Marramao, Giacomo; Entre o bolchevismo e social-democracia: Otto Bauer e a cultura política do auto marxismo,IN, hobsbawm, Eric; História do Marxismo



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MARRAMAO, Giacomo. Entre o bolchevismo e social-democracia: Otto Bauer e a cultura política do auto marxismo. IN: HOBSBAWM, Eric. História do Marxismo. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1985. p.277-243.
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GIACOMO MARRAMAO
Entre bolchevismo e social-democracia: Otto Bauer e a cultura política do austromarxismo
1. Otto Bauer e a Revolução de Outubro
Em setembro de 1917, regressava a Viena um Otto Bauer profundamente marcado por três anos de prisão transcorridos na Rússia. Nele pesara, de modo particular, a breve mas intensa experiência política vivida nos meses decorridos entre sua libertação (ocorrida com a Revolução de Fevereiro) e a autorização a regressar à pátria [Nota de Rodapé 1]. O sensível deslocamento de Bauer das posições moderadas do período anterior à guerra para uma atitude decididamente internacionalista e aberta à compreensão do processo revolucionário iniciado na Rússia foi percebido precisamente por seus velhos camaradas de partido: a começar pelo próprio Victor Adler, que — numa carta a Kautsky, de 14 de novembro de 1917 — confessou tê-lo achado ”um pouco bolchevique demais” [Nota de Rodapé 2]. O boato de um Bauer que retornara “subversivo”, detalhadamente registrado por um relatório policial sobre sua atividade e seus escritos (que, ’naqueles meses, foram quase todos publicados sob pseudônimo, já que ele ainda estava no serviço militar e, como
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tal, alocado numa seção do Ministério da Guerra), difundiu-se rapidamente também nos ambientes diplomáticos europeus: a ponto de um comunicado da embaixada alemã em Viena de, 24 de janeiro de 1918, apontar em Bauer – qualificando mesmo como “emissário de Trotski” – o fomentador da onda de greves que, iniciada nas fábricas de Wiener Neustadt, estava se expandindo também para outras regiões do Império. [Nota de Rodapé 3]

Na verdade, embora Bauer tivesse tido anteriormente contatos com Trotski e com Riazanov, sua posição política aderia- como, de resto, ele mesmo esclarecera numa carta a Kautsky de 28 de setembro de 1917 – à manifestada pelo “centro marxista” de Martov; em particular, ligara-se ele s Fiodor Dan (que se tornaria mais tarde seu estreito colaborador na ala esquerda da Internacional Operária Socialista) e à sua mulher, Lídia Ossipovna (irmã de Martov), na casa dos quais se hospedara por diversas semanas antes de retornar a Viena [4 Nota de Rodapé]


“Em geral – escrevia Bauer a Kautsky, apenas uma semana depois do regresso -, reconheço-me no ponto de vista de Martov e de seus amigos. Os mencheviques propriamente ditos realizaram, a meu ver, uma política absurda (...). Por outro lado, porém os bolcheviques seguiram uma política aventureirista das mais perigosas. A superestimação da própria força (...) encontrou uma expressão fiel na prática de Lênin e de Trotski. A fideísta ilusão jacobina na onipotência da guilhotina foi substituída em Petersburgo por uma igualmente fideísta ilusão na onipotência do fuzil. Entre esses dois extremos, a ala internacionalista dos mencheviques manteve uma justa posição intermediária. Portanto, também lá [na Rússia], a razão está com o ‘centro marxista’” [5 Nota de Rodapé]
A partir dessa carta, iniciava-se uma análise da revolução russa que – embora nos anos subseqüentes, a sofrer correções e revisões substanciais – continha já em embrião aquela atitude de fundo que irá se delinear em termos de um contraste cada vez mais acentuado com a posição kautskiana: “As conquistas sociais da revolução são imensas. Deveria ser explicado sobre-
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tudo democracia francesa e inglesa, o que podem significar para a democratização da Europa a vitória ou a derrota da revolução russa” [6 Nota de Rodapé] . O “desvio” que essa colocação apresentava em relação à avaliação predominante no interior da social-democracia européia evidente. Mas é pelo menos igualmente evidente a consciência, em Bauer, do contraste que se abria: por isso, os votos que ele formula na carta de Kautski, de que sua posição encontrasse no seu interlocutor um consenso pleno e pudesse constituir a base para uma profícua colaboração política, parece assumir o caráter de uma solicitação preocupada e, ao mesmo tempo, de uma diplomacia sofisticada [7 Nota de Rodapé]. As condições políticas internas e internacionais, de setembro de resto, eram excessivamente tensas e dramáticas para que fosse possível prosseguir na linha da composição formal das divergências, uma linha que caracterizara as relações entre social-democratas austríacos e social-democratas alemães antes da guerra.

No opúsculo Die russische Revolution und das Proletariat [8 Nota de Rodapé], publicado por Bauer (sob o pseudônimo de Heinrich Weber) poucas semanas após a eclosão da Revolução de Outubro (o prefácio, dedicado significativamente aos “amigos russos”, traz a data de 10 de outubro de 1917), voltamos a encontrar o mesmo conceito de interdependência entre revolução russa e proletariado europeu afirmado na última parte da carta a Kautsky. Mas, dessa vez, tal conceito aparece ligado a uma dura e inequívoca crítica à Internacional Socialista, que se demonstrara incapaz de guiar a luta pela paz e por uma solidariedade ativa com os revolucionários russos: “O governo do proletariado europeu depende nteiramente da vitória da revolução russa. E, apesar disso, a Internacional é incapaz de ajudar a revolução russa!” [9 Nota de Rodapé].

Nos meses imediatamente subseqüentes, a análise baueriana torna-se mais precisa e aprofunda-se sob o acicate da Revolução de Outubro, cujos efeitos se articulam com dois eventos que influenciam de modo determinante a rápida evolução política do Partido
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austríaco no último ano de vida do Império: as grandes greves operárias de janeiro e a precipitação do processo de desagregação do Estado dos Habsburgos, com a explosão definitiva das tendências autonomistas no seio das diversas nacionalidades [10 Nota de Rodapé]. Decerto, não é casual que os desenvolvimentos da análise do leninismo e da Revolução de Outubro procedam em Bauer em estreita concomitância com o amadurecimento de uma drástica ruptura com a solução federalista do problema das nacionalidades, tradicionalmente defendida, a partir do momento em que foi adotada como programa oficial no Congresso de Brünn (Brno) de 1899, e, portanto, de uma substancial revisão da sua própria teoria das nacionalidades, tal como se encontra formulada no mais importante dos seus escritos do pré-guerra: Die Nationalitatenfrage und die Sozialdemokratie [11 Nota de Rodapé].



Deixando por enquanto de lado esse aspecto, de crucial importância para compreender a virada da social-democracia austríaca na passagem do Império para os primeiros anos de vida da República, deve-se sublinhar imediatamente o fato de que os fatores revolucionários contidos na Revolução de Outubro não servem como causa eficiente ou detonador, mas antes como multiplicador de tendências políticas já em ato no interior do Partido austríaco. Quando Bauer regressa a Viena, os pressupostos da virada já estão em boa medida dados (seu mérito consistirá em saber “administrá-los” e conduzi-los a um resultado político-organizativo favorável à esquerda: no sentido de uma trajetória, portanto, bem diversa da seguida pela social-democracia alemã). Exatamente dois anos antes (21 de outubro de 1916), com efeito, o célebre “gesto” de Friedrich Adler [12 Nota de Rodapé] (que matara com quatro tiros o Conde Stürgkh, presidente do Conselho do Império habsbúrgico e principal responsável pela drástica virada autoritária iniciada em julho de 1914,
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com a dissolução do Parlamento) reabrira bruscamente, na área social-democrata, o debate sobre a guerra e sobre o internacionalismo, fazendo ressurgir no interior do Partido austríaco uma oposição de esquerda ainda minoritária (alguns meses antes, a Reichskonferenz não aprovara o pedido de adesão à plataforma de Zimmerwald formulada por Fritz Adler e pelo grupo dos “internacionalistas”). Antes da eclosão do conflito mundial, a oposição de esquerda no interior da social-democracia austríaca podia contar apenas com um restrito grupo de militantes, que se agrupava em torno do círculo “Karl Marx”. Faziam parte do círculo, além de Friedrich Adler (o qual, na iminência da guerra, começara a animar — em polêmica com seu pai, Victor — uma intensa campanha contra a política de trégua), Gabriele Proft, Robert Danneberg, Max Adler, Therese Schlesinger, Leopold Winarski, Anna Strõmer-Hormik e Franz Koritsshoner (sobrinho de Rudolf Hilferding e futuro fundador do Partido Comunista Austríaco) [13 Nota de Rodapé]. Todavia — como, muitos anos depois, Trótski irá recordar em sua autobiografia [14 Nota de Rodapé] até o chamado “congresso inexistente” de Viena (o congresso da Internacional que deveria ter tido lugar no verão de 1914) as posições de conjunto do Partido austríaco não se distinguiam de modo relevante daquelas da social-democracia alemã [15 Nota de Rodapé]. Com efeito, a oposição de esquerda começou a assumir uma clara fisionomia somente no curso de 1915, sob a impressão provocada pelo colapso da Segunda Internacional, pela decidida oposição de Karl Liebknecht à renovação dos créditos de guerra e pela Conferência de Zimmerwald. Em 3 de dezembro do mesmo ano, a minoria austríaca tornava pública sua própria adesão aos princípios zimmerwaldianos, com o Manifesto dos internacionalistas da Áustria aos internacionalistas de todos os países — que suscitou um notável eco no movimento operário internacional, e foi reproduzido simultaneamente em diversos jornais —, para reafirmá-la com ênfase no ano seguinte, na Reichskonferenz da social-democracia austríaca (25-27 de março de 1916) [16 Nota de Rodapé]. Nessa ocasião — na qual a es-
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querda aparecia publicamente, pela primeira vez, com uma plataforma definida autonomamente —, Friedrich Adler tomou a palavra contra a política “social-patriota” seguida pelo pai (que se mantinha ainda como o líder inconteste do Partido), e polemizou violentamente com Karl Renner, cuja linha visava a uma recuperação, no interior de um processo de “democratização”, da moldura plurinacional do Estado dos Habsburgos [17 Nota de Rodapé]. Apesar da magnitude do esforço, a Reichskonferenz terminou com um insucesso para a esquerda. E, precisamente de tal insucesso e do naufrágio das posteriores tentativas realizadas pela esquerda através de apelos dirigidos ao Partido e ao Birô Socialista Internacional, Adler extraiu a convicção da necessidade de um gesto espetacular e exemplar, capaz de quebrar a passividade e a esclerose de um partido que se distanciara perigosamente das massas, num momento em que estas eram obrigadas a sofrer, ao lado dos sacrifícios provocados pela guerra, o peso de uma feroz repressão policial. O vasto eco motivado pelo gesto de Adler no movimento operário internacional, as inúmeras polêmicas que se seguiram acerca do “terrorismo político” e das condições de legitimidade do recurso a ele numa situação crítica, são eventos agora bastante conhecidos e estudados, não havendo assim necessidade de nos determos aqui nos mesmos [18 Nota de Rodapé]. Ao contrário, o que importa sublinhar é que o autêntico momento de virada foi representado — mais ainda do que pelo gesto em si — pela célebre autodefesa no processo (18-19 de maio de 1917), que se articulou com uma fase de grande expansão das greves de massa desencadeadas na Áustria quando chegou a notícia da derrubada do Estado czarista pela Revolução de Fevereiro [19 Nota de Rodapé]. A partir daquele momento, Friedrich Adler tornara-se para a classe operária austríaca o símbolo da luta contra o absolutismo e a degenerescência social-chauvinista do Partido: seu nome, assim, era freqüentemente posto ao lado do de Karl Liebknecht, e, nos panfletos divulgados pelos operários durante as grandes greves de janeiro, figurava também — entre as várias reivindicações — a de sua libertação imediata (essa só iria ocorrer a 2 de novembro de1918, nas vésperas da proclamação da República, mas a pena de
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morte contra ele fora comutada pela Suprema Corte de Justiça em dezoito anos de prisão já no mês de setembro do ano anterior: e essa comutação fora como que a extrema tentativa de um poder imperial desesperadamente empenhado — após a Revolução de Fevereiro e a entrada dos Estados Unidos na guerra — em evitar o colapso) [20 Nota de Rodapé].

A importância do gesto de Adler e de suas conseqüências políticas, contudo, pode ser medida sobretudo em relação aos eventos internos da social-democracia austríaca. Com efeito, sua conseqüência imediata foi o fortalecimento da oposição de esquerda, a qual pôde assim tomar parte na III Conferência do movimento de Zimmerwald, realizada em Estocolmo a 5 de setembro de 1917. Quando, poucos dias depois, Bauer regressou a Viena, já encontrou amplamente preparado o ambiente no qual irá exercer sua própria iniciativa política em favor da esquerda, redigindo imediatamente a declaração programática da mesma para o congresso do Partido (19-24 de setembro) [21 Nota de Rodapé].

A contribuição de Bauer logo se revelará decisiva, graças à tática unitária por ele adotada em face da direção do Partido. Como testemunha uma carta de Robert Danneberg a Kautsky, de 15 de abril de 1918 [22 Nota de Rodapé], Bauer conseguiu explorar politicamente o processo de radicalização das lutas operárias após a Revolução de Outubro para imprimir um decisivo avanço nos equilíbrios políticos internos do Partido: convencendo a esquerda a não se constituir em fração organizada contraposta à direção, conseguiu — quando da morte de Victor Adler (ocorrida poucos dias após a proclamação da República) — assumir a direção do Partido. Essa passagem de direção política, além de evitar à social-democracia austríaca as dilacerações e cisões que atravessam a social-democracia alemã, está na origem da profunda diversidade de linha, de composição e de enquadramento da correlação de forças internas que se manifesta entre o movimento operário austríaco e aquele que atua sob a República de Weimar.

Precisamente essa virada empreendida pela social-democracia austríaca nos umbrais do novo Estado republicano terminou por tornar inexoravelmente minoritário, desde o início, o espaço de todas as outras forças de esquerda e, em particular, do Partido Co-

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munista Austríaco (KPO), cuja tendências putschistas (que, alimentadas pelos efêmeros sucessos da revolução na Baviera e na Hungria, funcionarão como dramático contraponto do primeiro ano de vida da Áustria alemã) representaram apenas em parte a causa de sua marginalização, aparecendo mais verossimilmente, ao contrário, como o efeito de uma marginalização já ocorrida no interior do movimento conselhista [23 Nota de Rodapé].

As violentas polêmicas sobre a traição da revolução por “Bauer e consortes” (culpados de terem bloqueado a revolução “nas ruas de Viena”), levantadas então pela Internacional Comunista [24 Nota de Rodapé], e ainda hoje repropostas por uma tendência historiográ fica de derivação trotskista, que se apóia nos estudos de Roman Rosdolski sobre a “situação revolucionária na Áustria” [25 Nota de Rodapé] - além da mística da “ocasião perdida” que as caracteriza —, tais polêmicas não parecem levar na devida conta uma circunstância fundamental: ou seja, que o espaço de manobra para uma solução de ruptura de tipo insurrecional tornara-se impraticável desde os primentos meses de vida da República por causa da iniciativa política do Partido Social-Democrata, cuja linha — amplamente majoritária no interior do movimento conselhista [26 Nota de Rodapé] — era particularmente forte em Viena (em 1 e março de 1919, Friedrich Adler fora eleito, pela I Conferência cios Arbeiterrtite, presidente do Comitê Executivo dos Conselhos). Portanto, nada havia de comparável à atitude repressiva manifestada pela direção social-democrata alemã em relação à revolta espartaquista.

Particular significado assumem, sob esse aspecto, os termos em que Bauer travou a polêmica com Bela Kun — que então presidia a República dos Conselhos na Hungria —, por ocasião da fracassada tentativa de putsch de 15 de junho de 1919.
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“Eu creio — escrevia Bauer no dia imediatamente seguinte ao trágico final do levante insurrecional, numa carta enviada a Bela Kun através de Robert Danneberg — que nós nos encontramos na primeira ou na segunda fase da revolução mundial. Mas eu concebo essa revolução de modo muito menos linear e como algo muito mais difícil, complexo, multiforme e diferenciado, conforme a época e o lugar, do que o faz a maior parte dos amigos mais próximos do senhor: e aqui está a raiz de nossas divergências táticas” [27 Nota de Rodapé].
A acentuação da complexidade do processo de transformação revolucionária constitui o elemento de diferenciação mais intenso e dramático da linha de reflexão de Bauer, em comparação com as posições expressas naqueles mesmos anos por Kautsky; e forma, ao mesmo tempo, um momento de articulação não episódico, no interior de sua própria pesquisa, entre questões estratégicas e evolução do juízo e da análise sobre a Revolução de Outubro. Como é evidenciado sobretudo por Bolchevismo ou social-democracia? [28 Nota de Rodapé] - o escrito mais importante desse período, quando menos pelo seu caráter de primeira sistematização das análises iniciadas na fase crucial da conclusão da guerra e do colapso do Império e de primeiro balanço do trabalho de direção política iniciado em novembro de 1918 —, a argumentação de Bauer tende a se distanciar nitidamente da tradicional plataforma teórica da Segunda Internacional, tanto na condução da crítica ao bolchevismo quanto na colocação do problema que estará no centro de sua reflexão nos anos subseqüentes: o problema da democracia.

Diferentemente de Kautsky, Bauer evita a aplicação mecânica do esquema da vinculação entre forças produtivas e relações de produção, que era própria dos teóricos social-democratas que se limitavam a etiquetar a Revolução de Outubro como um parto prematuro sem longas perspectivas de vida. O partido de Lênin é, para ele, um ”partido indubitavelmente revolucionário e indubitavelmente socialista” [29 Nota de Rodapé]. Para uma avaliação crítica das concepções e das escolhas práticas desse Partido, é preciso libertar-se do fardo doutrinário do marxismo da Segunda Internacional, introduzindo um critério de análise diferenciada do “processo” revolucionário.


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A indicação metodológica de Bauer encontra-se expressa com nitidez desde o prefácio, nos termos de uma chave de leitura à qual ele se conservará fiel também no curso das posteriores revisões de juízo: enquanto a Revolução de Outubro tem um significado histórico universal, o bolchevismo não possui a prerrogativa de validade universal, não é clavis universalis, não é o único método possível de revolução [30 Nota de Rodapé] . Ao contrário, o bolchevismo retira sua própria justificação genética das particulares condições de luta do proletariado industrial russo, o qual teve de operar num contexto sócio-econômico predominantemente agrícola. A partir desse ângulo, a teoria leniniana do partido e da revolução tem seu próprio espaço e sua própria função específica delimitados: nem simples reflexo, nem forçamento violento e arbitrário de uma “situação atrasada”, mas antes expressão política ativa da impositiva necessidade histórica de inverter o processo de desagregação social do país, transformando o isolamento do restrito núcleo da classe operária industrial em função de vanguarda e de direção consciente das forças produtivas.

Afirmar ao mesmo tempo a universalidade de Outubro e a pluralidade dos caminhos para o socialismo (Bauer fará isso explicitamente no prefácio à reedição de 1921 de seu “plano de socialização” [31 Nota de Rodapé]) não constitui absolutamente uma contradição, mas sim o resultado coerente de uma análise não ideológica da revolução russa.

Todavia, há um outro aspecto que merece ser sublinhado. Com base no paralelo, discutível sob vários aspectos, que Bauer — e, de modo análogo, Friedrich Adler, Dan e Abramovitch [32 Nota de Rodapé] - haviam estabelecido entre bolcheviques e jacobinos, residia uma assertiva que levava à problematização interna das noções de democracia e de caminho democrático: a distinção entre elemento político e elemento social do processo revolucionário. O paralelo com a Revolução Francesa de 1789, em contraposição àquela “puramente política” (e, portanto, burguesa) de 1948, é evocado por Bauer para definir a revolução russa como uma revolução social, ao contrário do caráter político da revolução alemã e austríaca, e para chegar, por conseguinte, à conclusão de que a ditadura do proletariado
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instaurada por Lênin não representava uma superação ou uma supressão irreversível da democracia, mas sim uma fase de desenvolvimento no sentido desta [33 Nota de Rodapé].

Se, no curso da análise realizada em Bolchevismo ou socialdemocracia?, Bauer formulara a hipótese de que era possível à Rússia soviética chegar a “formas sociais mistas que a nossa ciência, resultantes de um processo de abstração realizado com base nas experiências do passado, ainda não é capaz de classificar”, nas obras posteriores essa previsão encontrará um enraizamento constante no postulado da reformabilidade do sistema soviético enquanto sistema sócio-econômico centralmente planificado, e, portanto, no auspício (que constituirá também um dos principais objetivos de sua batalha internacionalista pela frente única) de que a União Soviética consiga gradualmente eliminar as formas de “estatismo” e de “socialismo despótico”, em torno das quais tendia inevitavelmente a se coagular a fase de estabilização do processo de transformação [34 Nota de Rodapé].

Se a previsão-auspício de uma democratização do sistema de poder soviético — entendida segundo um esquema interpretativo que pode ser encontrado não só em Dan e Abramovitch, mas no próprio Trótski, como simples adequação da superestrutura política a uma estrutura tendencialmente socialista — pecava por “sociologismo”, ela revelava, contudo, o esforço de superar alguns gravosos limites ideológico-doutrinários do enfoque de Kautsky. Este, partindo desde seu escrito de 1918 (Die Diktatur des Proletariats) do pressuposto de que “não existe socialismo sem democracia” [35 Nota de Rodapé], chegara em 1921 — na conclusão de sua célebre polêmica com Trotski [36 Nota de Rodapé] — a encerrar definitivamente seu raciocínio sobre a experiência bolchevique, caracterizando-a como uma irreformável ditadura anti-socialista. Independentemente de qualquer avaliação quanto ao mérito, não se deve esquecer que essa atitude de fechamento de Kautsky já se havia delineado completamente num momento em que os eventos internos da Rússia soviética e do campo comunista europeu em formação apresentavam uma mobilidade, uma abertura conflitual e uma riqueza de debates que serão brusca-

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mente interrompidas pela virada sectária realizada pela Internacional Comunista nos anos da grande crise: a drástica equação entre leninismo e bonapartismo (socialmente degenerado), à qual chegará nos anos 30 o velho pai ideológico do marxismo da Segunda Internacional, não é — a não ser em mínima parte — uma reação às tendências involutivas do movimento comunista, mas antes o resultado natural daquelas longínquas premissas [37Nota de Rodapé].

A exigência que impele os austromarxistas, precisamente nessa fase, a promover a iniciativa da União dos Partidos Socialistas para a Ação Internacional (mais conhecida como “Internacional de Viena”, ou, ainda, com a designação irônica de “Internacional dois e meio”, que Karl Radek lhe conferiu [38 Nota de Rodapé]), assim como a polêmica que irá explodir nos anos 30 entre Kautsky e Fritz Adler sobre as bases da frente única com os comunistas [39 Nota de Rodapé], só se explicam em todo o seu significado se levarmos na devida conta a diferença que existe entre a análise kautskiana e a análise baueriana do bolchevismo. Enquanto Bauer, com efeito, em sua obra de 1931 sobre Rationalisierung-Fehlrationalisierung [40 Nota de Rodapé] (concebida inicialmente como primeiro volume de um amplo trabalho que deveria abarcar as transformações do capitalismo e do socialismo depois da guerra mundial), irá aprofundar e submeter a revisão parcial sua própria interpretação, ao constatar a consolidação da economia soviética (que desmentia todas as previsões feitas nos anos 20 tanto pelos críticos liberal-burgueses como pelos teóricos social-democratas), Kautsky continuará a declarar sua convicção “da inevitabilidade e da utilidade do colapso do bolchevismo” [41 Nota de Rodapé].


2. O austromarxismo antes da guerra: do Bernstein-Debatte à polêmica com Kautsky
A trajetória das reflexões bauerianas no período imediatamente posterior à guerra e à Revolução de Outubro pode ser esquematica-
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mente vista sob uma dupla ótica: do ponto de vista político, ela representa uma notável inovação com relação às posições anteriores do Partido austríaco (e do próprio grupo austromarxista), na medida em que implica a constatação, no âmbito da social-democracia européia, de uma passagem de fase na qual se produziram condições internas e internacionais absolutamente novas, que tornam irremediavelmente obsoletas as velhas plataformas programáticas e estruturas organizativas; do ponto de vista teórico, configura-se como valorização em termos de estratégia de um patrimônio cultural e, sobretudo, de um método de trabalho que o milieu austromarxista viera delineando desde os primeiros anos do século, em contato com o extraordinário clima cultural da “grande Viena” [42 Nota de Rodapé].

Se, no plano das opções político-organizativas, o austromarxismo do anteguerra aparece como substancialmente alinhado com Kautsky (em sintonia, de resto, com o sapiente pragmatismo com o qual Victor Adler orquestrara, a partir do Congresso de Hainfeld em 1889, a compósita estrutura do Partido), ela se mostra no plano teórico, ao contrário, mais próxima daquele “utopismo criticamente ágil” no qual Siegfried Marck, mais tarde, iria indicar o traço peculiar do revisionismo bernsteiniano [43 Nota de Rodapé].

Bernstein, como se sabe, criticara asperamente a equiparação kautskiana entre teoria e movimento, com base na qual a existência da social-democracia terminava por ser o argumento principal em favor do marxismo, sua autêntica “pedra-de-toque” [44 Nota de Rodapé]. Para evitar os riscos de justificacionismo que tal concepção trazia consigo, Bernstein sublinhara a necessidade de se empenhar na construção de uma “marxística” (Marxistik) [45 Nota de Rodapé], entendendo com esse termo (que era tomado de Dühring e Höchberg) um complexo teórico
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caracterizado por uma cientificidade rigorosa e por uma constante verificação das próprias proposições descritivas e predicativo-prescritivas em cotejo com os desenvolvimentos cognoscitivos das diversas disciplinas histórico-sociais: a marxística, em suma, deveria se pôr como antídoto às tendências apologéticas das quais estava agora irreversivelmente afetado o ”marxismo” em sua acepção kautskiana. No momento em que o grupo austromarxista, que se agrupara em

1903 em torno do Zukunft-Verein (embrião do que se tornaria mais tarde a ampla e capilar estrutura pedagógica da social-democracia austríaca), decidiu organizar seu próprio trabalho através de órgãos teóricos autônomos — fundando em 1904 os Marx-Studien e, em 1907, Der Kampf —, o que ele pretendeu com tal operação foi se distinguir nitidamente da formulação kautskiana do vínculo teoria/movimento, assumindo como base de partida o postulado “revisionista” da não-identidade entre marxismo e socialismo. Será o próprio Bauer a indicar, naquele denso e comovido balanço da experiência político-cultural do austromarxismo que é o necrológio de Max Adler, que o Bernstein-Debatte foi o fator propulsor que deu início à formação da “jovem escola marxiana de Viena”, a qual de Max Adler a Gustav Eckstein, de Rudolf Hilferding a Karl Renner — “encontrava-se mais próxima dos filões culturais da época do que a anterior geração marxista dos Kautsky, dos Mehring, dos Lafargue e dos Plekhanov” [46 Nota de Rodapé]

O prefácio ao primeiro volume dos Marx-Studien (nos quais serão publicados três escritos de fundamental importância, como a crítica de Hilferding a Böhm-Bawerk, Die soziale Funktion der Rechtsinstitute de Renner e Kausalität und Teleologie de Max Adler) apresenta programaticamente o desenvolvimento do marxismo como “ligação consciente dos resultados e dos métodos do pensamento marxista com o conjunto da vida espiritual moderna, ou seja, com o conteúdo do trabalho filosófico e sociológico de nosso tempo” [47 Nota de Rodapé]. Entre as linhas da colocação dos Marx-Studien, portanto, podia-se ler uma estreita correlação entre o debate sobre o revisionismo e os temas do Methodenstreit. Conrad Schmidt, na resenha do volume publicada no Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, não deixou de captar esse aspecto; chegou mesmo a
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sublinhar a “convergência” entre a problemática da nova revista e aquela de Max Weber [48 Nota de Rodapé].

A exigência de fazer com que os resultados da “disputa sobre o método” se articulassem com os pontos nevrálgicos do Revisionismus-Debatte residia, para os austromarxistas (e, em particular, para Max Adler), no fato de que o ponto morto em que terminara por se encontrar a discussão marxista devia ser relacionada com um uso acrílico e indeterminado da noção de “ciência” [49 Nota de Rodapé]. Essa observação polêmica envolvia, em primeiro lugar, um conceito que na interpretação kaustskiana — figurava como o correlato natural e imprescindível da cientificidade do marxismo: o conceito de necessidade.

A relação com as questões de método e de conteúdo das ciências sociais torna fluidos os alinhamentos internos ao “marxismo da Segunda Internacional”, impedindo uma sua classificação segundo a tão drástica quanto mistificadora alternativa entre “ortodoxia” e “revisionismo”. Assim, também desse ponto de vista, revela-se a fragilidade de uma categoria como a de “kautskismo”, elaborada por Matthias sob a direta influência do “marxismo crítico” de Korsch [50 Nota de Rodapé]. Essa chave interpretativa leva muito pouco em conta a mobilidade e a riqueza do quadro teórico do marxismo europeu a partir dos primeiros anos do século, sem perceber que a exigência de uma cientificidade, de uma criticidade específicas e de uma reproblematização da relação marxismo-filosofia, capazes de escapar daquele dilema, não foi colocada pela primeira vez apenas no princípio dos anos 20, pelos jovens Lukács e Korsch, mas já estava na base do programa de trabalho de uma revista como Der Kampf.

O austromarxismo apresenta-se como o exemplo mais vistoso daqueles contatos entre marxismo e grande cultura européia que se estendem e intensificam na virada do século e, de modo ainda mais acentuado, depois da revolução russa de 1905. Como oportu-


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namente observou Eric J. Hobsbawm, examinando o lado recíproco da relação que estamos considerando, ou seja, o aspecto da difusão do marxismo na cultura científica e acadêmica,
“na revista de Max Weber Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik — foram publicados somente 4 artigos sobre o tema entre 1900 e 1904, mas entre 1905 e 1908 o assunto mereceu 15 artigos. Na Alemanha, o número de teses de doutorado sobre o socialismo, a classe operária e temas análogos passou de 2 ou 3 nos anos 90 para uma média de 4 no período de 1900 a 1905, subiu para 10 no período de 1905 a 1909 e chegou a 19,7, em média, no período de 1902 a 1912” [51 Nota de Rodapé].
O vínculo estabelecido pelo austromarxismo entre Methodenstreit e o debate sobre o revisionismo tende — como já dissemos — a envolver em primeiro lugar a categoria de necessidade. A profunda revisão a que esse conceito é submetido, bem como a crítica que disso resulta à concepção monolinear das “leis de tendência histórica”, está na base da reinterpretação do problema dos intelectuais e da própria visão da relação entre formas do desenvolvimento capitalista e papel do Estado.

A sensibilidade em face desses problemas tinha profundas raízes no partido austríaco, por causa da ampla preocupação que, desde o seu nascimento, ele manifestara em face dos problemas do Estado habsbúrgico: a unificação entre “moderados” e “radicais”, sancionada pela declaração de princípios aprovada em Hainfeld, fizera do Partido a primeira organização capaz de abarcar toda a estrutura plurinacional do Império [52 Nota de Rodapé}. O tratamento assíduo da questão das nacionalidades e a existência de um grupo dirigente formado em sua maior parte por uma intelligentsia judaica de cultura centro-européia representam, já nos anos 90, os dois principais traços distintivos da social-democracia austríaca com relação à alemã. Diversos grupos intelectuais provenientes da média burguesia culta se haviam agrupado, já en1 1896 — antes do próprio Congresso de Hainfeld —, em torno do semanário Die Gleichheit, fundado por Victor Adler, e, a partir de 1895, em torno da Arbeiter Zeitung. Victor Adler, médico de profissão e amigo de Sigmund Freud

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(com o qual se batera em duelo quando jovem), era um trânsfuga do liberalismo, tal como outros líderes carismáticos que dirigiam os agrupamentos políticos mais ativos na virada do século: desde o cristão-social Karl Lueger (que tornou-se célebre como prefeito de Viena) até o pangermanista Georg Ritter von Schõnerer e o sionista Theodor Herzl. Se a defecção desses intelectuais deveu-se à falência do liberalismo habsbúrgico, que se revelou incapaz de administrar os problemas do crescimento urbano e de voltar-se com eficiência para os interesses emergentes de uma sociedade industrial, que a revolução tecnológica do final do século fizera crescer rapidamente num contexto agrário e pequeno-burguês, a força que se revelou capaz de enfrentar de modo construtivo — pelo menos durante certa fase — os problemas deixados sem solução, ou mesmo multiplicados e aguçados por aquela tentativa fracassada, foi precisamente a social-democracia. Sua sensibilidade para as problemáticas da política e da ideologia, sua capacidade de abarcar organizativamente uma realidade sócio-cultural extremamente diversificada e multiforme (conservando unido em seu seio um arco político que ia dos anarquistas aos monarquistas), sua aderência até mesmo excessivamente responsável às complexas exigências institucionais, tudo isso justificava plenamente a irônica designação de “k. k. Sozialdemokratie” — “social-democracia imperial-régia”, ou, para usar a célebre expressão de Musil, “cacãnica” —, cunhada por Karl Lueger, que foi um dos seus mais hábeis e ferinos adversários. Mas explica também a atração que ela era capaz de exercer sobre os intelectuais e sobre o próprio mundo científico e acadêmico. As universidades austríacas, portanto, não procederam — como o fizeram as alemãs — “a uma sistemática discriminação” contra os intelectuais marxistas [53 Nota de Rodapé] Não é de modo algum casual, portanto, o fato de que Carl Grünberg — depois de ter fundado em 1893, juntamente com Ludo M. Hartmann e Stefan Bauer, uma revista que, com o título de Vierteljahrschrift für Sozial-und Wirtschaftgeschichte, tornou-se um dos mais importantes órgãos de história econômica e social da área de língua alemã — desse vida em 1910, partindo de sua cátedra vienense, ao Archiv für die Geschichte der Sozialismus und der Arbeiterbewegung, aberto a teóricos socialistas de formação intelectual não-kautskiana. Como instrumento de política cultural aberta e flexível, o “Grünberg-Archiv”
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tinha seu correlato no campo das disciplinas histórico-sociais acadêmicas precisamente no “Archiv” weberiano, que Hobsbawm definiu como “talvez a única publicação alemã de ciências sociais aberta à colaboração de escritores próximos ao socialismo, influenciados por ele ou inclinados a dar-lhe apoio” [54 Mota de Rodapé].

O fato de que a maior intensidade e amplitude das relações com o trabalho e as qualificações intelectuais por parte da socialdemocracia austríaca em comparação com a alemã não pudesse deixar, a longo prazo, de incidir também sobre aspectos não secundários das respectivas visões teórico-políticas, esse fato revelou-se claramente desde o debate sobre a revisão do Programa de Hainfeld, iniciado como preparação para o Congresso de Viena de 1901. Foi precisamente Victor Adler, na abertura do debate, quem tomou a iniciativa de distanciar-se da teoria catastrofista da pauperização crescente (Verelendugstheorie), polemizando com todos os que a concebiam como “lei de ferro” e não como “tendência”. E, diante da tendência, Adler dizia ser necessário levar em conta a contratendência constituída pelo movimento operário organizado, que se opõe com sua vontade ativa à objetividade da “lei de movimento”: a tendência à pauperização, desse modo, encontra seu obstáculo na subjetividade política do proletariado [55 Nota de Rodapé].

A posição de Victor Adler— que se expressa na importante modificação feita pelo congresso no Programa de Hainfeld, suprimindo a passagem sobre a “pauperização crescente” e emendando de modo substancial a relativa ao conceito de “necessidade histórica” [56 Nota de Rodapé] — colocava-se em linha de continuidade com a atitude flexível manifestada dois anos antes, quando da resenha ao Pressupostos do socialismo de Bernstein (e cujos desenvolvimentos, de resto, podem ser facilmente percorridos através da correspondência) [57 Nota de Rodapé].

Uma flexibilidade análoga, não isenta de elementos diplomáticos, caracteriza a atitude de Bauer na delicada fase de fundação


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e consolidação de Der Kampf, uma revista que se colocava — apesar de todas as garantias de ser apenas algo complementar no quadro de uma comum pesquisa, garantias expressas nas cartas a Kautsky escritas nessa época [58 Nota de Rodapé] - em concorrência direta com a Neue Zeit. Todavia, apesar do “espírito unitário” que Bauer partilhava com a tradição do Partido austríaco, ele não pôde deixar de colocar publicamente na mesa os termos de uma discordância substancial quando Kautsky, em 1909, expôs em termos acabados sua própria visão da fase e da estratégia.

Na resenha a O caminho para o poder publicada na revista [59 Nota de Rodapé], Bauer — mesmo acolhendo as conclusões “gradualistas” da análise kautskiana — rechaçava com decisão seu pressuposto teórico, que pretendia fundar a política do movimento operário na inevitabilidade da radicalização dos interesses econômicos imediatos das classes antagônicas:


“Precisamente porque consideramos justo o resultado a que chega a investigação kautskiana sobre ‘o caminho para o poder’, parece-nos perigoso apoiar sua demonstração em pressupostos errados ou bastante precários. Não cremos que o proletariado se torne maduro para travar a luta decisiva pelo poder somente quando não mais puder conquistar nenhum sucesso sob o domínio burguês. Ao contrário!” [60 Nota de Rodapé].
Bauer iria se expressar em termos quase idênticos, logo após, numa carta a Kautsky de 26 de abril de 1909:
“Partilho em geral o seu ponto de vista sobre o caráter da época histórica em cujos umbrais nos encontramos (três pontos). Mas considero que uma parte da argumentação do senhor é contestável, ou, mais precisamente, perigosa. Os pragmáticos de nosso movimento político e sindical têm necessidade da possibilidade, ou, pelo menos, da ilusão da possibilidade, de um sucesso imediato (três pontos). O proletariado, para iniciar (tão logo lhe seja dada a possibilidade) a luta por objetivos gerais, não precisa necessariamente se encontrar numa situação que não lhe permita mais nenhum ulterior sucesso parcial” [61 Nota de Rodapé].

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Com base nessas afirmações, torna-se verdadeiramente difícil imaginar por qual caminho alguns estudiosos (embora muito bem informados) do austromarxismo chegaram a ver na reflexão de Bauer nesse período “a acentuação da brusca transformação do capitalismo no socialismo e a expectativa de um colapso do capitalismo” [62 Nota de Rodapé]. Toda a polêmica de Bauer em face da visão kautskiana do “caminho para o poder” baseia-se numa argumentação exatamente inversa, dirigida no sentido de sublinhar que os processos de concentração capitalista não correspondem a mecanismos cegos que simplificam a dinâmica estrutural e a estratificação social do capitalismo. Esses processos de transformação, ao contrário, são o índice de uma novidade qualitativa, de novos elementos de consciência (de intencionalidade política), de conhecimento (de “saber”, de ciência) e de organização (de técnicas), que penetram no mecanismo do desenvolvimento industrial, induzindo no mesmo complicações e dissimetrias substanciais, que quebram a linearidade do velho automatismo concorrencial. Enquanto na anterior fase do “capitalismo industrial” as “leis da concorrência” operavam como “potências naturais que escapavam ao controle não somente do indivíduo ou de uma organização, mas do próprio Estado”, agora elas devem passar “pela cabeça dos homens”: todo evento histórico-social (incluídos os acontecimentos econômicos) torna-se assim “um ato consciente das organizações” [63 Nota de Rodapé], “O liberalismo de Manchester morreu”, exclama Bauer como conclusão de seu raciocínio: “Todas as organizações econômicas tentam colocar o Estado a seu serviço: não pedem mais que esse se limite a proteger a propriedade, mas querem que ele intervenha diretamente na vida econômica”; portanto, também o Estado está agora se transformando “numa organização desse tipo [intervencionista]” [64 Nota de Rodapé].

Ainda que colocasse o acento quase exclusivamente nas novas funções econômicas da intervenção estatal, o artigo de Bauer antecipava alguns dos temas centrais da discussão sobre o “capitalismo organizado”, que envolveria a social-democracia alemã e austríaca em meados dos anos 20. A acentuação do papel dos Wirtschaftsführer e da nova relação entre as grandes organizações industriais

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e financeiras e o Estado é sintomática de uma pesquisa destinada a proceder em rota de colisão com alguns postulados de fundo do marxismo predominante na Segunda Internacional, e, em particular, com a idéia do desenvolvimento capitalista como efeito de um mecanismo “anárquico” [65 Nota de Rodapé].

Importante, contudo, é sublinhar o resultado político da polêmica de Bauer com Kautsky, que põe diretamente em causa um outro tema central do austromarxismo do pré-guerra: o da relação entre intelectuais e socialismo. O sentido da crítica de Bauer só pode ser captado no contexto da proposição geral daquele tema, que vinha sendo realizada precisamente naquela fase pelos austromarxistas e, em primeiro lugar, por Max Adler. Com efeito, é do ano seguinte o opúsculo de Max Adler sobre Der Sozialismus und die Intellektuellen [66 Nota de Rodapé], no qual numa completa inversão do economicismo kautskiano, que reduzia a questão da intelligentsia científica a uma análise da proletarização da camada intelectual e, portanto, a uma sociologia da expansão quantitativa de organização — o acento fundamental incidia na especificidade do papel político do intelectual enquanto “portador de ciência”. A polêmica de Bauer contra a hipóstase propagandística do “objetivo final” (Endziel) em Kautsky move-se na mesma direção. Diante da complexidade da nova configuração organizada pela economia capitalista, a política do movimento operário não podia mais se limitar à mera agitação e difusão do Endziel socialista (já que não mais existia — como continuava a afirmar Kautsky — uma indistinta massa proletarizada e pauperizada pronta a se agrupar em torno desse movimento), mas devia antes responder ao salto de qualidade realizado pelo poder capitalista com um salto de qualidade na própria organização, com uma profunda reavaliação ”cultural” dos seus instrumentos teóricos. O próprio Endziel, portanto, devia ser desagregado, criticamente retraduzido em espectro metodológico flexível e aberto à contribuição do trabalho intelectual, configu-


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rando-se assim como função de redefinição dos papéis específicos da intelligentsia, num projeto de reunificação tendencial dos segmentos “especializados” do saber social. Disso resulta o significado eminentemente político da reproposição da relação marxismo filosofia na reflexão de Max Adler (que não exclui, mas implica o intercâmbio contínuo com os métodos e os resultados das ciências sociais), bem como da acentuação baueriana (perceptível também nos anos do pós-guerra) do momento da revolutionãre Kleinarbeit, do caráter revolucionário do trabalho cotidiano pequeno e miúdo:
“Não foi a grande catástrofe geológica que mudou o aspecto da Terra; são as pequenas revoluções no interior dos átomos, imperceptíveis e invisíveis mesmo ao microscópio, que transformam o mundo e criam a energia que termina depois por se desencadear, dando lugar a uma catástrofe geológica. O pequeno, o imperceptível, o que nós definimos como trabalho miúdo: esse é o autêntico trabalho revolucionário” [67 Nota de Rodapé].
Nessa afirmação da importância do “pequeno”, dos microdeslocamentos, das transformações “imperceptíveis”, não cabe tanto destacar o eventual ou suposto limite contido no paralelo estabelecido com a física — extraindo dele, inclusive, a convicção de uma continuidade sem soluções de continuidade decisivas com a tradição engelsiano-leniniana [68 Nota de Rodapé]. O que parece importante, ao contrário, é a sintonia de uma face aparentemente negligenciada da reflexão de Bauer com a atmosfera cultural da “grande Viena”: uma sintonia que perdurará também através das bruscas reviravoltas da guerra, da revolução e da crise. Decerto, não lhe é estranha tampouco aquela noção de transição, confiada à difusão molecular de “elementos” da nova sociedade, da qual Bauer fala em 1918, introduzindo o volume de Gustav Eckstein sobre Der Marxismus in der Praxis [69 Nota de Rodapé]. Enxergar o processo de transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista não mais como algo disposto segundo os tempos de um mecanismo lógico-histórico unitário e homogêneo, mas como resultante de uma multiplicação e proliferação dos fatores endógenos de modificação das relações de produção e de poder,

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tal fato implica, por um lado, no plano teórico, um grande esforço de desagregação empírico-analítica da previsão morfológica de Marx e, no plano político, uma superação da mistificadora alternativa entre “reformas” e ”revolução”; mas, por outro lado, não implica uma opção de tipo evolucionista, quase como se o socialismo fosse realizável “em doses homeopáticas” [70 Nota de Rodapé]

Mas é precisamente em torno dessa passagem nevrálgica das premissas metodológicas e epistemológicas para as conseqüências prático-políticas que se produz a fratura no interior da Geistesgemeinschaft austromarxista. E, também nesse caso, a data que serve para a periodização — o divisor de águas que impele os diversos expoentes do grupo para escolhas radicais e para tomadas de posição clarificadoras — é representada pela guerra.



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