Medéia as bacantes



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MEDÉIA AS BACANTES

Eurípides

MEDÉIA /AS  BACANTES

Médeia


CfRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa postal 7413

01051 São Paulo, Brasil

Edição interal

Título dos originais: "MrlBsea"/"BáxXav"

Tradução, introdução e notas de "Medéia": Mário da Gama Kurv

Tradução, introdução e comentários de

"As bacantes": Eudoro de Sousa

Capa: ilustração de Iran

Tradução de "Medéia" cedida para o Círculo do Livro

por cortesia da Editora Bertrand Brasil S.A.

Tradução de "As bacantes" cedida para o Círculo do Livro

por cortesia da Livraria Duas Cidades Ltda.

Venda permitida apenas aos sócios do Círculo

Composto pela Linoart Ltda.

Impresso e encadernado pelo Círculo do Livro S.A.

24G8109753

89 91 92 90 88

l-.

Introdução



Mário da Gama Kury

1. Antecedentes da ação da "Medéia"

O enredo da Medéia constittti um dos episódios finais de

uma longa e complicada lenda, ou entrelaçamento de lendas,

da fértil mitologia da Grécia antiga. Um resumo dessa lenda

ajudará a perceber melhor as muitas alusões a acontecimen-

tos e personagens anteriores à ação da peça.

Jason, ao atingir a maioridade, teria direito ao trono de

Iolcos (cidade da Asia Menor, perto da atual Guzeihizar, na

Turquia). Enquanto o pai, Áison, o preparava para o reinado,

entregou o poder a um primo, Pélias, que, chegada a hora de

passar o trono a Jason, recusou-se a fazê-lo e desterrou Áison.

Jason, após algum tempo de afastamento na companhia

do sábio centauro Ouíron, que o educava por encargo de seu

pai, resolveu ir a Iolcos. O rei usurpador não o reconheceu,

mas, pelos trajes singulares de Jason, viu nele a pessoa que,

segundo um oráculo, poria em perigo seu reinado.

Jason fez em Iolcos muitos amigos e admiradores, gra-

ças à sua inteligência e força física. Algum tempo depois,

apresentou-se a Pélias acompanhado por seus simpatizantes e

ousadamente lhe exigiu de volta o reino usurpado. A decisão

e a popularidade de Jason intimidaram Pélias, que, tentando

livrar-se da ameaça, lembrou a Jason que Aietes, rei da Cól-

quida (região da Ásia Menor, ao norte da atual Armênia),

tratara desumanamente Frixo, parente de ambos, e o matara

para apoderar-se do velocino de ouro (pele de um carneiro

prodigioso, alado, com lã de ouro, que transportara pelos ares

Frixo e sua irmã Hele, fugitivos de Tebas, até a Ásia Menor,

e depois fora morto por Aietes). Pélias alegou que já era

muito idoso para empreender, ele próprio, a viagem punitiva

e exortou Jason a fazê-lo, prometendo-Ihe o trono caso ele

regressasse vitorioso. Jason aceitou, sonhando, em sua juven-

tude, com as glórias que Ihe traria a expedição, para a qual

arregimentou a fina flor da juventude grega da época.

A expedição embarcou na nau Argo (de onde se originou

a expressão "Argonautas" para designar os participantes). A

chegada dos Argonautas, Aietes, que, segundo a lenda, era

filho do Sol, prometeu entregar-Ihes o velocino de ouro se

Jason pudesse realizar, num mesmo dia, quatro proezas con-

sideradas impossíveis: 1 °) domar um touro de cascos e chi-

fres de bronze que soprava chamas pela boca e narinas;

2 °) arar, com esse touro, um campo consagrado ao deus da

guerra (Ares); 3 °) semear nesse terreno os dentes de uma

serpente monstruosa, de cujo ventre sairiam gueriros arma-

dos, prontos a devorar quem tentasse arar o campo sagrado;

e 4 °) matar um dragão ferocíssimo que montava guarda noite


e dia ao pé da árvore em cujos galhos estava pendurado 0

velocino de ouro.

Os Argonautas ficaram apavorados com as condições,

mas Hera, deusa mulher de Zeus (o deus maior da mitologia

grega), que simpatizava com Jason, teria feito com que Me-

déia, filha do rei Aietes e, portanto, neta do Sol, ficasse per-

didamente apaixonada por Jason e prometesse, se estc jurasse

casar-se com ela e lhe ser eternamente fiel, ajudá-lo a vencer,

com seus poderes mágicos famosos em toda a região, todas as

sobre-humanas provas. Jason prometeu casamento e fidelidade

a Medéia no templo de Hécate (deusa propiciadora de po-

deres mágicos, padroeira das bruxarias e sortilégios) e dela

recebeu as ervas e poções mágicas com que, na presença de

Aietes e dos habitantes da Cólquida, pasmos de admiração,

passou por todas as provas e se apoderou do cobiçado velo-

cino de ouro.

Em seguida, os Argonautas reembarcaram na Argo. Jason

ia levar consigo, além do velocino de ouro, a apaixonada Me-

déia. Aietes, ao tomar conhecimento da fuga da filha e da

proteçâo que dera a Jason através de seus poderes mágicos,

mandou seu filho Absirtes em perseguição aos fugitivos.

Medéia matou Absirtes, seu irmão, e esquartejou o cadáver,

espalhando-lhe os membros pelo caminho para desnortear o

pai quando este viesse também em sua perseguição.

O regresso dos Argonautas a Iolcos foi celebrado com

grandes festas, às quais o pai de Jason, Áison, não poderia

comparecer por causa de sua avançada idade. Medéia, com

seus remédios mágicos, devolveu-lhe a juventude. Pélias, o

usurpador da coroa de Iolcos, também quis ser rejuvenescido,

mas Medéia, instigada por Jason, deu às filhas do rei, para

aplicação no pai, uma receita propositadamente errada, que

o matou.


A revolta da população de Iolcos contra Medéia e Jason

foi tão forte que os dóis tiveram de fugir para Corinto, onde

viveram em perfeita união durante dez anos. Nessa altura,

porém, Jason apaixonou-se por Glauce, filha do rei de Co-

rinto (Creon), e repudiou Medéia para poder casar-se com seu

novo amor.

É neste ponto da lenda que começa a ação da peça. A

mesma lenda em que se enquadra a Medéia inspirou duas

outras tragédias de Eurípides: As filhas de Pélias e Egeu, de

que só nos restam fragmentos.

2. A "Medéia" de Eurípides

A tônica da peça é o ódio sobre-humano em que se trans-

forma o amor de Medéia por Jason, quando este a repudia

para casar-se com a filha do rei da terra que os acolhera.

A essa terrível humilhação seguiu-se outra, que precipitou a

decisão de Medéia: Creon, rei e pai da nova noiva de Jason,

decretou a expulsão da pobre Medéia e de seus filhos de

Corinto. Medéia era conhecida nas lendas da Antiguidade por

seus poderes mágicos extraordinários. Sua terra, a Cólquida,

de onde Jason a trouxera, era famosa pelas aptidões sobrena-

turais de seus habitantes, hábeis feiticeiros e conhecedores de

todos os segredos da magia. Significativamente, o juramento

de fidelidade de Jason a Medéia, ainda na Cólquida, havia

sido feito no templo de Hécate. Medéia, humilhada e con-

fiante em seus poderes mágicos, resolveu vingar-se de Jason

por todos os modos possíveis e em tudo o que pudesse feri-lo.

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A peça evolui de uma Medéia abatida pelo repúdio do



marido, esposa traída que definhava no leito e nem sequer

levantava os olhos, aparentemente conformada com a sorte,

para uma mulher animada por um terrível desejo de vingança

e extermínio, que não se detém sequer no infanticídio, como

vindita extrema para aniquilamento total do marido perjuro.

Esses sentimentos primitivos eram naturais numa cria-

tura também primitiva, vinda de uma região bárbara, onde

imperava a feitiçaria, principalmente se se levar em conta o

procedimento de Jason (vejam-se os versos 298 a 302, onde

Eurípides faz a súmula das razões do amor-próprio ferido, do


ponto de vista das mulheres com o temperamento de Medéia).

E as criaturas humanas não mudaram muito com o pas-

sar dos séculos e até dos milênios. Alguns dos leitores devem

lembrar-se ainda de um horrível crime praticado no Rio, há

uns dez anos, por uma mulher - batizada pela imprensa de

"Fera da Penha" - que, abandonada pelo amante, seqües-

trou-lhe uma filha de cinco ou seis anos - Tânia, a mais

querida pelo pai - e matou-a com requintes de perversidade

"para fazer o pai sofrer".

A Medéia é justamente considerada uma obra-prima do

teatro trágico e, para muitos apreciadores desde a Antiguida-

de, a melhor das tragédias de Eurípides (veja-se, por exem-

plo, o epigrama traduzido na parte final desta introdução

- 6. A tradução). E a Medéia faz jus a essa reputação. Se

não bastas'se a beleza dos versos originais, haveria a intensi-

dade dramática, o delineamento dos caracteres através de suas

falas, como a da Ama no início, as de Medéia no ataque a

Jason (na simulada conciliação com ele e, sobretudo, no so-

lilóquio em que se reflete a sua indecisão quanto a matar, ou

não, os filhos) e as de Jason. A caracterização das persona-

gens é uma das melhores coisas da peça, a começar pela da

heroína, que é o primeiro e um dos mais finos entre os pro-

fundos estudos que Eurípides fez da alma feminina. O amor

ciumento de Medéia em sua evoluçâo para o ódio assassino,

seu orgulho ferido, sua ferocidade, sua astúcia são pintadas

por Eurípides com mão de mestre e com simpatia. A simu-

lada reconciliação com Jason é uma cena de extraordinária

naturalidade. Outro aspecto digno de nota é que os erros de

Medéia, ao contrário do que acontece na maioria das tragé-

dias gregas, são devidos a seus próprios atos, e ela não os

atribui ao destino ou a algum deus vingador. Eurípides, atra-

vés dela, exprime a vida humana em termos de humanidade

e de livre escolha do bem e do mal. Os caracteres secundá-

rios, principalmente Creon, também merecem menção. As pa-

lavras do velho rei, nos versos 393 a 396, são dessas que,

embora poucas, definem uma personagem.

Em nenhuma de suas outras peças podemos descobrir

melhor as qualidades características do gênio de Eurípides,

sem as falhas e os excessos que encontramos em sua produ-

çâo. Mas, para essa descoberta, devemos seguir a Medéia cena

a cena, verso a verso, para sentir-Ihe toda a elaborada, densa

e impetuosa beleza. A ação, em sua seqüência e em seu con-

junto, tem a simplicidade, o encadeamento e a unidade das

obras realmente belas, e todos os toques do patético nela se

desenvolvem em uma progressão quase rítmica e sem quebra

na intensidade, no sentido de um desfecho fatal. Os episódios

se encadeiam uns aos outros tão rigorosamente, que é neces-

sário um esforço constante de atençâo para discernir qualquer

artifício nessa arte seguríssima. Esse esforço, porém, é mais

do que compensado pela fruição da beleza, criada por Eurí-

pides, da terrível beleza da peça.

Mas, apesar de suas qualidades excepcionais, a Medéia

tem recebido críticas, a começar por Aristóteles (Poética,

1454, bl, e 1461, b20), que censura Eurípides pela implausi-

bilidade do episódio em que Egeu e Medéia se encontram

(versos 758 e seguintes) e pelo recurso ao sobrenatural (a

fuga de Medéia no carro do Sol), para finalizar a peça. As

críticas de Aristóteles, todavia, em ambos os casos só fazem

acentuar o primitivismo de sentimentos que Eurípides impri-

miu à peça e a importância dos poderes mágicos de Medéia,

fatores essenciais ao desenvolvimento da tragédia. O episódio

de Egeu, por exemplo, acentua, através da ânsia do rei de

Atenas de conseguir que sua mulher Ihe desse um filho, a

necessidade instintiva dos pais de se verem perpetuados nos

filhos, e, portanto, torna mais compreensível a idéia de Me-

déia de vingar-se de Jason em seus filhos. E, naturalmente, o

episódio é parte do encadeamento da peça, por assegurar a

Medéia um refúgio fora de Corinto quando tivesse de fugir

após a prática dos crimes (vejam-se os versos 1578-1580).

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Quanto ao final da peça, a saída de Medéia no carro do Sol

é apenas um elemento sobrenatural a mais entre tantos que

integram a peça, cuja heroína se vangloria de seus poderes

mágicos e os comprova, orgulhando-se de descender do pró-

prio Sol. Tais objeçôes de Aristóteles ilustram o distanciamen-

to entre o crítico, na atitude fria de dissecar uma obra de

arte com seus instrumentos de precisâo lógica, e o artista, no

ato instintivo da concepçâo de sua obra e da identificaçâo

com suas personagens, levado apenas por seu poder criador.

Afinal, na mesma Poética, 1453, a30, Aristóteles reconhece

que Eurípides é "o mais trágico dos trágicos".

Eurípides encenou a Medéia em 431 a.C., em Atenas, de-

pois de o dramaturgo Neofron haver feito representar a sua

Medéia (data incerta, mas, de qualquer modo, anterior à de

Eurípides), da qual nos restam alguns fragmentos que nos

induzem a crer que nosso poeta pode ter-se inspirado em seu

colega mais velho (um dos fragmentos existentes corresponde

ao tocante monólogo de Medéia antes de matar os filhos, ver-

sos 1158 e seguintes). Por sua vez Sófocles, uns dez ou quinze

anos depois da Medéia de Eurípides, publicou a sua tragédia

As traquínias, onde há muitas reminiscências de Eurípides

(talvez devido à afinidade entre os dois temas).

No concurso trágico de 431 a.C. Eurípides obteve um

modesto terceiro lugar com sua Medéia (o primeiro coube a

Euforion, sobrinho de Ésquilo, e o segundo, a Sófocles).

3. Outras Medéias

O tema da Medéia tem atraído, através dos tempos, a

atençâo de outros dramaturgos, desde Sêneca até Anouilh,

passando por Corneille, cuja Médée é um dos produtos mais

insípidos do insipidíssimo teatro clássico francês.

4. A "Medéia" e o público atual

Pura e simplesmente como leitura, abstração feita da

destinação de ser representada, uma peça grega pode parecer

diferente a alguns leitores, se estes a enquadram em seus

hábitos literários cotidianos.

Como teatro, todavia, uma boa peça grega não é consi-

deravelmente diferente das boas peças posteriores, até das

mais recentes, desde que haja integraçâo de três elementos

capitais: ponto de partida ou motivação (texto), meio (teatro,

entendido como direção em sentido amplo, abrangendo inter-

pretação e mise-en-scène) e fim (espectador, público). As boas

peças gregas encenadas dentro do espírito de atualidade (como

o eram quando foram compostas), ou seja, com o respeito

devido aos pressupostos culturais do espectador médio atual,

serão teatralmente iguais às boas peças de qualquer época.

Se o espectador, que é o fim, o destinatário de todo 0

complexo teatral, também se integrar nesse complexo, estarão

preenchidas as condiçôes para a perfeita fruição das peças

gregas, como de quaisquer outras. Para essa integração bas-

tará que ele assista à peça sem idéias preconcebidas, sem pen-

sar que vai ver uma coisa exótica, de museu; ao contrário,

deve esperar do espetáculo apenas (ou tudo) o que aguarda

ver usualmente quando vai ao teatro para apreciar uma peça

de Albee, de Dürrenmat, de Brecht ou - num salto de sig-

nificação apenas cronológica - de Shakespeare. É esse o

único esforço que se espera do espectador para que ele se

afine com o trabalho despendido na tradução, na direção, na

interpretação. A parte do tradutor é fazer da tradução uma

equivalência teatral do original, em linguagem corrente dentro

das imposições do gênero, linguagem à altura da grandiosi-

dade dos temas, simples mas pertinente, sem rebuscamentos

desnecessários mas digna, em síntese: linguagem natural ao

gênero. A do diretor é fazer com que o texto provoque no

público de hoje, com os meios apropriados à sintonia com o

espectador, as mesmas emoções que o original causava ao pú-

blico da época em que foi escrito. Afinal, a direção em sen-

tido amplo é o elo entre uma peça clássica e o público de

cada época.

A Medéia de Eurípides é uma das tragédias grégas mais

freqüentemente encenadas, disputando a preferência do públi-
co com o Hipólito, do mesmo autor. Para falarmos somente

nos dois ou três últimos anos, ocorrem-nos a montagem do

Teatro Grego do Pireu, no Municipal, e a de Cleyde Yáconis,

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no João Caetano (esta em 1970; veja-se a apreciação de Yan

Michalski no Jornal do Brasil de 8-9-1970).

Produtores e diretores têm tomado, em todos os tempos,

as maiores liberdades na montagem de peças clássicas gregas.

Alguns, talvez por não sentirem o texto, ou por não acredi-

tarem nele, ou simplesmente por querer inovar, lançam mão

de recursos estranhos, incompatíveis com o gênero (os mes-

mos recursos que usariam para um musical ou coisa parecida).

Outros parecem usar o título e o prestígio da peça apenas

como chamariz, como pretexto para experiências que pode-

riam perfeitamente ser feitas com outros textos, ou mesmo

sem texto algum.

A Medéia de Cleyde Yáconis, todavia, foi pura tragédia

grega, ou melhor, pura tragédia tout court, teatro indepen-

dente do tempo e de modas, um entrosamento feliz do texto

com o talento dos atores (principalmente de Cleyde Yáconis,

que valorizou o texto com sua dicção perfeita e seu magní-

fico jogo de expressôes faciais e corporais). Poder-se-ia, em

termos de gosto individual, objetar a certos recursos da atriz,

ou da direção (silvos para denotar a raiva é a única restriçâo

que me ocorre), mas, em linhas gerais, a perJormance de

Cleyde Yáconis está ainda viva na minha memória como a

mais próxima de um ideal de grandeza que eleva o teatro ao

nível de uma arte tão alta quanto as que mais o sejam. Note-

se que, como já disse antes, não restrinjo minha apreciaçâo

a textos grègos, mas a quaisquer outros da produção dramá-

tica de todos os tempos. E, embora até hoje só me tenha atre-

vido a traduzir peças gregas, repito o que já escrevi nesta e

em outras introduções: o teatro grego só me interessa como

teatro em si, e não como coisa de museu, teatro apreciável

ainda hoje, independentemente de classicismo ou tradiçôes,

de .tempo, lugar ou convenções, apenas pelo seu valor intrín-

seco. E o espetáculo de Cleyde Yáconis e seus companheiros

reforçou a minha crença de que peças gregas como a Medéia

podem ombrear, desde que propriamente dirigidas e interpre-

tadas, com o que há de melhor no teatro de hoje e de sempre,

porque estão impregnadas desse humanismo no sentido literal

da palavra, dessas qualidades que nos tocam hoje como toca-

vam os gregos do século V a.C., porque representam, subli-

madamente, os grandes sentimentos que dão vida à pessoa

humana e que são o espelho dessa vida no que ela tem de

mais constante e característico. Tais espetáculos realizam essa

fusão a que me referi há pouco, infelizmente não muito fre-

qüente no teatro, entre o autor, as personagens e seus senti-

mentos, os intérpretes, a direção e a cena, propiciando a

comunhão que se chama espetáculo teatral, não através de

recursos extra teatrais, mas de participação em que cada um

(inclusive o espectador) desempenha o seu papel. Essa comu-

nhão parece o critério mais válido, posto que subjetivo, da

qualidade de um espetáculo.

Enfim, a Medéia de Cleyde Yáconis prova que algumas

tragédias gregas são obras atuais e não textos mumificados de

valor restrito à época em que foram escritos.

5. O autor

Eurípides, o último dos grandes tragediógrafos gregos,

nasceu em Salamina (ilha vizinha a Atenas), provavelmente

em 485 a.C. Educou-se em Atenas, onde viveu a maior parte

de sua vida, tendo sido discípulo dos maiores filósofos da

época (principalmente de Anaxágoras). Freqüentou os sofis-

tas, que muito o influenciaram, e fez parte do círculo em que

sobressaíam Pródico, Protágoras e Sócrates, que teria sido

grande admirador e até colaborador do poeta. Entre a época

de sua estréia nos concursos trágicos de Atenas (455 a.C.) e a

data provável de sua morte (406 a.C.), Eurípides escreveu no

mínimo 74 peças, sendo 67 tragédias e 7 dramas satíricos

(algumas fontes Ihe atribuem 92 peças). Dessa produção che-


garam até nós as 19 peças seguintes, das quais O ciclope é

o único drama satírico: Alceste, Andrômaca, As bacantes, O

ciclope, Electra, As Jenícias, Hécuba, Helena, Héracles Fu-

rioso, Os heráclidas, Hipólito, I Jlgênia em Ãulis, I f igênia em

Táuris, Jon, Medéia, Orestes, Resos (que alguns estudiosos

consideram apócrifa), As suplicantes e As troianas. Das peças

perdidas restam-nos numerosos fragmentos.

14 15


6. A tradução

O texto e o contexto da Medéia são de tal forma densos

e elaborados que a traduçâo também é, como já escrevi atrás

com referência à leitura, uma descoberta, a cada verso, de

detalhes da extraordinária habilidade e arte de Eurípides como

poeta e dramaturgo. Para dar uma idéia da fama da Medéia

na Antiguidade quanto à sua perfeição formal, citamos a se-

guir, em tradução, um epigrama do poeta Arquimedes (época

desconhecida), conservado na Antologia palatina (livro VI,

SO), contendo conselhos aos poetas seus contemporâneos:

"Não queiras percorrer, poeta, a mesma

estrada que Eurípides trilhou; nem sequer

tentes, pois seria difícil caminhar por ela.

Parece fácil à primeira vista,

e transitável, mas se alguém tenta pisá-la,

vê que é mais árdua do que se estivesse -

pavimentada de estacas pontiagudas.

Experimenta apenas retocar

o terreno da Medéia, filha de Aietes!

Sentir-te-ás anônimo e rasteiro.

Afasta as tuas mãos da coroa de Eurípides!"

Da mesma forma, pois, que, para o leitor, o acompanha-

mento atento da Medéia será (até onde permite a tradução)

a descoberta de uma peça extraordinariamente bem concebida

e melhor realizada, a ousadia de transpô-la para o português

é, para o tradutor, uma tarefa apaixonante. Só o amor com

que ela é feita compensa a fadiga e o risco de ficar muito

aquém do original. Mas, afinal, também o tradutor, apesar de

familiarizado com o texto, descobre a cada verso belezas nun-

ca dantes suspeitadas.

Seguimos geralmente o texto estabelecido por Gilbert

Murray (Oxford Clarendon Press, vol. III, 1902). Consulta-

mos também, entre outras, a edição de Parmentier (Paris, Les

Belles Lettres, vol. I, 1942), cuja introdução é particularmente

interessante.

Rio, dezembro de 1971

poca da ação: Idade heróica da Grécia.

Local: Corinto. '

Primeira representação: 431 a.C., em Atenas.

PERSONAGENS:

MEDÉIA

JAso


AMA de Medéia

CREOH, rei de Corinto

EGEu, rei de Atenas



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