Masarykova univerzita V brně



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5.2. Medo da perda


A poesia de Al Berto nasce de um desamparo existencial e este desamparo nota-se claramente nos versos. Na obra de Al Berto deparamos, segundo António Ramos Rosa96, com uma poesia da violência do mundo e da realidade insuportável, da violenta negatividade que é uma pulsão de liberdade absoluta, procurando o sujeito poético o seu espaço vital e fugindo de todos os espaços que o sufocam. Tomar contacto com o mundo quase sempre significa uma perda irreparável e um grito de medo.

Nos versos aparece a expressão explícita do medo de perder outra pessoa, do interlocutor presente:


(…) o amor

deve ser esta persegição de sombras

esta cabeça de mármole decepada

ou este deserto

onde o receio de te perder permanece oculto

na sujidade antiga dos dias97
(…) sulcaria com as unhas o medo de te perder…(…)98
(…) o receio

de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei

e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar(…)99
Não se pode denominar a sua poesia como poesia amorosa, O Medo certamente não é o livro de amor. Embora possamos encontrar reflexões sobre amor, quase nunca se trata dum amor ideal. Al Berto poeticamente anuncia a crise na existência humana, e esta crise tem impacto também no amor, na capacidade de amar outra pessoa. Até podemos afirmar que mais do que amor Al Berto canta a sexualidade, o erotismo, apoiando-se frequentemente nas palavras como é o desejo, o corpo, o fogo, a paixão ou o sexo. As vezes parece que o sujeito poético não quer amar e que as suas relações amorosas não se baseiam no amor senão no sexo. O seu medo da possível perda impede-lhe amar o outro.

(…) tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer

contigo

efeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…

cantar-te os gestos com ternura

mas não(…)100
O tema de amor está ligado ao narcisismo ou a obsessão excessiva por si próprio. Talvez por ser a única possibilidade do amor onde o sujeito poético não se encontra no perigo da perda:
só conseguia amar-te se falasse de mim

sem cessar(…)101


5.3. Medo de permanecer

O sujeito poético al bertiano parece sentir a necessidade de fugir sempre, procurando a liberdade absoluta, e daí a importância da viagem e o carácter nômada da voz poética al bertiana. A viagem caracteriza-se sobretudo por meio da experência e representa o estilo de vida do sujeito poético. Sua experiência urbana de Bruxelas, Londres, Paris e Barcelona da década dos setenta reflecte-se no seu discurso poético:


TELEGRAMA:

para viagem directa STOP renuncio atravessar a cidade cheia de aventuras STOP102
(…)como embarquei em Ostende e cheguei a Londres com cem francos belgas no bolso e metade de um Toblerone.(…)103

A viagem talvez seja o tema básico da obra O Anjo Mudo onde esclarece-se o conceito de nomadismo al bertiano:


(…) Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida – entre o homem e a terra.

O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.

Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma – estagna o pensamento.

Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta – sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhações dele, o una de novo ao Universo.104

De acordo com António Ramos Rosa105 podemos afirmar que o sujeito poético fuge de todos es espaços que o sufocam:


(…) mais uma vez mudámos de casa, mais uma vez morremos, mais uma vez largámos um rasto de coisas vivas e mortas. desta ferida escapa-se a voz que nos persegue, o fumo azulado de muitos cigarros. vagabundeamos pelos bairros de Barcelona, habitámos os subúrbios doutras cidades sem nome. tudo o que possuímos é o que transportámos sobre o corpo, esta sopa azeda e viscosa concedida pela vida que nos resta atravessar. fugimos sempre que deparamos com um espelho.106
Daí nota-se o chamado medo de permanecer, o sujeito poético errante não pode permanecer num lugar, sempre tem que fugir e avançar, procurando o seu espaço vital, porque não quer levar a vida no fundo do abismo: “Al Berto insere-se na experiência e no destino dos grandes poetas modernos que, víctima de uma obscura maldição, como “horribles travailleurs“, procuram a sua palavra nas ruínas da linguagem e mergulham na escuridão para apreenderem a vida no seio de abismo.“107

O sujeito poético sente medo de permanecer, porque se ficasse parado e quieto, nunca seria feliz. Acredita que se permanecesse num lugar, seria devorado pelo mundo, porque para o ser humano é natural avançar sempre.



CONCLUSÃO

Um mês antes de morrer disse Al Berto ao jornal Expresso: “Todos os meus livros tiveram um carácter de urgência“108. Achamos que esta frase realmente caracterize a obra do autor que acabámos de analizar neste trabalho. A urgência, ao nosso ver, acentua a poética do escritor e impressiona o leitor imediatamente.

A criação poética de Al Berto é marcada pela fusão entre a obra de arte e vida artística; ao correr mais de vinte anos da produção poética o poeta ficcionalizou bastante a própria vida. Concretamente o que podemos encontrar nos seus poemas a é experiência íntima com o exílio, com o desejo homoerótico, com o modo de vida errante e, finalmente, com a doença e a noção da morte próxima. Esses conjuntos temáticos são, ao nosso ver, os mais importantes na poesia al bertiana.

Outros apectos importantes na obra al beriana avistamos nos enlaces intertextuais com vários escritores europeus, estadounienses e também portugueses e na reflexão metaligüistica pela própria escrita como processo que serve para lutar contra o medo.

Temos marcado a evolução na poesia al bertiana. No presente trabalho temos seleccionado três colectâneas d´O Medo os quais temos submetido à investigação detalhada. A primeira colectânea escolhida, À Procura do Vento num Jardim d´Agosto, representa a fase inicial do poeta, sendo a primeira colectânea publicada em Portugal. A segunda colectânea escolhida, Trabalhos de Olhar, percence na producção madura do poeta já estabelecido, E finalmente, a terceira colectânea escolhida e ao mesmo tempo a última publicada na vida do autor, Horto de Incêndio, representa o testamento poético ao enfrentar o poeta a morte próxima.

A fase inicial é influída pela juventude rebelde do poeta e pela cultura underground europeia. Os poemas destacam-se da narratividade e da intertextualidade, principalmente no diálogo com o mundo da música rock. Os poemas não estão divididos em estrofas e falta a pontuação, muitas vezes trata-se da prosa poética.

A fase madura, representada na nossa selecção pela colectânea Trabalhos de Olhar, caracteriza-se pelos poemas já divididos em estrofes escritos no verso livre. Temos acentuado o tema da “estética pederástica“ e temos encontrado os pontos cardeais da subcultura homossexual e uma linguagem homoerotizada. De acordo com os pesquisadores Sabine e Lugarinho vemos a contribuição da poesia al bertiana na compreensão da cultura gay lusitana e o enriquecimento da linguagem dessa subcultura.

Na fase final temos deparado com os versos cheios da sensação de solidão e esgotamento, escritos pelo poeta enfraquecido pela doença, omnipresente nos poemas. Aparecem também as reflexões sobre a morte, escritos num tom elegíaco, o que contrasta com a poética da permanente vertigem e da vida activa a rápida dos poemas da fase inicial. Igual como na fase madura, aparecem poemas escritos no verso livre, intitulados simplesmente.



O grande tema do poética al bertiana é o medo. No último capítulo do presente trabalho temos procurado mostrar as manifestações do medo nos versos concretos, dividindo a temática do medo em três grupos complexos chamados medo do tempo, medo da perda e medo de permanecer. Temos tentado revelar os motivos pelos quais o tema do medo tornou-se principal da poesia al bertiana e daí, por quê o poeta intitulou a sua colectânea com esse nome. Na nossa opinião não é preciso procurar respostas complicadas. A palavra medo aparece com frequência nos versos do poeta, ele explicitamente indica os seus receios principais e considera este sentimento como a condição fundamental da vida humana.



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