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MASARYKOVA UNIVERZITA

Filozofická fakulta
Ústav románských jazyků a literatur


JOSÉ J. VEIGA:

Relatividade Como Princípio dos Seus Mundos Ficcionais
Magisterská diplomová práce

Bc. Romana Kozderková


Vedoucí práce: Mgr. et Mgr. Vlastimil Váně

Brno 2008

Prohlašuji, že jsem diplomovou práci vypracovala samostatně a vyznačila jsem všechny prameny v seznamu použité literatury.

Ráda bych poděkovala vedoucímu své diplomové práce Mgr. et Mgr. Vlastimilu Váňovi za pečlivost, vstřícnost a ochotu vést konzultace i na značnou vzdálenost.

A realidade não existe completa, acabada. Isso é falso. As histórias reais, envolvendo pessoas que a gente conhece, dessas a gente não fica sabendo o fim. [...] A literatura não pode resolver as coisas, ou solucionar mistérios.”


Grande e estranho é mesmo este mundo, talvez mais

estranho do que grande.”
José J. Veiga

(entrevista; O relógio Belisário)


A vigília é afinal mais divertida do que o devaneio. É mais rica, palpitante e criadora. As coisas mais fantásticas vivi na realidade. Os maiores prodígios e alegrias. As paisagens mais belas e as conexões mais misteriosas.”
Karel Čapek

(Věštkyně a jasnovidec aneb Na prahu záhad)


Índice


  1. Introdução 7

    1. José J. Veiga: uma ficção inquietante de uma pessoa fina 7

    2. Objetivos do trabalho 9

  2. Aspectos da obra 10

    1. Relatividade, relativização, relativismo 10

    2. Discurso pós-moderno 12

  3. Narratologia e semântica dos mundos possíveis 15

    1. Narratologia e Lubomír Doležel 15

    2. Ficção e semântica dos mundos possíveis 16

      1. Função extensional (modalidades narrativas) e intensional 18

      2. Fantástico e híbrido 20

  4. Influências literárias 23

    1. Temas, motivos 24

    2. Estilo, linguagem 26

  5. Diálogo da relativa grandeza 27

    1. Mundo ficcional e modalidades narrativas 27

    2. Personagens infantis e personagem-mãe 28

    3. Denominação singular 31

    4. Espaço 33

    5. Tempo 34

    6. Dialoguismo e relatividade na filosofia grega 35

    7. Modo narrativo 37

    8. Função ideológica – digressões representativas 40

    9. Intertextualidade 41

    10. Verificação da existência ficcional e saturação dos mundos ficcionais 42

  6. O relógio Belisário 45

    1. Mundo híbrido e modalidades narrativas 46

    2. Personagens 48

      1. Personagens da primeira narrativa 50

        1. Belisário e Dona Maura 50

        2. Desembargador Mariano e Dona Artemisa 54

        3. Filhos Simão e Dolores 55

        4. Sr. Rufus Mirkiz 56

        5. Tipologia dos personagens e sua comparação intertextual 58

      2. Personagens da segunda narrativa 58

        1. José Carlos Rocha 58

        2. Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes e Dr. Watson 59

        3. Lima Barreto, Isaías e o homem que sabia javanês 60

        4. Outros personagens 61

    3. Espaço 61

    4. Tempo 63

    5. Denominação singular 65

    6. Modo narrativo 68

    7. Plano de ação 70

    8. Simbólica de números 74

    9. Função ideológica – digressões representativas 76

    10. Ficção, história e adaptação literária na pós-modernidade 78

    11. Verificação da existência ficcional e saturação dos mundos ficcionais 80

  7. Conclusão 83

  8. Bibliografia 88


1. Introdução
1.1. José J. Veiga: uma ficção inquietante de uma pessoa fina

Comedido e modesto, erudito e perito. Palavras que descrevem muito bem “o homem do interior de Goiás”1. Apesar da vida dele ter sido cheia de partidas, chegadas e mudanças, a sua presença, conduta e modo de agir durante as entrevistas e apresentações públicas davam sempre uma impressão de simplicidade, calma e equanimidade. Este espírito, porém, criou um universo ficcional inquietante e interrogatório.

Sem esclarecer muito os motivos dos quais partem as suas histórias e desmentindo até certo ponto todas as tentativas da sua interpretação, Veiga permaneceu um autor infatigável até a sua morte. O estilo da sua escrita foi sempre simples e complacente, tanto nas obras onde sobressai um lirismo lúdico, como nas narrativas com a temática de opressão.

As histórias que garantiram para Veiga um lugar seguro na cena literária brasileira são romances, novelas e contos do assim chamado “ciclo sombrio”2. São obras cujo sinal de reconhecimento foi enxergado na atmosfera sufocante de opressão, falta de liberdade, choque entre o tradicional e o moderno. O início deste ciclo poderia ser estabelecido no ano de 1966 em que foi publicada a sua segunda obra, o romance A hora dos ruminantes que foi criada por expansão de um conto da sua primeira coletânea Os cavalinhos de Platiplanto (1959). O ciclo alargou-se e durante próximos quase vinte anos Veiga acrescentou a este universo ficcional mais três livros que o complementam de certo modo, pois todos abordam os mesmos temas num ambiente parecido (A hora dos ruminantes (1966) Sombras de reis barbudos (1973), Os pecados da tribo (1976) e Aquele mundo de Vasabarros (1982). Apenas o conjunto de duas novelas e um conto De jogos e festas (1980), publicado entre o quarto e sexto livro, foge da temática, apesar de não por completo no conto “Quando a terra era redonda”.

O próprio Veiga admitia muitas vezes que gostaria de passar para outros temas, mas não o conseguia de verdade.3 Os seus temas típicos sempre transpareciam. Só mesmo a partir da obra Torvelinho dia e noite (1985), de data posterior à aposentadoria do autor (1980), ele abandona o cenário fechado e tenso, que abordava ou de uma forma satírica e meio cómica ou a partir do olhar infantil crítico e fantasioso, e começa a retratar também outros espaços e outros temas de uma forma mais lúdica e desafogada.4 Mas obviamente ainda carrega a herança das narrativas anteriores (invasões, p.ex.). As obras posteriores a Aquele mundo de Vassabarros, obra onde Veiga resume a temática de opressão, são diferentes justamente pelo ludismo descansado e menos ponderável e humor leve, mas por outro lado, como próprio Veiga confirmou, não conseguiu fugir aos seus temas típicos de crescimento pessoal difícil, abuso do poder, ridiculez da burocracia, conflito entre o tradicional e o moderno etc.

Pode parecer-nos que perderam a sua “veiguianidade”, elemento mais marcante até então na sua obra, isto é, a atmosfera de opressão e impasse de um mundo kafkiano. Porém, o que não perderam é o seu teor fantástico, surreal e maravilhoso que dá continuidade às obras anteriores. As novas histórias, situadas num ambiente menos conflituoso e às vezes até feérico (O risonho cavalo do príncipe (1992), ganham outra vez um lirismo onírico, caraterístico da sua estréia literária, livro de contos Os cavalinhos de Platiplanto. O próprio Veiga assume que o “autor é orientado por preocupações que ele carrega desde a infância, quando se dá a tomada de consciência, e o conduzem pela vida afora”5. Por isso também não foi capaz de alterar por completo o caráter da sua escrita e voltava aos temas dos quais tinha partido. Mas há também novos temas que abordou nas obras posteriores – relação entre a história e a ficção (A casca da serpente (1989), O relógio Belisário (1995) ou a relação fetichista mágica entre o homem e o objeto (O relógio Belisário, Objetos turbulentos (1997).

Um dos motivos da mudança foi com certeza o abrandamento do ritmo de vida relacionado com a aposentadoria do autor e as visitas mais freqüentes à sua terra natal, Goiás. Mas não foi apenas o motivo pessoal. A situação política e social, que Veiga sempre criticava nas suas alegorias satíricas, mudaram, mas não trouxeram as mudanças capitais. As grandes transformações socio-políticas nas últimas duas décadas do século XX ajudaram a criação do mundo pós-moderno mais aberto e universal, mas também individualizado. Não existem mais as premissas dos mundos pequenos de Manarairema ou Vassabarros6. Mas a situação no Brasil ainda está longe do ideal da sociedade democrática e a situação do indivíduo permanece parecida.7 Desiludido com a situação depois da queda da ditadura militar no Brasil, não lhe restou senão um humor descansado e o constante interesse pelo destino do indivíduo projetado na tela da história. Outra vez, como nas obras do “ciclo sombrio”, “Veiga trabalha no limite extremo entre realidade e fantasia, em que as certezas se quebram e a vida perde a nitidez”8.
1.2. Objetivos do trabalho

Deste ponto cresce também o nosso interesse. Gostaríamos de esclarecer um pouco o caráter deste limite que sintetizamos no conceito de relatividade, a sua fonte ideológica e as formas e procedimentos pelos quais se manifesta na estrutura dos mundos ficcionais. Cada autor ao longo da sua criação apresenta certas regularidades e nós gostaríamos de acentuar algumas que têm a ver com a relativização das ordens instituídas (sociais, comportamentais, etc.). Por isso vamos inserir as obras estudadas também no contexto da literatura pós-moderna que pode esclarecer muitas tendências e procedimentos.

Para estes fins escolhemos um conto do primeiro período da criação, “Diálogo da relativa grandeza” da coletânea A máquina extraviada de 1968, que foi publicada num intervalo entre duas romances do “ciclo sombrio”, e um romance mais recente que apresenta muitos traços pós-modernos, O relógio Belisário de 1995. O conto “Diálogo da relativa grandeza” demonstra, do nosso ponto de vista, uma amostra explícita da relatividade veiguiana e a fundamentação de alguns mundos ficcionais de Veiga no que diz respeito a seus princípios, regras e limitações. Parcialmente na base dos conhecimentos que vamos ganhar da análise deste conto vamos apontar para as expressões de relatividade / relativização / relativismo também no romance O relógio Belisário.

Como instrumento analítico principal escolhemos a semântica dos mundos possíveis, tal como a apresentou o narratólogo Lubomír Doležel nas suas obras Heterocosmica: Ficção e Mundos Possíveis, originalmente editada nos EUA em 1998, e Ficção e história na época do pós-modernismo9, lançada dez anos mais tarde. Parcialmente vamos levar em consideração também as teorias e as terminologias de outros narratólogos (Gérard Genette, Tzvetan Todorov, Vladimir J. Propp).

Há várias razões que nos levam a apoiar a análise das obras de José J. Veiga na semântica dos mundos possíveis. A primeira é a necessidade de esclarecer a relação dos mundos ficcionais da sua obra com a realidade, ou seja, com o mundo atual (terminus technicus da semântica dos mundos possíveis), já que o autor foi muitas vezes alinhado na literatura fantástica latinoamericana, justamente por causa daquela fronteira movediça entre real e onírico, real e fantástico, real e fictício possível. A segunda razão é a elaboração detalhada da relação entre a ficção e a história e conseqüentemente da noção sobre a ficção contrafactual histórica e das adaptações literárias na pós-modernidade por Doležel. As suas noções vão nos ajudar na análise do romance O relógio Belisário que no contexto da obra de Veiga apresenta o maior cúmulo dos traços literários pós-modernos. A terceira razão está relacionada com a ênfase que a semântica dos mundos possíveis atribui à atividade do narrador, que constrói e regula o mundo ficcional, e às ações dos próprios personagens que, em nosso julgamento, contribuem consideravelmente para a dinâmica de qualquer narrativa e ao mesmo tempo estabelecem algumas linhas temáticas que se repetem na obra de José J. Veiga. No decorrer deste trabalho vamos tentar associar algumas caraterísticas e ações dos personagens das duas obras para mostrar não só as semelhanças tipológicas entre eles, mas também os temas comuns, cuja comparação vai trazer a demonstração das regularidades temáticas. Para esclarecermos a categoria do modo narrativo na obra do autor aproveitamos principalmente a parte teórica do estudo de Lubomír Doležel Os modos narrativos na literatura tcheca (1993)10 que trata detalhadamente da sua divisão tipológica.
2. Aspectos da obra
2.1. Relatividade, relativização, relativismo

O que permeia a obra de Veiga desde os seus princípios, entre outros, é o elemento de relatividade, o típico componente do discurso pós-moderno. Doležel afirma que “as leis do mundo real são somente um exemplo das muitas ‘ordens gerais’” (Doležel, 2003: 33). A relatividade no mundo fantástico ficcional de Veiga eleva-se em princípio. A relatividade assume o papel da ordem das coisas, porém pode-se dizer que se torna uma ordem–desordem, pois nada que obedece às suas leis vale absolutamente. A desordem, definida também como “confusão” (termo que achamos exagerado e um pouco indébito) por Assis Brasil11, transparente nas obras do “ciclo sombrio”, torna-se, no nosso ponto de vista, uma desordem coordenada pela relatividade. Sendo coordenada por uma instância superior torna-se ordem.

A relatividade tem as mais variadas formas e expressa-se através de muitos temas e aspectos que formam o eixo da obra de Veiga. No conto “Diálogo da relativa grandeza” a relatividade persegue-nos desde o próprio título. A relatividade deste conto traduz-se na filosofia grega a que tende tanto pelo seu conteúdo ideológico, como pela forma sócrato-platônica da sua manifestação. É que a relatividade e relativização começam a surgir na história do pensamento europeu, e também na literatura, pela primeira vez com a ascensão da filosofia grega.12 Os métodos críticos de Sócrates e Platão põem em dúvida os valores das coisas à nossa volta que se consideram absolutos, relativizam estes valores instaurados e ironizam as perspectivas míopes. A imagem desta relativização ironizada em uma forma simples do diálogo vamos observar no conto acima citado.

A relatividade conjuga-se neste conto com a problemática freqüente de Veiga – a relação da criança com o mundo exterior. É também um grande tema da outra narrativa aqui estudada. As duas apresentam um personagem infantil que, ao se debater com o mundo visto pelos personagens adultos como realidade, entra em conflito com eles ou pelo menos é gerado um conflito interior da própria criança. O olhar da criança, cuja realidade difere da realidade dos adultos ou até de outras crianças, que neste caso desempenhariam o papel de adultos porque aceitaram o seu olhar, traz a relativização como instrumento para que com ela seja discutida a realidade.

A relatividade aparece também no pensamento do matemático e filósofo Gottfried Wilhelm Leibnitz (1646–1716) que a observa em relação ao objeto observador e o objeto em movimento. Descobre que a perspectiva do observador é importante e determina a percepção do objeto em movimento (Störig, 1993: 241–248). Leibnitz foi o precursor e a fonte de inspiração do pensamento iluminista do século XVIII, que desencadeou por um lado a liberdade revolucionária do pensamento e educação, e neste ponto a força da sua influência é análoga ao impacto da modernidade e pós-modernidade no pensamento humano, mas por outro lado provocou um processo de racionalização exagerada que levou à reabsolutização, dita objetiva, dos conhecimentos conquistados. Não em vão o romance O relógio Belisário, que aborda o tema da noção do tempo, refere-se a esta época quando da origem de um relógio raro em torno do qual se desenrola toda a narrativa. É a Paris iluminista o local da sua fabricação e os seus incentivos dão continuidade à evolução da humanidade no início do século XX.

Só os impulsos científicos do começo do século XX deram continuidade ao pensamento relativizador. O marco miliário na transição para a modernidade foi o ano 1905. Neste ano rebentou a primeira revolução russa que levará às mudanças na área das relações sociais, Santos Dumond começou a trabalhar no projeto do veículo voador e principalmente o físico Albert Einstein anunciou a teoria da relatividade verificando e alargando os pressupostos de Leibnitz: “Tempos e espaços e velocidades e deslocamentos e eventos inteiros não existem mais em si mesmos, mas apenas em função de um observador, o que significa que podem assumir outro aspecto, nova realidade, se outro for o observador.”13

O ano 1905 é também o ponto de partida para o desenrolamento do episódio sobre Sherlock Holmes em O relógio Belisário. Além de sugerir a questão da percepção do tempo e do papel da memória na preservação da história, justapondo as duas histórias, uma engastada num cronôtopo puramente ficcional e a outra no cronôtopo ficcional histórico, onde se encontram personagem ficcionais com os históricos, ele também visibiliza o desafio pós-moderno sobre a reavaliação da relação entre a ficção e a história.

A seqüência relatividade – relativização – relativismo copia a evolução do pensamento moderno sobre o caráter de encaração da realidade. A descoberta da relatividade contribuiu para a relativização da realidade visível, e a relativização transformou-se parcialmente numa atitude globalizante de relativismo malsão que rejeita a existência de quaisquer valores geralmente válidos. Esta atitude radical, felizmente, não é o caso de Veiga. José J. Veiga apenas levanta perguntas relativas à existência do homem no universo, cuja “saída é a substituição do mundo absoluto, de raízes fincadas, pela levitante zona do lúdico” (Miyazaki, 1988: 122).


2.2. Discurso pós-moderno

Apesar das conseqüências da teoria da relatividade terem sido evidentes já no início do século XX, foram ressentidas só na pós-guerra. Foram as correntes conservadoras do moderismo que, por se manifestar ideologicamente e por negligenciar o seu projeto estético, causaram a diluição do projeto da modernidade. Por isso a teoria da relatividade e as suas conseqüências podiam se tornar fonte também para o pós-modernismo. Porém até hoje parece que não foram absorvidas plenamente. O fato de Veiga levantar este tema ainda nos anos noventa do século XX afirma que a discrepância entre a ideologia e a vivência ainda naquela época era abismal.14 A reflexão desta reviravolta aparece na literatura ocidental em formas múltiplas das quais destacamos as que achamos relevantes à obra de José J. Veiga, especialmente à obra O relógio Belisário que mais se aproxima dos pressupostos do pós-modernismo literário, social e político.

Os fatores que se associam com as mudanças na modernidade todos rompem com o passado.15 As correntes precedentes ao pós-modernismo, o cubismo, o dadaismo, o surrealismo etc., contribuíram de uma forma significante à formulação dos conceitos pós-modernos. O dadaismo rompe com a integridade e professa o princípio do acaso e da colagem como técnica. O cubismo rompe com a perspectiva absoluta e, retratando a realidade através de vários ângulos, impõe a subjetividade. O surrealismo lança o conceito de inacabamento do significado e a diluição da natureza assente dos objetos, posicionando-os em outros contextos. O pós-modernismo herdou muitas destas noções e procedimentos.

Não foi apenas a teoria da relatividade, mas também os fatores políticos, de poder, no sentido largo da palavra, que levaram à ruptura. Uma das circunstâncias da cultura pós-moderna foi a redistribuição do poder que passou a residir em todas as suas esferas incluindo a literatura, porque “a cultura já não poderia ser considerada tão-somente a esfera das representações que paira imaterialmente à distância do fatos brutos da vida ‘real’”16. O poder não se entendia mais nos termos macropolíticos, mas antes micropolíticos – subsistia em cada pequeno elemento da sociedade, as representações locais tornaram-se poder. Foram os movimentos sociais que abriram fendas do status quo que separava as classes nobre e popular, patrões e empregados, homens e mulheres, brancos e negros, adultos e crianças. A obliteração das fronteiras entre alguns destes grupos sociais é refletida também no romance O relógio Belisário.

A literatura pós-moderna, ao retomar o projeto da modernidade, evita a possibilidade de se chegar a um significado epistêmico17 que tanto queriam revelar alguns modernistas (futuristas, p. ex.), cujo projeto se tornou rígido e concluído, e freqüentemente parodia esta tentativa de autoquestionamento.

Na cultura pós-moderna são atacadas, extravasadas ou obliteradas não só as fronteiras ontológicas, mas também outras: desaparecem as diferenças entre os vários tipos da criação, as diferenças entre os tipos dos discursos e textos, as fronteiras entre os mundos naturais e sobrenaturais, a contradição entre as atividades cognitiva (teórica) e poética (artística) etc. (Doležel, 2008: 14)


A reconsideração da divisão da literatura entre alta e baixa deu em emprego de pastiche acompanhada freqüêntemente pela ironia. A inclusão de obras, gêneros e temas que eram considerados altos e que não correspondem, digamos, ao caráter das obras menos “sofisticadas”, fez com que esta diferença diluísse, mas também ridicularizasse as velhas metanarrativas18. A aproximação do cotidiano vivido pelas pessoas leva à expressão da identidade e personalidade de cada um, e por isso ao subjetivismo.

A estética pós-moderna não trabalha com a linearidade do tempo. A relatividade rompeu com a unidade de ação, “a distinção entre passado, presente e futuro tem agora apenas o valor de uma ilusão”19. Os acontecimentos passados influenciam os presentes e vice-versa, ou seja, o presente oferece novas interpretações do passado sob várias perspectivas e pontos de vista.

A descrença nas concepções totalizantes levou até à descrença no ponto de vista do narrador, cujo resultado foi uma perspectiva plurívoca, de muitos ângulos, onde impõem as suas opiniões também os personagens, mas igualmente os animais e os objetos. Esta pluralidade não é, porém, entendida negativamente, mas antes como como uma pluralidade enriquecedora. Como outra conseqüência dela, incorpora-se na literatura com freqüência a metaficção, que repensa o passado (inclusive as obras literárias já existentes) e não raramente põe em dúvida até o próprio processo literário.

Muitas das caraterísticas pós-modernas manifestaram-se também no realismo mágico, corrente literária que na América Latina entrou na consciência na década de 50 do século XX e se desenvolveu a par do pós-modernismo. O realismo mágico relaciona-se em muitos aspectos com o realismo maravilhoso20 e ainda com o realismo fantástico, em que costuma ser alinhado José J. Veiga, e às vezes as duas correntes são até identificadas devido à desunião terminológica.21 Os traços que eles têm em comum e que são relevantes para este trabalho são por exemplo a distorção do tempo em cíclico, não-linear cheio de anacronias ou ausente, a interseção de perspectivas, a justaposição do normal com abnormal e onírico e a sua aceitação natural pelos personagens, emprego de mitos e folclore, localização num contexto espacial e temporal historicamente significante etc.22

E é sobretudo a tentativa de uma linguagem nova e inovadora que caracterizou a literatura moderna e conseqüentemente a pós-moderna. A sua especificidade consiste na tentativa de se aproximar das massas populares e por isso no emprego de uma linguagem popular, próxima do cotidiano dos leitores. A ironia e o sarcasmo passam a ser elementos ainda mais marcantes do que no modernismo, o ludismo sem compromissos torna-se a pedra angular da criação literária.



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