Mito de agua santa en la comunidad rural en frutal-mg



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O MITO DA ÁGUA SANTA NA COMUNIDADE RURAL EM FRUTAL-MG

MITO DE AGUA SANTA EN LA COMUNIDAD RURAL EN FRUTAL-MG

Jaqueline Borges Inácio

Mestre em Geografia pelo Instituto de Geografia- LAGECULT- UFU



jaquelinebinacio@yahoo.com.br

Rosselvelt José Santos

Professor Doutor do Instituto de Geografia-LAGECULT- UFU



rosselvelt@ufu.br
RESUMO

O trabalho faz uma abordagem sobre o mito da água, enquanto ritual religioso na Comunidade Rural de Água Santa, localizada no município de Frutal na Mesorregião Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Esta pesquisa tem por objetivo analisar como a água potencializa o local, e se materializa em um ritual religioso, como símbolo da cultura imaterial. Para a realização do trabalho, foi necessário buscar um referencial teórico conceitual, relacionado ao mito, bem como, vinculados a rituais religiosos sagrados e suas representações simbólicas. A análise da problemática do mito da água baseou-se em literaturas interdisciplinares, com o objetivo de fomentar a discussão teórica do trabalho. Foram realizados alguns registros fotográficos, seguidos por observação das principais paisagens que compõe o principal cenário histórico cultural da comunidade. Esta pesquisa contribuiu, para entender uma realidade cultural, aplicada ao mito, que se relaciona ao simbolismo religioso e a elementos naturais.



Palavras chave: Água. Mito. Cultura. Comunidade Rural. Simbolismo Religioso.
RESÚMEN

El trabajo es una aproximación al mito del agua como un ritual religioso en la comunidad rural de Agua Santa, ubicada en el municipio Frutal en Meso Triangulo Mineiro / Alto Paranaíba. Esta investigación tiene como objetivo analizar cómo el agua aumenta el sitio, y se materializa en un ritual religioso como un símbolo de la cultura inmaterial. Para llevar a cabo el trabajo, era necesario buscar un marco teórico conceptual relacionada con el mito, así, vinculado a rituales religiosos sagrados y sus representaciones simbólicas. El análisis del mito de agua de problemas se basa en la literatura interdisciplinaria, con el objetivo de promover la discusión teórica de la obra. Algunos registros fotográficos, seguido por la observación de los principales paisajes que conforman el principal marco histórico cultural de la comunidad se llevaron a cabo. Esto contribuye investigación para comprender una realidad cultural, aplicado al mito que se relaciona con el simbolismo religioso y los elementos naturales.



Palabras clave: Agua. Mito. Cultura. Comunidad Rural. Simbolismo Religiosa.

1 INTRODUÇÃO

O trabalho faz uma abordagem sobre o mito da água, enquanto ritual religioso na Comunidade Água Santa, localizada no município de Frutal na Mesorregião Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Esse estudo partiu das discussões e dos seminários apresentados durante a execução da disciplina cursada no início do mestrado no ano de 2012, cujo o enfoque era dado a água, que num primeiro momento é tratada como uma substância.

O objetivo desta pesquisa é analisar como a água potencializa o local, e como o mito da água se materializa através da instituição religiosa, mas, a igreja não é o principal atrativo da comunidade ela é simbólica, utilizada somente na época da Festa de Nossa Senhora Aparecida, quando os devotos através da peregrinação cumprem com os rituais religiosos.

A noção da água como fonte primordial da vida é considerada universal. Na maioria das religiões, a água é a “prima-matéria”. A água é a expressão imanente do transcendente, é uma hierofaniai, a manifestação do sagrado, um modo de aparição de Deus. Mitos da água é uma discussão sobre a origem, o desenvolvimento e a finalidade última do ser espiritual. (PÁDUA, 2005)

Mas, durante as reflexões teóricas, percebemos que a água, possui várias dimensões simbólicas, materiais e imateriais. Desse modo, foi possível pensar a água na comunidade supracitada, como mito carregado de simbolismos e rituais religiosos, inerentes ao catolicismo, carregados de sacrifícios por meio das romarias praticadas pelos peregrinos do local e da região.

A descoberta desse povoado se deu em trabalhos de campo realizados pela equipe de pesquisadores do Laboratório de Geografia Cultural e Turismo, que tinha como objetivo, encontrar as comunidades tradicionais rurais, que estão cercadas pelas grandes usinas sucroenergéticas, a fim de compreender os seus modos de vida tradicionais, e como resistem em meio ao agronegócio canavieiro. Sendo assim, descobrimos a Comunidade Água Santa, por intermédio de informações de funcionários que trabalham no IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária).

No momento da pesquisa de campo (2010), percebemos que aquele local, era bem diferenciado das comunidades que já havíamos visitado, pois, existia ali, uma substância pura, representada pela água, que deu origem ao lugar, e consequentemente o potencializou.

Em seus estudos Bachelard (1998), afirma “que a água pura, a água-substância, a água em si possa tomar, aos olhos de certas imaginações, o lugar de uma matéria primordial.” No caso de Água Santa, a água é carregada de misticismo e simbolismos, sacralizados por meio dos rituais religiosos. Sendo assim, o ritual pode ser pensado através da festa de Nossa Senhora Aparecida, que ocorre na Comunidade Água Santa, e que atrai as pessoas não pela devoção propriamente dita, mas pelo mito da água, pelo milagre que proporciona as pessoas.

No entanto, os rituais religiosos praticados baseados no catolicismo, porém, são constituídos por um misticismo que se professa através de outros credos, que fazem com que o milagre alcançando através da água, tenha grande repercussão local e regional. Segundo Castilho (2010) “o ser humano religioso sente necessidade de viver num espaço sagrado e conviver com coisas sagradas, por isso constrói lugares e coloca objetos que sacraliza, ou seja, que reveste de sentimento religioso.”

Desse modo, o que atrai as pessoas a Comunidade Água Santa é a fé no milagre da água, que antecede os rituais religiosos. O que permite ressaltar que mesmo que os rituais religiosos não aconteçam conforme os preceitos do catolicismo, o mito da água prevalece na comunidade, devido às crenças e tradições populares.

Para a realização do trabalho, foi necessário buscar um referencial teórico conceitual, relacionado ao mito, bem como, vinculados a rituais religiosos sagrados e suas representações simbólicas. A metodologia empregada para a análise da problemática do mito da água baseou-se em literaturas interdisciplinares, com o objetivo de fomentar a discussão teórica do trabalho. O procedimento adotado consistiu em uma pesquisa participante, e durante o momento em que estivemos na comunidade, percebemos uma pequena movimentação de pessoas no local, que são os romeiros que vão à busca da água, para atrair milagres. Além disso, buscamos vídeos na internet, que tratam sobre a peregrinação dos romeiros em Água Santa, na época da festa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira da comunidade.

Foram realizados alguns registros fotográficos, seguidos por observação das principais paisagens que compõe o principal cenário histórico cultural da comunidade. Posteriormente, nos aproximamos dos sujeitos e mantivemos diálogos informais, para entender sobre o mito da água, e sua ligação com os rituais religiosos.

No entanto, não há registro documental sobre a Comunidade Água Santa, a maioria dos dados colhidos, é proveniente das histórias contadas pelos sujeitos, durante o momento da visita de campo.

O topônimo que nomeia a comunidade possui uma importância histórica e cultural para o povo do lugar, pois, afirma que houve um milagre através da cura pela água, o que potencializou o lugar. Desse modo, ocorrem várias manifestações de fé, que se materializa a partir do mito da água.



Mapa 1: Localização do município de Frutal-MG



Fonte: Geominas, 2012. Organizado por: COSTA, R.S. 2012.

Segundo a população local, já ocorreram vários milagres ali, e também tem a argila, popularmente conhecido como “barro santo” que é extraído do pequeno curso d’água. Durante os estudos de campo, percebemos que esse pequeno curso d’água, trata-se de uma nascente de um afluente do Rio Grande, que corta a Comunidade Água Santa, (Ver foto1).



Foto 1: Pequeno curso d’água na Comunidade Água Santa, de onde nasce a água que dá nome ao local


Fonte: SANTOS, R.J, 2010.


A paisagem em Água Santa suscita diferentes interpretações, pois, a nascente que supostamente brota uma água que atrai milagres e curas às pessoas, enfrenta problemas ambientais. Como podemos observar na (Ver Foto 2), deixa bem evidente a crítica situação da cabeceira da nascente, onde a vegetação e o solo estão bem degradados, devido à grande movimentação de pessoas na área, que vão à busca da água e também da argila ou “barro santo”, como é definido pelos fiéis que frequentam a comunidade.


Foto 2: Descarte de objetos pessoais de peregrinos que receberam milagres, em

área verde, próximo à nascente de água da Comunidade Água Santa



Fonte: COSTA, R. S.2010.

Durante a visita de campo, também percebemos a quantidade de resíduos deixados pelos fiéis, no ato da peregrinação, ao receberem as curas e milagres, tais como: gessos, talas, faixas de curativos, muletas, peças de roupas e objetos religiosos.

Assim, cada coletividade integra-se em torno dos mesmos valores, crenças, símbolos, mitos e ritos, impregnando de espírito e comportamento religioso as relações sociais e consagrando espaços. (CASTILHO, 2010).

Desse modo, notamos que o mito da água potencializa o lugar, mas, também causa grandes problemas ambientais, que passam despercebidos pela população da comunidade e pelos fiéis, devido à falta de informação quanto às leis ambientais de preservação das áreas verdes e cabeceiras das nascentes e cursos d’água.



2 AS DIFERENTES CONCEPÇÕES DE “MITO”
De acordo com definições do dicionário Michaelis o mito pode ser interpretado como fábula que relata a história dos deuses, semideuses e heróis da antiguidade pagã; tradição que, sob forma alegórica, deixa entrever um fato natural, histórico ou filosófico; exposição simbólica de um fato; coisa inacreditável; enigma; utopia; pessoa ou coisa incompreensível.

Para Ruthven (1997), “os mitos são imunes à explicação racional, mas estimulam as pesquisas racionais”, pois, existe uma série de antagonismos com relação às interpretações que se fazem desse conceito, e nenhum deles possui uma explicação concreta sobre o mito.

Desse modo, a mitologia é parte de uma área que abarca diversos conhecimentos e disciplinas, bem como, os clássicos, a antropologia, o folclore, o contexto histórico das religiões, as crenças, as lendas, a lingüística, a psicologia, a filosofia e a história da arte.

Sendo assim, percebemos durante a nossa investigação em Água Santa, que o mito é carregado de crenças e de práticas religiosas consideradas tradicionais na maioria das comunidades rurais, que foram visitadas durante o período de pesquisa no cerrado do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba.

Trata-se de heranças culturais que foram (re) significadas ao longo dos anos, e que não se pode definir de maneira concreta, que o “mito da água”, possa ser somente de caráter religioso, uma vez, que essa água também nos revela outras lógicas que associam o lugar como um atrativo turístico ou simplesmente essa água desperta curiosidades por parte do público que não possui ligação com a religião.

Estudos de Eliade (2001), mostram que em algumas religiões, os mitos constroem uma estrutura doutrinal e está rigorosamente ligado aos rituais religiosos, o que fez com que certos autores considerassem a origem e a função dos mitos, como explicação dos rituais religiosos.

Porém, essa hipótese não foi aceita em nível global, por não esclarecer de maneira precisa a formação dos rituais, pois, existem mitos que não correspondem a um ritual. No entanto, o mito pode ser considerado uma linguagem apropriada para a religião. Isso não significa que a religião, tampouco o mito, aponte um fato que não seja verdadeiro, mas que ambos traduzem numa linguagem plástica (isto é, em descrições e narrações) uma realidade que transcende o senso comum e a racionalidade humana e que, portanto, não cabem meros conceitos analíticos. Religião e mito são divergentes não como a verdade ou falsidade daquilo que narram, mas quanto ao tipo de mensagem que transmitem.

Ainda neste contexto, na maioria das vezes a mensagem religiosa exige que se tenha certo comportamento perante Deus, o sagrado e os homens, e é, geralmente, formulada de uma maneira compatível com conceitos racionais e doutrinas sistematizadas. O mito abrange maior amplitude de mensagens, desde hipóteses antropológicas, até mesmo, conteúdos religiosos, pré-científicos, tribais, folclóricos ou simplesmente anedóticos, que são aceitos e formulados de modo menos consciente e deliberado, mais espontâneo, sem apontamentos críticos.

A definição de mito na visão de (CSIKSZENTMIHALYI 1998), “em parte se difere das concepções supracitadas, e nos mostra que o mito pode ser considerado uma forma de superação, movida pela espiritualidade, que se encontra nas crenças e nas manifestações de fé”.

Pensando na realidade de Água Santa, o ato dos devotos de peregrinarem até o local, onde se encontra o manancial de água, pode ser considerado um ato de sacrifício com o objetivo de alcançar os milagres e as bênçãos por meio do ato de fé, que se materializa não só através do mito, como também na religião. Existem símbolos que fortalecem esse misticismo religioso, tais como a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que supostamente protege a fonte de água visitada pelos fiéis, o cruzeiro onde são realizados os pedidos e as promessas dos romeiros são cumpridas.

De acordo com estudo de Campbell, (2001) “asseguram que o mito aparece e funciona como mediação simbólica entre o sagrado e o profano, condição necessária a ordem do mundo e as relações entre os seres”. As semelhanças com a religião mostram que o mito se refere ao menos em seus níveis mais profundos, a temas e interesses que transcendem a experiência imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e o mal. Crê-se no mito, sem necessidade ou possibilidade de demonstração. Rejeitado ou questionado, o mito se converte em fábula ou ficção.

No entanto, o caso de Água Santa, não é tratado como fábula ou tão pouco como ficção, pois, ali existem pessoas que dizem ter recebido o milagre através da água onde fora encontrada a imagem de Nossa Aparecida, que supostamente atraiu o primeiro milagre no local. Porém, esse mito da água é passível de dúvidas e questionamentos, pois, nem todas as pessoas compreendem essa realidade da mesma maneira que os fiéis, mas não deixam de se impressionar com o fato de existir uma comunidade rural no cerrado do Triângulo Mineiro, com uma manifestação cultural tão diferenciada.



2.1. Os símbolos do sagrado e o milagre da água

Água Santa é um povoado, do município de Frutal/MG, que tem como conhecimento muitos milagres e curas, por ter água santa e barro santo, muitos romeiros vão direto na igreja de Nossa Senhora Aparecida, desde muito tempo. Nas festas de 13 de maio e dia das mães, dias 7, 8 de setembro e 12 de outubro são milhares de fieis seguidores de minha mãe Nossa Senhora, e com muita fé muita festa e alegria pelas curas e milagres recebidos. Venha conhecer Água Santa, que Nossa Senhora Aparecida lhe abençoe junto à família muita paz, saúde e alegria. Venha já.ii

Antes da comunidade Água Santa, ser fundada a área era delimitada como Fazenda Três Barras, cuja proprietária é a protetora do local.

Desse modo, a partir do diálogo estabelecido com a misteriosa beata, recebemos informações de que ela havia encontrado uma imagem de Nossa Senhora Aparecida nesse curso d’água, o que fez com que se tornasse devota da santa, devido o milagre ocorrido, com o seu aparecimento.

Vejamos o conteúdo da seguinte fala:

Eu tomo conta da comunidade desde quando minha mãe morreu, e deixou a fazenda de herança pra mim. Tem mais de trinta anos, eu sou nascida e me criei aqui. Eu que recebi o primeiro milagre da água, por isso, coloquei o nome do povoado de Água Santa, que antes chamava Fazenda Três Barras.

Teve um dia que eu tava andando lá perto de onde a água nasce, e achei uma medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, daí eu peguei a pequena imagem, de repente, apareceu a Nossa Senhora toda iluminada com seu manto azul. Eu vi um milagre acontecer naquela hora, uma coisa muito bonita que eu nunca tinha visto. Então levei minha mãe que estava muito doente, naquela água onde a Santa apareceu pra ela jogar um pouco da água no seu corpo para curar a enfermidade que estava sentindo. E ela recebeu o milagre... A partir desse dia a notícia do milagre esparramou pelo povoado, e quando é fé, foi alastrando pra toda cidade de Frutal, e depois foi chegando na região... Então eu resolvi construir uma capelinha, pra agradecer o milagre que minha mãe tinha recebido... porque as noticia dos milagre estava correndo, então precisava erguer a igreja, para receber as peregrinação das pessoa, que vinha em romaria para receber o milagre com a água santa. Essa água curou muitas pessoas, principalmente aqueles de cadeira de roda, muleta, perna engessada, enfermos com lepras no corpo, e muitas outras coisas.iii
A cura pela água, em seu princípio imaginário, pode ser considerada do duplo ponto de vista da imaginação material e da imaginação dinâmica. Para o primeiro ponto de vista, o tema é tão claro que basta enunciá-lo: atribuem-se à água virtudes que são antitéticas dos males do doente. O homem projeta o seu desejo de curar e sonha com a substância compassiva. (BACHELARD, 1998). Nota-se que água é mais que uma substância ou um dos mais ricos recursos naturais, pois, é dotada de simbolismos e significados, principalmente no campo religioso, e suscita várias interpretações e diferentes usos.

Desse modo, o comportamento religioso é direcionado pelo imaginário intuitivo e pelo sentimento religioso e emocional, revelando-se como sagrado, sob formas materiais e imateriais no contexto da territorialidade. (CASTILHO, 2010)



Sendo assim, o sagrado no contexto de Água Santa, no primeiro momento, constitui-se de imaterialidade, onde a cura pela água transcende o plano material, alcançando o universo espiritual. Em um segundo momento, na ocasião da Festa de Nossa Senhora Aparecida, há uma inserção de caráter material, que é dada pela lógica comercial que é inserida no local, visando atrair várias pessoas ao local, onde alguns são fiéis fervorosos e o restante dos visitantes são consumidores da festa, sem terem nenhum vínculo com o lugar e tão pouco com as tradições religiosas e místicas.

De acordo com informações de devotos, a capela de Água Santa foi construída pelo público de devotos de Nossa Senhora Aparecida e teve como fundadora a guardiã da comunidade, proprietária da Fazenda Três Barras.

Então depois da capelinha construída, passou a acontecer as missas, em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, para receber os romeiros, que acreditava nos milagres da água. Mas, todo ano, tem uma festona no dia da padroeira, dia 12 de outubro, e vem pessoas de muitos lugares para receber a benção da santa, buscar milagre na água. O povo da comunidade monta barraquinha, para vender imagens da padroeira e outros artigos religiosos. E tem também, barraquinha que vende comida, bebida e artesanato, além da área de acampamento que é cobrada uma taxa para as pessoas colocar suas barracas e isso traz um movimento grande em Água Santa.iv
Nesse sentido, percebemos através da fala da guardiã do local, que existem algumas contradições que se fazem presentes na comunidade na época da Festa de Nossa Senhora Aparecida, onde acontece uma disputa socioespacial, onde o lugar sagrado sofre influências do profano, através da comercialização de bebidas, comida, e possuem as taxas cobradas ao pessoal de regiões mais afastadas que acampam no local. Desse modo, o profano se fixa e não consegue mais se desvincular do sagrado na época da festa. Em dias de pouca movimentação, ocorre o comércio local, com vendas de artigos religiosos e produtos de primeira necessidade tais como: alimentos, produtos de limpeza e higiene pessoal.

No local também tem uma crença na argila que é retirada às margens do pequeno curso d’água, popularmente conhecido como o “barro santo”, que também pode curar algumas enfermidades, e supostamente é um “santo remédio” para a pele.

Porém, com todos esses mitos criados no local, que potencializa a comunidade é a fonte da água cristalina, que jorra dia e noite, (Ver Foto 3), que atrai pessoas do município de Frutal e do Pontal do Triângulo Mineiro, bem como, do estado de São Paulo.


Foto 3: Fonte de água canalizada, onde os devotos de Nossa Senhora Aparecida, praticam os seus rituais de purificação e recebem milagres



Fonte: SANTOS, R.J.2010.
Na paisagem é possível encontrar vários elementos que foram sendo adaptados pelos próprios moradores do local, vejamos a fonte água, ela foi canalizada e foi cercada por correntes, a fim de preservar o santuário que existe sobre o local. Essa atitude adotada pelas pessoas que residem na comunidade é uma forma de demonstrar os vínculos afetivos que possuem com o lugar, por meio das territorialidades que vão se formando ao longo dos anos desde que Água Santa foi fundada.

Isso nos mostra que as heranças culturais foram passando através das gerações, como exemplo têm a guardiã do lugar, que vive no lugar á vários anos, e não deixa que os modos de vida e as velhas tradições religiosas se tornem obsoletos, mesmo em uma época moderna, onde os costumes sofreram mutações. Dessa maneira percebemos que os valores não se perderam, pelo contrário, foram potencializados, no primeiro instante através da água santa, e também pode ser considerado como atrativo por meio do turismo religioso.

A romaria da Água Santa é realizada todo dia 12 de outubro de cada ano. Milhares de romeiros de várias partes do local, da região e do país, peregrinam até a comunidade, movidos pela fé na água milagrosa. A comunidade fica a 25 quilômetros da área urbana de Frutal. O trajeto é feito a pé, leva de quatro a cinco horas. Eu já fui oito vezes...v
Na época da festa ocorre uma movimentação maior em Água Santa, pois, existe uma quantidade significativa de romeiros que peregrinam até o local, para receberem milagres, muitas vezes impossíveis de serem alcançados, e que através da propagação de sua fé, participam do ritual, onde carregam litros de água até o altar de Nossa Senhora, e esperam receber grandes curas para suas vidas bem como para suas famílias e amigos.

De acordo com Castilho, (2010):

No contexto das peregrinações coletivas encontra-se a romaria que é uma peregrinação religiosa feita por um grupo de pessoas a uma igreja ou local considerado santo, seja para pagar promessas, agradecer ou pedir graças, ou simplesmente por devoção, podendo ser feita a pé ou em veículos. O nome do termo é uma referência a Roma, sede da Igreja Católica Apostólica Romana, e por esse motivo é usada para classificar especialmente peregrinações católicas. Aquele que pratica a romaria é o romeiro. (CASTILHO, 2010, p.54)
Nota-se através desse movimento que a fé, é um exemplo de superação, onde as pessoas caminham longos quilômetros para alcançar a graça, ou até mesmo, só para terem contato com a fonte que jorra água, que também tem a função de purificar o ambiente e a alma por meio da aspersão, ou da imersão.

Uma das características que devemos aproximar do sonho da purificação sugerido pela água límpida é o sonho de renovação sugerido por uma água fresca. Mergulha-se na água para renascer renovado. (BACHELARD, 1998)

Sendo assim, verificamos que os peregrinos parecem sair do local, completamente renovadas no que diz respeito ao espiritual, pois, a água se torna um símbolo de (re) significação, nesse caso religiosa, por meio dos diferentes usos que são atribuídos a essa substância que num primeiro momento, é tratada como um recurso natural e que sumariamente é potencializada através de um mito, que se fundamenta através de um ritual religioso.

Para o homem religioso, a manifestação do sagrado pode estar contida num objeto, pessoa e em lugares e a natureza está sempre carregada de um valor sagrado. A palavra sagrado por si só - é um conceito religioso. (CASTILHO, 2010)

No contexto de Água Santa, podemos notar que o sagrado se faz presente em um elemento natural que é a água, utilizada por diferentes religiões é também um grande recurso pesquisado pela ciência. Além disso, o lugar se caracteriza como sagrado através da aparição e consagração de Nossa Senhora Aparecida, considerada um símbolo de ligação entre a igreja e o mito.
3 ENTRE O COSTUME E A TRADIÇÃO, O SEGREDO DA FÉ
Durante o momento da pesquisa, percebemos que a senhora que se diz guardiã da Comunidade Água Santa, é uma beata, que usa trajes longos desgastados com o tempo, com os pés descalços e cabelos longos enrolados por um grande coque na cabeça, e também é conhecedora da religião católica, e em certos momentos diz-se uma profetisa, e alguns peregrinos tocam no vestido dela, arrancam pequenos fiapos de sua roupa, alegando receberem o milagre.

Para Macedo e Maestri, (2004):

Ser beato ou conselheiro era também uma forma de subsistir, de inserir-se na comunidade, de construir uma vida, de ascender socialmente. Na passagem do século, os membros desse clero laico participavam – direta e indiretamente – da orientação social, política e ideológica da massa sertaneja nordestina. (MACEDO, J. MAESTRI, M.2004, p.25)

O exemplo disso tem a figura de Antônio Conselheiro, a quem comparamos a beata pela verossimilhança com esse personagem que constituiu uma das grandes histórias do sertão nordestino no Brasil, no final do período regencial. Porém, ele era um homem alfabetizado e lutava para defender os direitos do povo sofrido e castigado pelas grandes secas, mas tinha, em sua caminhada um objetivo de cunho religioso, onde proferia algumas profecias aquele povo, e também tinha uma imensa fé em Deus, e no sobrenatural, que era uma forma de amenizar os problemas de lutar a favor da reestruturação do campesinato baiano, sem negar os princípios religiosos.

E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apóia o passo tardo dos peregrinos. (CUNHA, 1984)

Foi considerado como louco, e sem domínio das suas faculdades mentais, onde enfrentou situações complexas no sertão nos finais do século XIX. Enquanto a beata de Água Santa, o principal sujeito de nossa pesquisa, é analfabeta, não tem predestinação política, mas, se comporta como uma líder religiosa, mas possui um detalhe importante, que é a fé, que sustenta um discurso baseado no mito religioso, da água santa, e da aparição de Nossa Senhora Aparecida. Além disso, se diz ser protetora do lugar, a fim de manterem vivas as tradições. E certos momentos, ela também é interpretada como uma louca, devido seu comportamento arredio no primeiro contato com as pessoas.

Além disso, percebemos que a beata possui um grande vínculo afetivo com o lugar, o que fez com que se tornasse guardiã da comunidade, bem como, os sujeitos que ali vivem.

Para Carlos (1995):

O lugar é produto das relações humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que se realizam no plano do vivido o que garante a construção de uma rede de significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura civilizadora produzindo a identidade, posto que é aí que o homem se reconhece porque é o lugar da vida. O sujeito pertence ao lugar como este a ele, pois a produção do lugar liga-se indissociavelmente a produção da vida. (CARLOS, 1995. p.19)
Entretanto, os moradores de Água Santa foram estabelecendo as relações sociais, que se fortalecem através das territorialidades, que se formam através das crenças, do misticismo e da fé, que são importantes elementos comuns aos sujeitos do local.

Para Thompson (2005) “os costumes, ritos e crenças são preservados pela tradição”, neste caso, representados pela Festa, que ocorre na comunidade, em doze de outubro e da peregrinação dos fiéis em busca de milagres e curas pela água, sacralizadas pelos rituais religiosos.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
No primeiro instante em que nos propomos o tema sobre a “água santa”, pensamos em estudar sobre o mito da água, que envolve as tradições, as crenças e a fé, que foram construídos ao longo dos anos, baseados em um contexto histórico e cultural, do tempo pretérito ao presente, ou seja, em tempos de Fazenda Três Barras à Comunidade ou Povoado de Água Santa.

O que me levou, a elaborar este trabalho, foi às discussões travadas em sala de aula, que traziam abordagens sobre “a Geopoética das águas”, aonde me veio à memória, uma incrível situação vivenciada no cerrado do Triângulo Mineiro, durante a realização dos trabalhos de campo, juntamente com o orientador de pesquisa e a equipe do Laboratório de Geografia Cultural.

Dessa maneira, a água foi trabalhada enquanto mito, que se materializa através do religioso, porém, a realidade vivenciada na comunidade, não passa somente pela lógica do mito, pois, está intimamente ligada a espiritualidade, propagada através das tradições, das crenças e da fé.

Cabe destacar os simbolismos religiosos, que também fazem parte dessa realidade, que é a presença do sagrado, representado pela figura de Nossa Senhora Aparecida, através do ato de devoção dos fiéis que acreditam que o milagre da “água santa”, surgiu em função da aparição da santa com seu manto iluminado, o que consagrou a comunidade, e fez repercutir no local, na região do Triângulo Mineiro e interior de São Paulo, de onde partem grande parte dos romeiros que peregrinam em busca de milagres, e também procuram cumprir suas promessas e penitências.

Além disso, tal realidade nos apresenta uma líder religiosa, que guarda a comunidade e que controla toda a movimentação de visitantes no local, uma beata que diz ter ligações com o plano espiritual, e também aparece como uma importante personagem mística, que também pode estar inserida na lógica do milagre.

Em linhas gerais, esse trabalho contribuiu, para entender uma realidade cultural, aplicada ao mito, que se relaciona ao simbolismo religioso e a elementos naturais, que compõem as crenças que se relacionam com o sagrado, e que é dotado de mistérios difíceis de serem decifrados, mas que trago aqui uma pequena análise sobre determinada realidade.


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PEREIRA, Cláudio Smalley, S. Fé e identidade sacra: o espaço sagrado de Juazeiro do Norte/CE. In: Revista Eletrônica de Geografia: Observatorium, v.1, n.3, p.38-50, dez.2009. Disponível em: http://www.observatorium.ig.ufu.br/pdfs/1edicao/n3/Fe_e_identidade_sacra_no_espaco_sagrado_Juazeiro_do_Norte_CE.pdf. Acessado em: julho de 2012.



THOMPSON, E.P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

i Aparição ou revelação do sagrado.

ii Fala de um romeiro e devoto de Nossa Senhora Aparecida, uma breve ilustração sobre a Comunidade Água Santa, localizada na área rural do município de Frutal- MG. Conforme conteúdo de um vídeo que trata sobre a Festa de Nossa Senhora Aparecida.

iii Relato da beata, guardiã da Comunidade Água Santa. Conforme trabalho de campo realizado em outubro de 2010, na área rural do município de Frutal- MG.

iv Relato da beata, guardiã da Comunidade Água Santa. Conforme trabalho de campo realizado em outubro de 2010, na área rural do município de Frutal- MG.

v Relato de um devoto de Nossa Senhora Aparecida, que afirma ter recebido o milagre da água santa. Conforme os dados obtidos em vídeos sobre a Festa em Louvor a Nossa Senhora Aparecida na Comunidade Água Santa, na área rural do município de Frutal- MG.


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