Muito prazer: representação de felicidade e prazer sobre o corpo masculino em veículos homoeróticos



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Muito prazer: representação de felicidade e prazer sobre o corpo masculino em veículos homoeróticos

Muriel Emídio P. do Amaral1



Introdução

Muito já se escreveu e pensou acerca da felicidade. As concepções de entendimento desse sentimento já perpassaram significações como o sentido de coletividade para a prática do bem, a reprodução e acompanhamento os preceitos cristãos ou até mesmo a reconsideração subjetivada individualizada daquilo que pode ser felicidade. Independente da qualidade de felicidade, esse sentimento sempre esteve atrelado com as referências cultuais dos códigos morais de cada momento histórico e social. Na contemporaneidade, como será que se articulam os sinais para o entendimento da felicidade? Muito embora a resposta dessa pergunta traga à tona considerações de cunho muito íntimo e pessoal, algumas interferências dialogam com os prazeres oferecidos pelo consumo, seja de bens materiais e simbólicos. Aliás, a felicidade se tornou uma obrigação inexorável na atualidade, uma ditadura outorgada no código moral contemporâneo. Um movimento orquestrado para a realização dos prazeres e oferecer um sentido a mais que a vida maçante e urbana insiste em roubar dos indivíduos. Música, moda, fotografia, cinema e publicidade são alguns dos elementos que se articulam na promoção da felicidade em nome do prazer.

Para esse trabalho, os sinais para desvendar as relações de prazer e felicidade serão os corpos masculinos em veículos de comunicação homoeróticos. Perceber a configuração dessa qualidade de representação do corpo pode-se deferir que houve deslocamento referencial do entendimento do corpo nessas mídias. A necessidade de oferecer uma condição ideológica e combatente de reconhecimento no espaço social condicionou o corpo para a representação da busca pela cidadania e amortecimento da marginalização a que muitos homossexuais se limitavam até o final dos anos de 1970, assim era a proposta do jornal Lampião da Esquina. Do corpo ideológico, a cultura vigente o tornou como imaginário, uma referencial de sensorial para o prazer e, consequentemente, a felicidade, como sugere a representação proposta pela revista Junior.

Corpo e Cultura

Mais que uma carcaça orgânica, o corpo se torna um discurso sempre inacabado justamente pela capacidade ser reinterpretado pelas contingências culturais a que é submetido. Essas mudanças não ocorrem apenas no âmbito das considerações individuais, mas também se infiltram pela ordem social que são originadas pelas extensões das ações do homem e passam a assumir uma condição de lei, como apresenta David Le Breton (2006), ou seja, o corpo é um processo inacabado, sempre se reconfigurando e apresentando novas propostas de representação.

Como o corpo se relaciona com as propostas culturais de cada momento social, é nessa perspectiva que atualmente se encontra em diálogo com o consumo, que se torna um código inclusive de cidadania2. Ou seja, o corpo como sendo um objeto de consumo também se torna um experimento de cidadania, mesmo que hedonista, contrariando os sinais de coletividade que o tema requer, uma práxis recorrente na articulação dos discursos midiáticos.

Dessa forma, como se estabelece a relação entre cultura e corpo? Primeiramente, há a necessidade de pontuar que a cultura como sendo um processo de caráter simbólico estabelecida pelo próprio homem

(...) essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado. É justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões socais enigmáticas na sua superfície. (GEERTZ, 1978, p. 15).
Pela relação estabelecida simbólica é que são fundamentadas as representações culturais. Para esse trabalha a significação da cultura contemporânea se edifica nas reflexões apresentadas por Lipovestsky e Serroy (2011). Os autores se posicionaram para conferir os valores daquilo que chamaram de cultura-mundo, uma representação cultural que se significa basicamente em três eixos: consumo, tecnologia e individualismo. São perdidas as noções de coletividade em nome das relações estipuladas pela ordem tecnocapitalista.

Cultura-mundo significa o fim da heterogeneidade tradicional da esfera cultural e a universalização da cultura mercantil, apoderando-se das esferas da vida social, dos modos de existência, da quase totalidade das atividades humanas. Com a cultura-mundo dissemina-se em todo o globo a cultura da tecnociência, do mercado, do indivíduo, das mídias, do consumo (...) impõe-se a cultura ampliada do capitalismo, do individualismo e da tecnociência, uma cultura globalitária que estrutura de maneira radicalemente nova a relação homem consigo e com o mundo. Uma cultura-mundo que não reflete o mundo, mas o constitui, o engendra, o modela, o faz evoluir, e isso de maneira planetária. (LIPOVESTKY, SERROY, 2011, pp. 9-11)


Esse posicionamento oferece condições para perceber a influência da comunicação no cotidiano da vida em sociedade e oferece um alerta acerca no esvaziamento de outras perspectivas que não dialogam com as forças do capital e da tecnociência, ou seja, os discursos que não se propõem a estabelecer essa ponte são condicionados fora dessa cultura são excluídos.

Dentro dessa perspectiva que a valorização do corpo se torna uma prática do contemporâneo. Lucia Santaella (2004) considera o corpo como um sintoma da cultura. Na proposta da autora, ela propõe um diálogo com a Psicanálise ao estabelecer que o sintoma seria uma linguagem que surge na forma de signos que poderão ser decodificados. A leitura desses sinais é o resultado das relações de gozo e recalque, ou seja, aquilo que assegura o prazer e a dor. Por isso o entendimento do corpo imaginário como sendo imaginário (p.144), o gozo desenfreado, sem limites e sem balizas; há a consideração apenas do “eu”, anulando a presença do “outro”; o corpo simbólico (p.145) em que surgem a linguagem e a cultura. Esses elementos se tornam importantes para reter a práticas do prazer, pois oferece condição de percepção do “outro” nos modos de viver3.

Dentro dessa perspectiva, a autora conclui que “o corpo como sintoma da cultura aponta, em nossos dias, para uma perda social das balizas do gozo” (Santaella, 2004, p.151), imperando as relações narcísicas do indivíduo. Essas representações são mais visíveis ainda mais quando o corpo é apresentado pelos discursos midiáticos, mesmo havendo diversas de representações do corpo em outras manifestações discursivas, a construção da qualidade midiática não se altera, permanecendo impávida a despeito de mudanças sociais. Ainda de acordo com Santaella, ela aponta uma reflexão interessante sobre a qualidade do corpo dentro de uma perspectiva midiática sobre a necessidade de refletir das práticas de felicidade e prazer. “Ora, nas mídias, aquilo que dá suporte às ilusões do eu são, sobretudo, as imagens do corpo, o corpo reificado, fetichizado, modelizado como ideal a ser atingido em consonância com o cumprimento da promessa de uma felicidade sem máculas” (Santaella, 2003, p.125-126).

A valorização do corpo remota ao discurso religioso que a preservação do corpo seria um canal de contato com a divindade. Práticas de exercício, alimentação balanceada e preocupação com saúde e higiene eram alguns dos modos de cuidados de si e que deveriam se tornar hábitos coletivizados.

(...) uma crença, com acentos religiosos e proselitistas, de que uma metamorfose corporal é possível; a idéia de que a salvação individual e a regeneração da nação dependem simultaneamente dessa metamorfose; uma rejeição à instituição médica, acentuada pela vontade de se responsabilizar pela saúde do próprio corpo; e enfim um senso agudo do comércio, que percebeu, desde cedo, que o corpo é um mercado. É sobre o fundo desta genealogia religião-saúde-comércio que se inscreve sempre a racionalidade das práticas contemporâneas do corpo americano (COURTINE, 2005, p.89).
Com isso, o corpo se torna um capital que é apropriado pelas formas de comunicação de massa como um fetiche a ser alcançado. Christian Ferrer (2010) considera o quanto os veículos de comunicação se esmeram em oferecer um produto espetacular no sentido idealizado por Guy Debord no livro “A Sociedade do Espetáculo” em que são borradas as representações de verdade e visão para o consumo de espetáculos, visando a felicidade obrigatória. Assim, a felicidade se torna um código preponderante na sociedade contemporânea.
Prazeres e felicidade: relações sensoriais e de consumo

O prazer e a felicidade se tornam códigos morais imperativos nas práticas contemporâneas. O sofrimento, a dor ou qualquer outra condição que venha desafiar e estremecer a condição de felicidade e de prazer, no sentido freudiano de ocasionar o mal-estar, não apresenta sentido condição de existência na vida, como apresenta Birman


A obtenção do prazer e a evitação do desprazer passaram a ser critérios distintivos para que o indivídio pudesse atingir o estado supremo de estar feliz. Para isso, no entanto, o registro da alma passou a ser regulado pelo do corpo, na perda de autonomia daquele, que se processou com a secularização do mundo ético (BIRMAN, 2010, p. 31)
A necessidade do prazer em diálogo com a felicidade se torna uma prática moral na contemporaneidade. Os valores de satisfação individual, hedonistas e as representações narcísicas. A imagem do corpo concebido dentro do discurso midiático contribui consideravelmente para a consolidação dessa significação. A representação desse corpo propõe condições de “saúde” e “bem-estar”, no sentido de apresentá-lo torneado em músculos, livres das gorduras, rugas, estrias ou quaisquer marcas que possam denunciar a idade. Esses signos quando estampados no corpo podem ser interpretados como o descaso ou desleixo, uma condição aterrorizante para a representação do corpo midiático.
As marcas da cultura atual potencializam o olhar sobre o corpo e sobre a ditadura da “boa forma”. Como exercício empírico da tentativa de adentrar, de modo crítico, a cultura do consumo, do corpo no contemporâneo demonstra sua força material, uma vez que a pedagogia dessa “boa forma” se encontra em alta no mercado de bens e de serviços. [...] A sociedade, cada vez mais, interessa-se pelas mediações que contemplam o consumo exacerbado da preparação do corpo na tentativa (GARCIA, 2005, p.23)
Dessa forma, a felicidade e o prazer caminham lado a lado no espaço social e nas representações das práticas sociais em nome das referências de prazer e contemplação. Além disso, a relação capitalista também serve de subsídio para a consolidação dos modos de prazer e felicidade. O trabalho também é ponto crucial para Hannah Arendt (1983) estabelecer também relações de felicidade e prazer. De acordo com a autora, com a intervenção do capitalismo como forma de produção, uma nova configuração do trabalho foi estabelecida para a identidade do homem: a passagem do homo faber, aquele que fabrica produtos duráveis e resistentes ao tempo dá espaço para a invasão do animal laborans, uma representação de um produtor de objetos que precisam ser consumidos o mais rápido possível, sem a necessidade da persistência do tempo. Consumir, comprar, usufruir se tornaram sinônimos de prazer e felicidade na concepção de Arendt. Ter acesso ao consumo afasta as intempéries que a miséria e a dor podem causar. Com a consolidação da sociedade de massa, o capitalismo se estabeleceu como forma de produção e a finalidade dos objetos ofereceu passagem à sensação, ou seja, a utilidade de algo não tem muita importância, mas o prazer que esse algo pode oferecer. Além do prazer que o consumo oferece há paralelamente a necessidade de aniquilar a dor e do sofrimento para a instalação do prazer e, consequentemente, da felicidade. Para isso, Arendt considera que a felicidade é

(...) tudo o que ajuda a estimular a produtividade e alivia a dor e o esforço torna-se útil. Em outras palavras, o critério final de avaliação não é de forma alguma a utilidade e o uso, mas a <>, isto é, a quantidade de dor e prazer experimentada na produção ou no consumo das coisas. (...) A <> de Bentham, a soma total dos prazeres menos as dores, e tanto um sentido interior que sente sensações e permanece alheio aos objetos do mundo quanto a consciência cartesiana, consciente de sua própria atividade (ARENDT, 1983, p. 322).


Com isso, o consumo gera sensações de prazer e felicidade para o corpo, enquanto o corpo estiver em atividade para as práticas de consumo, haverá a sensação vitalidade e gozo e, também, do hedonismo, como prazer pela vida através das práticas de consumo. Essa relação entre prazer e dor é uma equação interpretada por Birman (2010) que faz do corpo um canal para felicidade, que, aliás, essa se tornou, na atualidade, um discurso tirânico o obsessivo na sociedade, oferecendo condições até de exclusão no espaço social.
Numa sociedade supostamente democrática, que transformou a igualdade num de seus ideais primordiais e num dos alicerces da cidadania, a aspiração à felicidade passou a ser pleiteada como algo de direito. Com efeito, mesmo que seja de ordem formal e não necessariamente real, delineado que foi como possibilidade outorgada a todo e qualquer cidadão, o que quer dizer que possa ser igualmente exercido por todos, no real da cena social, de maneira ampla, geral e irrestrita. (BIRMAN, 2010, p.28, com grifos do autor).
Com as definições sobre felicidade estabelecidas, para esse trabalho, prazer e felicidade não serão tratados como sinônimos, mas como dois elementos que se articulam mutuamente para se validarem enquanto uma relação de significação. O conceito de prazer será entendido como sendo
(...) o conjunto dos fenômenos afetivos correspondentes ao estado de satisfação. Qualquer pessoa representa a manutenção de uma satisfação obtida ou a incorporação de novas satisfações ao repertório do eu. Sentimos prazer ao preservar ou expandir a área de satisfação à qual temos acesso, e dor ou desprazer ao perder o terreno nesta área. Prazer, em suma, é a posse e guarda de um território de satisfação conhecido ou apropriado de uma nova faixa de satisfação. (COSTA, 2005, p. 90-91).
O autor estabelece que as manifestações de prazer podem ser classificadas de acordo com a qualidade e intensidade. Referente à qualidade, os prazeres podem ser considerados como sendo sensoriais, motores, sentimentais ou intelectuais, variando de acordo com a representação e modos de percepção. Do ponto de vista da intensidade, Costa considera os prazeres como sendo extáticos ou mitigados, sendo o primeiro considerado efêmero, “dura exatamente o tempo entre o início e o fim de um processo de excitação crescente” (Costa, 2005, p.91), com o alcance do êxtase, e as representações de gozos mitigados são mais duradouros e se estabelecem por longo tempo em estado de excitação estável.4

Para o autor, mesmo reconhecendo que é muito superficial atribuir na sociedade contemporânea a preferência por prazeres extáticos de uma forma muito deliberativa, há uma moral na atualidade que estabelece ligações entre o conceito de felicidade e prazer por manifestações sensoriais extáticas como sendo manifestações mitigadas, deslocando valores e atribuições para os mecanismos de prazer.


A pecularidade da nova educação dos sentidos é ter posto a fruição sistemática, metódica e regulada dos prazeres sensoriais mitigados no topo dos ideiais de felicidade. É esta atenção militante, devotada, consciente e autogerida do prazer duradouro com a higidez e a aparência que mais caracteriza o que chamo de moral das sensações, felicidade sensorial ou ideal de prazer sensorial (COSTA, 2005, p.94, com grifos do autor).
Com as reflexões de Costa, o corpo passou a ser o canal para que as sensações pudessem ser exploradas na promoção de outras formas de ética e moral, acerca do indivíduo e a relação dele com o prazer.
A virada somática da cultura produziu uma verdade revolução na percepção da corporiedade física. O equipamento sensorial, nas dimensões exteroceptivas e introceptivas, deixou de ser a massa opaca e obscura de automatismos cegos ou instintos malsãos para se tornar objeto de curiosidade, admiração e cuidados sutis. Antes visto como matéria bruta para a construção de ideais sentimentais, intelectuais, espirituais ou cívico-morais, agora se reapresenta como o novo locus da dignidade ontológica, epistemológica e ética do sujeito. Dignidade ontológica, por que o substrato do sujeito deixou de ser sua “alma”, seus sentimentos, seus pensamentos ou seus atos públicos para ser seu corpo esmiuçado, respeitado, adulado e bem tratado. Dignidade epistemológica por que a chave do conhecimento de si saiu das fechaduras transcendentais para entrar nas fechaduras corporais. (...) Dignidade ética, finalmente, por que o bem-estar físico com a saúde, a beleza, a esbelteza, a juvenilidade, etc.. se tornam indícios de responsabilidade e maturidade na capacidade de se autogovernar (COSTA, 2005, p.95).

Ainda a esteira do pensamento de Costa, devido à fluidez própria condição do gozo extático em ser representado por sensações que são fluídicas, o indivíduo se coloca em dependência do objeto de estímulo, uma sensação de felicidade que se consome no mesmo momento que o objeto é esvaecido. Dessa forma, há a necessidade constante do “espectro de estimulações sensíveis para sentir que existe aos próprios olhos e ao olhar do outro” (Costa, 2005, p.105). O autor faz uma metáfora quanto ao lema moderno proferido por Descartes “Penso, logo existo” para “Sinto, logo sou”, oferecendo condições para acreditar que o corpo estimulado e apropriado de prazer é uma condição de pertencimento no espaço social. O corpo se tornou o canal adequado para estabelecer as condições de prazer e satisfação, mas “Em vez de fundar a identidade no desenrolar temporal de narrativas e ações, procura ancorá-la na expansão sincrônica de coisas e situações” (Costa, 2005, p.105).

É a necessidade de sentir. Para o desenvolvimento da qualidade sensória, Costa atribui um papel muito importante desempenhado pela comunicação, em especial, a comunicação de massa pelas imagens e conceitos que são disseminados pela sociedade que ele a considera como sendo “Sociedade do Espetáculo”, se apropriando dos conceitos desenvolvidos por Gay Debord. A clássica obra homônima discorre sobre a valorização dos estímulos sensoriais a que os indivíduos estão submetidos, principalmente ao que se referem às mensagens da comunicação de massa, em nome de prazeres extáticos, almejando a felicidade, oferecendo uma nova ética de compreender as relações e duração dos prazeres e também questões de ordem emocional, intelectual, moral, político, artístico ou espiritual.

O crescimento do papel da mídia na formação de mentalidades mudou essas regras. A mídia reforçou a participação do corpo físico na constituição da subjetividade de dois modos. Primeiro, pela propaganda comercial de cosméticos, fármacos e instrumentos de aperfeiçoamento da forma corporal ; segundo pela identificação de certos predicados corporais ao sucesso social (COSTA, 2005, p.166)

Com essa colocação, pode-se evidenciar a necessidade de pertencimento no espaço social pelo corpo na contemporaneidade através do discurso midiático. O corpo dialoga com essas práticas discursivas, estabelecendo uma nova ordem ética da moral, ao que Costa considera como sintoma da cultura somática
Em sintonia com a moral do espetáculo, a mídia visa, sobretudo, a tornar visões do mundo particulares plausíveis e convincentes. É assim que a massa dos indivíduos é levada a admirar e a querer imitar o estilo de vida dos ricos, poderosos e famosos. A mimetização, contudo, é mantida em rédeas curtas, dada a dificuldade que a maioria tem de ascender socialmente, até poder ser incluída no círculo dos privilegiados. O único item do mundo “exclusivo” à disposição do indivíduo comum é a imagem do corpo. Possuir um corpo como o dos bem-sucedidos é a maneira que a maioria encontrou de ascender imaginariamente a uma condição social da qual está definitivamente excluída, salvo raríssimas exceções.

Assim, a corrida pela posse do corpo midiático, o corpo-espetáculo, desviou a atenção do sujeito da vida sentimental para a vida física. Criou-se uma nova educação dos sentidos, uma nova percepção da morfologia e das funções corporais que tornou o bem-estar sensorial um sério competidor do bem-estar sentimental. Cuidar-se de si deixou de significar, prioritariamente, preservar os costumes e ideais morais burgueses para significar “cuidar do corpo físico”. O cultivo das sensações passou a concorrer, ombro a ombro, com o cultivo dos sentimentos. Estar feliz não se resume mais a se sentir sentimentalmente repleto. Agora é preciso também se sentir corporalmente semelhante aos “vencedores”, aos “visíveis”, aos astros e estrelas midiáticos. (COSTA, 2005, p.166, com grifos do autor).


Pelo ponto de vista do autor, a cultura somática na contemporaneidade do corpo estabelece duas formas de entender o corpo: sendo a primeira pelo remapeamento cognitivo do corpo físico, regulamentando a identidade segundo ordens biológicas, políticas, científicas e tecnológicas médicas e a invasão da cultura pela moral de espetáculo, em que há a interferência dos discursos midiáticos e as representações da vida burguesa ocidental, objetivando prazeres e acúmulo de capital.

Os processos de midiatização é assunto abordado por vários teóricos da comunicação. Muniz Sodré (2002, 2006) acredita que a mídia estabelece uma outra forma de bios5 na contemporaneidade para com os indivíduos na sociedade, o chamado bios midiático. Permanece o objetivo da ética como uma prática simbólica e subjetiva para a regulação das identidades coletivas e individuais, todavia há a interferência da tecnologia e as relações de poder no cenário de composição desse cenário cultural, não interpretando a midiatização exclusivamente como um processo técnico, mas aliado aos sintomas de cultura.

(...) a sociedade contemporânea (dita ‘pós-industrial’) rege-se pela midiatização, quer dizer, pela tendência à ‘virtualização’ ou telerrealização das relações humanas, presente na articulação do múltiplo funcionamento institucional e de determinadas pautas individuais de conduta com as tecnologias da comunicação (SODRÉ, 2002, p.21, com grifos do autor)
O autor considera, também, a midiatização como uma relação simbólica para a representação da cultura, assim, a midiatização é
(...) uma ordem de mediações socialmente realizadas – um tipo particular de interação, portanto, a que poderíamos chamar de tecnomediações – caracterizadas por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium. Trata-se de dispositivo cultural historicamente emergente no momento em que o processo da comunicação é técnica e mercadologicamente redefinido pela informação, isto é, por um produto a serviço da lei estrutural do valor, também conhecida como capital (SODRÉ, 2006, p.20-21)

Dessas reflexões do autor, a midiatização se tornou um código moral contemporâneo, ou seja, um modo de entendimento de produção e reprodução de valores, pautando os modos de articulação no espaço social. A formação dessa qualidade de discurso em que prazeres e felicidade comungam na mesma condição midiática se encontram nas representações da imprensa homerótica atual brasileira.


Imprensa homoerótica no Brasil: da militância ao prazer

Os primeiros registros de imprensa homoerótica no Brasil foram percebidos apenas na segunda metade do século XX. O que não quer dizer que esse tema não era abordado, até então, o conteúdo homoerótico era abordado nas literaturas populares ou veiculado em algum jornal de maior circulação como foi o caso das publicações do escritor João do Rio, codinome de Paulo Barreto, que com seus textos conseguia transmitir algum referencial homoerótico, inclusive de caráter biográfico. Ele contribui para os jornais O Paiz, Gazeta de Notícias, O Dia, além de integrar-se à Academia Brasileira de Letras e ser tradutor das obras de Oscar Wilde.

As primeiras publicações homoeróticas compuseram, no Brasil, aquilo que Grinberg (1987) definiu como imprensa alternativa. Para o autor, essa qualidade de imprensa se estabelece de duas formas em que questiona os valores imperativos das estruturas de poder, apresentando uma reflexão crítica principalmente sobre o capitalismo ou também uma imprensa alternativa quanto aos modos de produção, distribuição e logística.

O surgimento da imprensa homoerótica no Brasil acompanhou a visibilidade que homossexuais conquistaram na sociedade. A notoriedade da comunidade gay ganhou visibilidade com os processos de urbanização a partir dos anos de 1950, ainda mais em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, e a formação de espaços de sociabilização desses indivíduos. James Green (2000) afirma que no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, já havia vários estabelecimentos de encontro entre homossexuais e era possível se deparar com pessoas de diferentes gêneros e identidades sexuais. Os veículos de comunicação da imprensa gay se tornaram uma forma de contemplar essa dinâmica social urbana pela qual o país estava passando e de algum modo oferecer visibilidade e reconhecimento desses indivíduos no espaço social, não os restringindo ao limbo da sociedade pela orientação sexual. Nessa condição, a comunicação voltada a esse público se tornou uma ferramenta do oferecer condições de manifestação de opinião e projeção das necessidades e desejos dos homossexuais.

A publicação Snob foi o primeiro veículo que passou a ser produzido que era abertamente homossexual, em 1963. Por ser uma publicação, um veículo alternativo e de uma produção quase artesanal, é difícil defini-lo como jornal ou revista, até por que a linha editorial também era muito abrangente. Sob o comando do jornalista Agildo Guimarães, Snob passou a circular como uma forma de protesto ao resultado do concurso Miss Traje Típico, realizado pelo Grupo Ok (Péret, 2011). O grupo foi formado em 1961 com o intuito de promover sociabilização entre os participantes que se encontravam para conversar, ouvir música e organizavam eventos e desfiles. Os exemplares eram produzidos e distribuídos gratuitamente e repassados de mão em mão os leitores interessados através de redes de contatos ou em pontos de circulação de homossexuais.

Era uma publicação simples, em folha de papel ofício, datilografada (frente e verso) e impressa em mimeógrafo, com distribuição na Cinelândia e em Copacabana, em locais como a “Bolsa de Valores” (trecho da praia em frente ao Copacabana Palace), bares e cafés. Com o tempo, o Snob tornou-se conhecido dentro da comunidade gay carioca. Transformou-se numa minirrevista, com capa, ilustrações coloridas, pequenos anúncios e mais de trinta páginas (PÉRET, 2011, p.19).


Por ser um veículo da imprensa gay, e assim para não sofrerem represália e preconceitos, muitos dos jornalistas colaboradores não assinavam o material produzido. Mesmo não sendo uma publicação de cunho militante, o Snob teve a intenção de proporcionar acolhimento entre os leitores, com o objetivo de oferecer identificação dos leitores com o material divulgado. O final do Snob foi em 1964, mesmo não tido sofrido nenhum tipo de censura, a diretoria do jornal optou por produzi-lo mais.

Várias outras publicações surgiram após o fechamento do Snob, não se limitando apenas no eixo Rio-São Paulo6. Além dessas publicações, havia também as colunas de conteúdo homoerótico como é o caso da “Coluna do Meio”, assinada por Celso Curi ao jornal Última Hora. A coluna durou quase dois anos, entre 1977 e 1979, e por iniciativa do próprio jornalista optou por abandoná-la por questões judiciais. Curi respondia processo por promover “encontros entre anormais” (Trevisan, 2004, p.347).

Um grande marco da imprensa homoerótico foi com a fundação do jornal Lampião da Esquina. O nome que faz a sátira à figura do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silvia, o Lampião, pela sua braveza e valentia aliada à capacidade de iluminação que o objeto tem para clarear novas referências sobre a homossexualidade.

A ideia de produzir uma publicação começou após a visita ao Brasil de Winston Leyland, editor-chefe da Gay Sunshine, revista produzida e de circulação nos Estados Unidos voltada para a comunidade gay. Lampião de Esquina nasceu em abril de 1978 pelas mãos de intelectuais, jornalistas e artistas plásticos como José Silvério Trevisan, Jean-Claude Bernardet, Aguinaldo Silva, Peter Fry, Adão Costa, Antônio Chrysóstomo, Clóvis Marques, João Antônio Mascarenhas, entre outros colaboradores efetivos e esporádicos. A iniciativa de lançamento dessa publicação seguiu a necessidade de considerar os homossexuais dentro do cenário social, ou seja, quebrar as correspondências da identidade gay com a condição de marginalidade, promiscuidade e futilidade, como apresenta o primeiro editorial da publicação de número 0.

A proposta editorial do jornal era de trabalhar as questões no âmbito social e político, mas sem perder a conotação a ironia, o sarcasmo e irreverência. Um outro ponto interessante do jornal era a pluralidade do discurso, ou seja, embora a linha editorial tendia exclusivamente para acompanhar os homossexuais, mas também de outros grupos de “minorias” como feministas, negros e ambientalistas.
[...] Lampião reivindica em nome dessa minoria é não apenas se assumir e ser aceito - o que nós queremos é resgatar essa condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que os homossexuais são seres humanos e que, portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização, enquanto tal. Para isso, estaremos mensalmente em todas as bancas do País, falando da atualidade e procurando esclarecer sobre a experiência homossexual em todos os campos da sociedade e da criatividade humana. Nós pretendemos também, ir mais longe , dando voz a todos os grupos injustamente discriminados - dos negros, índios, mulheres, às minorias étnicas do Curdistão: abaixo os guetos e o sistema (disfarçado) de párias. Falando da discriminação, do medo, dos interditos ou do silêncio, vamos também soltar a fala da sexualidade no que ela tem de positivo e criador, tentar apontá-la para questões que desembocam todas nesta realidade muito concreta: a vida de (possivelmente) milhões de pessoas (Lampião, Ed., n. 0, Rio de Janeiro, abr. 1978).
A representação do corpo não se apresentava na articulação de um discurso de prazer, mas estava envolvido com referências ideológicas. Em muitas edições, o corpo não era apresentado, retratado ou evidenciado, tão pouco era motivo de abordagem nas imagens da publicação, salvo nas últimas edições em que o corpo nu invade as páginas do jornal, fazendo que esse perca a sua identidade.

O enfraquecimento do jornal, além de questões econômicas e administravas, se deu justamente pelas mudanças culturais ocorridas no começo da década de 1980; o discurso de protesto e ideológico perdem forças no cenário social. Além disso, houve a invasão de material de conteúdo pornográfico direcionado inclusive de conotação homoerótica. Essas publicações apresentavam quase que exclusivamente cenas de sexo explícito, amenizando as concepções da ideologia de reconhecimento dos homossexuais no espaço social. Na tentativa de disputar o mercado com essas publicações, Lampião veiculava fotografias de homens nus para manter-se em atividade. Bernardo Kucinski (1991) considerou, mais tarde, que o Lampião da Esquina começou elegante e terminou pornográfico. Assim, Lampião parou de circular em 1981, deixando uma contribuição importante para a causa militante e também para as práticas do jornalismo alternativo.

O encerramento das atividades do Lampião antecipou o final de um ciclo que, com a redemocratização, liquidou com a imprensa alternativa e permitiu que seus temas fossem reabsorvidos pela grande imprensa. [...] No momento em que encerrou suas atividades, o jornal parecia ter mergulhado num vácuo: tinha abandonado o teor contestatório sem conseguir assumir as características de uma volta ao consumo. O fim do Lampião deixou os grupos homossexuais órfãos do principal meio de comunicação pelo qual faziam circular suas ideias e divulgar suas atividades por todo o país, dentro e fora do movimento (gay). (SIMÕES, FACCHINI, 2009, p. 110)
Após o término do Lampião e a circulação das publicações produzidas no exterior de baixa qualidade e de cunho mais pornográfico, houve um hiato na produção da imprensa homoerótica no Brasil. Nem a epidemia da AIDS foi suficiente para que ressurgisse essa categoria de imprensa. A conscientização e esclarecimentos da doença ficaram por conta das atividades desenvolvidas por grupos militantes e também pelas publicações produzidas por esses grupos. Como é o caso do boletim do Grupo Gay da Bahia e os informativos Pela Vidda, fundado no Rio de Janeiro pelo ex-militante político Hebert Daniel, que fora vítima do HIV, e Voz Posithiva, do Recife, produzido pela Ong Gestos (Péret, op. cit.).

A efervescência do mercado editorial homoerótico brasileiro foi retomada apenas nos anos de 1990 com o lançamento da revista Sui Generis, da editora SG Press. De acordo com Péret (2011), a publicação trazia matérias tanto com o lado “mundano da cultura gay (festa, moda, boate) como com os movimentos sociais e as questões colocadas pela militância” (p.85). A revista contou com a participação de várias personalidades do meio jornalístico e artístico para compor o corpo editorial, mesmo sendo representativa entre as publicações voltadas ao público gays, chegando a atingir a marca de 30 mil exemplares, ela deixa de circular em 2000. Houve a tentativa de lançamento da revista Homem, da mesma editora, com conteúdo pornográfico, anúncios de leitores e publicidade, mas a iniciativa não prosperou ainda mais que já havia sido lançada a G Magazine, pela Fractal Edições. A novidade é que a revista traz ensaios fotográficos de homens de reconhecimento nacional (artistas, atores, jogadores de futebol e cantores), todos nus e excitados. Ainda em circulação, a revista veicula matérias de moda, comportamento e algum conteúdo de militância pela diversidade sexual. Todavia, o interesse primordial em oferecer as imagens pornográficas na revista é de lidar com o desejo dos leitores, ou melhor, uma estratégia reconhecida para saciar o desejo, uma vez que o desejo pulsante do sexo nem sempre pode ser aliviado, sem a necessidade de interferir diretamente na ordem do discurso moralizante.


A utilização da mídia para a satisfação dos prazeres tem sido um caminho viável para a construção discursiva que visa integrar o sujeito a seu meio social sem que lhe sejam impostas diretamente as morais civilizantes. Através do aprimoramento constante do conhecimento das necessidades de consumo do sujeito, a mídia produz um discurso sempre pronto e presente para amenizar os sofrimentos do sujeito.

O prazer sexual, sem dúvida, entra no jogo de manipulação da mídia, visando à satisfação da demanda de prazeres barrados do indivíduo. (...) a sociedade ocidental contemporânea se encontra na contemplação midiática um meio de manifestação de prazer. (RODRIGUES, 2007, p.47).


Não apenas a G se apropriou do discurso do desejo e do consumo simbólico para ser veiculado como uma manifestação do discurso midiático. As demais publicações lançadas nos anos 2000 também se constituíram com o propósito de estabelecer diálogos com o consumo, não apenas de bens, mas também de materiais simbólicos, sobretudo o corpo. Aliás, o corpo na articulação do desejo se torna um discurso praticamente absoluto na imprensa homoerótica contemporânea.

A revista Junior, da editora Mix Brasil também compartilha dessa prática discursiva. Ainda em circulação, no primeiro editorial da Junior é possível identificar as relações de consumo simbólico e material.

Você sabe há quanto tempo acompanhamos a efervescência do mercado editorial gay no exterior? Anos e ano, morrendo de vontade de fazer uma revista bacana por aqui. Ela seria assumida sem ser militante, sensual sem ser erótica, cheia de homens lindos, com informação para fazer pensar e entreter. (...) Mesmo sem saber exatamente quantos somos e onde estamos, acabamos evidenciando nossa existência pelo vigor do nosso mercado (...). Outras áreas como o turismo e moda já descobriram que não vivem sem nós. Outros estão começando a entender isso agora (Junior, nº1, out. 2007).
Com o exemplo do primeiro editorial da revista Junior, é clara a intenção de promoção de prazer e o afastamento ideológico proposto pelo jornal Lampião. A revista veicula matérias sobre comportamento, moda, beleza, ensaios fotográficos e editoriais de moda. Essas duas últimas sessões são interessantes do ponto de vista do consumo, pois aliam as duas vertentes dessa prática: consumo simbólico e material. Certamente, as peças e produtos apresentados nessa sessão objetivam o estímulo do consumo pelos leitores, bem como os modelos que se encontram estampando essas sessões. Os corpos apresentados pela revista são sempre apresentados com signos que fazem alusão ao bem-estar, saúde e jovialidade, além de sensualidade e beleza. Como uma relação de significação, o corpo se torna uma forma de capital, no sentido de se tornar moeda de troca entre o consumo e o desejo.

(...) a ética da beleza, que também é a da moda, pode definir-se como a redução de todos os valores concretos e dos “valores de uso” do corpo (energético, gestual e sexual), ao único “valor de permuta” funcional que, na sua abstractração, resume por si só a ideia de corpo glorioso e realizado, a ideia do desejo e do prazer – negando-os e esquecendo-os precisamente na sua realidade para se esgotar na permuta dos signos. A beleza reduz-se então a simples material de signos que se intercambiam. Funciona como valor/signo. Pode, portanto, dizer-se que o imperativo da beleza é uma das modalidades do imperativo funcional. (BAUDRILLARD, 2005, p.141).


O corpo dentro dos veículos voltados para os gays se torna um produto de consumo, todavia de uma forma enviesadas da realidade dos corpos da maioria da sociedade, sendo um canal de representação da “felicidade” e consumo de prazer. Baudrillard (2005) acredita na manipulação técnica dos códigos referenciais dos fatos para a construção de um discurso consumível, ainda mais quando se trata do consumo do corpo. Esse movimento de manipulação, o autor o denomina como “pseudo-acontecimento” e “neo-realidade” (p.132), que também pode explicar as formas de representação dos corpos dentro desses veículos, como sendo uma construção alheia às formas denotativas de representação do consumo do corpo. O consumo se torna um mecanismo de manifestações simbólicas, com referências às fantasias e desejos, uma concepção romântica.

Campbell (1987) alega que o surgimento do consumo, com o da produção capitalista, requer uma ética e, neste caso, é seu romantismo e não protestantismo que fornece tal estímulo, pois ele enfoca a imaginação, a fantasia, o misticismo, a criatividade e a exploração emocional. (...) a atividade essencial do consumo não é a seleção, a aquisição ou o uso real dos produtos. O consumo “real” é, em grande parte, o resultado desse hedonismo “mentalístico”. A partir dessa perspectiva, o prazer que se obtém dos romances, pinturas, peças de teatro, discos, filmes, rádio, televisão e moda não é o resultado da manipulação, por parte dos anunciantes, ou uma “obsessão pelos status social”; é um gozo estimulado pela fantasia (FEATHERSTONE, 1995, p.45).


O consumo de bens simbólicos pelos meios de comunicação, nisso estão incluídos os veículos de conteúdo homoerótico, se articulam para essa prática. Os discursos midiáticos são constituídos com essa proposta e dificilmente oferecem outras referências discursivas fora dessa concepção. E o corpo se torna um signo de representação dessa cultura.

Como já apresentado no começo desse artigo, o corpo dialoga com a referência de um ideal, no sentido de prazeres e gozos que não encontram limites, passíveis de ser considerado um código para a vida na contemporaneidade. Assim, o corpo passa a ser um canal da exploração dos sentidos, um convite para uma caixa de sensações a ser explorada. Para chegar ao ponto de despertar o desejo, há a necessidade de investimento, o corpo passa a ser capital (Goldenberg, 2002). Há uma dedicação intensa para que o corpo possa se tornar um sintoma da cultura do consumo e individualista como o uso de cosméticos, alimentação, exercícios físicos e toda a intervenção necessária para robustecer os músculos e amenizar os efeitos do avanço da idade.

A imprensa homoerótica não apenas apresenta o discurso do consumo como também favorece o culto ao corpo. São exceções as capas da revista que não apresentam o corpo masculino exposto com o dorso nu. A disciplina para a obtenção desse corpo pode ser entendida na concepção de Michel Foucault (1999) acerca dos cuidados de si e também dos outros no que tange aspectos de saúde e beleza. Há a normatização desses valores que são propagados de tal modo que se cristalizam no seio da sociedade e que não oferecem condições de oferecimento de outra manifestação discursiva. Além disso, suscita o pensamento de Foucault sobre o corpo exposto. “Fique nu! Mas, seja magro bonito e bronzeado” (Foucault, 1979, p.147). Um lema que foi levado à risca pelas fotografias do discurso midiático, independente da qualidade editorial e do público a que se destina, com isso, as publicações homoeróticas não fugiram desse código.

As marcas no corpo são apagadas, sinais e elementos que possam afrontar as legitimações da jovialidade também devem ser relevados nas imagens. A idade não pode ser transparecer nas fotografias, bem como qualquer indício que são interpretados como desleixo e descuido com o corpo, como gorduras localizadas e estrias. Liso e vivendo quase na ausência do pelo. Para a estética de representação do corpo dessa revista, se o pelo está no corpo, ele está no lugar errado. Assim como as marcas, gorduras, o pelo se torna inconveniente na fotografia das capas desse veículo.

O vigor e a mocidade são exaltados pelos corpos na imprensa homoerótica O corpo masculino nessa qualidade de imprensa era reservado por uma questão de ordem social por que poderia ser uma ofensa à regra do poder burguês ou por que era utilizado como uma ferramenta de protesto. O jornal Lampião não apresentava o corpo como apenas fonte de prazer, mas, na atualidade, esse corpo masculino se reconfigura: mais que ideologia, é pela juventude que mais se preza. Paula Sibilia apresenta uma reflexão pertinente a essa configuração do corpo, em que o envelhecimento e as consequências dessa fase da vida se tornam sinais da derrota do corpo, trazendo com eles referências de “imperfeições” e “impurezas”.
Na era do “culto ao corpo” e da espetacularização da sociedade, instalados a se converter em imagens com certas características rigorosamente definidas, os corpos humanos são desencantados de suas potências simbólicas para além dos códigos da “boa aparência”. Nesse contexto e paradoxalmente – meio século após os movimentos de liberação sexual e em pela reivindicação da subjetividade encarnada, com a “expectativa de vida” aumentando sem cessar – novos tabus e pudores convertera a velhice num estado corporal vergonhoso. Sinais de uma derrota na luta pela permanência do aspecto juvenil, as rugas são moralmente condenáveis devido à sua indecência: a velhice é um direito negado ou algo que deveria permanecer oculto, longe de ambicionar a tão cotada visibilidade. (SIBILIA, 2011, p.83)

De acordo com a autora, há um repúdio declarado para que os signos da velhice e tudo aquilo que possa denotar a decrepitude do tempo. As imagens veiculadas na mídia contribuem para o fortalecimento desse entendimento quanto à aversão sobre a idade, uma forma de valorização dos signos da vida em detrimento da morte. Medidas como essa se tornam referências da cultura vigente, até por que, como já apresentado, o corpo se tornou um capital, uma forma de investimento para aniquilar a morte e preservar o corpo. Sibilia vai além da concepção de capital pelo corpo e acredita que os movimentos realizados para a valorização da jovialidade são atitudes que prezam pela purificação da carne, que vão desde as promessas dos produtos farmacêuticos e da cosmetologia até o bisturi virtual, ou seja, a intervenção tecnológica para a manipulação de imagens.

(...) uma miríade de produtos e serviços é anunciada em constante festival, com sua retórica especializada em garantir as mais desvairadas certezas. Sublinha-se, sobretudo, sua capacidade de ajudar as vítimas dessa biopolítica imperfeita a dissimular os inevitáveis destroços que essa fera impiedosa, a velhice, ainda teima em imprimir no aspecto físico de cada um. A força dessa vontade contrariada alimenta, assim, o riquíssimo mercado de purificação, constituído por toda sorte de antioxidantes, hidratantes, drenagens, lipoaspirações, e estiramentos com vocação rejuvenescedora das aparências. (SIBILIA, 2011, p.93-94).
A indecência creditada às marcas do tempo aliada aos tentáculos do capitalismo para o investimento do corpo concretizam corporalidade que não permite imagens desgastadas ou que de alguma forma possam afrontar as relações de prazer que o corpo pode ofertar.

(...) Um estado corporal que deveria ser combatido – ou, quanto menos, sagazmente dissimulado – por ser moralmente suspeito e, portanto, humilhante. Algo indecente que não deveria ser exibido; pelo menos, não sem recorrer aos convenientes filtros e pudicos retoques que nossa era inventou para tal fim que com crescente insistência, põe à nossa disposição e nos convoca a utilizar.

Assim, em plena vigência desses valores que ratificam a cristalização de uma nova moralidade, os cenários privilegiados dos meios de comunicação audiovisual se recusam a mostrar imagens de corpos velhos. As revistas de páginas brilhosas só aceitam publicar esse tipo de fotografias em raras ocasiões: quando se considera estritamente necessário e, mesmo nesses casos, contando sempre com o auxílio das ferramentas de edição de imagens como o popular Photoshop. (SIBILIA, 2011, p.93-94).
O desejo pelo corpo sem as “impurezas” se estabelece por conta da tecnologia; é a felicidade ao alcance de alguns cliques virtuais. Em uma outra ocasião, a autora apresenta que os programas de computadores que editam imagem como sendo bisturis virtuais, ou seja, são capazes de modificar e restabelecerem uma nova forma concepção imagética do corpo, extirpando o excesso de peso, condição de repúdio para essa estética de representação midiática

Tratar-se-ia, portanto, de seres maculados pela impureza, eventualmente excluídos até mesmo da própria categoria de sujeitos. De certo modo, tais criaturas estariam no limiar da humanidade, sempre ameaçadas de caírem no domínio das monstruosidade e das aberrações. Ou quiçá, pior ainda: da invisibilidade (SIBILIA, 2006, p. 277)


Dialogando com o pensamento da autora sobre a decrepitude da idade, Edvaldo Couto e Dagmar Estermann Meyer (2011) estabelecem uma relação sobre o corpo, mercado e tecnociências também no sentido de aliviar a falência do corpo advindo pela idade em nome do vigor da juventude.

A tecnociência, o mercado e os meios de comunicação produzem e fazem circular diversificados cardápios de técnicas, produtos e orientações que visam, sobretudo, o aumento progressivo da qualidade de vida. Nesse contexto, tradicionais fronteiras entre juventude e envelhecimento têm sido cada vez mais questionadas, desafiadas, deslocadas, borradas. Promessas anunciadas, e amplamente desejadas, apontam para possibilidades de reprogramação de corpos humanos na direção de torná-los imunes a doenças, de dar-lhes condições de diminuir as penúrias da velhice e adiar a fatalidade da morte. (COUTO; MEYER, 2011, p.22)


Uma celebração da mocidade que estabelece uma ordem moral quase irredutível para o cotidiano contemporâneo, em que os modos de representação da beleza se relacionam em nome do prazer. Um discurso esquizofrênico que propaga a garantia de felicidade pela imagem imaculada, ainda que seja de modo virtual.
Considerações finais

Os valores capitalistas e hedonistas também foram absorvidos pelas práticas da imprensa homoerótica brasileira. A intenção do jornal Lampião da Esquina, primeiramente, não era de propor realizações de felicidade e prazer, mas sim de militância e reconhecimento de homossexuais no espaço social. Entretanto, o uso do corpo se tornou um código para que a promoção da felicidade, uma práxis quase obrigatória na moral contemporânea.

A oferta de imagens de corpos alheios ao sofrimento da vida e sem qualquer incidência de marcas da idade contribui para além das significações de prazer e felicidade, complementa a crise entre visão e verdade da representação da estética desse corpo, lidando com códigos absolutos de prazer e eliminando discursos mais democráticos de felicidade.
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1 Mestre pela Universidade Estadual Paulista – Unesp/Bauru, professor da Universidade Norte do Paraná (Unopar) e jornalista em Londrina (PR).

2 Desse modo, consumir, independente da qualidade do objeto, até mesmo aquilo que é obrigação de oferta pelo Estado como educação, saúde e segurança, o indivíduo compartilha de signos de cidadania para reconhecimento e pertencimento no espaço social. (Canclini, 2008)


3 Há também o corpo real (p.47) em que pelas capacidades físico-fisiológicas que o corpo obtém o seu prazer, da sua instância que atravessa e medeia o próprio corpo enquanto uma condição biológica, mas também subjetivada por conta das relações culturais que são estabelecidas pelo homem.

4 Costa considera que as representações de prazer extático “o orgasmo sexual; as mudanças fisiológicas induzidas por drogas psicoestimulantes; as experiências místicas; os transes rituais,; as atividades esportivas que exigem força e destrezas musculares incomuns; as lutas físicas etc. Exemplos de prazer mitigado são as atividades lúdicas ou esportivas; os sentimentos ternos; o deleite com a criação e a fruição de obras artísticas ou científicas; o conforto, a serenidade, a alegria, o entusiasmo ou a beatitude com emoções de ordem espiritual , moral, cívica, etc. (Costa, 2005, p.92).

5 Muniz Sodré se apropria dos conceitos de bios apresentados pelo filósofo Aristóteles que afirma que há três formas de existência humana (bios) na Pólis: bios theoretikos (vida contemplativa), bios politikos (vida política) e bios apolaustikos (vida prazerosa) (Sodré, 2006).

6 Entre elas: Le Femme, Subúrbio à Noite, Gente Gay, Aliança de Ativistas Homossexuais, Eros, La Saison, O Centauro, O Vic, O Grupo, Darling, Gay Press Magazine, 20 de Abril, O Centro e O Galo. Em Niteroi, havia Os Felinos, Opinião, O Mito e Le Sophistique. Na Bahia foram lançados Fatos e Fofocas (1963), Zéfiro (1967), Baby (1968), Little Darling (1970) (LIMA, 2007), todas em caráter alternativo, sem grandes projeções fora das cidades em que eram editadas e com baixo orçamento para produção


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