Monografia Ana Kiffer – notas



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Emanações da peste: Artaud, Benjamin e Freud


Marcelo Magalhães [Doutorando, PUC-Rio]

Parece que através da peste, e coletivamente, um gigantesco abscesso, tanto moral quanto social, é vazado...

[Antonin Artaud]
Este trabalho parte de uma dificuldade, ponto de partida que pretendo pôr em movimento no avançar do texto. É portanto a paisagem que servirá de cenário para a apresentação de personagens, e também a rubrica que marca sua atuação e gestos.

A dificuldade é esta: quais as possibilidades de um pensamento enquanto peste? Como efetuar um pensamento enquanto “convocação de forças”, assim como Artaud imaginava que pudesse ser a peste e o teatro? Como fazer do pensamento um movimento com força crítica efetiva, e que com ela “faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a tibieza, a baixeza, o engodo” dos sistemas de pensamento hegemônicos de cada época, que se auto-proclamam a boa saúde intelectual?

Uma segunda dificuldade, desdobramento da inicial, que também estará disseminada adiante, é a ambivalência daquilo que se aponta como peste. Algumas vezes designará a força subversiva, crítica e/ou perversa de algumas idéias. Outras vezes designará o oposto: o poder normativo, hegemônico e/ou canonizante de sistemas de pensamento.

Os personagens a que fiz referência são aqueles que figuram no título deste trabalho: Antonin Artaud, Walter Benjamin e Sigmund Freud. Sua conjunção no espaço aqui instaurado é de certa maneira autorizada por movimentos comuns que os aproximam, mas também por gestos bastante diferentes apontados contra a tradição do pensamento ocidental moderno. A peste como força subversiva esteve com eles, em cada um de modo peculiar. Em cada um, uma maneira própria de perceber a saúde das idéias e dos pensamentos.


É tão razoável representar uma espécie de aprisionamento por outra como representar qualquer coisa que existe realmente por algo que não existe.

[Daniel Defoe]


De nada serve partir das coisas boas de sempre, mas sim das coisas novas e ruins.

[Bertolt Brecht]


É preciso dizer que as idéias com que monto esse trabalho excluem tantas outras, que no entanto deveriam estar aqui relacionadas. Não sei se isto pode passar por “razoável” ou se, pelo contrário, é um aprisionamento de que não se consegue escapar deliberadamente. Será razoável, como quer Daniel Defoe, “representar qualquer coisa que existe realmente por algo que não existe”?

Sem arriscar de imediato respostas, proponho que não se atenue ou apague as “coisas novas e ruins” que existem realmente pelo predomínio das “coisas boas de sempre”. Há uma força da história que fetichiza personagens seus, que os torna exemplo da boa saúde intelectual, mesmo aqueles que intencionalmente levavam consigo algo de pestilento. Assim os personagens que apresento podem ser percebidos também como exemplares de “coisas boas de sempre”. Acentuarei entretanto aquilo que possa apontar para “coisas novas e ruins”.

O poder hegemônico dos EUA, coisa já não tão nova mas cada vez pior, foi se configurando aos poucos como assunto possível dentro deste trabalho. Os três personagens aqui manipulados tiveram na rota de seus projetos aquele país: Freud estivera por lá em sua campanha de divulgação e estabelecimento da Psicanálise na primeira década do século XX (1909); Benjamin, no início da década de 1940, para lá se encaminharia caso não morresse (fosse suicidado) a meio caminho; Artaud desenhara sua percepção dos “métodos americanos” em seu “Para acabar com o julgamento de deus”.

Não tem medo de apertar a mão a um empestado?

[Antonin Artaud]
Artaud percebeu nitidamente a necessidade constante de trazer a peste para a “estreita cisterna que [...] chamam de ‘Pensamento’”. Desde muito cedo as contingências de sua saúde fizeram-no vítima do “mal branco” do pensamento moderno ocidental, europeu: na busca de apaziguar suas dores, por exemplo, viu-se constantemente privado de paliativos por serem considerados drogas ilícitas, “paraísos artificiais” proibidos.

O “mal branco” do pensamento moderno e progressista europeu apresentou-se a Artaud com feições variadas. Além de privado daquilo que poderia apaziguar suas dores, foi reiteradamente privado de sua liberdade sob a alegação de loucura. E algumas vezes essa privação de liberdade teve contingências agravantes, que não incidiam apenas sobre aqueles acusados de demência: entre o final da década de 1930 e meados da seguinte, Artaud passa por diversas instituições psiquiátricas que têm suas abomináveis práticas (médicas porém) tornadas mais inumanas: o nazismo, com sua obsessão sinistra por uma eugenia ideal, fez com que nesse período a sobrevivência naquelas instituições fosse quase impossível. Estar em um “asilo de loucos” naquela época era quase sinônimo de ser eliminado – pelos maus-tratos tornados mais violentos, pela fome, pelo abandono etc.

Além de Artaud, atingido menos diretamente pelas emanações que vinham da Alemanha, Benjamin e Freud também sofreram as restrições da época. A partir de 1933, a psicanálise é acusada de ser uma “ciência judaica”, e livros de Freud são queimados; em 1938, fugindo ao nazismo, Freud parte para a Inglaterra. Em 1933, Benjamin iniciaria seu exílio, passando por diversas localidades, que só terminaria em 1940 com sua morte – como sugeriu Bertolt Brecht, “a primeira perda efetiva que Hitler causava à literatura alemã” (apud Arendt, 1987, p. 134).
Os grupos que tanto se interessam pelo sonho, psicanálise ou surrealismo, prontificam-se também na realidade a formar tribunais que julgam e punem...

[Gilles Deleuze]


É quase inútil que nos defendamos da acusação de alguma vez termos desejado constituir um círculo fechado...

[André Breton]


André Breton inicia em 1938 sua campanha de estabelecimento do surrealismo no México. Faz contato com diversos artistas que lá encontra, entre eles Diego Rivera e Frida Kahlo. Aponta para traços “intuitivamente surrealistas” do trabalho de Frida (esta, no entanto, jamais se integraria no movimento). Tentava sugerir uma sintonia fina entre o que acontecia desde o início da década de 1920 na Europa com o que acabava de encontrar “do outro lado do mundo”: “a emergência espontânea1 do nosso próprio espírito questionador” (Breton). A sugestão de Breton era, claramente, uma estratégia para legitimar a colonização surrealista – já que havia condições propícias para o contágio (“emergência espontânea”), restava disseminá-lo. Em 1940, Breton organiza a quarta Exposição Surrealista Internacional na Cidade do México. Era o estabelecimento definitivo de um pacto colonial: a metrópole surrealista (Paris) firmava a exploração e o comércio estético-cultural em sua nova colônia do Mundo Novo.

Breton poderia ter repetido consigo, ao desembarcar no México pela primeira vez, a hipotética e famosa frase de Freud: “Eles não sabem que lhes estamos trazendo a peste.” Se não a repetiu, certamente terá gozado da satisfação de contagiar com a revolução surrealista outros lugares fora da Europa: velho procedimento colonialista, que em suas expedições exploratórias fez com que uma nova peste chegasse a um novo continente. Essa peste, ao contrário do que pretendia Breton, não era um possível potencial subversivo do movimento surrealista, mas uma contraparte sua: era “o cadáver da cultura da Europa, da qual a própria Europa já começa a se desembaraçar” (Artaud).2

Percebe-se, portanto, a ambivalência do que venho chamando de peste em relação a André Breton e sua viagem ao México. Essa ambivalência pressupõe dois espaços distintos: o da “declaração de intenções” e o dos “gestos efetivos”. No espaço privilegiado da declaração de intenções (privilegiado porque, neste caso, já legitimado e autorizado), a peste assume sua virtualidade positiva: o “espírito questionador”, “a revolução das idéias”, a “ação subversiva”. No espaço delicado dos gestos efetivos (delicado porque dependente das relações que se estabelecem em cada lugar), no entanto, a peste se revela em sua feição negativa: o “cadáver da cultura da Europa”, a ação colonizadora, a apropriação e subordinação da cultura mexicana.

A suposição desses dois espaços – o da declaração de intenções e o dos gestos efetivos – não passa porém de ferramenta analítica de que lanço mão. O que não desfaz a ambivalência do que se poderia entender como peste em relação ao surrealismo e ao seu maior ideólogo e divulgador, André Breton. Na França, por exemplo, o período inicial do surrealismo parece ter realmente desestabilizado uma série de reducionismos e preconceitos do pensamento ocidental moderno que dominavam então. Já a expansão (imperialista) do movimento para além do continente em que nascera atualiza outros tantos preconceitos e reducionismos3. A idéia de Breton de testemunhar no México “a emergência espontânea do nosso próprio [deles] espírito questionador” era um preconceito reducionista: ocorrera na França um movimento idealizado, organizado e divulgado por um grupo liderado por ele, ao passo que no Novo Mundo havia uma “emergência espontânea” (velho vício do etnocentrismo europeu: o de perceber a sua cultura como fruto de uma construção, ao passo que outras, exóticas, são “emergência espontânea”).

Assim, os espaços que instituí como ferramenta analítica para indicar a ambivalência da peste põe-se ao lado das configurações decorrentes do espaço geográfico real. O cruzamento desses espaços – geográficos e analíticos – faz surgir as feições da peste: a que paralisa e mata e/ou a que movimenta e fortalece.

Vim ao México em busca de homens políticos, não de artistas. Até agora fui um artista, ou seja, fui um homem conduzido. Não há dúvida que do ponto de vista social os artistas são escravos.

[Antonin Artaud]
...queriam englobar-me no seu último barco surrealista, mas não há nada a fazer. Sou surrealista demais para isso.

[Antonin Artaud]


A idéia fundamental do segmento anterior é esta: chefiando a expedição de divulgação e estabelecimento do surrealismo no México, André Breton carregava para lá uma peste. Essa peste era especificamente a tentativa de expropriação da originalidade de uma cultura local tencionando formulá-la à imagem da cultura de uma vanguarda européia. Além de, mais genericamente, efetuar a migração do “cadáver da cultura da Europa” para um outro continente.

A viagem de Antonin Artaud ao México configura um outro movimento, em direção oposta. Artaud declaradamente não pretendia exportar a peste européia para o México. Pretendia sim importar uma outra peste para a Europa. Pretendia aliás livrar-se dos sintomas da endurecida cultura européia moderna. Para isso esperava aproximar-se “de homens políticos, não de artistas.” Os artistas, assim como os conhecia, eram apenas mais um sintoma da moderna cultura burguesa ocidental. Era essa cultura – que se proclamava sintoma de saúde – que Artaud planejava contagiar com uma peste que acreditava revitalizadora.

A peste que relaciono a Artaud tem dessa forma a motivação positiva e revitalizadora de “derrubar os velhos ídolos” (Artaud). Assim como Nietzsche, que declarava que seu ofício era derrubar ídolos (“ideais”), Artaud procurava denunciar a “mentira do ideal” (Nietzsche, 1995, p. 18), sem no entanto pretender “fazer nascerem novos ídolos sob nossos pés” (Artaud).

O presente estado cultural dos Estados Unidos da América nos proporcionaria uma boa oportunidade para estudar o prejuízo à civilização, que assim é de se temer. Evitarei, porém, a tentação de ingressar numa crítica da civilização americana; não desejo dar a impressão de que eu mesmo estou empregando métodos americanos.

[Sigmund Freud]
A leitura de O mal-estar na civilização não deixa claro o que Freud designa como “métodos americanos”: seria o fato de se “ingressar numa crítica da civilização americana”? ou se trataria do exercício de uma crítica leviana fundamentada num olhar estrangeiro, sem a autorização ou a legitimidade para fazê-la? ou seria a alusão a um certo revanchismo comum na relação entre Europa e EUA, em que este último, na sua crescente acumulação de poder político-econômico, se tornava cada vez mais sarcástico e irônico em relação à velha cultura européia? Não pretendo sugerir aqui mais que hipóteses – declaradamente equívocas, pois lançadas à maneira de indagações.

A primeira viagem de Freud aos EUA, em 1909, é um acontecimento bastante importante na história da psicanálise. Acompanhado de Carl Gustav Jung, Freud aportara naquele país para apresentar, na Clark University (Worcester), suas cinco lições de psicanálise4. Teria ele dito, ao ouvido de Jung: “Eles não sabem que lhes estamos trazendo a peste.”

A famosa frase hipotética tornou-se pública décadas mais tarde, em 1955, numa conferência proferida em Viena por Jacques Lacan, que declarou tê-la ouvido da boca do próprio Jung. A partir da frase – interpretada como a referência de Freud ao “espírito subversivo” da psicanálise –, Lacan comenta o engano de seu autor: “ele havia acreditado que a psicanálise seria uma revolução para a América, e, na realidade, a América é que tinha devorado sua doutrina” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 587).

Jacques Lacan tentava realizar, na verdade, uma mutação na bactéria (hipotética) que Freud imaginara poder causar uma epidemia norte-americana. Nessa tentativa, pelo menos dois gestos aparecem claros: primeiro, o de demarcar o potencial subversivo da psicanálise (que não vingara em alguns países, como nos EUA, mas que Lacan pretenderia atualizar); segundo, o de apontar para os “métodos americanos” de apropriação e domesticação de qualquer doutrina subversiva. Além de instaurar, na França, o que se convencionou chamar de freudismo, a mítica frase inaugurou o lacanismo – a esperada mutação da bactéria que Freud vira falhar.

Lacan portanto referia-se alusivamente à ambivalência que sugeri anteriormente – a ambivalência da peste: havia a pestilência da subversão (contra o “prejuízo à civilização” provocado pelo “estado cultural dos Estados Unidos da América”) e sua contraparte, a pestilência dos “métodos americanos” (de imperialismo epistemológico, “isto é, político”5).

Sendo isso verdade, seria necessário considerar o flagelo [a peste] como o instrumento direto ou a materialização de uma força inteligente em estreita relação com o que chamamos de fatalidade.

[Antonin Artaud]
Cumpre sermos gratos às descobertas de Freud.

[André Breton]


O “espírito subversivo” (mas não revolucionário) da psicanálise só ganharia força epidêmica longe da América, anos depois. Na França o surrealismo, e seu “espírito questionador”, esteve intimamente ligado ao que houvesse de “revolucionário” na doutrina de Freud. André Breton, médico psiquiatra e estudioso da psicanálise, acreditava poder desestabilizar o “reinado da Lógica” com a ajuda de Freud. O “inconsciente de classe” da arte surrealista6, no entanto, tornava o combate a tal “reinado” um simples discurso com pouca força de efetivação: o “reinado da Lógica” era ainda e desde sempre uma bandeira do discurso ocidental da burguesia – classe à qual grande parte dos integrantes do movimento surrealista, e Breton especificamente, pertenciam.

O movimento surrealista foi portanto responsável por uma intensa divulgação da psicanálise – mas isso não significa dizer que a peste que Freud sonhara tornava-se então efetiva. Ela continuava ainda apenas um miasma, que agora se juntava à pestilência do “cadáver da cultura da Europa”.

No surrealismo, o desespero esteve na ordem do dia e, com o desespero, o suicídio.

[Antonin Artaud]


Há sempre um instante ... em movimentos [como o surrealismo] em que a tensão original da sociedade secreta precisa explodir numa luta material e profana pelo poder e pela hegemonia...

[Walter Benjamin]


Num ensaio escrito em 1929, Walter Benjamin designa o surrealismo como “o mais recente instantâneo da inteligência européia”7. O “observador alemão”, talvez exatamente por não se encontrar “junto à fonte” do movimento surrealista (Paris), não faz referência ao nome daquele a quem tinha sido concedida (por Breton) parte da responsabilidade da edição do número 3 de La Révolution Surréaliste: Antonin Artaud. É certo que então Artaud já se desligara do surrealismo há alguns anos (desde 1926) – o que não esclarece a ausência de seu nome entre “os mais importantes” arrolados por Benjamin.

Penso porém numa hipótese coerente com o que venho sugerindo até aqui: a ausência de Artaud entre os nomes listados por Benjamin revela de alguma forma um sintoma dos “jogos internos de panelinhas” (Artaud): ou Benjamin não ouvira falar de seu nome – o que me parece bastante improvável, pois Artaud participara intensamente do movimento de 1924 a 1926 (o que indicaria uma sistemática exclusão de seu nome, a partir de seu desligamento, operada pelos dirigentes do movimento); ou Benjamin ouvira sim falar de seu nome, mas com grandes ressalvas (o que seria também o resultado de uma operação de exclusão de um indesejado).

Não me interessa abrir aqui mais um processo (à maneira dos tribunais surrealistas, contra Maurice Barrés e Anatole France) decorrente do litígio entre Antonin Artaud e o movimento surrealista. Muito menos colocar Walter Benjamin em banco de réus. Mas tão somente sugerir a conjugação de elementos desiguais no processo de inclusão/exclusão de nomes em listas dos “mais importantes” (cânone).

Considerando a segunda hipótese (a de que Benjamin ouvira sim falar de Artaud, mas com insistentes ressalvas) como a mais provável, sugiro que pelo menos dois agentes provocaram a exclusão referida: a “materialização de uma força inteligente” e uma “fatalidade”. Com “materialização de uma força inteligente” aponto novamente para os “jogos internos de panelinhas”, ou seja, a deliberada política de exclusão de Artaud pelo surrealismo; a “literatura” foi desde sempre um acordo de classe, e as vanguardas européias foram muitas vezes a caricatura disso. Com “fatalidade” indico algo bem menos material (mas ainda assim fazendo alusão a condições bastante materiais): se chegaram aos ouvidos de Benjamin as ressalvas em relação ao nome de Artaud, seria surpreendente que insistisse na sua inclusão na lista dos “mais importantes”; primeiramente porque, como demarca o próprio ensaísta alemão, ele não se encontrava “junto à fonte”, que era Paris (a “capital do século XIX”), mas recebia (se é que recebeu) informações da “fonte”, provavelmente informações bastante “autorizadas”; em seguida (e paralelamente à primeira hipótese), vale lembrar que a produção crítica de Benjamin se ressentia de uma grande dificuldade de divulgação, o que pode algumas vezes tê-lo feito censor de si mesmo, ou antes propiciado uma adesão às “censuras cordialmente aceitas”, na busca de viabilização de seu trabalho como crítico literário8.

Importa insistir aqui, portanto, na seguinte idéia: Artaud e Benjamin sofreram os sintomas da peste que são os acordos de classe. Sobre seus corpos e sobre aquilo que produziram a paralisia da peste ganhou atualização. Se ela “não divulga suas feições” não é porque ela não mais exista, mas porque esses acordos são feitos quase tacitamente. E aqueles que a percebem, que vislumbram um traçado qualquer de suas cínicas feições, geralmente caem na autocensura, ou aderem ao que é “cordialmente aceito”, na tentativa quase sempre espúria de se manter “numa luta material e profana pelo poder e pela hegemonia”.

E viva a guerra, não é assim?

Pois é assim – não é? – que os americanos vão se preparando passo a passo para a guerra.

[Antonin Artaud]


Tivesse Artaud conhecido a biografia de Walter Benjamin, e se interessado por ela, provavelmente o chamaria (como fez com Van Gogh) de um suicidado. Em setembro de 1940 – época em que Artaud se encontrava em um dos muitos asilos psiquiátricos por que passou –, Benjamin interrompe sua tentativa de fuga do nazismo ingerindo alguns tabletes de morfina.

Os planos de fuga tinham como destino final os EUA, onde Max Horkheimer procurava conseguir um lugar em alguma universidade norte-americana, o que facilitaria seu trânsito até aquele país. Entretanto a idéia de viver nos EUA não seduzia Benjamin. Achava improvável que suas condições financeiras pudessem melhorar repentinamente9.


“Além do mais, nada o atraía para os Estados Unidos, onde, como costumava dizer, as pessoas provavelmente não achariam nenhuma outra utilidade para ele a não ser carregá-lo para cima e para baixo, através do país, exibindo-o como o ‘último europeu’” (Arendt, 1987, p. 147).
A morte de Benjamin portanto acontece em uma situação extrema – o que reforça a idéia de um assassinato mais que um simples suicídio: interceptado na fronteira franco-espanhola, tendo seu apartamento em Paris confiscado pela Gestapo, e não podendo vislumbrar novas perspectivas com a transferência para os EUA, restavam poucas condições para que permanecesse vivo. Como lamentou Brecht, era “a primeira perda efetiva que Hitler causava à literatura alemã”. Ou seja: também a peste que lhe tirou a vida poderia ser considerada a partir da descrição que Artaud faz desse flagelo – um “instrumento direto ou a materialização de uma força inteligente [o nazismo] em relação estreita com o que chamamos de fatalidade [suas precárias condições de vida e trabalho]”.

Caso a relação dos infortúnios não convencessem, eu poderia enfatizá-los com (mais) hipóteses (plausíveis): Benjamin certamente pressagiava que sua tarefa crítica seria apropriada e domesticada no país que domesticara Freud (segundo Lacan); também não é difícil imaginar que Benjamin desconfiasse da existência do “mórbido poder infeccioso” com que “os americanos vão se preparando passo a passo para a guerra” (Artaud, 1948)...

... um pensamento deve ser cru para se converter em ação.

[Walter Benjamin]


A pergunta lançada no início deste texto ecoa certamente a esta altura um tanto mais difícil de ser respondida. Talvez eu nem mesmo consiga respondê-la, e apenas acrescente novas questões a seu lado na tentativa de lançar vias de resolução. É o que farei a partir daqui.

Quais as possibilidades de um pensamento enquanto peste? Como efetuar um pensamento enquanto “convocação de forças”? Como posso mobilizar o pensamento para a possibilidade de “se converter em ação”?

Não há receitas para tornar o pensamento pestilento (como Freud queria sua disciplina), expressão da crueldade (como Artaud queria seu teatro), ou mesmo atualizar um pensamento cru que resulte em ação (como queriam Brecht e Benjamin).

Como na descrição que Artaud pretende fazer do surrealismo, aqui “pode-se dizer [dessa estratégia de pensamento] ... aquilo que ele não é, mas para dizer o que é, torna-se necessário usar aproximações e imagens” – a imagem aproximada que uso é a da peste.

Sugeri porém que uma ambivalência no uso dessa imagem é essencial a ela. Como o uso no qual pretendo investir força e visibilidade é aquele que apontei como positivo, me desvencilho do sentido negativo nesta (in)conclusão. O que pretendi durante a escrita desse texto, foi a instauração de signos que pudessem “se converter em ação” (ação um tanto localizada, é certo, mas ainda assim “convocação de forças”).

É o que sobrevém a todas as doenças do espírito humano, as quais nos jactamos de haver curado. Apenas as refluímos, como se diz em medicina, e as substituímos por outras.



[Sainte-Beuve]

Bibliografia Consultada:

Adorno, Theodor. Notas de Literatura I. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: 34, 2003.

Arendt, Hannah. Walter Benjamim. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Argan, Giulio Carlo. Arte moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução de Denise Bottmann e Frederico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Artaud, Antonin. A arte e a morte. Tradução de Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena, 1993.

_______. O teatro e seu duplo. Tradução de Teixeira Coelho. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

Barthes, Roland. Crítica e verdade. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 1970.

Barthes, Roland. Crítica e verdade. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 1970.

Benjamin, Walter. “O surrealismo: o último instantâneo da inteligência européia”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet; prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. – 7ª ed. – São Paulo: Brasiliense, 1994.

_______. Rua de mão única. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1995.

Bradley, Fiona. Surrealismo. Tradução de Sérgio Alcides. São Paulo: Cosac & Naify, 1999.

Breton, André. Manifestos do Surrealismo. Tradução de Sergio Pachá. Rio de Janeiro: Nau, 2001.

Camus, Albert. A peste. Tradução de Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Delta, 1969.

Defoe, Daniel. Um diário do ano da peste. Tradução de E. San Martin. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2002.

Deleuze, Gilles. “Para dar um fim ao juízo”. In: _______. Crítica e clínica. Tradução de Peter Pal Pelbart. São paulo: 34, 1997.

Foucault, Michel. “Os intelectuais e o poder: conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze”. In: ______. Microfísica do poder. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

Freud, Sigmund. Edição eletrônica das obras de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

Gagnebin, Jeanne Marie. Walter Benjamin: os cacos da história. Tradução de Sônia Salzstein. São Paulo: Brasiliense, 1993.

Gomes, Álvaro Cardoso (Org.). A estética surrealista: textos doutrinários comentados. Tradução de Eliane Pereira e Maria Vieira. São Paulo: Atlas, 1994.

Mariátegui, José Carlos. “O artista e a época”. In: _______. Mariátegui: política. Tradução de Manoel Bellotto e Anna Corrêa. São Paulo: Ática, 1982.

Nietzsche, Friedrich. Ecce Homo: como alguém se torna o que é. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Roudinesco, Elisabeth; Plon, Michel. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

1 Curioso o uso da idéia de “espontâneo” por André Breton, considerando sua aproximação de processos psicanalíticos. Como recorda Theodor Adorno, “a espontaneidade, mesmo nos processos psicanalíticos de associação, não é de modo algum espontânea” (Adorno, 2003, p. 137).

2 Adiante retornarei à frase, esclarecendo o contexto em que teria sido proferida por Freud. A frase de Freud na boca de Breton expressa, tanto num como noutro, uma declaração de intenções. Os desdobramentos em cada caso são bastante diversos.

3 Compartilho da idéia de Giulio Carlo Argan de que o Surrealismo é um movimento subversivo, e não propriamente revolucionário. André Breton, no entanto, insiste na imagem da “revolução surrealista”. Vale portanto um esclarecimento de Mariátegui: “Mas é que não há revolução comedida, equilibrada, branda, serena, plácida. Toda revolução tem seus horrores. É natural que as revoluções artísticas tenham também os seus” (Mariátegui, 1982, p. 197).

4 Em Um estudo autobiográfico (1924-25), Freud assinala o fato de suas conferências (por ocasião do vigésimo aniversário da Clark University) terem sido proferidas em alemão – e não em inglês. Seria esse fato (e sua afirmação posterior) uma demarcação de soberania?

5 O lembrete é de Eduardo Viveiros de Castro, recortado porém de contexto bastante diverso (Viveiros de Castro, Eduardo. “O nativo relativo”. In: Mana – estudos de antropologia social. Rio de Janeiro: Contra Capa; PPGAS/UFRJ, abril de 2002.

6 “É evidente, porém, que uma poética do inconsciente não pode ser associada a uma ideologia; a postura revolucionária do Surrealismo é, na verdade, apenas subversiva, enquanto revolta contra a repressão por parte do “bom senso” e do “decoro” burgueses, e enquanto primeiro desafio da imaginação no poder. (...). O inconsciente revelado pela arte surrealista como aparente objetividade, mas na verdade sob uma fosca luz de vício e culpa, é um patente “inconsciente de classe”: a outra face da lucidez racional, da eficiência, da clareza de visão do “dirigente” burguês. Pretende-se, em suma, demonstrar que as enaltecidas virtudes da classe no poder não passam de uma fachada...” (Argan, 1992, p. 361).

7 Esta tradução do subtítulo do ensaio de Benjamin, aqui utilizada por me parecer mais clara que a tradução indicada na bibliografia, é de Erwin Theodor Rosental (In: Benjamin, Habermas, Horkheimer, Adorno: textos escolhidos. Traduções de José Lino Grünnewald ... [et al.]. – 2ª ed. – São Paulo: Abril Cultural, 1983.

8 Hannah Arendt exemplifica algumas dificuldades de Walter Benjamin como crítico literário, sempre levando em conta (seria possível não levar?) as dificuldades financeiras por que passava: “Klaus Mann, que encomendara uma resenha sobre A ópera dos três vinténs de Brecht para o seu periódico Die Sammlung, devolveu o manuscrito porque Benjamin pedira por ele 250 francos franceses – na época, cerca de 10 dólares – e ele queria pagar apenas 150” (Arendt, 1987, p. 141).

9 Em carta de 1939, Benjamin escreve: “As mesmas circunstâncias que ameaçam enormemente minha situação européia possivelmente tornarão impossível para mim a emigração para os EUA” (apud Arendt, 1987, p. 146).



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