Tara", mas de que me adiantaria ir para uma casa em Tara? Não conhecia ninguém lá. Na verdade, eu só passara por lá duas vezes a caminho de Drogheda.**


* "E um bumbum gordo jamais agradou ao belo James": Paródia ao provérbio "Faint heart never won fair lady" [Coração covarde jamais conquistou formosa dama].

** Drogheda: Referência à fazenda do romance Pássaros Feridos, da autora austra­liana Colleen McCulough, também publicado pela Bertrand Brasil.



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