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Problemas de estilo e sociedade
Roberto Victório Mestre em Composição pela UFRJ e Doutor em Etnomusicologia pela UNIRIO. Professor de composição da UFMT, diretor musical e regente do grupo Sextante de música contemporânea e coordenador da Bienal de Música Brasileira Contemporânea.
Fernando Bini, professor de História da Arte e Estética na UFPR e PUC. Artista plástico formado pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Pesquisador e crítico de arte desde os anos 70, tem se dedicado as pesquisas teóricas sobre arte contemporânea, à critica de arte e do design e apresentações de exposições de arte. Destacando seus trabalhos sobre João Turin, Guido Viaro, o movimento da renovação da arte paranaense, Jefferson César, Helena Wonk, Josué de Marque, Fernando Velloso, Violeta Franco, Jair Mendes entre outros.
Mauricio Dottori Mestre em Música pela USP e Doutor em Música pela Universidade do País de Gales.

1 - Em um contexto atual como você compreende o conceito de estilo na música e nas artes em geral considerando a relação que se estabelece entre a formação de estilos coletivos e a produção cultural de comunidades específicas.

Mauricio Dottori

Eu tenho, já há algum tempo, associado a idéia de estilo, em grande parte, à idéia de gêneros. Não é exatamente a mesma coisa, mas a associação de ambas as idéias, especialmente em música, torna elucidativo, porque o gênero é um território que é definido pela escolha de algumas práticas composicionais.

Vou explicar. Cada gênero musical é definido por algumas características. Essas características diferenciam, por exemplo, uma valsa de um samba, um samba de uma cantata de Schoenberg, e assim por diante. A relação que existe e que me interessa sempre, é a relação entre um gênero e a estrutura social que dá sustentação e origem a esse gênero. Então, o gênero é um território. Entre o gênero e o estilo temos certa diferença, mas, atualmente, como não existem mais relações unívocas entre estrutura social e gêneros - porque nós temos uma dispersão de gostos e uma dispersão de interesses nas artes -, existe uma explosão tanto de gêneros - que é possível ouvir simultaneamente - como de estilos em que esses gêneros poderiam ser organizados. Quando olhamos para trás, na história, podemos definir o "estilo barroco", o "estilo renascentista", etc. Quando olhamos para o presente, existe uma infinidade de coisas que podemos definir como contemporâneas justamente porque inexiste um vínculo entre as estruturas sociais que existem hoje e que sustentam a música e os interesses coletivos. Há uma dispersão total. Eu acho que o fim da música enquanto arte está ligado a isso. Como não existem estruturas sociais que sustentem a arte musical, as pessoas se deixaram levar pela idéia de que a arte musical podia ser sustentada pela indústria de entretenimento. As pessoas compraram essa idéia. O problema disso é que se a indústria de entretenimento, a princípio, multiplicava a arte e o artesanato musical já existentes, hoje, ela produz o próprio produto. A distinção entre o que é arte e o que é artesanato não interessa à indústria, e as pessoas se deixam confundir, então, com o que não é arte e não é artesanato musical - é indústria -, e acreditam que esse produto da indústria continua sendo música.

Então, nem tudo o que é música é arte, e a gente tem esse mau hábito - péssimo hábito -, de confundir música e arte. O gênero "música de arte" - se é que é possível pensa-lo dessa maneira, como um estilo -, que é esse estilo que perdeu a sustentação social porque as pessoas entendem que quem sustenta música são os ECADs e as indústrias da música que existem por aí, ainda se sustenta devido ao interesse de um minúsculo grupo de pessoas na arte da música, e é esse estilo contemporâneo, a música de arte, que me interessa - essa música com essa sustentação mínima, que é essa arte que, como a arte dos mosaicos, morreu. A arte da música, se não morreu, está em situação periclitante, está em situação de grande perigo, de risco de vida.

Eu gostaria de chamar a atenção para uma coisa que talvez o Bini [Fernando Bini] possa até me contradizer: Uma coisa importante nas artes em geral, no século passado, foi a idéia de que se poderia ter uma arte só com conceitos, uma arte com idéias, e, já que a arte havia se desvinculado dessa função social que tinha antes, seria possível pôr, por exemplo, um penico no museu e dizer que isso é uma obra de arte. Ou ainda, seria possível fazer um silêncio durante 4 minutos e dizer: "Isso é uma obra de arte". De fato, com essa ausência de relação entre arte e sociedade - quando ambas estão desvinculadas -, isso seria até possível, mas somente nessas condições, porque nenhuma sociedade humana havia ainda reconhecido o silêncio como música na história das artes artesanais, da música artesanal e da música de arte. Então, se alguém é capaz de dizer que o silêncio é música, está dizendo também: "Tudo pode ser música"; está dizendo que essa britadeira distante pode ser música. Mas também, é possível dizer que nem tudo que se põe numa sala de concerto - nem tudo o que se ouve - é música. Acho que essa era a idéia original do Duchamp [Marcel Duchamp]. Era dizer: "Se vocês acham que todas essas bobagens cubistas que vocês estão vendo são obras de arte, eu vou mostrar para vocês que vocês acham que qualquer coisa é obra de arte". E põe um penico - que não é um penico, é a célebre fonte - num museu e as pessoas dizem: "Oh! Se isso está no museu, então é uma obra de arte também". As pessoas compram essa mitificação e aceitam isso. A idéia dele era: "Vou mostrar aos idiotas que eles acham que qualquer coisa no museu é obra de arte", e faz isso. E aí, os idiotas que continuam cuidando dos museus dizem: "Vamos colocar qualquer coisa no museu e isso vai ser obra de arte".

Portanto, a arte musical não pode ser confundida com a que se toca nas salas de concerto. Não é só porque se toca em sala de concerto que é arte. Assim como tocar de um determinado jeito não torna aquilo artístico. Deveria haver alguma outra palavra para definir melhor o que quero dizer, mas não existe. Às vezes eu digo: "O sujeito esta ouvindo um som", porque não está ouvindo música. Está ouvindo uma série de sons no tempo.

Enfim, os meios de produção industrial dificilmente levam - ou nunca levam, atualmente - a nada que possa ser chamado de arte. Digo atualmente, porque antigamente levavam - como eu disse, a indústria multiplicava o que existia. Hoje, nem o que temos na sala de concerto necessariamente é arte. Então, o problema do estilo com que quero fechar é esse: "que diabos nós estamos fazendo aqui?"


Fernando Bini

É evidente que Duchamp, para nós, tem um significado um pouco diferente. Ele realmente bagunçou o território, mas acho que toda a questão que ele levanta é bastante séria. Eu concordo com o Dottori sobre a questão de que toda arte do século XX foi conceitual. Ela vai trabalhar em cima desse vazio que foi comentado pelo Duchamp. Achei interessante o que ele colocou logo de início, essa tentativa de fazer uma associação entre a idéia de estilo e a idéia de gênero. Isso me passou pela cabeça, mas, era um assunto que ia demorar muito tempo para discutir, principalmente na relação de que o gênero é um território e que toda arte contemporânea trabalha justamente com o contrário disso, a desterritorização, isto é, esses abandonos de território.

Parece-me que todo o problema do estilo está associado, pelo menos quando nos referimos às artes visuais, a um problema de forma, e eu tenho a impressão de que na música também. A determinação do estilo vem pela análise da forma. É claro que existe um conteúdo social e psicológico, mas, toda obra de arte é uma relação entre o artista e seu objeto de trabalho; o seu material. Toda a arte produzida até o período que chamamos de arte moderna foi centrada nesse trabalho sério de forma. Aí eu acho que há um exemplo interessante quando ridicularizaram o Eric Satie porque ele não conseguia fazer nada com forma. Ele não conseguia dar forma à música dele, e, portanto, não tinha estilo. Então ele compôs, acho que em 1903, três peças em forma de pêra. Se era preciso colocar uma forma, por que não colocar a forma de uma pêra?

A arte moderna começa a trabalhar a idéia da forma, destruindo-a, e, depois desse impacto chocante do Duchamp, a forma deixa de ser a grande preocupação do artista, passando a ser mais importante o trabalho sobre o material em si - eu não sei até que ponto, na música contemporânea, há esse interesse na fisicalidade do som. É claro que mesmo assim o resultado final vai sempre gerar uma forma, mas ela não é mais o centro das atenções do artista.

Nas artes plásticas, esse problema de estilo vem num período de crise da arte, logo depois do mais importante período da história da arte, que foi o Renascimento, quando tivemos os grandes gênios. Um historiador - Giorgio Vasari -, que foi um cronista da época, resolveu escrever a história desses artistas. Ele escreveu a vida dos mais importantes pintores, escultores e arquitetos, e, ao escrever essa obra, introduziu capítulos teóricos intermediários, isto é, já dando uma introdução teórica dentro do trabalho biográfico. Ele é o criador da teoria da arte. Nesses escritos ele desenvolve progressivamente um estudo que ele chamou de 'trabalhar à maneira de', o que vai gerar o maneirismo. Então, ele constata, através desse seu trabalho, essa crise que está acontecendo dentro do Renascimento. Depois de gênios do tamanho de um Michelangelo, de um Leonardo da Vinci, de um Rafael, ou mesmo de um Giotto, a maior parte dos artistas tentava seguir esses grandes artistas. Então, existia 'a maneira' - 'pintar à maneira de', 'esculpir à maneira de', 'fazer a obra à maneira de' -, que gerou o conceito de maneirismo. Dentro desse maneirismo ele destaca a idéia da 'bela maniera' - a bela maneira -, isto é, o grande estilo, que consistia em não só imitar os grandes artistas, os seus mestres, mas dentro dessa imitação, criar algo novo. Então, há a idéia de trabalhar, de compreender a música, a pintura, a escultura do seu mestre, e, trabalhando em cima disso, desenvolver o seu próprio estilo. Aqueles que copiam exatamente a obra de outros fazem 'à maneira'.

Dentro dessa idéia de 'bela maneira' existe também a maneira moderna, que é a noção de estilo que temos hoje. Esse conceito de maneira, ou de maneira moderna, vai trazer a questão que os italianos chamam de 'grazia' - 'la grazia dell'opera', 'la grazia de operare'. A idéia é que é necessário trabalhar não só com a obra em si, como trabalharam os grandes artistas do Renascimento - Michelangelo, Leonardo e outros -, mas também com elementos ligados à criação de efeitos ou de afeições. Isso é tipicamente da 'maneira'. Acho que o estilo, para nós, vem muito ligado a isso. A maneira com que se interpreta um detalhe.

Quando nós chegamos, então, na segunda metade do século XX, isto é, quando se passa do conceito de arte moderna para o conceito de arte contemporânea, ou, como alguns chamam, de pós-moderno, a preocupação deixa de ser a da forma. Portanto, os estilos ficam vagos. Sobra esse vazio que mencionou o professor Dottori, sobre o qual o Duchamp tem, de fato, muita culpa. Ao colocar o mictório na exposição, ele realmente deu um pontapé na arte, virou de ponta cabeça, e a partir daí a nossa questão deixou de ser a de decidir se algo é ou não é arte. Quando o urinol foi colocado lá, a questão que ficou é: "Isto é arte?". Mas, ele colocou uma questão ainda mais séria. Ele colocou a questão: "Quando isso é arte?". Se o mictório continuar no banheiro, continua sendo mictorio, mas se ele for deslocado, o que passa a ser? O problema é o deslocamento. É esse o problema que eu levantei, na questão dos gêneros, da desterritorialização.

Quando nós entramos no nosso tempo parece que a preocupação com o estilo, pelo menos com o produtor da obra de arte, é sempre a de estar fora disso. Ele quer estar numa posição que não se prenda a nada. Ele pode se sentir devedor para com os seus mestres, que ele seguiu e de onde ele partiu; daquele determinado estilo; mas sempre a idéia é criar alguma coisa nova; não se enquadrar no estilo. A idéia de contemporâneo é estar fora do estilo. Então, se para o artista isso passa a ser uma verdade, não é verdade para a história da arte. Nós, que estamos construindo a história, temos sempre a necessidade de procurar uma maneira de envolver o artista dentro de um estilo. Sempre tentaremos construir maneiras de poder inserir o artista dentro de um determinado estilo, porque nós temos aí, a formação de sistemas. É o que nós ficamos tentando ver - a que sistema se obedece. Se ele fugir do estilo, vai entrar num sistema qualquer que pode ser inclusive o dos gêneros.



Roberto Victório

Tem duas coisas importantes no que já foi dito. Uma que o Dottori falou e outra que o Fernando falou. Penso que o grande impasse do século XX foi conviver com a forma e não conviver com a forma ao mesmo tempo. O século XX é o convívio com essa dualidade. O que tem forma e o que não tem forma. Esse foi o grande dilema. Tem uma coisa importante, que inclusive está citada na pergunta, quando se fala em estilos coletivos. Isso é muito confuso. Para falarmos de estilo precisamos entender uma coisa importantíssima antes: entender de poética. Não dá para confundir estilo com a estética que nos faz perceber essas mil possibilidades e esses outros afluentes que eu chamo de tendências e correntes, dentro da nossa música de concerto. Se pensarmos na música pop de hoje, é difícil até mesmo de enquadrá-la em algum afluente, porque ela trabalha com uma possibilidade e espectro sonoro tão mínimo - é tudo tão ínfimo -, que não tem nem como enquadrar isso ou falar de estilo ou estilos. É impossível falar em diversos estilos possíveis para esse tipo de música que existe e que nos engole. Nós precisamos entender essa diferença. Para mim, estilo é uma coisa muito mais profunda. Eu associo estilo a uma egrégora, ligada a uma conexão espiritual que vai gerar uma característica sobre as coisas e períodos. Não acho possível falar em estilos individuais. As poéticas é que são individuais, não os estilos.

Então, existem as poéticas, que são os percursos individuais, que são maturados durante anos e anos. Não é da noite pro dia que o compositor chega ao ponto de ser reconhecido, e reconhecido não por uma linguagem musical - porque música é muito mais do que linguagem -, mas por um idioma, uma resultante sonora que vai fazer com que ele seja reconhecido como "a poética do compositor X". Eu ouço aquilo e sei que aquilo é do Maurício Dottori; eu ouço uma peça X e sei que é do George Crumb; e isso porque aquele percurso já foi maturado, já foi petrificado por eles. A percepção e a conexão dessas poéticas criam essa egrégora, que é muito mais do que uma reunião no mundo material. Quando se está lidando com música, com arte, essa conexão é espiritual. É essa egrégora que vai possibilitar a percepção desses diversos estilos e, dentro desses estilos, a percepção das tendências ocorrentes. Mas isso dentro de uma música reconhecida para nós como uma música de espectro sonoro maior - o que nós chamamos de "música de arte". Para esses outros resultantes dessa indústria cultural absurda e louca, sinceramente não consigo nem designar, porque está abaixo do gênero, na verdade. É tudo tão superficial e tão descartável que não tem nem como classificar. No fundo, o problema todo é a linguagem. A linguagem faz-nos desviar demais dos focos. Quando se fala em ritual, não se pode confundir com o cotidiano. É uma diferença grande. Quando se fala em estilo, não se pode confundir com a poética de alguém ou com o gênero pop. Isso é muito diferente.

Então, existem essas poéticas, que vão criando essas egrégoras, que formam esses estilos, que são percebidos pela estética e que tem mil afluentes. No século XX tudo isso se intensifica. Temos uma quantidade de produção muito maior. Por isso é tão difícil ouvir, hoje em dia. Ficou muito difícil depois das duas guerras, porque esse leque de tendências se abriu tanto que ficou difícil para as pessoas acompanhar. Nas artes plásticas também ficou muito difícil. As pessoas não puderam acompanhar, nem mesmo os músicos. Até hoje as músicas compostas no século XX são estranhas para os músicos. Os músicos estudam, mas falta educação e formação para eles perceberem tudo. Dentro de uma universidade é difícil, porque ficou esse grande hiato perceptivo de saber o que é música de verdade. E existe essa diferença - Susanne Langer fala disso. A diferença que hoje existe entre um vaso grego para guardar feijão e um pote. Existe uma diferença; há outro valor: porque, é claro, há esse adereço da memória e esse resgate que faz com que esse material se transforme numa obra de arte.

Agora, a coisa da forma que o Fernando falou também é importante. O Levi-Strauss [Claude Levi-Strauss], no livro Mito e Significado, conseguiu associar todas as formas musicais já cristalizadas com uma forma mítica. Somente uma forma mítica ele não conseguiu relacionar, e pediu, então, para o Leibovich [Nizan Leibovich], que é compositor e regente, criar uma música baseando-se nesse mito, porque esse era o único mito que ele não conseguia associar a uma forma musical. Nesse mesmo livro ele traça uma diferença grande entre mito e música, entre a linguagem escrita e falada, a diferença entre elas, a diferença de semântica entre elas, o como a música realmente não tem essa dimensão semântica, o como ela deixa de ser uma linguagem pela ausência de significado no processo de audição, de percepção sonora. Música é uma coisa mais complicada, eu acho, porque tem essa dupla materialização. A materialização que vem dar esse contínuo que passa por esse papel e, daqui, se transforma numa entidade de três ou mais dimensões que ninguém sabe o que é. A cada vez, por mais bem escrita que ela seja, é sempre executada de maneira diferente. E não é porque é uma peça com escrita relativa. Um simples estudo de Chopin ou uma gavota de Bach cada vez tem uma execução diferente, e isso porque a música é essa entidade que está além das nossas possibilidades de percepção.

Então, isso tudo é muito difícil. Nas artes plásticas ficou muito difícil, mas na música muito mais, porque é uma arte que não vemos - que só conseguimos ouvir e ouvir mal. Tem a questão de que quando falo alguma coisa ou canto alguma coisa aqui, vocês vão ouvir diferente. É o que a semiótica chama de interpretante, esse filtro que existe entre nós. Isso faz com que um conteúdo chegue diferente no receptor, segundo a experiência de cada um, a expectativa de cada um.

Enfim, é tudo muito mais complicado do que somente discutir essa definição de estilo. A música é muito mais difícil de entender porque ela é uma entidade multidimensional. Nós pensamos que ela vive nas três dimensões como nós, mas só percebemos isso porque somos seres horríveis que vivem somente em três dimensões. Nós estamos chegando lá, e a música está num estágio maior. A mente consegue perceber música, mas é preciso muito mais do que isso.

2 - Em que medida a noção de estilo influencia os padrões de orientação pedagógica e as estratégias de comunicação nos meios acadêmicos?

Fernando Bini

Antes de responder eu gostaria de fazer uma complementação ao que falei antes. O nosso gosto artístico, em geral - eu acho que na música talvez seja até mais forte -, está ainda no romantismo. Nosso não, porque eu não gosto do romantismo. Mas em termos de escolha artística, as pessoas ainda não aceitaram o século XX.



Mauricio Dottori

Os ouvintes de música de arte em geral estão no romantismo. Os ouvintes em geral, não. Estes não estão nem aí. As pessoas gostam do que lhes é dito para ouvir. Virou um negócio de organização de rebanho. O texto é mais importante.



Roberto Victório

Muitas vezes as pessoas nem ouvem o discurso, nem ouvem o que está acontecendo. Isso porque elas vivem nesse pilar triádico - melodia, harmonia e ritmo - que ainda hoje, em 2005, século XXI, persiste, de certo modo, na música popular, mesmo já tendo sido abdicado desde a virada do século XIX para o século XX. Abdicado teoricamente, porque foi estabelecida uma fronteira - como foi do sistema modal para o sistema tonal, como foi estabelecido do sistema tonal para o atonal -, mas as pessoas transitam nisso ainda. E essa indústria acabou comprando essa idéia, que nos distanciou cada vez mais desse processo de recepção.



Fernando Bini

Em artes plásticas acontece a mesma coisa. A abstração não foi aceita. Do ponto de vista acadêmico, há a lentidão e a vagarosidade da academia para absorver o que acontece fora, mas quanto a isso nós não temos muita saída. O que acontece dentro da academia é o acadêmico. É a imposição de se trabalhar sobre determinados estilos. Eu não sei como isso é feito na música, mas dentro das artes plásticas se procura analisar os estilos que existem, os estilos do passado. Por sorte, os cursos de arte na nossa universidade (UFPR) tiveram o seu início depois da grande influência acadêmica, dos pintores acadêmicos, de modo que não guardamos muito do ranço acadêmico do século XIX. Ainda assim, se academicizam as vanguardas e, principalmente, o modernismo. Eu não posso falar muito na questão da música porque não é o meu estudo. Eu gosto de música, ouço música, mas não tenho a competência para poder investigar mais. O que eu vejo sempre é que a fonte é sempre a música popular. O problema é: "O que vem a ser o popular hoje?". É muito ligado à idéia da massa, e essa música massificada eu também não consigo ouvir - essa música que toca na rádio, quando começa eu coloco uma fita K7, porque minha cabeça não agüenta.

Enfim, acho que existe alguma coisa em que se deveria prestar atenção. Certa vez, eu ouvi e prestei um pouco de atenção na letra/texto de um rap. É notável, como o professor estava falando, que ali há um texto e me parece que é esse texto que importa ali, naquele contexto. Aquilo era bastante agressivo e imagino que deve haver uma repercussão em termos de produzir alguma coisa.

Enfim, eu vejo que na questão do estilo, realmente, não temos muita saída em termos da universidade, porque mesmo que ela tente escapar disso, continua sendo organizada em cima de sistemas, e esses sistemas, mesmo que não sejam acadêmicos, se academicizam.



Roberto Victório

Para mim é inadmissível que dentro da universidade exista a convivência somente com a música dos séculos passados. Eu falo isso o tempo todo. Sempre briguei e sempre fui expulso de todos os lugares por causa disso. Dirigi uma orquestra de câmara no Rio de Janeiro, fiquei dois anos e fui expulso - era a única orquestra do Brasil que montava obras de compositores vivos, brasileiros: a Fundação de Arte do Teatro Municipal não agüentou. Quando fui pro Mato Grosso, dirigi a Orquestra Sinfônica e aconteceu a mesma coisa. Dentro da universidade é inadmissível ter uma convivência somente com o passado e não ter a convivência com a vanguarda. Isso é um absurdo! No caso de uma orquestra Xerox, um coral da Sadia, isso é compreensível, agora, dentro da universidade é inadmissível. Ninguém da área da Física está ainda analisando a direção da gravidade. O pessoal tem trabalhos mais avançados. Por que os músicos ficam só montando as nove sinfonias de Beethoven?

Então, isso sempre foi um problema, e acontece porque os professores não têm iniciação suficiente para encaminhar os alunos numa coisa mais compatível com a realidade que eles vivem. No nosso departamento, em Cuiabá, estão mudando isso. Nas aulas de história da música, ao invés de começarmos pela música antiga, começamos pelo século XX e século XXI. Fazemos um estudo retrogradativo da história, e só quando dá tempo se vê música medieval.

Fernando Bini

O professor não foi acostumado a ouvir. Ouviu só o clássico e o romântico.




Roberto Victório

É verdade. Na minha graduação, na UFRJ, quando chegou em Debussy acabou o semestre. Não consegui ver os caras legais. Compositor brasileiro então, nem existe. É só Villa-Lobos e olhe lá.

Então, na UFMT, nós estamos começando com os compositores que estão atuando agora - como o Dottori, Ferraz [Sílvio Ferraz], eu mesmo, Zamprogna [Edson Zamprogna], etc. - e só depois começamos a ver George Crumb, Pierre Boulez, e vamos indo para trás na história. Se não for assim não eliminaremos esse ranço.

Os professores de composição das universidades, de dez anos para cá, são compositores. Antigamente, professor de composição era professor de harmonia e de contraponto. Eu fui reprovado sete vezes quando fiz graduação, porque eu não agüentava. Minha prova final das aulas de orquestração foi orquestrar um dó maior. Eu me recusei a fazer. Quando fiz aulas de regência, tive que estudar La Serva Padrona, de Pergolesi. Falei: "Não vou estudar isso. Não dá!". Eu queria estudar pelo menos Stravinsky. Era o mínimo admissível. Os professores não eram compositores e davam aulas de composição, não eram regentes - regiam bandas - e davam aulas sobre a Sagração da Primavera. Não dava mesmo. Agora os professores estão nos lugares certos. Tem vários compositores nas cadeiras corretas e muita gente boa dando aula de composição. O Mannis [José Augusto Mannis] dá aula de contraponto na Unicamp, eu dou aula de contraponto e o Maurício [Maurício Dottori] também. Essas são disciplinas que precisam ser estudadas com compositores, porque há uma diferença grande entre um exercício e uma escritura musical, uma obra, uma música.

Esse problema da educação é muito pior do que o problema do estilo. Educação musical sempre falta. É preciso oferecer isso para as pessoas. Quando eu estava fazendo doutorado, no início de 2000, começamos a analisar uma peça do Boulez na turma. Nessa mesma época, a minha filha, que tem 10 anos agora - na época tinha entre 2 e 3 anos - pedia: "Papai.... Sonata 2 do Boulez.... Põe para eu ouvir.". Enquanto isso, metade da turma de doutorado sequer conhecia a obra. Eu tive que encasquetar. Falei: "Pô!, minha filha, com 3 anos de idade, pede para ouvir a sonata do Boulez, e vocês nem sequer conhecem!". Mas isso acontece porque falta oferecer. Se for oferecida boa música para as pessoas, o espectro delas, a expectativa delas para o que é música será diferente. Minha filha, quando ouve algo ruim, diz: "Papai, que coisa horrível!". Isso porque ela teve uma iniciação, ou seja, o que precisa é somente educação. Não é um grande mistério. É só oferecer para as pessoas o que presta, e não lixo. As pessoas vão se acostumando com cada vez menos, como aquele cachorro que tinha a meta de chegar a comer um só grão de ração por dia: morreu.



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