Minha Fama de Mau



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Cabeça de homem, mas coração de menino. Um ícone da MPB, Erasmo Carlos é também, como diz a letra de Amigo, uma pessoa doce, engraçada e generosa. É esse artista deliciosamente humano que conta aqui suas memórias: a infância de garoto de classe média baixa, a juventude marcada pelo fenômeno da Jovem Guarda, a fama tão inesperada como explosiva, as primeiras aventuras com Tim Maia e a amizade lendária com Roberto Carlos. E Erasmo nos conduz por esta viagem, que passa por alguns dos episódios mais efervescentes da história recente do país, valendo-se de muito humor e coragem. Ele revisita sua trajetória, falando de mulheres e sucesso, mas também dos percalços e do estranhamento (que dura até hoje) em relação ao lado “clamoroso do show business”. Minha fama de mau mostra como um menino pobre, criado pela mãe, dona Diva, se tornou uma estrela de primeira grandeza da nossa música. Antes, porém, precisou enfrentar narizes empinados, como nas vezes em que freqüentou as festas grã-finas da bossa nova, em Ipanema, usando roupas emprestadas e com um número menor que o seu. O que emerge dessas memórias é um retrato de um artista sensível, que transformou, e continua transformando, os anseios e inseguranças do brasileiro comum em canções inesquecíveis.


Fotografia: Erasmo Carlos e sua Mãe
Minha Fama de Mau Erasmo Carlos
Minha Fama de Mau Erasmo Carlos

Direito de Nascer


O último capítulo da novela Direito de Nascer estava prestes a começar e eu aguardava ansioso. Mas naquele 13 de agosto de 1965 não tinha o menor interesse em saber como terminaria a trama de Albertinho Limonta, Maria Helena, mamãe Dolores e Isabel Cristina.

A Isabel que interessava estava ali ao meu lado, na entrada do edifício onde ela morava. Às 21H30, quando soaram os primeiros acordes de Amor Eterno, tema de abertura do folhetim, ela me olhou com seu habitual jeito sacana. Como vínhamos fazendo havia alguns meses, sempre no mesmo horário, seguimos para as escadas do prédio. Todo mundo via a novela, inclusive os pais dela, e os corredores ficavam vazios. O Brasil parava. Não se ouvia um pio.

Nas escadas, porém, a vida seguia. Isabel era uma gracinha tijucana de rosto redondo e cabelos compridos, baixinha e boa demais. E, o melhor, entregava cheia de desejo aquele corpinho para mim, fechando os olhos e respondendo às minhas carícias.

E eu me perguntava: "Será que ela gosta do artista ou do homem?" Não sei. Me sentia completamente à vontade como Erasmo Carlos, nome bem mais forte e capaz de traduzir minha personalidade que o Erasmo Esteves de batismo. Tinha certeza disso ao ouvi-lo tantas vezes nas rádios, graças ao sucesso de minhas músicas.

Na verdade, não me preocupava saber qual Erasmo Isabel queria. Porque fosse qual fosse, ele estava ali, grudado nela e procurando não fazer barulho.

Na minha cabeça, não havia silêncio: o Brasil inteiro cantava Festa de Arromba e o amor de Isabel acompanhava. Eu vivia no paraíso. A vida sorria para o menino da Tijuca.

O bonde 51 que passava a cada meia hora, concedia certo status à minha rua frente às suas vizinhas do bairro da Tijuca. No mais, a rua do Matoso era um típico cenário da Zona Norte carioca. Tinha de tudo lá: um posto de saúde com um entra e sai constante de ambulâncias que davam carona aos moradores; um templo batista também frequentado pelos garotos católicos (afinal, havia meninas lá); casarões decadentes que viraram casas de cômodos, nas quais cada quarto era alugado para uma família; vilas com casas simples; pensões; mansões com direito a zoológico particular; hotel; fortaleza de jogo do bicho; pequenas indústrias de fundo de quintal; e um comércio variado, que incluía também os ambulantes, como o comprador de garrafas, o amolador de facas e a "vaca leiteira" (pequeno carro-pipa que vendia leite nas esquinas). Era uma babel de comportamentos, com gente de todos os tipos.

Na periferia existiam malucos de várias periculosidades, convivendo em harmonia com pessoas pacatas e gentis. Todos sabiam dos segredos de todos e se frequentavam. Brigavam entre si para, no final, fazerem as pazes bebendo democraticamente no mesmo bar. De vez em quando, acontecia um escandalozinho — como um adultério, que fazia a festa dos faladeiros de plantão — ou alguma confusão, quase sempre originária de discordâncias entre torcedores do Vasco e do Flamengo.

Às vezes, acho que a ingenuidade e o romantismo da época amenizavam um pouco a dureza de nosso cotidiano. Eram tempos difíceis, mas o Sol brilhava sempre, mesmo quando encoberto por nuvens de incerteza. Nascido no dia 5 de junho de 1941, morei ali até os 15 anos. Fui crescendo com meus amigos no olho desse furacão, num lugar que era um pedaço do Brasil daquele período. Seria, portanto, compreensível que minha geração "chutasse o pau da barraca" no futuro.

Nos tempos da Matoso, nem no melhor dos sonhos eu imaginaria estar ali, em 1965, deleitando-me com Isabel e curtindo, em meus delírios, a sensação maravilhosa de ouvir multidões cantando Festa de Arromba em uníssono.


Sexo e sucesso. Naquele momento, senti que o moleque Erasmo Esteves tinha, sim, realizado o desejo juvenil de ser um cantor do rock and roll — do qual Elvis era o modelo maior. A respiração de Isabel entrou no ritmo dos versos: "Hey, hey/ Que onda/ Que festa de arromba". Estrelas mudaram de lugar quando ela passou a mão vagarosamente nos meus cabelos.

Adolescente, eu queria ter o cabelo como o de Elvis. Me esforçava bastante usando gumex (o avô de todos os géis), esticando meus fios com touca de meia e penteando meu cabelo ao contrário, mas jamais consegui que ele ficasse liso. Meu próprio suor ou qualquer chuvinha o condenava a ser como antes, ondulado e rebelde. Até que surgiu a esperança, um papo sobre um alisamento que era tiro e queda. "Eu de cabelo liso? Tim Maia também? E mais Édson Trindade, Arlênio, Sabará, Pinto Nu, Marco Aurélio, todo mundo?"

Seria algum milagre? Era duro de acreditar, mas procurei me informar sobre a novidade, telefonando para o Tim:

— Bicho, como é esse negócio de alisar cabelo que andam falando por aí?

— É a Timbolina, Erasmo! — respondeu ele. — Um melado mágico que o Timbó inventou para alisar cabelo. Parece ser bom às pampas. Vâmu lá experimentar.

Timbó era um paulista, negro, já de uma certa idade, gay assumido e malandro cheio de ginga, que morava num quarto alugado no número 119 da rua. Fã ardoroso de Adoniran Barbosa e dos Demônios da Garoa, era impossível visitá-lo e não ouvir Iracema, Samba do Arnesto e Saudosa Maloca, hits da sua vitrola.

Ele era chegado ao candomblé e a dialetos africanos, usando expressões como "Juru do céu" (para designar olhos azuis), "Juru do mar" (olhos verdes) e "Juru da montanha" (olhos castanhos). Gente finíssima, ele nos dava conselhos e tinha uma amizade paternal por todos nós. Bebia cachaça com Coca-Cola e, depois do terceiro gole, começava a chorar com saudades de São Paulo. Anos mais tarde, na música Turma da Tijuca, que gravei em 1984, eu faria uma saudação a ele.

No sábado à tarde, dia em que aplicaríamos a Timbolina, lá estava eu, no primeiro lugar da fila, já me imaginando de visual novo, com as meninas comentando: "Olha lá o Erasmo! O cabelo dele é igualzinho ao do Elvis."

Aos poucos, foram chegando mais "fregueses": Renato, Raul, Sérgio Maluco, Roberto Carlos, Zé Martins e o próprio Tim que, assim como eu, queriam usufruir daquele invento revolucionário, misterioso e alvissareiro. Fomos todos para a cozinha do casarão, onde fervia, numa lata sobre o fogão a lenha, uma substância preta que mais parecia um mingau de carvão. Timbó mexia com uma colher de pau e, entusiasmado, nos apresentava como sendo a tal da Timbolina. Fomos para o quintal levando a lata ainda fervendo para ser colocada na beirada do tanque, com o murinho ao lado servindo de banco durante o processo. O produto teria que ser aplicado quente. Timbó, com uma espátula, ia distribuindo cuidadosamente a miscelânea por nossas cabeças, ao mesmo tempo em que se gabava, dando vazão ao seu exótico, incompreensível e louco repertório de filosofias:

— O caboclo vai gostar, Jurupema mandou reencarnar na flor e puxar o céu para me cobrir. Timbó é mestre, ele faz a chuva e não se molha, mas Adoniran é nagô...

Em seguida, dava uma gargalhada debochada, se cuspindo todo, e emendava: "Saudosa maloca/ Maloca querida/ Din din donde nós passemo/ Os dias feliz de nossa vida."

O mingau me queimava, mas eu aguentava firme e ainda lembrava: — Ó Timbó, não se esqueça das costeletas.

Passada a aplicação, vinha a etapa final, que exigia a espera de uma hora para que o processo de alisamento se completasse. Em seguida, a lavagem da cabeça com sabão fazia escoar uma espuma preta e malcheirosa pelo ralo do tanque. Pronto! Lá estava eu com o cabelo liso para chamar de meu.

Naquela noite, fomos a uma festa na casa do Amilton, no Grajaú, cheia de garotas lindas e moderninhas. Era engraçado o cacoete ridículo que instantaneamente adquirimos, de forçar a barra para que nosso topete desabasse a todo momento sobre os olhos. Em seguida, com um movimento brusco, o jogávamos para trás. Me lembro que, na volta, sentei de propósito ao lado da janela do ônibus, coloquei a cabeça para fora, e deixei que o vento desalinhasse minha alisadíssima cabeleira.

No dia seguinte, porém, ao abrir os olhos pela manhã, senti de imediato um desconforto. Alguma coisa estava errada. Minha cabeça parecia uma tempestade. Doía da nuca até a testa, latejando com chuva, vento, raios e trovões. Além disso, o desagradável odor cáustico da Timbolina no travesseiro me anestesiava. Passei a mão na cabeça e não gostei do que senti. Corri para o espelho e não gostei do que vi:

— Puta que pariu!

Meu couro cabeludo estava todo ferido, queimado pela agressão da alquimia preta que o maluco do Timbó me aplicara. Vi que era o momento. um recolhimento estratégico. Me entupi de Melhoral e pomada e fugida vida social por uns tempos, enquanto testemunhava um outro problemão: conforme os dias passavam, meu cabelo foi ficando cor de cobre, o que me levou a cortá-lo bem baixinho, à la Príncipe Danilo (corte da época semelhante ao do volante Danilo, do Vasco). Na verdade, a milagrosa pasta era um tipo de Henê, feito da forma mais primitiva e perigosa possível, com ingredientes altamente invasivos e prejudiciais à saúde: amônia, formol, álcool, tinta... Uma fórmula corrosiva e daninha.

Assim como eu, muitos desistiram do tratamento capilar, mas Tim Maia continuou. Quando foi para os Estados Unidos, em 1959, era o que mais pedia nas cartas que me enviava:

"Erasmo, seu brasileiro de merda. Pelo amor de Deus, pare de tocar punheta e me mande Timboliminaaaaaaaaa!"
A lembrança de Tim Maia

— sacana até em pensamento — não me trouxe sorte. Isabel e eu ouvimos um barulho e paramos assustados, prendendo a respiração.

Escutamos uma chave girando na fechadura e uma porta batendo: devia ser alguém atrasado para a novela. Passado o susto, consegui acalmar a belezura e retomar o amasso. Alisando as formas de Isabel, lembrei do meu velho violão de cravelhas de pau.

Tim Maia me ensinou três acordes, com os quais dei meus primeiros passos. Eu treinava num violão dado por minha avó Maria Luiza, a primeira a apostar em meu talento.

Foi nesse violão que ouvi tocar pela primeira vez, lá em casa, um cara do bairro de Lins de Vasconcelos, que eu tinha acabado de conhecer. Adorei vê-lo cantando aqueles rocks americanos no meu quarto.

Ele era um garoto que, como eu, amava Elvis — e poucos anos depois, como eu, viria a amar João Gilberto. O baiano de Chega de Saudade me confirmou que avia algo na Bahia que fazia meu coração bater diferente, como eu já havia percebido com Dorival Caymmi. O João Valentão de sua música (",João Valentão é brigão/ .../ Mas tem seu momento na vida/.../ É quando a morena se encolhe/ Se chega pro lado querendo agradar/ .../ E assim adormece esse homem/ Que nunca precisa dormir pra sonhar"), brigão e romântico, era eu.

O nome do cara do Lins era Roberto Carlos.

Após a maratona de abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim, Isabel, toda dengosa, pousou a cabeça no meu ombro. Saímos da escada e voltamos para a entrada do prédio. A novela estava acabando. Festa de Arromba parou de tocar na minha cabeça e então comecei a ouvir o barulho da chuva.

A chuva não atrapalhou o show que Carlos Imperial organizou em frente à TV Rio, em Copacabana, para badalar a ida de Rita Pavone à emissora, em 1963. A ideia era, no dia da apresentação da cantora na TV, reunir uma multidão na rua, parando a cidade e impressionando os jornais. Um evento dispensável, afinal a cantora-fenômeno já era mais que badalada por si só. Não se falava de outra coisa. No rádio, nas festinhas e nos bailes, seus sucessos Datemi un Martello e Cuore tocavam mais que Parabéns pra Você. Seus clones se multiplicavam — cabelos curtos, botinhas, camisa branca de mangas compridas, calça preta e o Indefectível suspensório.

Mas, como a cúpula da TV Rio pediu que Imperial se virasse para fazer algo que chamasse mais a atenção para Rita, ele correu atrás. Eu estava de bobeira em minha casa na Tijuca quando o telefone tocou. Era ele, gritando:

— Figura, larga o que estiver fazendo e vem para a TV Rio agora! Telefona para quem você puder e manda todo mundo vir para cá para um grande show. Simonal e Marcos Moran já estão comigo.

Liguei para alguns amigos e saí a jato. Quando cheguei à emissora, logo ao saltar do táxi, já fui envolvido pela multidão. Imperial, nervoso, dava ordens aos berros, tentando organizar a bagunça. Aos poucos, os artistas foram chegando: Cleide Alves, Golden Boys, Trio Esperança, Roberto Rei (autor da História de um Homem Mau, sucesso com Roberto Carlos), Amilton, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Selmita, Maritza Fabiani, Tony Checker e Gerson Combo, entre outros.

O cast foi se encorpando, a aparelhagem foi ligada, a câmera colocada num lugar estratégico e, exatamente às 18h, começou o show no palco armado em frente à TV Rio. Enquanto a apresentação rolava, as pessoas que passavam por ali paravam curiosas para ver o burburinho, sem a mínima noção do que se tratava — como tudo foi feito na pressa, não havia cartazes pela cidade ou anúncios nas rádios. Com o acúmulo de gente, o trânsito também parou e começou o buzinaço. Em pouco tempo, o Posto 6, em Copacabana, já abrigava uma multidão.

Como tudo foi improvisado e a transmissão era ao vivo, às vezes entravam os comerciais com alguém ainda cantando e, quando voltava a aparecer o palco, a música já tinha acabado.

Uma chuva fininha começou a cair, causando certa apreensão. Mas mesmo com a garoa e sem a presença de muitos artistas, que estavam fora do Rio ou não foram encontrados, Imperial se saía bem. Apresentava os que chegavam, entrevistava o povão e convocava as pessoas para imitar a dança característica da Rita.

Na minha hora de cantar, não fiz por menos e entrei todo pimpão quando a banda atacou Terror dos Namorados. A emoção de quem está lançando uma música nova tomou conta de mim. Vibrava a cada compasso e a cada virada de bateria. Na parte da música em que a banda para, deixando soar os acordes para eu cantar "eu beijo, beijo, beijo, beijo, beijo, beijo, beijo, beijo, beijo...", o público foi à loucura, gritando sem parar. Confesso que me surpreendi com a reação e pensei comigo: "Caramba, estou agradando em cheio. O povo está gostando! Vou dar mais de mim."

E dei. A visão dos pingos da chuva caindo sobre o facho de luz dos refletores, em contraste com o escuro do céu, tornava aquela demonstração de carinho emocionante para um iniciante como eu. A galera continuou pulando e me ovacionando cada vez mais. Agora também de braços erguidos, me saudando calorosamente.

De repente, caí do meu deslumbramento e despertei daquele sonho. Notei que os olhares, os aplausos e os acenos não eram para mim. E sim para alguém que estava no terraço da emissora. Virei meu pescoço num gesto brusco, olhei para o alto e vi, cercada pelo seu staff, a figura mignon de Rita Pavone, sorrindo e mandando beijinhos para a multidão ensandecida.

Anos mais tarde, já famoso, a encontrei num show de Jorge Ben numa boate em São Paulo. Brinquei com ela:

— Você lembra de mim naquele show de 1963, na porta da TV no Rio de Janeiro?

Após sua negativa, respondi:

— Eu era um pingo da chuva que molhou você.

No caminho para casa, apesar do frescor da pele de Isabel, temi pelo fim do namoro. Afinal, nove dias depois daquela noite, estrearia em São Paulo o programa Jovem Guarda.

Capítulo 1

Que turma mais maluca, aquela turma da tijuca.
O início
Fotografia: Rua da Tijuca da década de 40, palco da infância de Erasmo.
Fotografia: Com 10 anos, na rua Professor Gabizo, a caminho do baile carnavalesco do America Football Club: “Odiei essa fantasia de índio. Como era emprestada, não podia sentar, pois quebraria as pernas.”
PROFESSOR GABIZO, 108

Minha infância e início da adolescência foram passados na rua do Matoso – primeiro no número 113, e depois no 102 (Vila Matoso), na casa 21. Mas quando penso naqueles meus anos de Tijuca, o primeiro cenário que costuma vir à minha mente é a casa dos padrinhos da minha mãe, o número 108 da rua Professor Gabizo. onde fomos morar num quarto alugado, na segunda metade dos anos 50, quando ela se separou do meu padrasto Augusto. Era um casarão antigo, meio sombrio, com azulejos coloniais, uma confortável banheira com pés. tetos descascados e úmidos devido a infiltrações e cozinha com fogão a lenha. Tinha o pé-direito alto, paredes forradas com motivos florais, um candelabro sinistro e um assoalho de tábuas corridas com cupins e pulgas, muitas pulgas.

A entrada principal se dava por um portão lateral. Um corredor descampado dava acesso aos fundos, onde reinava imponente a frondosa mangueira do vizinho, que cresceu inclinada para o nosso lado do muro e por isso enchia de mangas o nosso quintal. Assim vivíamos, pobres e felizes, em perfeita harmonia com gatos, um cágado, quinze periquitos e as outras onze pessoas que também moravam lá.

Minha mãe, Maria Diva Esteves, era assistente de enfermagem do Samdu (Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência, órgão criado pela Previdência Social). A juventude começava a respirar o rock and roll. que já tomara conta de mim. Passava os dias ouvindo rádio, recortando fotos dos artistas e colando em álbuns, colecionando letras de músicas que vivia assoviando e cantarolando pelos cantos: "You ain't nothing but a hound dog/ Crying all the time/ Well, you ain't nevar caught a rabbit/ And you ain't no friend of mine."

É DO CARECA QUE ELAS GOSTAM MAIS

Antes da descoberta do rock, as meninas reinavam sozinhas nos meus pensamentos. As irmãs Célia Regina e Célia Maria, por exemplo. Minhas vizinhas da rua do Matoso, Célia Regina era um pudim de caramelo e Célia Maria, uma gelatina de framboesa. Apetitosas e vitaminadas, elas moravam no sobrado de uma serralheria. Suas presenças na janela provocavam torcicolo nos passageiros do bonde e nos transeuntes, hipnotizados pela visão daqueles doces maravilhosos.

Eu tinha de 16 para 17 anos. Elas deviam ter 17 e 18, respectivamente. Eram recatadas e intocáveis devido ao policiamento rígido e implacável dos pais. Ao saírem à rua, sempre acompanhadas por eles, andavam invariavelmente em linha reta, como militares treinados. O máximo que algum de nós conseguia era um sorriso educado como cumprimento. Mas, assim que passavam por nós, vupt!, nossos olhares se grudavam em seus corpos, ofuscados pelo volume dos pudicos vestidinhos da época, dando asas à nossa imaginação.

Numa bela noite, quando jogávamos porrinha tranquilamente, conversando alto, soltando gargalhadas exageradas e falando os palavrões costumeiros, eis que vimos, com espanto, na penumbra da esquina do Beco do Mota, uma cena impactante: a família das Célias passava por nós bem vestida como se viesse de uma festa, andando descontraidamente em zigue-zague, o que jamais tínhamos visto. E ainda havia um atordoante detalhe: o pai vinha na frente de braços dados com a mulher e com Célia Regina, enquanto Célia Maria caminhava atrás, ostensivamente feliz, como Doris Day no filme Um Pijama para Dois, de mãos dadas com um... CARECA!

Era demais! Como suportar tamanha afronta? Estávamos preparados para tudo, menos para aquilo. Um careca... E, ainda por cima, aparentando uns 30 anos. Um velho com o dobro da nossa idade. Que castigo. A porrinha parou na hora e um silêncio sepulcral fez calar a algazarra. Não poderíamos permitir que aquele intruso degustasse nossas delícias assim, sem levar um troco.

Nossa cúpula teria trabalho naquela noite. Várias cabeças indignadas não dormiriam, começando a pensar nas possibilidades e na extensão da nossa vingança. Os dias seguintes foram humilhantes para nós. Tornou-se rotina o namoro dos dois no portão, enquanto papai, mamãe e a irmã torciam na janela do sobrado. Como optamos pela não violência, começamos a executar, então, o plano B.

Primeiramente, dividimos as tarefas entre nós. Eu ficaria encarregado de roubar sobras de giz no colégio. Renato Caravita entraria com o telefone, fundamental para nossos intentos malignos — ele era o único de nós que tinha um aparelho. Édson Trindade, que era amigo do filho do dono de uma gráfica de fundo de quintal, ficaria responsável pela impressão dos folhetos. Tim Maia conseguiria tinta branca e preta. Raul faria cola de maisena. Arlênio e China, que tinham letra boa, escreveriam cartas. Paçoca coordenaria os horários de ação. Pinto Nu, Adilson, Zé Carlos, Nenéo e Zé Martins dariam apoio. Seria uma represália coletiva e anônima.

A primeira investida em massa começou na madrugada. Colamos cartazes e fizemos pichações por toda a rua na calada da noite. Os dizeres variavam: "Cuidado com o Careca!", "O Careca vem aí!", "O Careca é careca"... Nada escapava de nossa sanha vingativa: portas de loja, postes, muros, árvores, marquises, bondes. Escrevemos até no asfalto da rua, bem em frente à casa delas, com tinta branca e letras enormes, para que nossa "arte" fosse vista da janela.

No dia seguinte, era Careca por tudo que era canto. As pessoas ficaram curiosas e os comerciantes locais, logicamente, irritadíssimos ao verem a fachada de suas lojas pichadas. Nossa postura era a de cara de pau ao extremo. Nada vimos e nada sabíamos. Até participávamos da revolta. fazendo eco às perguntas:

— Quem será que fez isso? Quem é esse tal de Careca?

Mas o plano não pararia aí. A segunda investida foi escrever nos banheiros públicos, do cinema Madrid, do bar Divino e dos outros botecos da região: "O Careca é cagão!" ou "Merda não é tinta, dedo não é pincel. Quem quiser limpar a bunda, o Careca é seu papel". Aproveitando o telefone do Renato, ligamos para os programas de rádio nos quais ouvintes podiam dedicar músicas a alguém. Pouco depois, ouvíamos o locutor falar nosso texto: “O Careca apaixonado da rua do Matoso oferece para sua namorada Célia Maria a música Nós os Carecas, com os Anjos do Inferno. “Também telefonamos para a serralheria pedindo para avisar no sobrado que o Careca não poderia se encontrar com a Célia Maria naquele dia. Enviamos cartas de vários bairros da cidade dizendo que o Careca morrera. Tudo foi feito com afinco e, conforme o planejamento, a pressão foi total. Estávamos de parabéns.
Fotografia: A primeira casa de Erasmo: “Nos sobrados geminados vizinhos, moravam amigos como Renato Caravita e Timbó, o “gênio da Timbolina”.
Mas o tempo é o senhor da razão. Fomos chegando à conclusão de que os resultados da operação não foram nem um pouco satisfatórios. Não adiantara nada tanto trabalho. Todo nosso esforço coletivo servira apenas para fortalecer ainda mais o namoro dos dois, pois agora eles já iam ao cinema sozinhos, trocavam beijos e nem namoravam mais no portão. Os pais, solidários, já permitiam que eles entrassem em casa. O nosso plano para que ele sumisse de circulação e devolvesse Célia Maria para os nossos sonhos foi um tiro no pé. Criamos um monstro. Fizemos do Careca um ídolo.

A essa altura, todos já sabiam que éramos nós os autores daquela "campanha infernal" contra o "pobre rapaz de família, trabalhador e bem intencionado", que só queria "cortejar a menina em paz". As pessoas já nos olhavam com reprovação, considerando uma cafajestada de mau gosto o que fizemos. A história acabou chegando em nossos pais e a barra pesou em casa.

O Careca tomou coragem e foi falar com a gente. Estávamos mais uma vez na esquina do Beco do Mota, sem graça com a reviravolta do caso, quando ele chegou e se apresentou como Mário não-sei-de-quê, convidando o Paçoca para uma conversa particular. O ambiente se tornou tenso, ficamos preparados para o que desse e viesse. Qualquer vacilo e, vapt!, faríamos picadinho do Careca. Mas ele sabia onde estava pisando, era malandro. Chegou gentil, educado e, ainda por cima, cheio de moral, pois tinha certeza do apoio total de todas as famílias do pedaço. Conversaram uns dez minutos quando, enfim, apertaram as mãos. Paçoca se virou para nós, engoliu em seco e, com cara de injuriado/resignado, decretou:

— Olha aí, pessoal... O Careca acabou de me dizer que não levou a mal nossas brincadeiras, que não ficou com bronca da gente e pediu para darmos um tempo nessa história de Careca. Ele vai se formar em medicina. pretende se casar com a Célia Maria e pega mal ser chamado assim. Queria pedir a vocês que, de hoje em diante, ninguém chamasse mais o Careca de Careca e, se alguém de fora chamar o Careca de Careca, a gente dá porrada. Legal?

E, abusando do cinismo, voltou-se para o Careca e encerrou:

— Vai na tua, em paz. Desculpe alguma coisa, seja feliz com a Célia Maria e tenham muitos carequinhas.

E rindo, finalizou:

— Para a gente poder chamá-los de "os filhos do dr. Careca".

Meses depois, eu sairia da rua do Matoso e me mudaria para o quarto da rua Professor Gabizo. Nunca mais ouvi falar do Careca e acabei esquecendo-o. Mas nos anos 80, passando de carro pela Barra, vi várias pichações incríveis. Elas diziam: "A mulher do Zé faz boquete!", "O Zé é coro!". "O Zé dá a bunda!"... Na hora me lembrei dos anos 50 e não pude deixar de comentar com meus botões:

— Que sorte que o Careca deu!


BESOURO DE SOBREMESA

Outro episódio da minha infância contribuiria para minha aversão à política. Aconteceu no subúrbio carioca de Cordovil, onde eu passava férias duas vezes ao ano, na casa dos meus tios Alzira e Geraldo. Lá, todo político era doutor. Bastava chegar a bordo de um belo automóvel, fumando um charuto. com uma mulher boa do lado, fazendo cara de simpático e com um séquito de puxa-sacos soltando morteiros... pronto! Baixava na população local um abominável espírito subserviente que induzia as pessoas a mandarem os meninos como eu alardear pelas ruas do bairro: "Chegou o doutor fulano! Chegou o doutor fulano!" Podia ser um simples candidato, mas, com o título. ele adquiria uma aura de importância e respeitabilidade.

Eu só gostava quando um vereador que não me lembro o nome era homenageado pela comunidade. Havia distribuição de balas e doces, junto com sanduíches de mortadela e copos de suco de groselha. Mas uma dessas comemorações se tornaria traumática para mim. Munido de uma bicicleta emprestada, fui a um futebol de várzea onde jogavam Cordovil e Brás de Pina. Durante o foguetório, após um gol do time da casa, um tiro de verdade matou uma pessoa.

Apavorado com o tumulto que se formara, deixei meu lanche para lá, peguei a bicicleta e fugi atabalhoadamente pela estrada do Quitungo, não parando para nada. No meio do caminho, no auge da velocidade, com o vento de encontro ao meu rosto e gritando adoidado devido ao pânico, engoli um besouro. Desequilibrei-me em seguida, caindo da bicicleta e me ralando todo. Na minha cabeça de menino de 9 anos, uni o vereador ao tombo e desde então passei a odiar ainda mais a política.



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