Muito além do que se vê: a alegoria, em ensaio sobre a cegueira, de josé saramago



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MUITO ALÉM DO QUE SE VÊ: A ALEGORIA, EM ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, DE JOSÉ SARAMAGO
Adriana Vieira de Souza¹.

¹Mestra em Letras com ênfase em Estudos Literários, professora da Faculdade Castelo Branco, E-mail: adriana.profa.fcb@gmail.com.



RESUMO: O objetivo desta pesquisa é a análise das características textuais trabalhadas por José Saramago, na estrutura alegórica de seu romance Ensaio sobre a cegueira (1995). Para isso, realiza uma revisão teórica do conceito de alegoria, considerando sua origem, formas e subdivisões, segundo o critério da clareza, e aponta as semelhanças e as desproporções entre alegoria e outras figuras de linguagem, tratando, também, da classificação histórica da alegoria. Pontua os elementos alegóricos presentes na narrativa: nos vocábulos que ilustram o seu próprio título, na intertextualidade com os ditos populares, nas personagens, no narrador e nos espaços narrativos. Fundamentada nos estudos de Walter Benjamin (1984), Flávio Kothe (1986), João Adolfo Hansen, Mikhail Bakhtin e Marc Augé, busca ressaltar o romance de Saramago como espaço de questionamento do homem no mundo.

PALAVRAS-CHAVE: José Saramago - Ensaio sobre a cegueira - José Saramago - Alegoria - Narrativa alegórica.

INTRODUÇÃO: Em Ensaio sobre a cegueira, de 1995, José Saramago narra os efeitos de uma cegueira branca numa cidade cosmopolita. Pouco a pouco, várias pessoas são afetadas pela epidemia que nada detém. Apenas a mulher do médico consegue ficar ilesa à estranha doença, o que lhe permite ajudar seu marido e outras pessoas na trágica situação. O autor, ao comentar seu romance, afirma ter sido inevitável a natureza alegórica de sua narrativa. Segundo a fortuna crítica sobre o romance saramagueano – cuja extensão não conseguimos rastrear exaustivamente – os estudos realizados até agora parecem não contemplar a alegoria como elemento principal para sua abordagem crítica. Diante disso, escolhemos como objetivo desta pesquisa a análise mais pontual das características textuais trabalhadas por José Saramago na estruturação alegórica do Ensaio sobre a cegueira. Procuramos, então, articular o estudo e a aplicabilidade da alegoria, comumente tida como figura de linguagem não raro considerada ultrapassada, a fim de melhor compreender sua presença num romance contemporâneo. Entendida tradicionalmente como uma representação concreta de uma ideia abstrata, a alegoria é um dos recursos retóricos mais discutidos ao longo dos tempos. Segundo Flávio Kothe (1986, p.07) “a questão do que é a alegoria se revela, entretanto, bastante complicada”, pois “nesse terreno não há tanta certeza quanto se pretende”. Por vezes classificada, equivocadamente, apenas como uma figura de linguagem, a alegoria propõe uma interpretação de si mesma, que vai além das aparências, das coisas e dos fatos, ou seja, dizer alguma outra coisa além daquilo que à primeira vista parece. Nela, “cada pessoa, cada coisa, cada relação pode significar qualquer outra” (BENJAMIN, 1984, p. 197). Esse sentido outro, não claramente expresso, faz com que a alegoria seja julgada de acordo com o critério da amplitude, da totalidade, sinalizando para toda ou qualquer significação. Dessa forma, é na análise do contexto em que ela é gerada que seus sentidos naturais podem e devem ser examinados e delimitados.
MATERIAL E MÉTODOS: A metodologia de pesquisa utilizada foi a revisão teórica do conceito de alegoria, com o objetivo de analisar as características textuais trabalhadas por José Saramago, na estrutura alegórica de seu romance Ensaio sobre a cegueira (1995). Pretendendo discutir sobre a alegoria, elaboramos a dissertação tendo em vista dois capítulos. O primeiro trata da fundamentação teórica da alegoria: origem, conceitos, formas e classificações, segundo os estudos de João Adolfo Hansen, Flávio Kothe e Walter Benjamim. Já, no segundo capítulo, tivemos a contribuição teórica de Mikhail Bakhtin (conceito de polifonia e de cronotopo) e de Marc Augé (com sua concepção de lugar antropológico e de não-lugares).
RESULTADOS E DISCUSSÃO: Por meio dos pressupostos teóricos de João Adolfo Hansen, percorremos a história dos usos e definições da alegoria desde os retores e poetas gregos e latinos até os preceptistas e autores do século XVI, além de apresentar suas espécies e formas. De mais significativo, temos a classificação histórica da alegoria: “alegoria dos poetas”, a expressiva, e “alegoria dos teólogos”, a interpretativa. Dentre outras, a principal contribuição da teoria de Flávio Kothe para o nosso estudo é a diferenciação, esclarecedora, entre a leitura da alegoria e a leitura alegórica. Por meio dessa distinção, podemos afirmar que, em nossa pesquisa, privilegiamos a leitura da alegoria, ou seja, a interpretação dos principais elementos alegóricos na narrativa de Saramago. Entretanto, o conceito de alegoria teorizado por Walter Benjamin é o que mais se ajusta à nossa análise, pois nos esclarece como o elemento alegórico se manifesta no texto moderno, exatamente o que nós, também, tentamos desenvolver em nosso trabalho de pesquisa. É fundamentalmente a estrutura alegórica como forma de expressão, teorizada por Walter Benjamin, que pode ser vista em Ensaio sobre a cegueira. No romance, deparamo-nos com o drama de indivíduos que, inexplicavelmente, cegam e são abandonados à própria sorte pelo Governo, num manicômio desativado, onde passam pela mais profunda e humilhante experiência da vivência humana. No entanto, através dessa narrativa, Saramago quer promover um questionamento sobre o mundo contemporâneo, mundo dos objetos, que abandona valores fundamentais, como solidariedade e ética, conduzindo-nos à “cegueira” coletiva. Como marxista, politicamente engajado, o autor produz uma literatura que nos leva a repensar os valores do mundo moderno. No romance, o processo alegórico trabalha a favor dessa articulação, pois une tema e significação, impulsionada pela voz autoral. Nessa perspectiva, o universo ficcional de Ensaio sobre a cegueira dialoga diretamente com a versão da alegoria benjaminiana: um mundo enquanto ruína, um mundo que desmorona, típico da ambivalência alegórica que “designa o que foi destruído pelos opressores, ao mesmo tempo que aponta para a desagregação do mundo que eles construíram com os escombros”( ROUANET, 1990, p.27), isto é, a volta a um passado melancólico que lamenta, mas, principalmente, reflete sobre o que poderia ter sido feito e não foi, para enfim, reconstruir a partir dos escombros o que está por vir. No segundo capítulo, correspondente à análise, propriamente dita, do romance de Saramago sob o viés da alegoria, tentamos demonstrar como o procedimento alegórico pode contribuir para a valorização da literatura como lugar de reflexão, uma das características pontuais na obra saramaguiana, como vimos. Desenvolvemos, também, uma análise das peculiaridades – como a ausência de nomes, os objetos como marcadores de perfis (os óculos da rapariga, a venda preta do velho), o cão de lágrimas, a cegueira intratável, os detalhes do espaço, entre outras – que, de modo especial, atuam com função alegórica e que, de certa forma, nos permitem traçar o perfil de algumas personagens, além de caracterizar o narrador como uma das estratégias básicas para promover o questionamento da “verdade”. O caráter fragmentário da escrita alegórica se expressa em imagens conflituosas, mas que se tornam significativas, se organizadas sob a visão do alegorista: não é mais apenas uma a visão de mundo contemplada na obra, mas um universo que habita a intimidade de cada vocábulo, de cada personagem e de cada espaço visitado pela ficção saramaguiana. Acreditamos que espaços, personagens e enredo articulam-se no percurso alegórico da narrativa, induzidos pelo viés da cegueira branca. Percebemos que o autor trabalha com o alegórico no romance, já a partir do seu próprio título, e que o estilo singular de sua escrita, que recupera a oralidade, criando, assim, uma tessitura de vozes, bem como a constante utilização de provérbios parodiados, também favorecem à pluralidade de sentidos alegóricos.

CONCLUSÃO: Nesse romance, Saramago nos mostra, por meio do procedimento alegórico expressivo, crítico e engajado à problemática contemporânea – semelhante à alegoria teorizada por Benjamim – desmoronar completo da sociedade que, por uma causa de uma repentina epidemia de cegueira intratável, perde tudo aquilo que considera como civilização. O pensamento dominante no último parágrafo do romance – “a mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava” (p.310) – confirma a hipótese de que a cegueira está relacionada aos valores perdidos pela sociedade contemporânea, e propõe a retomada de questões existenciais. Não há um desfecho, propriamente dito, mas a oportunidade do recomeço de um processo de aprendizagem que se iniciou com a cegueira, alegoria da alienação humana. Na verdade, ninguém cegou, todos já estávamos cegos, “Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem” (p. 310). A estratégia alegórica trabalhada pelo autor se concretiza no corpo do texto, e reflete a tensão com que se defrontam as personagens, em conflito consigo mesmas, com os outros e com os espaços. O romance torna-se, portanto, não só o registro da sobrevivência física dos cegos, mas também da dignidade que eles tentam manter, em meio ao caos e à degradação humana. Embora saibamos da dificuldade do propósito de estudar a obra de José Saramago, seja pela extensão dos títulos do autor, seja pela complexidade de sua narrativa e de seus temas, seja ainda pelo numeroso conjunto de estudos que compõe sua fortuna crítica, encontramos no estudo da alegoria do Ensaio sobre a cegueira um ponto de partida fascinante para uma pesquisa introdutória e uma análise crítica despretensiosa desse festejado romance. Sabemos que compreender teórico-literariamente uma narrativa como Ensaio sobre a cegueira é um desafio crítico exigente; discutir essa compreensão, por sua vez, requer não apenas o entendimento de conceitos que procuramos apresentar, mas o entendimento de nosso próprio tempo e de nossa própria natureza. Sem dúvida, dois capítulos de uma dissertação não terão sido capazes de fazê-lo exaustivamente. Esperamos, contudo, ter contribuído ao menos para chamar a atenção para um recurso retórico brilhantemente utilizado por Saramago: a alegoria e seu mosaico de sentidos.


REFERÊNCIAS:
AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução de Maria Lúcia Pereira. 2. ed. Campinas: Papirus, 1994.

BENJAMIN, Walter. Origem do drama barroco alemão. Tradução, apresentação e notas Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

HANSEN, João Adolfo. Alegoria: construção e interpretação da metáfora. São Paulo: Hedra; Campinas: Unicamp, 2006.



KOTHE, Flávio R. A alegoria. São Paulo: Ática, 1986.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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