Na cidade do invisível Dalton Trevisan



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Antônio Torres



Sobre Pessoas




Índice


Antônio Torres 1

Índice 2


Para começar 4

(E para Ziraldo e Luís Pimentel – por falar em pessoas) 4

Dois encontros com Glauber 7

A entrevista de Glauber Rocha, aos 25 anos 14

Um modo de ser campeão do mundo 19

Relações transatlânticas 22

Enquanto Nova Orleans agonizava 40

Idéias de Jeca Tatu 43

Vencedores e vencidos: 53

histórias da nossa História 53

O carnaval dos canibais 54

São Sebastião, o rei e o Rio 58

A bela Susana do vice-rei 60

Quando o Rio teve um governador chamado Vaca 62

Pequeno perfil de um grande homem 70

Exercícios leves 72

sobre pesos-pesados 72

Blues para Cortázar 73

Vinícius e o seu poema preferido 75

A bela Tônia e o velho Braga 77

Rubem Fonseca aos 80 80

Tirando o pai de letra 82

Convidada a continuar 84

O palhaço e o poeta 86

Othon Bastos enquanto vivo 88

Juan Rulfo no Rio 90

Camões na Bahia e outras histórias 92

O lado infame do genial Borges 95

Roteiro sentimental de um leitor de Jorge Amado 98

Na hora de dizer adeus 113

a estas pessoas: 113

Foi um prazer te ouvir, João 114

O discreto Rubião 117

Uivo em surdina 119

Feito de azul, bonito demais 121

Ipanema em 1968 122

Alguém que anda por aí 124

Em Madureira, com um guia francês 125

Na cidade do invisível Dalton Trevisan 127

Com Loyola em Araraquara 129

Na Praça dos Paraíbas, onde João Antônio viveu 134

Com Márcio Souza em Manaus 136

Viagem com Baudelaire e Brigitte 139

Crônicas de gente 141

sem nome nas ruas 141

Tributo a um comunista 142

A concessão do evangélico 144

Os dois ladrões 146

A mãe, as professoras e os dias de um escritor 148

Para terminar 150

Quando o Natal não tinha Papai Noel 151


Para começar

(E para Ziraldo e Luís Pimentel – por falar em pessoas)

Quereria um começo com a delicadeza de Fernando Sabino, em A última crônica, que cada vez que releio mais me encanta. E agora a ela retorno, em busca de ensinamentos. Algo assim como fez Henry Miller, quando decidiu tornar-se um escritor. Sem saber como começar, ele passou a andar pelas ruas de Nova York, indo parar diante da estátua de Shakespeare. Persignou-se diante dela, igual a um penitente que roga salvação para sua alma. Repetiu a peregrinação por dias e dias. Martírios do ofício, nas voltas tortuosas até se chegar à primeira frase. O que faz pensar na angústia do goleiro diante do pênalti. Ou na do seu batedor.


Foi em tais circunstâncias, a confabular consigo mesmo pelas ruas do Rio, que Fernando Sabino acabou por nos legar uma pequena obra-prima. Começa assim:
“A caminho de casa, entro num botequim da Gávea, para tomar um café junto do balcão. Na realidade, estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório, no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida”. E por aí vai ele, até sair de suas ruminações e bater os olhos num casal de negros e sua filhinha com um laço de fita na cabeça, ao fundo do boteco. Esse olhar o fez captar uma jóia de rara beleza, ainda a servir de espelho para principiantes.
Este aqui de vez em quando batia perna ao lado do mestre, nos calçadões à beira-mar, Copacabana-Ipanema-Leblon. Numa dessas vezes, ele perguntou:
- Você já leu o meu livro sobre a Zélia?
Por essa eu não esperava. Uma pedra no meio do caminho. Sinuca de bico. Cul-de-sac.
Persignando-me mentalmente diante da imagem de Nossa Senhora do Amparo, a padroeira do Junco, onde nasci, e dizendo-me “Nas horas de Deus e da Virgem Maria, amém”, criei coragem e respondi que Zélia, uma paixão era o único livro dele que eu jamais leria.
- Por quê? Por preconceito?
O papo foi longe. Voltei para casa contrariado, achando que o havia deixado com mais uma pedrinha no tênis. Sabia que, depois do linchamento que ele recebera na imprensa por causa daquele livro, passara a evitar a exposição pública, temendo ter de responder a perguntas maliciosas ou a se desvencilhar de ofensas, como a de mercenário, por tê-lo escrito apenas para faturar uma fortuna. Nada mais injusto. Fernando Sabino doara os direitos autorais do seu polêmico best-seller a uma instituição assistencial de menores carentes, sem se vangloriar disso.
Como bom mineiro, ficou em silêncio, remoendo a sua falha trágica ao declarar: “Zélia sou eu”. No calor da hora, a sua brincadeira não teve graça. Levaram-na a sério demais. Como se ele acreditasse, verdadeiramente, que a personagem que causara um terremoto na economia dos cidadãos, na era Collor, tivesse o mesmo status literário da heroína de Gustave Flaubert, Madame Bovary.
Mas por que, e para que o chatear ainda mais, quando privava de sua camaradagem, durante uma caminhada para desenferrujar as pernas, desanuviar a mente, e suar todas as tristezas? – eu me perguntava. Ora, ora, quem mandou Fernando Sabino tocar no assunto? Pensei que ele ia ficar zangado, a ponto de cortar a nossa relação, para sempre.
Numa manhã de domingo o telefone tocou e era o próprio, de viva voz. Disse:
- Acordei hoje com vontade de ligar para o Mário de Andrade, o Rubem Braga, o Paulo Mendes Campos, o Otto Lara Resende e o Hélio Pellegrino. Como nenhum deles pode atender...
Foi um começo de conversa e tanto. Ao final, convidou-me para um drinque em sua casa.
- Que tal amanhã? – perguntei-lhe.
- Ih! Amanhã não dá. Ao descobrirem que fiz oitenta anos, me empurraram para os exames médicos. Assim que me livrar dessas chateações, telefono para combinar.
Não telefonou mais. Só iria voltar a vê-lo já embalado para a última viagem, no cemitério São João Batista.
Ah, Fernando. Para começar, que falta que você faz.


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