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AS MULHERES DO QUILOMBO LAGOA DA PEDRA E A DANÇA RODA DE SÃO GONÇALO1

MARIZETH DE FARIAS FERREIRA

MARIA ZENEIDE CARNEIRO MAGALHÃES DE ALMEIDA

Resumo: O artigo traz as memórias de mulheres quilombolas do Estado brasileiro do Tocantins, que guardam as tradições ancestrais de várias gerações de ex-escravos que viveram nessa região. Ao longo das suas trajetórias de vida, elas têm contribuído para perpetuação da cultura e dos costumes que lhes foram transmitidos pela tradição oral, conservando assim os ritos, os festejos, as danças: Roda de São Gonçalo, as crenças, os saberes, as práticas e os valores que herdaram de suas gerações de avós, de suas mães, e cuidam também de transmiti-las às outras gerações femininas que residem no Quilombo Lagoa da Pedra. Por isso, este estudo tem como objetivos principais contribuir para a constituição do campo do conhecimento sobre a memória e a religiosidade e reconstruir as histórias de vida e o protagonismo das mulheres do Quilombo. Para este trabalho, têm-se realizado entrevistas orais, filmagens, pesquisas em arquivos públicos e particulares e em estudos de outros pesquisadores que já realizaram e/ou vêm os realizando sobre Lagoa da Pedra, para reconstituição de suas memórias. Dessa forma, a ênfase temática, aqui, privilegia a Roda de São Gonçalo não apenas como uma dança, mas como um complexo de ações que sobrevivem, principalmente, pela resistência das mulheres quilombolas, que mantêm vivas suas tradições. Estas tradições são incorporadas às da sociedade e às da comunidade local. Suas comemorações e seus ritos tornaram-se uma referência da região para seus eventos que têm despertado o interesse de pesquisadores, de historiadores, de curiosos e dos meios de comunicação de diferentes estados brasileiros.


Palavras-chave: Cultura. Memória. Mulheres quilombolas. Religiosidade.

INTRODUÇÃO

Este artigo traz as memórias de mulheres quilombolas do Estado do Tocantins (Brasil), que guardam as tradições ancestrais de várias gerações de ex-escravos que viveram nessa região. Para este trabalho de reconstituição das memórias, realizaram-se entrevistas orais, filmagens, pesquisas em arquivos públicos e particulares e em estudos de outros pesquisadores que já realizaram e/ ou vêm os realizando sobre Lagoa da Pedra.

Com base nisso, a ênfase temática deste estudo privilegia a Roda de São Gonçalo não apenas como uma dança, mas como um complexo de ações composto por várias partes que sobrevivem, principalmente, pela resistência das mulheres de Lagoa da Pedra que mantêm vivas suas tradições. Tais tradições concederam visibilidade e valorização ao papel das mulheres daquela comunidade. O estudo apresentado tem, portanto, como objetivos principais contribuir para a constituição do campo do conhecimento sobre os estudos de memória e de religiosidade e reconstruir as histórias de vida e o protagonismo das mulheres da Comunidade Quilombola Lagoa da Pedra.


FORMAÇÃO DE COMUNIDADES QUILOMBOLAS BRASILEIRAS: BREVE HISTÓRICO
A formação das comunidades quilombolas apresenta-se com uma abrangente e profunda história que envolve todo o povo brasileiro, mas, normalmente, ao falarmos em Quilombo, surge no imaginário de muitas pessoas a ideia de um local isolado e habitado apenas por negros fugitivos do sistema escravista das grandes fazendas produtoras de café do período colonial. O fato dessas comunidades permanecerem bastante isoladas, boa parte do século passado, foi uma estratégia intencional que lhes garantia sobrevivência. Como um grupo organizado com suas tradições e suas novas relações territoriais, eles tiveram a possibilidade de construírem ou atualizarem suas identidades étnica, cultural, entre outras, reproduzindo sua história.

Estudos sobre a escravidão no Brasil mostram que, durante quatro séculos, foram trazidos para o país milhares de africanos e que estes, num período de 400 anos, contribuíram significativamente para a expansão da economia brasileira com sua força de trabalho. Homens, mulheres e crianças eram escravizados e transportados em navios negreiros em péssimas condições higiênicas, sem qualquer conforto, conduzidos de qualquer maneira, literalmente empilhados e acorrentados, expostos a todos os tipos de doenças, sendo que muitos deles não resistiam à travessia do Oceano Atlântico, em virtude do calor, da fome, da sede e tantos maus tratos que sofriam2.

Verdadeiros horrores foram praticados contra os escravizados naqueles navios negreiros3. Aqueles que sobreviviam à longa viagem eram desembarcados em pontos estratégicos e colocados em depósitos ou simplesmente expostos como mercadorias para serem vendidos como qualquer outro produto comercializável. Alguns tinham destinos específicos, outros, marcados com ferro quente como se faziam com o gado, seguiam seu triste destino para serem entregues aos seus senhores. “Os que ficavam para encontrar compradores eram escolhidos como animais a chicotadas que provocavam gritos, choros e sapateados” (QUEIRÓZ, 2007, p. 9).

No seu trabalho de pesquisa sobre a Comunidade Remanescente de Quilombola Lagoa da Pedra, Teske (2010, p. 50) revela que apenas durante o período entre 1830 e 1850, “o tráfico ilegal de negros atingiu a cifra de um pouco mais de meio milhão de ‘cabeças’ e chegando em 1880 a 1 milhão”. Contabilizando esse número ao total trazido para o Brasil, durante o período que vai do século XVI até 1850, segundo Teske, chega-se a um número estimado em três milhões e seiscentos mil cativos. Já Freyre (2003, p. 70) afirma: “transportaram-se da África para o trabalho agrícola no Brasil nações quase inteiras de negros. Uma mobilidade espantosa”.

Para Reis (1995; 1996), a formação de grupos de escravos fugitivos aconteceu em todos os lugares do Novo Mundo onde acorreu a escravidão. No caso específico do Brasil, esses escravos que fugiam formavam grupos que foram chamados de quilombos ou mocambos, que, às vezes, congregavam centenas e até milhares de pessoas. A História nos mostra que esse fato se repetiu em diferentes quilombos, Reis afirma que essa população não se constituía somente de escravos fugitivos com seus descentes.

Para ali também convergiam outros tipos de trânsfugas, como soldados desertores, os perseguidos pela justiça secular e eclesiástica ou simples aventureiros, vendedores, além de índios pressionados pelo avanço europeu. Mas predominavam os africanos e seus descendentes. Ali, africanos de diferentes grupos étnicos administraram suas diferenças e forjaram novos laços de solidariedade, recriaram culturas (REIS, 1995; 1996, p. 16).

Trabalhos de pesquisas na área apontam que o termo “quilombo” não está apenas ligado às origens dos escravos vindos das regiões do Centro-Sul da África, mas também a um possível sistema de governo que lá era praticado. Segundo afirma Teske (2009), este sistema governamental era reproduzido de forma semelhante, talvez não idêntico, ao Quilombo de Palmares. Esse vocábulo carrega muitíssimas significações, como expõe Reis (1995), Quilombo deriva de Kilombo, uma sociedade de jovens guerreiros mbundu adotada pelos invasores jaga (ou imbangala). Estes eram formados de vários grupos étnicos. Esta instituição teria sido reinventada pelos palmarinos, enfrentando o problema de perda de raízes dessa parte do Atlântico. Depois de Palmares, o termo Quilombo, antes chamado de mocambo, consagrou-se como reduto de escravo fugido.

Quilombo: consagrado como reduto ou recanto dos escravos. Muito tempo se passou desde a formação dos primeiros quilombos no Brasil e ainda não se sabe com precisão a época de sua formação. Segundo Parente (2003), a partir do descobrimento das minas do Norte de Goiás, foram se formando os primeiros povoados por meio das notícias de novos achados. É muito provável que o descobrimento das minas de Arraias - cidade bicentenária do Sudeste do Tocantins, formada a partir do ciclo do ouro no século XVIII, com sua população formada de africanos sudaneses, bantos e os nascidos no Brasil - ocorreu no período entre 1739 e 1740. Subsistindo ao declínio da economia mineradora na capitânia de Goiás, no final da segunda metade do século XVIII, os núcleos populacionais como Arraias e Natividade continuam mantendo o fluxo do seu povoamento. Segundo Apolinário (2000), isso se deu através do requerimento de novas sesmarias para o estabelecimento de fazendas criatórias.

Afirma Apolinário (2000) que, no período entre 1780 e 1785, a população do Norte da capitania de Goiás era composta, na sua maioria, pelos homens e pelas mulheres denominados pretos, sendo que, numericamente, o sexo masculino sempre sobressaiu em relação ao feminino. Para Palacin (1994), o crescente número de mulatos nessa região acontecia pela ausência de mulheres brancas nas minas, fator determinante para a grande escala de mestiçagem entre branco e preto. O autor aponta ainda que, no período entre 1739 e 1800, a maioria dos escravos domiciliados em Arraias era nascida e criada nesse arraial ou em regiões circunvizinhas, o que descarta a possibilidade de terem sido fruto de importações africanas. Os escravos com domicílio em Arraias eram identificados como crioulos, cabras, mulatos, mestiços e pardos.

A diferença entre o número de escravos para o de escravas era grande. Isso ocorria porque os senhores escravistas consideravam os masculinos as mãos-de-obra mais produtivas, destinando a maioria das escravas para as atividades domésticas. As mulheres negras tiveram um papel crucial no período de transição entres as atividades mineiras, lavoura e criação de gado, na região de Arraias, pois, além de realizarem atividades domésticas, elas também exerciam as de vendedoras, com a permissão das suas senhoras. Para Apolinário (2000, p. 830), nessas relações sociais, “as negras eram instrumentos de resistência escrava, fazendo aflorar as suas tradições através da religiosidade, linguagem e culinária”. Essas mulheres também protagonizaram a história quando, em muitas oportunidades, incumbiam-se de esconder escravos fugidos e quando se faziam informantes entre o mundo urbano e o rural.


COMUNIDADE QUILOMBOLA LAGOA DA PEDRA E SUAS MULHERES
A partir da aprovação do Decreto 4.887 de 20 de novembro de 2003, houve a regulamentação do reconhecimento e certificação das comunidades como remanescentes de quilombos. Essas comunidades são detentoras de características culturais próprias e peculiaridades que as distinguem umas das outras e de todo o resto da sociedade. Comunidade Quilombola Lagoa da Pedra tornou-se foco do nosso estudo, localizada a cerca de 33km da cidade de Arraias, no Estado do Tocantins, constitui-se como um grupo de remanescentes de quilombos, com reconhecimento da identidade afro-descendente, através da Certidão de Autorreconhecimento, expedida em 25 de agosto de 2004, que a reconhece como remanescente das comunidades dos quilombos.

O protagonismo das mulheres negras no processo de organização, sobrevivência, regulamentação e reconhecimento da Comunidade Lagoa da Pedra como remanescente das comunidades quilombolas. Essa comunidade foi a primeira a ser reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombolas no Estado tocantinense. A esse respeito, pronuncia-se a dona Maria Inácia Antônio de Farias e Silva, natural da Lagoa da Pedra, professora aposentada, líder da comunidade na época, em entrevista concedida a Farias:

A partir daí quem leu o jornal nos procurou, vários jornalistas, TV’s, pesquisadores, professores e alunos universitários, a FUNASA (Fundação Nacional de Saúde). Muitas pessoas desconheciam a nossa história e hoje somos os protagonistas da nossa própria história. Pertencendo a 5ª geração de nossos antepassados negros. E agora que temos a ‘Associação de Produtores da Lagoa da Pedra’, registrada e tudo, almejamos ter máquinas agrícolas, serviços de saúde, de saúde bucal, lazer, atividades esportivas, como: um campo de futebol e seus acessórios, igreja para as orações da comunidade, pois somos católicos (FARIAS, 2005, p. 29).

Ao realizar este trabalho, percebe-se a inexistência de dados sistematizados sobre a comunidade. O que se torna perceptível em relação à história da comunidade é que ela foi preservada em sua maioria pela história oral, em que cada entrevistado, segundo Farias (2005), fala de acordo com a sua percepção e sua apropriação do fato. Daí, a importância de se registrar a fala dos mais velhos, para preservar as informações e a riqueza cultural da comunidade. Conforme Meihy (2002, p. 21), a história contada de forma oral tende a respeitar as diferenças e a facilitar a “compreensão das identidades e dos processos de suas construções narrativas. Todos são personagens históricos, e o cotidiano e os grandes fatos ganham equiparação na medida em que trançam para garantir a lógica da vida coletiva”.

Numa área de 80 alqueires de uma terra muito fértil - considerando a medida do Estado tocantinense em que um alqueire equivale a 4,8 hectares -, a Comunidade conta em média com 40 famílias que vivem da agricultura de subsistência, onde cultivam basicamente o arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a cana de açúcar, a banana, a batata, hortaliças e plantações frutíferas. As famílias participam também de projetos, pelos recebem a orientação técnica da gerência de Olericultura do Ruraltins - Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins que contém, em média, 17 variedades de hortaliças, criatório de peixes, criação de aves e produção de ovos e oficina de fazer farinha.

As atividades que caracterizam as formas ou o modo de viver da comunidade são basicamente de responsabilidade das mulheres, devido à maioria das manifestações serem de cunho religioso, onde elas estão sempre à frente, seja na organização dos eventos, na culinária típica, seja nas danças. A participação da mulher da Comunidade está em quase todas as atividades desenvolvidas e nas decisões políticas de interesse local. Segundo Farias (2005, p. 32),

[...] os moradores da CQ da Lagoa da Pedra não perderam suas características particulares e sua rusticidade. Ainda cozinham em fogão caipira, entoam cantigas de roda, dançam a sússia, tem suas manifestações religiosas como: Folia de Reis e do Divino Espírito Santo, Roda de São Gonçalo, As Festas Juninas, As Rezas da Ladainha em devoção a cada santo escolhido pela família; As Novenas dos Meses de Maio (Sagrado Coração de Maria), Junho (Sagrado Coração de Jesus), Semana Santa, entre outras. Estas expressões de tradição e de cultura de seus ancestrais, se somam ao uso de medicações naturais e fitoterápicas, existe também a parteira Maria Dias, que é uma das matriarcas da comunidade, foi ela quem fez o parto de quase todos da comunidade e dos arredores e por isso todos a chamam de ‘mãe Maria’.

Dona Inácia afirma que os seus antepassados viviam livres e isolados na Comunidade, porque tinham medo de serem castigados pelos senhores. Foi em Lagoa da Pedra o lugar onde encontraram espaço para exercer a tão sonhada liberdade. Nesta mesma perspectiva, dona Altina de Farias Dias, parteira, mulher mais velha do lugar, detalha que seus pais raramente falavam sobre a história dos escravos, “mas o que eu sei é que havia revoltosos4 que caçavam os escravos nessa região, quando encontrados muitos eram ferrados com fogo, como se marca o gado, alguns foram pregados pelo beiço no portal da casa e não poucos foram mortos” (TESKE, 2009, p. 50).

É das mulheres que vem a maior preocupação com a preservação da memória cultural da Comunidade, com o intuito de repassá-la às novas gerações e àquelas futuras, visto que na Comunidade não há registros históricos de suas origens e da relação de seus antepassados com a escravidão. O que se observam são os vários relatos sobre seus costumes, suas dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, suas manifestações culturais que vêm sendo feitas desde a época dos seus pais e seus avós, e a chegada dos primeiros moradores da Comunidade dos quais descendem, mas que, todavia, desconhecem os motivos que os levaram a residirem em Lagoa da Pedra. O que sabem vêm das memórias, das lembranças dos mais velhos da Comunidade, que, à maneira deles, vão se autobiografando. Nos termos analisados por Bosi (2009, p. 68), a “narração da própria vida é o testemunho mais eloquente dos modos que a pessoa tem de lembrar. É a sua memória”.
TRADIÇÃO: RODA DE SÃO GONÇALO NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DA LAGOA DA PEDRA
Roda de São Gonçalo é uma das tradições da Comunidade quilombola da Lagoa da Pedra que acontece, esporadicamente, como pagamento de promessas feitas por membros da Comunidade. Essa manifestação cultural, apesar de apresentar semelhanças com as comemorações regionais, traz algumas diferenças das demais festas religiosas da região, como as folias de Reis, as folias do Divino Espírito Santo e, até mesmo, das festas que homenageiam São Gonçalo, como ocorriam nos séculos XVIII e XIX. Conforme nos informa o professor Teske (2009, p. 95):

[...] a Roda de São Gonçalo, como pagamento de promessa, na Lagoa da Pedra, é uma manifestação cultural fortemente marcada por aspectos religiosos, sincréticos e de cultura popular, não sendo uma mera dança. A Roda é composta de um conjunto de ações, tais como: preparação, convocação dos atores envolvidos, divulgação, montagem, preparação pessoal, recepção dos participantes, ensaio da dança, janta, paramentação, dança da Roda de São Gonçalo, epílogo, dança da Sússia, ritos finais e o encerramento que, por sua vez, se dividem em várias partes.


São quatro as etapas que envolvem a preparação para a Roda de São Gonçalo: a Comunidade toma a decisão de realizar o evento, escolhe o local adequado para ele acontecer, convoca todos os componentes da Roda (24 rodeiras, Contra-Guia, violeiro e tocadores da caixa e do bumba) e arrecada alimentos da Comunidade suficientes para realizar o jantar e o café da manhã do encerramento do evento. A formação cerimonial serve também para cumprimento de uma promessa feita a São Gonçalo que podem ser de duas as maneiras para o cumprimento de uma promessa feita a São Gonçalo, em vida ou caso a pessoa que fez a promessa tenha falecido sem cumpri-la, por algum familiar. O dono da promessa se tornará o responsável pela realização da cerimônia que só poderá acontecer em um dia de sábado. O dono da promessa também deve arcar com todas as despesas necessárias para a realização da Roda, enquanto o envolvimento do resto da Comunidade ocorre voluntariamente. Mas, se o dono da promessa for desprovido materialmente e financeiramente, a Comunidade divide as despesas entre si. Para os membros da Comunidade, o dia de sábado é o escolhido por se tratar de um dia especial. Para uns, sábado é o dia de Nossa Senhora. Só pode dançar nesse dia; para outros, sábado foi escolhido pelo próprio “santo”.

Os integrantes que compõem o núcleo base da dança da Roda não são exclusivamente da Comunidade, visto que muitos, atualmente, residem em várias cidades ou fazendas da região, sendo convocados sempre que há a necessidade de se apresentarem à Roda, seja como pagamento de promessa, seja como apresentação cultural. Percebe-se que o grupo é unido e, quando se encontram para realizar a dança, os laços de amizade se fortalecem em prol da manutenção da Roda de São Gonçalo como uma expressão de resistência cultural regional.

Não se permite nenhum meio de comunicação expresso ou tecnológico para a divulgação da Roda de São Gonçalo. Toda a divulgação ocorre única e exclusivamente de forma pessoal, oralmente, trazendo todas as informações sobre o motivo, o local e nome do dono da promessa. A Comunidade também não aceita nenhuma espécie de patrocínio, comercialização de produtos ou cobrança de ingressos no evento. Os detalhes de sua realização são preservados pela tradição. Isso torna a Roda de São Gonçalo especial em comparação com as demais festas religiosas e folias que ocorrem na região.

A quantidade de pessoas que participam da Roda é sempre uma surpresa. Homens, mulheres e crianças da Comunidade se envolvem voluntariamente na montagem da Roda, na confecção dos símbolos religiosos e na ornamentação do local escolhido para o cerimonial. São confeccionados o Cruzeiro da Roda de São Gonçalo5, as candeias6 dos arcos7, as flores de papel e a montagem do altar8. Para cada Roda realizada, confecciona-se um Cruzeiro que jamais é reutilizado e nem jogado fora. Ele fica afixado ou guardado na casa onde aconteceu a Roda de São Gonçalo, tornando-se um símbolo de fé e religiosidade. Normalmente, são quatorze pares de rodeiras que dançam à Roda. Para não haver falhas durante a apresentação, costuma-se realizar ensaios antes da cerimônia acontecer.

A cerimônia, que dura em média duas horas, começa no momento em que é servido a jantar. Todas as rodeiras posicionam-se à mesa, na cabeceira ficam os guias, o violeiro e os tocadores do bumba e da caixa, que são os primeiros a se servirem. Teske (2009) diz que esse momento é dividido em três etapas: as orações iniciais, a janta propriamente dita e a parte final, que acontece com a limpeza da mesa e a oração do “Bendito”9, cantada pelos homens enquanto as mulheres acompanham com palmas.

Em seguida, o ambiente é todo iluminado para receber as rodeiras, o Guia-Mestre e o Contra-Guia. As rodeiras se posicionam em duas filas, em média 14 de cada lado, tendo em frente o Guia-Mestre e o Contra-Mestre. Cada uma das mulheres segura um arco enfeitado com flores e as candeias acesas. Logo à frente, posicionam-se o violeiro, o tocador do bumba e o da caixa. A dança é dividida em oito passos diferentes que são o dar de ombro, a troca de rodeiras, o roubar as rodeiras, o arco enfiado, a roda grande, a marcha do purrú, purrú legítimo e a de despedida do cruzeiro até o altar. Durante os passos, os guias cantam, as batidas dos instrumentos se intensificam e há uma total interação do público presente.

Ao término da Roda de São Gonçalo, sem hesitação, as rodeiras e os guias entram no círculo formado por todos, especialmente os jovens da Comunidade, e dançam animadamente a Sússia (dança de origem afro) ou o Samba, chamado por eles de “Súça”. Os ritos finais da cerimônia são marcados por orações de origens católicas como o Credo Apostólico, o Pai-Nosso, a Ave-Maria, de cânticos acompanhados pelo som da viola, encerrando-se com as ladainhas cantadas em latim, enquanto as rodeiras recolhem as velas e as imagens do altar e seguem em procissão até a casa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS


Por meio deste trabalho, verificou-se que, ao longo das suas trajetórias de vida, as mulheres da Comunidade Lagoa da Pedra têm contribuído para perpetuar a cultura e os costumes que lhes foram transmitidos pela tradição oral, conservando assim os ritos, os festejos, as danças - como a Roda de São Gonçalo - as crenças, os saberes, as práticas e os valores que herdaram de suas gerações, cuidando para transmiti-las às outras gerações de mulheres que residem no Quilombo Lagoa da Pedra.

Observa-se que, com as ocorrências cada vez mais raras da Roda de São Gonçalo na Comunidade da Lagoa da Pedra, os jovens do lugar já se conscientizaram sobre a necessidade de manterem a tradição entre eles, que remonta as origens naquele lugar desde de 1854, conforme constatado através da história oral. Assim, mantendo a Roda de São Gonçalo em seu meio, essa Comunidade, que já sofreu várias formas de discriminação, está reconstruindo sentimentos coletivos de autoestima e conquistando o reconhecimento da sociedade de que é um importante patrimônio cultural tocantinense.

WOMEN’S QUILOMBO LAGOA DA PEDRA AND THE DANCE RODA DE SÃO GONÇALO
Abstract: The paper brings memories of Quilombos’s women of the Brazilian state of Tocantins, who keep the ancient traditions of several generations of former slaves who lived in this region. Throughout their life trajectories, they have contributed to the perpetuation of the culture and customs they have been transmitted by oral tradition, and keeps the rites, celebrations, dances: Roda de São Gonçalo, beliefs, knowledge, practices and the values ​​they inherited from their generations of grandmothers, their mothers, and also take care of transmitting them to other female generations residing in the Quilombo Lagoa da Pedra. Therefore, this study aims to contribute to the constitution of the field of knowledge about memory and religiosity and reconstruct the life stories and the role of women in the Quilombo. For this work, have been conducted oral interviews, filming, research in public and private archives and studies of other researchers who have already performed and/or come from the performing of Lagoa da Pedra, for reconstituting their memories. The thematic emphasis here favors the Roda de São Gonçalo not only as a dance, but as a complex of actions that survive mainly by the strength of the quilombo women, who keep alive their traditions. These incorporated into the society and the local community. Their celebrations and rites have become a reference in the region for their events that have attracted the interest of researchers, historians, the curious and the media of different states.
Keywords: Culture. Memory. Quilombos’s women. Religiosity.

Referências


APOLINÁRIO, Juciene Ricarte. Escravidão negra no Tocantins colonial: vivências escravistas em Arraias (1739-1800). Goiânia: Kelps, 2000.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças dos velhos. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
FARIAS, Rosana Antônio de. Comunidade remanescente quilombo Lagoa da Pedra: estudo de caso. 2005. 42 f. (Monografia) - Universidade Federal do Tocantins, Campus Universitário de Arraias, nov. 2005.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 48. ed. rev. São Paulo: Global, 2003.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de história oral. 4. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
PALACIN, Luís. O século do ouro em Goiás: 1722-1822: estrutura e conjuntura numa Capitania de Minas. 4. ed. Goiânia: UFG, 1994.
PARENTE, Temis Gomes. Fundamentos históricos do Estado do Tocantins. 2. ed. Goiânia: UFG, 2003.
QUEIRÓZ, Neuzeny Rodrigues de. Etnobotânica: o uso das plantas pela comunidade remanescente de quilombo Lagoa da Pedra. 2007. 35f. (Monografia) - Universidade Federal do Tocantins, Campus de Arraias, dez. 2007.
REIS, João José. Quilombos e revoltas escravas no Brasil. Revista USP (online). São Paulo, v. 28, p. 14-39, dez./fev. 1995; 1996. Disponível em: <http://www.usp.br/revistausp/28/02-jreis.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2012.
TESKE, Wolfgang. A roda de São Gonçalo na comunidade Lagoa da Pedra em Arraias (TO): um estudo de caso de processo folkcomunicacional. 2. ed. Palmas: Kelps, 2009.
______. Cultura quilombola na Lagoa da Pedra, Arraias - Tocantins: rituais, símbolos e rede de significados de suas manifestações culturais: um processo folkcomunicacional de saber ambiental. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2010. (Edições do Senado Federal; v. 146).
Recebido em: 04.12.2015

Aprovado em:



1Este artigo resulta do trabalho apresentado no I Colóquio Internacional Bullying Submerso: Religião e etnicidade na escola, realizado pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Regilião da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), em outubro de 2015.

Doutoranda em Educação(PUC-Goiás), mestre em Educação(PUC-Goiás), orientanda da Professora que se compõe como coautora deste artigo. E-mail: marizethfarias@gmail.com

Doutora em História Cultural(UNB); mestre em Educação(UNICAMP). Professora Adjunto da PUC Goiás, Programa de Mestrado e de Doutorado em Educação/Linha de Pesquisa: Educação, Sociedade e Cultura;Escola de Formação de Professores e Humanidades. Líder do Diretório (CNPq/PROPE) do Grupo de Pesquisa: “Educação, História, Memória e Cultura em diferentes espaços sociais”. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa da História da Educação e Memória de Goiás (NEPHEM-GO/HISTEDBR). E-mail: zeneide.cma@gmail.com




2“Os navios holandeses podiam embarcar de 450 a 1000 toneladas, mas é bem possível que os navios portugueses fossem menores [...]. Os portugueses transportavam 500 cativos numa caravela, enquanto os holandeses não embarcavam mais de 300 mil num navio grande. Um pequeno bergantim português podia transportar até 200 escravos, um navio grande até 700” (MATTOSO, 1990 apud TESKE, 2010, p. 51).

3Sobre os horrores praticados contra os negros Duque-Strada traz um texto de Brougham que diz: “Sendo descoberto, e ao perceber que o cruzador o persegue, tem que resolver o contrabandista se deve empregar esforços para tornar atrás, escapando por essa vez e aguardando ocasião mais oportuna, ou se tentará a travessia do oceano, e consumará o eu crime, chegando às costas americanas com parte, ao menos, da carga. Quantos horrores não se compreendem nestas palavras: parte da sua carga!” (DUQUE-ESTRADA, 2005 apud TESKE, 2010, p. 52).

4 Provavelmente, dona Altina se referiu aos capitães-do-mato. Na tentativa de acabar com as fugas dos escravos, “a Colônia concebeu estratégias repressivas que, [...] tentaram manter sob controle o número de escravos fugidos a formação de mocambos. Foi nesse processo que se inventou o famigerado capitão-do-mato (também conhecido como capitão-de-entrada-e-assalto) [...] milícia especializada na caça de escravos fugidos e destruição de quilombos” (REIS, 1995; 1996, p. 17).

5 Cruzeiro: cruz estilizada, talhada em buriti em forma de losango, e mede 2m de altura. No losango, são afixados sete suportes na vertical e dez em outras partes, que servem como castiçais, onde são colocadas as velas que queimam durante toda a dança (TESKE, 2009, p. 101).

6 Candeias: imprescindíveis na Roda, podem ser reaproveitadas. São confeccionadas artesanalmente pelas rodeiras, que colhem o algodão na roça, usam o fuso (bobina de madeira) e latas de óleo vegetal para colocar a cera quente (colhida dias antes), derretida de aratim (TESKE, 2009, p. 103).

7 Arcos: feitos de taboca colhida na mata, enfeitados com flores de papel crepon, e duas candeias são afixadas em cada arco que as rodeiras seguram durante toda a dança. Arcos: imprescindíveis na Roda, mas, diferente das candeias, são vistos com supertição pela comunidade. Ao término da dança, os guias os jogam em cima do telhado para não serem reutilizados (TESKE, 2009, p. 105).

8 O altar, foco central da Roda, é montado pelas rodeiras. São utilizadas duas varas de taboca em forma de arco, e espalhadas flores naturais brancas e vermelhas sobre o altar forrado com uma toalha branca. Nele, há as imagens: ao centro a de São Gonçalo Violeiro, à esquerda, Nossa Senhora Aparecida e, à direita, Nossa Senhora dos Remédios. Em frente a cada imagem, há velas comuns para iluminar o altar (TESKE, 2009, p. 108).

9 Benditinho: oração inicial da Roda, é cantada em forma de repente, mas com o texto previamente estabelecido; com as mãos estendidas e sem acompanhamento musical, todos participam da cerimônia (TESKE, 2009, p. 111)


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