Memórias do Cárcere Vol. II



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Graciliano Ramos

MEMÓRIAS DO CÁRCERE

Volume II

Editora Record

TERCEIRA PARTE

Colônia Correcional

1

ENTRAMOS num salão bastante limpo, de pintura nova, ainda com cheiro de tinta fresca, mas desprovido inteiramente de móveis. Era o Pavilhão dos Militares. O chão liso, as paredes nuas valorizavam demais o conforto escasso perdido uma hora antes: o colchão magro, a cama dura, o guarda-vento. Iríamos para a Colônia? Essa pergunta muitas vezes se repetiu; uns aos outros os homens em redor avivavam receios, queriam suprimi-los, enquanto se ambientavam, de cócoras pelos cantos, sentados nas bagagens. Macedo não tinha dúvida. Iríamos, claro. Dizia isso tranqüilo, indiferente à miserável perspectiva, arrumando os troços com pachorra, a concentrar o engenho no problema de armar a rede. Trouxeram-nos esteiras e lençóis. Bem. Davam-nos agasalhos, a situação era melhor que nas prisões das galerias, molhadas, cheias, a gente mal conseguindo estirar-se no espaço exíguo.

Despi-me, busquei nos muros um prego que me servisse de cabide; em falta disto, dobrei a roupa, coloquei-a em cima do chapéu de palha. Retirei da maleta o pijama, vesti-me, arriei na esteira a carcaça, junto à porta, Macedo abriu o saco de lona e ofereceu-me um travesseiro. Homem arrumado e previdente. Com o saco de lona parecia fazer mágicas: extraía dele os objetos necessários e requintes de luxo, até fronhas. Agora exteriorizava contentamento: achara meio de pendurar a rede entre duas grades. Sentou-se nela e acendeu o cachimbo. Tentei repousar, mas um burburinho confuso e as idéias fragmentárias impediam-me o sono. Impossível conservar-me em posição horizontal. Ergui o espinhaço, encostei-me à parede, entretive-me a examinar os companheiros; contei-os várias vezes, sem atinar com o número certo; mexiam-se demais, entregues à arrumação, e atrapalhavam-me a contagem.

Findos os arranjos, atenuada a lufa-lufa, convenci-me afinal de que éramos dezessete pessoas, cinco nordestinos e doze paranaenses. Fixei a atenção nestes, quase todos rapagões fortes e brancos, já percebidos vagamente no andar térreo do Pavilhão dos Primários, envoltos em largos sobretudos espessos. Tinham prosódia esquisita, e sobrenomes exóticos feriam-me os ouvidos: Petrosky, Prinz, Zoppo, Garrett, Cabezon. A minoria, vulgar e mais ou menos cabocla, usava designações caseiras, expressas na fala arrastada, familiar no porão do Manaus, quatro meses atrás: Guerra, Macedo, João Rocha, José Gomes.

Entre os sujeitos ali reunidos, atentei num velho encorpado, vermelho, de óculos, muito sério, visto dias antes na fila, à hora da bóia. Conversamos essa noite, e descobri que ele se notabilizava por vários motivos: falava polaco, citava com abundância versículos da Bíblia e era danadamente reacionário. Precisava desabafar e segredou-me confidências: fora preso por engano; sim senhor, engano, calúnia de inimigos. Via em mim uma pessoa de consideração - e julgava por isso que não iríamos para a Colônia Correcional. Chamava-se apenas Eusébio. Tinha um cargo público (ou não tinha: provavelmente o haviam demitido) e era pequeno proprietário. Em desassossego, evitando convivências prejudiciais, buscava no ambiente insalubre um homem de posses, conservador, esforçava-se por segurar-se a ele e tranqüilizar-se. Iriam mandar-nos para a Colônia Correcional? E porquê? Francamente, seria possível que nos mandassem para lá? A viagem me parecia certa - e o velho Eusébio desesperava. Não senhor, grunhia aflito e encatarroado. Não nos fariam semelhante desacato. Arregalava os olhos, querendo enxergar em mim qualquer coisa além das aparências, elevar-me e salvar-se:

- Uma pessoa de consideração.

Desenganei-o. Conhecendo-me a pobreza, desanimou, sentiu-se desamparado. Extinta a fugidia importância, em vão buscava em roda um sustentáculo, o ar de cólica, o sorriso mofino, uma longa tremura a envolver-se no capote. No descampado social nenhuma saliência. E a criatura infeliz continuou a chatear-me remoendo o seu caso, arrepiando-se em cochichos por ver-se misturado a indivíduos suspeitos. Vivera sempre longe de confusões, gemia fanhoso, terminando os períodos numa interjeição demorada e asmática - "An!" Explicava-se, defendia-se, pegando-se à religião, utilizando pedaços do Velho Testamento, como se isto lhe proporcionasse vantagem. Apesar da minha franqueza, teimava em não julgar-me inteiramente pobre. E afastou-se rosnando com segurança fraca:

- Uma pessoa de consideração. Acha que mandam? L impossível. An!

Essa despedida não me trouxe o isolamento necessário ao arranjo das idéias e ao sossego. As idas e vindas no cubículo, à toa, a ouvir palavras sem nexo, a procura de objetos miúdos na arrumação da bagagem, a dificuldade em amarrar a gravata e calçar-me, enfim a mudança de gaiola tinham-me fatigado em excesso. Que distância havíamos percorrido? Cem metros, duzentos, no máximo uns trezentos. Isso me parecia uma caminhada extensa, e o meio novo, as fisionomias indistintas, vozes a confundir-se exigiam-me grande esforço para simular calma, apreender a significação de uma pergunta e dar a resposta conveniente. A covardia obtusa do velho Eusébio causava-me desgosto profundo. Largos dias, talvez meses, as lamúrias bambas iriam importunar-me, endurecer-me o coração. Nenhuma simpatia, absoluta ausência de piedade. Receava impacientar-me, suprimir com raiva as lamentações pegajosas que nos sujavam, lavar-me delas. Queria dormir, mas sempre estavam a reclamar-me a atenção. A imobilidade e o silêncio adquiriam de repente enorme valor. Dificuldade pensar, e obrigavam-me a isto.

Um paranaense loquaz avizinhou-se, entabulando camaradagem fácil, esteve meia hora a narrar-me as divergências existentes no seu grupo, intelectuais de um lado, operários de outro, abominando-se ou desprezando-se. A curiosa revelação desanuviou-me um instante e despertou ligeira curiosidade. Intelectuais? Que diabo significava isso? Inteirei-me a custo. Designavam-se desse jeito os indivíduos alheios a qualquer ofício manual: Herculano, estudante de músculos débeis e rosto enxofrado, o velho Eusébio, alguns pequenos funcionários de uma estrada de ferro. Mais essa. Iam forçar-me a conviver, tempo indeterminado, com pessoas que se justapunham, sem chegar a entender-se. Não me eximiria de muitos erros: certamente esqueceria as diferenças e a minha linguagem feriria susceptibilidades.

A fadiga me entorpecia a carne, mas o fervedouro de pensamentos desconexos não me deixaria repousar. Livre do informante, alonguei-me na esteira, fechei os olhos, envolvi me no lençol curto demais. Os pés ficaram descobertos, o ar frio da noite picava-me as orelhas. Encolhi-me, tentei defender-me das ferroadas penetrantes, vencer os arrepios. A umidade atravessava o tecido fino, e não havia meio de aquietar-me. Escolhera por desgraça o pior lugar, junto à grade; um ventinho insinuante e velhaco trazia-me a garoa de julho. Se o esgotamento não me prendesse, iria alojar-me noutra parte. Nem me lembrei disso, provavelmente, e na sala não havia canto disponível.

Descerrando as pálpebras pesadas, inteirava-me de minúcias que não se articulavam; o conjunto era uma aglomeração de tipos reconhecíveis um instante e logo a esfumar-se em neblina; envoltórios de redes e capotes davam-lhes a feição vaga de fardos instáveis. A fraqueza visual impedia-me identificar as pessoas mais distantes. Necessário usar óculos quando me soltassem: à luz escassa dos cubículos, durante alguns meses as letras haviam dançado no papel. Falas vagarosas me arrastavam de chofre ao porão do Manaus, e três figuras ressurgiam: João Rocha, o pequeno dentista Guerra, José Gomes. De que modo iria comportar-se o pobre Guerra, dias antes acometido por um acesso de terror, a urinar-se e a tremer, querendo a presença de mamãe? Garrett e Petrosky, encostados ao muro, estavam silenciosos e carrancudos. Tinham esses nomes, sem dúvida, mas não consegui saber qual dos dois era Garrett, qual era Petrosky. Incomodavam-me as frases soltas, para mim vazias como tagarelar de papagaios. Descobri aos poucos sentido nelas: os operários arredavam preocupações contando anedotas escabrosas. José Gomes ria-se demais das próprias histórias, repisando minúcias, como se desconfiasse da inteligência dos outros. Não alcançando o resultado previsto, de nenhum modo se alterava: divertia-se imenso com as narrativas insípidas. A gente do sul procedia de igual maneira, pouco lhe importando o juízo do auditório. A ausência de espírito, a monotonia, a pobreza de concepção, a linguagem perra, tudo indicava falta de exercício mental, insinuava-me cautela, a precisão de acomodar-me ao conceito simples e direto: um paradoxo ali originaria incompatibilidades inevitáveis. Desagradável naquele meio o diálogo curto que tive com um trabalhador. O homem falava-me nas vantagens da autocrítica. E eu, sem refletir: - "Exato. Devo conhecer os meus defeitos, para conservá-los todos com muito cuidado." Surpresa viva, interjeições - e este desgraçado remate incompreensível ao interlocutor honesto: - "Claro. Se os meus defeitos se sumirem, deixarei de ser eu, mudar-me-ei noutro. Quero guardá-los, não perder um." Opiniões desse gênero alarmariam as criaturas singelas ocupadas em remoer facécias estultas.

Súbito uma pilhéria cheia de sal arrancou-me uma gargalhada, abriu-me os olhos, virou-me na esteira, ergueu-me sobre o cotovelo. Fora Cabezon que me provocara esses movimentos, o indivíduo a quem davam tal nome, com certeza um dos intelectuais mencionados pouco antes, amanuense oficial administrativo, ou funcionário pequeno de uma estrada de ferro. A situação dele era mais ou menos igual à minha. Revelava-se num trocadilho obsceno, mas isto não causou grande efeito na assistência. Os casos insulsos continuaram. O velho Eusébio tentava levar a conversa para assuntos graves. E Macedo, balançando-se na rede, cachimbava e sorria.

2

NO DIA seguinte pela manhã, Herculano trepou-se a uma janela e, agarrado aos varões, ficou lá de poleiro como papagaio, buscando entender-se com as outras celas. Gritos nos deram a notícia de que uma turma viera dias antes da Colônia e estava ali perto. Desejei saber os nomes dos recém-chegados; como a voz fraca me impedia comunicação, o estudante amarelo encarregou-se de transmitir a pergunta. Berraram-nos uma lista, abafada e incompleta; algumas pessoas reduziam-se a sílabas escassas, não havia meio de reconhecê-las; quatro ou cinco surgiam claramente, quase todas enviadas na primeira leva, naquela noite em que Desidério levantava o braço com raiva, entortando mais o bugalho vesgo, e Tamanduá se empavonava, metido no poncho vermelho.

Trouxeram-nos o café, muito ralo, e um pão sem manteiga. Aí notaríamos uma advertência, se ela fosse precisa. O pão era exatamente igual ao fornecido no Pavilhão dos Primários, mas tiravam-nos o pouco de manteiga rançosa, obrigatória lá. Com certeza não procediam assim por economia: a supressão visava a um fim, aliava-se às esteiras, ao ajuntamento em local exíguo, aos lençóis curtos e finos em tempo frio, a indicar-nos uma degradação. Iam impor-nos outras mudanças, apagar de chofre os restos de conforto ainda conservados na véspera e forçar-nos a contrair novos hábitos. Esses choques nos perturbam em demasia, e o pior é não sabermos até onde nos levarão: a instabilidade nos impede entrever qualquer limite.

Mandei comprar pelo faxina um litro de leite. Dias compridos o meu alimento seria esse litro de leite, o pão e alguns canecos da lavagem turva, de gosto adocicado, que eu insistia em beber, esquecendo o aviso misterioso de um preso velho e experiente. Em geral nos davam essa refeição com a porta fechada: o bico do bule se encostava a uma travessa, estirávamos os canecos e recebíamos os pães através dos ferros. Nos cubículos era assim que faziam. Mas naquela manhã destrancaram inopinadamente a grade, os faxinas entraram com o saco de pães e o vaso enorme de folha, e o guarda nos permitiu andar no pátio.

Engoli o café, abalamos todos em busca do Pavilhão onde se aboletavam refugos da Colônia. Encontrei um bando a comprimir-se numa abertura estreita, e nos espaços que havia entre os corpos surgiam rostos magros e desbotados. Outras fileiras deviam empurrar-se, invisíveis, pois do fundo, escuro, fumacento e fuliginoso, partiam vozes percebidas em qualquer parte. Os homens da frente, quase nus, cabeças lisas, tinham muita sujeira, muita amarelidão, órbitas cavadas, bochechas murchas. Deixavam provavelmente a enfermaria. A primeira vista não reconheci nenhum. Quando principiaram a falar, depressa, em desordem, como se o tempo não desse para todos, fui notando aqui e ali sinais guardados inconscientemente. Sorriam, descobrindo as gengivas pálidas. O esqueleto que o moço da rouparia tinha no punho voltou-me ao espírito. Os ácidos não haviam desfeito a medonha tatuagem. Por cima da cicatriz que repuxava a pele e se estendia num desenho róseo, sobressaíam costelas, vértebras, o riso da caveira. As figuras estranhas apinhadas ali riam. Riam para mim, como se eu fosse uma carcaça também. Quantos meses fazia que tinham vivido comigo no Pavilhão dos Primários? Dois meses. Era, dois meses, pouco mais ou menos. E estavam assim. Talvez ignorassem que estavam assim. Estremeci. Não me acharia daquele jeito? Olhei o pijama curto e rasgado. Ultimamente dormia pouco, alimentava-me com dificuldade. Extingui a comparação desagradável. Farrapos. Regressavam da Colônia, farrapos. Iriam reconstituir-se, renascer, mas ali eram farrapos. Examinei-os. Bem. Aquele devia ser o Newton Freitas, o camarada alegre e ruidoso que no Pavilhão soltava risadas enormes, com ou sem propósito. Era ele, pensei descobrindo nos ossos do rosto lívido sinais do antigo Newton. Sem dúvida, lá vinha a gargalhada, uma fria gargalhada sem ânimo. E o sujeito baixo, de cuecas, barbudo em excesso, a mexer as mandíbulas com jeito de caititu? Seria o Pessoa? Com os diabos! Anastácio Pessoa, tipo neutro, alheio à questão social, posto em liberdade, supúnhamos. Inofensivo e discreto. - Você também, Pessoa?

Recordei-me dele, vi-o na fila, manejando um romance inglês, à espera da comida, num apuro escandaloso. Não se decidia a vestir pijama, nivelar-se aos outros, pois ia de morar pouco entre nós. Um equívoco, tinham-no agarrado por engano. Com certeza iam chamá-lo, explicar-se, mandá-lo embora, com desculpas. E nesta convicção isolava-se, de meias, sapatos lustrosos, calça de casimira, suspensório, camisa de seda e gravata. Havia de ficar ali sem saber porquê? Saíra - e por isto recebera abraços e parabéns. Agora voltava da Colônia Correcional sujo, magro, hirsuto, de cueca e tamancos. No risinho insignificante e nos modos encolhidos logo distingui Bagé. O nome dele me surgira pela primeira vez na galeria. Distraía-me a olhar as paredes e o teto, um dos poucos meios de encher o tempo ali. As paredes estavam cobertas de inscrições e desenhos; no teto oscilavam penduricalhos feitos com essas lâminas finas de metal usadas em carteiras de cigarros. No meio dos letreiros, alto, onde não chegava braço de homem, uma lista de presos, em tinta azul. Embaixo, uma data e o motivo da prisão. Alguns indivíduos expostos no rol tinham-me aparecido mais tarde. Numerosas voltas e viravoltas arbitrárias - e diante de nós se achavam dois: Bagé e Medina. Também reconheci Agrícola Baptista, o Tamanduá, que, em briga da Coluna Prestes, recebera uma bala na perna e claudicava. Um guarda veio abrir a porta, reunimo-nos à sombra de uma árvore no pátio. E as notícias choveram, em pedaços, de cambulhada.

- Bichos, exclamou Tamanduá. Vivemos como bichos.

Um Tamanduá diferente, sórdido e escuro, sem a cabeleira arrepiada. E o poncho, que fim levara o poncho vermelho, afrontoso e ostensivo como bandeira de guerra?

- Num curral de arame farpado, como bichos, prosseguiu Tamanduá.

Disse mais coisas a respeito de latrinas, banheiros, disenteria e falta de papel, mas o rebanho de criaturas humanas em curral de arame farpado buliu comigo e afastou o resto da exposição. As minúcias embaralhavam-se, perdiam-se.

- Para onde vão mandar vocês? perguntou Medina. Para a Colônia, evidentemente; isto me parecia claro. Medina espalhou a vista em redor, analisou-me a cara, refletiu e moveu a cabeça discordando: não nos meteriam na Colônia. Aborreci-me. Quereria tapear-nos com emolientes? De nenhum modo; interpretei mal as disposições do moço: não nos enviariam à ilha Grande, infelizmente. Procurou exibir-me a vantagem de permanecer lá umas semanas.

- Não digo meses, que você não agüentaria. Algumas semanas apenas. Muito instrutivo.

Era um rapaz frio, risonho, desdentado. No Pavilhão dos Primários tinha uma cabeleira vasta e barba longa, mas isto desaparecera. A boca murcha dava-lhe um ar insignificante e avelhantado.

- Boa experiência, creia; material abundante. Seria magnífico você estudar aquilo.

Em seguida à estridência e aos arrepios de Tamanduá, não me entusiasmei com as palavras de Medina; achei-as realmente absurdas: se resolvessem matar-me, a abundância de material seria inútil. Newton Freitas anunciou o propósito de narrar em livro a viagem no porão do Campos. Excelente idéia. Eu é que não tinha desejo nenhum de escrever. O guarda surgiu com o molho de chaves. Fizemos as despedidas e novamente nos trancaram.

3

AGORA na prisão havia mais espaço: deixaram aberta uma grade e nosso mundo se estendeu alguns metros, pudemos andar na sala vizinha. Estive ali parte do dia, a contar os passos de uma a outra parede, a imaginação presa no curral de arame, as palavras insensatas de Medina fervilhando-me na cabeça. Esforçava-me por varrer essas coisas aflitivas, um minuto conseguia amortecê-las, embalar-me numa vaga impressão de esquecimento; logo se reavivavam, eliminando recordações, a insinuar-se nos fatos da vida nova. Caso singular: a desgraçada perspectiva me dava prazer. Não era talvez isso, pois ao mesmo tempo sentia o coração desmaiar numa espécie de angústia, e alarmava-me servir de campo ao medonho jogo de emoções incompatíveis. As notícias me arrefeciam, animavam terrores latentes, e em vão queria livrar-me de uma horrível curiosidade malsã. Na verdade Medina tinha razão: pus-me a afirmar isto sabendo que afirmava uma estupidez: as minhas observações no lugar infame não valeriam nada. Mas a sujeira imensa, a disenteria, a falta de água, um milheiro de homens a apertar-se num curral de arame não me deixavam sossegar. Aquilo merecia ser visto, pelo menos serviria para indicar a nossa resistência, de algum modo fortalecer-nos. Havia nesse desejo mórbido quase um desafio aos maus tratos, às humilhações, e se de repente nos largassem na rua, nem sei se me consideraria em liberdade ou vítima de um logro.

O velho Eusébio veio trazer-me a sua camaradagem mofina, entrou a passear comigo, a voz bamba a sumir-se na pergunta ansiosa mastigada na véspera. Estivera no pátio, debaixo da árvore, os olhos e os ouvidos atentos, e os molambos de esperança guardados preciosamente iam-se esgarçando.

- Nós vão mandar para a Colônia? Será possível? Novamente a confusão pronominal, observada no Pavilhão, me chocou; não havia de acostumar-me ao diabo da sintaxe encrencada. Isso jugava-se aos receios e à moleza da criatura, aos gestos ambíguos, às citações do Velho Testamento, e uma forte repulsa me enchia o coração. Impacientei-me, acho que fui grosseiro; nenhuma piedade me levava a minorar os sustos do menino grisalho. Respondi com monossílabos ásperos, continuando a absorver-me nas impressões de Tamanduá, na extravagância de Medina. Restar-me-iam forças para agüentar-me na piolheira infame? Essa pergunta já me viera ao pensamento ao aniquilar-me no porão do Manaus, respirando a custo, andando sobre porcarias, meio desfeito em suor no calor de fornalha. Na primeira noite julgara-me perto de enlouquecer; depois me habituara: uma semana a ver as algas pela vigia, trepado numa costela do cavername; a fumar na rede presa à boca da escotilha; a redigir notas a lápis no camarote do padeiro. A gente se acostuma depressa às mais inesperadas situações. O que me alarmava era ter vivido muitos dias em jejum. Provavelmente ia agora suceder o mesmo; enjôo à comida, a língua seca, os beiços a rachar; o estômago já se entorpecia, como a bordo. Certamente me acabaria de inanição.

- Sim. É. Claro. O senhor tem dúvida?

Essas concisões faziam brechas na arrepiada lengalenga do paranaense, queriam destruí-Ia, mas o esguicho de lamúrias não cessava, atingia-me, dissolvendo-me a estranha demência. Idiota. Nenhum sujeito normal deseja rebaixar-se e arriscar-se a morrer de fome. Que me importavam as figuras tristes consumidas no curral de arame? Preferível não conhecê-las. Para quê? Ladrões, vagabundos, malandros. Tinha-me arrastado mais de quarenta anos longe deles, sem cogitar da existência deles, e surgia-me de chofre a necessidade besta de uma aproximação inútil. Idiota. Injuriava-me por dentro, mas a zanga exterior convergia para o velho Eusébio, revelada nas sílabas cortantes:

-- Isso. Pois não. Claro, claro. Todos. Não está vendo? Receava exceder-me, engolia impropérios. Afastei-me, a arrasada personagem me seguiu ronronando o seu caso, inocentando-se. Desculpava-se usando o plural, envolvendo-me na justificação. Havia qualquer suspeita contra nós? Não havia. Tínhamos entrado em desordem? Não tínhamos. Éramos inimigos de barulhos. E então? Porque estávamos ali? Hem? E porque essa história de Colônia Correcional? Os lamentos enfureciam-me, atazanava-me por evitá-los; a maneira hostil e as passada largas frustravam-se: em qualquer parte achava-se ao pé de mim a sombra queixosa. Essa convivência de naturezas inconciliáveis, prolongando-se, chega a ser tortura, e explica brutalidades, rompantes de que não nos julgamos capazes e nos envergonham.

Afinal, depois de muitos ziguezagues nas duas salas, refugiei-me num vão de porta, busquei distrair-me olhando o pátio, jogando miolo de pão às aves residentes na árvore próxima. Eram pardais sem conta e devoravam tudo com rapidez enorme. Algum tempo isolei-me; o rumor das asas, os chilros e o verde-claro dos ramos na manhã luminosa acalmaram-me. Vencidas as idéias malucas, resolvi descansar na esteira, decifrar a conversa dos operários, mas não consigo lembrar-me do que eles diziam. Os pardais tinham-me dado uma tranqüilidade aparente. Levantava-me, deitava-me, bebia goles de leite e canecas do pretume doce e repugnante que o faxina vendia à grade. O futuro já não me inquietava; esvaíam-se as tremuras do velho Eusébio, o desconchavo de Mediria, e a viagem para a Colônia deixava-me indiferente; impacientava-me, porém, ficar sentado, imóvel, na incerteza. Difícil desenovelar tais incongruências. Experimentamos isto, suponho: os acontecimentos de amanhã não nos interessam, são como se se referissem a outra pessoa; hoje não encontramos paz, as horas longas enchem-se de fatos desagradáveis, necessitamos fingir paciência e isto cada vez mais nos enerva.

Herculano, em rápida arenga, despertou-me a atenção. Arrolou as nossas dificuldades, exprimiu a conveniência de mutuarmos auxílio e acabou sugerindo que esvaziássemos os

bolsos, contássemos o dinheiro e o dividíssemos eqüitativamente. A inesperada proposta não causou entusiasmo. O velho Eusébio franziu o nariz e arredou-se; os homens da estrada de ferro e os operários fizeram-se desentendidos; os nordestinos encolheram-se reprovando. Ante a negativa fria e silenciosa, chamei de parte o estudante:

- Ó Herculano, se não é indiscrição, quanto é que você possui?

- Eu? Nada, cochichou o rapaz. Tinha vinte mil-réis, que perdi no jogo.

Diabo! Um truque infantil. E eu havia ganho a pobre cédula do companheiro, deixando-o mais fraco e mais pálido. - Porque não me disse, homem? Dei-lhe esse prejuízo, sem querer.

Abri o porta-níqueis, retirei uma das poucas notas lá escondidas:

- É uma restituição. Talvez seja a mesma que recebi naquela noite.

Aliviada a consciência, pus em ordem os meus troços, coloquei-os junto à esteira, ao alcance do braço, o chapéu em cima da valise, a roupa dobrada em cima do chapéu. As notas redigidas em vários meses davam-me receio. Apesar dos longos intervalos de marasmo e preguiça, alargavam-se em quarenta ou cinqüenta páginas cobertas de letra miúda, as linhas tão próximas que as emendas se tornavam impossíveis. Ocultavam-se entre cuecas e lenços, mas com certeza não conseguiriam entrar na Colônia. Não cabiam dentro dos sapatos; imaginei guardá-las por baixo da camisa, enfaixar as pernas com elas; necessitava barbante para amarrá-las. Escapariam à revista?

Os diálogos em roda iam-me descobrindo alguns indivíduos. Petrosky era o sujeito louro, grande, forte, de rosto severo. O moço de cabeça redonda e fala doce e engrolada chamava-se Zoppo. Como se arranjaria na viagem desgraçada o pequeno dentista Guerra? Um dia caíra da cama, esperneara gritando por mamãe. Coitado. Iam arrasá-lo. Agora havia sossego no pátio; o calor e a claridade recolhiam entre ás folhas os pássaros mudos.

Um guarda de olhar manhoso destrancou a porta e os faxinas entraram com o almoço Fugi, um aperto na garganta, examinei o exterior deserto, para não ver a comida,

não podia evitar o cheiro dela, e a náusea me atormentava. Sensação igual à experimentada meses atrás, no porão do Manaus. A língua seca, os beiços iam rachar-se, a ponta do cigarro se colaria à pele sangrenta. Agachados nas esteiras, diversos homens sentiam prazer em mastigar, e o apetite deles me causava uma estranha indignação. O som das colheres nas marmitas feria-me os ouvidos, era insuportável.



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