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BIBLIOTECA FUNDO UNIVERSAL DE CULTURA

Estante de PEDAGOGIA

cuidada seleção de obras modernas e clássicas que, por seu valor permanente, constituem umFundo Universal de Cultura
LUTANDO CONTRA AS TREVAS

Helen Keller

MINHA PROFESSORA

ANNE SULLIVAN MACY

EDITORA FUNDO DE CULTURA S. A

Primeira edição brasileira: Janeiro de 1959

Traduzido de: TEACHER ), ANNE SULLIVAN MACY

A Tribute by the Foster-child oi Her Mind

HELEN KELLER

DOUBLEDAY COOMPANY, INC.

New York, 1957

Reservados todos os direitos de publicação, total ou parcial, em lingua portuguesa, pela EDITORA FUNDO DE CULTURA S. A.

Av. Erasmo Braga, 299 - 1. RIO DE JANEIRO


Eis a verdadeira alegria da vida: rea lizar, visando a um fim que intimamente se reconheça de máxima importância.

Bernard Shaw

Tradução de: ÁUREA WEISSENBERG

Introdução de: NELLA BRADDY HENNEY


I – INTRODUÇÃO

NELLA BRADDY HENNEY


Há muitos anos que Helena Keller compreendeu que o único assunto sobre o qual as pessoas gostavam de ouvi-la era ela própria. Já que isto lhe interessava menos do que qualquer outra coisa, cansou-se logo; sendo, porém, amável e paciente, repetiu a sua história inúmeras vezes — em livros, artigos, entrevistas, conversações, pelo cinema, na tribuna, no teatro e no púlpito. Quando iniciou este livro tomou a. resolução de não percorrer novamente a mesma cansativa estrada e sim escrever o que pessoa alguma havia escrito ou seria capaz de escrever: uma narrativa das relações entre ela e a sua professora. Anne Sullivan Macy, provida apenas do fundo que julgou necessário para esclarecer a matéria. Para aqueles que cresceram quando Helena Keller era jovem e o seu nome andava nos lábios de todos, ela contou o bastante, mas para os que nasceram durante a depressão e foram atingidos pela guerra, e para aqueles cujas recordações se tornaram indistintas pela passagem do tempo e o aparecimento da lenda, talvez seja preciso um pouco mais.

Ei-lo aqui. Helena Keller nasceu em Tuscumbia, Alabama, a 27 de junho de 1880. Era uma criança normal. Dezenove meses mais tarde foi acometida de uma enfermidade (ainda não diagnosticada) que a deixou surda e cega. Em conseqüência da surdez tornou-se muda. Mas, apesar disso, o seu corpo ficou intacto. Surgiram dúvidas acerca de seu estado normal. Alguns diziam que ela era idiota. Os pais não acreditavam nisso, mas não podiam provar o contrário. Se a criança tinha inteligência, não possuíam eles meios para alcançá-la; e Helena, assim isolada, tornou-se, para usar de sua própria expressão, "um fantasma vivendo num mundo que não existia".

Cinco anos permaneceu ela nesse estado, sem esperanças de sair dele, até que a mãe, lendo casualmente as Notas Americanas de Dickens, soube que na Instituição Perkins para Cegos, em Boston, o Dr, Samuel Gridley Howe havia ensinado Lauta Bridgman, uma criança surda e cega como Helena, a ler e a escrever e, por meio de um alfabeto manual, a se comunicar com as pessoas que vêem e ouvem. Isto, porém, havia sucedido cinqüenta anos antes e Boston era muito longe de Tuscumbia. Os Kellers nada fizeram nesse sentido, mas quando Helena completou seis anos, levaram-na a Baltimore para consultar um famoso oculista. Este confirmou o que os outros médicos haviam dito, isto é, que Helena seria sempre cega e surda, mas aconselhou-os a ir a Washington a fim de consultar o Dr. Alexandre Graham Bell a respeito de métodos para instruí-la. Foi por sugestão do Dr. Bell que o capitão Keller escreveu

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à Instituição Perkins. O Dr. Howe já havia falecido, mas o senhor Michael Anagnos, que o sucedera como diretor, enviou um dos seus mestres recém-diplomados para ver se podia fazer algo pela menina. Tratava-se da senhorita Anne Sullivan, de 21 anos de idade.



Ninguém alimentava grandes esperanças. No meio século que transcorrera desde que o Dr. Howe iniciara o seu trabalho com Laura Bridgman, vários mestres competentes haviam tentado fazer por outras crianças surdas e cegas o que ele havia feito pela menina. Nenhum tivera êxito porém, e Anne Sullivan, muito menos preparada do que qualquer deles, tinha poucas esperanças de poder fazer mais que os seus antecessores. O capitão Keller oferecera-lhe um emprego e a sua situação era de modo a não lhe deixar outra escolha senão aceitá-lo.

Filha de imigrantes irlandeses, que, naquela época constituíam o grupo social mais desprezado do Nordeste, Anne Sullivan nasceu, na mais extrema pobreza, a 4 de abril de 1866, em Feeding Hills, Massa-chusetts e, desde bem criança recordava-se do fato de ter sempre sofrido da vista. Sua mãe morreu, quando ela tinha oito anos de idade, deixando ainda dois outros filhos. O pai abandonou as três crianças, dois anos mais tarde, e Annie jamais soube do seu paradeiro. A irmã mais moça, Mary, foi entregue a parentes e Annie

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e o irmão de sete anos, Jimmie, foram enviados ao hospital do Estado, um abrigo de indigentes em Tewks-bury; Anne porque era rebelde e demasiado cega para ser útil e Jimmie porque se estava tornando irremediavelmente aleijado em conseqüência de tuberculose nos quadris.



Entraram no asilo em fevereiro de 1876 e Jimmie faleceu em maio. Annie permaneceu ali quatro anos. Ninguém de fora se interessava por ela e não possuía amigos, exceto os indigentes, seus companheiros. Foi um destes que lhe contou que havia escolas especiais para os cegos e à medida que os meses passavam — ela havia perdido a noção do tempo em Tewksbury — aumentava-lhe o desejo de se instruir. Fugir ao abismo da degradação e da doença em que vivia parecia impossível até que o mau cheiro do asilo atingiu um ponto tal que a Junta Estadual de Caridade exigiu um inquérito. Os investigadores não a notaram. Os internados, porém, sabiam o nome do presidente e, quando os membros da comissão chegaram, Annie lançou-se ao seu encontro e sendo incapaz de distinguir um do outro, gritou: "Senhor Sanborn, senhor Sanborn, quero ir para a escola!"

Entrou na Instituição Perkins em outubro de 1880 e lá, aos 14 anos, começou a sua instrução, aprendendo a ler com os dedos.



Nota de rodapé:

Annie é o tratamento familiar de Anne.

Fim da nota de rodapé.

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A escola não dispunha de meios para tomar conta dos alunos durante as férias e, quando chegou o verão, arranjaram-lhe um emprego numa pensão de Boston. Por intermédio de um dos hóspedes foi levada à Clínica Oftalmológica e Otorrino-lógica de Massachusetts e, em agosto, o Dr. Brad-ford fêz-lhe uma operação na vista esquerda. Em agosto do ano seguinte, o médico operou-lhe o olho direito e, depois das duas operações, Annie passou a ver o bastante para ler normalmente durante períodos limitados de tempo, mas não o suficiente para que pudesse ser transferida para uma escola de crianças com visão. Permaneceu na Instituição Perkins, durante seis anos, graduando-se em 1886, sendo oradora de sua turma. A escola havia feito o possível. O resto estava em suas mãos.

Annie reconhecia as suas limitações — os seus poucos anos de educação, a sua falta de contacto com as delícias de uma vida despreocupada e, acima de tudo, a sua visão incerta e precária — mas esperava algo mais emocionante do que cuidar de uma criança surda e cega. A oferta do capitão Keller, porém, foi a melhor coisa que lhe apareceu. Após aceitá-la, passou alguns meses lendo os relatórios do Dr. Howe sobre Laura Bridgman, tarefa penosa por causa dos seus olhos. Já conhecia o alfabeto manual. Tal como as suas colegasr aprendera-o a fim de falar com Laura, que

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ainda se achava internada na Instituição Perkins, pois não fora capaz de se adaptar a nenhuma outra forma de vida. E, contudo, Laura era o modelo a ser copiado. Nenhuma outra pessoa surda e cega havia atingido as culminâncias em que ela se encontrava.



Com os olhos vermelhos em conseqüência de outra operação na vista e por tanto chorar de saudades, Annie Sulivan chegou a Tuscumbia a 3 de março de 1887, data que Helena considerou sempre como a do "nascimento de sua alma". Começou imediatamente a escrever nas mãos de Helena, juntando a palavra à ação e a ação à palavra, a criança reagiu, imitando-lhe os movimentos dos dedos como um animalzinho vivo e curioso. Foi preciso um mês para alcançar-lhe a mente. A 5 de abril, data não inferior em importância a 3 de março, o fantasma Helena entrou em contado com a realidade. Enquanto Annie Sullivan jogava água na sua mão, ocorreu à criança, num lampejo, que água, estivesse onde estivesse, era água e que os movimentos dos dedos que acabara de sentir sobre a palma das mãos significavam "água" e nada mais. Naquele momento emocionante Helena descobriu a chave do seu reino. Cada coisa tinha um nome e ela possuía um meio de aprendê-lo. Formou uma pergunta apontando para Annie Sullivan. Esta respondeu: "Professora".

Desde aquela data, os progressos de Helena foram tão rápidos que os educadores logo perceberam

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que havia surgido um grande mestre, maior até que o Dr. Howe. Aos dez anos, Helena anunciou que ia aprender a falar com a boca, como as outras pessoas, em vez de com os dedos, como uma pessoa surda; e quando, após onze lições de dicção, foi capaz de dizer "eu agora não sou muda", parecia não haver limites ao que ela poderia alcançar. Ocorreu, porém, uma séria controvérsia na opinião pública. Um grupo desprezava a professora e apontava Helena como um milagre. Outro emprestava todo o mérito à professora e classificava Helena como autômato. Mais tarde, em 1892, quando Helena estava com doze anos e, inconscientemente, plagiou uma historieta de Margaret Can-by, no The Frost King, um terceiro grupo passou a dominar. Era tudo um logro. Helena Keller era uma farsa e a sua professora, uma embusteira.



Aquilo doeu e ainda hoje dói. Contudo, havia uns poucos, entre os quais se destacava o Dr. Bell, que compreendiam que era a combinação de uma professora dotada e intuitiva com uma aluna inteligente e ávida que estava produzindo aquele resultado surpreendente. Helena e a professôra continuaram o seu curso e nunca se separaram. A primeira ingressou no Colégio Radcliffe, em 1900, ao completar vinte anos, e saiu quatro anos depois, graduando-se com louvor, após ter competido com moças que podiam ver e ouvir. Isso não bastava, porém. Enquanto Annie Sullivan viveu —

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ela faleceu em 1936 — não pôde ser resolvida a questão do quanto em Helena Keller pertencia na realidade a Annie Sullivan. A resposta não é simples. Durante o período criador nenhuma das duas poderia ter passado sem a outra.



À formatura seguiu-se um período feliz, embora breve. As duas moças, após um longo período de estudo e esforço, repousaram algum tempo e em seguida se mudaram para o lugarejo de Wrentham, Massa-chusetts, a fim de morar, pela primeira vez, numa casa própria. Um ano mais tarde a família tornou-se completa, quando Annie Sullivan desposou John Macu. O senhor Macu era um eminente crítico literário, conver-sador brilhante e bom companheiro. Em atmosfera de harmonia e expectativa. Helena e ele puseram-se a trabalhar em artigos e livros, cada um em sua esfera de atividades.

Em Radcliffe, encorajada pelo professor Charles Townsend Copeland, Helena havia deixado de se esforçar por escrever como as outras pessoas e começara a escrever sobre as suas próprias experiências. As suas composições atraíram atenção fora do colégio e pediram-lhe que as reunisse, formando assim a história de sua vida. O senhor Macy ajudou-a na tarefa introduzindo uma coleção representativa de suas cartas e suplementando o trabalho com a narrativa na qual incluiu as notáveis cartas escritas por Annie Sullivan,

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durante os primeiros meses de estada em Alabama. A História de Minha Vida, aparecida em 1904, tornou-se uma obra clássica, que vem sendo continuamente publicada há mais de cinqüenta anos.



Helena havia publicado um outro livro, quando estava no colégio, um volumezinho sem importância, chamado com razão Otimismo, no qual desafiava a onda de compaixão que se movia em torno dela. Agora, em Wrentham, começava ela a escrever O Mundo em que Vivo, divertindo-se maliciosamente em responder aos que a tinham censurado por descrever o que não podia ver e por usar palavras relacionadas com cores e sons. Esperara (debalde, naturalmente) que esta seria a última vez em que teria que explicar como havia construído essa parte de seu mundo — por meio de associações de idéias e da imaginação. AJ1 sight is of tne sou (toda visão é interior) Do dorso do seu cavalo imaginário, as asas da imaginação podiam erguê-la até os corcéis de Apoio. Pelo tremular de uma chama, o ardor do fogo e o calor do sol, podia perceber que havia diferentes intensidades de luz. Quando as suas faces ficavam quentes, sabia que estavam vermelhas e, quando as folhas brotavam, na primavera, sabia que eram verdes. E já que podia sentir, com o paladar a diferença em frutas da mesma espécie (maçãs, Por exemplo) e notar, pelo olfato, a variedade em flôres da mesma espécie (rosas, por exemplo), podia deduzir

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que uma só cor podia surgir em diferentes tonalidades. O que ela "ouve" quando "escuta" música com as mãos, não o podemos saber, mas poderia esclarecer-nos se inventasse palavras para nô-lo contar. Recebeu a linguagem como a encontrou e jamais descobriu um motivo para deixar de dizer "vejo" e "ouço", quando esta é a maneira mais fácil de se expressar.



O Mundo em que Vivo foi publicado em 1908, e em 1910, apareceu A Canção da Muralha de Pedra, poema cuja composição causou mais prazer a sua autora do que tudo o mais que escreveu.

Nessa época, parecia estar firmemente estabelecida a imagem de Helena Keller como uma criatura perfeitamente radiante, brincando no melhor dos mundos. Helena, porém, já há vários anos vinha lutando contra isso. O seu livro seguinte, uma coleção de artigos efêmeros, a maioria dos quais aparecera em revistas, fêz chegar o fogo à pólvora. Intitulava-se Do Fundo das Trevas e as trevas não se referiam à cegueira física. Um dos artigos era Como me Tornei Socialista. Outro era uma defesa da Federação Ocidental de Mineiros. Outro ainda, um apelo em prol do sufrágio das mulheres. Três deles bradavam que se devia pôr nitrato de prata nos olhos dos bebês recém-nascidos para impedir a cegueira causada por infecção venérea e estes eram os mais chocantes, pois todo o mundo pensava que Helena era suave e resignada ao falar em desgraças.

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Um golpe, porém, aguardava a autora. Não ficou surpreendida ao saber que os seus amigos estavam profundamente abalados por esses últimos sucessos, mas sentiu-se ofendida, quando os críticos afirmaram que não eram suas as idéias por ela expostas e calmamente a acusaram de estar servindo de instrumento aos Macys e a outras pessoas para finalidades escusas e sinistras. Embora ofendida, não se deixou abalar.



Isso foi um rude golpe, pois significava que tinha de renunciar à esperança de se poder manter com a pena. Havia esgotado o irritante assunto, que era ela própria, e não encontrava público para qualquer outro sobre o qual escrevesse. Outras dificuldades ainda se abateram sobre ela, em outros sentidos. A visão da sua professora estava tão abalada que esta já se movimentava sem segurança nos lugares estranhos. Devido a razões totalmente independentes das convicções sociais e políticas de Helena, o casamento de Annie Sullivan estava fracassando. A professora se achava doente e o dinheiro era pouco.

Annie e Helena tinham previsto todas essas calamidades e haviam tomado medidas para superá-las. Em Princípios de 1913, fizeram ensaios para falar em público, tímidos ensaios por causa da voz de Helena, vinte e três anos se haviam escoado desde que ela pronunciara a frase histórica "Eu agora não sou muda”. Mas, apesar de ter lutado muito e com perseverança,

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ainda não havia realizado a ambição de falar como as outras pessoas. Mesmo hoje em dia, após uma vida inteira de exercícios, os seus scns guturais não são fáceis de ser entendidos, quando não se está acostumado a ouvi-los. Ao falar em público, pela primeira vez, ficou tão embaraçada por causa da sua voz, como nunca o havia estado em conseqüência de suas limitações menores (é assim que as considera), a surdez e a cegueira, mas, com a professora ao lado para explicar e interpretar as suas palavras, o seu nervosismo logo desapareceu. O público tornou-se tão cordial e indulgente que o resultado seria promissor, se a visão em declínio e a saúde precária da professora permitissem que as duas prosseguissem na nova carreira.



Em menos de três meses, tiveram que admitir que não podiam continuar sós. Esta amarga convicção surgiu numa horrível noite num hotel estranho de Bath, Maine, quando a professora sentiu-se gravemente enferma sem ter ninguém que cuidasse dela, exceto Helena, que, por sua vez, não tinha quem olhasse por ela. A professora conseguiu chamar o gerente do hotel e, após alguns dias, regressaram penosamente a Wrentham. Helena deu-se por vencida e escreveu a Andrew Carnegie, aceitando a pensão que havia recusado em dias mais auspiciosos. A pensão seria mais do que suficiente para uma pessoa normal, mas não era o bastante para duas pessoas incapacitadas e uma companheira

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remunerada. Quando a professora se refez, voltaram à atividade.



A mãe de Helena acompanhou-as, quando elas partiram, em princípios de 1914, a fim de realizar a primeira "tournée" pelo continente. Mas isto se deu apenas numa viagem e não resolveu o problema. A solução surgiu na volta, quando encontraram casualmente a senhorita Polly Thomson, de Glasgow, Escócia, que se encontrava em visita a parentes, nas imediações de Boston. A professora contratou-a para fazer tudo o que devia ser feito por uma pessoa dotada de visão e audição. O seu título nominal era secretária, mas não existem palavras para descrever o que veio a ser a sua singular posição naquela família singular. À medida que se mostrava capaz de um encargo, outro se lhe sobrepunha e, quando a professora faleceu 22 anos mais tarde, tinha a profunda e confortadora convicção de que Polly Thomson estava preparada para a tarefa que a esperava.

Continuaram a fazer conferências até 1916, quando Helena se tornou tão obcecada pela guerra na Europa e pela inclinação dos Estados Unidos em se envover nela, que não era capaz de falar em outra coisa senão em paz. Sua voz, porém, foi abafada pelo clamor público e as duas voltaram para casa, fatigadas e desanimadas, Tinham que renunciar à casa de Wrentham porque não podiam mantê-la, porém, esta era a

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menor de suas aflições. Helena passava dias agitados, pensando na guerra, e noites febris, sonhando com ela. A professora foi acometida de uma tosse alarmante à qual se seguiu uma pleurisia; após um exame de laboratório, foi enviada às pressas para Lake Placid, a fim de convalescer de tuberculose. Polly acompanhou-a e Helena angustiada foi para Alabama com a mãe. Logo em seguida soube que a professora e Polly se achavam a caminho de Porto Rico. Só mais tarde se soube que o exame de laboratório da professora tinha sido confundido com o de outra pessoa e que ela nunca sofrera de tuberculose. Porto Rico, porém, deu-lhe o que necessitava: repouso, beleza e paz.



Logo depois de se tornarem a reunir, compraram uma feia casinha de tijolos, situada numa parte pouco elegante de Forest Hills, Long Island, não longe de Nova Iorque. Ainda que o limitado sistema da vida que eram obrigadas a levar as tivesse livrado de preocupações financeiras, o que não se dava, aquelas três mulheres eram incapazes, por temperamento, de passar os dias na ociosidade. Estavam deliberando o que iam fazer a seguir, quando um filantropo (pedindo que seu nome permanecesse oculto) apresentou-lhes um magnífico plano. Uma apresentação cinematográfica da vida de Helena, declarou, seria de grande valor num mundo em conflito e, ao mesmo tempo, poderia trazer-lhe uma enorme soma de dinheiro. A essa altura, dinheiro era

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algo de extremo interesse para Helena. Sabia que a pensão Carnegie morreria com ela e que se a professora lhe sobrevivesse ficaria na penúria, além de doente e quase cega.

Vibrantes de esperanças, seguiram para Hollywood. O filme deveria ser uma história verídica, mas foi tão embelezada com simbolismos, que terminou numa fantasia extravagante, para a qual o único título possível seria, "Libertação". Mas, a fita resultou num fracasso de bilheteria desfazendo os sonhos de independência provinda dessa fonte de renda. O esforço, contudo, não foi inútil. As melhores cenas históricas foram aproveitadas em The Unconquered (A Invencível), ótimo documentário sobre a vida de Helena, produzindo em 1954 por Nancy Hamilton.

Sentindo-se, então, completamente apavorada pela falta de recursos, Helena resolveu aventurar no teatro de variedades. Num "ato" de vinte minutos de duração, ela e a professora demonstravam como Helena fora instruída e como se tinha adaptado ao mundo. Se o tivessem feito em escolas e salas de conferências só teriam recebido aplausos, mas, intervalado entre acrobatas e animais treinados, o ato provocou a grita de que Helena Keller

estava exibindo-se comercialmente.

estava na verdade, mas ela sabia o que estava fazendo e e se orgulhava disso. Pela primeira vez na vida sustentava a si própria e às duas mulheres e não

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era só: estava economizando um modesto pecúlio para a professora.



O teatro de variedades, como tudo o mais que havia feito, foi temporário. Durou quatro anos, com interrupções. Helena já havia completado 43 anos de idade, quando iniciou o que agora chama de obra de sua vida, embora de certo modo estivesse preparada para ela desde a infância, pois, independentemente do trabalho com que se estivesse ocupando na ocasião, sempre achava tempo para auxiliar aos que viajavam a seu lado no silêncio das trevas. Os seus erráticos esforços encontraram objetivo e direção em 1923, quando ingressou na Fundação Americana de Proteção aos Cegos.

A sua participação integral, porém, foi adiada. Tinha ainda alguns compromissos no teatro de variedades e dois livros a escrever. Minha Religião, uma apreciação sobre Emanuel Swedenborg, foi feita por solicitação da Nova Igreja. Minha Vida de Mulher foi "ordenada" por seu editor. Começou logo, porém, a fazer discursos nos arredores de Nova Iorque, preparando-os com a professora, que era uma valiosa conselheira, e pronunciando-os com o auxílio de Polly, cque servia de guia e intérprete.

A tristeza e a angústia não a abandonaram durante esses primeiros anos de campanha pela Fundação; ela, porém, procurava vencer as dificuldades e se preparava para a batalha. A vitalidade da professora

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começava a declinar. Perdeu completamente a visão e foi sem tristeza, que deixou o mundo a 20 de outubro de 1936. Algumas semanas antes do desenlace, alguém que pretendia confortá-la, disse-lhe: "Professora a se nhora precisa ficar boa. Sem a senhora, Helena nada seria.” “Isto significa que eu fracassei", respondeu tristemente Annie Sullivan, pois sua finalidade básica havia sido sempre tornar Helena inteiramente independente — independente até dela própria, professora. A tristeza, porém, foi momentânea. A professora sabia que tivera êxito.



Helena pretendia escrever apenas mais um livro, o "livro da professora", como o chamava, mas a 4 de novembro, ainda aturdida de dor, começou a reorganizar os seus pensamentos, escrevendo um diário. Manteve-se fiel à essa prática até abril do ano seguinte; as páginas foram publicadas alguns meses depois sob o título de O Diário de Helena Keller. Terminou-o a bordo, em viagem para o Japão, onde foi fazer uma tournée de conferências em prol dos cegos, o que considerava uma obrigação sagrada, por haver prometido a professora que a faria. De então em diante, por solicitação de diversos governos, inclusive o dos Esrados Unidos, e sob os auspícios da Fundação Americana de Proteção aos Cegos, da Fundação Americana de Proteção aos Cegos de Além-Mar e de outras organizações especializadas, tem viajado pelo mundo, visitando

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todos os continentes e inspirando com sua presença e com o apoio de seus conselhos enérgicos e realistas os idealizadores e defensores de programas de reabilitação, não só para os cegos, como para outros grupos de incapacitados, entre os quais se incluíam os soldados feridos e hospitalizados nos Estados Unidos e na Europa.



Entre viagens, ela, Polly e Herbert Haas, factótum das duas até 1950, quando faleceu, moravam próximo a Westport, Connecticut, numa confortável casa que o senhor G. A. Pfeiffer as ajudou a adquirir. Helena trabalhava então no livro da professora. Para iniciar, possuía anotações em Braille, algumas das quais haviam sido feitas trinta anos antes: tinha em mãos todas as cartas que a professora lhe havia escrito, bem como as cartas íntimas de sua mãe, de sua irmã e de seu padrasto. John Hitz, que foi secretário do Dr. Bell, além das de muitos outros amigos. Perdeu-as todas e perdeu tudo o que possuía num incêndio que lhe destruiu a casa em 1946. Foi um desastre desanimador, mas os amigos a reconstruíram e tornaram a mobiliála.

E, pouco tempo depois, Helena recomeçou o trabalho. Era a escritora mais solitária que já existiu. O livro era parte do seu coração. Tirá-lo daí de dentro era como despedaçar o seu coração.



Nota de rodapé:

Uma parte do livro foi escrita em minha casa, minha máquina de escrever, uma Smith-Corona pot

Fim da nota de rodapé.

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Helena me perguntou em que tecla ficava o ponto e daí em diante foi como se nunca tivesse usado outra máquina. Organizou os seus papéis da forma que melhor lhe convinha e ninguém mais os tocou. Mantinha-os em perfeita ordem e sabia exatamente onde obter uma nova folha e aonde colocar o que datilografara-, Nada jogava fora, exceto as suas anotações em Braille. Quando as queria novamente, ela própria as procurava e, segurando os fragmentos contra o peito, percorria-os com os dedos até encontrar o que desejava. Por esse motivo, nunca tocávamos na cesta de papéis. Trabalhava de seis a sete horas por dia, o que era normal para ela, e raramente a interrompíamos; contudo, quando parava o trabalho por vontade própria ou não, recordava-se, com exceção de uma só vez, da última palavra que havia datilografado. A exceção ocorreu numa manhã em que a levamos às pressas para um lugar seguro, enquanto investigávamos umas pegadas de urso que haviam sido descobertas sob um pinheiro à nossa casa.



Quando escreve a máquina, Helena nunca se detém. Não pode rever o que foi escrito e se deseja fazer correção, fá-lo quando esta lhe ocorre, antecipando-a de uma nota: "Depois da referência à minha professora no México"; "acrescente na passagem sobre Devon"; por favor, substitua por isto o que escrevi

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sobre vibrações". Mas as correções nunca são tantas que dêem origem a confusões.



Quando a professora era viva, soletrava o manuscrito completo nas mãos de Helena, enquanto uma ter-ceira pessoa o lia em voz alta. Desta vez, a pessoa encarregada de coordenar a sua obra trabalhou em silêncio, usando o alfabeto manual para fazer perguntas. As instruções de Helena foram claras e precisas e, quando a edição ficou pronta, o original foi copiado em Braille, para que a autora pudesse lê-lo calmamente. Calmamente? As páginas em Braille foram-lhe enviadas de avião e ela leu o seu próprio livro, pela primeira vez, quando se encontrava numa localidade, montanhosa, do Sul da índia, descansando entre discursos.

Tudo o que ela pede de seus leitores é o que sempre pediu dos que vêem e ouvem: esquecer que é ela surda e cega e considerá-la uma pessoa normal. Isto não é fácil. Uma vez, quando nos achávamos num agrupamento de pessoas, um homem a quem nunca tínhamos visto abriu caminho para ela até o elevador e me pediu que lhe dissesse que ele e a esposa a consideravam uma santa. Eu lhe disse que Helena não gostava de ser chamada assim. "Ela não o pode impedir respondeu. "É isto o que sentimos."

Helena se considera um humilde instrumento nas mãos de Deus e atribui à sua professora tudo o que

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realizou. A lista de honrarias que recebeu é bastante extensa, e ela faz questão de não se mostrar ingrata, mas tem uma grave queixa a fazer: somente alguns dos prêmios que recebeu ostentam o nome que ela crê que deveria estar sempre nos pergaminhos e gravado ao lado do seu nas medalhas — o nome de sua professora Anne Sullivan Macy. A sua glória foi — e ainda é - das duas. "Pensam que a minha professora me deixou", diz Helena, "mas ela está sempre comigo."



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