Mickey spillany o assassino implacável



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Mickey SPILLANy O assassino implacável
GÉNERO: Romance policial

CLASSIFICAÇÃO: Literatura norte-americana - Século XX - Ficção

EDITORA Livros do Brasil:

Lisboa, 1992

COLECÇÃO: Vampiro Gigante. Obras Escolhidas de Mickey Spillane nº 1

DIGITALIZADO E CORRIGIDO POR:

Aventino de Jesus Teixeira Gonçalves

Janeiro de 2004

***

Os volumes desta colecção são, normalmente, constituídos por duas obras. Neste caso, apenas consta do presente título



Nota do digitalizador

***


Badana da capa

O ASSASSINO

IMPLACÁVEL

por


MICKEY SPILLANE

Neste primeiro volume da

série "Obras Escolhidas de

Mickey Spillane" é apresentado

o romance inédito

O Assassino Implacável, no

qual o popular detective privado

Mike Hammer deverá

pôr, mais uma vez, à prova

todas as suas aptidões. Ele

que embirra francamente

com quem incomode Velda,

a sua simpática secretária,

vai encontrá-la quase sem

respirar, na companhia de

um cadáver mutilado, sentado

no seu próprio gabinete...

E, depois, aparecem-lhe

pelo caminho uns rufias

da CIA e um tenebroso cartel

de Medellin, além de

várias beldades espampanantes.

Embora seja honesto

e incorruptível, Mike Hammer

terá, mais uma vez,

de praticar alguns actos ilegais

forçado pelas circunstâncias...

Cada um dos restantes

cinco volumes de "Obras

Escolhidas de Mickey Spillane"

incluirá sempre dois

romances com a presença

inolvidável e altamente

demolidora de Mike Hammer.

OBRAS ESCOLHIDAS DE

Mickey Spillane


OBRAS ESCOLHIDAS DE

Mickey spillane

O ASSASSINO

IMPLACÁVEL

Edição

LIVROS DO BRASIL



Lisboa
Tradução de

EDUARDO SALÓ

*

Capa de ,



A. PEDRO

*

Título da edição original



THE KILLING MAN

First published in the United States under the title

THE KILLING MAN by Mickey Spillane. Copyright (c)(c)

Mickey Spillane, 1989. Published by arrangement with

DUTTON, and imprint of New American Library, a division

of Pertguin Books USA Inc.

Reservados todos os direitos pela legislação em vigor

*

Lisboa 1992



*

VENDA INTERDITA

NA REPÚBLICA FEDERATIVA

DO BRASIL


Para Jane,

com âfftoí^\


',""

CAPÍTULO 1

Há dias que pairam sobre Manhattan como uma

tenaz invisível, que aperta a cidade até quase não se

poder respirar. Ecoou um ronco surdo de trovoada ao

longo da caverna da Quinta Avenida e ergui os olhos

para onde o céu começava, no septuagésimo primeiro

andar do Empire State Building. Notei o cheiro de chuva.

Era daquela que fica suspensa acima das arrumadas

pilhas de betão, até que se impregna de poeira e detritos,

e quando desaba já não é chuva, mas o suor da

cidade.


Quando cheguei à minha esquina, cruzei a rua com

o sinal vermelho para os peões e mergulhei na arcada

ao nível do chão do prédio do meu escritório. Não era

frequente aparecer lá a um sábado, mas o cliente só

o podia fazer às 12 horas desse dia e, a avaliar pelo que

Velda me dissera, representava interesses de envergadura.

Havia duas pessoas à espera do elevador um

arquitecto da Suite do último piso e um moço de recados

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da charcutaria em frente. Ambos exibiam expressões de

aborrecimento e impaciência. O tempo que fazia também

os afectava. Quando a cabina surgiu, entrámos, carreguei

no botão do meu andar e saí no oitavo.

Num dia útil, o corredor estaria cheio de gente que

ia almoçar, mas naquele momento o vazio conferia um

ar tétrico à atmosfera, como se eu fosse um intruso

e olhos invisíveis me observassem. Só que era a única

pessoa presente e o sinal de vida solitário consistia

na luz do outro lado da porta do meu escritório.

Fiz rodar o puxador, impeli-a e conservei-me imóvel

por um instante, porque havia algo de errado no cenário,

erradíssimo mesmo, e o silêncio absoluto era tão

intenso como um grito agudo. Puxei da 45, agachei-me

e deslizei para o lado, na expectativa, de olhos bem

abertos.


Velda não estava sentada à secretária. Havia o

bloco de apontamentos em cima do tampo, e um copo

de cartolina de café entornara-se e manchara um maço

de papéis antes de rolar para o chão. Não tive de ir

longe para avistar o corpo dela encolhido contra a

parede, metade da cara coberta do sangue coagulado

que brotara de entre os cabelos.

A porta do meu gabinete estava entreaberta e havia

lá alguém, sentado atrás da secretária, com parte do

braço claramente visível. Eu não podia estar com subtilezas.

Tinha de explodir, e precipitei-me para a porta

como um aríete, dominado por fúria cega, disposto a

atirar alguém para uma morte cheia de fragmentos

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|? dispersos. De repente, porém, imobilizei-me, porque se

haviam antecipado.

O tipo sentado à secretária fora preso à cadeira e

o corpo imobilizado. O pedaço de fita adesiva larga

colado à boca também lhe imobilizara a voz, mas o

horror que acontecera ainda se achava presente nos

olhos vítreos sem vida fixos em mãos cujas pontas dos

dedos tinham sido amputadas junto do primeiro nó e

estavam pousadas metodicamente no tampo da secretária.

Uma dezena de cortes de faca rasgara a pele das

faces e peito, e a roupa não passava de uma massa

empapada em sangue coagulado.

Mas o que o matara fora o espigão aguçado em

que eu costumava enfiar os recibos das despesas.

Alguém os retirara da espécie de prego invertido com

quinze centímetros de comprimento e cravara-o na fronte

do tipo, servindo-se do pesa-papéis de bronze para que

penetrasse quase totalmente. E o assassino tinha deixado

um bilhete, mas não me detive a lê-lo.

As pulsações de Velda eram fracas, mas persistiam,

e quando afastei o cabelo descobri um largo hematoma

acima da orelha, com a pele esticada em virtude do

inchaço pronunciado. A respiração era ténue e os sinais

vitais nada animadores. Peguei no casaco dela do cabide,

coloquei-lho em volta, endireitei-me, fiz o possível por

dominar a fúria, procurei um número na lista de endereços

e marquei-o.

Consultório do Dr. Reedey informou a enfermeira.

É o Mike Hammer, Meg. O Burke está?

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Está, mas...

Oiça: chame uma ambulância e mande cá uma

maca e o Burke, imediatamente. A Velda feriu-se com

gravidade.

Acidente?

Não. Foi atacada. Tentaram esmagar-lhe o crânio.

Não lhe toque indicou ela, enquanto marcava

um número na extensão. Vou mandar já o doutor. Mantenha-a

agasalhada e...

Desliguei antes que completasse a frase.

Pat Chambers não estava em casa, mas o serviço

de atendimento revelou que podia contactar com ele

no local de trabalho. O sargento de serviço no P. B. X.

que atendeu pediu que me identificasse, fez a ligação

e, quando Pat disse "Capitão Chambers", indiquei-lhe

que se dirigisse ao meu escritório, com um saco para

conter um cadáver. Não estava inclinado para entrar

em explicações, enquanto Velda podia viver os seus

últimos instantes junto de mim.

Sentia-me incapacitado, impossibilitado de fazer

coisa alguma além de me conservar ajoelhado, com

a mão dela entre as minhas, e dirigir-lhe palavras de

encorajamento. A pele estava pegajosa e as pulsações

tornavam-se cada vez mais fracas. A frustração que

me percorria era daquelas que surgem num sonho,

quando não conseguimos correr suficientemente depressa

para evitar um terror indefinido no nosso encalço.

E agora via-me obrigado a assistir, impotente, ao abandono

de Velda nas garras da morte, enquanto um filho

da mãe qualquer se distanciava cada vez mais de mim.

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Mãos pousaram nos meus ombros e puxaram-me

para trás, enquanto a voz de Burke dizia:

Afasta-te, Mike, para eu poder observá-la.

Quase reagi violentamente antes de me aperceber

de quem era, e ao ver a minha expressão ele perguntou:

Estás bem?

Após um momento de silêncio, repliquei que estava

e desviei-me.

Burke Reedey era um médico que regressara da

carnificina do Vietname com toda a experiência necessária

para se ocupar de uma emergência como aquela.

Ele e a sua enfermeira actuaram com eficiência, e a

sensação de impotência que me acudira dissipou-se

e afastei-me para que trabalhassem à vontade, esforçando-me

por não ouvir os comentários que trocavam.

Havia algo no tom em que se exprimiam que continha

uma ponta de desespero. Os homens da ambulância

chegaram pouco depois, claramente satisfeitos por

verem que um médico os tinha precedido, depositaram

Velda, com o maior cuidado, na maca e retiraram-se,

acompanhados por Burke.

Entretanto, Meg conduzira-me para um canto e

obscurecia o meu campo visual propositadamente, consciente

do que se desenrolava na minha mente, e quando

eles desapareceram estendeu-me um copo de água e

ofereceu-me um comprimido de um frasco de plástico.

Abanei a cabeça e murmurei:

Obrigado, mas não preciso de nada.

Que aconteceu, Mike? perguntou, voltando a

depositar o comprimido no frasco.

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Ainda não sei. Apontei para a porta do meu

gabinete. Vá espreitar.

Acudiu-lhe uma expressão apreensiva aos olhos,

encaminhou-se para lá e abriu-a. Eu não sabia que as

enfermeiras da velha guarda podiam reagir daquela

maneira. Levou a mão à boca e vi que sacudia a cabeça,

horrorizada.

Não... não disse nada...

Esse está morto. A Velda não estava. A polícia

vai ocupar-se dele.

Retrocedeu da porta, voltou-se e fitou-me com

intensidade.

É o primeiro... homicídio deliberado... que vejo.

Os olhos arregalaram-se devagar, muito devagar.

Abanei a cabeça.

Não, não fui eu. Quem agrediu a Velda fez também

isso.

Sabe porquê? O alívio na sua expressão era



bem claro.

Ainda não.

Suponho que telefonou à polícia?

Assim que acabei de falar consigo. Inclinei

a cabeça na direcção da porta. Por que não volta para

o consultório? Eu trato do resto, aqui.

O doutor achou que devia ficar a cuidar de você.

Estou bem. Se não estivesse, dizia. A polícia

vai querer falar consigo e o Burke mais tarde, mas não

adianta envolver-se já com ela.

Tem a certeza?

Assenti com um aceno de cabeça.

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Olhe pela Velda, sim?

Logo que o doutor der notícias, contacto consigo.

Quando fiquei só, dirigi-me ao bar miniatura perto

da janela e peguei num copo. No entanto, reconheci imediatamente

que o momento não era o mais apropriado

para tomar uma bebida. Por conseguinte, pousei-o e

entrei no meu gabinete.

O tipo morto continuava a olhar as mãos mutiladas,

ignorando aparentemente o espigão cravado no crânio

| até que a base ornamental contactara com a pele. O bri-

lho vítreo do olhar parecia mais pronunciado.

Olhei pela primeira vez o bilhete em cima da secretária,

com as enormes maiúsculas inscritas quase triunfalmente

a toda a largura por baixo do timbre da minha

folha de papel de carta. Dizia "MORRES POR ME MATAR".

E, a seguir, numa caligrafia irrepreensível, a assinatura,

Penta.

Ouvi a porta do corredor abrir-se e Pat gritar o



"meu nome.

Estou aqui, Pat repliquei, no mesmo tom.

O recém-chegado era um polícia que já vira tudo.

O presente caso não passava de mais um na sua lista.

Mas não era o assassínio que o intrigava. Impressio-

nava-o o lugar onde acontecera. Voltou-se para o homem

fardado à entrada e perguntou.

Está alguém lá fora?

Só o nosso pessoal. Intercepta toda a gente nos

elevadores.

Óptimo. Mantém todos aí, durante cinco minutos

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indicou ao polícia que se encontrava junto da porta.

O nosso pessoal também.

Entendido disse o outro, e virou-se para fora.

Vamos conversar propôs Pat, voltando-se para

mim.


O meu relato não foi longo.

Tinha combinado encontrar-me aqui, ao meio-dia,

com um cliente chamado Bruce Lewison. A Velda veio

à frente para abrir a porta e despachar algum trabalho

atrasado. Cheguei uns minutos antes do meio-dia e

encontrei-a no chão e o tipo morto.

Tocaste em alguma coisa?

Aqui, não. Como deves compreender, não ia

esperar que aparecesses para chamar o médico para

a Velda.


Fitou-me com uma expressão neutra que eu conhecia

bem.


Pressenti um esgar de amargura no meu sorriso,

pois o assunto não tinha nada de divertido.

Hei-de apanhar o filho da mãe, Pat. Mais cedo

ou mais tarde.

Pára com essas tretas, hem?

Com certeza.

Conheces este tipo?

Abanei a cabeça.

Vejo-o pela primeira vez.

Alguém pensou que era a ti que matava, camarada.

Não nos parecemos nada.

Estava sentado na tua cadeira.

Lá isso é verdade.

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Quem mataste, Mike? inquiriu, baixando os

olhos para o bilhete.

Deixa-te disso. Não brinques comigo.

Este recado faz algum sentido para ti?

Absolutamente nenhum. Não sei porquê, mas

alguém estava empenhadíssimo nisto.

Muito bem suspirou, com ar cansado. Mandemos

entrar os nossos rapazes.

Enquanto o fotógrafo captava o cadáver de todos

os ângulos e obtinha grandes planos das mutilações,

Pat e eu passámos ao escritório de Velda, onde agentes

à paisana recolhiam impressões digitais e aspiravam a

área, em busca de algum indício ocasional. Pat, que

já anotara tudo o que lhe revelara, indicou:

Fornece-me todo o itinerário do teu dia, Mike.

Começa no momento em que saltaste da cama, para me

certificar enquanto o assunto está fresco.

Escuta... quando a Velda recuperar o conhecimento...

Vi-lhe a expressão no rosto e inclinei a

cabeça. Sentia uma infinidade de nós no estômago e

apetecia-me respirar ar puro e fresco. Levantei-me às

sete, tomei banho de chuveiro, vesti-me, desci à leitaria

para trincar qualquer coisa, comprei o jornal, regressei

ao apartamento, li os tópicos principais e segui para o

ginásio.


Qual?

O Bing's. Sabes onde é. Cheguei lá às nove e

meia, passei um pouco mais de uma hora numa sala

de exercícios, meti-me debaixo do chuveiro e retirei-me

às onze e meia. O Bing pode confirmá-lo. São vinte

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minutos a pé até aqui e encontrei duas pessoas conhecidas

pelo caminho. Uma era Bill Sheen, o polícia de

giro da área, e a outra Manuel Florio, dono do Pompeli

Bar, na Sexta Avenida. Caminhámos juntos durante um

quarteirão e separámo-nos. Cheguei ao escritório alguns

minutos antes do meio-dia e deparou-se-me... isto.

Abarquei o que me rodeava com um gesto largo.

O Burke Reedey fornecer-te-á o relatório médico acerca

da Velda e o coroner indicará a hora aproximada do

crime, pelo que não deves perder tempo a incluir-me

no rol dos suspeitos.

Pat acabou de escrever, arrancou a folha do bloco

e fechou este. A seguir, chamou um dos detectives,

entregou-lha e indicou que verificasse todos os pormenores

das minhas declarações.

Cumpramos todos os requisitos do sistema,

camarada. Reconhece que não estás numa situação

exactamente airosa.

O representante do coroner era um indivíduo baixo

e atarracado de olhos azuis aguados que brilhavam de

curiosidade. Todo o indício, por insignificante que fosse,

constituía um elemento de suma importância, e quando

completou o aspecto físico do exame, recuou um passo,

contornou o cadáver lentamente e pareceu proceder a

uma análise psicológica do homicídio. Pat deixou-o

actuar sem intervir. O momento pertencia inteiramente

ao técnico, e tudo o que conseguisse apurar agora resultaria

valioso, porque o corpo não voltaria a poder ser

visto naquela posição. Tornou a concentrar-se por duas

vezes no espigão cravado na fronte do homem, até

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que, por fim, contraiu as faces num esgar de satisfação

e fechou a maleta com um estalido seco.

Que acha? perguntou Pat.

Acerca do crime?

,, Entre outras coisas.

O interpelado consultou o relógio.

Eu diria que foi assassinado entre as dez e as

onze desta manhã. Nunca depois das onze. Serei mais

concreto após a autópsia. Foi identificado?

Ainda não.

Uma morte interessante. Os cortes nas faces e

peito parecem ter sido produzidos com um instrumento

extremamente aguçado de lâmina curta.

Um canivete? ,

Sim, possivelmente. Há quem ande com coisas

dessas na algibeira.

Alguma razão médica para os cortes?

Quer que especule?

Com certeza.

Foram feitos para aterrorizar a vítima. É surpreendente

a impressão que um corte de uma lâmina

no seu próprio corpo pode exercer na psique de uma

pessoa. Estes ferimentos são demasiado profundos para

se poderem considerar superficiais, mas não o suficiente

para se tornarem fatais.

E quanto às mãos?

Uma desfiguração pouco comum. Os olhos

azuis brilhantes fitaram-nos e acabaram por se fixar

em Pat. Alguma vez tinha visto uma coisa assim?

O meu amigo abanou a cabeça. Recordo-me vaga-

2 - Spillane 1

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mente de algo do género. Hei-de tratar de indagar,

quando chegar ao laboratório. Francamente, creio que

constitui um estratagema de assinatura.

De um quê?

Uma marca que o assassino deixa para que se

recordem dele.

Parece-me uma maneira muito complicada de

assinar o nome observei.

De acordo, mas nunca se esquece. No entanto,

ele pretendia impressionar a vítima com isso. Deixem-me

mostrar-lhes como procedeu. O médico pegou

no braço do morto, já dominado pelo rigor mortis, e

pousou a mão mutilada no tampo da secretária, com

o indicador estendido e os outros dedos dobrados para

dentro. Onde o primeiro terminava, via-se o corte da

lâmina na madeira. Imaginem ter de assistir às

amputações sucessivas e nem sequer poder soltar um

grito para aliviar a dor, que devia ser horrível. Em

todo o caso, não podia ser tão intensa como a produzida

pelo espigão cravado na cabeça.

Que está a reservar para o fim, doutor?

Este concedeu um leve sorriso de amargura a Pat.

Estranha que um indivíduo adulto se deixasse

imobilizar totalmente?

Exacto.

Fez rodar a cadeira até que a nuca do cadáver ficou



Voltada para nós, levantou o cabelo desgrenhado e

pousou os dedos num inchaço um pouco acima da

orelha.

Uma pancada com o usual instrumento contun-



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dente e força suficiente para tornar a vítima inconsciente

durante uns dez minutos.

Fiquei com a boca seca e experimentei a sensação

de que alguma coisa me trepava pelas costas. A pancada

desferida em Velda não se destinava apenas a atordoá-la.

Volvi o olhar para o telefone. Meg nunca mais telefonava.

Pat inclinou-se e examinou o corpo atentamente.

O braço roçou no casaco do homem e abriu-o. Do bolso

da camisa emergia uma conta do Con Edison dobrada

ao meio. Ele abriu-a, leu o nome e disse:

Anthony Cica. Estendeu-ma para que eu visse.

Conhece-lo?

Não repliquei, inteirando-me de que o endereço

era na área oriental de Manhattan.

Tiveste sorte em contar com um substituto.

Foi pena não haver também um para a Velda.

A sensação nas costas reapareceu e comecei a respirar

pesadamente, quase sem me dar conta.

Então, que é isso, Mike?

Senti Pat sacudir-me o braço e inclinei à cabeça,

enquanto passava o dorso da mão pela boca.

Isso é a viagem do seu ego. O médico apontou

para a conta. Se o morto não pode ler, quem o fará?

E quem é Penta?

Deixe a parte mais suculenta para nós, doutor.

Vão-me informando. Estou muito interessado.

Conte com o relatório, amanhã. Quando se dirigia para

a saída, deteve-se na minha frente e perguntou: Eu

conheço-o?

Mike Hammer.

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Ouvi falar de si.

Este é o meu escritório.

Hum... Olhou em volta com ar crítico. Quem

é o seu decorador?

O humorismo dele é assim explicou Pat, quando

o médico saiu.

Em seguida, assomou à porta e indicou a dois dos

seus homens que examinassem o corpo.

Peguei no telefone e liguei a Meg. O serviço de

atendimento informou-me de que ela voltaria às seis.

Marquei o número do hospital, mas ainda não havia

qualquer comunicação sobre o estado de Velda. Ninguém

se atrevia a especular.

Passou mais uma hora, primeiro que os especialistas

completassem o seu trabalho e o corpo fosse levado

na mortalha provisória de borracha. Pat encontrava-se

ao telefone e quando desligou virou-se para mim e anunciou

com uma expressão de contrariedade:

Os jornais acabam de se inteirar. Os tipos continuam

do teu lado?

Bem, a maioria dos da velha guarda tem-me

amizade, mas os mais novos são imprevisíveis.

Espera até lerem esse bilhete.

Pois é, vai ser bonito.

Ainda não me disseste quem mataste, Mike.

Desta vez, havia uma inflexão de gravidade na sua voz.

Tratava-se de uma pergunta directa e simples.

Olhei-o sem pestanejar.

Estás ao corrente de todas as pessoas que abati.

A última foi Julius Marco, o filho da mãe que se prepa-

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rava para matar aquele rapaz quando o liquidei,

aconteceu há quatro anos.

Quantas alvejaste, desde então?

Algumas. Nenhuma morreu.

Foste testemunha em dois casos de homicídio

premeditado, não é verdade?

É. Como muita outra gente.

Recentemente?

Não, homem. A última vez foi há alguns anos.

Então, quem poderia desejar-te morto?

Que me lembre, ninguém.

Mas há alguém que te deseja ainda mais que

morto. Quer-te retalhado e mutilado e com um prego

cravado na cabeça. Tinha um encontro marcado contigo

ao meio-dia, chegou com antecedência, afastou a Velda

do caminho e não precisou de esperar por ti, porque

havia um fulano no teu gabinete que supôs seres tu

e pregou-o.

Já tinha pensado nisso admiti.

E estamos encravados até que obtenhamos elementos

de identificação de todos e as declarações da

Velda.


Dá a impressão disso. Terminaram aqui?

Sim.




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