Masarykova univerzita V brně



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3.2. A função de escrita na obra al bertiana



esqueço-me de tudo, por isso escrevo. longe do terror ao sismo inesperado das estelas, escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da minha morte.(…)34
(…) definha-se texto a texto, e nunca se consegue escrever o livro desejado. morre-se com uma overdose de palavras, e nunca se escreve a não ser que se esteja viciado. morre-se, quando já não é necessário escrever seja o que for, mas o vício de escrever é ainda tão forte que o facto de já não escrever nos mantém vivos.(…)35
O processo de escrever e as reflexões sobre a escrita relevam-se como um dos temas centrais da poesia de Al Berto. Pensamos que no seu caso podemos falar sobre a tendência autobiográfica na escrita, o que comprovam as palavras de Fernando Pinto do Amaral, quem designa a poética al bertiana como um dos mais assumidos confessionalismos da lírica portuguesa no qual o leitor fica confrontado com a exibição ostensiva da personalidade do poeta36. Esta inclinação ao narcisismo e à escrita diarística é evidente já nos títulos de alguns poemas: “nota autobiográfica & stop“, “auto-retrato com revólover“ ou “notas para o diário“. Porém, os textos que obedecem às regras do género da escrita autobiográfica e ao mesmo tempo contemplam a escrita são as três sequências designadas em comum O Medo - O Medo(1), O Medo(2), O Medo(3)37. Aparece a datação, a fragmentação em dias cronologicamente classificados e o carácter circunstancial, que faz lembrar certos apontamentos diários:
22 de janeiro

dormi bem. de quando em quando consigo dormir bem. há um mês que deixei os soníferos.

quase não leio, deixei de ir ao cinema, não saio de casa. apesar de tudo não me sinto desesperado. mantenho-me neste estado vegetativo.(…)38
Como já temos mencionado, O Medo até parecerá um diário propriamente dito, mas não é assim. Nos textos abundam pasagens puramente líricas e, o que é mais importante, o própio narrador d´O Medo afirma que não estamos – ainda – presentes de um diário:
(…) … um dia começarei a redigir um diário, mas ainda é cedo, um diário requer uma entrega total, um vigor, uma disciplina, de que não sou capaz. tenho medo, medo de voltar a escrever incessantemente e rasgar tudo o que escrevo. medo, medo de ouvir aquilo que não se ouve a não ser quando escrevo, como se o corpo todo estremecesse pela última vez.39

Já neste fragmento aparece a reflexão de escrita. O narrador oscila entre dois pólos:



(…)ali estava, enfim, a morte de inocência, e a revelação do destino que me propunha cumprir: escrever, escrever sempre40;
e

(…)abandonei do mundo que está para lá do portão. abandonei a estrada, essa ideia de fuga. abandonei o corpo segregado pelas palavras. vivo ao ritmo da terra, deixei de escrever.41

Não encontra solução daquela obsessão pela escrita:


(…)se escrevo, acode-me quase sempre o desejo de parar de escrever. se não escrevo, assalta-me o violento desejo de o fazer.42
Achamos interessantes, quanto à representação da escrita, os finais de cada uma das partes d’O Medo. No final d´O Medo(1) há uma certa sugestão do silêncio previsto:
(…)a espera, a espera de mim mesmo acabara. estou agora vivo na escrita que me define, me evoca e me esquece. mas soaria a falso o que tenho a dizer sobre a morte, calo-me…43
A conclusão d´O Medo(2) é muito mais agressiva, até faz lembrar uma dependência física nas palavras (“(…) morre-se com uma overdose de palavras“44):
(…)às vezes, o dia inteiro resume-se a uma palavra; mas hoje, se não conseguir escrever, saio para a rua e mato alguém.45

Por último, O Medo(3) termina com um notável alívio, mas obviamente não definitivo:


(…)a noite vem fria e ligeira como um insecto. pouso a cabeça em tua voz. cubro o rosto com as asas duma íbis. apenas o tiquetaque do despertador me avisa de que continuo vivo. são horas de me erguer e caminhar fora do túmulo das palavras.46

Neste contexto inevitavelmente surge pergunta, posta pelo próprio narrador: “(…)escrever, passar a vida a escrever, para quê?“47 Já sabemos que o processo criativo representa uma obsessão permanente, uma dependência forte. Por outro lado, também é possível escrever contra alguma coisa: “(…)escrevo, luto contra a insónia“48. Más não é só insónia contra que a escrita serve:


(…)escrevo para não me deixar invadir pelo medo“49

(..)a partir deste momento acumulei infindáveis cadernos escritos; era esta a única maneira de remediar o medo e de não possuir nada, e de ter possuído tudo.50
Como tentámos mostrar até este momento, a escrita contra o medo é um dos temas centrais da poesia de Al Berto, o medo é omnipresente e omnipotente e o sujeito poético parece não ter otro remédio senão escrever. Perante esta “poética do medo“51 queremos recordar uma das epígrafes à primera edição d´O Medo do ano 1987: “(…) Fiz alguma coisa contra o medo. Fiquei toda a noite sentado a escrever.(…)“52


4. O MEDO – TRABALHO POÉTICO 1974-1997


Este capítulo tem como objectivo apresentar a reunião da poesia publicada de Al Berto, intitulada O Medo, no que diz respeito à estrutura da obra tal como aos principais aspectos temáticos. A obra completa de Al Berto circula em cinco edições. O livro foi publicado pela primeira vez em 1987 e pela segunda vez em 1991, ambos pela Contexto, ambos traziam foto que representara o autor na capa. Em 1997 se publicou postumamente terceira edição, já pela Assírio & Alvim, que continha novas coletâneas Luminoso Afogado e Horto de Incêndio. Da capa preta, lombada das folhas em roxo, sem a foto do poeta, fato que se repete na quarta edição de 2000. As cores usadas dessas duas publicacões, relacionadas ao luto, e a manifestação da ausência do poeta aludem à sua morte. Recentemente, em 2005, Assírio & Alvim publica até agora a última edição d´O Medo, encapada com a fotografia feita por Paulo Nozolino, usada já nos primeiro livros da Contexto, que representa o poeta em homenagem ao pintor Caravaggio. Essa última edição traz algumas modificacões. Achamos importante mencionar que a organização dos textos deve-se a Munuel de Freitas, experto da poesia de Al Berto.

A última edição de 2005 compõe-se de quinze livros organizados cronologicamente que na maioria dos casos correspondem com os títulos de colectâneas. O primeiro livro data-se do ano 1974, o último (que contém a única colectânea publicada postumamente, Poeira de Lume) do ano 1997. Consideramos interessante recordar que no segundo livro d´O Medo aparecem também colectâneas escritas em francês53.

Também neste lugar somos obrigados a fazer certa selecção. Não vamos tratar de todas as colectâneas d´O Medo por um motivo simples: no nosso trabalho não há espaço suficiente para fazer tal coisa. Vamos deixar de lado os textos intitulados O Medo (1,2,3), uma vez que deles tratámos no capítulo anterior. A nossa selecção dever-nos-ia servir para sermos capazes de indicar a evolução na poesia de Al Berto, já que escrevia e publicava a sua obra em três décadas, entre 1974 até 1997. Escolhemos três livros d´O Medo, primeiro, quarto e décimo quarto, que correspondem com as colectâneas À Procura do Vento num Jardim d´Agosto, Trabalhos de Olhar e Horto de Incêndio. O motivo desta selecção é óbvio, trata-se da primeira colectânea publicada em Portugal, da colectânea da fase madura do poeta já estabelecido no ambiente português e da última colectânea na vida do autor, levando em consideração também as nossas preferências subjectivas. Também queremos aludir ao capítulo anterior, onde temos tratado de três textos escritos nos anos 80.





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