Memorial da Infância



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Encontro28.12.2018
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Memorial da Infância

Ao fazer minha linha tempo, pulo do nascimento para os cinco anos até a idade de dez anos. O isolamento em que morávamos dificulta informantes, bem como falecimento de muitos parentes (avós, tios, pai).

Contei com a ajuda da minha mãe Iára, professora aposentada, 75 anos residente em Araranguá, da minha irmã Lúcia,49 anos, psicóloga, residente em Canoas, de meu irmão Pedro,38 anos, técnico metalúrgico, residente em Caxias do Sul, que lembrou de coisas que eu nem imaginava, e de uma outra pessoa que pediu não ser mencionada já que este trabalho ficará na internet.

Nasci em 22/06/63 no hospital de Vila Ouro Verde, que na época pertencia ao município de São Francisco de Paula. Minha mãe me contou que no dia em que nasci fazia muito frio e que precisei ser aquecida na incubadora. Nasci de parto normal com 3,100 kg. Além de pai e mãe a família era composta por duas irmãs mais velhas, que são do primeiro casamento da minha mãe pois ela era viúva, e de um irmão com um ano e dois meses de diferença , já do segundo casamento. Os cinco primeiros anos de minha infância vivi num lugar chamado Fazenda Manuel Joaquim. Era distante de tudo numa zona rural. O pai trabalhava na fábrica Celulose S/A e a mãe era professora municipal e lecionava em uma escola com classe multiseriada. Minhas irmãs que já estavam em idade escolar só vinham aos finais de semana, pois estudavam em uma escola na Vila Ouro Verde e moravam na casa de nossas tias, irmãs da mãe. Mesmo assim minha irmã mais nova preferiu voltar para casa e caminhava quilômetros para poder estudar.

O ano do meu nascimento traz fatos marcantes no mundo e para os gaúchos. Em 20/07/63 Ieda Maria Vargas é coroada Miss Universo e em 22/11 John Kennedy é assassinado em Dallas. Todos temos estas memórias, até quem não viveu.

Quando completei cinco anos em 1968, foi o último na Fazenda Manuel Joaquim, minha mãe preparou um bolo em camadas e a famosa “cachopa” em cima, tudo coberto com muito glacê. Ganhei um blusão feito a mão, em tom de azul e beiradas rosa .

No dia 14/11/68, nos mudamos para Vila Ouro Verde. “ Lembro exatamente do dia em que nos mudamos de casa, tenho isto anotado” ( Segundo minha mãe Iára, esta data é precisa). A casa era muito simples, mas tinha energia elétrica, água encanada. Ali tinha o que a família precisava: mercado, perto do trabalho do pai e escola para os filhos. A mãe estava no oitavo mês de gravidez.

No dia 14/12/68, nasceu o meu irmão mais novo de nome Pedro, homenagem ao avô paterno. Minha mãe foi atendida no hospital em São francisco de Paula e ficamos alguns dias de caseiro. O Natal deste ano foi mais especial do que todos os outros. A mãe de volta em casa, o bebezinho lindo que tínhamos. Enfeitamos o pinheirinho como sempre, árvore natural, algumas bolinhas, enfeites de celofane feito por nós, presépio... mas tinha mais alegria.

Aos poucos fui conhecendo nossos vizinhos. Fiz minhas primeiras amigas: a Mara, a Leila e a Bete. A Bete foi companheira de juventude. A irmã da Bete, foi muito amiga das minhas irmãs. Os nossos pais foram companheiros da mocidade, como eles falavam.

O ano de 1969 é marcado para mim, como uma época de brincar livremente. Não tínhamos muitos brinquedos, mas nos divertíamos brincando de fazer comidinha,pega-pega, bola,tagalante, podíamos ficar na rua sem problemas. Ás vezes brigávamos e ficávamos de mal e depois a gente fazia as pazes.

Em 20 de julho de 1969 a Apollo 11 chega a lua. O homem pisa no solo lunar. Em toda a vila não se fala em outra coisa. Muitas pessoas não acreditavam neste fato. Assisti depois na casa do tio Ciro, pela televisão, uma imagem esquisita, tinha mais chuvisco do que qualquer coisa, com uns homens mais estranhos ainda, esta foi a minha impressão quando vi a imagem da tão comentada chegada do homem á lua. Parece mesmo que se entrou numa nova era e a moda parece que também quis revolucionar, a minissaia entrou com tudo, os coques exagerados e muito laquê nos cabelos, os delineadores para os olhos, os cílios postiços, as pantalonas enormes, as blusas coloridas. Os rapazes tinham os cabelos compridos, o que deixava muita gente contrariada. É desta maneira que se vive na entrada dos anos setenta.

Em março de 1970 entrei para a primeira série, no grupo escolar Osvaldo Kröff. Lembro do teste que me aplicaram: fazer um desenho, colocar bolinhas dentro de um quadradinho e saber a figura que foi desenhada no ar. A professora se chamava Ivone e foi muito simpática, me senti bem á vontade. Este teste me classificou como da turma dos adiantados. Então iniciei rotulada como da turma dos fortes, a minha professora se chamava Ledi. Gostava demais dela. Guardo a imagem dela até hoje embora eu nunca mais a tenha visto. Para surpresa geral em maio eu já lia tudo, minha mãe que também era professora disse nunca ter visto nada igual. Acredito que os fatores contribuíram, a turma dos fortes tinha o “melhor” professor, eu convivia com muito material escrito. Desde este tempo eu ajudava os colegas que tinham dificuldade, a minha amiga Bete sempre disse que aprendeu a ler comigo, ela não entendia como a professora ensinava. Eu ficava muito feliz ajudando minhas amigas. Em maio deste mesmo ano voltava do ensaio para a apresentação do dia das mães e o cachorro da dona Noraí, nossa vizinha me atacou, levei um ponto de gancho e tenho a cicatriz até hoje. Alguém na vizinhança deu veneno para o cachorro, pois ele já havia atacado outras crianças, meu pai disse para dar água para o cão que melhorava. Quando o cão acabou de tomar a água caiu morto. É importante observar que a preocupação em cuidar das crianças era de todos.

Em 21 de junho de 1970 o Brasil conquista o tricampeonato na Copa do Mundo. Foi feito um grande carnaval na vila para comemorar. Não fui ao carnaval, pois minha mãe falava que este tipo de festa não era para criança. Só poderia ir depois de completar 15 anos. Fazendo uma reflexão: futebol x carnaval é considerado o ópio do povo. Esta época estávamos em plena ditadura, enquanto muitos eram perseguidos politicamente o povo comemorava a vitória do Brasil. Em dezembro de 1970, aconteceu a festa de encerramento do ano letivo. Fizemos apresentações artísticas. A diretora Cleusa Reisdörfer passava avisos gerais. De repente chamaram meu nome lá na frente. Fiquei sem saber o que fazer. Muito tímida subi no palco. Ganhei a premiação de melhor aluna da turma. Eu era tão pequena e magrinha que precisei me espichar muito para dar um beijo na diretora. A mãe disse que foi muito engraçado. Embora eu tenha recebido a premiação eu nunca me senti a melhor de todos. Lembro de colegas que sabiam desenhar muito bem e que eu olhava o que faziam e tinha muita admiração. O caderno organizado da minha colega Rejane, eu pedia para olhar de tão lindo que achava. Mas é importante lembrar que para a época aluno bom é o que sabia todos os conteúdos.

O ano de 1971 é marcado por vários acontecimentos negativos. Em março, iniciei a segunda série, o maior desejo era aprender a letra cursiva, como sempre, se chega na maior empolgação no primeiro dia da nova série. Que decepção, não tinha professora para a nossa turma. Ficamos tendo duas horas de aula e depois nos dispensavam. Passei por quatro professoras naquele ano. Faltou um vínculo, a gente se sentia perdido. De outro lado a avó paterna sofreu um avc e estava de cama com poucos movimentos. Quase todos os finais de semana nós a visitávamos. Em 12/10/1971 a avó paterna veio a falecer. O pai e a mãe usaram luto fechado por seis meses. Após este período veio o luto aliviado, onde se usa cores sóbrias com tarja preta. Era proibido ouvir música e usar roupas vermelhas no espaço de um ano. As crianças participaram do ritual de velório e enterro, como era costume na família do pai.

Logo após o primeiro do ano em 1972 fomos passar todo o mês de janeiro na casa da avó materna. Ela morava numa chácara em Santa Catarina. Sempre gostei de ir para a casa da avó Elza mas aquelas foram ótimas. Até porque em casa o clima estava triste pelo falecimento da outra avó.

A vó teve 11 filhos e nas férias eram filhos e netos que iam para lá. Minha avó era mandona, organizada, caprichosa e boa cozinheira. As tarefas de casa eram divididas entre todos. Tínhamos hora para tudo: levantar, café, almoço, etc.. A noite antes de deitar rezávamos o terço em família, depois eram distribuídos balinhas entre todos e nos desejávamos boa-noite uns aos outros. De manhã após o bom-dia sempre tínhamos que perguntar ao vô e a vó se passaram bem a noite, a falta desta pergunta soava como desatenção a eles. Na casa da vó as crianças tinham mesa separada dos adultos. Também não participavam das conversas das visitas, que eram recebidas na sala de estar. Os filhos e netos sempre os tratavam por senhora e senhora. É importante observar que a família da minha mãe era de pessoas mais intelectualizadas. Tentavam sempre nos ensinar boas maneiras. Criança não era tratada como adulto. A família do pai são de gente do campo. Praticamente não se vê esta diferença, tanto que nós participamos de todos os rituais de enterro da vó paterna. Entretanto nas duas famílias observa-se que os avós são muito respeitados.

Em 12/11/72 minha irmã Lúcia, completou 15 anos. Reuniu suas amigas e comemorou de tarde com bolo e chá. A adolescência dela foi marcada pela música “Detalhes”de Roberto Carlos. Neste mesmo mês compramos a primeira televisão, uma Colorado RQ, 23 polegadas preto e branco. Passava a novela “Tempo de Viver” na tv Tupi. Os atores eram Jece Valadão e Adriana Prieto. Lembro perfeitamente, que antes de cada programa aparecia na tela um papel de aprovação para exibição da Censura Federal. A gente passou a compreender o significado muito tempo depois. A televisão brasileira exibia somente o que a Censura permitia de acordo com seus interesses. Em dezembro do mesmo ano, após o término do ano letivo, nos mudamos de casa. Saímos de Vila Ouro Verde e fomos morar no município de Cambará do Sul. Com a herança da avó paterna foi possível



construir uma casa de madeira de boa qualidade, no centro. Novos vizinhos, novos amigos, nova escola.

Em março de 1973 entrei para a quarta série no grupo escolar Antônio Raupp. Tive dificuldades de me adaptar a nova escola, olhava muita televisão. Fiz algumas amigas: a Silvana,a Maura e a Suzana. Mais tarde conheci a Aparecida que ao lado da Bete foi amiga e companheira da juventude. Em 13/11 deste mesmo ano começa a crise do petróleo. Os meios de comunicação, fazem propagandas para se economizar combustível dando carona. Os postos reduzem horários de atendimentos. No Natal de 1973, ganhei um relógio de pulso de presente que eu adorei. As poucas bonecas que tinha dei para as minhas primas menores. Definitivamente estava terminando aí minha infância e entrando na pré-adolescência.

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