Mistérios de Lisboa



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Camilo Castelo Branco




Mistérios de Lisboa




2

Selecção e notas de

Alexandre Cabral



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Livro Segundo


(continuação)

IV
A condessa de Santa Bárbara ia passada de espanto, quando entrou na grade, onde encontrou padre Dinis. Aquele homem apresentava-se-lhe outro, agora. A grandeza do seu passado, as misteriosas desventuras da sua vida, o heroismo do sacerdote ungido pelas lágrimas duma paixão eterna, gravada sempre naquela fisionomia macerada, o mistério, enfim, acobertado no silêncio de dezasseis anos, era o que faltava naquele homem para inculcar-se prestigiosamente a D. Ângela de Lima.

O padre, mais triste que o seu costume, olhos fixos na vista reflexiva da condessa, percebeu uma inquietação extraordinária, que a não deixava falar com a segurança e placidez do costume.

- Que tem, senhora Condessa?... Sempre triste... mas, hoje, de mais a mais, parece-me sobressaltada... Cuidados por seu filho?

- Saudades... sim.

- A saudade pelos vivos é dor suave... Saudade insofrível, sem desabafo, há uma só... a sem esperança, a saudade que lhe fala há quinze anos... não avivemos. Umas poucas de dores reunidas enfraquecem a força de cada uma. Todos estes desgostos, que vieram em tumulto, há menos dum mês, parece que lhe paralisaram a sensibilidade, senhora Condessa... Mercê de Deus!

- Senhor padre Dinis, a saudade não paralisa assim... Que outro mo dissesse... mas quem sabe tudo... quem provou o fel de todas as paixões... Eu não estou insensível... essa mercê espero devê-la a Deus... perto vem o dia; mas por ora sinto, sinto muito, e sinto mais ainda porque o homem que mais devera conhecer a minha alma é aquele que parece condenar friamente a minha insensibilidade...

- Eu não a condeno, senhora Condessa de Santa Bárbara... Observo-a, e vejo-a mais corajosa do que a supunha para obrigar-se às condições que a razão lhe impõe. Isto é muito; é mais do que pode o coração da mulher; faz-se, quando não há seiva de paixões, quando a alma parece envelhecer com a matéria, quando se recebem todas as dores com a cabeça e há força para constranger o coração, que reage...

- Que faço eu?! - interrompeu D. Ângela com ansiedade.

- Suicida-se. O amor de Deus não é o quebrantamento de todos os laços que nos prendem ao mundo. A verdadeira religião é serena como a paz da consciência; tem júbilos e não se nutre só do ermo e da oração; aparece nos olhos em lágrimas, quando o remorso é entranhado e rebelde à contrição; vem aos lábios, em sorrisos de amor para o género humano, quando a alma está gozando a quietação da virtude. Vossa Excelência procurou com avidez um confessor que lhe apertasse os cilícios. Achou-o entre os capuchinhos, que passam por santos, mas não gozam tão bom conceito, a respeito da sua instrução. Senhora Condessa, duvide da santidade, que se lhe apresenta a fazer santos, desfazendo o barro de que saiu o homem de entre as mãos do Criador. Se o seu ministro da consciência lhe diz que Vossa Excelência deve ser o que está sendo, não se preste a santificações que mais tarde são fatigantes, e o espírito violentado por elas, como o arco do Evangelista, estala, e inutiliza-se por demasia de compressão. A graça de Deus é alegre, expansiva, e vem à luz do dia, e à publicidade dos homens mostrar-se qual ela é...

- Que quer que eu faça, senhor padre Dinis? que me retire do convento?

- Sim, se não há outro meio de a fazer compreender a virtude.

- Não me aconselhou a vinda para esta casa?

- Aconselhei, como remanso de repouso para os trabalhos em que a sua pobre alma tem sido provada. Fui mau conselheiro... e o que se segue... Supus que Vossa Excelência encontrava desafogo entre pessoas que a receberam carinhosamente, e em parte nenhuma, como nestas casas, o bálsamo dos sofrimentos é pronto, e a vontade de aliviá-los sincera. Deu-se o contrário. Vossa Excelência reconcentrou-se e afastou-se de si...

- Pessoas que não conhecia e que o meu confessor...

- Lhe disse que não devia conhecer: porquê?

- Porque a verdadeira virtude é tão rara no mundo como no claustro...

- O frade tinha razão... - atalhou o padre, sorrindo. - A verdadeira virtude, pelos modos, nem entre os capuchinhos se encontra... Sincero e legítimo franciscano é o seu confessor, senhora Condessa!

- Mas, se até aqui tenho vivido sozinha com sua irmã, hoje encontrei aqui uma amiga de infância, religiosa... de Santa Apolónia...

- Sua amiga de infância?! - atalhou o padre com agitação.

- Decerto... é a Adelaide Maldonado...

- Essa! - exclamou o padre.

- Sim, senhor - disse a condessa, com ar de simplicidade mal fingida.

Padre Dinis, hábil em dominar os seus abalos, perguntou tranquilamente:

- Têm convivido muito?

- Pouco... Ela chegou ontem do campo, onde esteve a ares.

Conhece-a, senhor padre Dinis?

- Sim, minha senhora... Tenho ideias de a ter visto...

O padre não podia esconder a perturbação. D. Ângela não sabia representar um papel que estivera violentamente ajustando ao seu carácter. Escrupulizava em fingir-se ignorante, mentindo à boa-fé do seu amigo, que adoptara como pai. As meias revelações inconsideradas que fizera causavam-lhe remorso. Para remediá-las, era tarde; para suspendê-las ali, era reserva indigna da sua sincera alma para com tal homem, o anjo bom, que, desde a juventude, a não abandonara nas mais angustiosas crises. O padre fia-lhe nos olhos o temor do coração. Em si, sentiu-se transido de dor; por ela, falava-lhe uma espécie de compaixão e um receio de a deixar atormentada com o desgosto de não saber calar o que, talvez, lhe não foi dito como segredo.

- Falou em padre Dinis à sua amiga? - disse ele, sorrindo.

- Não, senhor; foi ela que me falou...

- É admirável! - Quando me contava a razão porque viera do mosteiro de Santa Apolónia para aqui...

- Basta... Eu concebo tudo...

- Sofre, senhor padre Dinis? - Se sofro?...

- Sim... sofre porque eu involuntariamente entrei no segredo da sua vida?

- Não, senhora Condessa... O meu egoísmo na dor não vai tão longe... Se tivesse vindo um momento em que eu por necessidade lhe devesse contar o que fui, para Vossa Excelência compreender o que sou, não lhe esconderia esse segredo... Contar-lho sem motivo, seria uma frivolidade, inútil para ambos...

- Seria sempre um exemplo de resignação, um estímulo para receber o sofrimento com ânimo.

- Pois bem... falemos da sua amiga Adelaide... Não a vi há bons quinze anos... Era nesse tempo muito triste... Tinha a formosura dum anjo, e o coração também. E hoje?

- O coração parece-me bom, como era; a tristeza é de lágrimas incessantes, uma saudade de tantos anos sem alívio!... A face está mudada; não tem nada da Adelaide que conhecemos!... Os mais dos cabelos são brancos, e quem lhe não souber a idade dirá que a pobre Adelaide é velha.

- Pois não é... Há quinze anos, última vez que a vi, tinha dezoito anos... Envelheceu... devia ser assim: mas não se explica como isto foi...

- Tal foi a paixão... a saudade...

- A saudade. .. por ela?

- Sim... por aquela infeliz...

- Não lhe chame infeliz!... - disse o padre com os olhos cheios de lágrimas, e um suave sorriso de indefinível sentimento -, Francisca Valadares não foi infeliz. Morreu? Abençoados são os que morrem assim!... Grande na alma, grande no sacrifício de todas as suas ambições! Infeliz é a mulher, que transige com a perseguição, humilhando-se. Ela não. Feriram-na, sem a ultrajarem. Mataram-lhe o corpo, sem lhe tocarem na alma. E, depois, aquele anjo poderia despenhar-se e não se despenhou. Purificou-se pela agonia, surda, submissa e confortadora para os que sofrem. Subiu sempre para a sua origem. Quando morreu, ao cabo da atribulada noite da sua curta existência, já tinha na face a luz do crepúsculo da bem-aventurança... Senhora... quando se amou assim... uma vez, e se perdeu tudo num momento... o coração fica vinculado ao túmulo... cheio de saudades e de vida até à decrepitude... Adelaide tem razão... devia envelhecer. Quando embranquecem os cabelos do homem em quinze dias, ao cabo de quinze anos, a mulher, que foi verdadeira amiga, deve ter envelhecido... Diga-lhe que a sua dor é sagrada... e que a sua alma se santifica pelo martírio nobre da saudade... Choramos ambos, senhora Condessa... Porque não? Vossa Excelência vê um velho a chorar. Compadece-se do pobre, porque sabe o coração que ele tem. Neste instante, recapitula os aturados tormentos de tantos anos, que me reduziram a isto!... Ver nascer o sol de cada dia, como um novo sinal de que o meu cativeiro se prolonga... entrar no silêncio de cada noite, com ela sempre aqui. .. e as palavras dela, as últimas, o convulso adeus da moribunda... é um peso que verga toda a valentia moral, senhora! Sem a fé, esta existência era um ludíbrio do Criador...

Os soluços abafaram-no. Levantou-se subitamente, chegou à janela, que se abria para a cerca, e respirou a fundos sorvos o ar, que parecia reanimá-lo da sufocação com que exprimira aquela enlevada reminiscência de todas as horas, mas pela primeira vez denunciada pelos lábios. A condessa, incapaz de inventar lenitivos para a mágoa inconsolável, chamava-o com ternura, pedia-lhe que se não reprimisse assim, que expandisse em franco desafogo a sua paixão... O padre ouvi-la-ia? Talvez não! Com os olhos, lá em baixo, nos horizontes, com as mãos enlaçadas sobre o peito, aquele homem de negro, com as vestes majestosas do levita, era grande ali naquela luta de paixões terrenas, era maior que a magnificência do seu ministério, ungido entre o barro quebradiço do amor mundano e o perpétuo amor de Deus!

- Senhora Condessa - disse ele, assumindo o habitual carácter de fria austeridade, como se as paixões, subjugadas pela sua vontade de ferro, lhe não deixassem leve traço de agitação -, senhora Condessa, seu filho saiu ontem. Confiei-o à viúva do general Almada, que foi levar seus filhos a Londres. Ela será como sua mãe, e ele como seu filho.

- Mas, senhor padre Dinis, meu filho, na sua carta, não me diz os meios que hão-de sustentá-lo no colégio.

- Seu filho não podia dizer-lhe o que não sabe. A Providência deparou-lhos...

- Sempre um segredo...

- Pedido à minha honra. Os meios não lhos dou eu... Apresso-me a despersuadi-la dessa conjectura...

- Pois quem?

- Desculpo a sua curiosidade; mas eu não posso dizer-lhe mais que seu filho.

- Não sabe?!

- Sei, senhora Condessa.

- Não devo a tal respeito, perguntar mais nada?

- Dê-me essa prova de estima... Os legados de seu marido foram cumpridos, à excepção da esmola deixada a Eugénia, sua criada.

- Porquê?

- Ela não quis aceitá-la: repeliu-a, dizendo que se não vendera ao conde de Santa Bárbara vivo, e menos se vendera ao conde morto. Dois dias depois, encontrei-a numa carruagem. Fez parar os cavalos, chamou-me à portinhola e ofereceu-me a sua casa na Praça da Alegria, número dezanove. Hei-de visitá-la um dia... O mistério é provocador... Outra coisa... Amanhã parto para Santarém. O confessor do senhor Conde de Santa Bárbara pediu-me uma visita de amigo. Não sei que tempo me demorarei. Não me despeço de minha irmã...

- Sua irmã?

- Dona Antónia... - É sua irmã?

- Que pergunta!... porque ma faz, senhora Condessa?

- Não me disseram que Sebastião de Melo tivesse uma irmã...

- Senhora Condessa... mais tarde responderei. Por enquanto consideremo-la minha irmã, e boa amiga de Vossa Excelência.




V
Padre Dinis anunciara-se a frei Baltasar da Encarnação, à portaria do mosteiro de dominicanos em Santarém, e foi conduzido à cela do frade, que o recebeu nos braços, como quem abraçava suspirado amigo de muitos anos, e com extremos do coração esperado. A enrugada face do monge parece que o júbilo a remoçara. O sorriso naquele aspecto venerando, se lhe vinha do coração e do pressentimento, como em verdade vinha, bem pudera dizer-se que era um dos raros sorrisos que se abriram nos lábios do septuagenário.

Ali, no claustro, onde a terra lhe escondera quantos ele encontrara, e quantos consigo foram noviços, por mais de cinquenta anos, ninguém lhe vira um raio de alegria nas sombras eternas do rosto.

A melancolia imperturbável, a abstracção profunda, a solidão escura daquela alma, reputavam-na o efeito do cilício, da disciplina e da maceração moral, em que a devoção, e para muitos o fanatismo, trazia aquele espírito avexado.

Frei Baltasar era um sábio dos velhos tempos, em que o erudito, aos cinquenta anos de fadigas estudiosas, recebia esse título, que os netos daqueles homens, na sua raiva pueril ao passado, não ousam negar-lhe.

A Ordem de S. Domingos acatava-o como oráculo em todas as ciências, e denominava-o, sem desonra para o termo da comparação o S. Tomás da Igreja lusitana, o sustentáculo da boa ciência, e última vergôntea do tronco venerando de frei Bartolomeu dos Mártires.

Em grande elogio à sua capacidade, dizia-se que o ilustrado bispo de Viseu, então secretário de Estado, não se dignava de consultá-lo em melindrosos casos de política. E suposto que, por esta especialidade, frei Baltasar sofresse injusta censura dalguns escrupulosos, que não apoiavam a interferência do ministro do céu nos negócios da terra, o dominicano, cheio de humildade, apontava aos seus detractores um tratado in-fólio De Re Politica, produção dum jesuíta, que o santo padre canonizara. Era, portanto, invulnerável a virtude do monge às arguciosas insinuações do beatério, primo-co-irmão da má fé, e, pelo menos, amigo íntimo da ignorância audaciosa. Bastam as poucas linhas escritas para esboçar os traços que, mais à superfície, os olhos dos que vêem apenas a crusta exterior encontravam na fisionomia impenetrável do frade.

Com fundadas razões, padre Dinis vira-o por outro prisma, e definira-o de diverso modo. Frei Baltasar pareceu-lhe um homem com dois homens em si diversos, que o punham em dilacerante antagonismo de consciência. Reputava-o sábio, mas curtido no espírito de lições amargas da experiência, com que viera do mundo acolher-se no extremo refúgio do desgraçado. julgara-o bom dessa bondade que não vem ingénita com o coração, mas que se faz, e se adquire como um fruto bom de árvore má, que, sem rega de muitas lágrimas, não vingaria. Padre Dinis não acreditava nos cilícios e disciplinas e jejuns como máquinas de fabricar santos. Frei Baltasar inspirava-lhe de sua ilustração um conceito muito elevado. A fama das suas penitências, flagelos e mortificações, na fé do antigo Sebastião de Melo, era uma crendice popular, que o dominicano desmentia com os seus setenta e sete anos. O espírito poderia extenuar-se em recônditas amarguras, mas a carne, senão opilada e suculenta como a dum frade de Alcobaça, estava sadia e vigorosa, quantum satis, e o mais e melhor que podia, naquela idade, ambicionar-se.

Dito isto, observemo-lo na ocasião de melhor se avaliar.

- Esperava-vos com ansiedade e sofreguidão - disse o frade, abraçado com o hóspede. - Vai não vai, estive para escrever à senhora Condessa de Santa Bárbara, pedindo-lhe que vos dispensasse algumas horas em beneficio do velho frade de Santarém... Agora sois meu; vou mandar trancar a portaria e pedir uma ração vitalícia, para vós... Rides? Vereis... Hei-de encantar-vos com bruxarias de frade, que são piores que as de velha. Eu herdei a nigromancia do venerável Gil, que os pagãos do cristianismo beatificaram em honra dos seus feitiços... Parece que me estais chamando herege!... Ora sentai-vos e entremos, como bons cristãos, em santa harmonia no ágape dum jantar de dominicano, que vos não será indigesto, porque o nosso padre São Domingos é melhor advogado contra indigestões que os beatíssimos patriarcas Bento e Bernardo... Como vêem, frei Baltasar era chistosamente satírico, sem maledicência. Os assuntos celebrados por graves pensadores do século anterior, e pela tradição veneranda do povo, como S. Gil, com quem o divino Garrett brincou depois, eram objectos de mofa para o frade. Filósofo, não da negativa filosófica da escola francesa do século XVIII, mas da crítica pensadora, desprevenida, em que os abusos são joeirados e o facto indestrutível e acrisolado das fezes, que lhe apoucam o quilate.

Padre Dinis, simpatizando cada vez mais com aquele carácter especialíssimo no mosteiro, sentia-se impelido para aquele homem, com toda a efusão de franqueza, que, em poucos minutos, ata em vínculo apertado duas índoles semelhantes. Liga maravilhosa! O padre aborreceu sempre o frade!...

Durante o jantar, na cela do nosso velho que, por sua autoridade, se isentara das condições do refeitório, falaram em política, matéria fastienta e abstrusa, que, trazida para aqui, seriam uma inglória usurpação ao jornalismo, calamidade imprevista por Gutenberg.

Findo o frugal repasto, frei Baltasar indicou a padre Dinis um quarto para descanso, e entrou no seu. Em uma hora, dormiu, orou e pensou.

Padre Dinis escrevia quando o incrédulo cronista de S. Gil lhe ecoou pela fechadura um benedicite, em lúgubre clave. Saíram juntos a passear na cerca; ampliaram a questão do jantar; concordaram em graves coisas sobre legitimidades dinásticas; duvidaram ambos das cortes de Lamego, sem as desautorizarem da sanção jurídica, disseram outras muitas coisas rotundas e salobras, e recolheram, enfim, à cela, quando o sinal de vésperas os mandou recolher. Abriram os breviários, murmuraram os versículos em monótona toada e rezaram ambos, de joelhos, a salve-rainha do costume. A sua ilustração não era, pois, tão ilustrada que os desquitasse das obrigações de orarem.

Sentaram-se depois. Padre Dinis encetava uma nova conversação sobre qualquer assunto trivial, quando frei Baltasar, por um aceno cheio de majestade, lhe impôs silêncio.

- O assunto é outro - disse ele, e sobresteve num recolhimento de minutos, como quem procura dum lance da alma recapitular os toques essenciais dum discurso estudado. Não era isso. O improviso vinha-lhe pronto aos lábios; mas o coração parecia retrair-se represo duma expansão que tão cara lhe devia ser.

- Meu amigo - disse ele apertando a mão do hóspede -, o meu coração tem tanta vida... Estes tecidos de setenta e sete anos não se relaxaram ainda... Eu sinto aqui uma opressão... parece-me um temor de profeta... Estou constran-gido... Ter-me-ei enganado com o homem que escolhi para o segredo da minha consciência?

- Não ouso responder-lhe... - disse o padre com ressentida dignidade. - Eu sou o que sou.

- Nunca me responderam assim! Vós sois o homem que eu imaginei... Não me iludi... Agora, ouvi-me. Eu nasci no Minho. Meu pai era um fidalgo mais antigo que os reis desta terra. Sem os patriarcas da minha família, Portugal seria hoje uma nesga de Espanha, e Afonso sexto de Castela sepultaria em Guimarães a rebeldia do conde Henrique, e Jesus Cristo não viria no Campo de Ourique profetizar a derrota dos cinco reis mouros. Vem vedes que a ironia salva-me da imputação que faríeis à balofa vaidade do meu nascimento.

“Eu fui educado livremente. Nasci com maus instintos, e franquearam-me carta branca para dispor à larga do ouro com que servia prodigamente as minhas imoralidades.

“Tive tédio de mim, quando cheguei aos vinte e três anos com o estímulo duma paixão nobre, sem uma afeição pura por uma só de tantas mulheres que atirei à desonra, como fardos insuportáveis, suposto que na consciência me não pesassem nada.

“Por esses tempos o conde de Viso... reparai que vos não escondo circunstância nenhuma... se vos não disse ainda o meu nome, logo vo-lo direi... o conde de Viso veio viver na casa de sua mulher, com quem casou no Minho. A condessa fora educada em Lisboa. Vi-a casada; não a conhecera solteira. Esta mulher tinha tudo que perde um homem. Era duma formosura peregrina e dum espírito enriquecido por tal arte com os dotes da inteligência que, pelo amor de tal mulher, pelos afectos desperdiçados ao homem boçal com que a casaram, eu seria um anjo e um demónio, seria um virtuoso humilhado a todo o mundo para dominá-la a ela, seria um assassino dos meus amigos, se a condição do meu domínio fosse tal. Um homem que sente assim não é seu, nem da virtude, nem do crime, nem de Deus, nem da sociedade... É dela... é o que ela quiser que ele seja.

“O conde de Viso era general. Rústico e áspero da rudeza de soldado, sem trato com as sensações delicadas, e sem artifícios para fingir-se com a melindrosa mulher que as conveniências sociais lhe escravizaram, nunca se lembrou de medir o abismo que os separava, nem prever as batalhas que se davam no coração da odalisca, que reage contra a desabrida condenação dum cativeiro, em posse dum sultão, autorizado pelo sacramento do divino preceito, segundo dizem os casuístas de boa-fé.

“O timbre da sua voz não tinha inflexões. Mandava carregar os esquadrões como chamava sua mulher para arrolar os alqueires de milho que entravam nas tulhas. Concebera a ideia de que há homens que vieram organizados para generais; que o seu ofício na guerra é matar e morrer; e, na paz, recordar batalhas, pedir uma comenda para cada ferida, apontar as paredes atrás das quais os seus colegas se esconderam em tal refrega, e procurar uma mulher, sem a qual não há outra máquina de criar representantes de glórias que a pátria agradecida jamais esquecerá.

“O conde de Viso era assim, e sua mulher era uma alma anelante, abrasada, cheia de quimeras, conspirando contra tudo que há, porque as suas ambições eram tudo que não há.

“Eu entrei em casa do general como quem vai estudar o terreno duma batalha infalível. O meu orgulho dava-me de antemão os emboras do triunfo. As probabilidades eram todas minhas, ainda mesmo que a fama do meu nome entrasse ali, primeiro que eu, a acirrar os grosseiros ciúmes do conde e indispor a fina sensibilidade da condessa.

“A estratégia era torpe. Na presença daquela mulher os meus planos caíram. Olhou-me dum modo que parecia dizer-me: - Recua, miserável! “ Recuei. Queimava-se-me a cabeça, cheia de fantasias ardentes, e doía-me o coração de mágoas nunca sentidas, de esperanças que me pareciam desenganos ao meu amor-próprio... de ânsias que não tinham desafogo sem ela, silenciosa e impassível como um sarcasmo à minha vaidade, uma expiação das baratas vanglórias que me dera a hábil perfídia.

“Era a minha primeira paixão. Alimenteia-a com lágrimas generosas. Senti-me outro na alma. Vieram-me subitamente as propensões para o bem. O coração abriu-se-me aos sentimentos ternos, à compaixão pelos pobres, à meditação dolorosa e prestante para com os infelizes. A natureza, tudo isto que nos rodeia e nos não cativa um afecto porque o tumulto de paixões sórdidas nos separam do belo, pareceu-me formosa e esplêndida dum reflexo daquela mulher, que viera, como um anjo de paz, reconciliar-me com a virtude.

“Estranhais esta linguagem calorosa no velho de setenta e sete anos? A impressão deixou um sulco indelével. Esta suave reminiscência, em minha alma, é como a flor de toda a vida, sempre viçosa pelo orvalho de lágrimas. Teria morrido se a paixão sucedesse à paixão. Não era possível. Foi única... O corpo envelheceu, mas o espírito nutriu-se para sempre.

“O conde de Viso era rancoroso inimigo do marquês de Pombal. Eu de todo o meu coração o detestava, porque meu pai morrera onze anos antes no Castelo de São João da Foz, onde tragou suplícios da invenção carniceira de Sebastião José de Carvalho.

“O desejo de vingança fez-me parecer um homem superior na inteligência curta do conde. Nasceu daí a simpatia com que ele me acolhia em sua casa e a confiança inteira que eu pude hipocritamente captar-lhe. Quando eu lhe disse que esperava um momento feliz de sevar o meu rancor no sangue do conde de Oeiras, o general, que fora valente sob as ordens de Lippe mas que não era capaz de desafrontar-se, face a face, das afrontas que lhe fizera Pombal nos salões do Paço, abraçou-me freneticamente, exclamando: - Amigo para a vida e para a morte!”

“Nesse ano, era em mil setecentos e setenta e sete, morreu Dom José. A notícia desta desejada morte implicava a queda do valido. O conde delirou de contentamento, e mais ainda quando Dona Maria o chamou a assistir à sua aclamação, na qualidade de gentil-homem da sua real câmara, para que fora nomeado.

“O general partiu para Lisboa. A sua paixão única era aquela. Realizavam-se-lhe os sonhos ambiciosos, esqueceu as insignificâncias do amor, que o rodeavam, olharia para a mulher como um empecilho ridículo se lhe dissessem que a levasse consigo.

“Foi. Dona Silvina despediu-se do seu marido com azedume, que ele não conheceu. Doeu-se da desconsideração, sem propósito, natural à rudeza do soldado ambicioso, e julgou-se ultrajada na sua vaidade.

“Eu adivinheia-a. Felicitei-me dum triunfo e desabafei o desespero, que acabara por pintar-me aquela mulher invencível.

“A condessa sabia... sabia de mais... que eu a adorava... Lutara contra o coração, contrariara-o nos impulsos que a deviam finalmente... perder. Viu-me sofrer na humildade... sofrer calado, dando-me voluntário a maiores desen-ganos, enobrecendo-me até de sofrer por tal mulher... Mas era fraca... sê-lo-á sempre toda a mulher que combate dois poderosos inimigos... inimigos, sim, a indiferença do marido, o cansaço imprevidente da posse, os extremos do estranho e o carinho mais fervoroso do desejo. Fossem elas virtuosas até ao martírio... renegariam, se lhe não fechassem as avenidas à tentação do amante... Renegariam, despojando-se das glórias do seu orgulho estéril; da sua consciência, pura sim, mas incapaz de sanar as feridas da vaidade... Sucumbem todas... Sucumbem, padre Dinis, quando a paciência do amante se aproveita das impaciências do marido... Era assim o mundo, é e sê-lo-á sempre... Serão todas como aquela, quando uma verdadeira paixão, fértil de recursos, as inquietar na sua tranquilidade sensabor, naquela sua íntima ambição de viver com um outro homem que lhes saiba colher as flores da alma, e as não aprecie somente pelas formas exteriores...



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