Meu Pé de Laranja Lima



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Devaneios antropológicos no mundo inventado de Meu Pé de Laranja Lima

Ozaias Antonio Batista1

Orientadora: Profª. Drª. Ana Laudelina Ferreira Gomes

A história da ciência moderna ocidental é marcada pela cisão entre as culturas científica e humanista, culminando na segregação dos conhecimentos científico, artístico, literário, filosófico (MORIN, 2012). Essa separação trouxe implicações para o entendimento da vida, pois a ciência ocupou uma posição hegemônica na produção de narrativas – e os saberes oriundos da cultura humanística foram marginalizados por seguirem pressupostos distintos dos adotados pelo conhecimento científico. A segregação entre essas duas culturas também contribuiu para a consolidação de um modelo de racionalidade disciplinar, através do qual os fenômenos passaram a ser vistos de forma estanque. Daí Boaventura Santos (2010) advogar em favor de um paradigma científico emergente, na tentativa de superar as dicotomias presentes no padrão de racionalidade científica moderna: natureza/cultura; ciências sociais/ciências naturais; objetividade/subjetividade; sujeito/objeto; conhecimento científico/senso comum. Com esse cenário, trazemos a literatura na tentativa de estabelecer um diálogo horizontal com o conhecimento científico, objetivando construir uma interpretação ampliada da realidade. Assim, temos a obra Meu Pé de Laranja Lima (1995) de José Mauro de Vasconcelos para refletirmos sobre o homem e a cultura – tendo em vista que as vivências de Zezé (protagonista) viabilizam uma leitura ampla da realidade que o circunda, sobretudo mediante as reservas de imaginação que lhe são potentes, uma vez que Zezé reconstrói sua realidade através de um pensamento aberto à dimensão do imaginário. Também faremos uso dos pressupostos bachelardianos (2008; 2009; 2008b) para interpretação das imagens literárias encontradas no romance estudado, balizando-as com devaneios poéticos voltados à infância. Apontamos como reflexões parciais a necessidade de aproximação do conhecimento científico com os saberes oriundos da cultura humanista, almejando a superação desta domesticação do pensamento (LÉVI-STRAUSS, 2012) imposta pela ciência ocidental moderna, ansiando um maior aproveitamento da imaginação para a construção de um conhecimento que dialogue diretamente com o mundo das imagens.



Palavras-chave: Meu Pé de Laranja Lima. Devaneio poético. Imagens literárias. Infância onírica. Paradigma científico moderno.

1 – Racionalidade científica ocidental moderna: reflexões críticas
A formação do pensamento científico moderno é marcada pela hierarquização dos saberes, que ganhou força com a fragmentação entre as culturas científica e humanista iniciada no século XVI, sendo adensada no século XX (culminando na disjunção entre a filosofia, artes, literatura e ciência). Dessa forma, os saberes filosófico, artístico e literário foram relegados à cultura humanista e a ciência ficou pautada na especialização dos conhecimentos (MORIN, 2001; 1998b; SANTOS, 2008).

A gradativa valorização dada ao conhecimento produzido pela ciência trouxe consigo a fragmentação dos saberes, os quais foram divididos em compartimentos desconexos que não levam em consideração a integralidade do antropos. Ou seja, o indivíduo foi esvaziado de sua composição bioantropsicosocial em favor de leituras fragmentárias que tendem a interpretar os fenômenos por referenciais metodológicos limitados por barreiras disciplinares (MORIN, 1998b).

O caráter hegemônico que integra a ciência no campo das relações sociais também trouxe implicações para os diversos espaços de produção cultural, uma vez que os indivíduos passaram a priorizar a dimensão racional na formação do pensamento, concebendo a imaginação enquanto faculdade com pouca ou nenhuma importância no processo de formação das ideias (WUNENBURGER, 2005; WUNENBURGER e ARAÚJO, 2006).

Diante dessa realidade, que prima pela fragmentação do sujeito e a valorização do conhecimento científico, Morin (2001) apresenta uma reforma do pensamento a fim de suscitar outra proposta concomitantemente epistemológica e política, uma vez que tal reforma fomenta um ideal de civilidade conduzido pelo respeito à diversidade cultural e de saberes, próximo a um paradigma científico que vê a ciência enquanto construção socio-histórica, fruto dos pressupostos inerentes à dimensão subjetiva pertencente ao humano.

A mudança paradigmática proposta por esta reforma do pensamento dar-se-á através da valorização dos saberes produzidos nas Universidades, mas também dos conhecimentos elaborados pelo “homem comum”, o qual faz uso de uma observação metódica do seu cotidiano para construir os saberes necessários para realização de suas práticas socioculturais (ALMEIDA, 2010).

Essa aproximação entre o conhecimento acadêmico e da tradição garante a constituição de uma realidade social mais democrática, seja no plano cognitivo ou político (SANTOS, 2010; ALMEIDA, 2010), pois deixa de existir uma relação hierárquica entre os saberes tradicionais e acadêmicos na leitura da cultura. Sabendo que essa aproximação em nada contribui para que tais saberes percam suas características sui generis; visa apenas uma maior abertura epistêmica na leitura da realidade.

Tal reforma do pensamento poderá trazer outra compreensão antropológica, através da qual o sujeito passará a ser visto não apenas enquanto detentor da dimensão racional, mas também o imaginário será assumido na interpretação e produção do sociocultural (WUNENBURGER 2003; 2005). Compreendo as faculdades racional e imaginária enquanto os fios do prosaico e poético que tecem o viver, faço uso das palavras de Morin para subsidiar minha interpretação do homem e da vida: “Poesia-prosa constituem, portanto, o tecido de nossa vida.” (1998, p. 36).

Nesse sentido, podemos compreender que todas as nossas construções são fruto da interlocução razão-imaginação, embora o paradigma moderno tente colocar a ciência enquanto produto apenas de reflexões racionalmente orientadas (WUNENBURGER 2005; 2003; WUNENBURGER e ARAÚJO, 2006; SANTOS, 2008).

Compreendendo o literário e o científico enquanto construções proporcionalmente racionais e imaginárias (VIERNE, 1994), o presente trabalho aproxima ambos os conhecimentos na leitura do real, tendo em vista que tanto o científico quanto o literário são importantes produtores e propagadores da cultura. Nessa dialógica, adotaremos os pressupostos inerentes ao paradigma científico emergente (SANTOS, 2008), tendo como campo empírico o romance brasileiro Meu Pé de Laranja Lima (1995), cuja autoria pertence a José Mauro de Vasconcelos (1920 – 1984).

Também estaremos discutindo as bases que constituem uma proposta epistemológica emergente (SANTOS, 2008) na aproximação dos discursos literário e científico. Essa interlocução também nos auxiliará a refletirmos sobre uma perspectiva antropológica que contempla o racional e o onírico na formulação do pensamento (WUNENBURGER, 2005; 2003; WUNENBURGER e ARAÚJO, 2006), entendendo que tanto o literário quanto o científico são fruto da interlocução razão-imaginação.

Nossa estratégia metodológica abarcará a fenomenologia da imaginação (BACHELARD, 2009; 2008; 1993) para refletir sobre as imagens literárias presentes em Meu Pé de Laranja Lima (1995), as quais nos conduzem aos devaneios voltados à infância. Sobretudo em decorrência de Zezé (protagonista do romance) interpretar a realidade através da relação que estabelece com seu pé de laranja lima e as demais personagens que dão vida a obra.

Faremos uso da imaginação criadora (BACHELARD, 2008; 2009) a fim de dialogarmos com as imagens literárias (BACHELARD, 2008b), entendidas também como discursos autônomos acerca do homem e da cultura – tendo em vista que a imagem nos viabiliza um entendimento novo, inédito, isto é, não limitada ao campo representacional (GOMES, 2013; 2015).

Essa articulação do científico com o literário é pensada como estratégia para construir um modelo de racionalidade amplo, não limitado às fronteiras do racional – mas contemplando de forma profícua a dimensão do imaginário. Assim, adotamos o lema: “... arte e conhecimento como estratégia do pensamento...” (GOMES, 2015, p.1), sobretudo porque a dimensão artística nos viabiliza (re)trabalhar nosso estado poético, tão solapado pelas manifestações prosaicas que rondam o nosso cotidiano (MORIN, 2012).

Esse diálogo horizontal entre o literário e o científico só é possível por compreendermos que razão e imaginação atuam complementarmente na produção do pensamento (WUNENBURGER, 2005; 2003; GOMES, 2013; 2015; RODRIGUES, 2013), sendo a literatura uma potencial narrativa para se pensar a condição humana e a vida (VIERNE, 1994; MORIN; 2012; FIGUEIREDO, 2009; BATISTA 2015).


2 – Sobre o paradigma científico emergente e a infância onírica
O conhecimento produzido pela ciência moderna ocidental foi colocado em uma posição superior frente a outros saberes, que passaram a ser vistos com inferioridade por utilizarem outros modelos de racionalidades distintas das adotadas pelo conhecimento científico (SANTOS, 2008; 2010). Por consequência, foi emergindo o epistemicídio de saberes (SANTOS, 2010), fenômeno que se caracteriza pela extinção de conhecimentos alternativos à ciência, os quais detém uma narrativa própria no tocante à interpretação da sociedade e da cultura.

Assim, ao serem desvalorizados, esses saberes caem no campo da invisibilidade epistemológica (SANTOS, 2010), principalmente por lhe serem imputados o descrédito no tocante a interpretação dos fenômenos sociais – uma vez que tais conhecimentos trazem em sua estrutura elementos que destoam do modelo de racionalidade científica.

Tais saberes extra-científicos se caracterizam por conhecimentos produzidos em espaços não necessariamente acadêmicos e/ou enquanto narrativas que utilizam outra lógica para construção do pensamento, como é o caso da literatura, que aciona elementos linguísticos e imaginários para produzir uma interpretação antropológica (VIERNE, 1994).

Porquanto, Santos (2010) apresenta a ecologia dos saberes enquanto proposta epistemológica e política que visa à aproximação dos conhecimentos a fim de se ter uma interpretação ampliada dos fenômenos socioculturais. Isto é, uma leitura da realidade que não esteja limitada a monocultura do saber científico, mas que dialogue de forma não hierarquizada com distintas propostas metodológicas, visando uma interpretação ampliada do real.

Com isso, adotamos o paradigma científico emergente (SANTOS, 2008), cujas características englobam um conhecimento assumidamente autobiográfico, detentor de uma racionalidade subjetivamente orientada. Dessa forma, se tem uma ciência não limitada à objetividade, que entende o rigor científico fundamentado em dados mensuráveis por cálculos quantitativos.

Advogando em favor dessa característica autorreferencial, o paradigma científico emergente coloca em xeque os pressupostos matemáticos que acompanham o rigor científico moderno (SANTOS, 2008), abrindo brechas para a superação das dicotomias existentes entre ciências sociais/ciências naturais, objetividade/subjetividade, sujeito/objeto, neutralidade/parcialidade .

Daí Santos (2008) colocar que o paradigma científico emergente une sujeito e objeto de pesquisa, colocando o pesquisador em uma dimensão analítica de intimidade, onde o indivíduo está no objeto e o objeto integra o indivíduo. Consequentemente, fazemos uso de uma “transgressão metodológica” (SANTOS, 2008) para articular as narrativas científica e literária, objetivando imprimir uma compreensão antropológica não disciplinar.

Trata-se de uma “transgressão metodológica” porque aproximamos, não hierarquicamente, os conhecimentos científico e literário na tentativa de ler os fenômenos socioculturais para além de uma perspectiva unidisciplinar. Tendo em vista que na mesma proporção da ciência, a literatura também traz uma interpretação autônoma acerca da realidade, fazendo uso de pressupostos que lhe são singulares para construção de sua narrativa (VIERNE, 1994).

Adotando essa perspectiva epistemológica na tentativa de apresentar uma interpretação polifônica dos fenômenos socioculturais, o romance se mostra enquanto via de acesso para construção dessa abordagem plural, uma vez que a literatura traz em sua composição elementos que servem para refletir em torno da relação do homem com a sociedade. Certamente, a narrativa literária figura enquanto produtora de cultura, porque a realidade pode ser pensada por meio dos traços que integram o enredo romanesco.

Fazendo uso destes postulados, a literatura se mostra para nós enquanto operadora cognitiva que amplifica o entendimento do real, pois mediante a interlocução literatura-ciência temos um mecanismo de amplificação dos saberes, através do qual o homem e a sociedade serão compreendidos por um prisma analítico que congrega o prosaísmo da ciência e o poético da literatura enquanto fundamental peculiaridade metodológica.

Na aproximação literatura-ciência fazemos uso dos pressupostos sociofilosóficos que compõem o paradigma científico emergente (SANTOS, 2008), assim como aspectos intrínsecos a fenomenologia da imaginação (BACHELARD, 2008; 2009; 1993) – importantes na leitura das imagens literárias presentes no romance Meu Pé de Laranja Lima.

A fenomenologia da imaginação busca tratar a dimensão poética da imagem por meio da imaginação criadora (ou produtora), estando à leitura imagética condicionada por associações livres formuladas pela consciência criante do leitor. Essa imaginação criadora está diretamente relacionada com a noção de imagem literária (BACHELARD, 2008).

A imagem literária está em posição antagônica ao conceito, uma vez que ela libera o indivíduo para o devaneio poético (BACHELARD, 2009) – através do qual o leitor poderá construir associações múltiplas na leitura imagética2. Com isso, a imagem literária não pode ser entendida enquanto um espelho que reflete ipsis litteris a realidade objetiva, pois, embora haja elementos sócio-históricos que estruturam o enredo, o romance também pode ser lido imaginariamente, e não apenas por meio da racionalidade instrumental (VIERNE, 1994; GOMES, 2013).

Não estamos colocando o racionalismo ativo em contraposição à imaginação poética (BACHELARD, 1993), ao contrário, compreendemos que o racional e o imaginário trabalham de forma articulada na produção do pensamento, uma vez que a imaginação e a razão são partes integrantes da composição do antropos (WUNENBURGER e ARAÚJO, 2006; WUNENBURGER, 2005; 2003; 2003b).

Mediante estes pressupostos bachelardianos, o devaneio poético pode ser compreendido enquanto um estado de maravilhamento desfrutado através do contato com a imagem poética. Ou seja, trata-se de uma identificação que aflora no indivíduo através do contato com os elementos que constituem a imagem poética. Porém, diferente do sonho noturno em que as imagens não pertencem ao leitor – surgem subitamente –, o devaneio poético pertence ao leitor, porque tal experiência só é possível através da relação leitor-imagem poética (BACHELAR, 2009).

Conduzidos metodologicamente pela fenomenologia da imaginação, as imagens literárias encontradas em Meu Pé de Laranja Lima nos levaram aos devaneios voltados à infância – tendo em vista que Zezé nos fez construir reflexões em torno do universo sociocultural da criança, assim como tratar os elementos pertencentes à infância onírica (BACHELARD, 2009) – fosse pelas histórias contadas ao seu irmão menor, seus diálogos com o pé de laranja ou os passeios no carro do portuga.

Essa infância onírica trata-se de uma construção arquetípica de inspiração junguiana, caracterizando-se pela relação que a imagem criadora possui com o inconsciente coletivo. Dessa forma, o arquétipo da infância detém características voltadas para a felicidade, liberdade, alegria, solidão – estando à leitura arquetípica instigada pela imagem poética, não se tratando de uma reprodução mimética: “Os arquétipos são, do nosso ponto de vista, reservas de entusiasmo que nos ajudam a acreditar no mundo, a amar o mundo, a criar o nosso mundo.” (BACHELARD, 2009, p. 119).

Conseguimos observar essa infância arquetípica por todo o romance: uma das vezes é quando Zezé, em seus excessos de melancolia, entoa uma música cantada para dentro, interrompida por seu irmão mais velho (Totoca):

Até agora aquela música me dava uma tristeza que eu não sabia compreender. Totoca me deu um puxão. Eu acordei.

– Que é que você tem, Zezé?

– Nada. Tava cantando.

– Cantando?

– É.

– Então eu devo estar ficando surdo.



Será que ele não sabia que podia cantar para dentro? Fiquei calado. Se não sabia eu não ensinava. (VASCONCELOS, 1994, p. 13)

Zezé fazia uso da imaginação enquanto mola propulsora de reinvenção da realidade, pois suas vivências estavam imersas em privações – fossem materiais ou afetivas. Contudo, a todo instante esse seu potencial onírico era podado, fosse pelo puxão de Totoca, que liberta Zezé de seu sonho cantado, ou pelo descrédito que seus familiares davam às histórias contadas pelo menino.

Ao nos remetemos à infância onírica, vislumbramos a possibilidade da reimaginação mediante as imagens poéticas, através das quais revivemos uma experiência infantil balizada pela memória e pelo devaneio poético, constituindo uma memória-sonho: “Se quisermos participar do existencialismo do poético, devemos reforçar a união da imaginação com a memória.” (BACHELARD, 2009, p. 114). Consequentemente, a infância onírica é vivenciada mediante o devaneio poético, que se diferencia da experiência unicamente memorialística, a qual possibilita apenas uma experimentação reprodutiva da imagem.

Porquanto Bachelard apresentar essa infância arquetípica enquanto produto do devaneio poético, e não condicionada por uma idade cronológica: “Em nós, ainda em nós, sempre em nós, a infância é um estado de alma.” (2009, p. 125). Essa criança arquetípica é revivida quando lemos poeticamente as imagens que nos remetem para uma infância sonhada, a qual é fruto do amálgama de nossas memórias da infância com a imaginação. De modo que o devaneio poético se dá mediante a interlocução memória- imaginação.

Os pressupostos que compõem o paradigma científico emergente nos dão o suporte metodológico para aproximar os discursos literário e científico na leitura da ciência, cultura e sociedade. Para tanto, articularemos esses pressupostos epistemológicos emergentes com os aspectos que compõem a fenomenologia da imaginação, principalmente no trato com as imagens literárias voltadas à infância arquetípica presentes em Meu Pé de Laranja Lima.

3 – Sonhos do menino
Zezé era um potencial sonhador, entendia a vida com o auxílio da imaginação – chamando a atenção dos que estavam próximos com suas ideias e questionamentos sobre as coisas e o mundo. Seus pensamentos eram construídos em perfeita harmonia entre o imaginal e o real, estando, em algumas circunstâncias, totalmente imerso em ideias que ora beiravam à realidade, ora flutuavam em um mundo imaginário totalmente seu – que às vezes compartilhava de forma mais profunda com seu irmão menor: Luis (ou como Zezé chamava: rei Luis).

Esse momento de partilha imaginária entre os irmãos menores se dava nas brincadeiras, quando Zezé, através das histórias contadas para Luis, transformava o quintal da sua casa em terreno frutífero para seus sonhos de menino. De repente o espaço se tornava uma planície onde os meninos se travestiam de cowboys que corriam atrás de índios; ganhava proporções continentais ou o galinheiro se travestia em zoológico, abrigando diferentes animais:


O quintal se dividia em três brinquedos. O jardim Zoológico. A Europa que ficava perto da cerca bem feitinha da cada de seu Julinho. Por que Europa? Nem meu passarinho sabia. Lá que a gente brincava de bondinho de Pão de Açúcar... Mas agora ele [Luís] estava querendo o Jardim Zoológico. Chegamos até perto do galinheiro velho. Dentro as duas frangas claras estavam ciscando e a velha galinha preta era tão mansa que a gente até coçava a cabeça dela.

– Primeiro vamos comprar os bilhetes de entrada. Dê-me a mão que a criança pode se perder nessa multidão. Viu como está cheio aos domingos?

Ele olhava e começava a enxergar gente por toda a parte e apertava mais minha mão.

Na bilheteria empinei a barriga para frente e dei um pigarro para ter importância. Meti a mão no bolso e perguntei à bilheteira:

– Até que idade criança não paga?

– Até cinco anos.

– Então uma de adulto, faz favor.

Peguei as duas folhinhas de laranjeira de bilhete e fomos entrando.

Primeiro, meu filho, você vai ver que beleza são as aves. Olhe papagaios, periquitos e araras de todas as cores. Aquelas bem cheias de penas diferentes são as araras arco-íris.

E ele arregalava os olhos extasiado. (VASCONCELOS, 1995, p. 24 – 26)


A condição material vivida por Zezé não lhe possibilitava muitos brinquedos às mãos, tendo, então, como única escapatória as construções de sua imaginação para dar contornos a brinquedos e brincadeiras que só existiam em seu mundo particular. Algumas de suas invenções eram atribuídas ao passarinho que fez ninho em seu peito (futuramente lhe seria dito por tio Edmundo que esse pássaro tratava-se do seu pensamento); para outros não existiam explicações, apenas vivenciava – sem muitas racionalizações posteriores3. Essa experiência pode ser vista no primeiro diálogo com um de seus principais amigos, um pé de laranja lima:
– Mas que lindo pezinho de Laranja Lima! Veja que não tem nem espinho. Ele tem tanta personalidade que a gente de longe sabe que é Laranja Lima. Se eu fosse do seu tamanho, não queria outra coisa.

– Mas eu queria um pé de árvore grandão...

Emburrei. Sentei no chão e encostei a minha zanga no pé de Laranja Lima. Glória se afastou sorrindo.

– Essa zanga não dura, Zezé. Você vai acabar descobrindo que eu tinha razão.

Cavouquei o chão com um pauzinho e começava a parar de fungar. Uma voz falou vindo de não sei onde, perto do meu coração.

– Eu acho que sua irmã tem toda a razão.

– Sempre todo mundo tem toda a razão. Eu é que não tenho nunca.

– Não é verdade. Se você me olhasse bem, você acabava descobrindo.

Eu levantei assustado e olhei a arvorezinha. Era estranho porque sempre eu conversava com tudo, mas pensava que era o meu passarinho de dentro que se encarregava de arranjar fala.

– Mas você fala mesmo?

– Não está me ouvindo?

E deu uma risada baixinha. Quase saí aos berros pelo quintal. Mas a curiosidade me prendia ali.

– Por onde você fala?

– Árvore fala por todo canto. Pelas folhas, pelos galhos, pelas raízes. Quer ver? Encoste seu ouvido aqui no meu tronco que você escuta meu coração bater.

Fiquei meio indeciso, mas vendo o seu tamanho, perdi o medo. Encostei o ouvido e uma coisa longe fazia tique... tique...

– Viu?


– Me diga uma coisa. Todo mundo sabe que você fala?

– Não. Só você...

Desci adorando o meu pé de Laranja Lima. (VASCONCELOS, 1995, p. 32 – 33 – 34 – grifo nosso)
Nessa passagem, Zezé e seus irmãos haviam chegado ao quintal da casa nova – a família Pinagé4 de Vasconcelos precisava se mudar, pois não estavam conseguindo pagar o aluguel da antiga residência. Seus irmãos já haviam escolhido todas as árvores que a primeira vista pareciam mais divertidas por serem maiores e externar uma postura esplendorosa; sendo necessário Glória tentar convencer o menino das qualidades de um pezinho de laranja lima que se mostrou para ele sem nenhum atrativo.

Zezé e seus familiares passavam por muitas privações materiais, de modo que ter um brinquedo, por mais simples que fosse, era um luxo que o menino não poderia ter. Por isso Glória apelar para o potencial imaginativo que Zezé imprimia em seus pensamentos, pois era com ele que o menino dava novos contornos ao que estava lhe sendo oferecido materialmente. Por isso, embora fosse uma arvorezinha, o menino acabou descobrindo5 que o pé de laranja lima era maravilhoso por atributos não observáveis racionalmente, mas por meio da imaginação:


Glória chegou mesmo na hora em que eu o abraçava.

– Adeus, amigo. Você é a coisa mais linda do mundo!

– Não falei a você?

– Falou sim. Agora se vocês me dessem a mangueira e o pé de tamarindo em troca da minha árvore, eu não queria.

Ela passou a mão nos meus cabelos, ternamente.

– Cabecinha, cabecinha! ... (VASCONCELOS, 1995, p. 34 – 35)


Com a reconstrução da imagem que Zezé tinha do pé de laranja lima, criou-se um elo de identificação do menino com a árvore. Esse é o potencial pertencente à imaginação, tendo em vista que, quando conduzidos por ela, podemos ser lançados para outras dimensões íntimas, reconstruindo, resignificando e redimensionando o que está nos sendo colocado em prol de um estado afetivo que nos conduza ao maravilhamento, ou como coloca Bachelard o devaneio poético (2009).

Esse maravilhamento proporcionado pela imaginação não pode ser encontrado apenas em imagens felizes, porque o potencial imaginativo também pode ser utilizada para controle e dominação, seja pela propagação de ideias ou preceitos que venham a contribuir com certa opressão social ou para o fortalecimento de pressupostos inerentes, como chamava Durkheim, da consciência coletiva6 de uma realidade social que não contribui para o bem estar de uma coletividade.

Em seu primeiro encontro com o pé de laranja lima, antes desse estado de maravilhamento, era como se Zezé estivesse enxergando a árvore apenas com a dimensão racional, lendo o pé de laranja lima apenas por seus atributos objetivos: tamanho, espessura, densidade. Foi necessário o menino acordar seus atributos de sonhador para seu novo amigo assumir outra proporção, onde os galhos da árvore já não eram mais sem vida, tornaram-se a cela de um lindo cavalo, ao qual o menino se pôs a cavalgar:
– Monte no meu galho.

Obedeci.


– Agora, dê um balancinho e feche os olhos.

Fiz o que ele mandou.

– Que tal? Você alguma vez na vida teve cavalinho melhor?

– Nunca. É uma delícia. Até vou dar o meu cavalinho Raio de Luar para meu irmão menor. Você vai gostar muito dele, sabe? (VASCONCELOS, 1995, p. 34)


Por esses e outros comportamentos, Zezé era considerado pelos seus familiares, amigos e conhecidos como uma criança sensível, travessa e até anormal para sua faixa etária, pois sempre trazia questionamentos incomuns, espantando a todos por não saberem de onde o menino extraía tantas ideias – algumas vinham de seu tio Edmundo, que lhe contava histórias e ensinava palavras difíceis e desconhecidas, outras derivavam de seu potencial inventivo. Foi assim no diálogo que Zezé teve com seu irmão (Totoca), ao seguirem para conhecer, antecipadamente e em segredo dos demais familiares, a residência que iram se mudar:
Mas vamos deixar de pensar coisas difíceis. Que você goste de aprender com ele [tio Edmundo], vá lá. Mas comigo, não. Fique igual aos outros meninos. Diga até palavrão, mas deixe de encher essa cabecinha com coisas difíceis. Senão, não saio mais com você. Fiquei meio emburrado e não quis mais conversar. (VASCONCELOS, 1995, p. 15)
Os pensamentos de Zezé eram considerados por Totoca como difíceis, pois possuíam uma lógica que Totoca não conseguia apreender, passando ao largo de seu entendimento. Não era apenas Totoca que tinha esse ponto de vista, as demais personagens do romance, em situações específicas, também trazem-na em torno das interpretações e leituras que o menino faz do mundo e da vida.

O aprendizado que se refere Totoca são as explicações dadas por Tio Edmundo aos questionamentos de Zezé. Tio Edmundo era visto pelo menino como um grande sábio, fazendo com que ele nutrisse certa admiração pelo Tio. Porém, era uma admiração que não isentava o Tio de suas traquinagens:


Totoca deu um pulo.

– Ele deu uma palmada em você? Quando?

– Quando eu estava muito levado e Glória me mandou para a casa de Dindinha. Aí ele queria ler o jornal e não achava os óculos. Procurou, danado da vida. Perguntou para Dindinha e nada. Os dois viraram a casa pelo avesso. Aí eu disse que sabia onde estava e se ele me desse um tostão para comprar bolas de gude, eu dizia. Ele foi no colete e apanhou um tostão.

– Vai buscar que eu dou.

– Eu fui no cesto de roupa suja e apanhei eles. Aí ele me xingou. – “Foi você, seu patife!” Me deu uma palmada na bunda e me tomou o tostão.

Totoca riu.

– Você vai lá para não apanhar em casa e apanha lá. Vamos mais depressa se não a gente não chega nunca.

Eu continuava pensando em Tio Edmundo. (VASCONCELOS, 1995, p. 15 – grifos do autor)


Embora tenha demonstrado interesse em ouvir a história de Zezé, Totoca fala como se a narrativa contada atrasasse ambos, o que não deveria acontecer – pois os irmãos deveriam continuar sua empreitada em conhecer a casa nova. Na ânsia de conseguir dinheiro para comprar bolas de gude, Zezé teve a ideia de esconder os óculos de Tio Edmundo; que descobre seu intento, tomando do menino o tostão. Mesmo após a palmada e a raiva momentânea do Tio, Zezé continuava mantendo seu afeto e admiração por ele – permanecendo a pensar sobre os ensinamentos e momentos vividos com ele.

Por ser uma criança com tamanha capacidade de inventar brincadeiras e dialogar com objetos e animais – Tio Edmundo falou para Zezé que ele rapidamente entraria na idade da razão, ou seja, no entendimento do Tio, Zezé logo começaria a compreender as coisas7 como adulto. Todavia, o menino ainda não entendia o que seu Tio quis dizer:


– Totoca.

– Que é?


– Idade da razão pesa?

– Que besteira é essa?

– Tio Edmundo quem falou. Disse que eu era “precoce” e que ia entrar logo na idade da razão. E eu não sinto diferença.

– Tio Edmundo é um bobo. Vive metendo coisas na sua cabeça.

– Ele não é bobo. Ele é sábio. E quando eu crescer quero ser sábio e poeta e usar gravata de laço. Um dia eu vou tirar retrato de gravata de laço. (VASCONCELOS, 1995, p. 14 – grifos do autor)
Um dia Zezé posa para foto com gravata de laço, mas antes mesmo do acontecido, o menino já podia ser considerado como um pequeno sábio, porque declamava poesias sobre a realidade que lhe servia como palco para seus sonhos, porque para tudo tinha explicações – quando não, trazia consigo suas perguntas, algumas consideradas “sem pé nem cabeça”. Contudo possuísse essa sabedoria “precoce”, o menino não alcançava o entendimento sobre as dificuldades vividas em casa, mesmo que a pobreza fosse uma de suas companheiras diária:
– Você que quer saber tudo não desconfiou o drama que vai lá em casa? Papai está desempregado, não está? Ele faz mais de seis meses que brigou com Mister Scottfield e puseram ele na rua. Você não viu que Lalá começou a trabalhar na Fábrica? Não sabe que Mamãe vai trabalhar na cidade, no Moinho Inglês? Pois bem, seu bobo. Tudo isso é para juntar um dinheiro e pagar o aluguel dessa nova casa. A outra, Papai já está devendo bem oito meses. Você é muito criança para saber dessas coisas tristes. Mas eu vou ter que acabar ajudando missa para ajudar em casa. (VASCONCELOS, 1995, p. 16)
Os pensamentos de Zezé estavam em suas brincadeiras, as dificuldades financeiras vividas em casa só eram sentidas pelo menino na ausência de brinquedos e roupas novas (também não seria pedir demais de uma criança, que com apenas cinco anos de idade, compreendesse a desigualdade social vivida?). Essa falta de entendimento fazia com que Zezé possuísse esperanças em adquirir brinquedos no natal, vindos de Papai Noel – quando os brinquedos não vinham, o menino se punha a engraxar para conseguir alguma moeda para ajudar com as despesas de casa ou comprar algum doce, bola de gude ou figurinha de artista.

A pobreza foi sentida de forma mais significativa por Zezé e seus familiares durante a ceia natalina, geralmente sendo um momento de fartura e partilha – ficou na lembrança do menino como situação de miséria:


Foi uma ceia tão triste que nem dava vontade de pensar. Todo mundo comeu em silêncio e Papai só provou um pouco da rabanada. Não quisera fazer a barba nem nada. Nem foram à Missa do Galo. O pior era que ninguém falava nada com ninguém. Parecia mais o velório do Menino Jesus do que o nascimento. (VASCONCELOS, 1995, p. 49)

A imaginação para Zezé servia enquanto escape daquela realidade hostil; de modo que mesmo com determinadas privações materiais, o menino conseguia desfrutar profundamente de um mundo que era totalmente seu – sem se isentar, como podemos ver acima, dos sofrimentos existentes ao seu redor. Principalmente porque Zezé viria a sofrer profundamente com a morte de seu grande amigo Portuga. Contudo, a história de Zezé serviu para pensarmos a importância das construções imaginárias para compreensão da cultura e da sociedade – principalmente por estarmos imersos em um modelo de racionalidade que prima pelas construções racionais, caracterizando a imaginação enquanto dimensão com pouca importância na construção do pensamento.



Referências Bibliográficas

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1 Doutorando em Ciências Sociais (UFRN). Mestre e Graduado em Ciências Sociais (UFRN). Possui interesse por pesquisas nas áreas de literatura e infância, assim como Sociologia/Ciências Sociais e Educação. Contato: ozaias_antonio@hotmail.com

2 Embora a obra bachelardiana trabalhe profundamente com a imagem literária, é importante salientar que o imagético não se limita ao campo da ocularidade, mas também contempla o verbal, olfativo, gustativo.

3 Entendo que se o pensamento de Zezé passasse por uma considerável racionalização a posteriori, perderia seu potencial imaginativo. É isso que muitas vezes acontece cotidianamente – os indivíduos deixam de dar vazão ao imaginário para buscar interpretações racionais para fenômenos que poderiam ser mais bem entendidos pela imaginação. Como, por exemplo, a letra de uma música, uma narrativa fílmica.

4 Zezé tinha orgulho desse sobrenome, pois era nome de índio – daí fazermos menção.

5 Essa descoberta está no campo da inventividade, através da qual o sonhador dá o contorno para a imagem que está sendo construída no devaneio poético. Nesse sentido, o sujeito age e é agido pela imagem poética.

6 Para maiores esclarecimentos acerca do conceito, consulte Da divisão do trabalho social (2008).

7 Não é que Zezé não trouxesse suas interpretações, mas o entendimento do menino, em algumas circunstâncias, não fazia sentido para seu Tio. Daí ser necessário que Zezé, para Tio Edmundo, entrasse na idade da razão.





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