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MARINA COLASANTI
A NOVA MULHER

Digitalização: Argo



www.portaldocriador.org

Para
Gabriella Besanzoni Lage,


minha tia, mulher nova do seu tempo.

Sumário

Independência, que bonita que é

Causando uma boa impressão

Homens que você nem considerou

Dialogando com o seu amor

Sexo: pouca gente é tão liberada quanto pensa

Amiga

Amar sem ser amada



Um amigo, meu diário

Contra o "direito" masculino de trair

A arte de falar e ser ouvida

Ah! Essas brigas de família

Driblando os maus momentos

Vale a pena tentar com um homem casado?

Em busca da felicidade

O que dizer e o que calar na hora da briga

O alto preço de manter uma imagem invejável

Mãe que trabalha não precisa ter filho problema, não!

Agressividade, um mal que faz bem

Sozinha, mesmo com um homem do lado

Aprendendo a amar de novo

O que esperar do casamento

Por que você está tão mal se tudo está tão bem

A verdade oculta da mentira

O tempo apaga uma grande dor?

A eterna primeira da classe

Esta complicada história de ter de fazer concessões

O medo de envelhecer

Mulher, meu bem-querer

Abaixo a ditadura

Do jeito que está não dá

Apresentação
Este é um livro de amor — e tenho medo de parecer pomposa, quando na realidade procuro apenas a palavra mais verdadeira que me liga a ele.

Não é um livro científico, não é um tratado sociológico. Não se quer tese, nem teorema demonstrado. É, e se quer, um diálogo emocionado a respeito dessa coisa doce e dolo­rosa que vivo em mim e reencontro nas da minha espécie: a identidade feminina.

Comecei a falar para mulheres quase paralelamente ao início da minha atividade jornalística, e na verdade não lem­bro períodos, nestes fã quase vinte anos, em que não esti­vesse de forma mais direta ligada ao público feminino. Falar para elas logo transformou-se em falar delas e com elas. Escrevi livros de contos, fiz televisão, fiz publicidade. Mas nunca rompi o fio dessa conversa que se mantinha através de revistas, palestras, cartas, e que nos últimos anos teve na revista Nova seu maior veículo.

Levada por profissão, me vi aos poucos aproximada por afeto. Descobri, no infinito reflexo de tantas e tantas outras mulheres, meu eu mulher. E floresci, comovida, um sentimen­to de irmandade que me liga indissoluvelmente às do meu sexo.

Por isso meu livro é de amor. Amor por nossa espécie preterida, abafada, caluniada, mas também resistente e aguer­rida. Amor pela nova mulher que juntas estamos construindo e que, espero, estes meus textos mais recentes ajudem a retratar.

Marina Colasanti

Abril 1980

INDEPENDÊNCIA, QUE BONITA QUE É

Dom Pedro vinha a cavalo, chegou perto do riachão, pa­rou, ergueu-se nos estribos (alguns dizem que ele apeou, mas eu acho que montado fica mais glorioso), e arrancando do ombro as fitas portuguesas proclamou a Independência. E independência é uma coisa tão bonita, que deu feriado até hoje.

É bonita para um país. É maravilhosa para uma pessoa. Então, por que não sermos nós também rainhas do nosso reinado, cortando, num Grito do Ipiranga, o bendito cor­dão umbilical?

Não é fácil, como não o foi para Dom Pedro, mas é uma tremenda vitória pela qual os outros acabam sempre nos respeitando. Uma vitória que pode ser o começo de coisas muito importantes.

Eu ainda não estava na faculdade, e já pensava nisso, em como e quando ia sair pela vida carregando meu próprio corpinho. Mas a heroína da classe não era eu. Eram as duas noivas, que desde o início do ano exibiam alianças e certeza no futuro, enquanto as outras, menos afortunadas, batiam as estacas da sua segurança na escolha de um bom rapaz, namorado firme. Não era costume, não ficava bem uma moça de família pensar em independência. Certo era casar cedo e definitivamente, ingressando na única profissão digna de uma mulher, louvável carreira de esposa e mãe.

Pois é. Mas aqui estou eu hoje, esposa e mãe respeitabilíssima, e mais, profissional reconhecida na praça, com algum trabalho realizado e um monte de trabalho pela fren­te, cheia de curiosidades e alegria, tranqüila dona do meu nariz. E das noivinhas, o que foi feito? Não sei, porque nunca mais ouvi falar delas, mas é fácil imaginar.

Por isso sorrio dos "não fica bem", e me tranqüilizo: os hábitos, esses hábitos, estão mudando rapidamente, e logo não haverá riachos que cheguem para tantas mulheres darem seu grito.

Independência assusta. Assusta todo mundo, antes, e às vezes depois. Portanto, vamos falar logo nisso.

Por que temos tanto medo de ser independentes? A pri­meira razão é que costumamos confundir dependência com carinho. Achamos, mesmo sem formular o pensamento, que ser independente é ser só, não ter um regaço ou um ombro onde nos socorrer, chorar as mágoas, pedir proteção. E como todo mundo precisa de carinho, arrepiamos carreira. Mas in­dependência não é sinônimo de solidão, e muito menos de abandono. Uma pessoa independente não é monobloco, auto-suficiente vinte e quatro horas por dia. Pode, e deve, pre­cisar dos outros, recorrer aos outros. O que não deve é confundir necessidade de carinho com necessidade de babá. Porque de babá adulto nenhum precisa realmente.

Independência assusta, antes de tê-la, porque é nova. Por mais que tenhamos ouvido falar nela, é um terreno des­conhecido no qual tememos nos aventurar. Estamos acostu­madas à tutela dos pais, à sua protetiva vigilância, ao am­biente todo familiar que nos supre as necessidades e nos garante o conforto. E pensar em abrir mão disso tudo para nos lançarmos ao desconhecido de uma nova situação parece qualquer coisa como sair de casa em noite de chuva e vento.

E independência assusta porque significa o fim do bode expiatório. Acaba com aquele sistema infantil — que tantos continuam carregando vida afora — de botar a culpa nos outros. Criança quando dá uma topada vira-se para a mãe e grita "Viu só o que você fez!?" Adolescente quando faz alguma coisa errada bota logo a culpa no irmão, no vizinho, na amiga. Mas quando a gente é independente tem mesmo que arcar com as próprias culpas, e tentar entendê-las, con­viver com elas.

Mas se por um lado a independência assusta, por outro é um maravilhoso tranqüilizante, porque em qualquer cir­cunstância, haja o que houver, a gente sabe que há sempre alguém tomando conta da gente, alguém nos protegendo: nós mesmas.

Alvará de independência não é coisa que se consiga de uma hora para outra. Como em qualquer burocracia, há eta­pas a vencer. Primeiro, e isso é o mais importante, é pre­ciso estar suficientemente madura para separar-se do galho. Depois é necessário ter condições materiais ainda que míni­mas (e disso falaremos mais adiante). E por fim é indispen­sável um acordo com a outra parte diretamente interessada, a árvore familiar.

Os pais não costumam gostar da idéia. O filho é sem­pre um "filhinho". À diferença dos animais, os humanos têm dificuldade em perceber quando sua cria já está em­plumada, com asas prontas, garras afiadas, poderoso bico. Teimam em segurá-la no ninho, abafá-la debaixo de suas carícias, sufocá-la com sua proteção. Justifica-se em parte.

Se é difícil abrirem mão de filho homem, mais difícil ainda é abrirem a porta para filha mulher. Aquela mesma independência que num país eles vêem como nobre e num homem consideram afirmação de virilidade, é, no caso da mulher, sinônimo de promiscuidade. Pois em muitos am­bientes, ainda hoje, mulher que quer morar sozinha é para ter homens de montão, cair na gandaia, entregar-se à devas­sidão. E isso não exatamente por vocação, mas porque, mais fraca e mais visada, não consegue, sozinha, escapar ao cerco dos predadores, e acaba fatalmente "se perdendo".

Difícil, num só lance, é convencer os pais de que o que a gente quer é se achar. O jeito é avançar por etapas exa­tamente como numa burocracia, jogando com pequenas chan­tagens emocionais e propinas afetivas, preparando o terreno, reeducando, botando um pé diante do outro a caminho da rua, até chegar lá.

Existe, é claro, o gênero independência ou morte. A gente dá o grito, faz a mala e sai batendo a porta, alheia à pressão alta da vovó, ao quase enfarte do pai, aos soluços da mãe. É um sistema. Mas é um pouco radical para o meu gosto, e me parece que só se deve recorrer a ele em casos extremos. Afinal, embora ninguém vá realmente morrer por causa disso, a gente acaba levando na mala um peso a mais, dorzinha na consciência que sempre incomoda.

Sair de casa não significa forçosamente independência. E pode ser independente quem em casa fica. Ou seja, inde­pendência é coisa mais profunda, que não basta entregar a uma empresa de mudanças.

Independência é uma forma da gente se colocar em relação à vida, que abrange a totalidade das nossas ações. E que independe do estado civil. Pode-se, portanto (e como é bom!), ser independente e ser casada, ou ser independente e morar com um rapaz, ou até ser independente e morar com os pais. Pois independência é a condição de não depen­der, de não ser tutelada, de ser dona das próprias decisões, de ser autônoma.

E aí temos que enfrentar uma conversinha argentaria. Não é um conceito edificante, mas sem independência eco­nômica não existe independência.

A partir do fato elementar de que é necessário comer, e não há comida de graça porque mesmo que a gente plante precisa de um solo para plantar, de uma semente para ger­minar, de ferramentas para podar, de adubos, de insumos, de inseticidas, de, de, de, a partir da fome então e da neces­sidade de saciá-la, só somos independentes no momento em que não dependemos de ninguém para pagar nosso alimento. E nossas roupinhas, e nossos cursinhos, e nossas pequenas e grandes necessidades.

Um salário, portanto, ou uma qualquer habilidade que nos permita ganhar dinheiro, são os primeiros requisitos para dar entrada nos papéis da independência. Pois é a par­tir daí que tudo pode mudar.

Com o dinheiro na mão definimos nossos padrões, o que é possível fazer e o que não, onde se pode morar, até onde se pode ir. Começamos então a estabelecer nosso des­tino. Pois uma das grandes, embriagadoras vantagens da independência é o poder da escolha. Dependentes, amarra­das a decisões e interesses familiares, muitas mulheres casam até hoje sem amor, apenas por conveniência, para garantir um mantenedor de papel passado. E por dependência eco­nômica, por não saber, poder ou querer prover a si mesmas, um número assustadoramente grande de mulheres se man­têm presas a casamentos errados, dolorosos e às vezes até mesmo humilhantes.

Ao contrário, a independência nos garante o prazer in­finito de dizer: caso com este sujeito porque gosto dele, e não porque "tem uma carreira promissora", "um futuro bri­lhante". E dá ao sujeito a tranqüilizadora certeza de que está sendo escolhido porque é amado e não pela sua capa­cidade de autografar cheques. Uma mulher independente não é uma filha já crescida que um marido assume e pela qual se torna absoluto responsável. É uma companheira sexual e intelectual que ele escolhe para compartilhar as de­cisões da vida. E esta, convenhamos, é uma base bem mais sólida para começar qualquer casamento.

O conhecimento, todo conhecimento é necessário para chegarmos à independência, e para mantê-la. Sim, porque não se trata apenas de afirmar nossa independência, mas também de demonstrá-la. E assim como o Brasil nunca pe­diu a Portugal para tomá-lo novamente sob sua tutela, o melhor, ao proclamarmos a nossa, é estarmos prontas para agüentá-la. E é aí que os conhecimentos são fundamentais.

Não basta o conhecimento de uma profissão, embora seja indispensável para o tal capítulo do sustento. Para cui­dar de si, e cuidar bem, é preciso mais do que ser simples­mente arquiteta, ou secretária, ou comerciante. É preciso saber em que mundo se vive, quem são as pessoas que nos rodeiam, quais são os grandes questionamentos do ser huma­no. E é bom ter também o máximo de conhecimentos prá­ticos. Meu Deus, como é reconfortante saber trocar um pneu, consertar uma instalação elétrica, botar uma bucha na parede. A gente pode até não precisar, pode até chamar um mecânico, um bombeiro, um eletricista. Mas é um descanso saber que se for preciso a gente mesma faz, sem ter que ficar apatetada à beira da estrada ou na porta de casa, esperando que um homem salvador caia dos céus para resolver estes problemas "insolúveis". No colégio aprendi a bordar, cos­turar, pregar botão. Na vida, meu marido aprendeu a con­sertar uma tomada, ajeitar o ferro de passar, trocar o fa­moso pneu. Cada qual foi bem enquadrado no respectivo papel, feminino, masculino. Mas hoje, independentes os dois, podemos, de acordo com as circunstâncias, trocar esses pa­péis estereotipados, consertando eu a tomada enquanto ele prega seu próprio botão. E o fato de saber que cada um independe fundamentalmente do outro representa uma sere­nidade para ambos.

São os conhecimentos que dão à nossa independência uma arquitetura mais sólida. Porque, como dissemos antes, independência é toda uma postura frente à vida. De uma mulher independente não se espera uma atitude passiva. Ela não está a reboque de ninguém, não é o apêndice matrimo­nial de um homem. É um indivíduo, com suas opiniões, seus pontos de vista. E espera-se que os externe. E espera-se que sejam abalizados. Convém, portanto, documentar-se, saber do que se fala, ser capaz de enfrentar uma discussão com equilíbrio e chances de vencer.

Conhecimentos são necessários também para fazer de um trabalho uma profissão, e de uma profissão uma car­reira. A mulher realmente independente não trabalha apenas para garantir o hoje, sustentar sua vida enquanto não "se arruma" em conta conjunta com um homem. Trabalha para a vida toda, com ou sem homem, com ou sem filhos. Tra­balha para si, pois seu trabalho é seu lastro, seu principal "recurso natural", jazida segura para garantir qualquer re­versão de expectativa.

Já é clássico o périplo da mulher que trabalha enquanto solteira, larga tudo para casar e dedicar-se ao lar em horá­rio integral, descasa um belo dia, e se vê tendo que reco­meçar a trabalhar, percebendo então que não está onde de­veria estar por idade, experiência, maturidade, mas sim onde estava aos dezoito anos, no pé da escada, atrasada em rela­ção a tudo. E nem é preciso descasar, ou, situação mais drástica, ficar viúva. Basta os filhos crescerem, pedirem sua alforria, saírem de casa. Vazio o tempo, a mãe extremosa volta-se para o seu antigo trabalho e... onde é mesmo que ele está? Lá longe, lá bem longe, entre mocinhas.

Dizem, muitos dizem, que mulher independente assus­ta homem. Eu acredito tanto quanto acredito que alho as­susta vampiros. Afinal, por que se assustariam eles?

Alguns dizem que homem se assusta com mulher inde­pendente porque teme a concorrência. Mas se um homem teme concorrência, seja ela de quem for, é sinal de que está inseguro em relação a si próprio. É sinal também de que só quer ganhar, só quer ficar em primeiro lugar, o que, em elementar matemática, significa que pretende sempre colo­car a mulher em segundo. Temos aí então um belo exemplar de machão dominador, dono da criação, que a mulher ne­nhuma deve interessar.

Outros dizem que homem não gosta de mulher inde­pendente justamente por sua independência, por sua capa­cidade de ir e vir, por sua liberdade física e moral. Estes prefeririam uma coisinha mais submissa, adquirida na feira nupcial, respeitadora do seu lugar, daquelas que só falam depois que a conversa chega na cozinha. Mas a estes, quem os quer?

Há os que dizem também que o homem não gosta de mulher independente porque é muito liberada sexualmente. Para estes seria aconselhável uma virgem, a sacudir bem de leve antes do uso, e a ser tomada em pequenas, colheradas, com muita cerimônia. De fato, não devem estar muito inte­ressados em desenvolver uma boa parceria sexual, nem mui­to seguros de sua própria atuação, pois temem, visivelmente, que uma mulher de maiores conhecimentos possa descartá-los rapidamente. E estes, para que servem?

Então, se são esses os homens que a nossa indepen­dência assusta, viva a independência! Não só ela é boa, eletrizante, enriquecedora, como é uma fantástica peneira, en­carregada de uma triagem que já afasta do nosso caminho grande parte dos homens que não nos serviriam.

Em compensação, os homens que se interessam por mu­lheres independentes, quantas razões têm para gostar delas. Gostam porque são ótimas na concorrência. Viver com elas é um desafio estimulante, uma razão para melhorar-se cons­tantemente. E nada aprimora tanto a gente quanto conviver com nosso sparring-partner. E gostam porque sabem se lo­comover sozinhas sem precisar de constante apoio logístico. Porque têm claras idéias sobre o que lhes convém e o que não lhes interessa. Porque não vivem penduradas no braço deles. Porque sabem abrir suas próprias portas na vida. E gostam, ah, gostam muito delas, porque sabem o pleno sig­nificado do sexo, e podem ser mulheres muito mais amantes.

Nem tudo são rosas, está certo. Tem horas que a gente quase-quase pediria arrego, disposta a deixar os Estados Unidos invadir tudo e ficar logo dono desse nosso peque­níssimo país interior, dono e responsável, dono e provedor, dono e pagador de contas, fazedor de declaração de imposto de renda, atendedor de vizinho que reclama da infiltração, enfrentador de patrão que não quer nos dar aumento. Mas o "quase" está sempre aí para salvar nossos brios pátrios. Até hoje esse bendito "quase" nunca me deixou derrapar. E eu acho até que é um "quase" muito maior do que eu penso, um "quase" vietcong, muito mais forte do que qualquer Estados Unidos.

É nessas horas mesmo, quando a gente está de bateria quase descarregada que a independência fica mais bonita. Porque é nessas horas que a gente vai conferir a contabi­lidade e dá de cara com aquele bruto superávit em caixa. A gente está arriada, está certo, mas no canto da casa da gente, feito de acordo com nosso gosto, à nossa imagem e semelhança. A gente está meio murcha, mas pode pegar no telefone, chamar um amigo, sair, conversar, se amparar um pouco e voltar refeita, à hora que bem entender. A gente está de língua de fora, cansada, mas amanhã é outro dia, e a gente devia botar a língua de fora novamente, não de can­saço, mas de brincadeira auto-suficiente, dando língua para o mundo inteiro e para nossa mágoa passageira já vencida. Há sempre um amanhã promissor à frente de uma mulher independente. Um amanhã movimentado, vital, com traba­lho, desafios, contas a pagar e dinheiro a receber, amigos a encontrar, homem a conhecer, ou a amar, ou a despachar. E fraquezas a vencer e forças novas com que se afirmar.

A tristeza eventual, o desânimo não são privilégios das mulheres independentes. Privilégio nosso é a forma como saímos deles. Porque as minhas conhecidas dependentíssimas também entram em fossa, mas sem escada para sair dela de­pressinha. Elas não se entristecem porque a conta da luz veio maior do que o dinheiro disponível ou porque não têm com quem sair numa noite de sábado. Mas vivem o peso do tédio, da falta de objetivo, e o amanhã para elas será tão ruim quanto o hoje, porque amanhã também não haverá nada a fazer que realmente valha a pena. Elas se abatem porque percebem a certa altura que o mundo está andando, que todo mundo avançou, enquanto elas ficaram paradas. E temem ter perdido o bonde da vida. Elas sofrem mais, bem mais do que a gente, com a perda da juventude, porque quando uma cara lisinha é só o que se tem, as rugas não são apenas uma chateação, são uma catástrofe. E para isso tudo não vêem quase saída, amedrontadas que estão de per­der aquele conforto irresponsável ao qual se acostumaram.

Ser bebê, ter berço quente, mamadeira, fralda trocada na hora certa é bom. Mas a força da vida puxa o bebê para a frente. Já maior, a criança tem medo de crescer, regride às vezes, pede colo. Mas o fascínio do que está adiante é irresistível. Então como é que a gente pode de repente parar esse processo de avanço, tão natural, e empacar definitiva­mente, exigindo mamadeira e tutela de um pai-marido? Está errado, embora muitos ainda afirmem o contrário. Está errado, e o erro é muito óbvio.

Como um camelô, venho vida afora apregoando esse produto, tentando mostrar que a independência é o único verdadeiro regulador da mulher. Tenho, para convencer, um modesto mostruário dos resultados: eu mesma. E ofereço em garantia minha comprovada satisfação. Mas ao contrário de um camelô, não tenho o produto para vender. Tenho sim a alvissareira notícia de que ele é acessível, nacional e está bem ao alcance de cada uma, escondido na manga à espera de ser solicitado.


CAUSANDO UMA BOA IMPRESSÃO

Boto a saia, visto a blusa. Diante do espelho percebo: uma não tem nada a ver com a outra. Troco a saia. Mas agora é o sapato que não combina. Talvez quem sabe, uma sandália baixa. Ou uma saia mais rodada. Mudo tudo outra vez, tento uma calça comprida, um salto estonteante. E não satisfeita, me dispo e me visto até a declaração fatídica: "Não posso ir a esse jantar. Não tenho roupa. Estou hor­rorosa!"

É um jantar tão importante assim esse que me espera? Absolutamente. Jantar pequeno, pequeníssimo até, em casa da minha cunhada. Mas onde ia um casal que eu não co­nheço. Um casal ao qual, mesmo sem me dar muita conta, quero causar uma boa impressão.

Causar uma boa impressão. Isto é o que sempre que­remos num primeiro encontro. Que o novo chefe nos ache eficientíssimas, que o pretendente a namorado nos considere sensacionais, que a futura sogra perceba imediatamente todo o nosso talento para nora. E porque esperamos tanto dele, é justamente no primeiro encontro que ficamos mais insegu­ras, perdendo às vezes nosso melhor passaporte, a natura­lidade.

Não é gratuito o nervosismo. A primeira impressão é realmente importantíssima. Prima irmã do Amor à Primeira Vista, ela determina de imediato se entramos nos agrados de alguém, se somos classificados na área de desconfiança, ou se vamos para a da antipatia declarada.

Leviana? Realmente não é muito sério rotular uma pessoa graças apenas a um encontro, que pode ser até muito breve. Mas é a forma de que dispomos quando, diante de um desconhecido, o instinto de defesa social nos impõe uma primeira triagem. É por isso que nos esforçamos tanto. Por­que sabemos que, mesmo sujeita a revisões — e possivel­mente haverá várias —, a primeira impressão sempre conta como um handicap a nosso favor.

Nem a triagem é tão superficial quanto pode parecer. Se formos analisar com cuidado, veremos que a quantidade de fatores utilizados no julgamento é espantosa, e só mesmo nosso prodigioso processador de dados interno consegue ana­lisá-los com tamanha rapidez.

O que conta na primeira impressão?

Depende de onde sopra o vento, responderia um caça­dor. E com razão, porque na mata, a favor do vento, eu sei que um felino vem aí, bem antes de vê-lo. Assim também, de longe, tenho do estranho que se aproxima dois pontos de referência: a silhueta e o andar. Se é alto, magro, baixo, gordo, rápido, lento, pendurado, aprumado, elegante, grotes­co. A gente logo faz as combinações. Vendo um gordo, de braços pendentes e pés arrastados penso, sem nem pensar, registrando apenas, que lá vem uma pessoa indolente, lenta, de paquidérmicos reflexos. Não posso ter o mesmo registro da pessoa esgalga que chega quase ao trote, rubor nas faces. Nem da moça que se aproxima marulhando as ancas. De cada um, portanto, o todo, a massa no espaço, fornece um primeiro dado.

Depois, a roupa.

Meu Deus, que imprudência minha, afirmar assim de público que a roupa é importantíssima. Que conceito pequeno-burguês, lamentável. Mas de bom grado me exponho ao risco, e volto a afirmar. A roupa, sim.

Como, se todos sabem que "o hábito não faz o mon­ge"? Não faz. Mas se um indivíduo vestido de monge entrar num banco e se dirigir ao caixa todos pensarão que efeti­vamente se trata de um monge, modificando a primeira im­pressão somente quando o indivíduo extrair de dentro da mo­nástica manga um revólver calibre 38, e exclamar: é um assal­to. O hábito não fez do meliante um monge, mas disse "monge" a quantos o viram ingressando no banco.



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