Morte em ordens sagradas



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MORTE EM ORDENS SAGRADAS

P. D. JAMES


MORTE EM ORDENS SAGRADAS
Tradução de CATARINA ROCHA LIMA
CÍRCULO DE LEITORES

Título original: DEATH IN HOLY ORDERS
Capa: JOSÉ NEVES
Foto da capa: PHOTODISC
ISBN 972-42-2852-5
Copyright 2001 by P. D. James
Impresso e encadernado para Círculo de Leitores
por Grafiasa - Indústria Gráfica, SÁ, Rio Tinto
em Dezembro de 2002
Número de edição: 5601
Depósito legal número 187200/02

Digitalização e arranjo: Fátima Chaves
Esta obra destina-se exclusivamente a portadores de deficiência visual.

Para Rosemary Goad Pelos quarenta anos como minha editora e amiga.

Ao situar esta história de crime e de mistério num instituto teológico da Igreja Anglicana, não é meu desejo desanimar todos aqueles que pensam dedicar-se ao sacerdócio, nem, tão-pouco, insinuar que os visitantes de tais institutos, em busca de sossego e de renovação espiritual, correm perigo de deparar com uma paz mais duradoura do que aquela que tinham em mente. Assim, torna-se importante realçar que Santo Anselmo não se baseia num instituto de Teologia verdadeiro, actual ou extinto, e que os seus excêntricos padres, ordinandos, empregados e visitantes são personagens de ficção e existem apenas na imaginação da autora e dos seus leitores.


Quero exprimir a minha gratidão a um certo número de pessoas que me ajudaram, respondendo às minhas perguntas; por conseguinte, quaisquer erros, de carácter teológico ou outro, são da minha inteira responsabilidade. Agradeço, em particular, ao falecido arcebispo Lorde Runcie, ao reverendo Dr. Jeremy Sheehy, ao reverendo Dr. Peter Groves, à Dr.a Ann Priston, dos Serviços da Ciência Forense, e à minha secretária, Mrs. Joyce McLennan, cujo contributo neste romance foi muito além da sua destreza na utilização de um computador.
P. D. JAMES

I
LIVRO UM


Areia Mortífera

Partiu do padre Martin a ideia de que eu escrevesse um relato sobre como descobri o cadáver.
Perguntei-lhe: ”Como se escrevesse uma carta, contando o que sucedeu a um amigo?”
O padre Martin replicou: ”Como se fosse uma obra de ficção, em que você se mantém à distância, analisando os acontecimentos, enquanto se vai lembrando do que fez, do que sentiu... Como se tivesse acontecido a outra pessoa.”
Se bem que percebesse aonde ele queria chegar, não sabia como começar. ”Tudo o que aconteceu, ou apenas o meu passeio pela praia e a descoberta do corpo do Ronald?”, perguntei.
Tudo o que lhe aprouver contar. Escreva sobre o instituto ou sobre a sua vida se assim o desejar. Penso que lhe será de grande ajuda.”
E com o senhor? Ajudou-o?”
Não faço a menor ideia do que me levou a pronunciar aquelas palavras. Saíram-me da boca. Na realidade, era uma pergunta tola, e, de certa forma, até impertinente, mas o padre Martin pareceu não se importar.
Após uma pausa, retorquiu: ”Não me ajudou, mas tudo se passou há já muito tempo e pode ser diferente consigo.”
Devia pensar nos tempos de guerra, quando fora feito prisioneiro pelos japoneses, e nos acontecimentos horríveis que havia presenciado no campo de batalha. O padre Martin nunca fala dos seus tempos de guerra, porque haveria de falar comigo sobre assunto tão delicado? No entanto, sei que ele não fala desse assunto com mais ninguém, nem mesmo com os outros padres.
Esta conversa deu-se há dois dias, quando caminhávamos pelos claustros, depois das vésperas. Deixei de ir à missa desde que o Charlie morreu, mas assisto às vésperas. No fundo, trata-se de uma questão de cortesia. Não me parece correcto trabalhar no instituto, receber um salário, aceitar a bondade dos padres e não ir a um dos serviços religiosos. Talvez
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esteja a ser demasiado sensível. Mr. Gregory, o professor de Grego a tempo parcial, vive numa das vivendas, tal como eu, e nunca vai à missa, a não ser quando tocam trechos musicais do seu agrado. Nunca alguém me pressionou para ir à missa. Nem, tão-pouco, alguma vez me perguntaram porque motivo deixei de frequentar a igreja. Contudo, como é óbvio, repararam, porque reparam em tudo.
Quando regressei a casa, pensei no que o padre Martin me dissera se a ideia seria ou não boa. Nunca tive qualquer dificuldade em escrever. Quando andava na escola, tinha boas notas em redacção e Miss Allison a nossa professora de Inglês, costumava dizer que eu dispunha de talento suficiente para me tornar escritora, mas eu sabia que ela se enganava. Não sou dotada de grande imaginação, pelo menos, do género da que é necessária aos escritores. Não tenho o dom de inventar histórias. Apenas sei escrever o que vejo, o que faço e o que sei e, por vezes, o que sinto, se bem que já não seja tão fácil. Desde a mais tenra idade que sempre quis ser enfermeira. Agora, com sessenta e quatro anos, estou reformada, mas ainda me mantenho activa aqui, em Santo Anselmo. Sou, em parte, a enfermeira-chefe do instituto: trato de pequenos achaques, mas também me ocupo da roupa de cama. As minhas funções são simples, porque sofro do coração, o que me leva a considerar-me uma mulher de sorte por continuar a trabalhar. A direcção do instituto facilita-me a vida ao máximo. Foi mesmo ao ponto de arranjar um carrinho, leve, para que eu não me sinta tentada a carregar fardos de roupa demasiado pesados. Devia ter falado nisto antes. Nem sequer escrevi o meu nome. Chamo-me Margaret Munroe.
Creio saber por que razão o padre Martin sugeriu que talvez me fizesse bem se começasse a escrever de novo. Ele sabe que eu costumava escrever uma extensa missiva ao Charlie, todas as semanas. Penso que, à excepção da Ruby Pilbeam, ele é o único a sabê-lo. Todas as semanas, sentava-me e tentava lembrar-me do que tinha acontecido desde a última carta que escrevera, como, por exemplo, das pequenas trivialidades que nunca eram irrelevantes para o Charlie: as refeições que eu tomava, as piadas que ouvia, as histórias sobre os alunos, a descrição do tempo. Talvez possa pensar-se que pouco há a contar, numa localidade tão pacata como esta, situada nas margens de penhascos, longe de tudo, mas era, invariavelmente, uma surpresa para mim descobrir tudo o que me vinha à mente, de cada vez que escrevia. E sabia que o Charlie apreciava as minhas cartas. ”Continua a escrever, mãe”, dizia-me, quando vinha a casa, em licença. E era o que eu fazia.
Depois de morrer em combate, o exército enviou-me todos os seus pertences e encontrei um grande maço de cartas. Não todas as cartas que lhe escrevera. Ter-lhe-ia sido impossível guardar todas. No entanto, guardara as mais compridas. Peguei no maço, levei-o até ao promontório e queimei-o.
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Estava um dia ventoso, como é frequente nesta localidade costeira, e as chamas crepitaram, saltaram, mudando de direcção com o vento. Os pedaços de papel chamuscados ergueram-se no ar e voltearam em torno do meu rosto, como traças. O cheiro do fumo feriu as minhas narinas, o que achei estranho, porque a fogueira era pequena. Bom, mas o que estou a tentar dizer é que sei porque foi que o padre Martin sugeriu que eu relatasse, por escrito, o que aconteceu. Pensou que, se eu escrevesse algo, qualquer coisa, isso talvez pudesse trazer-me de volta à vida. É bom homem, talvez até mesmo um santo homem, mas são tantas as coisas que ele não compreende.
Não deixa de ser estranho escrever este relato sem saber se alguém o lerá. Nem sequer sei se estou a escrever mais para mim própria ou para um leitor imaginário, para quem tudo o que diga respeito a Santo Anselmo seja desconhecido ou constitua uma novidade. Sendo assim, talvez seja melhor dizer algo sobre o instituto, a fim de situar o cenário. Santo Anselmo foi fundado em 1861 por uma senhora muito devota, de seu nome Agnes Arbuthnot, que queria certificar-se de que haveria sempre ”rapazes instruídos e devotos, ordenados para serem padres católicos no seio da Igreja Anglicana”. Recorri às aspas porque a frase é de Miss Arbuthnot. Se a sei, deve-se ao facto de existir um folheto sobre a sua vida na igreja. Doou o edifício, os terrenos, quase toda a sua mobília e dinheiro suficiente pelo menos, assim pensava para que o instituto durasse eternamente. Contudo, o dinheiro nunca chega e, actualmente, o Instituto de Santo Anselmo tem de ser financiado, na sua maior parte, pela Igreja. Sei que tanto o padre Martin como o padre Sebastian temem que a Igreja tencione mandar encerrar o instituto. Nunca falam sobre o assunto abertamente e muito menos o comentam com o pessoal, apesar de todos o conhecermos. Numa comunidade pequena e isolada, como Santo Anselmo, as notícias e os boatos parecem ser trazidos, em silêncio, pelo vento.
Além de doar o edifício, Miss Arbuthnot mandou erigir os claustros norte e sul, nos fundos, para que pudessem ser aproveitados como quartos para os estudantes, e a ala de quartos de hóspedes, que liga o claustro sul à igreja. Mandou construir também quatro vivendas para os funcionários, alinhadas num semicírculo, no promontório, a cerca de cinquenta metros do edifício principal. E baptizou essas pequenas vivendas com os nomes dos quatro evangelistas. Eu vivo na Vivenda São Mateus, a casa mais a sul. A Ruby Pilbeam, que faz as vezes de cozinheira e governanta, e o seu marido, homem dos sete ofícios, residem na Vivenda São Marcos. Mr. Gregory ocupa a Vivenda São Lucas, e, na vivenda mais a norte, de seu nome São João, reside o Eric Surtees, que ajuda Mr. Pilbeam nos seus afazeres. O Eric cria porcos, mas mais como um passatempo do que para fornecer sustento ao instituto. Para além de nós os quatro, ainda há as empregadas de limpeza que trabalham a tempo parcial e residem em
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Reydon e Lowestoft. Temos vinte estudantes, quatro padres residentes e cá nos vamos arranjando. Até porque seria difícil substituir qualquer um de nós. Esta região despovoada, varrida pelo vento, onde não há uma aldeia, um pub, uma loja sequer, é demasiado remota para a maior parte das pessoas. Pessoalmente, gosto de viver aqui, mas até mesmo eu sinto, por vezes, que se trata de um local assustador e algo sinistro. Ano após ano, o mar corrói os penhascos arenosos e, em certas ocasiões, deixo-me ficar no rebordo do penhasco, contemplando o horizonte. Consigo, então, imaginar uma onda gigantesca erguendo-se, muito branca e reluzente, avançando para a praia, abatendo-se sobre os torreões, as torres da igreja e as casas, e varrendo-nos a todos do mapa. A velha aldeia de Ballard’s Mere está submersa há séculos e, em certas noites mais ventosas, as pessoas dizem que se consegue ouvir o eco dos sinos da igreja, cujas torres ficaram para sempre debaixo de água. O que o mar não destruiu foi devastado por um grande incêndio, em 1695. Nada restou da ancestral aldeia, a não ser a igreja medieval, que Miss Arbuthnot mandou restaurar e transformou numa parte integrante do instituto, e os dois pilares de tijolo, tudo o que sobrou do solar, de estilo isabelino, que havia aqui.
Talvez seja melhor eu explicar a maneira de ser do Ronald Treeves, o rapaz que morreu. Afinal, é sobre a sua morte que deveria estar a escrever. Antes de o inquérito se iniciar, a Polícia interrogou-me, querendo saber se eu o conhecia bem. Penso que o conhecia melhor do que o restante pessoal, mas pouco adiantei às autoridades, porque nada havia a dizer. Além de que não achei que fosse correcto da minha parte dar voz aos boatos que correm sobre os nossos alunos. Sabia que ele não era popular, mas não o disse à Polícia. O problema do Ronald era não estar integrado neste meio e, pela minha parte, creio que ele tinha consciência disso. Primeiro, o pai dele era Sir Aired Treeves, que dirige uma importante empresa de armamento. O Ronald fazia questão em que todos soubessem que o seu pai era muito rico, demonstrando-o pelos seus pertences. Tinha um Porsche, ao passo que os outros alunos aqueles que possuem um automóvel só dispõem de carros utilitários. Falava também das suas férias, em locais paradisíacos e remotos, que os outros alunos munca poderiam visitar nem, muito menos, passar férias lá.
Tudo isto talvez lhe tivesse conferido popularidade em outros institutos, mas não aqui. Todos têm o seu quê de pedantismo relativamente a alguma coisa, por mais que o neguem, mas, em Santo Anselmo, não se trata de uma questão de dinheiro. Nem, tão-pouco, de tradição familiar, muito embora o filho de um pároco tenha mais hipóteses de se tornar popular do que o filho de um cantor da moda. Penso que o que importa, para a juventude de hoje, é a esperteza, o bom aspecto e o sentido de humor. Gostam de pessoas que os façam rir. O Ronald não era tão esperto quanto pensava e nunca conseguia fazer rir os outros. Os colegas achavam-no
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monótono, e, como não podia deixar de ser, quando ele se apercebeu disso, tornou-se ainda mais distante. Não disse nada disto à Polícia. De que serviria? O Ronald estava morto. Era, também, bisbilhoteiro, porque queria sempre saber tudo o que se passava e não parava de fazer perguntas. Nunca teve sorte comigo. No entanto, por vezes, à noite, aparecia em minha casa, sentava-se e começava a falar, enquanto eu tricotava e o escutava em silêncio. No Instituto de Santo Anselmo, os alunos não são encorajados a visitar as casas dos funcionários, salvo quando são convidados para tanto. O padre Sebastian defende a nossa privacidade, mas eu não me importava de receber a visita do jovem Ronald. Ao recordar aqueles serões, chego à conclusão de que o Ronald era um rapaz solitário. Caso contrário, nunca se teria dado ao trabalho de me visitar. Depois, fazia-me lembrar o meu Charlie. O meu filho não era distante nem impopular, mas gosto de pensar que, se ele se sentisse sozinho ou precisasse de desabafar, haveria alguém, como eu, disposto a escutá-lo.
Quando a Polícia apareceu, perguntaram-me por que motivo eu fora procurar o Ronald na praia. Como é evidente, não fora por isso que eu resolvera ir até à praia. Duas vezes por semana, faço um passeio solitário, depois do almoço, e, quando saí de casa, nem sequer sabia que o Ronald desaparecera. Mesmo que o soubesse, nunca teria ido procurá-lo na praia. É difícil imaginar o que pode acontecer a alguém numa praia deserta. Não se corre perigo, se não escalarmos o quebra-mar nem nos aproximarmos demasiado dos penhascos. Quando os alunos chegam a Santo Anselmo, são imediatamente avisados dos perigos que correm, se forem nadar sozinhos ou se resolverem aproximar-se dos penhascos arenosos.
No tempo de Miss Arbuthnot, era possível descer directamente da mansão até à praia, mas o mar alterou a paisagem, depois de invadir a costa. Agora, quando saímos do instituto, temos de andar uns oitocentos metros para sul, em direcção ao único local onde os penhascos são baixos e suficientemente firmes para suportar uma meia dúzia de degraus velhos, de madeira, com um corrimão. Para lá deste ponto, fica Ballard’s Mere, imersa na escuridão, rodeada de árvores e separada do mar apenas por um estreito baixio de cascalho. Por vezes, vou até ao pântano, mas costumo dar meia volta. Naquele dia, contudo, desci os degraus que levam à praia e comecei a caminhar, em direcção a norte.
Depois de uma noite chuvosa, o dia estava bonito, o céu azul, pontilhado por poucas nuvens escuras, e a maré, baixa. Contornei um pequeno promontório e avistei a praia deserta, estendendo-se à frente dos meus olhos, com os seus estreitos recifes de cascalho e o quebra-mar, coberto de musgo, avançando mar adentro. Foi então que vi, uns quinze metros à minha frente, o que me pareceu ser uma trouxa escura, na base da arriba. Corri para aquela estranha trouxa e encontrei uma batina preta e um capote castanho, cuidadosamente dobrados. Uma parte do penhasco
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havia resvalado e desabado e, agora, jazia na praia, num grande bloco de areia espessa, misturada com tufos de relva e pedras. Soube imediatamente o que tinha acontecido. Tenho a vaga ideia de haver soltado um grito abafado. Logo de seguida, comecei a esgravatar a areia. Sabia que um corpo estava soterrado debaixo daquele bloco, mas era impossível saber onde. Lembro-me de como a areia grossa se incrustou debaixo das minhas unhas e de como os meus esforços me pareceram lentos, o que me levou, enraivecida, a revolver a areia, aos pontapés, fazendo-a saltar tão alto, que me atingia no rosto e nos olhos. Foi então que reparei numa vara de madeira, de pontas afiadas, a uns quinze metros, perto do mar. Fui buscar a vara e usei-a como uma pá, começando a escavar. Ao fim de alguns minutos, a ponta da vara embateu em algo macio. Ajoelhei-me e comecei novamente a revolver a areia com as mãos. Por fim, pude ver que a vara atingira duas nádegas, cobertas de veludo castanho.
Após aquela descoberta, não consegui prosseguir. O meu coração batia descompassadamente e as forças faltavam-me. Tinha a sensação de que acabara de humilhar quem quer que estivesse soterrado debaixo da areia, e de que havia algo de ridículo e de quase indecente naquelas duas nádegas expostas. Sabia que a pessoa estava morta e que toda a minha ânsia de nada serviria. Nunca poderia ter salvo aquela pessoa, mas era-me insustentável prosseguir as escavações sozinha, descobrindo o corpo, centímetro por centímetro, mesmo que tivesse forças para tanto. Só me restava dar a notícia e pedir ajuda. Penso que soube, mesmo naquele momento, quem era o morto. No entanto, lembrei-me, de repente, de que as batinas de todos os ordinandos estão etiquetadas com os seus nomes. Virei a gola da batina e li o nome inscrito.
Depois, lembro-me de percorrer a praia, aos tropeções, por entre os baixios, cobertos de seixos, e de subir, a custo, os degraus. Em seguida, desatei a correr pelo carreiro que segue ao longo do penhasco, em direcção ao instituto. Era um trajecto de oitocentos metros, mas pareceu-me interminável e, a cada passo que dava, com crescente dificuldade, a mansão parecia afastar-se. O meu coração batia com mais força ainda e os ossos das minhas pernas pareciam querer desfazer-se. Foi então que ouvi um carro. Voltei-me para trás. O veículo acabara de sair da estrada, avançando, na minha direcção, pelo carreiro que corre junto da margem do penhasco. Postei-me a meio do carreiro, acenei freneticamente e o carro abrandou. Era Mr. Gregory.
Não me recordo de como foi que lhe dei a notícia. Tenho uma vaga imagem da minha pessoa, parada na estrada, coberta de areia, com os cabelos ao vento, gesticulando na direcção do mar. Mr. Gregory nada disse. Abriu a porta do carro, em silêncio, e ajudou-me a entrar. Talvez tivesse sido mais aconselhável seguir directamente até ao instituto mas, ao invés, Mr. Gregory deu meia volta e seguiu até ao local onde se encontram os
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degraus que levam à praia. Desde então, tenho perguntado a mim própria se ele não acreditou em mim e quis certificar-se do que eu lhe contara, antes de avisar os outros. Já não consigo lembrar-me da caminhada que fizemos até à praia. A única imagem nítida que me vem à mente é a de nós os dois parados, junto do corpo sem vida do Ronald. Sempre sem pronunciar uma só palavra, Mr. Gregory ajoelhou-se e começou a escavar com as mãos. Usava luvas de cabedal, o que o ajudou nesse trabalho. Ambos revolvemos apressadamente a areia, em silêncio, tentando alcançar â cabeça do morto.
Além de calças de veludo, o Ronald usava apenas uma camisa cinzenta. Por fim, conseguimos pôr a descoberto a parte de trás da sua cabeça. Era como desenterrar um cão ou um gato mortos. A camada mais funda de areia ainda estava húmida, e o cabelo loiro do Ronald era, agora, de um tom cinzento-escuro. Tentei limpar os seus cabelos e senti, nas palmas das mãos, quanto os grãos de areia eram ásperos e frios.
Não mexa no corpo!”, gritou, em tom ríspido, Mr. Gregory. Assustada, afastei a mão, como se tivesse acabado de sofrer uma queimadura. ”É melhor deixarmos o corpo tal como o encontrámos, até porque já sabemos de quem se trata.”
Se bem que eu soubesse que o Ronald estava morto, achava que devíamos, ao menos, voltá-lo. Ainda nutria a ridícula esperança de que talvez pudéssemos fazer-lhe respiração boca a boca. Muito embora tivesse plena consciência de que não estava a ser racional, algo me dizia que devíamos agir. Mr. Gregory descalçou a luva da mão esquerda e pressionou dois dedos contra a garganta do Ronald. ”Está morto”, anunciou. ”Não restam dúvidas. Já nada podemos fazer por ele.”
Ficámos, ali, ajoelhados de cada lado do corpo, durante algum tempo. Quem nos visse, podia pensar que rezávamos, e, pela minha parte, teria murmurado uma prece pelo Ronald, mas faltavam-me as palavras. Então, o Sol irrompeu no céu e, de repente, aquela cena tornou-se irreal. Era como se, de um minuto para o outro, Mr. Gregory e eu passássemos de uma fotografia a preto e branco para uma fotografia a cores. À nossa volta, imperava a claridade. Os grãos de areia que se haviam incrustado no cabelo do Ronald brilhavam, agora, quais pontos de luz.
Temos de pedir ajuda e de chamar a Polícia”, murmurou Mr. Gregory. ”Importa-se de ficar aqui, junto do corpo? Eu não demoro. Pode acompanhar-me, se preferir, mas penso que seria melhor que um de nós ficasse aqui.”
Vá. Demorará menos tempo de carro. Eu não me importo de esperar.”
Observei Mr. Gregory, quando, com passos apressados, se afastou em direcção ao quebra-mar, contornou o promontório e desapareceu de vista. Um minuto depois, ouvi o motor do carro. Afastei-me, então, do corpo e
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sentei-me. Os seixos ainda estavam molhados, em virtude da chuva que caíra durante a noite, e aquela humidade fria infiltrou-se nas minhas calças de algodão. Com os braços à volta dos joelhos, contemplei o mar ali sentada, pensei no Mike, pela primeira vez em muitos anos. Morreu quando a sua motocicleta derrapou, na auto-estrada, e embateu numa árvore. Tínhamos regressado da nossa lua-de-mel havia menos de duas semanas. Conhecêramo-nos pouco mais de um ano antes. O que sen ti, com a morte do Mike, foi um choque e uma sensação de completa in credulidade. Não fui invadida pelo desgosto. Naquela altura, pensei que os meus sentimentos eram a expressão do desgosto mas, passados todos estes anos, sei que não foi esse sentimento que me assolou. Depois da morte de Mike, se bem que soubesse que me tornara Margaret Munroe, estado civil: viúva, ainda me sentia Margaret Parker, de vinte e um anos de idade, estado civil: solteira, e enfermeira. Ao aperceber-me de que estava grávida, também isso me pareceu algo de irreal Quando o bebé nasceu, parecia nada ter a ver com o Mike, com a nossa curta vida em comum, nem, tão-pouco, comigo. Os laços de sangue surgiram mais tarde e, por isso mesmo, revelaram-se mais fortes. Quando o Charlie morreu, chorei por ele e pelo seu pai, mas continuo sem conseguir ter uma recordação nítida do rosto do Mike.
Tinha consciência da presença do corpo do Ronald, atrás de mim, mas sentia-me aliviada por não estar sentada a seu lado. Certas pessoas, quando velam os mortos, sentem que a sua presença é uma companhia, mas não era esse o meu caso, pelo menos relativamente ao Ronald. Tudo o que sentia era uma profunda tristeza. Não por aquele pobre rapaz nem, sequer, pelo Charlie, pelo Mike ou por mim mesma. Era mais uma tristeza universal, que parecia impregnar tudo o que me rodeava, como a brisa que me aflorava as faces, o céu, onde havia algumas nuvens, correndo quase deliberadamente, e o próprio mar. Dei comigo a pensar em todas as pessoas que haviam vivido e morrido nesta zona costeira e nos esqueletos que jaziam nas profundezas do mar. As suas vidas deviam ter sido importantes para eles e para os seus entes queridos, mas, agora, estavam mortos e era como se nunca houvessem nascido. E, daqui a cem anos, ninguém se lembrará do Charlie, do Mike ou de mim. As nossas vidas são tão insignificantes quanto um grão de areia. Sentia a alma despojada, inclusivamente de qualquer sentimento de tristeza. Com o olhar perdido no mar imenso, aceitando que, no fim, nada conta e que tudo o que nos resta é aproveitar o momento presente, senti-me em paz.


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