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Edição X, volume 1, artigo nº X, Mês/Mês 2014






RESENTAÇÕES DE BRASIL NAS CANÇÕES DO ROCK DOS ANOS 80
Lívia Badaró Fabricio1

Mestre em Sociologia Política pela Universidade Estadual Norte Fluminense



Resumo

O presente artigo aborda representações de Brasil identificadas em canções do rock dos anos 80. O objetivo é identificar como o Brasil estava sendo representado pelos jovens roqueiros da década de 1980 para assim compreender peculiaridades dessa geração, bem como da situação sócio-político-cultural da época. A pesquisa se deu através de análises de letras de música que foram contextualizadas e comparadas com acontecimentos do mesmo período e com a configuração política da época. As letras analisadas revelam um cenário urbano e violento, um país conturbado de miseráveis em amplo sentido, em que jovens desejavam retratar, expor sua situação. O Brasil foi retratado em suas mazelas, por muitas vezes em tons tristes, mas repetidamente com o desejo de promover melhorias futuras.


Palavras-chave: Rock, jovens, Anos 80 no Brasil.
Abstract

This paper discusses representations of Brazil identified in rock songs of the 80s The goal is to identify how Brazil was being represented by the young rockers of the 1980s to well understand the peculiarities of this generation, as well as the socio-political and cultural situation time. A search was made through analysis of song lyrics which were contextualised and compared with the same period events and political setting of the time. The letters reveal a city analyzed and violent scenario, a troubled country miserable in a broad sense, they wanted to portray young people, exposing their situation. Brazil was portrayed in their ailments, many times in sad tones, but repeatedly with the desire to promote future improvements.


Keywords: Rock; Young people; 80 in Brazil.

Introdução

O presente artigo pretende analisar algumas letras do rock dos anos 80 e buscar compreender que representações de Brasil que essas canções transmitiam ou transmitem. Acredito, que as canções podem ser tomadas como um retrato parcial, como indica Becker (2013), da realidade social. Elas são uma forma de representação.

Selecionei para essa breve análise canções de duas bandas que fizeram muito sucesso na época e têm um vasto acervo de músicas que fazem referência à situação sociopolítica da época: Legião Urbana e Titãs.

Cabe salientar, como afirmou Becker (2013) que representações são necessariamente parciais. “(...) é menos do que experimentaríamos e teríamos à nossa disposição para interpretar se estivéssemos no contexto real que ela representa. Elas excluem elementos da realidade” (p. 34). São relatos, passiveis de interpretação e análise, mas nunca serão um retrato exato e fiel do que ocorreu. As canções são pensadas aqui dessa forma, como relatos sobre a sociedade que são passíveis de analise e interpretação, relatos que ajudam a pensar a sociedade da época.


1. Desenvolvimento

As bandas Legião Urbana e Titãs, registraram suas vivências de um processo de transição política. Registraram também as consequentes mudanças no comportamento, na vida, na maneira de ser. Como indica ROCHEDO (2011) além da transição de regime de governo o país passava por uma agitação no comportamento das pessoas que passaram a discutir mais abertamente assuntos como sexualidade, homossexualidade, o papel da mulher na sociedade, etc. Todas essas questões foram cantadas pelo rock dos anos 80.

Na década de 1980 a Legião Urbana lançou quatro álbuns: Legião Urbana (1985), Dois (1986), Que país é este (1987) e As Quatro Estações (1989). Os Titãs lançaram seis álbuns: Titãs (1984), Televisão (1985), Cabeça Dinossauro (1986), Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987), Go Back (1988) e Õ Blesq Blom (1989).

Ao todo as duas bandas lançaram 104 músicas inéditas na década de 1980. Todas foram consideradas, lidas, ouvidas intensamente, mas aqui precisei selecionar algumas apenas. No geral as temáticas recorrentes são temas típicos da juventude: amor, sexo, homossexualidade, dinheiro, drogas, sociedade, etc. Nos documentários lançados, os integrantes das bandas já adiantam uma percepção afirmando que suas canções eram nada mais que suas vivencias, e que a maioria era de cunho político, mesmo que indiretas, com metáforas, eram expressões do que sentiam pela situação sócio-política do Brasil2.

Para facilitar e organizar minha seleção elenquei alguns termos-chave que pudessem me levar a letras que tratassem dos temas essenciais que ajudassem compreender se e como essas canções ajudam no entendimento da situação do país na época mencionada.

Para começar a pensar sobre as canções selecionadas foi preciso inserí-las no contexto dos anos 80. Nessa década houve uma proliferação de bandas de rock formadas por jovens. O cenário musical estava em efervescência com o surgimento e sucesso de muitas bandas de rock. E toda essa efervescência surgia no contexto político-social da ditadura militar. O processo de abertura política do final dos anos 70 permitiu um certo abrandamento da censura que possibilitou que jovens se manifestassem em grande escala (ORTIZ, 2003).

Alguns dos termos que elenquei foram: imagem/retrato, cotidiano/cidade/rua, Brasil/país/nação, jovens/juventude. Esses termos poderiam me ajudar a responder questões como: “Havia a noção de representação do Brasil?; “O que significava o Brasil para eles?”; “Havia um sentimento de nação/pertencimento a uma nação?”; “Qual era o ambiente em que viviam esses jovens?”; “O que significava ser jovem para eles?”... Eis algumas reflexões/percepções que alcancei:
Imagem/retrato
Esses termos são recorrentes, e as canções no geral me ajudam a “visualizar uma imagem”, em outras palavras, reconhecer o que os músicos queriam que seus ouvintes enxergassem/entendessem. Algumas canções que destaco a seguir me ajudaram a tentar entender o questionamento: “Havia a noção de representação do Brasil?”

Nessa temática a canção que mais de destacou para mim foi “Mais do mesmo” de 1987, da banda Legião Urbana. Essa canção fala diretamente sobre representação do Brasil, no caso usa o termo “retrato do país”. A canção não diz: o retrato do país é esse ou aquele, as informações nunca estão diretas e ordenadas, por isso há a necessidade de ir e voltar várias vezes por toda a letra, pensá-la de acordo com o contexto, buscar informações extras, pensar nas entrelinhas, etc.

Por toda sua letra essa canção fala diretamente de problemas graves pelo qual país passava na época, e esses problemas pareciam fazer a representação do país tão ruim, que nem daria para se retratar.

A canção brinca com a questão de retratar o país ao dizer: “Agora você quer um retrato do país, mas queimaram o filme” (LEGIÃO URBANA, 1987). Essa canção destaca problemas que foram gerados e/ou muito agravados pelo regime militar como o caos da saúde, violência, drogas e favelas. O retrato do país estava realmente queimado (como diria expressão da época), no entanto os músicos não deixaram de divulgá-lo, pelo contrário, retrataram em inúmeras canções a situação brasileira e esses “retratos” hoje formam um vasto acervo para estudos dessa época. Eis a letra completa:


Mais do Mesmo (LEGIÃO URBANA, 1989)

Ei menino branco o que é que você faz aqui


Subindo o morro pra tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz?

Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim


E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente?

Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel.


Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?

Bondade sua me explicar com tanta determinação


Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando sucessos populares.
(e todos os índios foram mortos).
A música revela vários problemas que a sociedade brasileira dos anos 80 enfrentava. Primeiro o preconceito racial, ao falar que o menino branco não deveria estar subindo a favela, já que lá é lugar de negros. A favela é o lugar excluído da cidade para viver os excluídos, pobres e negros. O menino branco da canção parece representar os jovens (brancos) de classe média, que mesmo vivendo longe das favelas iam lá em busca de drogas, outro grande problema que se alastrava na época. Ao falar dos vinte anos desperdiçados pode-se remeter a idade do jovem que canta, querendo dizer que sua vida toda foi desperdiçada pelas drogas. Esses vinte anos também podem ser entendido pelo período em que o Brasil passava pelo regime militar. Eram cerca de vinte anos também desperdiçados, dos quais nenhum foi feito para a população, nada cresceu de bom, sempre acontecia mais do mesmo, no caso nenhum benefício ao povo. A “fila dos doentes” remete à saúde que estava em caos, as “chacinas de adolescentes” revelam a forte violência presente no cotidiano das pessoas. O jovem que canta diz não saber direito o que pensar e sentir e não enxerga nenhuma luz no fim do túnel, ou seja, nenhuma esperança de melhoria. Ao final da canção diz em tom de ironia que “todos os doentes estão cantando sucessos populares”. As pessoas não tinham acesso à saúde, mas se distraíam com as músicas que faziam sucesso na época. Era um alento que as pessoas tinham.
Cotidiano/cidade/rua
Um grande interesse que tive foi encontrar canções que tratassem diretamente da vida cotidiana, para entender o cenário em que vivia esses músicos. Observei uma grande recorrência de canções que retratam um cotidiano que evidencia uma vida na cidade, uma vida urbana. No caso das bandas escolhidas para essa análise, elas retrataram muito dos locais de onde surgiram, de onde viviam, no caso da Legião Urbana seria Brasília e Titãs seria São Paulo. Em documentários lançados, os integrantes da banda relataram muito essa questão, de que expunham em suas canções o que vivenciavam nas suas cidades3. Renato Russo afirmou (ASSAD, 2000): “Eu só consigo falar do que eu sinto e do que eu vejo, não tenho muita imaginação para inventar” (ASSAD, 2000: 98). E nesse caso eram duas cidades urbanas com contextos ou problemas sociais similares, como violência, repressão, desigualdade social.

Uma canção que se destacou para me ajudar entender qual era o ambiente em que viviam esses jovens foi “Violência” (TITÃS, 1987). Como o próprio título indica, essa música fala da grande violência presente nas ruas, por todo lado, em todo momento e causada por todos. Eis a letra:


Violência (TITÃS, 1987)
O movimento começou, o lixo fede nas calçadas.
Todo mundo circulando, as avenidas congestionadas.
O dia terminou, a violência continua.
Todo mundo provocando todo mundo nas ruas.
A violência está em todo lugar.
Não é por causa do álcool,
Nem é por causa das drogas.
A violência é nossa vizinha,
Não é só por culpa sua,
Nem é só por culpa minha.
Violência gera violência.
Violência doméstica, violência cotidiana,
São gemidos de dor, todo mundo se engana...
Você não tem o que fazer, saia pra rua,
Pra quebrar minha cabeça ou pra que quebrem a sua.
Violência gera violência.
Com os amigos que tenho não preciso inimigos.
Aí fora ninguém fala comigo.
Será que tudo está podre, será que todos estão vazios?
Não existe razão, nem existem motivos.
Não adianta suplicar porque ninguém responde,
Não adianta implorar, todo mundo se esconde.
É difícil acreditar que somos nós os culpados,
É mais fácil culpar deus ou então o diabo.
A letra fala de uma violência generalizada, das ruas e do próprio governo contra o povo. No verso “não adianta suplicar por que ninguém responde” remete ao governo que não atendia às necessidades da população, no caso promover melhores condições de segurança. Aliás, no período ditatorial que influenciou essas letras o governo usava de violência contra as pessoas, era o governo o principal promotor da violência. Além disso, as péssimas condições sociais não controladas e pioradas pelo governo também fazem a violência surgir e se espalhar. Quando falam que as pessoas não têm o que fazer é porque o desemprego estava em altas taxa, jovens estavam sem escolas/universidades, também não havia incentivo a opções de lazer. As pessoas sem ter o que fazer, sem ter perspectivas, vão para as ruas abusam de álcool e drogas e acabam gerando mais violência.
Brasil/país/nação
Brasil, país, nação, governo, Estado, são termos muito recorrentes nas canções analisadas. Muitas delas me ajudaram na busca de compreender o que significava o Brasil para eles, ou que eles percebiam do Brasil.

Com o termo nação me destacou a “Geração coca-cola” (LEGIÃO URBANA, 1985) composta por Renato Russo. Essa canção critica à americanização do Brasil. A letra denuncia a aversão dos jovens ao exagero da influência norte americana. Remetem à falta de opção ao acesso a uma cultura genuinamente brasileira, tudo era trazido da indústria americana, desde o que comer e beber até o que assistir e ouvir. Demonstram a revolta com essa situação nos versos “desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial” e apontam um movimento, rebelde e agressivo, pela busca de mudança nos versos “mas agora chegou nossa vez, vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”. Dado Villa-Lobos afirmou que “Quando cantávamos Geração Coca-cola era como se estivéssemos denunciando o imperialismo norte-americano” (ROCHEDO, 2011: p. 41)

É nessa canção que se auto-denominam “os filhos da revolução”. Esses jovem cresceram no hostil ambiente do regime ditatorial e foram enraizando desejo de revolução, de mudança. Demonstram um caráter “vingativo”, um sentimento negativo distante da esperança de se conquistar um futuro melhor. Esses jovens pareciam querer extravasar o que passaram, se diziam o futuro da nação. O futuro seria cuspir o lixo de volta, se vingar, visto que aprenderam as “manhas do jogo sujo” e que assim vão conseguir “derrubar reis”. Os longos anos de repressão provocaram um sentimento de raiva, porém mais que desilusão penso que esses jovens estavam querendo “gritar” que estavam atentos, se preparando para gerar mudanças, melhorias.
Geração Coca-Cola
Quando nascemos fomos programados

A receber o que vocês nos empurraram

Com os enlatados dos USA, de 9 às 6

Desde pequenos nós comemos lixo

Comercial e industrial

Mas agora chegou nossa vez

Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês.
Somos os filhos da revolução

Somos burgueses sem religião

Nós somos o futuro da nação

Geração Coca-cola


Depois de vinte anos na escola

Não é difícil aprender

Todas as manhas do seu jogo sujo

Não é assim que tem que ser?

Vamos fazer nosso dever de casa

E aí então, vocês vão ver

Suas crianças derrubando reis

Fazer comédia no cinema com as suas leis

A nação brasileira nessa década de 1980 era composta por jovens da chamada geração coca-cola, a geração crescida sob cultura, política e economia altamente influenciadas (e até ditadas) pelos americanos. Essa geração de jovens era “isso aí” (como diria o slogan da coca-cola na época), frutos dessa americanização, da desvalorização das coisas nacionais, da desvalorização do Brasil enquanto nação. Os reis a ser derrubados seriam os governantes que mandavam e desmandavam como se tivesse o poder absoluto que alguns monarcas tiveram outrora

O tema é muito recorrente destaco aqui brevemente outras citações relevantes: “Quero a minha nação soberana/Com espaço, nobreza e descanso4”; “Ninguém respeita a constituição/Mas todos acreditam no futuro da nação5”; “Mas que loucura essa nação!6” “Jesus não tem dentes no país dos banguelas7”. O Brasil era percebido e narrado como de miseráveis, governantes corruptos, onde não há respeito à constituição. Mais do que só expor as mazelas e recusar ao país penso que os jovens não perderam a identificação como brasileiros nem deixaram de acreditar que tempos melhores poderiam vir. O futuro era duvidoso, mas era muito almejado (aliás o termo futuro é quase tão recorrente como nação), esses jovens queriam uma nação soberana.


Jovens/juventude
Para tentar compreender o que significava ser jovens para eles, e/ou como eles percebiam o universo jovem destaco “Tempo Perdido” (Legião Urbana, 1986), composta por Renato Russo. A letra não é direta em tratar das questões sociopolíticas, mas ajuda entender o universo jovem, os anseios que vivenciaram a década de 1980. Jovens que cresceram e viveram sob o regime ditatorial, que nunca experienciaram melhorias em sua sociedade e que pareciam não saber direito como seria seu futuro.

O jovem da canção diz ter todo o tempo do mundo e depois diz não ter tempo a perder. Jovens, por natureza, têm todo tempo do mundo, ou seja, uma vida inteira pela frente, mas mesmo assim não há de se perder tempo. Isso me remete ao tempo que vivenciaram, aos anos de repressão, de atraso brasileiro, que estes jovens consideram tempo perdido, tanto para eles como para o país.

Os jovens têm seu próprio tempo, seu próprio entendimento sobre as situações. E, para eles, suas ações têm muito valor, são fruto de um suor sagrado. A manhã está cinza, mas tem que se tentar ver o sol. Isso remete à situação brasileira que estava muito ruim, mas esses músicos falavam que não se deveria desanimar e sim buscar estratégias para melhorias. Esse mesmo jovem que pede ação se mostra frágil e inseguro ao pedir para deixarem as luzes acesas, mesmo não tendo medo do escuro. Todo alerta, toda atenção era necessária. Mesmo sem medo há cautela. A música chama o público a se atentar com as coisas da vida, com a situação por que passavam. Somos jovens porém temos que agir, valorizar nossas ações, não perder tempo, usar todo esse tempo do mundo que temos para melhorar, para lutar por uma sociedade melhor.
Tempo Perdido (LEGIÃO URBANA, 1986)
Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo.

Todos os dias antes de dormir,


Lembro e esqueço como foi o dia
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".

Nosso suor sagrado


É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem,
Selvagem;
Selvagem.

Veja o sol dessa manhã tão cinza


A tempestade que chega é da cor dos teus
Olhos: castanhos.
Então me abraça forte e,
Me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo,
Temos nosso próprio tempo.

Não tenho medo do escuro,


Mas deixe as luzes acesas agora,
O que foi escondido é o que se escondeu,
E o que foi prometido,
Ninguém prometeu.

Nem foi tempo perdido;


Somos tão jovens,
Tão jovens,
Tão jovens.

Acredito que as letras demonstram que ser jovem naquela época para os músicos analisados é agir, é se manifestar, é lutar por um futuro. É conhecer o jogo sujo do governo, e ir além denunciando, divulgando aos quatro cantos o que viam de errado. É lutar mesmo não sofrendo alguns problemas na pele. É clamar por mudanças pessoais, por uma ética pessoal. Mais que esperar ações do governo é agir. Os jovens retratados não são certinhos nem politicamente corretos, nem escondem isso. Eles se envolviam em confusões, usavam e abusavam de álcool e drogas e ao mesmo tempo pediam bom senso, dignidade e coragem para ser o futuro da nação, um futuro melhor para a nação.

Constatei que os termos apenas me ajudaram a organizar uma linha de pensamento, mas foi impossível ignorar as demais canções e considerando no geral as 104 letras percebi como todas essas canções me ajudam a responder minhas indagações. A canção é sempre fruto da sociedade, mesmo canções que não tratam da sociedade diretamente ajudam a compreendê-la.
2. Considerações Finais

Ressalvando o lado poético, o possível apelo comercial, o exagero típico de jovens, dentre outros elementos que podem relativizar o sentido da canção, constatei que as canções do rock dos anos 80, quando contextualizadas, ajudam entender peculiaridades deste período. Essas canções são uma narrativa musical, com acordes simples, letras ora diretas ora metafóricas, de fatos ocorridos na década de 1980.

Desde o início eu sabia que não encontraria respostas prontas e/ou definitivas para meus questionamentos, mas após as análises cheguei a constatações satisfatórias em relação a meus objetivos. Ao investigar cada questão me apareciam outras. No geral algumas constatações, complementando o que já expus, foram que havia sim uma noção de que se estavam retratando o país, eles desejavam retratar, desejavam mostrar a situação do país. O cenário em que viviam era urbano, violento, classe média, mas sem fechar os olhos aos menos favorecidos. Os jovens do rock dos anos 80 eram ativos, desejavam se manifestar, agir, tinham consciência do papel que poderiam assumir, de porta-vozes de uma geração. Havia um sentimento de pertencer a nação sim, por mais que o país estivesse sendo mal conduzido e tratando mal seus cidadãos ele não era negado, pelo contrário, percebi manifestações por ações que pudessem promover melhorias, por vontade de pertencer a um futuro nessa nação.
3. Referências

ALVES, L. C. Flores no Deserto. A Legião Urbana em seu próprio tempo. Dissertação de Mestrado. UFU. Uberlândia, 2002.

ALZER, Luiz André; CLAUDINO, Mariana. Almanaque dos anos 80. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

ASSAD, S. (Coord.) Renato Russo de A a Z: as idéias do líder da Legião Urbana. Campo Grande (MS): Letra Livre, 2000.

BATISTA, Astréia Soares. Outras conversas sobre os jeitos do Brasil: o nacionalismo na música popular. São Paulo: Fumec, 2002.

BECKER, H. S. Falando da Sociedade: Ensaios sobre as diferentes maneiras de representar o social. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 2013.

CARVALHO. José Murilo. O Brasil, de Noel a Gabriel. In: CAVALCANTI, Berenice; STARLING, Heloisa; EISENBERG, José (orgs). Decantando a República: Inventário Histórico e Político da Canção Popular Moderna Brasileira. v. 2: Retrato em branco e preto da nação brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

RIBEIRO. Júlio Naves. De lugar nenhum a Bora Bora: Identidades e fronteiras simbólicas nas narrativas do rock brasileiro dos anos 80. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro, UFRJ, 2005.

ROCHEDO, Aline do Carmo. “Os filhos da revolução”: a juventude urbana e o rock brasileiro dos anos 1980. Dissertação de Mestrado. Niterói: UFF, 2011.

SARLO, Beatriz. Cenas da Vida Pós Moderna: intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2006.

Documentários:

CARVALHO, Vladimir (direção). Rock Brasília: Era de Ouro. Documentário. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=z5rRltjG4U0. 2012.

MELLO. Branco (direção). Titãs: A vida até parece uma festa. Documentário. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=gQbcDm7KGKk. 2008.

WADDINGTON, Ricardo (direção). Por toda minha vida: Renato Russo. Documentário. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=W-Ag6nro2lM. 2007.

Discografia:

LEGIÃO URBANA. Legião Urbana. EMI-Odeon, 1985.

_______________. Dois. EMI-Odeon, 1986,

_______________. Que país é este. EMI-Odeon, 1987.

_______________. As Quatro Estações. EMI-Odeon, 1989.

TITÃS. Titãs. WEA, 1984.

_____. Televisão. WEA, 1985.

_____. Cabeça Dinossauro. WEA, 1986.

_____. Jesus não tem dentes no país dos banguelas. WEA,1987.

_____. Go Back. WEA, 1988.

____. Õ Blesq Blom. WEA, 1989.

Sites consultados:

www.legiaourbana.com.br

www.titas.net




1 Universidade Estadual Norte Fluminense, Centro de Ciências do Homem, Campos dos Goytacazes-RJ, liviabadaro@yahoo.com.br

2 Podemos verificar isso nos documentários Rock Brasília: Era de Ouro, Titãs: a vida até parece uma festa, no encarte do terceiro álbum da Legião Urbana, em texto no site oficial do Titãs, etc.


3 Os integrantes das bandas relatam algumas vivencias cotidianas, experiências em suas cidades nos documentários Rock Brasília (Legião Urbana) e A vida até parece uma festa (Titãs).

4 Se fiquei esperando meu amor passar. Legião Urbana, 1989.

5 Que país é este, Legião Urbana, 1987.

6 Desordem, Titãs, 1987.

7 Jesus não tem dentes no país dos banguelas, Titãs, 1987.

www.linkania.org – Página de XXX



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