Morcegos em batman begins: significados e ressignificados resumo



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MORCEGOS EM BATMAN BEGINS: SIGNIFICADOS E RESSIGNIFICADOS

RESUMO

O objetivo do presente trabalho é empreender um estudo estético do filme Batman Begins, de Christopher Nolan, dirigindo nossa análise aos processos possíveis de significação e ressignificação da figura do morcego, do modo como é utilizada na obra de Nolan, haja vista seu uso através de recursos fílmicos diversos. Empregando a semiótica peirceana, realizamos uma leitura das cenas do filme nas quais há a presença da figura do morcego, observando qual foi o uso narrativo da figura e como esta se apresenta, quais os signos que nos são expostos, e suas camadas de significação.



Palavras-chave: Batman Begins, semiótica peirceana, morcego

ABSTRACT

The objective of the present article is to emprehend a aesthetical study of the film Batman Begins, by Christopher Nolan, directing our analysis towards the possible signification and ressignification of the figure of the bat, as it is utilized in Nolan’s work, hence its use trough a diversity of filmic resources. Using peircean semiotics, we read the film’s scenes in wich there is the presence of the figure of the bat, observing wich was its narrative use and how it is presented, wich signs are exposed to us, and its layers of signification.



Keywords: Batman Begins, peircean semiotics, bat

Este artigo se propõe a analisar a constituição da figura do morcego, pensada enquanto um aspecto da formulação estética do filme Batman Begins, de Christopher Nolan (2005), a qual é empregada repetidamente em diversos contextos cênicos. As representações do morcego não são dirigidas na tessitura da narrativa de modo uniforme, ao contrário, assumem diferentes cores e contornos, conforme o tratamento fornecido às sequências em que se manifestam. Partimos do princípio, portanto, de que este tratamento passa por modificações ao longo do filme, em um processo paulatino de ressignificação, no qual se fazem presentes alterações de enquadramento, dinâmica e trilha sonora.

Partindo do ponto de vista Aumont et. al (1994:16-17), compreendemos a estética do cinema como “estudo do cinema como arte, estudo dos filmes como mensagens artísticas”, e propomos o desenvolvimento de uma relação entre estética e significação, haja vista que, no filme que analisamos, a composição das imagens não se presta somente a um exercício de exploração da forma, mas a uma “formalização” do conteúdo, ou seja, um processo de formulação narrativa que emprega as camadas de sentido contidas nas imagens.

Podemos atribuir sentidos à narrativa através de formas repetidas nela encontradas, a manipulação de planos, deformações e efeitos visuais e sonoros, ou seja, metáforas visuais. (VANOYE; GOLIOT-LETTÉ, 2005, p.64). Deste modo, fundamentamos nossa análise na semiótica peirceana, observando o signo ou representâmen imagético em suas dimensões de significação através dos conceitos de ícone, índice e símbolo, formas sígnicas nas quais as relações de significação ocorrem em termos de primeiridade (qualidade), secundidade (relação) e terceiridade (representação).

O ícone apresenta-se como signo cuja relação com o objeto é de semelhança, constituindo imagem em si. O índice, por sua vez, é o signo que é sintomático de algo. Já o símbolo é o representâmen que possui com o objeto uma relação arbitrária, determinante do sentido (PEIRCE, 1977: 63-71). Empregaremos estes conceitos para a leitura de nosso objeto, aplicando-os às formas sígnicas constituídas pelos componentes estruturais da linguagem do filme.

Batman Begins narra a origem do personagem criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger. Na narrativa fílmica, Christopher Nolan reformula a já familiar figura do vigilante mascarado, o Batman, retornando ao tema proposto na iconografia da criação original: um herói que encarna a forma do morcego como meio de intimidação, valendo-se do medo como arma contra criminosos. Vê-se que em sua primeira aparição nos quadrinhos, Batman é descrito como uma figura “aterrorizante” (FINGER; KANE, 2007, p. 8). Na primeira versão de sua narrativa de origem, publicada ainda em 1939, o personagem busca caracterizar-se como um morcego para utilizar o potencial que a figura do animal tem de induzir medo e insegurança (FOX, KANE, 2007, p. 65).

Para além da dimensão icônica, Batman apresenta uma dimensão simbólica. Sua figura sintetiza um vasto conjunto de idéias e conceitos colecionados através de uma longa tradição de medos e mitos, que combinam criaturas da noite, vampiros e demônios com chifres, orelhas pontiagudas e asas coriáceas. Estes seres figuram numa tradição iconográfica que se desdobra dos manuscritos medievais (STEPHENS, 2002:110), de pinturas como Dante e Virgílio no Inferno de William-Adolphe Bouguereau e O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida com o Sol, de William Blake, ao repertório do macabro na literatura e no cinema, trabalhado no romance Drácula, de Bram Stoker e em sua adaptação cinematográfica homônima de 1931, dirigida por Tod Browning, bem como no filme The Bat, de Roland West (1926).

A partir destas e outras influências, o design de Batman foi concebido por Bob Kane a partir da forma básica de outro herói, então um recente sucesso, o Superman. O quadrinista ainda incorporou aspectos dos filmes The Mark of Zorro (Fred Niblo, 1920) e The Bat, e os esboços de uma máquina voadora de Leonardo da Vinci. Bill Finger colaborou com o design final, propondo a Kane que substituísse as asas rígidas por algo mais semelhante a um manto, acrescentando também um capuz com orelhas pontudas.(GREENBERGER; MANNING, 2010:08)

As raízes para a narrativa de origem que encontramos em Batman Begins remontam, sobretudo, às histórias “Batman: Ano Um” (MILLER; MAZZUCHELLI, 2011), “O Homem que cai” (O’NEIL; GIORDANO, 2009) e “O longo dia das bruxas” (LOEB; SALE, 2008). Todavia, é a aventura em quadrinhos “Batman luta contra o dirigível da morte”, de autoria de Gardner Fox (roteiro) e Bob Kane (desenhos), publicada em novembro de 1939, que apresenta a primeira versão da gênese ficcional do herói, em um prólogo de duas páginas para a trama principal, na qual já se faz presente a figura do morcego.

Ali está o evento que desencadeou o surgimento de Batman, recontado diversas vezes histórias em quadrinhos como O Cavaleiro das Trevas (Miller, 1986), Batman: Ano Um e O Homem que cai, já referidos, assim como nos filmes Batman (BURTON, 1989), Batman Eternamente (SHUMACHER, 1995) e Batman Begins. Nestas narrativas de origem, encontramos o episódio da morte dos pais de Bruce Wayne durante um assalto. Na primeira versão do evento, publicada em 1939, alguns quadros abaixo da cena do assassinato, o personagem depara-se com a figura de um morcego. Aqui o animal se manifesta como uma resposta a um questionamento: que forma assumir para levar terror aos corações dos criminosos, “um bando de covardes supersticiosos”? (FOX; KANE, 2001, p. 65). E eis que, Bruce Wayne conclui que deve tornar-se um símbolo.

Christopher Nolan ressignifica, acrescentando e remodelando, a gênese do herói, a partir destes eventos fundamentais que vimos ao longo da narrativa fílmica. Portanto, através de sucessivas situações envolvendo morcegos, todavia “recortadas” de maneiras diferentes, aponta o tema do medo, da compreensão do potencial deste como ferramenta e de sua utilização efetiva na ação do herói. Neste sentido, o filme nos apresenta diversas situações emblemáticas pela manipulação desta carga simbólica, qual seja o morcego. A começar da abertura, quando uma massa de morcegos forma o desenho estilizado que é adotado como símbolo pelo Batman, como emblema em sua caracterização física – ou seja, a imagem de um morcego formada por morcegos, o simbólico formado pelo icônico.

O filme se inicia com um pesadelo do protagonista. Uma explosão de morcegos ocupa a tela. Um Bruce Wayne de sete anos de idade é dominado pelo medo, enquanto é envolvido por uma nuvem de criaturas aladas, chiando e adejando em espiral, poço acima. Os enquadramentos do espaço exíguo, os efeitos sonoros e o choque da aparição dirigem o tom da narrativa. A imagem se “materializa” novamente ao longo da trajetória do personagem: associada à escuridão, à solidão, à “perda de chão”; a massa ruidosa de asas e sombras remete ao medo e à incerteza – sentimentos relacionados à queda na caverna desconhecida no início do filme e à morte dos pais.

Quando a família Wayne assiste a Mefistófele1, aparecem atores caracterizados como homens-morcego – o que causa terror no jovem Bruce Wayne e o leva a pedir aos pais que abandonem o teatro. É uma passagem significativa, em primeiro lugar, porque evidencia o modo como o medo age sobre Bruce, através de uma montagem que alterna os atores – a qualidade, o ícone – e os morcegos da memória do ataque – índice –, construindo uma relação na qual toda forma semelhante a um morcego é equalizada com a sensação de insegurança – símbolo. Em segundo lugar, ressaltamos a cena porque o medo supracitado é o fator que levará, em extremo, à constituição do herói, visto que a conduzirá ao assassinato dos pais de Bruce por um assaltante, quando a família passa pelo beco nos fundos do teatro.

Na continuidade, Bruce, em uma espécie de busca pessoal, se encontra no santuário da Liga das Sombras, no Himalaia, onde é treinado para tornar-se um de seus membros. Exposto aos efeitos alucinógenos dos vapores resultantes da incineração da papoula azul, ele abre um baú, de onde vê jorrarem morcegos. Trata-se aqui de um momento significativo, pois tem início o processo de superação do medo para o protagonista. Enfrentando seu medo pela primeira vez, ele precisa encontrar um adversário específico numa massa homogênea de adversários, extraindo sentido de uma escuridão maciça, onde não há rostos definidos. É o signo de algo que atormenta o personagem, onipresente e poderoso, mas difícil de definir de maneira exata.

Depois de ter retornado a Gotham, Bruce está no interior da Mansão Wayne, cuidando dos preparativos para sua incursão contra o mundo do crime, quando avista um morcego solitário. Curioso, Bruce desce à mesma gruta onde caiu quando era jovem, e desta vez entra na passagem por onde os morcegos saíram daquela vez. No interior da caverna, situada sob a propriedade dos Wayne, o personagem é confrontado mais uma vez por uma massa de criaturas aladas, o que, a princípio, parece causar inquietação; todavia, esta é seguida por uma dramática suspensão dos temores. Aqui, de modo definitivo, o personagem associa-se à figura do morcego, posterior e gradativamente lapidada.

Quando Bruce e Alfred dialogam, ato contínuo, no interior caverna, os animais aparecem calmamente aninhados na abóbada. Não representam uma ameaça iminente como antes. Todavia, ao ser exposto à toxina do Dr. Jonathan Crane, o Espantalho, Batman vê saírem morcegos do rosto do antagonista, dando a entender que, apesar dos esforços do protagonista, resquícios de seu temor permanecem. O teor simbólico é retomado através da montagem, que alterna a cena com fragmentos de suas vivências infantis.

Em oposição, na sequência que precede a fuga de Batman do Asilo Arkham, o personagem utiliza um sonar para convocar as criaturas aladas e usá-las como meio de intimidação – e distração – contra a polícia. Os animais aparecem novamente como agressores, mas a favor do protagonista. Se para os policiais, a aparição é índice de uma quebra desestabilizadora da ordem das coisas, para Bruce é um símbolo de sua nova posição: integra-se ao medo para superá-lo. Em contraste, na cena que sucede a fuga, os morcegos aparecem, novamente, comodamente aninhados no interior da caverna, expressando profunda e íntima familiaridade entre estes e Batman. Este recorte pode ser interpretado como signo que sela o processo da convivência com o medo – o que não significa sua total supressão, mas sua admissão como fator na formação de uma identidade.

Portanto, sob o ponto de vista da semiótica peirceana, os animais são explorados inicialmente numa dimensão icônica, qual seja a das figuras selvagens, incontroláveis que aparecem de forma repentina e encerram a tela em caos; assumem então uma dimensão de índice, à medida que remetem a momentos diversos de insegurança e inquietação, vivências fragmentadas expostas através de cortes bruscos, cenas escuras ou pouco reveladoras em meio a uma montagem claustrofóbica à qual acompanha a trilha sonora constantemente tensa; por fim, o signo do morcego se cristaliza na dimensão simbólica: torna-se referência sólida para um objeto que, no entanto, é aparentemente fluido, instável: o medo de Bruce Wayne. Toda a insegurança do personagem, seus conflitos internos, sua busca por um objetivo – conceitos que são ressignificados de maneira móvel ao longo do filme – sublimam-se no signo do morcego.

Há que se ressaltar que, evidentemente, afora as mencionadas aparições, há a presença simbólica dos morcegos na caracterização do personagem, na conformação de seu traje e armas. Isso já se faz presente desde a primeira história em quadrinhos do personagem, publicada em maio de 1939. Ainda desprovido de um arsenal variado como aquele que é apresentado em Begins, seu uniforme, destaca as formas do manto e do capuz fundamentais na iconicidade do personagem, sua qualidade primeira, sua estética que o torna reconhecível. Segundo Vanoye e Goliot-Letté (2005: 53), há na leitura do analista, um processo de significação no qual este opera de acordo com seus próprios valores de interpretação – o próprio analista é um autor, neste sentido –, que está separado da lógica criativa do autor e da coerência interna da obra. Buscamos aqui, através da interpretação dos signos imagéticos apresentados, construir sentido em motivos persistentes da narrativa.



CONSIDERAÇÕES

Reais ou não – o caso dos atores fantasiados na ópera e das alucinações –, os morcegos permeiam os pensamentos do protagonista, agindo, por boa parte do filme, de maneira perniciosa, debilitante. Quando, porém, Wayne avista o morcego no interior de sua mansão, agora uma figura solitária, num ambiente claro, esta não é uma figura aterrorizante; gera curiosidade, o que o levará a buscar a caverna de sua infância. Se, para o garoto aterrorizado que cai no poço ao início do filme a caverna é um ambiente de escuridão e selvageria, marco indicial da quebra de uma rotina de segurança, é também o local onde o Bruce adulto, confronta seus temores e triunfa sobre eles.

Deste modo, o protagonista se une a seu medo, construindo uma persona cuja manifestação visual, o traje de combate que o caracteriza, é modelada a partir da figura do morcego. “Devo me tornar um símbolo”, conclui, e, com efeito, reveste-se com a forma do signo que o atormenta – ou atormentava – de modo que passa a servir-se dele para seus fins. Em seu filme, Nolan ressignifica o morcego, utilizando-o como fio condutor para a narrativa. Trabalhado nas três dimensões sígnicas, mas tomado principalmente como símbolo, é elemento determinante de sentido, em última análise, da transformação de Bruce Wayne em Batman.

REFERÊNCIAS

AUMONT et al. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

BURTON, T. (1989) - Batman [Registo DVD]. USA: Warner Bros.

CROSS, Milton. Mefistofele – Arrigo Boito. In: O livro de ouro da ópera. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

FINGER, B. (texto) e KANE, B. (arte). O caso da sociedade química in: Batman: Crônicas vol. um. São Paulo: Panini Comics, 2007

FOX, G. (texto); KANE, B. (arte). Batman luta contra o dirigível da morte in: Batman: Crônicas vol. um. São Paulo: Panini Comics, 2007

GREENBERGER, R.; MANNING, M.K. The Batman Vault: A Museum-in-a-Book with Rare Collectibles from the Batcave. Philadelphia: Running Press, 2010.

MAIORINO, G. Leonardo da Vinci: the Daedalian mythmaker

MILLER, F. Batman: o cavaleiro das trevas. São Paulo: Abril, 1989.

MILLER, F. (texto); MAZZUCHELLI, D. (arte) Batman: Ano Um. Barueri: Panini Comics, 2011.

NOLAN, C. (Director). (2005). Batman begins [DVD]. Burbank, CA: Warner Bros.

O’NEIL, D. (texto); GIORDANO, D. (arte). O homem que cai. In: Batman 70 anos vol. 2: os segredos da batcaverna. Barueri: Panini Comics, 2011.

PEIRCE, C. S. Semiótica. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva, 1977.

SCHUMACHER, J. (1995) – Batman Forever [Registo DVD]. USA: Warner Bros.

STEPHENS, W. Demon Lovers: Witchcraft, Sex, and the Crisis of Belief. Chicago and London: The University of Chicago Press, 2002.

VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 2002.



1 Ópera de Arrigo Boito, baseada no poema Fausto, de Goethe. O trecho mostrado no filme corresponde à cena do sabá das feiticeiras, no segundo ato. (CROSS, 2002:300)


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