Masarykova univerzita V brně



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4.1. À Procura do Vento num Jardim d´Agosto

A primeira colectânea d´O Medo, À Procura do Vento num Jardim d´Agosto (1974), contém sete poemas extensos, escritos em prosa poética: “atrium“54, “equinócios de tangerina“, “teus dedos de noite açucarada“, “push here com uma polariod“, “as mãos de kapa num jardim d´agosto“, “nota autobiográfica & stop“ e “o pranto das mulheres sábias“. O poema que inaugura a colectânea funciona como uma espécie de preâmbulo poético ou uma iniciação na poética do autor:


luta de sonâmbulos animais sob a chuva. insectos quentes escavam geometrias de baba pelas paredes do quarto. em agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina da noite. são os resíduos ensanguentados do ritual.

na cal viva da memória dorme o corpo. vem lamber-lhe as pálpebras um cão ferido. acorda-o para a inútil deambulação da escrita.

abandonado vou pelo caminho de sinuosas cidades. sozinho, procuro o fio de neón que me indica a saída.

eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite. os corpos de Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades.

eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia, metamorfose, água, fúria, lucidez, cinzas.(…)55
Inicia-se com uma descrição dum ritual que faz lembrar o encontro sexual, observado pelo sujeito poético que parece estar fora do se corpo. Tudo acontece num espaço urbano, muitas vezes onírico por causa de ser modificado por sustâncias químicas, como se comprovará posteriormente. No poema reflecte-se a multiplicidade de vozes existentes na expressão de Al Berto. Aparece a separação entre Alberto e Al Berto, que denota a distância já aludida do sujeito poético com a relação com si próprio - um eu poético, olhando para si mesmo, fora do seu corpo. Este jogo das alteridades está ligado ao espelho, motivo frequente da toda poesia al bertiana:
(…)passaram doze anos e esquecer-te seria esquecer-me. repara no estremecimento do sangue, a morte rendilhando peste nos ossos, os dedos paralisados, a fala, os espelhos.(…)56
Este jogo com a fragmentação do eu aparece na fase inicial da obra de Al Berto, precisamente na década dos 70. Nessas obras, frutos duma juventude rebelde, há também uma forte influência da música rock, nomeadamente dos grupos como Joy Division, The Velvet Underground57, The Doors ou cantores como Nick Cave, Bob Dylan o David Bowie. Simbolizam o mundo rápido, cheio da êxtase e permanente vertigem. O espaço dos poemas é internacinal, aparecem os lugares de exílio – Bruxelas, Paris, Barcelona, Londres; com isso está relacionado também o facto que Al Berto gosta de usar estrangeirismos ou palavras e frases de língua estrangeira, seja inglês, seja francês:
(…)invento o mundo e o meu própio inferno. reconstruo-o a minha vontade. a minha velha cabeça psicadélica pede mais sex drugs and rock and roll, volto já.(…)58
(…)o gira-discos tremia, a agulha avançava estria a estria num arranhado solo de guitarra. how many roads must a man walk down/ before you call him a man59? ele aproximava-se, as veias picadas, anca de lado ameaçava. vomitava num balde e voltava cambaleando com Acid Queen nos braços.(…)60
(…)queria somente contar-te qualquer coisa sobre este arrepio, sobre as túlipas de vidro fosco do candeeiro, ou como embarquei em Ostende e cheguei a Londres com cem francos belgas no bolso e metade de um Toblerone. queria dizer-te que me sentia frágil, que ainda me lembrava de Nému e de Albrecht. voávamos de concerto em concerto, e não havia tempo. fugitivos sempre, chegámos a Barcelona, mas não me perguntes como.(…)61
A projecção da cultura underground no Al Berto é evidente, igualmente como o gosto do ambiente urbano nocturno, isolado, melancólico e depressivo, cheio de drogas e de travestis. Os diálogos entre fotografia, pintura, música e poesia constituem um traço inportante na obra do poeta; e é exactamente esta projecção e absorção da chamada contracultura que contribui à denominação de Al Berto como o poeta marginal ou maldito.

Os poemas deste primeira colectânea também se caracterizam por terem um tom narrativo. Trata-se de longos poemas, com muitos versos sublinhados pelo autor, seja com letra itálica, seja com letra maiúscula, seja com a combinação das palavras em português, inglês e francês. Frequentemente aparece verso anafórico, no poema “equinócios de tangerina“ trata-se do verso: “um vapor lilás imenso e transparente“62, que aparece nesta forma ou, no fim do poema, na forma modificada: “um vapor lilás imenso“; “um vapor lilás“, “um vapor“; “um“63, o que pode servir para indicar uma gradação no texto e para chamar a atenção à conclusão do poema. Algumas passagens revelam a influência da Geração Beat não só no nível temático, mas também no nível formal. Os textos, com frequência, não estão divididos em estrofas, e falta a pontuação, até fazem lembrar a escrita automática usada na poesia surrealista:


(…)STOP

guitarras eléctricas um rock insupurtável uma cantata nocturna em cores nova orleans yes I shot the king por causa disso apresentamos um programa de música ininterrupta corpos nus em arabescos de mesquitas antigas pó hermafrodita gelatinoso sobremesa compacta de morangos plastificados sexos beijando-se texto sob um estado invento um sexo de fumo bato à punheta no canto prolongado dos mergulhões em cio tentando estacionar na voz superafastada black follies sem luz especial todo o ritual que não é interior não é texto sob um estado visitações cena erótica esgares de cão assustado o carro avança ele queria que engolisse o chá de ópio pesei então as palavras e os gestos mais curtos e espaçados como num tremer do corpo afastei da boca a sabedoria dos dedos e das mãos e eles não repararem em nada porque estivera sempre longe dali absent admitamos que não estou a mentir e que assim aconteceu

STOP(…)64
O crítico literário Joaquim Manuel Magalhães foi um dos primeiros a ter identificado e relacionado as influências da Geração Beat: “Poder-se-á sentir, ainda, a presença das convenções pós-surrealistas e pós-beatnick. Mas acontece que essas convenções são apenas o pano de fundo continuamente ultrapassado por uma vertigem própria e por uma marca de abismo que é, indiscutivelmente, pessoal.“65


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