Masarykova univerzita V brně



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4.2. Trabalhos do Olhar

A colectânea Trabalhos de Olhar foi publicada em 1982 e consta de sete conjuntos poéticos chamados: “mar-de-leva“, “dispersos de milfonte“, “alguns truques de ilusionismo“, “sete dos ofícios“, “tentativas para um regresso à terra“, “filmagens“ e “trabalhos de olhar“.

Achamos interessante aludir à importância do título da colectânea. No sentido geral, o nome pode enfatizar o significado do olhar no contexto artístico. Mais especificamente, o olhar é importante também na empresa erótica – nos poemas, a visualização da realidade por um olhar explicitamente homossexual pode servir para tornar visível a existência de uma subcultura homossexual em Portugal. O espaço é deslocado desde os lugares de exílio para um espaço menos específico, mas já alude à uma actualidade nacional.

No conjunto de poemas “alguns truques de ilusionismo“ podemos encontrar os pontos cardeais da subcultura homossexual e uma linguagem homoerotizada, como já mencionámos no primeiro capítulo deste trabalho. Vamos ilustrar esta afirmação no exemplo dos poemas “truque do gato“ e “truque do pêssego“66. No primeiro poema aparece o motivo de voyeurismo67. O sujeito poético observa, de janela para janela duma casa, um rapaz acariciando o gato. Está a recolher a roupa, “(…) três camisas, dois lenços de assoar, cinco ou seis lençóis(…)“, o que pode ser percebido como símbolos da masculinidade e do encontro sexual. Também a disposição das casas e janelas numa rua estreita fazem lembrar uma arquitectura tipicamente portuguesa, lisboeta. Aparece outro símbolo claro, do gato, que no contexto coloquial pode significar um ser sexualmente desejado. No fim do poema, o sujeito poético torna o seu desejo provocado na matéria dum texto literário: “(…) sorrio à minha ficcão quotidiana/ pego num lápis e começo a escrever.“

No poema “truque do pêssego“ observa-se a mesma estratégia: o símbolo de pêssego – rapariga linda – é transferido ao contexto homossexual, sendo o pêssego símbolo dum rapaz jovem que provoca a excitação do sujeito poético:
vou levantar-me e morder um pêssego

trincá-lo, para que o sumo escorra aveludado pela língua , e um travo de

natureza morta se me cristalize na garganta

terá que Rubens pintado pêssegos nus? e Hockney quartos semelhantes a piscinas vazias?(…)68
Outra vez estamos perante uma alusão explícita à pintura, neste caso aos artistas associados com a representação do corpo humano. Natureza morta evoca o símbolo da pintura clássica como imagem da beleza ou prazeres da vida, mas implícitamente alude ao outro pintor, Caravaggio: “Conhecida já a fascinação de Al Berto pela pintura de Caravaggio, é interesante considerar a reputação de Caravaggio não só como primeiro grande mestre da arte da natureza morta como também criador exemplar das imagens de presumida significância homoerótica(…)“69

Al Berto, em Trabalhos de Olhar, introduz o sujeito poético homossexual num contexto quotidiano e local e assim estabelece uma identidade de homosexual masculino presente na actualidade portuguesa.




4.3. Horto de Incêndio



Horto de Incêndio é uma colectânea composta de duas partes. A primeira parte consta de vinte e nove poemas. A segunda parte consiste nos quarto textos poéticos intitulados “morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa, a 20 de novembro de 1996“. O livro foi publicado em 1997 pela Assírio & Alvim e na capa desta edição70 figura a fotografia da parte do rosto do poeta que está escondendo o seu rosto nas mãos. O olho esquerdo fica semitapado pela mão. Considerando a importância da imagem no contexto poético de Al Berto, achamos interessante aludir à capa do livro; primeiro, porque o gesto se pode perceber como a protecção da pessoa que sente medo, segundo, porque o tema da visão e do olhar é importante e frequente na poesia de Al Berto, como mostrámos no subcapítulo anterior.

A primeira parte da colectânea inclui poemas que são em todos os casos designados muito simplesmente (“horto“, “vestígios“, “inferno“, “sida“, entre outros). Trata-se duma poesia da retórica de solidão e esgotamento, escrita pelo poeta já cansado e enfraquecido pela doença que está omnipresente nos poemas. O sujeito poético no Horto de Incêndio é nostálgico e melancólico pelo passado que contrasta com a realidade actual de “sessenta comprimidos letais ao pequeno-almoço“71. Este contraste é bem notável no poema “vestígios“:



noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas – noutros tempos

os dias corriam com água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras
hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do alcoól – pernoita-se(…)72

Como já temos afirmado, nesta colectânea, publicada meses antes do falecimento do autor, aparece uma retórica de solidão. Tal como no resto da obra de Al Berto, também aqui o interlocutor é sempre presente, um “Tu“ é sempre invitado ao colóquio, mas isso não significa nenhum obstáculo para que o sujeito poético não se sinta solitário. Al Berto estabelece nesta colectânea algo que se pode chamar uma enunciação da solidão. Os sujeitos líricos que aparecem nos poemas são profundamente marcados pelo abandono:


(…) a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste

silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.

sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.(…)73

Há, no Horto de Incêndio, uma clara alusão a Portugal. Ao contrário dos seus primeiros livros, onde prevalece a imagem da Europa como espaço acolhedor dos seus poemas, neste último livro de Al Berto o território é indiscutivelmente nacional, principalmente nos poemas Lisboa (1), Lisboa (2), Lisboa (3) e Lisboa (4). Também nos outros poemas existe uma menção ao lugar, especialmente ao mar. O sujeito lírico encontra-se muitas vezes próximo desse mar, “(…) o atlântico uivando de abandono(…)“74.

O grande tema desta colectânea final é a reflexão sobre a morte nos poemas, escritos num tom elegíaco, que contrasta com a glorificação de juventude e entretenimento dos primeiros livros do autor. No caso de Horto de Incêndio, o último sujeito lírico do poeta está definitivamente cansado, esgotado, de tal modo que podemos considerar este livro inteiro como uma metáfora clara da doença e da morte. Os poemas, neste contexto, oferecem uma visão do Homem que sabe certamente que está muito próximo da sua morte. O poema sida é cheio do luto e baseia-se na ideia de dor e da perda. O sujeito lírico é neste caso aquel que permanece, sofrendo a ausência daqueles que um dia emagrecem – partem, e que deve acostumar-se com o vazio:

(…) e mais nada se move na centrifugação

dos segundos – tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola

a ausência fulgura na aurora das manhãs

e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos

o rumor do corpo a encher-se de mágoa(…)75

Como já mencionamos, a segunda parte do Horto de Incêndio consta do poema “morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa a 20 de novembro de 1996“. Trata-se dos quatro poemas menores que encerram a obra publicada na vida do poeta Al Berto. Apresentam os principais temas já aludidos na primeira parte da colectânea e concluem a sua arte poética. Recapitulando os passos de Rimbaud que acabam na sua morte, o sujeito poético revela a fusão entre ele e Rimbaud.

Assim podemos ler o poema, tal como a colectânea inteira, como um testamento poético frente à certeza da morte próxima.



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