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3. OS MODELOS E PILARES DA POESIA DE AL BERTO

A obra de Al Berto tem como característica comum o facto que nos seus poemas podemos observar a existência óbvia dos modelos literários e culturais em geral (quer dizer, de outros domínios artísticos como é a música, as artes plásticas e a fotografia). Esta tendência de nomear e aludir aos seus inspiradores pode-se relacionar também com a preocupação metalingüística pela literatura e pela própria escrita como a condição da existência. Neste capítulo vamos dedicar-nos primeiro aos modelos literários e culturais que nós parecem relevantes para a leitura intertextual da obra de Al Berto; segundo, à função de escrita na obra al bertiana, já que essa está ligada ao tema do nosso trabalho: “(…) escrevo para não me deixar invadir pelo medo.“16



3.1. Os modelos literários e culturais

A problemática da influência literaria tem provocado muitas polémicas e actualmente faz parte da teoria literária moderna. Harold Bloom17 no seu livro The Anxiety of Influence: A Theory of Poetry elaborou uma teoria dedicada ao estudo das relações intertextuais e da influência entre poetas de diferentes épocas históricas. Afirma que tal processo é parte da formação de poeta como artista que reconhece na sua obra inspiração, quer estética, quer estilística, de outro poeta. Inacio Emerson da Cruz, na sua tese de pós-graduação18, afirma que esta inspiração/influência marcada por Bloom não diminui a originalidade de Al Berto, pelo contrário, fortalece o carácter específico da poesia do “poeta forte“.

Al Berto é transparente nas alusões, gosta de nomear explicitamente os seus inspiradores e modelos literários, ou, pelo menos, a presença deles pode-se sentir nos seus poemas:
(…) Willy B. mostra o sexo distendido e mole. (…) continuamente perdida pelas noites da cidade paira a sombra imensa de Willy B. (…) 19
(…) já não consigo compreender as tolices do papagaio da Ilha do Tesouro. nem o surdo ruminar da boca mascando coca. onde estão as cartas da Colômbia? e Macondo? onde estão os selos com panteras brancas da Amazónia? e a cegueira labiríntica de Jorge L.B. (…)?20
(…) escuta

a partir de hoje abandono-te para sempre

ao silêncio de quem escreve versos

em Portugal

tens trinta e sete anos como Rimbaud

talvez seja tempo de começares a morrer21
bateram à porta – não abriste

estavas a convocar nesse instante a brancura

dos dados por lançar e o corvo do sr. poe mais

o maléfio negrume dos mares de melville e

os passos em redor do andarilho etíope e

as mulheres da patagónia que estão sentadas

ao fim da tarde

à beira de insondáveis glariares(…) 22
De acordo com Manuel de Freitas23 podemos afirmar que a obra de Al Berto é marcada por alusões claras à poesia dos poetas da Geração Beat norte-americana, de Charles Baudelaire, Jean Genet, Malcolm Lowry e Arthur Rimbaud. No contexto da literatura portuguesa podemos encontrar certas alusões a Luís de Camões, Cesário Vedre e Álvaro de Campos. Alguns dos autores mencionados aparecem como personagens dos poemas de Al Berto, por exemplo William S. Burroughs. Todos os autores mencionados (com a exepção de Camões que, sendo “pai da poesia portuguesa“, influiu em algum aspecto grande parte dos poetas da língua portuguesa) revelam na sua obra características comuns, principalmente a marginalidade, a rebeldia e a oposicão à cultura oficial. Falando dos aspectos concretos em que os escritores acima citados influíram a obra al bertiana, trata-se das drogas e das sustâncias alteradoras da consciência em William Burroughs; do tempo em Charles Baudelaire; dos travestis e sexo homossexual em Jean Genet; do álcool em Malcolm Lowry e do silêncio em Arthur Rimbaud.

Quanto à música, Manuel de Freitas menciona dois importantes grupos musicais que tinham impacto na poética al bertiana: o lirismo de Velvet Underground e o niilismo de Joy Division. Finalmente, a influência das artes plásticas é notável na colectânea A Secreta Vida das Imagens, onde o poema é unido (tal no nível de conteúdo como no nível gráfico) com o quadro24.

Embora a nossa atenção se concentre preferencialmente às colectâneas reunidas n’O Medo, queremos neste lugar relembar também outra produção do autor, O Anjo Mudo. Trata-se duma reunião dos textos do autor publicados em revistas e catálogos de exposições de pintura e fotografia. A quarta parte d’O Anjo Mudo é formada apenas pelas homenagens litererárias a Arthur Rimbaud, Bruce Chatwin, Fernando Pessoa, Malcolm Lowry, William S. Burroughs e Jean Genet, entre outros. Al Berto assim cria uma mitologia privada25, com escritores acima citados no papel de personagem ou de destinário.

A análise detalhada das influências poéticas de todos os autores acima citados na obra al bertiana decerto ocuparia grande parte deste trabalho, por isso somos obrigados a fazer uma selecção. Neste lugar, vamos tratar só dos autores da língua portuguesa acima mencionados e vamos aludir às sua principais características e influências na poética al bertiana.



3.1.1. Camões


As influências camonianas poderíamos, indiscutivelmnete, encontrar na obra da grande parte dos poetas da língua portuguesa, e assim acontece também no caso de Al Berto. Camões, o Príncipe da cultura e literatura portuguesa, sente nos seus versos forte desconcerto de estar no mundo, a própria existência parece vão. Resulta uma visão imensamente pessimista da vida:
(…)Porque aqueles que estão na noite escura,


nunca sentirão tanto o triste abiso,


se ignorarem o bem do Paraíso.


Canção, nô mais, que já não sei que digo;


mas porque a dor me seja menos forte,


diga o pregão a causa desta morte.26
O sujeito lírico de Camões sofre muita adversidade, é inquieto, sente dor de existir vinculada também à condição amorosa (dirige-se muitas vezes a sua Senhora), sente-se no mundo como se fosse extrangeiro, querendo compreender as coisas do mundo. A dialéctica camoniana baseia-se nos contrastes (mundo terrestre e mundo ideal; o bem e o mal etc.).

Al Berto, o poeta nómada inquieto, dialoga com a poesia camoniana. O conceito de mar é muito presente na poesia portuguesa e Al Berto não faz exepção. Camões, nos Lusíadas, construiu o mito nacional. Al Berto, n’O Mito da Sereia em Plástico Português, responde a Camões com a imagem do mar cheio de lixo, preservativos, garrafas e embalagens de tal maneira que o mito camoniano parece destruído.

Tal como Camões, Al Berto usa muito as antíteses na sua poesia. Um dos pares antitéticos que aparecem com frequência é constituído pelo sono e pela insónia (a última prevalece, talvez porque a escrita presuma em estado de vigília). Outra relação antitética se estabelece entre memória e esquecimento. O sujeito poético expressa muitas vezes o desejo de perder a memória (e fá-lo pelos remédios diversos: quer fuga, quer drogas, quer álcool). Isso pode ser entendido, no contexto da relação Camões - Al Berto como a ansiedade pelo mundo ideal e eterno: “(…) tento perder a memória / única tarrefa que tem a ver com a eternidade.“27

Também podemos indicar a proximidade entre os dois poetas no que diz respeito à presença de um interlocutor – seja a Senhora no caso de Camões, seja a relação Eu-Tu no caso de Al Berto:


Se tanta pena tenho merecida

em pago de sofrer tantas durezas,

provai, Senhora, em mim vossas cruezas,

em aqui tendes na alma oferecida.(…)28
(…) tentei ser teu e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo

enfeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…

cantar-te os gestos com ternura29

3.1.2. Cesário Verde


Achamos importante nomear a influêncaia de Cesário Verde na poética al bertiana. Cesário Vedre, poeta oitocentista, no Sentimento dum Ocidental critica a Civilização, é o poeta da permanente vertigem e do tédio. É o poeta da cidade, cidade cheia dos tísicos e engomadeiras; podemos concebir a sua poesia, em oposição a Camões, como o anúncio poético do fim do domínio marítimo e da história monumental, com os seus poemas fecha uma época e abre a porta da época da sociedade industrial urbana. As contrariedades que ele observa são precisamente a podridão da Civilização industrial de aquel então no contraste com a passada euforia expansionista.

Al Berto dialoga com a poesia de Cesário Verde na poética de Lisboa. Os dois poetas escrevem sobre os problemas da cidade, sobre Tejo sujo e infeccioso. Pode-se tratar duma metáfora clara da condição humana, marcada pela doença, quer de tuberculose, quer da Sida. Os dois poetas são obsessionados por Lisboa, mas têm uma visão bastante decadente da cidade:


Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,

O gás extravasado enjoa-nos, perturba;

E os edifícios, com as chaminés, e a turba,

Toldam-se duma cor monótona e londrina.(…)30
da escrita dos inumeráveis povos quase

nada resta – deitas-te exausto na lâmina da lua

sem saberes que o tejo te corrói e te suprime

de todas as idades da europa
mais além – para od lados do corpo – permanece

a tosse dos cacilheiros os olhos revirados

dos mendigos - o tecto onde um navio

nos separa de um vácuo alimentado a soro(…)31

3.1.3. Pessoa/ Álvaro de Campos


Podemos encontrar uma relação intertextual entre Al Berto e heterónimo pessoano: Álvaro de Campos. N´O Opiário, o sujeito poético está deprimido, cansado, tedioso, em febre. Usa drogas como a fuga da sua depressão. Passa horas escrevendo no bordo:
(…)Esta vida de bordo há-de matar-me.  
     

São dias só de febre na cabeça  
     

E, por mais que procure até que adoeça,  
     

já não encontro a mola pra adaptar-me. 

(…)

Por isso eu tomo ópio. É um remédio  
     

Sou um convalescente do Momento.  
     

Moro no rés-do-chão do pensamento  
     

E ver passar a Vida faz-me tédio.(…)32
Vemos clara relação entre Álvaro de Campos e Al Berto, principalmente no que diz respeito ao sujeito poético. O carécter nómada da voz poética al bertiana, junto com a sua obsessão da escrita e com o consumo das substâncias que alteram a consciência, faz lembrar precisamente o heterónimo pessoano.

Outra relação óbvia se estabelece ao considerar a problemática da multiplicidade e das máscaras, falando neste caso já sobre poética pessoana em geral. Tal como Fernando Pessoa cria os seus heterónimos, Al Berto também se manifesta múltiplo e as vozes existentes nele são vários. Divide o seu próprio nome, como se demostra na poema que inaugura O Medo:


(…)eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite. os corpos de Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades(…)33



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