Mires batista bender



Baixar 41.03 Kb.
Encontro07.02.2018
Tamanho41.03 Kb.


PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE LETRAS
XXIV Seminário Brasileiro de Crítica Literária e

XXIII Seminário de Crítica do Rio Grande do Sul
TRISTÃO E ISOLDA: O ENIGMA DO HERÓI



Mires Batista Bender (mestranda UFRGS).

A lenda medieval de Tristão e Isolda trouxe-me a inquietante descoberta de um herói perturbador. Um modelo fascinante por seu caráter inusitado, apesar de sua bravura, destemor e de seu padrão errático, Tristão não parece ser, à primeira vista, imediatamente reconhecível como um genuíno cavaleiro andante. Para esses heróis medievais a virtude e a pureza de coração e de propósitos eram vistas como único meio para alcançar fama e respeito ao final de cada jornada, como temos exemplo em Sir Galahad. Tampouco parece possível enquadrá-lo no padrão clássico grego, em que o herói épico é movido pela busca de glórias e triunfos em batalhas, tentando registrar seu nome entre os grandes feitos da história para, assim, honrar seus antepassados e alcançar a imortalidade, como fez Ulisses. Compondo entre esses dois tipos, entendo que embora Tristão empreenda uma contínua viagem enfrentando as mais desafiadoras situações que pretendam afastá-lo de seu destino romântico ao lado de Isolda, sua tragédia é interior e sua busca é pela glória dos sentimentos.

Este ensaio vai buscar nas raízes da cultura celta as origens do mito de Tristão e Isolda1 para tentar evidenciar a correlação entre o fundo mitológico daquela civilização milenar e a trajetória do nosso herói medieval em sua batalha pelo amor. Procurei demonstrar a diversidade de aspectos que forma o caráter de Tristão que ora se apresenta com valentia, bravura e honradez como um verdadeiro herói grego, ora empreendendo sua viagem ao mundo mágico da transcendência espiritual, como era sina dos cavaleiros andantes, mas sempre em permanente contato com o esotérico, explorando a sintonia com as forças da natureza e dono de uma obstinação por alcançar seu objetivo romântico, matérias que constituem o herói celta primordial.

A história de Tristão e Isolda tomou roupagem francesa no século XII, durante o que se chamou de renascimento medieval. Os poetas provençais de então, assim como as versões estrangeiras do século seguinte, conservaram vários elementos da lenda celta proveniente dos primórdios da cultura irlandesa. Preservou-se, assim, uma idéia do que fora o poema cantado pelos bardos na tradição celta, que gira em torno do mar e da floresta e cujo herói é mais que um homem, é um semideus: inventor das artes bárbaras, objeto de constante admiração e inveja e que só se completa pelo amor. Estão mescladas nesta nova versão as lendas pagãs de origem celta e a poesia provençal francesa, apresentando, segundo Denis de Rougemont, em seu O Amor e o Ocidente (1988, p. 97), o domínio da tragédia interior, enquanto que na lenda celta era o elemento épico que comandava a trama.

Surge aqui o romance cortês trazendo ensino e entretenimento para a sociedade feudal que atravessa, então, uma fase de expansão econômica, política e social: uma nova perspectiva histórica desenvolvia-se e despertava o interesse e as preocupações com as emoções humanas. A temática do cavaleiro que serve à sua dama acima de tudo, oferecendo-lhe amor incondicional e enfrentando grandes aventuras para defender esse amor, irá alcançar lugar de destaque na produção literária da época. Conforme Erich Auerbach (2004, p. 114), em seu ensaio “A Saída do Cavaleiro Cortês”, o romance cortês tem como propósito fundamental a auto-representação da cavalaria feudal nas suas formas de vida e nas suas concepções ideais. Diz ainda:

“Também as formas exteriores de vida são representadas com lazer, e em tais ocasiões a representação abandona a distância nebulosa da história de Fadas para apresentar imagens totalmente presentes de costumes contemporâneos”.


De acordo com Cláudia Regina Bovo (2003, p. 45), o romance medieval, principalmente a partir da segunda metade do século XII, buscou sua temática em lendas e mitos de eras anteriores à sociedade judaico-cristã. A matéria das lendas da Bretanha, entre outras, faz parte da temática explorada pela literatura dessa época. Segundo Auerbach (2004, p. 117), o modelo de força, virtude e astúcia do herói destemido que enfrenta os perigos com uma dose de ajuda divina é visto como genuína vocação por toda uma classe social em pleno florescimento na época do surgimento do romance cortês. Assim, é muito oportuno o uso de diferentes tradições lendárias, sobretudo a Bretã, para a criação de um mundo cavalheiresco mágico, onde o cavalheiro encontra a provação da aventura e uma série de perigos fantásticos. Nesse sentido, o romance de Tristão e Isolda é um exemplo significativo desta literatura.

Estudiosa da cultura celta, a pesquisadora Maria Nazareth Alvim de Barros estabelece, em seu trabalho Tristão e Isolda: o Mito da Paixão (1996. p. 15), relações entre as figuras apresentadas neste romance medieval e as personagens primordiais do mito celta: “Tristão é filho de Rivalin, senhor de Loonois, e seu nome vem de Drust, um rei picto da Escócia. Marc ou Marc’h em bretão, córnico ou galês significa cavalo”. No romance, o rei Marc é apresentado com “orelhas de cavalo”,2 numa referência à sua possível descendência do deus celta:

Marcos procedia de uma ilustre linhagem; talvez descendentes até de um antepassado mítico, identificado com o Deus da forma animal, do qual herdara as orelhas de cavalo, que dissimulava cuidadosamente sob o gorro. O próprio nome, Marcos, significava cavalo em língua celta (p. 7).
Já a designação de Isolda, a loura, refere à divindade solar que os celtas adoravam e Tristão viria de “Drustanos”, do bretão: força do fogo, guardião da religião solar.

Algum conhecimento da cultura celta faz-se então importante para lançar luz sobre o temperamento e a trajetória do nosso herói cortês.

De acordo com o historiador David MacDowall em An Illustrated History of Britain (2001, p. 6), os celtas chegaram à Bretanha por volta do ano 700 a.C., provavelmente provenientes da Europa central ou mais ao leste, do sul da Rússia. Tecnicamente avançados e hábeis no manejo do ferro e superiores no do cobre, com o qual faziam suas armas, os celtas se instalaram e dominaram diversas regiões, entre elas a Bretanha francesa, o País de Gales, a Escócia e a Irlanda. Ainda hoje é facilmente comprovada sua presença em determinadas regiões onde a cultura e a língua celta se espalharam: nas Ilhas Britânicas, particularmente nas terras altas da Escócia, na Irlanda, na Cornualha e na Ilha de Man.

Não é possível falar de uma raça celta e sim de diversos povos de diferentes origens que compartilhavam certas características como os costumes religiosos e sociais e tinham uma cultura, uma língua e uma tradição artística comuns. Estavam divididos por tribos e governados por chefes guerreiros empenhados em constantes lutas internas. Na sociedade celta havia equilíbrio de poder e igualdade de direitos entre homens e mulheres. Segundo McDowall (2001, p. 8), quando os romanos invadiram a Bretanha em 43 d. C., duas das maiores tribos celtas eram comandadas por mulheres. Donas de enorme prestígio social, elas podiam ser eleitas rainhas e possuíam terras. Conhecedoras do uso das ervas e de rituais mágicos, também participavam da vida religiosa com grande destaque, pois eram consideradas sensitivas e, portanto, mais aptas que os homens a canalizarem as energias durante os cerimoniais. De acordo com Alvim de Barros (1996, p. 25), os celtas não adotavam o sistema patriarcal e as mulheres sempre ocuparam lugar de respeito entre eles, sendo consideradas representantes do lado mágico e feérico do ser. Outro integrante de grande importância era o Druida. Segundo a pesquisadora, eles ocupavam lugar de grande destaque ao lado do rei. Apesar de não lerem ou escreverem, eram detentores do conhecimento ancestral de seu povo e transmitiam oralmente a sua história e a saga de seus heróis em busca de conquistas e da elevação espiritual. Conheciam as leis, a medicina e os preceitos religiosos. Eram magos, mestres e juízes, conselheiros do rei e portadores de poderes espirituais. Os celtas adoravam uma coorte de deuses e glorificavam a natureza e a fertilidade. Não erigiam templos. Seus rituais religiosos eram celebrados nos campos e florestas, principalmente onde houvesse carvalhos antigos, símbolos do poder e da força divina, ou em círculos mágicos de pedras de que temos notícia ainda hoje, como as ruínas de Stonehenge Avebury, Silburg Hill e outras.

Esse uso da magia pela mulher, a estreita relação com a natureza e a busca individual do herói valente e habilidoso rumo ao seu destino fantástico estão presentes na saga de Tristão e Isolda, evidenciando a forte ligação da temática celta antiga com as personagens do romance medieval.

Diversos fatores contribuíram para que o romance cortês atingisse a representatividade que alcançou durante a Idade Média: as lendas sobre o agora extinto império romano, a retórica usada pela igreja católica e, sobretudo, uma alteração na percepção de que o homem não é um “objeto” estático, mas um ser que se move, e se movimenta em uma contínua viagem espiritual. Esta foi uma importante mudança da visão do homem sobre si mesmo. Até o fim do império romano o homem sempre se pensou como um ser imóvel diante dos acontecimentos que a vida lhe oferecia e dos quais tirava ensinamentos para sua vida espiritual. Durante a Idade Média passa a se dar conta de sua mobilidade e descobre que está em constante busca pelo seu destino e não apenas sendo afetado pelas fatalidades. Começa então a ser o “arquiteto” de seu mundo espiritual. Talvez por essa razão as figuras dos peregrinos e dos cavaleiros errantes se tornam tão populares neste período da história.

Um cavaleiro medieval tem que provar sua virtude e especialmente sua pureza de coração e de propósitos, freqüentemente, durante suas viagens. É essa pureza que lhe irá angariar fama e respeito ao final de cada jornada. Mas, mais importante, ela tornará mais fácil para ele o encontro com seu ideal espiritual. Sua virtude será constantemente posta à prova por uma série de eventos sobrenaturais, feiticeiros, gigantes ou feras que atravessarão seu caminho. Para garantir seu sucesso, receberá ensinamentos que propiciarão o desenvolvimento de seus dotes de cavaleiro, conforme declara Auerbach, na Mimesis (2004, p. 117):
O caráter pessoal das virtudes cortesãs não é dado simplesmente por natureza, nem é obtido simplesmente por nascença. (...) Agora precisa, além do nascimento, de uma educação para ser implantado, e da provação constante, voluntária e incessantemente renovada para ser conservado. O meio da provação e da verificação é a aventura, avanture, forma extremamente peculiar e estranha de acontecimento, criada pela cultura cortesã.
Desde o seu nascimento Tristão parece cumprir o destino do herói medieval:

Tristão aprendeu a correr, a saltar, a nadar, a montar, a atirar ao arco, a combater com a espada, a manejar o escudo e a lança. Em breve se distinguiu na arte da montaria e da falcoaria, perito em reconhecer as qualidades e defeitos de um cavalo, as virtudes de um ferro bem temperado e a arte de talhar a madeira. A isto se juntavam o canto e a música, pois tocava maravilhosamente harpa e rota e compunha lais à maneira dos jograis bretões. (p. 13)


Formado nas artes da guerra e da sensibilidade artística, está pronto para enfrentar a gloriosa luta com o gigante Morhold e se tornar o libertador de seu povo. Vencendo a batalha contra a morte, Tristão lança-se nos braços do destino para salvar-se ou morrer. Porém, o mar vai levá-lo ao encontro de Isolda, que o faz renascer pelo uso de sua magia. Na viagem que o leva para a salvação nos braços de Isolda, Tristão fará sua iniciação amorosa através do filtro mágico: o vinho de ervas que ele toma com a “bela” e que é símbolo do poder sobrenatural deste amor.

De acordo com o Dicionário de Simbologia (LURKER, 1997, p. 754-755), as principais tradições religiosas, e em particular os mitos dionisíacos, reconhecem o vinho como símbolo do conhecimento e da iniciação. Os Sofistas consideram o vinho, para os iniciados, o símbolo do amor, do desejo ardente e da embriaguez espiritual. Este vinho mágico que inicia os amantes poderia ser uma representação do Geis celta: uma espécie de sortilégio mágico que, segundo a tradição celta, implica, da parte de quem o escuta, uma obrigação ou interdição.

Quando Tristão se apaixona, todos os ensinamentos recebidos para se tornar um cavaleiro são ativados: ele usa sua habilidade com o arco, a espada e o escudo para defender seu amor e sua amada; usa a sensibilidade artística e a sua harpa para encantar e seduzir. Porém, os ensinamentos recebidos para honrar a palavra e odiar toda mentira e traição parecem ter sido deslocados para um outro mundo surreal – onde os mandamentos da paixão e não o das armas tomam lugar. Segundo Claudia Bovo (2003. p. 69), “Tristão e Isolda fogem cada vez mais dos modelos comportamentais propostos pela igreja e dos modelos correntes na sociedade aristocrática laica”. Para a autora, nesse momento Tristão provocou um rompimento com o ideal do cavaleiro, pois quando se entregou à paixão, deixou de usar suas virtudes para servir ao rei e ao reino e passou a dedicar-se exclusivamente a Isolda, a futura rainha. Parece-nos que Tristão está evidenciando, aqui, seu caráter originário celta: o mito do valente que busca alcançar transcendência através do amor. Isolda – a loura – como a deusa solar –, tendo o iniciado pelo amor, concentra sua lealdade e fidelidade para sempre. Os amantes passarão, então, a usar de todos os expedientes ao seu alcance para ocultarem seu amor aos olhos do rei Marc, dos barões e de todo o povo: precisarão mentir, dissimular, esconder-se e arquitetar engenhosamente situações que os livrem da desconfiança do rei e das intrigas palacianas. Em seu O amor e o Ocidente, Rougemont (1988, p. 28), dentre o que intitula “uma série de contradições enigmáticas”, questiona:
(...) acaso não é muito estranho que os poetas do século XII, tão exigentes em casos de honra, de fidelidade ao suserano, deixem passar sem o menor comentário tantas ações nada defensáveis? Como podem apresentar como modelo de cavalaria este Tristão que enganou seu rei com as artimanhas mais cínicas? Ou como uma virtuosa dama essa esposa adúltera que não recua mesmo diante de uma astuciosa blasfêmia?
Numa tentativa de resposta a essas proposições, diria que parece vir à tona o caráter mitológico celta do nosso herói perturbador que goza de uma liberdade sexual só antes vista entre as personagens das lendas pagãs. Alvim de Barros (1996, p. 25) nos diz que os celtas não consideravam o casamento um sacramento para toda a vida, nem era exigida fidelidade para o homem ou para a mulher. Estas podiam se ligar ao herói que escolhessem. Denominavam esta prática “L’amitié des cuisses” (amizade das coxas). Explica, ainda, que nos textos celtas o rei também aparece como uma personagem sagrada guiada pelas divindades. Num dos muitos ritos de entronização – o ritual hierofânico – o rei se casava simbolicamente com uma deusa (deusa terra) com o fim de assegurar a prosperidade do reino e a fertilidade da terra. Seu verdadeiro casamento era então com a deusa e a “traição” da rainha não era vista como crime. Até porque, para os celtas, a noção de adultério não tinha qualquer valor.

Rougemont (1988, p. 27) segue em seu questionamento:


Ao longo de todo o Romance, Tristão aparece fisicamente superior aos seus adversários e particularmente ao rei. Nenhuma força exterior, portanto, poderia impedi-lo de apoderar-se de Isolda e de obedecer ao seu destino. Os costumes da época sancionam o direito do mais forte, (...) sobretudo em se tratando do direito de um homem sobre uma mulher: é o prêmio habitual dos torneios. Por que Tristão não utiliza esse direito?
Não estaria o nosso herói apenas levando a termo mais uma inspiração trazida do mito celta? De acordo com David McDowall (2001, p. 8), durante o período celta as mulheres devem ter sido mais independentes do que seriam por centenas de anos. Ele nos relata que após as invasões a estas regiões os romanos deixaram relatos dando conta da impressão que tiveram da igualdade existente entre os sexos. Estudos mostram que naquela civilização eram reconhecidos direitos iguais aos homens e às mulheres. Portanto, considerada esta prerrogativa, qualquer decisão no sentido de abandonar o reino, por exemplo, teria de levar em conta a opinião de ambos (Tristão e Isolda) e não apenas fazer valer a lei do mais forte.

Os apaixonados não conseguem viver longe do seu ideal de amor. Assim, após haverem enfrentado a fúria do rei Marc, que os fez condenar sem julgamento e que exilou a rainha aceitando o conselho de leprosos, figuras totalmente desconsideradas pela sociedade, só lhes resta habitarem a floresta. Esse local (sagrado para o povo celta) irá lhes restituir – após novamente terem sido postos à prova seu amor e sua coragem – a benção de uma união amorosa confirmada, agora sem o encantamento do filtro mágico.

O sentimento profundo que une os dois amantes é que irá qualificar e garantir a união de Tristão e Isolda. Porém, esta união nega o modelo de matrimônio monogâmico da união cristã, a qual condenou o adultério e quaisquer práticas matrimoniais que não fossem consagradas pela igreja. Com essa argumentação, Cláudia Regina Bovo (2003, p. 92) questiona como podemos justificar tal união, que transpõe todas as regras de respeito às linhas de parentesco dominantes na sociedade do século XII, sendo essa união apenas fundada no sentimento amoroso.

A pesquisadora Alvim de Barros (1996, p. 26) nos explica que em todas as narrativas celtas podemos notar uma acentuada preocupação com a temática amorosa. Tendo no centro de todas as ações a figura feminina, esta temática teria vindo constituir a base para os futuros romances de cavalaria e do amor cortês. Segundo ela, entre os celtas, o amor-paixão representa muito mais que um sentimento. Ele é o próprio destino do homem, de que ele jamais pode fugir. Os ingredientes que compõem esse sentimento passam por total e completa doação de si mesmo ao ser amado – o qual é considerado sagrado –, envolvendo os amantes num mundo de sonhos e loucuras. A mulher amada é mágica, enigmática, exemplar: “Na tradição celta o amor está desvinculado da procriação e projeta os amantes, por meio da paixão, para um domínio além do humano”.

Em seu estudo sobre a psicologia do amor romântico, Robert Johnson (1987, p. 82) diz que o homem apaixonado faz de sua amada o “símbolo de algo universal, algo interior, eterno e transcendental”. Passa a ver nela a sua realização e um significado para a sua vida. Vislumbra, através dela, uma realidade especial que o torna pleno, nobre, “lapidado, espiritualizado, enaltecido. Ele é um novo homem, melhor e mais completo”. Tristão irá abrir mão de todo e qualquer amor terreno: mesmo ligado à outra Isolda, a “das mãos brancas”, não conseguirá deixar de ser devotado exclusivamente ao amor divino que busca encontrar na sua única amada. Em seu derradeiro encontro ele “toma-a nos braços e ela aperta-o contra o peito” enquanto lhe diz: “Belo amigo, toma-me nos teus braços e leva-me então para o país afortunado do qual me falavas não há muito, o país do qual ninguém regressa. Leva-me!”(p. 227). Para Roland Barthes (1981, p. 12), o gesto do abraço amoroso é capaz de realizar por um momento o sonho de união total entre os amantes. “Tudo é então suspenso: o tempo, a lei, a proibição: nada cansa, nada se quer: todos os desejos são abolidos, porque parecem definitivamente transbordantes”.

Aludindo a um lugar mágico para onde a levaria: “lá em cima no céu (...) um quarto feito de cristal” (p. 222), Tristão convida sua amada a fazer com ele sua última viagem: o país do qual ninguém regressa, este lugar de felicidade onde toda a sua angústia tem fim, é simbolizado pela morte. De acordo com Robert Johnson (1987, p. 204), desde os tempos primordiais o homem vê na morte um rito de passagem, um meio de deixar a sua “dimensão limitada do tempo e espaço, para o universo ilimitado e imensurável do espírito e da eternidade”. Finalmente reunidos na sua morte os amantes irão encontrar a perfeição da beleza no mundo espiritual onde todos os conflitos são solucionados e onde a alma encontra sua plenitude.

Considerando a crença de que a lenda de Tristão e Isolda bebe da fonte do mito primordial celta e conserva a essência desse mito, parece-me que é através dos traços oriundos desta cultura milenar que o nosso herói revela seu caráter e desenvolve sua trajetória. Só a partir do entendimento do processo da busca espiritual pelo herói mitológico celta é que vamos estabelecer a verdadeira conduta do nosso herói medieval. De outra forma, como entender a súbita “transferência” da lealdade de Tristão para sua rainha, em detrimento da fidelidade ao seu juramento como cavaleiro do rei, a quem deveria honrar acima de tudo? Somente tendo em vista que para ele, Isolda – a loura – é a representação da deusa solar celta, e que ele – Drusdan – é o guardião da religião solar, como indica a etimologia do seu nome bretão. De que forma entender Isolda, a bela com poderes mágicos de cura, se não buscarmos na origem simbólica sua representação como a deusa solar celta, carregando toda a sabedoria da sacerdotisa Wicca3 e seu conhecimento das ervas e dos rituais sagrados? Como alcançar o efeito devastador do vinho ervoso sobre os amantes sem a perspectiva da Geis celta, obrigando o herói a um destino irrevogável, quando sobre seu poder? Como habitar com ele na floresta que representa seu mundo interior e a consagração de seu amor sem ter em vista o poder mágico que a floresta exercia sobre o povo celta em todos os seus rituais de iniciação e auto-revelação?

Assim como o mito celta, o herói da lenda medieval só encontrará completude no amor. O verdadeiro amor transcendental e eterno que realizará a passagem do material para o espiritual, do terreno para o divino, onde os amantes sentirão que sua alma está liberta e poderão, finalmente, realizar seu ideal romântico.


REFERÊNCIAS:
AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 2004.
BARROS, Maria Nazareth A. de. Tristão & Isolda: o mito da paixão. São Paulo: Mercuryo, 1996.
BARTHES, Roland. Fragmentos de Um Discurso Amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981.
BOVO, Cláudia Regina. O Romance de Tristão e Isolda: permanências e rupturas na estrutura de parentesco medieval. Franca: UNESP, 2003.
JOHNSON, Robert A. We: a chave da psicologia do amor romântico. São Paulo: Mercuryo, 1987.
LURKER, Manfred. Dicionário de Simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
MCDOWALL, David. An Illustrated History of Britain. U.K.: Longman, 2001.
ROUGEMONT, Denis de. O Amor e o Ocidente. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
TRISTÃO e Isolda. Traduzido por Maria do Anjo Braamcamp Figueiredo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2003.



1Este estudo tem como fonte a obra: Tristão e Isolda. Traduzida por Maria do Anjo Braamcamp Figueiredo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2003. Todas as citações do romance seguem esta obra.


2 Para registros aprofundados sobre os reis pictos da Escócia, ver: W.A. Cummins. The Age of the Picts. U. K.: Sutton , 1995. p. 50-56.


3 A magia conhecida como Wicca era praticada entre os povos da Irlanda, País de Gales, Inglaterra, Itália e França. A palavra “Wicca” vem do saxão “witch” ou do Inglês arcaico “wicce”, que significa: moldar, girar. Alguns estudiosos afirmam que esta palavra vem da raiz germânica “wit” que significa: saber.




Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal