Michael Palmer Por trás do argumento da razão, injustiças são cometidas Tradução Alexandre Martins prumo 2007 Para Zoe May Palmer, Benjamin Miles Palmer e Clemma Rose Prince: que vocês cresçam em um mundo cheio de paz



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O Quinto Frasco



Michael Palmer
Por trás do argumento da razão, injustiças são cometidas
Tradução Alexandre Martins
PRUMO

2007
Para Zoe May Palmer, Benjamin Miles Palmer e Clemma Rose Prince: que vocês cresçam em um mundo cheio de paz. E, como sempre, para Luke.


SINOPSE:
 
Qual o fim das amostras de sangue tiradas regularmente nos laboratórios médicos ao redor do mundo? Será que possuem alguma serventia além de prover o diagnóstico do paciente? Quais interesses estão em jogo?
Em Boston a estudante de medicina Natalie Reis é enviada por seu mentor a um congresso sobre transplantes no Rio de Janeiro em um momento conturbado de sua vida acadêmica - após enfrentar seu superior na residência médica é suspensa da faculdade por quatro meses. Em um hospital na Africa Ocidental o cientista Joseph Anson que está morrendo de uma incurável moléstia do pulmão desenvolve uma substância que pode salvar milhões de vidas. Em Chicago Ben Callahan um detetive até então desiludido com sua vida está determinado a encontrar a identidade de um jovem morto em uma pequena estrada da Flórida com misteriosas marcas pelo corpo.
Essas pessoas aparentemente não possuem ligação entre simas algo fará com que seus caminhos se cruzem e suas vidas se liguem para sempre.

 

 



PRÓLOGO
O começo é a parte mais importante de qualquer trabalho. Platão, A República, Livro II
Agora fique quieto. Não vai doer nada.

Essas foram as únicas palavras que Lonnie Durkin ouviu em horas. Não vai doer nada. Vincent sempre dizia a mesma coisa antes de enfiar a agulha no braço de Lonnie e tirar sangue. Vincent mentia. As agulhas não machucavam muito, mas machucavam. — Me leve para casa! Por favor, me leve para casa! Por favor, por favor, por favor. Lonnie saltou da cama, envolveu com os dedos a grade de metal e chutou o portão trancado. Ele sabia o que era um pesadelo. Sua mãe havia explicado a ele o que era um sonho ruim quando ele era menino e começara a acordar toda noite gritando. Mas podia ver que a jaula não era um pesadelo. A jaula era real. — Por favor! Naquele momento, o furgão fez uma curva repentina que o arremessou contra a parede, batendo com a cabeça e o ombro. Ele gritou, caiu e se arrastou de volta para a cama. O trailer era uma casa sobre rodas, como tio Gus e tia Diane tinham. Mas em vez de uma jaula atrás, o deles tinha um quarto bonito, uma cama grande e alguns armários. Cinco anos antes, no décimo sexto aniversário de Lonnie, eles o levaram de furgão a Yellowstone e o deixaram dormir naquela cama todas as noites durante a viagem. A cama na jaula era pequena demais para ele, e o colchão era duro demais. Ao lado da cama havia uma cadeira, um jarro de água em um suporte na parede e alguns copos de papel. Na cadeira havia uma revista chamada MAD, que tinha um monte de desenhos estranhos, mas palavras demais para ele ler. E finalmente havia o botão para a tevê presa na parede do lado de fora da jaula. Era tudo. Lonnie não conseguia parar de pensar em seu pai e sua mãe, e nos homens que trabalhavam na fazenda. Os caras sabiam como ele gostava de M&Ms, e sempre tinham alguns quando ele ia ao campo para visitá-los e algumas vezes ajudá-los. — Me deixem ir embora! Por favor, não me machuquem! Eu só quero ir embora! Três dos lados da jaula eram as paredes do trailer. O quarto era a grade, feita de cerca de galinheiro, como no cercado atrás do celeiro, em casa. Ele tomava toda a abertura para o fundo do trailer, e tinha um portão com cadeado do lado de fora. Havia uma lâmpada no teto fora da jaula, mas nenhuma janela. Além da grade ficava o banheiro, e depois uma porta sanfonada bloqueando a passagem até onde estavam Yincent e Connie. Frustrado, Lonnie se levantou e chutou a grade. Ele calculava que estava na jaula havia três dias, talvez quatro. O trailer estivera em movimento quase o tempo todo. Ele não estava exatamente com frio, mas se sentia assim — com frio, assustado e sozinho. — Por favor! Por favor, me levem para casa! Ele tinha quase perdido a voz. Exceto pelas agulhas, quando lhe davam uma injeção ou tiravam sangue, nem Vincent nem Connie o tinham machucado até então, mas Lonnie podia dizer que tampouco gostavam dele. Eles olhavam para ele exatamente como o sr. e a sra. Wilcox, da casa na estrada para a fazenda, e uma vez, quando estava no banheiro, ouviu Vincent o chamando de maldito retardado. — Me deixem ir! Eu quero ir para casa! Por favor, por favor! Isso não é justo! O trailer diminuiu de velocidade e estacionou. Um pouco depois Vincent abriu a porta depois do banheiro. Era um homem grande com cabelo amarelo cacheado — não era gordo como Lonnie, apenas grande. Tinha uma tatuagem de navio de guerra em cada braço, bem acima do pulso. No início, Vincent tinha sido muito legal com ele. Connie também. Eles tinham emparelhado o trailer com Lonnie, que caminhava para o centro de recuperação, e perguntado como chegar à fazenda. Tinham dito que eram primos de sua mãe. De outra forma, ele nunca teria entrado no trailer com eles. Sua mãe o havia alertado sobre os perigos de andar com estranhos. Mas eles não eram estranhos. Eram primos, que sabiam seu nome, o de seu pai e o de sua mãe, só que nunca tinham ido à fazenda. Com as mãos na cintura, Vincent ficou de pé junto à porta do banheiro. Lonnie percebeu que estava com raiva antes mesmo que ele abrisse a boca. — O que eu falei sobre gritos? — Pa-para não gritar. — Então por que está gritando? — Eu-eu estou assustado. Mesmo sem querer, Lonnie sentiu seus olhos se enchendo de lágrimas. No outro dia mesmo sua mãe tinha dito que estava orgulhosa por ele não chorar tanto. E agora lá estava ele, quase chorando de novo. — Eu disse que você não tinha por que ter medo. Mais um dia e a gente solta você. — Pro-promete? — Tudo bem, prometo. Mas se você berrar de novo ou nos der algum problema, esquece a promessa, e tiro o controle remoto da tevê. — A tevê não funciona direito mesmo. — Como é que é? — Nada. Nada. — Chega de barulho. Falando sério. Vincent girou nos calcanhares antes que Lonnie pudesse dizer mais alguma coisa. Depois de enxugar os olhos com as costas da mão, Lonnie se enrolou no cobertor e levantou os joelhos, de frente para a parede dos fundos. Mais um dia e a gente solta você. A promessa de Vincent ficou girando em sua cabeça. Devia ter feito ele dar a palavra de honra. Mais um dia... Durante algum tempo as lágrimas correram, mesmo com ele tentando impedir. Depois, lentamente, os soluços de Lonnie deram lugar a um sono agitado. Quando ele acordou o trailer tinha parado. O ombro doía no ponto em que tinha batido, e também havia um galo dolorido acima do olho. Ele rolou lentamente, sabendo que tinha de ir logo ao banheiro fazer xixi. Uma mulher estava em pé do lado de fora da cerca, olhando para ele. Estava usando o tipo de roupa azul de hospital que os médicos que operaram a hérnia dele usavam, e por cima um jaleco branco. O cabelo estava preso atrás e coberto com um gorro de papel azul descartável de hospital. Vincent estava atrás dela, batendo na mão com um pequeno taco preto. A porta atrás dele estava fechada. — Oi, Lonnie — disse a mulher, ajeitando os óculos e olhando para baixo, para ele. — Sou a dra. Prouty. Vincent ou Connie disseram que eu viria? Lonnie tentou dizer que não com a cabeça. — Tudo bem, não precisa ter medo. Vou tirar sua temperatura embaixo da língua e examinar você como os médicos fazem. Você entende? Dessa vez Lonnie anuiu. Apesar da voz baixa e da pele macia da médica, havia algo nela que parecia impedir que ele falasse. Uma coisa fria. — Bom. Agora, eu quero sua palavra de que se eu abrir esse portão e entrar aí com você, você vai cooperar... Cooperar, Lonnie. Sabe o que a palavra significa? Lonnie, me responda. — Eu... sei. — Bom. A dra. Prouty anuiu para Vincent, que destrancou o portão e o abriu, o tempo todo mantendo o bastão à vista de Lonnie. — Tudo bem, Lonnie — disse a dra. Prouty. — Agora darei uma injeção em você, e depois vou examiná-lo. Primeiro quero que você tire as roupas e vista esse avental com as cordas nas costas. Entende? — Preciso fazer xixi. — Tudo bem. Vincent acompanha você, e depois o ajuda a mudar de roupa. Mas primeiro vou dar a injeção. — Depois eu posso fazer xixi? — Depois você pode — disse a dra. Prouty, um pouco impaciente. Lonnie só se mexeu um pouquinho quando a agulha foi enfiada em seu braço. Depois foi para o minúsculo banheiro e fez xixi. Quando terminou, Vincent o levou pelo braço de volta à jaula para colocar o avental. Mesmo com aquilo, ele se sentia nu. O medo que estava crescendo nele apertou seu peito como um cinto. A dra. Prouty voltou da frente do trailer, fechando a porta atrás dela. Enquanto ela o examinava, ele começou a sentir as pálpebras ficarem pesadas. — Ele está apagando — ouviu a dra. Prouty dizer. — Vamos levá-lo para a frente enquanto ele ainda consegue segurar o próprio peso. Vincent o ajudou a se levantar. Então a dra. Prouty abriu a porta. Era a primeira vez que Lonnie ia para a frente do trailer desde o dia em que ele parara ao seu lado. As coisas tinham mudado completamente lá. Uma lâmpada redonda brilhante tinha sido presa no teto, e embaixo havia uma cama estreita com um lençol verde. Do lado da cama estava um médico alto, usando uma máscara azul sobre o nariz e a boca. — Coloque-o lá enquanto eu me preparo — disse a dra. Prouty. Lonnie olhou na direção da voz e viu que ela também estava de máscara. Ele se sentiu desequilibrado, quase incapaz de ficar em pé. Vincent o ajudou a deitar na cama de barriga para baixo, e colocou uma correia nas suas costas. Um lençol foi colocado em cima dele. Então o médico alto colocou uma agulha em seu braço e a deixou lá. Os olhos de Lonnie se fecharam e recusaram a abrir. O medo desapareceu. — Agora, Lonnie — disse o médico alto —, vou colocar uma máscara de respiração especial em seu rosto... Perfeito. Certo, apenas respire. Para dentro e para fora. Não vai doer nada.
— O corpo é de um homem branco, bem alimentado, na faixa dos vinte anos de idade. Mede 1,75 metro e pesa 89 quilos. Cabelos castanhos, olhos azuis. Sem tatuagens ou... O patologista Stanley Woyczek usou um pedal e um microfone suspenso para ditar enquanto trabalhava. Ele estava em seu segundo período como médico-legista do distrito 19 da Flórida, que incluía os condados de St. Lucie, Martin, Indian River e Okeechobee, todos a norte e a oeste de West Palm Beach. Ele adorava as complexidades e os quebracabeças que faziam parte de seu trabalho, mas ainda não estava completamente imune à tragédia humana. Os casos com frequência permaneciam semanas com ele, quando não anos. Ele não tinha dúvida de que aquele seria um desses. Um homem jovem, sem identificação, saíra em disparada de um bosque de árvores para um trecho pouco habitado da rodovia 70, onde foi atingido por um caminhão. O motorista da carreta achava que estava a 105 por hora quando o homem apareceu de repente, saído do nada, bem na frente de seus faróis. Woyczek raciocinou que felizmente a dor do impacto não teria durado mais do que um ou dois segundos. Já tinham chegado os resultados dos exames preliminares de álcool, drogas ou violência, e eram negativos. Supondo que exames toxicológicos mais aprofundados também não revelariam nada, provavelmente ainda restariam duas grandes perguntas depois que a autópsia fosse concluída: quem? E por quê? — Há uma cicatriz bem curada sobre o canal inguinal esquerdo, provavelmente de uma cirurgia para correção de hérnia. Uma laceração de 17 centímetros e fratura múltipla do crânio acima da orelha esquerda, e um corte vertical de 30 centímetros de comprimento no lado esquerdo do peito, através do qual pode ser visto um trecho rompido da aorta. Woyczek acenou para que sua assistente virasse a vítima. Eles o fizeram com cuidado. — Na parte posterior há uma profunda abrasão na escápula direita, mas nenhuma outra... O patologista parou de falar e olhou para a parte de cima da nádega do homem, bem acima do quadril direito... E depois para uma área idêntica do lado esquerdo. — Chantelle, o que isso parece a você? A assistente estudou as duas áreas. — Suturas — disse ela. — Não há dúvida alguma. — Não, dr. Woyczek. Há seis de cada lado, talvez mais. — Bem, eu farei um exame microscópico em algumas delas para determinar o tempo, mas os pontos são recentes. Tenho certeza disso. Acho que encontramos alguma coisa. Ele recuou e tirou suas luvas. — Tome conta daqui por uns dois minutos, Chantelle. Eu quero que os detetives venham aqui. Posso estar errado, mas duvido. Em algum momento ontem, ou no máximo anteontem, nosso desconhecido fez uma doação para transplante de medula óssea.
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O PARTIDÁRIO, QUANDO SE ENVOLVE EM UMA DISPUTA, NÃO SE IMPORTA COM O QUE HÁ DE CERTO NA QUESTÃO, ESTÁ APENAS ANSIOSO PARA CONVENCER OS OUVINTES DE SUAS PRÓPRIAS AFIRMAÇÕES. PLATÃO, FÉDON
— Vá em frente e o suture, srta. Reis.

Natalie olhou para o corte na testa de Darren Jones, que passava por cima da sobrancelha e descia pela bochecha. Até aquele momento o maior corte de faca que ela vira tinha sido um que ela fizera em seu próprio dedo, por acidente. O tratamento tinha sido dois band-aids. Ela se obrigou a não olhar nos olhos de Cliff Renfro, o residente sênior de cirurgia encarregado da emergência, e o seguiu para o corredor. Em seus três anos e um mês de estudante de medicina ela suturara incontáveis travesseiros, diversas variedades de frutas, alguns animais empalhados esfarrapados e, recentemente, no que ela considerara muito perigoso, o traseiro de seus jeans preferidos. A ordem de Renfro não fazia muito sentido. Ela estava apenas em seu segundo dia de rotativo na emergência do Metropolitan Hospital de Boston, e embora Renfro tivesse verificado sua capacidade de fazer diagnósticos em vários pacientes, ele ainda tinha de vê-la suturar. — Dr. Renfro, eu... ahn... talvez eu devesse acertar as coisas com o senhor antes de... — Não é necessário. Quando terminar, receite um antibiótico a ele. Qualquer um. Eu assino. O residente deu as costas e partiu antes que ela pudesse responder. Sua colega de turma e amiga Verônica Kelly, que já tinha terminado seu rotativo no Metropolitan, contara que Renfro estava no último ano antes de se tornar cirurgião residente-chefe do White Memorial, a nau capitânia dos muitos hospitais universitários da faculdade de medicina. Após anos de formação, ele tinha o ar de quem já tinha visto de tudo e estava farto do que considerava a população de pacientes de baixo nível do Metro. — Renfro é inteligente e muito competente, e pegará os casos de trauma mais difíceis. Mas ele não poderia ligar menos para os casos de rotina — disse Verônica. Ele aparentemente considerava rotina um adolescente negro que tinha perdido uma guerra de gangues. Natalie hesitou do lado de fora do quarto do garoto, pensando no que aconteceria caso ela fosse atrás de Renfro e pedisse a ele uma demonstração de suas habilidades. — Você está bem, Nat? A enfermeira, uma veterana com muitos anos de emergência e uma voz áspera, tinha dado uma parte da orientação aos estudantes no dia anterior, incluindo a tradição de que em um lugar sem recursos como o Metro, quase toda a equipe usava os prenomes. O dela era Bev — Bev Richardson. — Eu pedi este rotativo porque ouvi falar que os estudantes fazem muitos procedimentos, mas suturar o rosto de um garoto em meu segundo dia é um pouco mais do que eu esperava. — Você nunca fez uma sutura? — Em nada vivo, a não ser algumas laranjas infelizes. Bev suspirou. — Cliíf é um senhor médico, mas às vezes é um pouco imaturo, e pode ser duro com as pessoas. A verdade é que não acho que ele se importe muito com nossa clientela. — Bem, eu me importo — disse Natalie, evitando uma ladainha sobre as muitas vezes na vida em que tinha sido carregada, arrastada ou levada de cadeira de rodas para aquela mesma emergência. — Nós gostamos de ter aqui pessoas que se importam. Os pacientes já enfrentam dureza demais em todos os outros lugares. O hospital deles deveria ser uma espécie de santuário. — Concordo com isso. Bem, Goldenberg me contou que ouviu dizer que serei aceita na residência de cirurgia do White Memorial. Talvez o dr. Renfro tenha ouvido a mesma coisa e esteja apenas me testando. — Ou talvez sinta que você não é como ele, e queira ver se fugirá do desafio. — Ele não seria o primeiro — retrucou Natalie, trincando os dentes e revisando mentalmente as páginas dos textos de cirurgia plástica que relera uma semana antes de seu rotativo. — Você é a corredora, não? A pergunta não surpreendeu Natalie nem um pouco. Seu trágico acidente durante as seletivas para os Jogos Olímpicos fora notícia nos jornais locais e nacionais, e capa da Sports Illustrated. Desde o dia em que começara na faculdade de medicina como uma caloura de trinta e dois anos de idade as pessoas sabiam quem era ela. — Passado — disse, com a resposta seca pedindo mudança de assunto. — Acha que pode dar um jeito no rosto do garoto? — Pelo menos ele terá alguém que se importa lidando com ele, se é que isso significa algo. — Significa muito — disse Bev. — Vai lá. Vou pegar para você uns fios de náilon para suturar. Embora a maioria não seja, nós partimos do princípio de que todos que estão sangrando são HIV-positivo, então é melhor usar uma touca e uma máscara de plástico. Se achar que você está fazendo alguma coisa errada eu pigarreio e você pode sair para conversarmos. Mantenha os dedos longe da agulha. Nós simples com os instrumentos, nós duplos por cima com três milímetros de distância. Não aperte demais a ponto de forçar as beiradas da pele, e não raspe a sobrancelha dele, porque ela nunca voltará a crescer direito. — Obrigada. — Bem-vinda à emergência — disse Bev. — Tá fazendo um bom trabalho, doutora? Natalie ergueu os olhos para Bev Richardson, que anuiu orgulhosamente que estava. Desde o momento em que Nat anestesiara as bordas da pele, Darren Jones falava sem parar. Nervoso, achava ela. Se ele soubesse que não era o único. O procedimento tinha demorado aproximadamente o triplo do que o levaria algum dia, e Natalie ainda estava na sobrancelha e testa, faltando a bochecha, mas o conserto parecia bastante decente. — É, estou fazendo um bom trabalho — respondeu, serenamente. — Vou ficar com uma cicatriz? — Sempre que a pele é cortada fica uma cicatriz. — As mulheres gostam de cicatrizes. Elas são misteriosas. Além disso, eu sou durão, então, por que não anunciar? Certo, doutora? — Você me parece bastante inteligente. Inteligência é mais importante que dureza. — Caras durões como eu assustam você? — O cara que cortou você provavelmente me assustaria — disse Natalie, sorrindo por trás da máscara. — Você ainda está na escola? — Tenho mais um ano, mas larguei. — Devia pensar em voltar. — Sem chance — disse Darren, rindo. — Você não entende dessas coisas, doutora, mas no lugar de onde eu venho o que conta é ser durão. Natalie sorriu novamente. Em uma disputa entre aquele garoto e ela para ver quem era mais durão, ela ganharia com uma mão nas costas. Ela lembrou a si mesma de que não tinha sido a primeira pessoa que sugerira para ela própria que voltasse para a escola que a levara à Edith Newhouse Academy for Girls, nem mesmo a segunda. Mas em algum momento, graças àqueles que tinham tentado antes, alguém finalmente conseguiu derrubar as muralhas de sua dureza. — Dureza é nadar contra a corrente e ter a coragem de ser diferente — disse ela, encerrando a última sutura. — Dureza é entender que esta é a única vida que você terá, portanto é bom que você faça dela o melhor que puder. — Vou manter isso na mente, doutora — disse o adolescente, com pouca sinceridade. Natalie olhou por cima do ombro para Bev, que levantou os polegares para sua técnica e pronunciou as palavras "faixas estéreis", apontando para os pacotes de faixas de papel que ela colocara na bandeja de instrumentos. Após desajeitadamente transformar várias faixas em bolas inúteis, Natalie descobriu como cortá-las e colocá-las sobre a incisão para reduzir a cicatriz diminuindo a tensão na linha da sutura. — Cinco dias — disse Bev fazendo mímica e esticando uma mão aberta. — Esses curativos provavelmente sairão em cinco dias — disse Natalie, grata pela margem embutida na palavra "provavelmente", pelo menos por ora. — Você tem alma, doutora. Dá pra sacar — disse Darren. Natalie tirou a máscara e as luvas. Mais um marco, pensou. Era uma enorme vantagem ter trinta e cinco anos de idade e ser estudante de medicina — especialmente com sua experiência de vida. As decisões eram mais fáceis para ela do que para a maioria de seus colegas, muitos dos quais eram uma década mais jovens, ou, em alguns poucos casos, ainda mais. Com frequência sua perspectiva era mais refinada; a confiança em suas convicções, mais forte. — Não se venda barato, cara — retrucou. — Fique aí, Darren — disse Bev. — Tenho uma antitetânica, algumas instruções e alguns remédios para você. — Remédio para dor? — perguntou Darren, esperançoso. — Lamento, antibióticos. — Ei, você disse que é durão — disse Natalie, indo para a porta. — Durões não precisam de remédios vagabundos para dor. Ela fez suas anotações no posto das enfermeiras, se sentindo muito satisfeita com o modo como agira sob pressão. Renfro fizera o desafio e partira, mas ela se mostrara mais do que à altura. Ela quebrara os recordes colegiais, universitários e nacionais na pista, e estivera a um maldito passo da equipe olímpica. Ao longo do caminho tivera que lidar com muitos Cliff Renfro, acostumados a alimentar seus egos com a insegurança dos outros. Bem, ela ainda era a mesma mulher que correra os 1.500 metros em 4:08:3. Que esse Cliff Renfro específico continuasse tentando. Ela não se curvara a nenhum dos outros, e também não seria intimidada por ele. Bev surgiu perto de seu cotovelo. — Saralee acabou de sair da sala quatro. Sabe o que é isso? — Sim, para os alcoólatras. — E outros — acrescentou Bev. — Os pacientes são mandados para lá quando estão particularmente... ahn... imundos. — Eu sei, trabalhei um pouco lá ontem. Não estava tão mal. — Bem, aparentemente a emergência ficou um pouco sem quadros enquanto você estava suturando, e houve um alerta na outra ala. Assim, para sua grande infelicidade, Cliff está tomando conta da sala quatro. Ele quer que você assuma lá assim que acabar. — Já acabei. — Bom. Você cuidou bem daquele garoto, Nat. Acho que o White Memorial fez uma boa escolha. Você dará uma boa médica. — Aquele hospital pode ser o melhor dos melhores, mas ainda está uma década ou mais atrasado no que diz respeito a aceitar mulheres em seus programas de cirurgia. — Ouvi dizer. Bem, como disse, você será ótima. Aceite isso de alguém que viu todos eles irem e virem. Naquele instante, elas se viraram na direção do som de um tumulto que ouviam no corredor. — Estou dizendo,

doutor, você está enganado! Há algo errado comigo. Algo ruim. Bem aqui, atrás do olho! Não estou suportando a dor! Um homem estava sendo tirado da sala quatro por um enfermeiro. Mesmo à distância era possível ver que ele era qualificado para estar ali. Grisalho e acabado, ele estava na casa dos quarenta anos de idade, ou talvez cinquenta, supôs Natalie. Usava um blusão em frangalhos, calça de sarja manchada e tênis sem cadarços. Um boné ensebado do Red Sox com a pala abaixada não conseguia esconder os tristes olhos vazios. Com as mãos na cintura, Cliff Renfro surgiu na porta da sala e deu uma olhada na direção de onde estavam Natalie e Bev antes de dirigir-se ao homem. — O que há de errado com você, Charlie, é que precisa parar de beber. Sugiro que você vá para o Pine Street Inn e peça que o levem ao chuveiro. Eles provavelmente também têm roupas para você. — Doutor, por favor. E sério. Vejo luzes cintilando neste olho e a dor está me matando. Está ficando tudo preto. Claramente mais irritado do que palavras poderiam demonstrar, Renfro ignorou o homem e desceu o corredor pisando firme, passando por onde as duas mulheres estavam de pé. — Você tem de se mover mais rápido aqui, dra. Reis — disse, pausando apenas o suficiente para isso. — Agora, por favor, assuma a quatro. Eu vou me lavar e talvez fazer uma fumigação — murmurou. Natalie identificou um rápido brilho de raiva e frustração nos olhos do paciente antes que ele se virasse e permitisse que o enfermeiro o conduzisse em direção à sala de espera e, a seguir, para a rua. — Aposto que Renfro sequer o examinou — sussurrou Natalie. — É possível, mas ele normalmente... — Há alguma coisa muito errada com aquele homem, eu sei disso. Dor terrível, luzes cintilantes, perda de visão. Eu acabei de concluir seis semanas de neurologia. O cara tem um tumor, ou talvez um aneurisma roto, quem sabe um abscesso cerebral. Essas pessoas lidam com dor e desconforto todos os dias. Se esses sintomas são ruins o bastante para fazê-lo se arrastar até aqui, têm alguma importância. Renfro pediu algum exame? — Não sei, mas não acho... — Ouça, Bev, quero examinar o cara e depois fazer uma tomografia. Você pode dar um jeito? — Posso, mas não acho que seja uma boa... — E alguns exames de sangue. Um hemograma completo e sorologia. Tenho de alcançá-lo antes que vá embora. Acredite, se ele fosse um empresário bem-vestido no White Memorial, estaria fazendo uma tomografia agora mesmo. — Talvez, mas... Antes que Bev pudesse concluir a frase, Natalie tinha partido. Ela verificou a sala de espera, e então passou correndo pelas portas, saindo para a avenida Washington. O homem estava a dez metros, se arrastando lentamente para o centro da cidade. — Charlie, espere! O mendigo se virou. Seus olhos estavam injetados, mas ele manteve a cabeça erguida e olhou nos olhos dela, talvez desafiadoramente. — O que é? — rosnou. — Sou... a dra. Reis. Quero examinar você um pouco mais e talvez fazer um teste ou dois. — Então você acredita em mim? Natalie pegou seu braço e o conduziu gentilmente de volta à emergência. — Acredito em você — disse. Bev Richardson estava esperando do lado de dentro com uma cadeira de rodas. — A sala seis está vazia — disse, em tom conspiratório. — Rápido. Não tenho ideia de onde Renfro está. O laboratório está a caminho. Com sorte podemos tirar seu sangue e leválo para a tomografia sem que ninguém veja. Natalie ajudou o homem a tirar as roupas e vestir um avental azul. Renfro estava certo quanto a uma coisa, pensou Natalie: Charlie realmente fedia. Ela fez um exame neurológico simples, que revelou claras anormalidades em força, movimento ocular, coordenação mão/olho e ao caminhar, todas elas podendo ser provocadas por tumor cerebral, abscesso ou vaso sanguíneo rompido. Um técnico tinha acabado de tirar o sangue de Charlie quando Bev entrou na sala empurrando uma maca. — Mexi alguns pauzinhos. Eles estão esperando por ele na tomografia — disse. — Ele tem algumas óbvias anormalidades neurológicas. Vou levá-lo para lá e depois vou trabalhar na sala quatro. — Eu limpo aqui. Natalie empurrou a maca para o corredor. — Obrigado, Bev, eu volto lo... — Que diabos está acontecendo aqui? Cliff Renfro, lívido, disparou do posto das enfermeiras em direção a ela. — Acredito que há algo muito errado com esse homem. Talvez um tumor ou um aneurisma rompido — disse Natalie. — Então você foi atrás dele depois que o dispensei? A voz de Renfro se elevara a ponto de fazer com que equipe e pacientes parassem e olhassem. Várias pessoas saíram das salas de exame, e várias outras do posto das enfermeiras. Natalie se manteve firme. — Eu queria fazer a coisa certa. Ele tem alguns sintomas neurológicos. — Bem, isso não é a coisa certa. Os sintomas, assim como tudo mais nele, são provocados por álcool. Sabe, ouvi de muitas pessoas que você era arrogante e teimosa demais para ser uma boa médica. Só porque você teve quinze minutos de fama não significa que possa entrar aqui e agir como se fosse encarregada pelo lugar. — E só porque você não quer sujar o seu jaleco não significa que possa se livrar de pacientes como este homem — retrucou Natalie. Bev Richardson rapidamente se colocou entre os dois combatentes. — A culpa é minha, ClifF — disse ela. — Eu estava preocupada com este homem, e achei que seria uma boa oportunidade de aprendizado para... — Isso é absurdo e você sabe. Não a proteja. Ele se deslocou para a esquerda para ver Natalie claramente. — Não há lugar na medicina para alguém tão egocêntrico e vaidoso como você, Reis. Natalie trincou os dentes. Ela estava furiosa por ser criticada publicamente, e ansiosa para que todas as testemunhas soubessem que os preconceitos de Renfro o tinham levado a fazer um trabalho inadequado na avaliação daquele miserável. — Pelo menos eu me preocupo o suficiente com pessoas como Charlie para fazer uma avaliação completa dele. — Cinco anos como médico me tornaram perfeitamente capaz de decidir o que é uma avaliação completa e o que não é. Eu vou garantir que todos na faculdade de medicina saibam sobre você e o que aconteceu aqui. — Bem, acho que antes você deveria ver o que a tomografia desse homem revela. O olhar de Renfro poderia ter derretido um bloco de gelo. Ele olhou como se fosse dizer mais alguma coisa, e a seguir se virou e foi andando duro até a radiografia. Dois minutos muito tensos depois, um técnico de tomografia apareceu e levou Charlie. Natalie suspirou de alívio. — Ufa. Eu estava certa de que ele suspenderia o teste por despeito — disse, e seguiu com Bev para o posto das enfermeiras. A enfermeira experiente olhou para ela e balançou a cabeça. — Lamento não ter conseguido acalmá-lo. Provavelmente havia um jeito melhor de fazer isso — disse. — Renfro poderia ter admitido que estava errado — disse Natalie. — O fato de que ele foi em frente com a tomografia revela muito. Quando descobrirem um tumor atrás do olho do pobre Charlie, ele ficará grato por eu ter salvado sua pele. Tumor, abscesso, aneurisma perfurado. Em sua cabeça Natalie já antecipava as reações de Renfro e da equipe quando sua abordagem do paciente se mostrasse correta. Com sorte, o que quer que o pobre homem tivesse poderia ser operado. Ela pensou em como seu orientador, o cirurgião Doug Berenger, reagiria ao saber de sua atitude. Quando estava na metade do curso básico em Harvard, bem antes do incidente que arrebentara seu tendão de Aquiles, ele a procurara e oferecera uma vaga em seu laboratório — um trabalho que ainda fazia. Depois reunira a melhor equipe de medicina esportiva para cuidar de sua recuperação, e ainda falara com ela sobre ir para a faculdade de medicina. Berenger, talvez o cirurgião de transplantes cardíacos de maior destaque em Boston, se não no país, já falava sobre uma bolsa em seu departamento para quando ela terminasse seu treinamento cirúrgico. Ele tinha um lema emoldurado pendurado na parede atrás de sua escrivaninha: ACREDITE EM SI MESMO. Ele ficaria muito orgulhoso de como tinha acreditado em si mesma e mantido sua posição frente ao massacre injustificado de Renfro, especialmente quando o diagnóstico de Charlie fosse conhecido. Natalie foi para a sala quatro e atendeu os três pacientes que esperavam lá. Seu pulso continuava acelerado, em parte por consequência da amarga discussão com Renfro, em parte pela expectativa de receber em pouco tempo os resultados do laboratório e da tomografia do paciente. Finalmente, através da porta da sala quatro, ela viu Renfro passar, empurrando Charlie em sua maca. Um envelope de radiografias de papel manilha estava enfiado sob o colchão fino. Alguns momentos depois o residente chamou seu nome. — Dra. Reis, equipe — disse ele, bem alto todos poderiam vir aqui, por favor? Um grupo de talvez doze pessoas foi silenciosamente para o corredor. Renfro esperou até que parecesse não faltar ninguém, e continuou, segurando o envelope com a tomografia para dar ênfase. — Todos vocês estavam aqui há pouco, quando aconteceu a, ahn... discussão sobre cuidados ao paciente entre a srta. Reis e eu. Bem, tenho todos os resultados dos exames em nosso paciente. Gostaria de informar a vocês que não há nada de anormal em nenhum deles. Nada. Charlie está aqui apenas por causa do que eu disse que ele tinha, somente o que ele sempre tem, srta. Reis: induzida por álcool. Ele tinha 190 g de álcool no sangue quando chegou, e não acho que esteja menor agora, já que conseguiu pegar a garrafa de vinho Thunderbird no bolso de seu casaco na sacola. Bev, por favor, dispense este homem pela segunda vez. Esteja certa de preencher um relatório sobre o incidente. — Srta. Reis, vá para casa. Não quero nunca mais vê-la na minha emergência.

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