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5. O TEMA DO MEDO N´O MEDO

O objectivo deste capítulo é analisar o tema do medo na obra de Al Berto. A sua poesia é cheia da sensação do medo e a importância deste sentimento é sublinhada pelo próprio autor que denominou sob o título d´O Medo a reunião da sua poesia publicada. Não evitamos pôr a questão o que quer o poeta dizer com essa denominação, pelos quais motivos intitulou assim a sua obra inteira.

Segundo o Dicionário da Lingua Portuguesa76 tem a palavra medo varias significações, mas achamos relevante no contexto da poesia al bertiana a definição que caracteriza o medo como o “sentimento de inquietação que surge com a ideia de um perigo real ou aparente“77. Oferece-se outra pergunta importante: o que é este perigo ou, por outras palavras, medo de quê?

Antes de analizarmos o tema do medo concretamente, queremos neste lugar mencionar o poema que Al Berto apresentou quase obssesivamente em todas as leituras públicas ao longo da sua vida, acreditando que a sua obra se podia reduzir a este único texto78. No poema aparecem os mais importantes conjuntos temáticos ligados ao tema principal do medo e as respostas possíveis para a questão posta acima: medo de quê?


se um dia a juventude voltasse

na pele das serpentes atravessaria toda a memória

com a língua em teus cabelos dormiria no sossego

da noite transformada em pássaro de lume cortante

como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder… eu

veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza

apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras

porque só aquel que nada possui e tudo partilhou

pode devassar a noite doutros corpos inocentes

sem se ferir no esplendor breve do amor
depois… mudaria de nome de casa de cidade de rio

de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos

mas aconteça o que tem de acontecer

não estou triste não tenho projectos nem ambições

guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos

espalho a saliva das visões pela demorada noite

onde deambulava a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim

com suas raízes de escamas em forma de coração

e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido

pegaria sem hesitação no leme do frágil barco… eu

humilde e cansado piloto

que só de te sonhar me morro de aflição79
O poema dialoga em alguns aspectos com o texto chamado “Aprendiz de Viajante“, publicado no livro O Anjo Modo80, o que comprova a importância dos motivos que aparecem no poema e que podem caracterizar a obra inteira do autor:
(…) Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei-de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite… Avancei sempre, sem destino certo.

(…)

Hoje sei que o viajante ideal é aquel que, no decorrer da vida, se despojou das coisas materiais e das tarrefas quotidianas. Aprender a viver sem possuir nada, sem um modo de vida(…)81
No poema “se um dia a juventude voltasse“ aparecem os três principais receios do sujeito poético al bertiano que se notam no resto da obra do autor, os quais vamos denominar como medo do tempo (relacionado com os preocupações sobre o tempo, o “agora“, o envelhecimento ou a morte), medo da perda (relacionado com o tema de amor e com as preocupações existencias) e, finalmente, medo de permanecer (relacionado com a obssesão pelos viagens e pela vida nómada). É preciso relembrar que o sujeito poético não está passivo, não ignora o seu medo, pelo contrário, através do processo criativo luta contra o medo, não encontrando otro remédio senão escrever.

O medo na perspectiva al bertiana significa o conflito permanente no sujeito poético – o conflito entre a sua vida e o mundo que lhe toca, invade, abandona. É o impulso essencial da condição humana, antecede muitos acontecimentos na vida humana e é ligado com a própria existência. Por isso tornou-se o tema principal da poesia de Al Berto.


5.1. Medo do tempo

No capítulo número três, ao aludir aos inspiradores e modelos literários, temos mencionado a contribuição baudelaireana para a obra de Al Berto, concretamente no que diz respeito à temática do tempo. O tempo é indubitavelmente um dos topos por excelência da poesia de todas as épocas, mas foi Baudelaire quem introduziu esse topos na poesia moderna82 e influiu profundamente a poesia al bertiana. Manuel de Freitas no livro A Noite dos Espelhos (Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto) afirma que em nenhum outro livro da poesia portuguesa se pergunte tantas vezes as horas como n´O Medo. Sublinha-se a obsessão de Al Berto pela pergunta “que horas são“?:


(…) que horas serão para lá desta precária sílaba(…)83

(…) que horas serão para lá deste século(…)?84
Aparece também o motivo de incorporação do tempo que esté ligado ao motivo de intemporalidade:
(…)que horas serão dentro do meu corpo(…)85

(…) descobri o lugar onde o corpo e a mente pernoitam fora do tempo.86
(…) o tempo é coisa que não existe mais(…)87
Daí a importância do “agora“ na poesia de Al Berto, trata-se duma questão permanente – quando estamos agora? É possível saber quando estamos neste momento, neste agora? O sujeito poético formula perguntas mas as perguntas ficam sem respostas concretas. Servem como as reflexões sobre o tempo. Ss vezes aludem à corporeidad (que horas serão dentro do meu corpo?). Os acontecimentos ideais acontecem fora do tempo, diferentemente da actualidade, do triste “agora“:
(…) aceito como único corpo aquel que não cresceu dos relógios do mundo.“

Surge também a imagem do tempo devorador:


(…) o tempo foi sempre a minha ruína…(…)88

passo os dias a observar os objectos

sinto o tempo devorá-los impiedosamente(…)89
Este conceito do tempo devorador é inseparável doutro conceito ligado à problemática do tempo: trata-se do medo da velhice que é “uma das mais eficazes e melancólicas pulsões da poesia de Al Berto“90. A sua poesia é cheia das reflexões e meditações sobre a juventude já passada, sobre a velhice que inevitavelmente tem que chegar e invadir o corpo, sobre a doença, morte e, daquí, do carácter fugidio da existência humana e, finalmente, sobre os tempos passados nos quias tudo era possível comparando com o hoje, o agora.
revejo fotografias. retratos que me tiraram por volta se 1970. é espantoso como quinze anos depois, ao olhá-los, chego à conclusão de que sou a síntese viva daquilo que já não sou. fui todas aquelas máscaras, e a que trago hoje é um imenso e paciente trabalho de composição, nela estão fragmentos de todas as outras.

dificilmente me reconheço naquelas imagens. terei sido assim alguma vez? só estas fotografias mo poderiam dizer e explicar. mas, em todas elas, sem exepção, se me revelam somente pequenos detalhes de como hoje me vejo. a imagem que tenho está dispersa e morta, espalhada em pedaços, ao acaso nas fotografias de 70.(…)91
(…) vou destruir todas as imagens onde me reconheço

e passar o resto da vida assobiando ao medo.92
poro a poro as sombras erguem-se para o sol

tocam o umbral da memória onde guardei

o corpo feliz do adolescente que fui(…)93
eis-me acordado

com o pouco que me sobejou a juventude nas mãos(…)94
noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas

(…)

hoje

nenhuma palavra pode ser escrita(…)95


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