Memória e sociedade lembranças de velhos



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ECLÉA BOSI

MEMÓRIA E SOCIEDADE

Lembranças de velhos
10ª. edição
COMPANHIA DAS LETRAS
Copyright (c) 1979, 1987, 1994 e 1995 by Ecléa Bosi

Capa: A memória de Ettore Bottini Maurice Halbwachs

sobre retrato de d. Emma Strambi Frederico, Professor de Psicologia social por Maureen Bisilliat do Collêge de France,

Preparação. morto no campo de Buchenwald em 1945

StelIa Wetss

Revisão:

CarlosAlberto luada

Eliana Antonioli

As fotos são cortesia de Ameris Paolini (autora das três fotos de idosos)

Emma Strambi Frederico

Tberesa Bosi

Dulce de Oliveira Carvalho

Minam Lfchits Moreira Leite

Museu da Imagem e do Som(São Paulo)

Instituto de Psicologia da USP

Dados Internacionais de Catalogação na Pubhcação Ice')

(Câmara Brasileira do Livro, se, Brasil)

Bosi, Ecléa

Memória e sociedade lembranças dos velhos Ecléa

Bosi - 3 ed - São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Bibutogra6a

tBN 85-7164-393-8

1. Memórias - Aspectos sociais 2. Psicologia social

Titulo.


94-1560 ctar,-302

Índices para catálogo sistemático.

1 Memória Aspectos sociais . Psicologia social 302

2. Memória e sociedade : Psicologia social 302

2003
Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA SCI-IWAIOCZ LTDA.

Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32

04532-002 - São Paulo - sp

Telefone: (11) 3167-0801

Fax: (11) 3167-0814

www.companhiadasletras.com.hr
Apresentação

OS TRABALHOS DA MEMÓRIA *

Dirigidos por alguma luz desgarrada, tombada de uma estrela sem véu, de um navio errante, ou do próprio Farol, com sua pálida pegada sobre degraus e tapetes, os pequenos ares subiram a escada e farejaram pelas portas dos quartos. Mas aqui, decerto, tinham que parar. Quaisquer que fossem as coisa que pudessem aparecer e desaparecer, o que aqui se encontra é bem sólido. Aqui, podia-se dizer àquelas luzes deslizantes, àqueles ares tateantes que respiram e se curvam sobre o próprio leito, aqui vocês nada podem tocar e nada podem destruir.

Virginia Woolf, Viagem ao farol

Yo vengo a hablar por vostra boca muerta.

A través la tierra juntad todos

los silenciosos labios derramados

y desde el fondo hablame de toda esta larga noche,

como si yo estuviera con vosotros andado.

Acudid a mis venas y a mi boca.

Hablad por mis palabras y mi sangre.

Pablo Neruda, Canto general

Estas coisas é tudo conhecer.

D. Risoleta

() Este texto foi redigido como arguição durante a defesa de tese de livre-docência de Ecléa Bosi, na Universidade de São Paulo. Escrito para ser falado, sua forma coloquial foi aqui mantida.

17
"O velho não tem armas. Nós é que temos de lutar por ele." Esta, acredito, é sua tese, Ecléa.


Por que temos que lutar pelos velhos? Porque são a fonte de onde jorra a essência da cultura, ponto onde o passado se conserva e o presente se prepara, pois, como escrevera Benjamin, só perde o sentido aquilo que no presente não é percebido como visado pelo passado. O que foi não é uma coisa revista por nosso olhar, nem é uma idéia inspecionada por nosso espírito é alargamento das fronteiras do presente, lembrança de promessas não cumpridas. Eis por que, recuperando a figura do cronista contra a do cientista da história, Benjamin afirma que o segundo é uma voz despencando no vazio, enquanto o primeiro crê que tudo é importante, conta e merece ser contado, pois todo dia é o último dia. E o último dia é hoje.

Mas, se os velhos são os guardiões do passado, por que nós é que temos de lutar por eles? Porque foram desarmados. Ao mostrá-lo, Ecléa, sua tese deixa exposta uma ferida aberta em nossa cultura: a velhice oprimida, despojada e banida.

A função social do velho é lembrar e aconselhar memini, moneo - unir o começo e o fim, ligando o que foi e o porvir. Mas a sociedade capitalista impede a lembrança, usa o braço servil do velho e recusa seus conselhos. Sociedade que, diria Espinosa, "não merece o nome de Cidade, mas o de servidão, solidão e barbárie", a sociedade capitalista desarma o velho mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela história oficial celebrativa.

Que é ser velho?, pergunta você. E responde: em nossa sociedade, ser velho é lutar para continuar sendo homem.

Como se realiza a opressão da velhice? De múltiplas maneiras, algumas explicitamente brutais, outras tacitamente permitidas. Oprime- se o velho por intermédio de mecanismos institucionais visíveis (a burocracia da aposentadoria e dos asilos), por mecanismos psicológicos sutis e quase invisíveis (a tutelagem, a recusa do diálogo e da reciprocidade que forçam o velho a comportamentos repetitivos e monótonos, a tolerância de má-fé que, na realidade, é banimento e discriminação), por mecanismos técnicos (as próteses e a precariedade existencial daqueles que não podem adquiri-las), por mecanismos científicos (as "pesquisas" que demonstram a incapacidade e a incompetência sociais do velho).

Que é, pois, ser velho na sociedade capitalista? É sobreviver. Sem projeto, impedido de lembrar e de ensinar, sofrendo as adversidades

de um corpo que se desagrega à medida que a memória vai-se tornando cada vez mais viva, a velhice, que não existe para si mas somente para o outro. E este outro é um opressor.

Destruindo os suportes materiais da memória, a sociedade capitalista bloqueou os caminhos da lembrança, arrancou seus marcos e apagou seus rastros. "A memória das sociedades antigas se apoiava na estabilidade espacial e na confiança em que os seres de nossa convivência não se perderiam, não se afastariam. Constituíam-se valores ligados à práxis coletiva como a vizinhança (versus mobilidade), a família larga, extensa (versus ilhamento da família restrita), apego a certas coisas, a certos objetos biográficos (versus objeto de consumo). Eis aí alguns arrimos em que a memória se apoiava." Nada mais pungente em seu livro, Ecléa, do que a frase dezenas de vezes repetida pelos recordadores: "já não existe mais". Essa frase dilacera as lembranças como um punhal e, cheios de temor, ficamos esperando que cada um dos lembradores não realize o projeto de buscar uma rua, uma casa, uma árvore guardadas na memória, pois sabemos que não irão encontrá-las nessa cidade onde, como você assinala agudamente, os preconceitos da funcionalidade demoliram paisagens de uma vida inteira.

Todavia, a memória não é oprimida apenas porque lhe foram roubados suportes materiais, nem só porque o velho foi reduzido à monotonia da repetição, mas também porque uma outra ação, mais daninha e sinistra, sufoca a lembrança: a história oficial celebrativa cujo triunfalismo é a vitória do vencedor a pisotear a tradição dos vencidos. Um dos aspectos mais dolorosos de seu livro, Ecléa, aparece quando você nos mostra o que ocorre com a memória política. Após terem sido capazes de reconstruir e interpretar os acontecimentos de que foram participantes ou testemunhas, os recordadores (com exceção de d. Brites e de d. Jovina) restauram os estereótipos oficiais, necessários à sobrevivência da ideologia da classe dominante. Dessa maneira, as lembranças pessoais e grupais são invadidas por outra "história", por uma outra memória que rouba das primeiras o sentido, a transparência e a verdade. Contudo, nisto reside também um dos aspectos decisivos de seu trabalho, pois ao dar a palavra a vozes que foram silenciadas, seu livro grita: "aqui vocês nada podem tocar e nada podem destruir".

Porém, sua tese não se interrompe na constatação da opressão a que está submetida a memória dos velhos - parte em busca da gênese dessa opressão. "A degradação senil começa prematuramente com a degradação da pessoa que trabalha. Esta sociedade pragmática não desvaloriza somente o operário, mas todo trabalhador: o médico, o profes

sor, o esportista, o ator, o jornalista. Como reparar a destruição sistemática que os homens sofrem desde o nascimento, na sociedade da competição e do lucro? [...] Como deveria ser uma sociedade para que na velhice um homem permaneça um homem? A resposta é radical [...j:

seria preciso que ele sempre tivesse sido tratado como um homem. A noção que temos da velhice decorre mais da luta de classes do que do conflito de gerações." E mais adiante, lemos: "Entre as famílias mais pobres, a mobilidade extrema impede a sedimentação do passado, perde-se a crônica da família e do indivíduo em seu percurso errante. Eis um dos mais cruéis exercícios da opressão econômica sobre o sujeito: a espoliação das lembranças".

É uma tese sobre memórias de velhos, escreve você, alertando o leitor para que não imagine estar diante de um texto sobre a memória ou sobre a velhice. É um trabalho sobre a opressão, diria eu.

"Nós é que temos de lutar por eles", escreve você. Eu diria que você nos mostra também como lutar: reconduzindo a memória à dimensão de um trabalho sobre o tempo e no tempo, dando ao trabalho da velhice uma dimensão própria e desdobrando uma tríade (memóriatrabalho-velhice), você aponta para uma nova possibilidade de relação com o velho fazendo despontar, num outro horizonte, a figura laboriosa da velhice, trabalhando para lembrar.

Sua tese termina com as palavras do sr. Amadeu: "Eles também trabalharam". Fazendo refluir sobre os recordadores uma palavra proferida por um deles você dá ao trabalho um lugar central nessa meditação sobre a memória dos velhos. Acerquemo-nos um pouco dessas palavras finais para rememorar o caminho de seu texto. Este se abre com a reflexão acerca da opressão da velhice através da espoliação do direito à memória e da prematura senilidade engendrada pela cotidiana degradação do trabalho. E o livro termina com um capítulo dedicado à lembrança do trabalho.

"Eles também trabalharam" - não somente cada um dos recorda- dores foi um trabalhador (e você nos revela como a diferença de seus trabalhos é determinante na produção das lembranças), mas sobretudo os recordadores são, no presente, trabalhadores, pois lembrar não é reviver, mas re-fazer. É reflexão, compreensão do agora a partir do outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição. "O velho, de um lado, busca a confirmação do que se passou com seu coetâneos, em testemunhos escritos ou orais, investiga, pesquisa,

confronta esse tesouro de que é guardião. De outro lado, recupera o tempo que correu e aquelas coisas que quando perdemos nos sentimos diminuir e morrer."

Você também trabalhou - não só porque foi aos velhos e os ouviu, mas porque ao fazê-lo mostrou a degradação e o banimento a que estão submetidos o velho e a memória. Com isto, refez a dignidade e o sentido da velhice memoriosa transcrevendo noutra linguagem o que foi recolhido dia a dia. Da voz ao texto, realiza-se o trabalho do pesquisador-escrjtor

Nós (sua banca) também trabalhamos, pois o que é ler senão aprender a pensar na esteira deixada pelo pensamento do outro? Ler é retomar a reflexão de outrem como matéria-prima para o trabalho de nossa própria reflexão.

Onde, então, se encontra sua tese? Em que região localizá-la? Ela está no seu texto (no seu trabalho de escrita e de interpretação), está nas vozes dos que falaram (no trabalho de lembrar que efetuaram) e está também em nossa leitura (no trabalho para compreender o lido e refazer o percurso interpretativo). Porque está em toda parte e em nenhuma, sua tese não é uma "coisa" nem é uma "idéia" - é um campo de pensamento. Merleau-Ponty escreveu que a obra de pensamento é como a obra de arte, pois nela há muito mais pensamentos do que aqueles que cada um de nós pode abarcar. Claude Lefort fala na obra de pensamento exatamente como obra, isto é, trabalho da reflexão sobre a matéria da experiência, trabalho da escrita sobre a reflexão e trabalho da leitura sobre a escrita. O texto, por sua própria força interior, engendra os textos de seus leitores que, não sendo herdeiros silenciosos de sua palavra, participam da obra na qualidade de pósteros. A obra de pensamento, excesso das significações sobre os significados explícitos, engendra sua posteridade - o trabalho da obra é criação de sua própria memória justamente porque a obra não está lá (no primeiro texto) nem aqui (no último escrito), mas em ambos. O pensamento compartilhado. Outrora, a filosofia o nomeava: diálogo.

Relação com o ausente e com o possível, momento de exteriorização e de interiorização, o trabalho é negação do imediato, mediação criadora. Repondo a memória como trabalho você escreve: "Não há evocação sem uma inteligência do presente, um homem não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais. Acurada reflexão pode preceder e acompanhar a evocação. Uma lembrança é um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito. Sem o trabalho da reflexão e da localização, ela seria uma imagem fugidia. O sentimento

também precisa acompanhá-la para que ela não seja uma repetição do estado antigo, mas uma reaparição. [...] Mas o ancião não sonha quando rememora: desempenha uma função para a qual está maduro, a religiosa função de unir o começo e o fim, de tranqüilizar as águas revoltas do presente alargando suas margens [...] O vínculo com outra época, a consciência de ter suportado, compreendido muita coisa, traz para o ancião alegria e uma ocasião de mostrar sua competência. Sua vida ganha uma finalidade se encontrar ouvidos atentos, ressonância. [.1 A conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda. Repassada de nostalgia, revolta, resignação pelo desfiguramento das paisagens caras, pela desaparição de entes amados, é semelhante a uma obra de arte". Porque o trabalho da obra é trabalho do pensamento perpassado pelo afeto, d. Risoleta dirá; "estou burilando meu espírito", palavras que ressurgem moduladas pelas suas, Ecléa, quando escreve que uma lembrança é como um diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito. Burilar, lapidar, trabalhar o tempo e nele recriálo constituindo-o como nosso tempo.

Porque ao pensar você dá a pensar, porque seu livro é um campo de pensamento, ele faz com o leitor exatamente o que você nos diz que a memória faz com os recordadores; fica o que significa. O que em mim fica? O que em mim significa?

Ecléa, já faz algum tempo você me deu um presente um livro cujo título e conteúdo é A firmeza permanente. * O que em mim fica e significa ao chegar à última linha de seu livro? O sentimento e a convicção de que há em você a coerência permanente. Se rememoro os temas de suas investigações, se durante esta semana de provas da livre- docência torno-me atenta aos caminhos escolhidos por você, não posso encontrar outra expressão para defini-la senão a da coerência permanente. Assim, em seu doutoramento, você decide compreender aspectos psicológicos das mulheres. Mas não de todas, indiscriminadamente. Você vai às mulheres operárias. Curiosamente você escolhe examinar a relação das operárias com a leitura. Curiosamente? Não. Aqueles que não se esqueceram da filosofia da práxis sabem o que significa a divisão social do trabalho em manual/braçal e intelectual. Você, portanto, não se contenta em dirigir-se para um grupo oprimido (as mu (* Trata-se do histórico da greve na fábrica Perus: Mano Carvalho de Jesus, Do mingos Barbé e outros. São Paulo, Loyola, 1976.

lheres) dentro da classe social dominada (os operários), mas ainda busca a maneira cotidiana pela qual se cava e se cristaliza a divisão da figura do próprio trabalhador: as mãos e o pensamento forçados à separação, somente unidos quando a produtividade capitalista assim o exige.

Mas você vai ainda mais longe. Revelando o potencial de inteligência represado nas mulheres operárias, torna ainda mais sinistro o momento em que lhes é permitido ler. Não porque o cansaço fecha as pálpebras fatigadas, nem somente porque o preço dos livros os torna quase inacessíveis a essas mulheres, mas sobretudo porque nos mostra a pobreza do livro consumido, a compensação precária do labor cotidiano pela evasão miserável consentida pela classe dominante. Durante as provas desta semana que faz você? Devendo delinear uma pesquisa acerca do etnocentrismo, entre mil possibilidades, Deus meu, qual é a escolhida por você? O migrante nordestino. Porém, não lhe interessa saber o que ocorre com esse migrante na cidade de São Paulo você quer saber o que se passa com ele no meio operário. Nosso tabu acerca da "boa classe em si" estremece; haveria etnocentrismo entre os operários? Mas você prossegue. Qual o grupo operário que você escolheria para a pesquisa? A construção civil? Não. Seria muito simples. Você se volta para nossa honra e glória, nossa ponte salvadora para escapulir da má consciência - os metalúrgicos da grande São Paulo. É ali que a pesquisa deveria ser realizada para saber como o companheiro é visto e tratado. Em outras palavras, você quer saber se há companheiros.

Você escreve uma dissertação sobre o campo da psicologia social desdobrando ante nós um campo de afinidades com outras ciências humanas, buscando totalidades constituídas pelos grupos humanos, como se estivéssemos diante de multiplicidades culturais simultâneas e harmoniosas. Subitamente, sem nos avisar, você põe em cena uma personagem inesperada; o sioux, aquele que perdeu o direito à totalidade de seu espaço e de seu tempo. Você nos fala daquele que foi espoliado, perdendo o direito ao lugar e à memória. Por fim, você nos dá uma aula sobre as relações interpessoais. La está Aristóteles definindo o homem pela comunidade política participativa, porém, antes que possamos nos dar conta, Gramsci já entrou em cena e somos obrigados a indagar onde se encontra aquela comunidade participativa que definia a humanidade do homem.

A seguir, você nos fala da comunidade intersubjetiva. Lá estão Merleau-Ponty e Lewin, descrevendo os mistérios do diálogo. Lá está Sartre repondo, como Merleau-Ponty a luta mortal das consciências e sua superação num universo paritário. Todavia, sem nos dar tempo de

repousar nessa comunidade intersubjetiva, você nos apresenta a outra face da linguagem, aquela onde reina o poder da assimetria e que nos força a indagar: onde, em nossa sociedade, escondeu-se a comunidade participativa e intersubjetiva?

Sua palavra, Ecléa, está sempre perpassada por enorme tensão - um sino que repica alegremente para, súbito, grave e repentino, soar na cadência de um dobre prolongado. O que nos faz sua tese, hoje? Pondo em nossa presença homens e mulheres, trabalhadores manuais e intelectuais, nos faz ver a opressão que se abate sobre todos na forma da velhice, como se nesta viessem a se concentrar todas as formas de exploração, de espoliação e de segregação, numa síntese que é também a última gota do cálice. O sr. Abel fala do asilo como um gaiolão de ouro cuja porta permanece aberta - "mas fugir para quê? Para onde eu vou?", indaga ele. Que poderá fazer este homem que escreveu: "A mão trêmula é incapaz de ensinar o aprendido?". D. Brites, outrora combativa, indaga: "Que me resta ainda?" e responde: adoecer e morrer. D. Jovina, a menina que não pode esquecer o grito de justiça dos anarquistas, que continua "dando murro em ponta de faca", confessa, enfim, que "nunca chega a vez dos bons".

Todavia, a coerência não está apenas nessa percepção aguda, nesse olhar e nesse coração capazes de devassar as formas ocultas da opressão. A coerência vai mais longe. Para usar uma expressão que lhe é cara, eu diria que há coerência na matéria trabalhada porque há coerência no modo de trabalhar.

Como você trabalha nesta tese? Gostaria de apontar apenas três aspectos de seu modo de trabalhar, embora haja muitos outros que poderiam ser mencionados. Gostaria de assinalar o que ocorre, aqui, com a idéia de ciência, com a idéia de comunidade de destino e com o leitor.

Em instante algum você afirma estar fazendo ciência. Mas também não afirma o contrário. Sua posição, sutil, não deve ser buscada em enunciados explícitos e proclamatórios, mas procurada no que é dito aqui e acolá no decorrer do livro. Assim, você começa declarando que não está preocupada com a veracidade dos relatos nem interessada em medi- los. Não está preocupada em fornecer modelos de pesquisa nem em obedecer aos modelos existentes. Fala na reciprocidade e no intercâmbio dos lugares do sujeito e do objeto, de tal modo que o sujeito investigador, tornando-se veículo da memória dos "objetos" investigados, vê-se diante de sujeitos para os quais e com os quais se dispõe a trabalhar. Explica como trabalhou, as dificuldades dos entrevistados (desde

a falência ou desobediência do corpo até a emoção retendo os fios da lembrança, impedindo a tecelagem). Suas descrições, afirmações e relatos permitiriam ao leitor ingênuo concluir que não está diante de um trabalho científico. No entanto, se assim concluísse perderia o essencial do livro, surdo a uma outra voz que não foi capaz de ouvir. Escutemos essa voz. Você compara a "outra socialização" da criança, aquela feita pelos "pequenos", isto é, avós e empregados, e a "socialização dos grandes", isto é, aquela a que somos submetidos quando arrastados pelo tempo da classe dominante. Qual a peculiaridade da "outra socialização"? Nela "a ordem social se inverte", o tempo que conta é passado e futuro (o "no meu tempo" e o "quando você crescer"). Nela, sobretudo, "os atos públicos dos adultos interessam quando revestidos de um sentido familiar, íntimo, compreensível no dia-a-dia, Os feitos abstratos, as palavras dos homens importantes só se revestem de significado para o velho e a criança quando traduzidos por alguma grandeza na vida cotidiana. Como pode a anciã justificar a glória do filho premiado na academia científica se ele não ajuda os sobrinhos pobres, ou se ele não tivesse curado o reumatismo da cozinheira?", O confronto entre as duas socializações é breve. Todavia, páginas adiante, lemos que a psicologia social - por suposto uma ciência, não é mesmo? - tem dado pouca atenção à socialização dos "pequenos". Essa constatação também é feita de modo breve e sem comentários, Mas ao leitor ocorre uma pergunta: se a psicologia social não se tem ocupado muito com essa socialização, com qual socialização tem ela muito se ocupado? Impossível não responder: com aquela feita pela classe dominante, à qual é auferido o título de objeto científico. Um pouco mais adiante, mencionando pesquisas científicas nas quais a psicologia social observa, mede, demonstra e conclui acerca da incapacidade social dos velhos para o trabalho, você sugere que seria de bom alvitre indagar quem financia tais pesquisas, deixando ao leitor a oportunidade de mostrar- se um bom entendedor para quem meia palavra basta. Num outro ponto de seu texto, acompanhando as análises de Simone de Beauvoir, você afirma: "A sociedade industrial é maléfica à velhice", pois nela todo sentimento de continuidade é destroçado, o pai sabe que o filho não continuará sua obra e que o neto nem mesmo dela terá notícia. "Destruirão amanhã o que construímos hoje." Ora, conferindo à sociedade industrial o estatuto da objetividade e da racionalidade, elegendo-a como tema de investigação, dando-lhe necessidade e universalidade, fazendo-a cânone do real, dando ao mundo social historicamente determinado e submetido ao poderio de uma classe o estatuto de uma

"coisa" quase natural e de uma idealidade inteligível, a psicologia social acredita estar fazendo ciência. Se assim é, talvez não seja descabido indagar se queremos fazer ciência (ou pelo menos, esta ciência). Creio, no entanto, que o ponto alto do questionamento das pretensões à cientificidade encontra-se no momento em que você interpreta a memória política. A uma determinada altura começa a tornar-se nítida a impossibilidade de demarcar fronteiraas entre "esquerda" e "direita" - impossível conciliar o florianismo de d. Brites e de d. Jovina com sua prática socialista real; impossível harmonizar o integralismo do sr. Antônio com a subversão dos filhos à qual, no entanto, o pai dá plena razão; impossível não perceber a ambigüidade do sr. Abel, defensor das tradições e, ao mesmo tempo, fascinado e ressentido face ao populismo corrupto dos dirigentes, muitos dos quais são "quatrocentões" como ele; impossível não ver a idealização da figura de Getúlio feita pelo sr. Ariosto e por d. Risoleta, dos quais, afinal, esperaríamos uma consciência mais ''crítica'' (sic)...



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