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LOS ANGELES


MARIAN KEYES

PROLOGO
O sexto romance de Marian Keyes é uma história absolutamente cativante sobre um casamento que deu errado e uma mulher sensível que, subitamente, resolve fazer o que bem entende da vida.
Diferente do resto de sua família, Maggie Walsh sempre foi a irmã mais certinha de todas, em tudo, a santa que andava sempre na linha. Pelo menos até o dia que largou o marido e foi para Hollywood!
"Em breve estaremos pousando no Aeroporto Internacional de Los Angeles. Por favor certifiquem-se de que o encosto de suas poltronas está na posição vertical, de que você não está nem um quilinho acima do peso e de que seus dentes estão brancos como neve."
Em L.A., roupas sofisticadas, pessoas magérrimas e emperiquitadas e festas bem freqüentadas são presenças constante, e acreditem: até as palmeiras ao longo das calçadas são magras.
Ao se hospedar com a sua melhor amiga, Emily, uma roteirista raladora, Maggie começa a fazer coisas que jamais fizera antes, tipo se enturmar com estrelas de Hollywood e até mesmo usar meias-calças na cabeça para firmar o penteado e fazer apresentações de roteiros para produtores de cinema na maior cara-de-pau - e mais, muito mais!
Assim, conhece o misterioso Troy, um homem tão antiaderente, que é conhecido como Teflon Humano.
Acompanhe Maggie em sua jornada (de descobertas) com as estrelas dos subúrbios sofisticados de L.A. ao bronzeado deslumbrante que só se consegue nas praias da Califórnia, engolindo mágoas e, de quebra, muitos martínis, enquanto procura o que realmente quer da vida e qual o verdadeiro motivo de ter pulado fora do casamento.

CAPÍTULO 1

Eu sempre levei uma vida razoavelmente irrepreensível. Até o dia em que larguei o meu marido e fugi para Hollywood, eu nunca tinha feito nada de errado. Pelo menos, nada que muita gente ficasse sabendo. Foi por isso que quando, sem mais nem porque, tudo começou a se desintegrar em minha vida como papel molhado, não consegui afastar a desagradável suspeita que aquilo já era pra ter acontecido há muito tempo. Toda aquela vida certinha não era nem um pouco natural.


É claro que eu não acordei de manhã um belo dia e saí do país, deixando o meu pobre marido, sonolento e com cara de bobo, se perguntando o que significava aquele envelope em cima do travesseiro. Estou fazendo a coisa toda parecer mais dramática do que realmente foi, o que é estranho, porque eu nunca tive propensão para o drama. Nem propensão para usar palavras como "propensão", por falar nisso. Mas, desde o lance com os coelhos, e talvez antes mesmo disso, as coisas com Garv já andavam meio desconfortáveis e esquisitas.
Foi quando passamos por dois episódios que as pessoas costumam chamar de "reveses". Só que, em vez de tornar o nosso casamento mais forte - como sempre parecia acontecer com outras almas afortunadas que sofriam reveses e superavam para depois contar tudo nas revistas femininas favoritas de minha mãe -, o nosso tipo particular de revés fez exatamente o que a palavra insinua. Nos fez andar de ré. Eles se enfiaram entre mim e Garv e nos afastaram um do outro. Embora não comentássemos nada a respeito, eu sabia que Garv me culpava.
Até aí, tudo bem, porque eu me culpava também.

O nome dele na verdade é Paul Garvan, mas, quando eu o conheci, nós dois ainda éramos adolescentes e ninguém chamava ninguém pelo primeiro nome. "Cabeção", "Mosquito", "Baleia" e "Mongão" eram os nomes pelos quais alguns de nossos amigos eram conhecidos. Ele era Garv, foi assim que eu o conheci, e só o chamo de Paul quando estou extremamente revoltada por algum motivo.


Do mesmo modo, meu nome é Margaret, mas ele me chama de Maggie, a não ser quando eu pego o carro dele emprestado e arranho a lateral em uma das pilastras do edifício-garagem (coisa que acontece com mais freqüência do que vocês poderiam supor).
Eu estava com vinte e quatro e ele com vinte e cinco quando nos casamos. Ele foi o meu primeiro namorado, como minha pobre mãe não cansa de contar para as pessoas. Ela imagina que isso prova o quanto eu era uma jovem sossegada, uma menina que não ficava pulando de cama em cama por aí. (Fui a única de suas cinco filhas que não fez isso; podemos culpá-la por exibir minha suposta virtude?) O que ela se esquece de mencionar quando conta vantagens para as amigas é que Garv pode ter sido meu primeiro namorado, mas não foi o único.
Enfim...
Já estávamos casados há nove anos e não dá pra dizer ao certo quando foi que eu comecei a fantasiar sobre o fim do casamento. Não que eu quisesse isso, acreditem. Mas achava que se eu imaginasse o pior cenário possível, isso seria a garantia de que o fato nunca iria acontecer. Entretanto, em vez disso servir de garantia, acabou materializando a coisa toda. Só para vocês verem...
O fim veio de forma surpreendente súbita. Em um minuto meu casamento estava direitinho nos trilhos - apesar de eu andar fazendo coisas estranhas como beber minhas lentes de contato -, e no minuto seguinte estava totalmente descarrilhado, acabado, o que me pegou completamente desprevenida, pois eu sempre achei que haveria o período regulamentar de arremesso de pratos um no outro e trocas de palavrões, antes de a bandeira branca ser hasteada.

Tudo desmoronou sem uma troca de palavras ríspidas sequer, e eu simplesmente não estava preparada para isso .


Deus é testemunha de que eu devia estar . Algumas noites antes eu havia acordado de madrugada e fiquei sem sono , pronta para uma boa rodada de preocupações , coisas que muitas vezes acontecia , geralmente provocada por trabalho ou dinheiro . Sabem como é , o de sempre muito de um pouco de outro.
Só que recentemente – provavelmente não tão recentemente assim- eu me pegava preocupada comigo em relação a Garv . Será que as coisas iam melhorar ? Será que já haviam melhorado , mas eu não enxergava?
Na maioria das noites , não chegava a nenhuma conclusão e tentava voltar a dormir , mesmo preocupada . Daquela vez porém , fui acometida por uma súbita e indesejada visão de Raios X . Consegui ver através da cômoda rotina diária , da cumplicidade das palavras especiais que usávamos um com o outro , do passado que dividíamos e o meu olhar chegou até o coração de Garv e ao meu também , e percebi tudo o que acontecera nos últimos tempos . Toda a fantasia se desfez e eu tive um pensamento horrível , porém muito claro : estamos com um problemão nas mãos .
Isso me deixou literalmente gelada . Todos os cabelinhos do meu braço se eriçaram e uma sensação congelante se acomodou entre as minhas costelas . Aterrorizada , tentei me animar pensando na montanha de trabalho que me esperava no escritório na manhã seguinte , mas não adiantou nada .
Então me lembrei que meus pais estavam ficando idosos e que a filha que ia ter que acabar cuidando deles era eu . Tentei ficar pensando nisso para afastar a cabeça do casamento mas não adiantou nada .
Depois de algum tempo , tornei a pegar no sono , cocei o braço até fazer ferida, rangi os dentes com vontade, acordei com a boca cheia de cascalho e fui em frente .
Eu devia ter percebido que quando pensei “ estamos com um problemão nas mãos” , na verdade já estávamos há algum tempo , e de verdade.

Na noite em questão , tínhamos combinado de sair para jantar com Elaine e Liam , amigos de Garv . Quem sabe , se a nova TV de plasma de Liam não tivesse despencado da parede e caído em cima do seu pé , quebrando-lhe o dedão , e tivéssemos ido jantar fora , em vez de eu ir direto para casa depois do trabalho , talvez eu e Garv nunca tivéssemos nos separado?

A ironia é q eu estava rezando para que Elaine e Liam cancelassem o jantar. A chance era boa - nas ultimas três vezes em que havíamos combinado de sair,o encontro não aconteceu.Da primeira vez,Garv desmarcou porque estávamos esperando pela nova mesa da cozinha,que haviam ficado de entregar naquele dia(não,é claro que não entregaram).Na vez seguinte,Elaine- que é uma bambambã na área de fundos de pensão - teve que ir até Sligo para deixar um monte de gente sem emprego("O Jaguar novo chegou bem a tempo da minha viagem!").Da ultima vez,eu arranjei uma desculpa esfarrapada que Garv aceitou na mesma hora.Agora era a vez de Elaine e Liam cancelarem.
Não que eu não gostasse deles.Bem,na verdade não gostava mesmo.Como eu disse,ela é uma bambambã em fundos de pensão e ele é corretor de bolsa.Os dois tem boa aparência,ganham toneladas de dinheiro e são grosseiros com garçons.O tipo de gente que está sempre trocando de carro e saindo de férias.
A maioria dos amigos de Garv era ótima,mas Liam era uma exceção evidente: o problema era que Garv era o tipo de pessoa que anda por aí tentando achar o lado bom das pessoas - da maioria delas,pelo menos.Essa é uma grande qualidade,em teoria,e eu não faço nenhuma objeção ao fato de ele tentar achar coisas boas nas pessoas que eu gosto,mas era um saco quando ele insistia em fazer a mesma coisa com gente que eu não conseguia engolir.Ele e Liam eram amigos desde o colégio,nos dias em que Liam era um cara muito legal,e,embora Garv tivesse tentado com vontade, por minha causa,não conseguira acabar com a afeição residual que sentia por Liam.
Mas até Garv concordava que Elaine era uma coisa aterrorizantemente assustadora.Ela-falava-depressa-demais.Metralhava-uma-pergunta-atrás-da-outra-sem-parar.Como-vão-as-coisas-no-trabalho?Quando-é-que-você-vai-ser-promovida?Seu glamour dinâmico me reduzia a uma inadequação gaguejante,e quando eu conseguia articular uma resposta,ela já perdera o interesse no assunto e seguia adiante.

Mas mesmo se eu gostasse de Liam e Elaine,continuaria sem ter vontade de sair naquela noite em especial,porque exibir uma cara grande,redonda e feliz é muito mais difícil quando se tem platéia.Além do mais,havia um monte de envelopes pardos que estavam esperando em casa para serem examinados(além de duas novelas na tevê loucas para atender as minhas necessidades de distração e um sofá que mal podia esperar para me ver sentada nele).O tempo era uma entidade preciosa demais para eu gastar uma noite inteira dele me divertindo.


Além de tudo, eu estava tão cansada...Meu trabalho-como o da maioria das pessoas- era muito exigente.Acho que a pista está no nome: "trabalho".Se não fosse assim,essa atividade teria o nome de "relaxar ao sol em uma espreguiçadeira" ou "massagem terapêutica profunda".Eu trabalhava em uma firma de advocacia que tratava de um monte de contratos com os Estados Unidos.Especificamente na área de entretenimento.(Depois que nos casamos,Garv,por conta de sua competência fabulosa,fora convidado para trabalhar por cinco anos no escritório da empresa em Chicago.Eu havia trabalhado para uma das grandes firmas de advocacia lá,e quando voltamos para a Irlanda,há três anos,eu me considerava com bom jogo de cintura nos assuntos relacionados a leis americanas na área de entretenimento.O problema é que embora eu tivesse feito vários cursos com aulas noturnas e tivesse conseguido algumas qualificações em Chicago,não era uma advogada formada.O que significa que tinha de aturar uma montoeira de trabalho e maior parte das reclamações,mas só ganhava uma fração insignificante da grana.Eu era uma espécie de interprete jurídica,imagino;uma clausula que queria dizer uma coisa na Irlanda podia significar outra coisa completamente diferente nos Estados Unidos,então eu traduzia contratos americanos para o jargão jurídico irlandês e fazia minutas de contrato que -pelo menos eu torcia por isso- funcionassem nas duas jurisdições.)

Vivia assombrada por um medo vago, mas constante. Ás vezes tinha pesadelos, onde eu deixara uma clausula vital de fora e a minha firma acabava com um processo de quatro trilhões de dólares nas contas, valor que era deduzido no meu salário à taxa de sete libras e meia por semana, o que me obrigava a trabalhar lá por toda a eternidade para conseguir pagar tudo. Algumas vezes, nesses sonhos, todos os meus dentes caíam, para aumentar a desgraça. Outras vezes, eu me via no escritório e, quando olhava para baixo, percebia que estava completamente nua e precisava me levantar para ir até a máquina de xérox.


Como eu dizia, no dia em que tudo estourou eu estava muito atarefada. Andava tão atolado que o meu horário reservado para a academia tinha ido para o espaço. Descobrira recentemente que roer as unhas era o único exercício que eu andava fazendo, e então bolei um plano genial – em vez de ligar para a Sandra, minha assistente, para ela vir buscar as copias dos contratos, eu ia caminha por mais de vinte metros até a sala dela, a fim de entregar a papelada pessoalmente. Só que naquele dia não havia tinha tempo nem pra isso. Só que naquele dia não havia tido tempo nem pra isso. Um acordo estúpido de cinema, tinha de ser assinado naquela semana, se não o ator ia cair fora.
Por um instante, falando desse jeito, acho que fiz parecer que meu trabalho era glamoroso. Podem acreditar, era tão glamoroso quanto uma dor de dente.Até mesmo os almoços de negócios dos quais eu eventualmente participava, em restaurantes caros, não era assim nenhuma maravilha. Eu nunca conseguia relaxar de verdade – as pessoas perguntavam alguma coisa que exigia uma resposta longa e detalhada, sempre na hora que eu tinha acabado de colocar uma garfada na boca, ou então, quando eu ria, era assombrada pelo medo terrível de estar com alguma coisa verde grudada nos meus dentes.

De qualquer modo o roteirista – meu cliente – estava desesperado para ver o contrato pronto, a fim de que conseguisse embolsar alguma grana para alimentar a sua família. (E para seu pai finalmente ter orgulho dele, mas já estou fugindo do assunto). Os advogados americanos apareceram no escritório às três da manhã, pelo fuso horário deles, a fim de fechar o acordo, e um monte de e-mails e telefonemas pipocando para lá e para cá. No fim do dia, terminamos de colocar todos os pingos nos “is”, demos o trabalho pro encerrado e, embora eu estivesse me sentindo um trapo, estava também leve e feliz.


Foi quando lembrei que íamos jantar com Liam e Elaine, e uma nuvem cobriu o meu sol. Não era assim tão mau, tentei me consolar; pelo menos ia conseguir um jantar legal – eles adoravam restaurantes caros metidos a besta. Mas, puxa vida, eu estava exausta! Se pelo menos fosse a nossa vez de cancelar!
Então, quando tudo parecia perdido, veio o telefonema.
-Liam quebrou o dedão – informou Garv. – A tevê de plasma nova caiu no pé dele. (Liam e Elaine possuíam todos os bens duráveis conhecidos pelo homem – e eu ressalto a palavra homem, vive sonhando com isso digital ou aquilo Bang e Olufsen.) – Portanto, o programa de hoje à noite foi cancelado.
-Ótimo! – exclamei, mas na mesma hora lembrei que eles eram amigos de Garv. – Bem, não achei ótimo ele quebrar o dedão, é claro, mas é que eu tive um dia cheio e...
-Tudo bem – concordou Garv.- Eu também não queria ir. Estava pensando em ligar para ele e dar a desculpa de que nossa casa tinha pegado fogo, ou algo assim.
-Legal. Bem, a gente se vê em casa.
- O que vamos fazer com o jantar? Quer que eu compre alguma comida pronta pelo caminho?
-Não, você já fez isso ontem. Deixe que eu levo.
Lancei-me em uma orgia louca de desligar tudo que estava em cima da mesa quando alguém disse:
-Vai para casa, Maggie?

Era a minha chefa, Francês, e a palavra já podia não ter sido pronunciada, mas eu ouvi a insinuação claramente.


- Vou – confirmei, e para não deixar duvidas, completei: - Para casa – com a voz educada, mas firme, tentando manter o tom sempre tremulo sob pressão livre de vestígios de medo.
- Aquele contrato já ficou pronto para a reunião de amanhã?
- Ficou – garanti, Não, é claro que não estava pronto. Ela estava falando de outro contrato, um que eu ainda nem começara a redigir. Não adiantava nada eu choramingar com Francês, dizendo que eu tinha passado o dia todo enrolada no frenesi de costurar um grande acordo. Ela era uma super-realizadora, caminhando a passos largos para se tornar sócia da firma, e transformava o trabalho duro em uma espécie de arte performática. Raramente saia do escritório e, segundo sua opinião popular (não que ela fosse popular, é claro), dormia debaixo da mesa e se lavava, como uma mendiga, no banheiro da empresa.
- Posso dar uma olhadinha?
- O texto ainda não está no formato final – disse eu, meio sem graça. – E eu preferia esperar até ficar pronto, antes de lhe mostrar.
Ela me lançou um olhar intenso e demasiadamente longo.
- Quero esse contrato na minha mesa manhã às nove e meia – disse, por fim.
- Certo! – Os bons espíritos pelo fato de eu ter escapado e estar com a noite livre se soltaram da jaula. Enquanto ela saiu pelo corredor, martelando o piso com os saltos altos, olhei com ar pensativo para o computador que acabara de desligar. Será que não era melhor eu ficar mais umas duas horinhas e resolver aquilo de uma vez? Mas eu não conseguia. Perdera tudo. Perdera o entusiasmo, a ética profissional e sei lá mais o quê. Assim, em vez de trabalhar, resolvi que ia chegar um pouco mais cedo no dia seguinte para completar a tarefa.

Eu não tinha comido quase nada o dia todo. Na hora do almoço, em vez de parar de trabalhar, vasculhei uma das gavetas da escrivaninha em busca de uma barra de chocolate comida pela metade, que eu lembrava vagamente de ter abandonado ali, dias ante. Para minha alegria, eu a encontrei. Tirei os clipes que haviam ficado grudados nela, raspei o resto da sujeira e, sevo confessar, ela estava deliciosa.


Assim, quando fui dirigindo para casa, estava com fome, e lembrei que não havia nada para comer em casa. Comida era um grande problema para Garv e para mim. Subsistíamos, como a maioria das pessoas que conhecíamos, a base de pratos prontos para microondas, comidas para viagem e jantares fora de casa. Uma vez ou outra – ou, pelo menos antes de as coisas começarem a ficar esquisitas entra nós-, quando já havíamos esvaziado o estoque de preocupações comuns, passávamos algum tempo encucados por não estarmos tomando vitaminas em quantidade suficiente. Então, abraçávamos uma nova e mais saudável filosofia de vida e comprávamos um frasco imenso de multivitamínicos, que tomávamos por um ou dois dias e depois deixávamos de lado. Ou então fazíamos uma excursão louca ao supermercado, esticando os braços escorbúticos para arrebanhar imensos brócolis, cenouras com um alaranjado suspeito e maças suficientes para alimentar uma família de oito pessoas por uma semana.
- A saúde é nossa primeira riqueza – dizíamos, felizes da vida, pois nos parecia que comprar comida crua era eficiente por si só. Depois, quando ficava claro que tudo aquilo precisava ser comido é que começava os problemas.

Eventos súbitos surgiam, conspirando para frustrar nossos planos culinários: precisávamos trabalhar até mais tarde ou ir ao aniversário de alguém. A semana seguinte era geralmente gasta em uma percepção desconfortável de que toda aquela comida estava ali, implorando por nossa atenção. Mal agüentávamos ir até a cozinha. Imagens de couves-flores e uvas pairavam em algum canto da nossa consciência pesada, e jamais nos sentíamos totalmente em paz. Lentamente, dia após dia, conforme a comida ia estragando, nós a jogávamos fora, furtivamente, sem jamais contar um ao outro o que estávamos fazendo. E só quando o ultimo kiwi fosse carregado pelo caminhão de lixo é que a sombra escura se elevava e conseguíamos relaxar novamente.


Uma pizza congelada a qualquer hora era muito menos estressante.
E foi exatamente isso que eu comprei para a refeição daquela noite. Estacionei meio torto, corri até o Spar e joguei duas pizzas e algumas caixas de cereal matinal dentro da cestinha. Foi quando o destino interveio.
Eu não consigo passar sem comer chocolate por semanas a fio. Ok, dias. Só que se eu provar um pouquinho, quero mais e mais, e a barra de chocolate cheia de sujeira grudada desperta a besta faminta em mim. Por causa disso, ao ver trufas artesanais em uma das geladeiras do mercado, decidi num impulso deixar que o demônio guloso que havia em mim justificasse aquilo, engrenei um “que se dane” e comprei uma caixa.
Quem sabe o que teria acontecido se eu não tivesse feito aquilo? Será que algo tão inócuo quanto uma caixa de chocolates pode ter alterado todo o curso da minha vida?
Garv já chegara em casa e nos cumprimentamos meio sem jeito. Não esperávamos passar a noite em companhia um do outro; estávamos meio que dependentes de Liam e Elaine para diluir a atmosfera estranha que rolava.

- Donna telefonou. Na verdade, acabou de desligar – avisou ele. – Ela disse que vai ligar para você no trabalho, amanhã.


- O que ela contou de novidades?
Donna tinha uma vida amorosa confusa e meio caótica, e eu, sendo uma de suas melhores amigas, tinha como tarefa lhe fornecer conselhos. Mas ela também costumava consultar Garv, para obter o que chama de “perspectiva masculina”, e ele era geralmente tão útil que lhe colocara o apelido de Doutor Amor.
- Robbie quer que ela pare de raspar os pêlos debaixo do braço. Ele diz que acha sexy, mas ela está com medo de içar parecendo um gorila.
- E qual foi seu conselho?
- Que não há nada de errado em mulheres com cabelo...
- Ah!... sei!...
- ...mas se ela realmente não estava a fim disso, deveria dizer a ele que ia parar de raspar os pêlos debaixo do braço se ele começasse a usar calcinhas de mulher. Estilo “ seu eu pago mico, você também tem que pagar”.
- Você é um gênio. De verdade.
- Obrigado.
Garv tirou a gravata, colocou-a sobre as costas da cadeira e passou os dedos pelos cabelos, se livrando dos vestígios de sua persona profissional. No trabalho o seu cabelo era arrumado, todo mauricinho: bem curto na nuca e esticado para trás na testa, mas fora do escritório as pontas lhe caiam sobre os olhos.
Existem homens que são tão bonitos e atraentes que vê-los pela primeira vez é como receber uma marretada na cabeça. Garv não é um desses; é mais o tipo de homem que você pode ver toda manhã durante vinte anos, até que um belo dia acorda e pensa: “Puxa, até que ele é legal. Como é que eu não tinha percebido até hoje?”

Sua mais obvia atração era a altura, mas eu era alta também, então nunca saia por ai dizendo: “Olhem, vejam como ele é comprido!” A vantagem é que eu podia usar sapatos de salto alto ao lado dele, detalhe que me agradava – minha irmã Claire foi casada com um homem que tinha a mesma altura que ela, então era obrigada a usar salto baixo para ele não ficar se sentindo um tampinha. E olhem que ela adora sapatos. Até que, de repente, ele teve um caso com outra mulher e a largou, por tanto eu acho que no fim tudo da certo.


- Como foi no trabalho, hoje? – perguntou Garv.
- Basicamente horrível. Como foi o seu?
- Péssimo na maior parte do dia. Mas tive dez minutos bons entre quatro e quinze e quatro e vinte e cinco, quando fiquei em pé na escada de incêndio fingindo que ainda era fumante.
Garv é atuário, o que o torna alvo fácil para acusações de ser um sujeito chato – e no primeiro contato as pessoas confundem o jeito calmo dele com chatice. Na minha opinião, porém, é um erro igualar ao numero de vezes que a pessoa mastiga uma garfada com chatice. Um dos caras mais chatos que eu já conheci foi um escritor idiota que se chama John e namorou Donna. – nada mais criativo, não acham? Saímos para jantar uma noite e ele quase nos colocou para dormir com um monologo sacal a respeito de outros escritores e o quanto são apenas mercenários e ganham mais do que merecem. Em seguida, começou a me interrogar sobre o que eu achava a respeito de uma coisa e outra coisa, cutucando e explorando tudo com a intimidade de um ginecologista. “Como você se sente? Triste? Triste como? Completamente arrasada? Ah, agora sim!” Então correu para o banheiro dos homens e eu tive certeza de que ele anotou tudo o que eu havia dito em um caderninho para usar depois, no livro que estava escrevendo.
- Você não precisa ficar com ciúme por causa de uma tevê de plasma de Liam – disse eu a Garv, feliz por poder fingir que seu jeito amuado era por causa de que seu amigo tinha mais aparelhos eletrônicos do que ele. – Afinal, a tevê não o atacou? Tinha mesmo que ser sacrificada.

- Ahn... – Garv deu de ombros, do jeito que sempre fazia quando estava chateado. – Eu não estou chateado. – A questão é: você sabe quanto ela custou? – perguntou ele, falando depressa.


É claro que eu sabia. Toda a vez que eu ia a cidade com o Garv, tínhamos que passar no departamento de eletrônicos da Brown Thomas para ficar parados diante da tal tevê, admirando-a no alto de seu glorioso preço de doze mil libras. Embora Garv ganhasse bem, seu salário não chegava nem perto do de Liam, cujo valor tinha tantos dígitos que mais parecia um número de telefone. E com a prestação da nossa casa, o custo alto de manter dois carros, o vício de Garv por CDS e o meu vicio por cremes faciais e bolsas, não sobrava grana no orçamento para tevês de plasma.
- Ora, anime-se, provavelmente ela parou de funcionar, depois de despencar da parede. E logo, logo você vai poder comprar uma igual
- Você acha...?
- Claro que acho. Assim que acabarmos de mobiliar a casa. – Esse argumento pareceu funcionar. Erguendo o corpo um pouco e parecendo mais animado, ele me ajudou a desempacotar as compras. E foi quando tudo aconteceu.
Ele pegou a caixa de trufas “que se dane” e exclamou:
- Olhe só! - Seus olhos brilharam. – Novamente esses chocolates. Será que eles estão nos perseguindo?
Eu olhei para ele, olhei para a caixa e de volta para ele. Não tinha idéia de sobre o que ele estava falando.
- Você sabe – insistiu ele, com ar empolgado. – São os mesmos que nos comemos quando...
Parou de falar de repente. Meu cenho se franziu com curiosidade e eu o encarei. Ele me encarou de repente e, subitamente, um monte de coisas surgiu na minha cabeça. O olhar brincalhão desapareceu do seu rosto e foi substituído por uma expressão de medo. Horror até. E antes mesmo que os pensamentos começassem a tomar forma em minha mente, eu soube. Ele estava falando de outra pessoa, de um momento compartilhado com uma mulher que não era eu. E acontecera recentemente.

Senti como se eu estivesse caindo, e pareceu que eu ia continuar caindo para sempre. Então, de repente eu me forcei a parar. E descobri mais uma coisa. Não ia fazer aquilo. Não ia agüentar observar a espiral descendente do meu casamento começar a sugar outras pessoas e fazê-las gritar loucamente em seu vórtice.


Chocada e imóvel, com os olhos grudados no dele, implorei silenciosamente, desesperada para que ele fizesse algo que servisse de explicação e fizesse aquele clima estranho ir embora. Mas o rosto dele estava petrificado de horror – o mesmo horror que eu senti.
- Eu... – tentou ele, mas não disse mais nada.
Senti uma fisgada de agonia no dente do siso e, então, como se eu estivesse sonhando, saí da sala.
Garv não me seguiu; ficou na cozinha. Não ouvi som algum e imaginei que ele continuava parado ali, no mesmo lugar em que eu o deixara. Ainda em meu pesadelo ambulante, peguei o controle remoto, liguei a tevê e fiquei esperando o momento de acordar.


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