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2. BREVE APRESENTAÇÃO DE AL BERTO

Al Berto pertence inegavelmente ao grupo dos escritores que na segunda metade do Século XX marcaram e influíram significativamente a literatura e cultura portuguesa. Não consideramos necessário dedicar-se detalhadamente à vida do autor, mas vamos mencionar alguns factos que, a nosso ver, são importantes para perceber melhor a sua obra literária: a infância, a adolescência, a preocupação pela pintura, a actividade editorial, a promoção de uma política que defende a homossexualidade, a práctica da escrita, a doença e a morte. Também pretendemos com este pequeno resumo panorâmico acercar a personalidade do poeta.

Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra em 1948. Passou parte da infância e adolescência junto com os seus irmãos mais novos em Sines, na quinta de Santa Catarina. O genius loci da quinta posteriormente notar-se-á na obra dele, mesmo no poema chamado “Quinta de Santa Catarina“:
a casa foi abandonada, permanece vazia. duma janela avista-se outra janela. o interior é húmido e escuro. onde uma porta enquadra outra porta não se prestem mais sinais de vida. apenas flutuam aromas, presenças ténues de corpos. o olhar demora-se sobre as geometrias musgosas dos tectos. uma sombra desliza junto ao piano, o estuque esfarela-se, cai. ouve-se um rumor misterioso de poços, de insectos por dentro das paredes.6
Desde a adolescência o futuro escritor destacava-se pela originalidade do seu traje e dos seus atitudes, o que provocava escândalos, sendo filho da família da alta burguesia inglesa duma estirpe nobre. Especialmente os avós Pidwell Tavares eram extremamente conservadores (“Lembro-me da primeira vez que me chamaram maricas – foi a minha avó“ disse Al Berto ao jornal Independente7). Quando morreu o seu filho, pai do jovem Alberto, tentavam apoderar-se da educação de Alberto e dos seus irmãos.

Já deste infância mostrava o extraordinário dom natural para pintura e por isso em 1965 foi estudar para Escola António Arroio em Lisboa. Naquela altura frequentava também o Curso de Formação Artística do SNBA (Sociedade Nacional de Belas Artes). Em 1967, dez anos antes da publicação da sua primeira colectânea escrita em português, abandonou Portugal e exilou-se en Bruxelas. Escolheu Bruxelas por causa de ter existido lá a sede da ONU – era mais fácil obter o estatuto de refugiado político e entrar na universidade. Entrou para a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels na época influída pelo Maio de 68, época da enorme agitação social, cultural e política, época da permanente vertigem. Fundou com alguns amigos, principalmente artistas plásticos, fotógrafos e escritores, a associação Monfaucon Research Center e publicou um livro de desenhos Projects 69. Viajava muito por Italia e Espanha a assim pouco a pouco começou a escrever, estreando com os diários de viagens. Assim o comentou em 1994 para Radio Cultura:


(…) havia um diário de viagens imenso. Não era só escrito era desenhado e era onde eu arrecadava practicamente tudo o que eu encontrava pelo caminho: desde fotografias e postais, a nomes de pensões, de ruas, mapas de cidades etc. E comecei a me aperceber que nesse imenso diário, digamos assim, havia material que tinha uma qualidade e que não era propriamente um registro imediato, mas sim, apontava-me para outras preocupações.8
Essas preocupações levaram-lhe em 1971 até o abandono definitivo do curso da pintura. As causas daquela decisão explicou em 1993 para revista Litoral Alentejano:
(…) Vivia-se na altura em permanente vertigem. Por qualquer razão que não era muito consciente, senti que deveria registrar num diario tudo que estava acontecendo na altura. Como a pintura é miuto mais demorada de executar, requer outros meios, mais caros, à escrita basta o papel e caneta, começou assim a minha mudança para a Literatura.9
Apesar disso, continuava a levar uma vida muito ligada às artes plásticas, à pintura e à fotografia, o que se manifestará mais tarde na colectânea A Secreta Vida das Imagens. Por isso é preciso levar em consideração a imagem no contexto da obra al bertiana, tal como a iconografia presente nas capas das colectâneas poéticas.

Até então escrevia em francês. Em 1974, ainda em Bruxelas, expressou-se pela primeira vez em português escrevendo Epopeia antes da Queda que logo destrui. E também pela primeira vez apareceu o seu pseudónimo, Al Berto. A criação do pseudónimo estava intimamente ligada à transição do pintor para o poeta, com a Morte e o Nascimento. Assim o explicou para Diário Popular:


(…) Senti necessidade de abrir a brecha com uma coisa que era muito minha e abri o nome ao meio, uma cisão num determinado percurso. Foi a maneira de não esquecer esse abismo. Depois, Al Berto, dito à francesa, Al Bertô, é mesmo árabe e é anónimo. E há qualquer coisa no anonimato que me seduz. E o nome funciona bem em termos de se reter.10
Podemos falar até sobre a multiplicidade de vozes existentes nele, sobre um corpo que se manifesta múltiplo11.

Em Portugal, entretanto, ocorreu a Revolução e a caída da dictadura. Al Berto regressou definitivamente à Pátria em Novembro de 1974 e começou a sua actividade editorial, sob o slogan SEJA BREVE STOP LEIA-NOS STOP. A editora Editorial Pidwell Tavares produziu entre anos 1977 e 1980 vários livros, mas economicamente se tratou de uma desgraça. Em Sines abriu a livraria Tanto Mar. Como editor tinha coragem de publicar textos que destruíam alguns tabus sociais, que falavam abertamente sobre a homossexualidade masculina. Editava os livros próprios e os dos seus amigos, completamente fora das grandes casas editoriais e do mainstream. O trabalho editorial e poético de Al Berto inaugurou em Portugal um certo debate no ambiente intelectual sobre questões ligadas à homossexualidade, defendendo o direito da liberdade sexual, e o tratamento literário do tema contribuiu para o fim da segregação: a primeira vez que a comunidade homossexual portuguesa se reuniu publicamente era no dia 1 de Junho de 1995, no Dia do Orgulho Gay, que significa a commemoração mundial dos motins de Stonewall. Al Berto era presente, lendo os seus poemas no Jardim Constantino em Lisboa.

Da actividade editorial já são poucos passos à produção literária. Como temos dito, no projecto Editorial Pidwell Tavares editou as suas primeiras colectâneas, À Procura do Vento num Jardim d’Agosto, em 1977, e Meu Fruto de Morder, Todas as Horas em 198012. Saíram as primeiras críticas, Al Berto-poeta já se instalou, vivia escrevendo. O tema da escrita tornou-se muito importante, nos seus poemas contemplou a escrita, o processo de criação, o ofício do escritor. Nos anos 80 publicou grande parte da sua obra poética. Em 1987 foi reunida n´O Medo – Trabalho Poético 1974-1986. Com este livro ganhou o ano seguinte o PEN-CLUB de Poesia 1987.

Como temos mencionado, Al Berto já se instalou como escritor, fazendo parte importante da vida intelectual em Portugal. Em 1989 a RTP 2 passou o programa Lusitânia Expresso, quarto trabalhos em vídeo experimentais. Um deles, realizado por Paulo Miguel Forte, chamou-se Os Dias sem Ninguém e baseou-se na poesia de Al Berto.

Na primeira metade dos anos 90 assistia à muitos acontecimentos literários públicos, apareceu por exemplo num recital em homenagem aos poetas que tinham passado pelo Bairo Alto, junto com Mário Cesariny; no bienal da cultura portuguesa em Bordéus junto com Sophia de Mello Breyner Andresen e Nuno Júdice; esteve inserido no programa Lisboa|94, um Encontro Europeu de Poesia, que decorreu em Lisboa na Casa Pessoa; no II Encontro Internacional de Poetas , em Coimbra, junto com Alberto Pimenta, Egito Gonçalves, Fernando Assis Pacheco, Ana Haterly, Antonio Ramos Rosa entre outros.

Em 1996 escreveu Horto de Incêndio, último livro publicado na sua vida que é profundamente influído pela noção e presença da morte próxima. A colectânea contém o poema “morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa, a 20 de novembro de 1996“13, influído precisamente da doença. Na altura de publicação do livro já era muito doente e vivia num constante medo da morte. Disse numa das últimas entrevista da sua vida:


(…) Quando li o poema, no Coliseu, em Novembro de 1996, estive a anunciar a minha morte sem que as pessoas o soubessem. Talvez seja um privilégio um poeta anunciar a sua morte. Durante 15 dias vivi nessa expectativa do fim. Todos os dias morremos muitas vezes: as perdas, os erros, aquilo que arrumamos dentro de nós… Seria ideal atingir o momento da morte com uma grande serenidade. Yourcenar disse que queria morrer de olhos abertos e atenta. O mesmo digo eu.14
O poeta foi internado no Hospital de Santo António dos Capuchos em Lisboa em Abril de 1997 para uma intervenção cirúrgica. Falece dia 13 de Junho de 1997. 15


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