Mil e uma noites: muito tempo para pensar questões de gênero



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E por falar em mulheres...

Sônia Maia Teles Xavier1



RESUMO

Este texto discute a importância da mobilização das mulheres com um discurso reivindicatório de igualdade de oportunidades e respeito às diferenças, sob perspectiva filosófica. Além disso, reflete sobre as razões que levam a sociedade a tratar seres humanos iguais de modo diferenciado e os fatores que interferem nesse contexto de forma a legitimar esse tipo de comportamento.

Palavras-chave: Feminismo - Gênero – Mulher - História.

ABSTRACT

This paper discusses the importance of women’s mobilization with a speech of equal opportunities and respect for differences on a philosophical perspective. Moreover, it reflects on the reasons why the society treat people equally so differently and the factors that interfere in this context in order to legitimize this kind of behavior.

Key- words: feminism - gender - woman - story.

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CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Temas como a submissão feminina, feminismo e gênero serão tratados, principalmente levando-se em consideração alguns pontos que suscitam discussão e que, na maioria das vezes, são ocultados pela corrente principal da filosofia, principalmente no espaço acadêmico. Tais aspectos serão abordados de acordo com pressupostos apresentados por alguns autores e autoras, citados ao longo deste texto, que têm se empenhado nessa empreitada. Grimshaw (2002, 732), citando Michele le Doeuff, traz á tona a discussão acerca da forma como a filosofia trata a questão do ser humano de modo geral, mas não evidencia, como deveria, as questões de gênero. Segundo a pensadora, isso manifesta parcialidade, ao invés da suposta universalidade pretendida pela filosofia. Questões que dizem respeito à mulher são, na maioria das vezes, relegadas a segundo plano. Grimshaw (2002, 728), assegura que as teorias filosóficas são socialmente localizadas e tenderam a responder a interesses, preocupações e experiências masculinas. Além disso, o primeiro e essencial estágio do pensamento sobre filosofia e gênero sexual consistiu em ressaltar a misoginia endêmica de muitos filósofos. Além disso, segundo a autora, há uma conveniência acerca dessa questão no que diz respeito à quase exclusão das mulheres (como cidadãs, como sujeitos racionais ou como agentes morais no espaço filosófico).

Le Doeuff afirma que, enquanto se supõe comumente que a filosofia é ‘universal’ e a investigação feminista meramente parcial – uma forma de ‘interesse especial’ -, seria mais apropriado dizer que a filosofia é ‘parcial’, no sentido de que, em geral, exclui as mulheres tanto da possibilidade de produção de teorias filosóficas como da exemplificação dos ideais com os quais as teorias filosóficas estavam comprometidas.(GRIMSHAW,2OO2, p. 732).

Apontar a dificuldade ou problema não parece ser suficiente. Le Doeuff defende um novo tipo de universalismo diferente do antigo, em que se precisa incluir e restabelecer o lugar da mulher na filosofia. Se essa tem sido a posição ocupada pelas questões que envolvem a mulher na filosofia, é possível, para a própria filosofia questionar, repensar tal situação. Questiona-se então: é possível falar de filosofia e desconsiderar os problemas relativos à mulher?

Muitos costumes, como a questão da sujeição da mulher, são simplesmente acatados, respeitados ou detestados no contexto social e, nem sempre questionados, porque são considerados como um ‘costume’ e, como tal, reverenciados.
SOBRE O CONCEITO DE GÊNERO
Para dar continuidade ao que é proposto neste trabalho, é imprescindível que se entenda um pouco sobre o conceito de gênero, em que condições, como, por que e quando foi criado. Segundo Daniela Quad (2003), em Feminismo, que história é essa?,
Falar de ‘gênero’ é algo mais do que falar das diferenças biológicas entre homens e mulheres. Assim como o patriarcado2, gênero é um conceito que pode ser entendido ao lado da luta das mulheres pelos seus direitos [...] Gênero não é apenas sinônimo de sexo, masculino ou feminino. Gênero também é o conjunto de expressões daquilo que se pensa sobre o masculino e o feminino. Ou seja, a sociedade constrói longamente, durante os séculos de sua história, significados, símbolos e características para interpretar cada um dos sexos. A essa construção dá-se o nome de ‘relações de gênero.
Trata-se do modo como determinada sociedade se comporta em relação ao masculino e ao feminino. Geralmente, estabelecem que as mulheres sejam dóceis, meigas e prendadas, obedientes a seus maridos e boas donas de casa, além, é claro, de ajudar a custear as despesas da casa trabalhando no espaço público. Não se pode esquecer que devem estar lindas para receberem seus maridos. Da mesma forma, aos homens está destinado o papel de patriarca e provedor.3 Deverão ser mais fortes, física e emocionalmente falando, desajeitados com o serviço doméstico e nem sempre preocupados com a aparência.4 Então, essas diferenças biológicas entre homens e mulheres são percebidas pelas pessoas a partir das construções de gênero de cada sociedade, umas mais flexíveis, outras mais rigorosas em relação a essa questão. Coisas como: menina não faz isso porque é coisa de menino ou, menino tem que se comportar como ‘homem’ ainda são comuns. Na verdade, é de suma importância compreender como ocorrem essas relações no contexto social para que se identifiquem os valores atribuídos a homens e mulheres, bem como as regras de comportamento decorrentes desses valores.

A história das mulheres sempre foi marcada por um longo período de subordinação, de angústias, mas também por grandes expectativas de possibilidades de mudança. A mulher foi criada para cumprir a ‘sublime’ missão de ser mãe e instrumento para a perpetuação da espécie humana. Por muito tempo tornou-se mero objeto para procriação. Como se não bastasse, estava sujeita a uma moral severa. O seu espaço era o privado, sem o direito de exercer sua cidadania, pois não era considerada cidadã – não tinha maioridade – ou seja, não possuía competência para cuidar de si mesma. Com a condição de menoridade, ela necessitava submeter- se voluntariamente ao homem em troca de ‘proteção’. Antes de casar-se era sujeita e protegida pelo pai; após o casamento, era guiada, comandada pelo seu marido.



No livro A sujeição das mulheres, Mill5 trata da condição de menoridade em que se encontra a mulher e traz à tona o modo como a sociedade estabelece o casamento como principal lugar a que elas são destinadas. Além disso, faz uma crítica a esse sistema ao apresentar a situação de desvantagem das mulheres que não se encaixavam no modelo preestabelecido que seria o das educadas, atraentes e belas para usufruírem da oportunidade de serem escolhidas por um homem. Esse aspecto é ressaltado quando afirma: “O casamento é o destino apontado pela sociedade para as mulheres, o objetivo para o qual elas são educadas e elas deveriam alcançar esse propósito, exceto aquelas que são pouco atraentes para serem escolhidas por um homem como companheiras”(MILL, 2006). Ele expõe a condição de desvantagem da mulher em relação ao homem e ainda ressalta um problema crucial: elas eram educadas para casar-se, mas, e aquelas que, por um capricho da natureza nasceram sem os predicados necessários para serem escolhidas? Mais adiante, o filósofo mostra a condição de rejeição pela própria sociedade para com tais mulheres, obrigando-as à condição de ‘encalhadas’ ou de ‘tias’, ou pior ainda – rejeitadas.

Dessa forma, Mill denuncia práticas consideradas injustas da sociedade em relação à mulher. Esse tipo de comportamento do homem em relação à mulher gera descontentamento e, consequentemente, infelicidade. Para Mill, a idéia de justiça está vinculada à de felicidade. Um outro pensador que merece destaque por incorporar em seus escritos um discurso feminista é o filósofo francês Poulain de La Barre. Ele publicou, em 1673, o primeiro texto filosófico feminista da cultura ocidental, intitulado De l’ègalit´des deux sexes – discours phisique et moral où l’importance de se défaire des préjuges. São exceções. Ao contrário desses dois pensadores, muitos filósofos, como os nomes apontados a seguir, abordam a questão da relação entre os sexos de forma a realçar a superioridade do homem e demonstrar a legitimação da posição de inferioridade da mulher. Como explica Jaggar (2003,624),
A manifestação mais freqüentemente observada do caráter misógino da filosofia ocidental é a do rebaixamento explícito das mulheres, feito por filósofos tão reconhecidos como Aristóteles (A Política, Livro I), Tomás de Aquino ( Suma Teológica, t.1), Rousseau (Emílio), Kant ( Sobre a distinção entre o belo e o sublime), Hegel ( Filosofia do direito), e Sartre ( O ser e o nada). Pertencendo a uma tradição que sempre considerou a racionalidade como a principal característica do ser humano, esses filósofos afirmam que a capacidade de raciocínio da mulher é diferente e inferior à do homem; disso eles concluem que as mulheres são inaptas à autonomia moral, e que seu mérito consiste em exercer as virtudes femininas, que são a obediência, o silêncio e a fidelidade. É a razão pela qual as mulheres devem ser excluídas da vida pública – inclusive da filosofia – e aceitar um papel subordinado na vida privada.
Como exemplo acerca do posicionamento desses filósofos, podemos citar Aristóteles6 quando diz que “havia pessoas destinadas, por natureza, a serem escravas e que a mulher representava a passividade, enquanto os homens, a força ativa”. Em A Política, Aristóteles defende que “Naturalmente o homem é mais destinado a mandar que a mulher (excluído, é claro, as exceções contra a natureza), [...] o ser mais perfeito deve ter autoridade sobre o ser incompleto.” Na Ética a Nicômaco (VIII, 10, 1160a – ed. 1973), torna-se evidente a posição desse filósofo acerca da sujeição feminina em relação ao homem quando declara que “Mandar e obedecer são coisas não apenas inevitáveis, mas sobretudo úteis; desde o nascimento, alguns seres estão destinados a obedecer e outros a mandar.”

Nesse sentido, pode-se perceber que, para esse filósofo, a condição de sujeição da mulher seria considerada como natural. Então, se a própria natureza se incumbiu de estabelecer tais relações, seria imputada como justa tal hierarquia. Outros pensadores ou reforçaram esse modelo ou apenas se omitiram, e a omissão também funciona como elemento de consentimento no processo de perpetuação da condição de negação do direito de autonomia às mulheres. Apesar desse posicionamento dos filósofos citados, convém ressaltar que o processo de declínio do patriarcalismo é fruto da luta de mulheres apesar da adesão de filósofos como os dois citados..


EM BUSCA DE ALARGAMENTO DE FRONTEIRAS
O movimento desenvolvido pelas mulheres não se restringe em um duelo entre homens e mulheres. Não se trata de disputa por poder ou conquista efetiva de espaços, vai muito além disso. Pretende-se analisar o que acontece no contexto social procurando-se entender a forma como determinada sociedade se comporta tratando seres humanos com direitos iguais, de modo diferente e levantar questionamentos como, por exemplo: quais fatores legitimam tal comportamento da sociedade?

Com essa motivação, mulheres têm se empenhado em movimentos que visam aos direitos iguais entre homens e mulheres e procuram entender como a sociedade tem se comportado em relação a essas questões e o mais importante: não apenas trazer à tona o problema, mas empreender esforços para que ocorram mudanças de comportamento das pessoa em relação ao exposto..



No que diz respeito à dimensão política, a mulher mobiliza-se para melhorar as suas condições e chances, ou melhores oportunidades na sociedade. Segundo Soares Carvalho(2002), a dimensão política compreende a inter-relação entre o bem-estar e as condições econômicas, sociais e culturais que possibilitam às mulheres disporem integral e livremente da sua capacidade de agenciamento. A condição de agente se realiza pelo respeito e fortalecimento das mulheres. Jussara Pra(2002 p.203), ao escrever sob esse aspecto em “O espaço público, gênero e feministas” assegura:
O tema das políticas feministas é um convite à reflexão sobre práticas de ação que buscam promover e garantir a cidadania das mulheres. Dessa perspectiva, enfocar a questão das políticas feministas requer um olhar voltado para cenários e conjunturas que impulsionam a sua implantação, bem como para as forças sociais e políticas que trazem à tona problemas relativos às discriminações, intolerâncias e subordinações que afetam diferentes segmentos em uma comunidade, sociedade ou nação.
Uma das lutas iniciais promovida pelas mulheres deu-se não apenas com o objetivo de luta por uma igualdade legal ou contra as restrições dos seus direitos, mas de modo específico, pela eliminação de obstáculos que sempre se interpuseram diante delas, impedindo-lhes o pleno desenvolvimento como pessoas. Reivindicavam o direito ao voto, à uma educação igualitária, à formação profissional tal qual a oferecida aos homens. Como se pode visualizar hoje, os fatos têm demonstrado à sociedade e, de modo bem particular, às próprias mulheres que, quando são oferecidas oportunidades e condições propícias, elas desempenham os papéis que lhe são destinados com tanta eficiência quanto os homens. Não se trata de uma simples disputa por igualdade, mas de iguais oportunidades.Sob essa perspectiva, torna-se possível assinalar que, do ponto de vista político, a liberdade e a democracia, quando asseguradas a qualquer cidadão independente de sexo, credo religioso ou raça, apenas garantem um ganho à sociedade e não apenas a uma pequena parcela dessa sociedade que são as mulheres.

Como já foi mencionado no início deste texto, não será feita, nesse estudo, uma análise histórica profunda acerca da evolução da movimentação das mulheres por melhores condições. Serão citados apenas alguns marcos históricos como, por exemplo, durante os anos de 1930 e 1940 em que se preparava e eclodia a Segunda Guerra Mundial. Movidos pela necessidade de mão de obra, já que os homens teriam que ir para a frente de batalha, as pessoas que ficaram em suas cidades deveriam substituí-los durante esse período. As pessoas que restaram com capacidade para produzir, em sua maioria, foram as mulheres. Coube a elas a incumbência de suprir tal necessidade. Como conseqüência, passaram a ocupar postos até então destinados quase que exclusivamente aos homens. Fato interessante é que, ao terminar a guerra, os homens sobreviventes retornaram aos seus lares e sentiram a necessidade de retomarem a seus antigos postos de trabalho. Como explica Matos (2003), essa fase de transição se processou da seguinte forma: houve uma reativação da ideologia que valorizava a diferenciação dos papéis atribuídos a cada sexo: à mulher, competia ocupar, retornar ao espaço doméstico.

Ou seja, a aparente valorização acontecia apenas como fruto de uma necessidade imediata. Passada a urgência, no pós-guerra, surge o dilema: o que fazer para recolocar esses homens em seus antigos postos de trabalho? Outro problema despontava: o que fazer com as mulheres operárias? Naturalmente, dever-se-ia substituí-las retirando-as do espaço conquistado de forma menos dolorosa, e o modo mais interessante encontrado foi fazer uma campanha em que se acentuassem as suas qualidades femininas como a maternidade, o comando da casa e o bem-estar da família. Torna-se imprescindível, nesse contexto, uma estratégia para retirá-las do espaço conquistado, pois o ‘lugar’ não era delas e, para o ” bem de todos e felicidade geral da sociedade“ elas deveriam retroceder e ainda sentirem-se felizes pois, independente de atuarem dentro ou fora do espaço privado, seriam amadas e respeitadas por suas famílias.

Como de hábito, as mulheres são manipuladas em seu ponto mais sensível: estavam fragilizadas pelas circunstâncias dolorosas do pós-guerra. Fato interessante e, pode-se dizer surpreendente, é que a guerra não apenas as fragilizou, por outro lado, tornou-as mais fortes e cônscias de seus deveres, direitos e sua capacidade de produzir, também, fora do espaço privado.



Convém ressaltar que, apesar de uma aparente adesão ao movimento proposto para que as mulheres cedessem seus lugares aos homens no campo profissional, paralelamente a esse movimento, uma pequena parcela da sociedade manifestava-se em defesa dos direitos adquiridos por essas mulheres. Nessa mesma época, acontece o primeiro reconhecimento internacional dos direitos femininos, oficialmente, na Carta das Nações Unidas (1945) segundo escreve Eline Jonas (2003), nessa carta estabelece-se o princípio de igualdade entre homens e mulheres. A partir desse momento acontece um mover da sociedade em relação às questões de gênero.

Ao longo dos anos sessenta, instaura-se uma problemática que já não pensa a sexualidade como o lugar fechado de um domínio privado, mas uma relação de poder entre os gêneros, um dispositivo de essência política, constitutivo da ordem patriarcal. Nesse período, há um esforço para fazer vir à tona o modo como as leis, a moral, a psicologia, os papéis relativos à sexualidade convergem para assegurar a supremacia viril e a subordinação das mulheres. Para alcançar o objetivo de atingir principalmente as mulheres,7 e toda a sociedade, eclodiram grandes mobilizações e as questões mais acentuadas foram sobre a autonomia sexual, a proibição do aborto e as legislações com respeito ao estupro e até mesmo sobre as questões da violência dentro do espaço privado. Nesse aspecto, pode-se dizer que houve uma publicitação do privado. Os dramas íntimos, muitas vezes resguardados por preconceitos sociais e ‘políticas do silêncio’, motivadas por uma sociedade movida por aparências, tornaram-se públicos causando uma real visão acerca dos dilemas ocorridos no citado espaço. Além disso, o direito ao controle de procriação foi amplamente debatido. Nesse sentido, a maior disponibilidade e aceitação social dos métodos anticoncepcionais permitiram às mulheres terem menor número de filhos e, naturalmente, começarem a exercer mais controle sobre suas vidas.

No final da década dos anos setenta, teóricos(as) estudiosos(as) sobre o tema mulher e do feminismo começaram a utilizar o termo gênero, conceito formulado por Joan Scott e Gayle Rubin, pesquisadoras de língua inglesa. No Brasil, essa nova conceituação foi incorporada pela comunidade acadêmica no mesmo período, como explica Yara Sayão(2006):
A expressão gênero começou a ser usada justamente para marcar que as diferenças entre homens e mulheres não são apenas de ordem física, biológica. [...] Sexo é atributo biológico, enquanto gênero é uma construção social e histórica. A dimensão de gênero aponta, portanto, para a dimensão das relações sociais do feminino e masculino. E ainda: se as relações homem X mulher são um fenômeno de ordem cultural, podem ser transformadas. E a educação desempenha papel importante nesse sentido.
Não se pode esquecer que a luta das mulheres por direitos iguais é antiga, mas não era integrada no que se pode denominar de “movimento feminista”. Segundo Quad (2003, p. 55), esse movimento é dividido em períodos históricos, também chamados de ondas. A primeira onda aconteceu no século XIX. Na segunda metade do século XIX, as mulheres da Europa e dos Estados Unidos iniciaram um movimento por seus direitos políticos e sociais. O livro O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, em 1949 é uma importante marca da primeira onda.

A segunda ‘onda’ feminista tem início com a publicação de A mística feminina de Betty Friedan8. Nessa obra, a autora propõe uma reformulação nas propostas do movimento feminista e também analisa a obra de Beauvoir. Nessa fase, aliam-se a outros segmentos da sociedade com o intuito de unir forças para a conquista de direitos políticos e sociais. Em todo esse período houve um empenho considerável na tentativa de compreender os fatores que contribuíram para essa condição da mulher. Como assinala Quad(2003, p.59),
após 1975 e até hoje, estamos vivendo desdobramentos da segunda onda do movimento feminista. Foi na segunda onda que se começou a falar de gênero. E é atualmente que se fortalece a idéia de pensar as relações entre homens e mulheres e entre o masculino e o feminino a partir de gênero.


Houve, na verdade, um longo percurso até culminar na expressão gênero. Quando se fala em relações de gênero, são evidenciadas, sobretudo, as características atribuídas a cada sexo pela sociedade e sua cultura. Como não existe a natureza humana fora da cultura, a diferença sexual anatômica não pode mais ser pensada, isolada desse contexto cultural na qual está imersa. Ou seja, falar de relações de gênero é falar das características atribuídas a cada sexo pela sociedade e sua cultura. A diferença biológica é apenas o ponto de partida para a construção social do que é ser homem ou ser mulher. Sexo é atributo biológico, enquanto gênero, portanto, aponta para a dimensão das relações sociais do feminino e do masculino. O conceito de gênero também permite pensar nas diferenças sem transformá-las em desigualdades, ou seja, sem que as diferenças sejam ponto de partida para a discriminação. O fato de poder gerar um filho, por exemplo, não é razão para que as mulheres sejam consideradas superiores ou inferiores aos homens, apenas diferentes.

Nos anos noventa, o movimento feminista procura reforçar o repúdio à concepção que legitima a diferenciação de papéis, chamando-a de ideológica e reivindicando a igualdade em todos os níveis. Eline Jonas(2003) em, As mulheres como protagonistas de sua história, explicita acerca da militância durante o período citado que

Em julho de 1993, o final da Conferência Mundial dos Direitos Humanos, em Viena insiste para que sejam adotados novos procedimentos com o fim de reforçar o cumprimento dos compromissos em favor da igualdade dos direitos da mulher. Apesar desse processo de mobilização, de organização e conquista referenciados pelos marcos da igualdade formal entre os homens e mulheres conseguida, na maioria das sociedades ocidentais, hoje, de certa forma, pouco reconhecimento social tem sido dado às mulheres na condição de sujeitos políticos. Ainda não se lhes outorgou integralmente sequer a titularidade desses direitos, cujo exercício permanece condicionado à situação social a que estão submetidas ante as expectativas sociais em relação às responsabilidades específicas de gênero. Mesmo assim, as mulheres estão presentes em todos os espaços da vida cotidiana, o que dá sustentação à sua reivindicação de participação paritária à dos homens nos espaços públicos e a sua efetiva inserção na produção social, elementos visíveis da ampliação de sua consciência e de sua organização para que se rompam os obstáculos rumo à igualdade de fato.


A situação descrita apresenta o aspecto cíclico do movimento feminista que sofre influências e interferências do contexto de cada época. Leis são estabelecidas motivadas por políticas públicas impulsionadas por movimentos e discursos reivindicatórios e as formas de se perceber tais ações, e respectivas reações sociais conduzem ao desmembramento de uma terceira fase do movimento feminista.A ênfase é dada à questão da diferença, da subjetividade e da singularidade das experiências. Não se trata de uma disputa por igualdade, mas de respeito às diferenças. Sob essa perspectiva, as subjetividades são ‘atravessadas’ pelo discurso em que se estabelecem as trocas dialógicas e intersubjetivas. Segundo Narvaz(2005, 59),

As questões introduzidas pela terceira geração do feminismo revisaram algumas categorias de análise consideradas fundamentais, mas instáveis (Harding, 1993; Scott, 1986; ouro, 1995) aos estudos de gênero. Estas categorias estão articuladas entre si, que são: o conceito de gênero; a política identitária das mulheres; o conceito de patriarcado e as formas da produção do conhecimento.


Convém lembrar que o século XXI, segundo a percepção da filósofa Victoria Camps, em El siglo de las mujeres, apresenta-se como o século das mulheres. De acordo com o pensamento da autora, o novo feminismo pauta-se em maior acesso à educação como um dos principais meios para a geração de igualdade de oportunidades e maior mobilidade social.

Diante do exposto, pode-se depreender que há um esforço ou preocupação por parte não só das mulheres, mas da sociedade em definir ações, que minimizem ou eliminem situações geradoras de desigualdade ou discriminação por se entender que não há nenhum ganho social com essa forma de conduta. Pelo contrário, pois quando há pessoas, de qualquer sexo, satisfeitas com a sua condição, os resultados serão melhores.

É possível considerar, então, que apesar dos avanços e da aprovação de leis que beneficiam as mulheres, a sociedade ainda encontra-se arraigada aos antigos costumes, o que faz com que as mudanças esbarrem em empecilhos até mesmo (ou principalmente) no espaço privado. Com efeito, as leis mudam, mas não se percebe uma real mudança nos costumes. Criam-se as leis com o intuito de propiciar condições legais para que as mulheres tenham a oportunidade de acesso a espaços antes reservados ao homem, contudo, nota-se dificuldade de muitas mulheres em assimilar e encarar a oportunidade que está sendo oferecida para elas pelo fato de não darem conta de reagir aos antigos hábitos de estarem submissas a um homem e até mesmo de conciliarem as tarefas domésticas com as funções desempenhadas no espaço público.

Como se pode perceber, as questões que tratam das relações de gênero parecem milenares, pois acompanham a história não só das mulheres, mas da humanidade. Além da militância ativa empreendida pelas mulheres, tão necessária para que a sociedade fosse despertada para o fato de que a condição de subserviência da mulher não poderia passar despercebida ou simplesmente ignorada, era imprescindível o registro, a narração das histórias dessas mulheres com o intuito de disseminar as idéias e ideais das pessoas que possuíam uma melhor visão dessa condição.


AS MULHERES FAZENDO HISTÓRIA
São muitas as histórias de mulheres que não apenas se encantaram no esmero pela beleza física, mas também pela necessidade de desenvolver a arte pelo saber, pelo desejo de fazer da sua existência, algo melhor. Giulia Sissa(1990), uma dessas mulheres, ao tratar sobre o texto platônico O Banquete, quando escreve sobre o paradigma feminino utilizando-se da analogia feita entre “a concepção intelectual, enunciação e parto,” define a beleza como algo que pertence tanto ao corpo quanto à alma e que o sujeito poderá apaixonar-se não apenas por corpos belos mas por algo maior: aquilo que faz com que as coisas ou pensamentos sejam belos. Nesse horizonte, ela escreve: “Enquanto os amores heterossexuais permitem às pessoas reproduzirem-se fisicamente, [...] esse outro amor, o iniciático, tem por finalidade um outro gênero de geração: a dos discursos, dos pensamentos, e muito particularmente dos projetos relativos à justiça e à cidade”. E ainda: Diotima9 declara que “pensar é dar à luz, no momento em que se vence uma resistência, quando cessa a tensão entre um bebê-logos e uma alma/corpo feminino que resiste à entrega.”

Pode-se pensar que esse processo de gerar um discurso de resistência ao padrão estabelecido e produzir palavras, textos ou manifestos é tentar vencer a resistência do corpo que sempre foi treinado para reproduzir falas e não necessariamente para produzir, parir seu próprio discurso. Algumas mulheres, com esse pensamento, manifestaram seu descontentamento com a condição de estarem à margem da ala intelectual no decorrer da história e o fizeram de modo específico por meio de escritos.



Pode-se iniciar citando Safo de Lesbos (VII –VI a.C.), poetisa e educadora, representa a criação da poesia lírica grega em contraposição à poesia épica (Homero), Aspásia de Mileto (470–410a.C), Hipárquia, que escreveu “Cartas e Tragédias”, Hipácia de Alexandria (415 dC). Na mediavalidade (séc. XIV) Hildegarda de Bigen (1098 –1179), Catalina de Siena (1347 -1380), mas um nome que pode ser considerado como pioneiro das intelectuais feministas é Cristina de Pizan (1365 – 1431). Ela defendeu o direito das mulheres à educação de forma mais contundente. Sua obra mais conhecida, “A cidade das mulheres” (1405), apresenta um questionamento acerca da autoridade masculina dos grandes pensadores e poetas que cooperavam para fortalecer a tradição misógina. É considerada a primeira autora profissional. Outros nomes se destacaram. Dentre eles, na contemporaneidade (séc. XIX-XX) Edith Stein (1891-1942), escreve “Ethos das profissões das mulheres” ( WUENSH, 2003). Além dos nomes citados, Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma pensadora que muito se destacou nessa época. Empreendeu muitas viagens pelo mundo nas décadas de 50 e 60 a fim de debater sua produção filosófica com grupos políticos e feministas. A intenção dessa filósofa era demonstrar que apesar da enorme evolução ocorrida ao longo do século XX, a sociedade parecia negar-se a condenar ou denunciar a condição em que se encontrava a mulher, inclusive as próprias mulheres. Apesar disso, como explicita a filósofa espanhola Vitória Camps, esse pode ser considerado o século das mulheres por perceber o movimento social empreendido como o que tem culminado em maiores mudanças e conseqüências para a sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nossa pretensão, neste texto, foi, de forma breve, analisar acerca do tema mulher. Suscitar uma discussão acerca de questões que parecem estar ultrapassadas, mas que em nosso cotidiano é possível visualizar as manifestações de posturas sociais arraigadas na sociedade como a coisificação da mulher, a violência contra mulheres, que, em sua essência, configura-se como o ‘ranço’ do patriarcalismo que teima em persistir. Além disso, realizar uma reflexão de natureza teórica, sobre a importância da compreensão do conceito de gênero. Sobretudo, ressaltar como os escritos de tantas mulheres têm propiciado, em certa medida, condições para que se possa entender a longevidade das questões de gênero, e os fatores que têm legitimado a manutenção da condição da mulher. Concluímos citando Paulo Freire (2000) na medida em que escreve acerca da postura de quem almeja posicionar-se de modo crítico e ativo diante da vida: “O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros me põe numa posição em face do mundo que não é a de quem nada tem a ver com ele. [...] É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas também sujeito da história.”
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1 Mestre em Filosofia pela UGF. Professora do UNILESTEMG (Centro Universitário do Leste de Minas Gerais). Este texto constitui-se parte do trabalho apresentado no II Seminário Internacional Enfoques Feministas e o Século XXI Feminismo e Universidade na América Latina / II Encontro Internacional Política e Feminismo em 12/06/2008.

2 Esse conceito, segundo QUAD:2003,p.55, pode ser definido como um conjunto de relações hierárquicas entre homens e mulheres, que se caracterizam pela opressão das mulheres.

3 Mesmo atualmente, quando algumas mulheres têm assumido papéis muitas vezes de provedoras do lar. Nesse caso, também os homens sofrem quando por algum motivo não conseguem exercer esse papel de provedores da família e, como conseqüência, sentem-se frustrados.

4 Já se pode notar uma leve mudança nesse estereótipo. Há homens que se preocupam e são zelosos com a aparência e já percebem a importância e função da mulher no contexto social e familiar.

5 Jonh Stuart Mill – (uma exceção entre filósofos) filósofo que defendeu os direitos da mulher. Escreveu: A sujeição das mulheres – 1869.

6 Por que Aristóteles e não um nome mais atual? Justamente, porque estamos tentando buscar as origens, as formas mais remotas de como a mulher tem sido apresentada nos textos de filósofos para entendermos o seu reflexo e as mudanças ocorridas no decorrer do tempo.

7 No que tange à luta por uma conscientização da própria mulher que, muitas vezes se recusa a enxergar a sua real condição na sociedade em que está inserida. Se ela própria não visualizar o seu estado de sujeição e entender que pode existir um meio de mudar o rumo da sua história, de nada adiantará um determinado grupo mobilizar-se para requerer dos órgãos competentes mudanças, principalmente nas leis que, de certo modo, beneficiavam aos homens.

8 Uma das primeiras lideranças internacionais do movimento. Ela defende o papel do trabalho criador para que a mulher assim como o homem possa encontrar-se e reconhecer-se como ser humano com direitos e oportunidades iguais.

9 Diotima – personagem apresentada por Platão como sábia no diálogo O Banquete, onde a teoria do amor apresentada por Sócrates é formulada por uma sacerdotisa que é Diotima. Fato interessante, essa personagem feminina é apresentada como sábia naquele contexto em que quase que exclusivamente os homens prevaleciam. Em determinado momento no diálogo com Sócrates, este se referindo a ela diz, após ouvir o seu discurso: “Bem ó doutíssima Diotima, essas coisas, é verdadeiramente assim que se passam?” Pessanha, José Américo M. (sel.textos). Diálogos/ Platão. Col. Os Pensadores. Trad. Souza, José Cavalcante de Souza; Paleikat, Jorge; Costa, João Cruz. 2. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. P. 39.







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