Momentos íntimos



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Momentos íntimos
De repente, o amor

(The real man)



Alexandra Sellers



THE REAL MAN

© 1984 by Alexandra Sellers

Originalmente publicado pela Silhouette Books, Divisão da Harlequin Enterprises Limited
DE REPENTE, O AMOR

©1985 para a língua portuguesa

ABRIL S.A. CULTURAL
Esta edição é publicada através de contrato com a Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Silhouette, Silhouette Intimate Moments e o colofão são marcas registradas da Harlequin Enterprises B.V.


Tradução: VERA C. P. LIMONGI
NOVA CULTURAL — CAIXA POSTAL 2372 — SÃO PAULO

Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.




Momentos Íntimos n° 04


Barney sabe como ninguém levar um corpo de mulher ao delírio!
Na penumbra, só de calcinha, Jade espera que o homem se aproxime da cama. Com delicadeza, Barney retira aquela última peça, deixando-a completamente nua. Ele estremece de desejo incontrolável...

“Agora você me paga, Barney McNab!” Na mente de Jade, uma fria determinação: é chegada a hora da vingança.

Ela vai excitá-lo como só uma mulher tomada pelo ódio é capaz de fazer. Depois, o desprezo, a humilhação! Mas, na cama, Barney é irresistível...
Digitalização e Revisão: Nelma

CAPITULO I


— Boa noite. Sou Jade Sweet.

— Sou Russ Gordon. E hoje é domingo, dia treze de novembro.

Jade Sweet virou a cabeça e sorriu para a câmera um, que a tinha em close.

— Hoje, nossa Equipe de Reportagem analisa as novas e controvertidas leis de impostos: a repressiva política fiscal de Ottawa estaria fazendo discriminações contra os nossos artistas?

— Separatismo ocidental está ou não para acontecer? Nossa Equipe de Reportagem conversou com um famoso político que pode esclarecer...

— Corta!


Russ Gordon parou de falar imediatamente e o diretor atravessou o estúdio, em direção à câmera um. Ele tinha um fone de ouvido que o conectava com a sala de controle.

— Dê um close maior em Russ — disse ele no bocal do aparelho e um dos funcionários logo se apressou em ajustar o zoom de sua câmera.

— Como é que foi de viagem?

Jade Sweet virou-se para responder ao companheiro Russ Gordon. Ela passara dois dias fora, entrevistando políticos sobre o separatismo ocidental, e agora estava exausta. Suspirou alto e resistiu ao impulso de passar a mão na testa.

Há muito tempo que Jade adquirira o controle automático que as personalidades da televisão possuem a fim de não estragar a maquilagem e o cabelo. Mas, quando estava muito cansada, tal controle falhava e ela acabava se comportando como uma novata, tendo que se policiar a todo instante para manter as mãos paradas. Nesses momentos, Jade Sweet nem parecia uma repórter experiente, com uma bagagem de seis anos em tele-jornalismo.

— Exaustiva, acredite, Russ.

Aquilo também era algo muito estranho. Porque Jade Sweet possuía uma energia surpreendente. Ela nunca se cansava. Pelo menos, nunca admitia. Mas a viagem que fizera a deixara num tal estado de nervos que se sentia como se fosse explodir a qualquer momento.

Não explodira, é claro. Ela seguira em frente, encontrando forças sabe Deus onde, fazendo entrevistas e tomando aviões nas horas mais impróprias possíveis. E, durante o tempo todo, no fundo de sua mente, o medo, o pavor constante que a devorava por dentro como um ácido, era um catalizador para a dor que a corroia.

— Estúdio, atenção! Dez...

Ao ouvirem essas palavras, Jade e Russ se ajeitaram na cadeira e olharam para a câmera dois.

— Cinco, quatro...

Jade levantou os olhos e focalizou, através das câmeras, a pequena tela que continha seu script.

— Três, dois...

O diretor deu um sinal e ela sorriu.

— Boa noite. Sou Jade Sweet.

— Sou Russ Gordon. E hoje é domingo, dia treze de novembro.

Lentamente, Jade virou-se para a câmera um de novo.

— Hoje, nossa Equipe de Reportagem analisa as novas e controvertidas leis de impostos: a repessiva prolítica fiscal de Ottawa estaria fazendo discriminações contra os nossos artistas?... Ah?... — Jade ficou pálida. — Repessiva prolítica? Foi isso o que eu disse? Meu Deus, desculpe! Onde é que eu estou com a cabeça?

E, inconscientemente, passou a mão pelo cabelo.

Na sala de controle, dois andares abaixo do estúdio e do outro lado do prédio enorme onde funcionava a estação de TV, o diretor-geral da Equipe de Reportagem suspirou.

— Corta! — disse ele, no bocal do fone de ouvido que usava. A seu lado, o diretor técnico, diante de uma complexa aparelhagem, apertou uns botões e fez parar a gravação.

— Tenho a impressão de que hoje vai ser um daqueles dias... — murmurou Bill, o produtor, atrás deles.

— O que é que você está achando do cabelo dela, Bill? — perguntou-lhe o diretor. E no bocal, murmurou: — Stu, dê um close em Jade com a câmera um.

A imagem de Jade Sweet apareceu na tela, seus lindos cabelos castanhos emoldurando o rosto de traços perfeitos.

— Repressiva política fiscal — dizia ela baixinho a si mesma, treinando para não engasgar na hora. — Repressiva política fiscal...

Seu rosto era oval, atraente, e a inteligência contida nos olhos verdes e o movimento dos lábios carnudos hipnotizava qualquer um que olhasse para ela.

Mas os homens da sala de controle eram imunes a tudo, menos à perfeição técnica. O produtor se aproximou da tela e balançou a cabeça.

— Hmm... Deus do céu, os cabelos dela estão um horror! Quando é que Jade vai perder a mania de ficar mexendo neles?

Era uma pergunta retórica, e ninguém se deu ao trabalho de responder. Bill suspirou e balançou a cabeça.

— Onde é que Irene se meteu? Veja se ela pode dar um jeito no cabelo de Jade.

Um dos assistentes da produção foi à procura da cabeleireira imediatamente.

— E peça a Marie para maquilar mais os olhos dela! — Bill ainda gritou, após dar mais uma olhada na tela. Era verdade que aqueles lindos olhos verdes pareciam nebulosos e tristes... Mas estavam assim há várias semanas. E todo mundo sabia que a maquilagem não seria a solução.

— Deus do céu — murmurou ele. — Acho que Jade deveria tirar umas férias.

No estúdio, em menos de cinco minutos, Jade Sweet recebeu a visita de duas mulheres, uma delas armada com pentes e escovas e a outra, com estojo de maquilagem.

— Eu pensei que o meu cabelo estivesse bom, Irene. Dei uma olhada no espelho antes de começar e ele me pareceu em ordem...

A cabeleireira começou a penteá-la com cuidado.

— Você passou a mão neles e desmanchou um pouco o penteado, Jade. Mas não se preocupe. Um minutinho só e eles já vão estar prontos.

Jade franziu a testa..Não havia reparado no seu gesto, mas não era de se admirar que o tivesse feito. Mexer nos cabelos era um ato típico nos momentos de nervosismo e cansaço. E agora ela estava cansada, talvez mais cansada do que jamais estivera em toda sua vida. Os últimos dois meses haviam sido os mais angustiantes que já vivera e a dúvida que trazia consigo era um peso insuportável de se carregar.

— Desculpe, Irene. Vou tentar ficar com as mãos quietas de agora em diante.

— Ora, não se preocupe com isso! — A voz da cabeleireira era gentil e compreensiva.

A gentileza de Irene a tocou tão fundo que ela teve que morder o lábio para não começar a chorar ali mesmo.

Deus do céu, quando é que aquilo iria passar? Quando é que ia deixar de responder tão emotivamente à simpatia das pessoas bem-intencionadas? E quando é que as pessoas iam parar de lhe oferecer tanto apoio?

Era um círculo vicioso e Jade bem sabia disso. As pessoas parariam de tratá-la daquele modo quando ela deixasse seu rosto triste de lado e parasse de se comover tanto com a simpatia e os gestos de carinho.

Nos dois últimos meses, houvera dias melhores do que aquele. Dias em que o trabalho corria bem e ela voltava a ser a competente Jade Sweet de sempre, uma repórter famosa por seu estilo próprio.

Mas, se hoje as coisas não estavam lá muito boas, talvez fosse porque, no mundo louco do jornalismo de televisão, já era domingo, dia treze de novembro, enquanto que no mundo real era sexta-feira, dia onze.

Então fazia dois meses, isto é, dali a dois dias faria dois meses. Aquilo era apenas um ensaio para a dor que ela sentiria no domingo e, mesmo assim, sua cabeça já estava estourando. Tentou imaginar como é que iria se sentir no domingo...

Mas de uma coisa Jade tinha certeza: assim que a abertura do programa fosse gravada, ela voltaria ao normal e ficaria bem de novo.

Treze de novembro, sussurrou uma vozinha no fundo de sua alma. Só que aquela data não significava apenas os dois meses do acontecimento trágico que mudara os rumos de sua vida... Significava outra coisa,também.

Então foi a vez de Marie fazer seu trabalho. Jade levantou a cabeça de leve e a maquiladora começou a empoar seu rosto.

Jade respirou fundo, tentando relaxar. Seria obrigada a superar a fadiga de qualquer jeito. E, então, teria o fim de semana inteiro pela frente. Um fim de semana em que não haveria nada para fazer, a não ser pensar...

Russ Gordon, a seu lado, treinava o timbre de sua voz.

— Sou Russ Gordon e hoje é domingo, dia treze de novembro.

O estúdio voltou ao silêncio e Jade percebeu que o simples fato de ter ouvido a data novamente lhe causou arrepios de horror.

Soltou um suspiro de puro desespero. Tinha que parar com aquilo. Tinha que achar um jeito de manter sua vida pessoal separada de seu trabalho, como sempre fizera. Todo mundo no estúdio já devia estar percebendo.

Bill também, é claro. E, apesar da compreensão dele durante o tempo todo, dois meses era muito tempo e dali a pouco ele já iria perder a paciência e tomar uma atitude. Jade não ficaria nem um pouco surpresa se o produtor aparecesse naquele momento na sua frente e lhe desse uma licença.

Só que ela não queria licença nenhuma. Não havia trabalhado tanto e se esforçado além da conta para que uma nova repórter viesse tomar seu lugar, sabe Deus se não definitivamente. O trabalho ali era muito competitivo e Jade sabia disso melhor do que ninguém.

Ela teve vontade de rir de sua própria preocupação. A troco de que iria se importar com uma simples licença? Se a dúvida que lhe corroia a alma fosse verdade, então só lhe restariam mais três meses de trabalho, no máximo. Bill não teria outra alternativa senão despedi-la. A estação não daria outra escolha ao produtor, mesmo que ele quisesse.

E era evidente que Bill nem iria querer. Ele produzia um telejornal, não um abrigo para mães solteiras.

— Relaxe, Jade — disse Marie. — Seu rosto está muito tenso...

Meia hora depois, penteada e maquilada, ela já estava pronta para uma nova tomada.

— Vamos lá! — berrou o diretor. — Dez, nove...

O quê? — disse ele, no bocal do aparelho. — Mudança? Tudo bem. — Momentos depois, anunciou: — Jade, o diretor-geral mudou o seu texto. Você não precisa mais falar "política repressiva fiscal", entendido? Agora, é só dizer "Ottawa estaria fazendo discriminações contra os nossos artistas?"

Atrás das câmeras, o pessoal responsável pelo script começou a fazer a mudança. E isso significava mais uma meia hora de demora até que a gravação recomeçasse.

Era engraçado. Apesar da demora ser uma parte do trabalho, Jade nunca se acostumara com ela. Por isso, para não ficar irritada, trazia sempre consigo um livro ou uma revista; assim o tempo passava mais depressa. Só que, daquela vez, a revista que trouxera sobre a política externa do Canadá não estava sendo de muita ajuda. As palavras pareciam dançar na sua frente e ela não conseguia se controlar de jeito nenhum.

— O.K, vamos gravar! — berrou Stu de novo e Jade tratou de dar um sumiço na revista não lida.

Ela então se ajeitou na cadeira, pôs as mãos em cima da escrivaninha e sorriu para a câmera dois.

— O.K, estúdio! Dez... cinco, quatro, três, dois, um... — E o diretor levantou a mão, indicando que já era a hora.

— Boa noite. Sou Jade Sweet.

— Sou Russ Gordon. E hoje é domingo, dia treze de novembro.

Treze de novembro. Dali a dois dias...

— Hoje, nossa Equipe de Reportagem analisa as novas e controvertidas leis de impostos. Ottawa estaria fazendo discriminações contra... ai, meu Deus, contra o que mesmo? Não estou enxergando o script direito!

— Corta! — berrou o diretor do estúdio. — Ei, pessoal, quero que vocês coloquem o script em algum lugar mais visível! Nossa Jade não está nos seus melhores dias, hoje!

Rápida e eficientemente, o script foi preso a uma tela colocada na frente da câmera dois, de modo que não pudesse haver mais erros.

Naquele momento, Jade Sweet pensou que fosse explodir de verdade. Nunca, em toda sua vida, se sentira assim.

— Sinto muito, Russ — disse ao companheiro. — Estou péssima hoje...

Ele sorriu.

— Ora, Jade, não se preocupe! Todos nós temos os nossos dias, não é?

Russ Gordon estava certo. A gravação do telejornal nunca fora uma tarefa fácil, embora houvesse os bons e os maus dias. E aquele estava sendo um dos piores...

Treze de novembro. Céus, que aquilo não fosse verdade. Que ela tivesse cometido um erro nos seus cálculos e seus temores fossem infundados. Ela passara os últimos dois meses debaixo de tanto stress que essa poderia ser a causa do seu atraso.

Treze de novembro. Seria mais do que um dia terrível, caso sua suspeita fosse confirmada. Seria o pior dia de toda sua vida.

Bem, não seria o pior. O pior já tinha acontecido, há dois meses. Dia treze de setembro seria sempre o dia mais negro de sua existência. Quase dois meses... Ainda faltavam dois dias.

Dois dias para Jade saber se treze de novembro seria ou não o segundo pior dia de sua vida. Dois dias para que ela parasse de tapar o sol com a peneira e encarasse o fato de que estava grávida.

— Estúdio! Vamos gravar! Dez. .

Grávida de uma criança que jamais conheceria o pai.

— Cinco,.quatro, três, dois, um...

Grávida de Leo, o único homem que amara na vida.

— Boa noite. Sou Jade Sweet.

Leo, que morrera há dois meses.

— Sou Russ Gordon. E hoje é domingo, dia treze de novembro.

CAPITULO II


Ao acordar, Jade estava banhada de suor. Havia tido o pesadelo de novo. O pesadelo que a perseguia há noites e noites, ininterruptamente. Sua cabeça latejava e ela teve que fechar os olhos de tanta dor.

O sonho mau que assombrava seu sono tinha muitas formas, onde ela tomava conhecimento de pelo menos uma dúzia de versões diferentes para a queda do helicóptero de Leo. E, em seguida, surgiam outras visões, nas quis ela tentava detê-lo, desesperadamente.

Era como se uma parte de Jade estivesse sempre pronta a atacá-la, a destruí-la com o pensamento de que, se ela o amasse o bastante, teria feito alguma coisa para impedi-lo de subir naquele helicóptero funesto.

Jade pulou da cama e balançou a cabeça com força. Que bobagem. Nada teria detido Leo. Nada teria feito com que ele desistisse da viagem, mesmo que ela quisesse. E é claro que não queria. Aliás, nem pensara nisso.

Leo era um jornalista intrépido, sua existência era devotada ao seu trabalho e ele o adorava. Ir ao encontro do perigo era parte de sua vida como jornalista. Nunca passara pela cabeça de Jade tentar mudar o modo de vida que Leo levava. Assim como ele jamais interferira no trabalho dela.

Ambos haviam lutado muito para chegar ao sucesso no competitivo mundo do jornalismo de televisão. E nunca sequer sonharam em se intrometer um na carreira do outro.

Na verdade, essa fora uma das razões pelas quais Jade Sweet se apaixonara por Leo Charteris: a aceitação total dela, no ainda muito machista mundo do jornalismo de televisão, como uma colega, com os mesmos direitos de competição que ele.

É claro que ela sempre tivera consciência do charme dele, aliás, como todas as garotas da estação. Leo Charteris era atraente como poucos homens e tinha um ar de masculinidade que fazia qualquer mulher tremer nas bases. Jade, como todas as outras, o achava charmosíssimo, mas nunca fizera nada para se aproximar dele.

É que, acima de tudo, Leo Charteris era um grande mulherengo. E ela não gostava de homens assim. Corriam rumores pelos quatro cantos da estação de TV que todas as mulheres dali, secretárias, jornalistas, montadoras de script, e seja lá quem mais usasse saias, haviam se derretido por ele como cubos de gelo ao sol escaldante. E Jade Sweet mantivera distância.

Ela nunca ficara sabendo se eram as mulheres que se jogavam em cima dele e Leo simplesmente tomava o que lhe era oferecido, ou se ele realmente ia ao ataque, destruindo corações. Tudo o que Jade sabia era que ele nunca brincara com ela, nunca lhe dirigira um gracejo. Quando ambos se encontravam nos corredores ou no bar para tomar um café, Leo sempre a tratava com o mesmo respeito que dispensava aos seus colegas homens.

Isso fora fazendo com que ela começasse a gostar dele, a relaxar perante os homens conquistadores.

Assim, a amizade tivera início. E logo acabara se transformando em amor.

O amor mudara Leo Charteris. Ele se apaixonara por Jade de uma maneira como nunca sonhara ser possível e desistira de suas conquistas sexuais. E então, ambos se tornaram amantes.

Todas as outras foram esquecidas. Jade Sweet era sua mulher e ele era seu homem; dela e de ninguém mais. Os dois eram vistos sempre juntos em todos os lugares e não se desgrudavam um só minuto, nem mesmo nos corredores da estação.

E Jade passara a ver hostilidade nos olhos não só das outras jornalistas, como também nos das secretárias, bibliotecárias, assistentes e demais mulheres que tanto sonhavam em um dia vir a ser a Sra. Leo Charteris.

Não deixara de ser um alívio quando, tempos mais tarde, ele recebera uma proposta de trabalho na "Canadian Cable News", um novo canal de TV devotado exclusivamente a noticiários jornalísticos. Assim, pelo menos, os dois não estariam mais sob a constante vigilância de olhos ciumentos.

A oportunidade fora maravilhosa para Leo. A CCN prometia ser um sucesso e ele iria fazer exatamente o que gostava.

É lógico que haveria riscos, mas o perigo sempre o atraíra. Trabalhar sob as ordens de Barney McNab, o dono da CCN, em seis meses, lhe traria mais vantagens e experiência do que passar três anos no Canal Dez.

O orçamento de Barney McNab não permitia que ele mantivesse seus repórteres espalhados por todo o mundo. Sua equipe se resumia a meia dúzia de jornalistas excelentes, que eram mandados para qualquer lugar do globo, onde um acontecimento quente estivesse ocorrendo.

Em seis meses, Leo viajara por quase todo o mundo. Havia estado no Líbano, em Jerusalém e no Irã, nos momentos mais perigosos possíveis. Se houvesse uma guerra, e havia sempre uma guerra em algum ponto deste mundo, Leo estava lá, antes de qualquer outro repórter. E fora durante esse período que fizera as melhores reportagens de toda a sua vida.

E fora também neste período que Jade mal se encontrava com ele. Mas os breves momentos passados juntos não poderiam ter sido mais bonitos e gratificantes.

Nunca houvera dúvida quanto ao fato de que os dois iriam se casar. Conversavam freqüentemente sobre isso e sabiam que era só arrumar um tempinho para preparar os papéis e comprar as alianças. Só que os instantes passados juntos eram tão breves que eles acabavam decidindo aproveitá-los de maneira mais interessante.

Além disso, para Jade, o casamento nunca fora importante. Importante era o amor que um sentia pelo outro. Afinal, de que valia um simples pedaço de papel, dizendo que estavam casados?

Mas, agora, no entanto, ela se arrependia por não ter assinado o tal papel. Se pelo menos tivesse ido a um cartório, o fruto do amor por Leo, que estava crescendo dentro dela, não nasceria filho de mãe solteira...

O mais estranho de tudo era que Jade tivera seu período menstrual em setembro. Não fora um período regular, apenas uma forte hemorragia no dia seguinte à morte de Leo. Então, quando não menstruara em outubro, não chegara a ficar preocupada. Provavelmente seu ciclo havia se desregulado, devido ao mês de tensão e tristeza pelo qual passara. E tinha certeza de que tudo se acertaria, dali a uma ou duas semanas.

Só que nada se acertara. Os dias foram se passando e sua menstruação não viera. Agora, na metade de novembro, a gravidez já estava quase confirmada. E Jade precisava tomar uma decisão. Uma decisão difícil e penosa...

Mas aquele não era o momento de pensar nisso. Ela olhou para o relógio na mesinha perto da cama e viu que já eram onze e meia. E Barney McNab ficara de apanhá-la à uma.

Nos velhos tempos, o período de uma hora e meia era mais do que suficiente para Jade realizar pelo menos uma dúzia de afazeres. Mas, ultimamente, sua agilidade não parecia estar essas coisas.

À luz forte do banheiro, examinou-se no espelho. Seu cabelo estava grosso, como sempre ficava nos fins de semana. Jade escolhera a profissão errada, para alguém que sempre detestara laquê. Não gostava de sentir aquela cola na cabeça e fazia questão de lavar os cabelos na sexta-feira à noite ou no sábado, para deixá-los completamente livres e soltos durante o fim de semana inteiro.

Entrou no chuveiro e deixou que a água morna batesse em sua pele, relaxando-lhe o corpo e descansando sua mente.

Mais tarde, após ter secado os cabelos e vestido um jeans e um bonito suéter, foi até a cozinha esquentar água para fazer um chá. Sentou-se à mesa da cozinha com a xícara na mão e começou a ler o "Globe and Mail", que lhe era entregue todos os dias, na porta do apartamento. Como sempre, ela leu com cuidado matéria por matéria, procurando um assunto interessante para a sua Equipe de Reportagem.

A xícara de chá foi o bastante para satisfazê-la. Jade não andava com muita fome ultimamente, mas sabia muito bem que precisava se alimentar para agüentar a loucura que era sua vida. Se quisesse continuar seu trabalho, teria que comer direito. E ela queria trabalhar mais do que nunca. Trabalhar para tirar Leo da cabeça. Trabalhar porque a carreira era sua vida.

Mas era muito mais agradável comer com alguém do lado e, como Barney McNab viria buscá-la em pouco tempo, ela podia deixar para saborear um bom prato na companhia dele.

"Jogos Olímpicos de Inverno ameaçam pastagem".

O título de uma matéria no fim da página lhe chamou a atenção. Às vezes essas matérias pequenas eram interessantes e podiam dar bons assuntos para o telejornal. O importante era farejar essas notícias antes do que qualquer outro repórter.

A matéria falava que um grupo de ecologistas estava preocupado porque os Jogos Olímpicos de Inverno em Calgary iriam destruir uma grande pastagem de carneiros no Monte Allen. O grupo vinha fazendo de tudo para que um outro lugar fosse usado como cenário da competição de esqui, a fim de preservar a enorme pastagem.

Jade se levantou, pegou um lápis e fez um círculo em torno do título. O assunto poderia provocar interesse daqui a algum tempo e a Equipe de Reportagem seria a primeira a explorá-lo.

"Quem fica com a herança?" era o título de outra matéria pequena. Falava de uma irlandesa que morava na Inglaterra e que morrera em idade avançada, deixando uma grande fortuna. Como os parentes não haviam sido localizados, sua herança milionária seria o maior espólio não reclamado de toda a história da Inglaterra.

Jade também sublinhou essa matéria. Embora não fosse seu tipo de assunto — ela preferia temas mais políticos — a Equipe de Reportagens poderia se interessar.

O esquema era o seguinte: Todas as segundas-feiras de manhã, o pessoal da Equipe colocava sugestões de pautas novas dentro de um pote. E Bill Michaelson, o produtor, era quem decidia o que seria ou não aproveitado, embora, é claro, ouvisse as opiniões dos outros.



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