Na Introdução do nosso capítulo precedente, já o dissemos, esta série dos "Propósitos Psicológicos" faz parte de um conjunto de documentação com a série de as "Grandes Mensagens"



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OS ESSÊNIOS
Introdução
Na Introdução do nosso capítulo precedente, já o dissemos, esta série dos "Propósitos Psicológicos" faz parte de um conjunto de documentação com a série de as "Grandes Mensagens".

Trata-se, de fato, de documentos que trazem algumas luzes sobre as diversas concepções dos homens, mais do que uma doutrina propriamente dita. É, talvez, um método de educação para alguns, uma via de iniciação mesmo, mas sobretudo um ramo de sistemas do qual é preciso retirar as mais belas flores.

Não nos apresentamos como algo exclusivo neste modo de instruir, nosso único privilégio foi ter podido interessar numerosos pesquisadores, aliás, as freqüentes citações de autores e obras a que nos referimos tão seguidamente, provam nosso desejo de alargar esta maneira de formar as mentes.

É, pois, o caso de uma reeducação prática, daí estes paralelismos repetidos a todo momento para impregnar melhor o leitor de uma mentalidade de síntese, indispensável para abordar a Ciência Esotérica que é a base da Grande Tradição Iniciática.

Começamos esta terceira "dúzia" de Propósitos com um apanhado sobre os Gnósticos, cujo ensinamento é oposto ao verdadeiro Cristianismo (o Cristianismo entendido no seu sentido comum habitual), e isto propondo uma interpretação esotérica. Entretanto, se os Gnósticos, que pretendem ter uma tradição oculta, estão em desacordo com os cristãos ortodoxos (e em particular com os católicos de hoje), seus escritos provam que eles fazem de Jesus um de seus Profetas e talvez o maior.

Outrora, alguns tinham lançado hipóteses sobre as relações entre o Cristianismo e o conjunto da Gnose. Lietzmann tinha evocado uma volta do Cristianismo a suas origens orientais, uma re-orientação extrema do Cristianismo. É difícil se fazer uma idéia exata destas questões. Suas revelações são postas, às vezes, na boca de Zoroastro, Adão, Seth, mas, às vezes, eles falam também no nome de Jesus.

Para chegar a conclusões precisas, para tirar ao mesmo tempo da descoberta de Khenoboskion as múltiplas revelações que ela promete, ser  necessário confrontar os novos textos gnósticos com o Cristianismo autêntico, de dois pontos de vista diferentes. É disto que certamente Jean Doresse deve se ocupar agora, após o aparecimento de seus primeiros trabalhos (já citamos bastante estes textos, tirados de sua obra "Les livres secrets des gnostiques d´Egypte", Ed. Plon, 1958).

Citemos aqui que a cruz "ansada", símbolo da Vida que os coptas herdaram de seus ancestrais e conservam até nossos dias como equivalente da cruz cristã, é um signo que parece não ter passado do paganismo egípcio ao cristianismo copta, antes do ano 391.

Nas suas "Histoires ecclésiastiques" Rufin e Sozomène relatam que é neste momento que o Serapeum de Alexandria foi destruído pela multidão excitada pelo Patriarca Theófilo, e que a célebre estátua de Deus, talhada por Bryaxis foi despedaçada. As tradições eclesiásticas relatam complacentemente como, por ocasião desses distúrbios, os cristãos descobriram com espanto, sobre as paredes internas do templo, este signo antigo (a cruz "ansada" egípcia), semelhante à Cruz, e que lhes foi dito ser o da "Vida por vir", enquanto os pagãos por seu lado, ficaram estupefatos de verem a cruz triunfante, daí em diante, pintada sobre as casas por seus adversários, tão parecida (era a Cruz encimada de uma coroa) com seu hieróglifo da "Vida Futura".

J. Maspero (na "Histoire des Patriarches d´Alexandrie") nos diz: "Profecias antigas que os últimos fiéis conservaram dos cultos egípcios anunciavam, parece, que as manifestações deste signo marcariam a chegada de um culto novo, assim, os devotos alexandrinos de Serapis se converteram em grande número ao novo culto e, por seu lado, os Cristãos adaptavam esta nova forma da Cruz que tinha a vantagem de já designar, na escritura de seus ancestrais, a "vida a vir".

Sabe-se a história deste falso messias, o "Egípcio" que, por volta de 52-54 atraiu quatro mil Judeus ao Monte das Oliveiras pretendendo que ele faria ruir a seus olhos, os muros da Cidade Santa; mesmo os Atos dos Apóstolos (XXI-38) lembram o fato. Menos conhecido é Theudas que dez anos antes, levava as multidões ao Jordão prometendo-lhes milagres. Até o historiador judeu Josèphe estigmatizava semelhantes impostores que, apesar das sangrentas represálias dos Romanos, não cessavam de agitar a multidão sob pretextos de revoluções ou de visões. Não é, pois, impossível que os qualificativos "falso profeta" e "anticristo" usados pelo Cristianismo relativos aos adversários anônimos, tenham visado, às vezes, a pessoas que pretenderam ser encarnações do Grande Seth. Os Nicolaitas mencionados no Apocalipse de João (II-6 e 15) foram, efetivamente, assinalados pela gnose, tão análoga à que revelam os escritos coptas, que os heresiólogos concordam em atribuir-lhes.

Uma outra questão interessante é a importância dada a São Paulo pelo Maniqueísmo. (Ver Kephalaiôn I. p.13.em “Manichaische Handschriften der staatlichen Museen Berlin”, 1940).

Fora do Apocalipse de Paulo que pelo seu próprio título, quer efetivamente colocar-se sob seu nome, nunca foi abertamente "nomeado" nos outros tratados ou revelações, onde, entretanto, a influência de sua doutrina se manifesta pelo número de citações implícitas. É mesmo curioso que a "Hypostase des Archontes" no seu preâmbulo, inclua um versículo da Epístola aos Efésios (VI-12) antes de se engajar na exposição de uma mitologia com a qual o cristianismo não tem, aparentemente, nada mais a ver. Ora, este versículo é apresentado pelo texto gnóstico com estas únicas palavras: "O apóstolo diz...Por que razão o nome de Paulo é mencionado? Não é por desconfiança a respeito do apóstolo: se se desconfiasse dele, não se lhe atribuiria exatamente suas palavras concedendo-lhe, por causa de sua origem, a autoridade que lhe é atribuída. É então, respeito particular por um mestre, cujo nome se proíbe dizer, mas cujo ensinamento é particularmente reverenciado."

Segundo Jean Doresse, é chocante, desde o primeiro momento, que o Cristianismo ensinado por este Paulo que professava ter sido beneficiado com revelações celestes, esteja ainda mais próximo das especulações gnósticas que o de João. Quase se acreditava em encontrar a noção de Gnose em Paulo quando ele apela à "Sabedoria de Deus... que está oculta, que Deus preparou antes mesmo dos séculos, para nossa glória e que nenhum dos príncipes (os arcontes) deste século (deste éon) conheceu". É o que é relatado na Bíblia na Primeira Epístola aos Coríntios Cap. II. vers. 7 e 8.

Os Gnósticos classificam os homens em três categorias: hílicos, psíquicos e espirituais. Paulo ensinará o mesmo sobre o somaticon, o psíquico e o pneumaticon e basta rever as numerosas passagens de suas exortações para encontrar ali as bases do ensinamento gnóstico (I. Coríntios, XV;44-47, Efésios I;4-5, Efésios V; 8, Epístola aos Colossenses I, 15 sq. 26-27, etc.)

Entretanto, as especulações de Paulo têm como ponto de partida os mesmos temas místicos que as dos gnósticos, mas ele as interpreta diferentemente.

Franz Cumont já assinalou todos os traços que aproximam o Maniqueísmo, por exemplo, da doutrina de Basilide, tão próxima da dos gnósticos do Egito. Basilide tinha composto em 24 livros, um comentário dos Evangelhos canônicos. Mani redigiu um Evangelho vivo para Basilide, o Cristo longe de morrer na Cruz, tinha feito perecer no seu lugar Simon de Cyrene; para os Maniqueus, era o próprio Príncipe das Trevas que Jesus teria feito pregar na cruz e que teria se retorcido sobre o patíbulo. Sobre o batismo depois do qual Cristo tinha substituído a pessoa humana de Jesus, Mani e Basilide estão de acordo.

Hoje, os novos escritos coptas ilustram ao mesmo tempo a "autenticidade gnóstica" das doutrinas expressas por Basilide e, mais em detalhes, as relações estreitas que fazem com que o Maniqueísmo dependa desta mesma forma da Gnose.


OS ESSÊNIOS
Se retomamos o que é conhecido dos Essênios, é notável que Gomorra e Sodoma estejam entre os lugares onde se estabeleceram suas colônias. Todos os testemunhos que se recolheram na literatura antiga sobre os lugares onde os essênios habitaram, foram copiosamente analisados e interrogados. Assim se expressa Jean Doresse no seu capítulo "les gnostiques et les sectaires de Qumran".

Entretanto, houve pouco interesse no fato de Q–mran, segundo uma identificação proposta outrora por F. de Saulcy, ter sido Gomorra. Por outro lado, segundo testemunho de Synesius de Cyrene, Dion Chrysostome, que viveu entre 42 e 125, "elogia em algum lugar os Essênios que constituem uma bem-aventurada cidade estabelecida perto do Mar Morto na região mediana da Palestina, perto do Sodoma."

Com os quarenta e quatro escritos encontrados num jarro do Alto-Egito, estão os manuscritos descobertos perto do Mar Morto, que estão na ordem do dia para os pesquisadores atuais.

De fato, depois de anos de trabalho para traduzir, classificar, catalogar, etc. ...não são simplesmente artigos da grande imprensa que mencionam estas importantes descobertas mas obras sérias apresentam o resultado dos trabalhos e comentários destas interessantes pesquisas.

É sem dúvida o artigo de Edmund Wilson "The Scrolls from the Dead Sea" (publicado em 1955 em "The New Yorker") que despertou o grande público para esta interessante descoberta do Q–mran.

Os achados feitos nestas cavernas perto do Mar Morto, tornaram-se rapidamente assunto de grandes conversas que interessaram tanto os homens comuns, quanto o homem de ciência. As descobertas arqueológicas são sempre fascinantes e sempre atraem não só os especialistas, e se isto é válido, em geral, foi mais particularmente ainda no concernente a estes famosos manuscritos que sacudiram sobretudo a opinião cristã.

A citação de Wilson, já tinha mergulhado o mundo cristão na perplexidade, quando anunciou que: "a ascensão do cristianismo deve enfim ser compreendida mais como um simples episódio da história humana do que ser propagada como um dogma ou uma revelação divina"...

Krister Stendahl que acaba de editar "The Scrolls and The New Testament" (Harper Brothers, New York, 1957), levanta a questão de que todo o mundo reconhece entre o material do Q–mran e o Novo Testamento, grandes semelhanças, mas o fato de que os argumentos e os contra-argumentos se desencontrem, indica que os paralelos em matéria de religião têm significações diferentes para diferentes pessoas.

Ele menciona igualmente que Wilson considera como símbolo de verdade e integridade, Ernest Renan1 .

Segundo Dupont-Sommer, ele se refere à famosa sentença de Renan segundo a qual "a Cristandade é um Essenismo que teve amplo sucesso". Como para Renan é duvidoso que a Cristandade tenha tido uma comunicação direta com o Essenismo, conclui-se que isto não está muito claro.

Na "Histoire du peuple d´Israel", E. Renan fala dessas diferenças e elogia o "legalismo" dos Essênios e depois continua dizendo "para o Cristianismo, as idéias messiânicas eram apenas o levedo que faria subir a massa. Uma vez lançado o fermento, restaria uma Regra de Vida bem mais superior que o Essenismo". Para Renan, a religião era fundamentalmente ética com tonalidades religiosas, e este liberalismo fez dele um historiador bem pobre neste ponto (sempre segundo a opinião de K. Stendahl, na sua "Introduction").

O grande argumento dos apologistas cristãos é que, para os Essênios, o Messias ainda devia vir, enquanto os cristãos acreditavam que ele já havia vindo, havia morrido e subido ao céu.

Entretanto, um estudo mais profundo do Novo Testamento revela claramente uma atitude dos primeiros cristãos que se traduz pela esperança e pela espera, para uma grande parte do cristianismo nascente, o Messias ainda não tinha vindo...

É universalmente reconhecido que os manuscritos do Mar Morto vêm enriquecer substancialmente o nosso conhecimento de base judia da Cristandade. Já se aceita que a literatura Paulina ou Joanita pode ser compreendida justamente por estas bases judias.

Sempre se reconheceu que o Cristianismo emergiu do Judaismo e para a primeira Igreja, isto era não só um fato histórico, mas também uma verdade teológica.

Muito significativo é o fato de que o Novo Testamento não menciona o termo Cristianismo. Isto só acontece no segundo século (Ignatius), mas também é certo que os que escreveram o Novo Testamento não sentiam nenhuma necessidade para tal abstração.

Durante mais de cinqüenta anos o termo "escatologia" foi palavra chave nos estudos bíblicos. Albert Schweitzer converteu-se no símbolo dessa nova forma de estudo, embora a reorientação tenha sido trazida há mais de uma década antes por John Weiss ("Die Predigt Jesu vom Reiche Gotte", 1892)2 .

Mas a descoberta dos manuscritos de Q–mran trouxe uma nova luz a essas questões. Estamos agora, pela primeira vez, aptos a comparar a espera messiânica da seita judia chamada os Cristãos contra outra seita judia, e também sobre o cenário no tempo de Jesus.

O termo "seita" é empregado aqui de propósito, mas Josèphe apresenta os Fariseus, os Saduceus e os Essênios como "filosofias". Entretanto, a estrutura dos Fariseus e dos Saduceus difere da dos Essênios; os primeiros podem ser compreendidos como "partidos", pois apesar da diferença de opiniões, eles tentavam influir na vida dos judeus. Nada havia na adesão desses partidos que fizesse pensar numa significação teológica ou escatológica. Ao contrário, era exatamente isto o que acontecia entre os Essênios. Eles não formavam um partido, mas uma comunidade do Novo-Contrato, pela iniciação e obediência, eram os Eleitos. É nesta forma da Comunidade Essênica que se encontra a importância de distingui-los como seita, mas muito superiores, aos partidos dos Fariseus e Saduceus.

Então, estando bem clara na mente, esta distinção, é fácil para qualquer leitor do Novo Testamento reconhecer que a igreja primitiva (cristã) deve ser vista como seita.

Assinalemos que os Cristãos chamavam-se a si mesmos de Eleitos e seu batismo era considerado um ato iniciático.

O Serek ha-yahad (Manual de Disciplina, no conjunto do Qo–mran), contém duas colunas de regras para a "disciplina na igreja" e demonstra que não se trata de uma simples disciplina somente por razões educativas. O castigo é descrito em termos de "exclusão da Pureza" e por isto mesmo excluído da refeição em comum. As refeições não são escolhidas arbitrariamente como o ponto focal da Santidade nem da seita, mas como a antecipação do Banquete Messiânico e por este fato, quem não é digno dele, é excluído do banquete e ao mesmo tempo excluído de sua contraparte na Comunidade.

O simples fato de mentir, por exemplo, exclui o pecador da Pureza por um ano e ele fica privado de um quarto (1/4) de sua ração alimentícia diária.

Chegado a este ponto, é tentador levantar a velha questão sobre o significado da palavra grega (epiousos) que se encontra por trás da tradução da oração "Pai Nosso" (Pater noster): "dai-nos hoje o pão nosso de cada dia". O Evangelho apócrifo aos Hebreus diz: "o pão nosso de amanhã"; esta forma está muito mais de acordo com o significado preciso da palavra grega e pode ser sustentada assim pela única oração em grego secular onde se encontra (a ração concedida para o dia seguinte).

Entretanto, o texto da oração "Pai nosso" é fortemente escatológica, é fundamentalmente uma oração para a vinda do Reino e liberação do demônio (da impureza). Neste local original e à luz de uma estrutura de antecipação do Q–mran, uma oração para participação da refeição paradisíaca dá imediatamente um sentido perfeito no "Dai-nos hoje o pão nosso de cada dia".

No referente a Jesus, a questão não é tanto de saber se ele tentava ser um Educador, um Rabi (um Mestre) para o movimento religioso em marcha na época ou se ele acreditava ser realmente o Messias, o Filho de Deus. As duas alternativas, hoje, estão totalmente no quadro da Promessa e do Acontecimento, seja ele o Messias ou a anunciador, o profeta que vem anunciar que o Reino está ao alcance das mãos. É à luz desta alternativa que as idéias messiânicas do Q–mran tornam-se paralelos muito significativos.

No "Commentaire de Habakkuk" (pesher) (VII i.f.), o Mestre da Retidão parece ser o fundador da seita do Q–mran. Ele foi certamente mais do que um "Educador", ele era Aquele que havia recebido a autoridade para revelar "A fase final do Fim que só foi dada ao próprio profeta Habakkuk".

A publicação de certos fragmentos da "Cave IV", deixou claro, agora, que este Mestre chamado "o Intérprete da Lei" no Documento Damascus (VI-7,VII-8) pode ser identificado com o Messias sacerdotal que deve se erguer nos últimos dias".

J.M. Allegro (em Further Messianic References in Qumran Literature) pretende que haja uma possibilidade do "Intérprete da Lei" ser identificado com o profeta que deve vir com os dois Messias. Mesmo assim ele permanece uma "figura messiânica".

Apesar de tudo isto, o caráter messiânico da Comunidade do Q–mran é flagrante. Eles são os que devem receber os dois Messias e o Profeta Messiânico. E K. Stendahl3 conclui: "assim pois, como achamos que os Messias ainda vão vir, a seita do Q–mran deve ser nomeada como uma comunidade messiânica num sentido muito mais específico que o Judaísmo em geral poderia ser chamado também de messiânico. Os acontecimentos messiânicos começam numa forma de antecipação; a Comunidade é uma manifestação do Novo-Contrato da Idade a vir. O Mestre da Retidão não era ainda, mas deve voltar como um Messias.

Sabíamos, pelas descrições de Josèphe e Philon, que os Essênios tinham doutrinas secretas, mas nem E. Renan que tomou a posição do Cristianismo nascido do Essenismo, nem Edouard Schuré que, nos “Grandes Iniciados”, sustenta a tese de que Jesus foi iniciado pelos Essênios, podem ter provas tangíveis de suas afirmações. De fato, eles ignoravam na sua época, a existência desses textos reveladores encontrados há 3 anos.

Oscar Cullmann4 no seu livro sobre as Pseudo-clementinas, escritos judeu-cristãos, dos quais os mais velhos elementos (o "Kerygmata Petreu") preservam um material de um Cristandade Judia primitiva, defende a tese de gnosticismo judeu, que julgado exteriormente deve ser considerado como o berço do primeiro cristianismo.

A evolução, que geralmente se supõe de um estreito cristianismo judaico para um cristianismo helenístico universal, é um esquema artificial, que não corresponde de modo algum à realidade histórica. As duas tendências existiam na igreja primitiva e a história do Cristianismo primitivo é a história do "interjogo" dessas duas tendências, apresentadas juntas desde o começo na igreja palestina. Segundo Cullmann, a cristandade palestina poderia ter extraído elementos helenísticos que teriam ultrapassado as fronteiras nacionais do judaísmo e isto já era conhecido antes da descoberta de novos textos. Mas presentemente, temos uma confirmação clara e precisa disto. Este autor agradece sobretudo Lidbarski que, por volta de 1920, publicou seus trabalhos sobre a redescoberta dos textos chamados Mandeanos e que nos fazem reconhecer um movimento batista Pré-Cristão, saído da Palestina e da Síria, e veio influenciar não só os discípulos de João Batista como também os de Jesus. Além disso devia haver um laço entre os primeiros Cristãos e a tardia literatura judia de Enoch.

As críticas contra o Templo expressas por Jesus nos Sinópticos, (citado por João numa forma ainda mais forte) correspondem à atitude dos Essênios, contra o Templo judeu e sobretudo no que se refere aos sacrifícios. Segundo Philon Quod omnis probus liber.75, os Essênios rejeitavam os sacrifícios de animais. Segundo uma passagem dos textos de Josephe (Ant. 18,I,5) os Essênios enviavam dádivas ao Templo, mas não participavam das cerimônias.

Enfim, se os Essênios não são mencionados no Novo Testamento é precisamente pelo fato de estar em estreito contato com os primeiros Cristãos, e por isto, os discípulos de Jesus não precisavam combatê-los como os Fariseus ou os Saduceus, mencionados numerosas vezes. É possível conceber que o Pensamento Essênico como a prática, tenha entrado no começo da Cristandade por intermédio de João Batista. Já sabemos pelo Evangelho de João que os primeiros discípulos de Jesus foram primeiro discípulos de João Batista. O próprio Jesus se apresenta como sendo antes um discípulo deste Batizador João. (Mateus, XI-II,13,14).

Se existiu laço entre os Essênios e os discípulos de João, é bom saber que havia também um laço entre os Essênios e os discípulos de Jesus. No Evangelho de Lucas, lemos que João vivia no deserto de Judá, antes de começar a batizar. Este deserto era justamente o lugar onde os Essênios tinham seus claustros e suas cavernas. É impossível pensar que João tenha vivido ali sem contatar a Comunidade Essênica e, embora não fosse um membro dela, pelo menos foi influenciado por eles, inclusive para fundar um movimento messiânico independente. Por outro lado, é preciso saber que João nasceu numa família de sacerdotes. Quando se sabe a importância desta classe entre os Essênios e sobretudo o sistema de vida, pode-se perguntar se João não nasceu no próprio seio do Essenismo, sendo inclusive filho de um dos membros da Comunidade.

R. Bultmann (“Die Bedeutung der neuerschlossenen mandaischen und manichaischen Quellen fuer das Verstaendnis des Johannes-Evangeliums”) expõe que, em muitos casos, é fácil explicar a influência indireta do Essenismo nos começos do cristianismo. Para concluir, é preciso dar ênfase a um ponto que pode tornar-se importante quando se coloca outro, talvez, contatos mais diretos entre os Essênios e Cristãos: de um lado, há o interesse particular do quarto Evangelho de João Batista e sua seita e de outro, há o paralelismo entre essas concepções e as dos Mandeanos. Assim, este Evangelho é um laço possível na seqüência: Q–mran - João Batista - primeiros cristãos.

Durante nossa viagem à Síria e ao Líbano, ficamos muito interessados em achar vestígios do Essenismo. Em Damasco, mais do que a grande Mesquita, o que mais nos interessou foram as covas onde os primeiros cristãos se reuniam em torno de Paulo. F.A. Schilling (“Why did Paul go to Damascus?”) na "Revista Teológica Anglicana" (1934) ressalta que os Essênios tinham se instalado em Damasco e que o próprio Paulo, após sua conversão, permaneceu em Damasco. Pergunta-se se ele também não foi membro da célebre seita.

Pessoalmente, pensamos que os discípulos de Jesus, como os de João, foram todos mais ou menos Essênios primeiro e não viram objeção em pregar a nova religião cristã, crendo nos princípios universais deste novo exoterismo do Essenismo, permanecendo ligados à doutrina esotérica.

Para Cullmann (no seu artigo “Les Debuts de la Chrétienneté”) parece ser mais provável que uma parte tenha sido feita entre os essênios e os primeiros cristãos, pelos Helenistas que são mencionados no Livro dos Atos. Estes pertenciam à Igreja original Palestina e foram o resultado da Diáspora. Segundo este autor, eles foram os verdadeiros fundadores das missões cristãs e também teriam começado a pregar o Evangelho na Samária. A Universalidade não foi introduzida primeiramente por Paulo, mas pelos Helenistas e bem antes dos Apóstolos. Esses Helenistas, como os Essênios, rejeitavam o culto no Templo e esta foi a razão pela qual foram expulsos do Templo muito cedo.

Segundo os Atos 61, os "Helenistas" eram considerados simplesmente Judeus que falavam grego, enquanto os "hebreus" eram os judeus falando o aramaico. Entretanto, não há outros documentos que provem a significação exata desta palavra. A palavra grega, de onde se deriva "Helenista" (hellenizein) não quer dizer "falar grego", mas "viver de modo grego". Além disso, não é mencionado que tenham vindo da Diáspora. Seja como for, não se pode provar que o "Hebreu" se refere a uma linguagem falada por pessoas designadas com esta palavra. A questão ainda permanece em pé para saber se esses helenistas não seriam judeus diferentes do judaísmo oficial, mostrando tendências mais ou menos esotéricas de origem sincrética.

Em "The Early church" (1956), Cullmann demonstra que o Evangelho de João estava particularmente interessado nestes helenistas e no seu trabalho de missionários pioneiros na Samária. De fato, este Evangelho fez a reabilitação dos Helenistas. No Evangelho de João (IV-38) Jesus diz que não foram os Apóstolos, mas outros que começaram a missão na Samária e que os Apóstolos, então, somente "entrarão no resultado de seu trabalho "... Isto corresponde exatamente ao relato dos Atos, 8. Esta passagem conta como a Missão na Samária foi inaugurada pelos Helenistas, especialmente por Felipe, um dos SETE (que exerceu o papel provavelmente junto aos helenistas como os DOZE em outra porção da Comunidade). Notou-se que em toda a literatura dos primeiros Cristãos, é justamente o Evangelho de João que mostra a mais estreita relação com os textos do Q–mran. K.G. Kuhn chega a esta conclusão imediatamente após as primeiras descobertas feitas perto do Mar Morto. (“Die in Palestina gefundenen hebraischen Texte und das Neue Testament”, 1950).



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