Nação e nacionalismo no discurso do presidente Lula



Baixar 67.04 Kb.
Encontro11.07.2018
Tamanho67.04 Kb.




NAÇÃO E NACIONALISMO NO DISCURSO DO PRESIDENTE LULA1
Laurindo Mékie Pereira

Prof. da Universidade Estadual de Montes Claros/Unimontes

mekie1@hotmail.com

Este texto é resultado parcial de pesquisa maior2 que procura investigar a temática nação e nacionalismo no governo Luiz Inácio Lula da Silva. A partir dos discursos do presidente, busca-se os elementos constitutivos da “nação de Lula”. Na fala presidencial, o seu governo teria inaugurado uma nova fase na história do país. Entre os aspectos apontados como marcas de um novo tempo, destacam-se o combate à fome por meio da expansão dos programas sociais, a conciliação entre crescimento econômico e distribuição de renda e a redefinição do papel do Brasil na economia e diplomacia internacionais.

Desde os primórdios da República, por diversas vezes, o tema da nação foi colocado em debate no Brasil. A própria implantação do regime republicano foi seguida de um esforço por parte das novas lideranças, especialmente dos positivistas, para despertar nos brasileiros um maior envolvimento político e uma identificação com o novo regime (CARVALHO, 1987). Nos anos 1930 e 1940, Getulio Vargas e os intelectuais do Estado Novo fizeram um forte investimento para constituir a nação, tendo como um dos eixos articuladores o enfrentamento da chamada questão social (GOMES, 2005).

Nos anos 1950, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB – formatou as bases do nacional-desenvolvimentismo, projeto levado a efeito, em linhas gerais, pelo Governo Juscelino Kubitschek. Em nome da superação das estruturas arcaicas especialmente representadas pelo latifúndio, os nacional-desenvolvimentistas propuseram a união dos setores urbanos – burguesia industrial nacional, trabalhadores e classes médias – aos camponeses para construir a nação (TOLEDO, 1997, MOREIRA, 2003). Para tanto, elegia-se como prioridade o desenvolvimento econômico, o que em tempos de hegemonia cepalina traduzia-se em industrialização (BIELCHOWSKY, 1996). A internacionalização do mercado interno brasileiro, para usar expressão de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto (1970), evidenciada antes mesmo do fim do mandato de JK, a crescente integração da burguesia nacional com o capital externo (OLIVEIRA, 1989, MENDONÇA, 1986) e a modernização agrícola sem a realização da reforma agrária (MOREIRA, 2003) cuidaram de desconstruir o discurso nacional-desenvolvimentista, principalmente as teses do ISEB.

No campo da esquerda, a nação ou a revolução nacional, democrático-burguesa, ocupou um grande espaço desde a década de 1920 até aos anos 1960. Em linhas gerais, a revolução nacional tinha como antípoda o imperialismo (DEL ROIO, 2000). Após as “ilusões perdidas”, conforme expressão de GORENDER (1998), a tese da aliança nacional, reunindo os trabalhadores à eventual fração nacionalista da burguesia, desgasta-se profundamente. Todavia, até mesmo quando as ações armadas eram a estratégia principal de luta, diversos grupos de esquerda continuavam a pensar a revolução brasileira tendo em perspectiva a necessidade de uma “etapa nacional” da revolução (RIDENTI, 2000, p. 33-34). Progressivamente, à medida que avançava a “abertura” política, o tema revolução perde terreno no campo das esquerdas, dando espaço a outras questões como redemocratização/democracia e cidadania (DEL ROIO, 2000, p. 117). Nesse mesmo processo, pode-se dizer que a problemática da nação, que fora vigorosa desde o Estado Novo, apesar da grande diversidade com que se abordava o tema, não apresenta mais o mesmo interesse e poder de atração e mobilização entre lideranças e movimentos sociais.

Assim, quando o Partido dos Trabalhadores/PT, principal partido de esquerda no Brasil pós-ditadura civil-militar, chegou ao poder em 2003, o que restava do nacionalismo que ocupara lugar importante no pensamento e estratégia da esquerda ao longo do século XX? Em que medida pode-se falar em nacionalismo no governo Lula?

Para Daniel Aarão Reis Filho, o governo Lula e o PT representariam a continuação, sob novas formas e com adaptações, de uma tradição nacional-estatista cujas origens remontam às primeiras décadas do século passado, a partir das ações dos chamados sindicatos amarelos. O nacional-estatismo se definiria pela defesa da proteção dos direitos dos trabalhadores e pelo estabelecimento de limites à “ganância dos patrões”, cabendo ao Estado assegurar ambas a coisas (REIS FILHO, 2007, p. 91). Mas o programa incluiria ainda
Um projeto nacional-desenvolvimentista, industrializante, na perspectiva de conquistar a autonomia nacional no cenário das relações internacionais (...). Tinha ambições extremamente vastas também na esfera cultural. Era todo um projeto de nação que pretendia incluir trabalhadores urbanos. (REIS FILHO, 2007, p. 94)
Segundo Reis Filho, essa tradição e a estrutura sindical a ela correspondente, sobreviveram e se adaptaram ao longo das ultimas décadas, tendo sobrevivido, inclusive, às criticas feitas pelo chamado novo sindicalismo no final dos anos 1970. Avançando em seu argumento, o autor postula que o Partido dos Trabalhadores tornou-se mais popular e mais forte eleitoralmente, como exemplifica a eleição presidencial de 2002, à medida que foi se afastando da retórica mais radical e adotando um discurso mais conciliador e reformista, encampando, por fim, precisamente, as bandeiras nacional-estatistas (REIS FILHO, 2007, p. 106-107)

Discutível, a tese de Reis Filho procura usar um mesmo conceito para dar conta de conjunturas muito diversas. Além disso, o autor parece não considerar a diversidade existente no interior do movimento e organização dos trabalhadores em cada uma dessas conjunturas. Por fim, sua análise também não aprecia os condicionantes externos nos embates internos no Brasil, a exemplo da emergência, desenvolvimento e fim da Guerra Fria.

As diferenças na conjuntura e nas próprias formas de organização da produção capitalista parecem ser, no entanto, as razões mais importantes para se ter cautela com essa formulação de Reis Filho.

As transformações ocasionadas pela acumulação flexível, a precarização do trabalho ou a crise da sociedade salarial, discutidas por diversos autores como HARVEY (2006), ANTUNES (2002) e CASTEL (2008) colocam a problemática da nação em outro patamar. Seria possível falar em projeto nacional nessa nova conjuntura? Existiria espaço para nacionalismo em contexto de globalização? E no plano cultural e político, haveria espaço para um discurso identitário de corte nacional em plena “modernidade líquida”, para usar expressão de Bauman (2005) na qual as identidades se multiplicam, se fragmentam e flutuam constantemente?

Uma imagem vívida dessa sociedade atual é apresentada por Bauman que cita um cartaz encontrado nas ruas de Berlim em 1994 no qual se diz:

Seu Cristo é judeu. Seu carro é japonês. Sua pizza é italiana. Sua democracia, grega. Seu café, brasileiro. Seu feriado, turco. Seus algarismos, arábicos. Suas letras, latinas. Só o seu vizinho é estrangeiro. (BAUMAN, 2005, p. 33)


A chamada globalização acarreta fortes implicações sobre as identidades correntes. A compressão espaço-tempo característica do mundo que HARVEY (2006) denomina pós-moderno afeta todos os sistemas de representação moderna. Como explica Stuart Hall: “todo meio de representação – escrita, pintura, desenho, fotografia, simbolização através da arte ou dos sistemas de comunicação – deve traduzir seu objeto em dimensões espaciais e temporais” (HALL, 2004, p. 70). Por conseguinte, as identidades também se formam, agora, em um terreno movediço. A identidade nacional é um dos discursos identitários a que recorre o sujeito em um amplo leque de opções.

Para Hall, a globalização provocaria três possíveis conseqüências sobre as identidades, particularmente, as nacionais: a) “as identidades nacionais estão se desintegrando, como resultado do crescimento da homogeneização cultural e do ‘pós-moderno global’”, b) “As identidades nacionais e outras identidades ‘locais’ ou particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização” e c) “As identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades – híbridas – estão tomando seu lugar.” (HALL, 2004, p. 69). O processo globalizante, seja no plano econômico, seja no âmbito cultural, não equivale à homogeneização, observa HALL (2004, p. 78). Contudo, os efeitos sobre a identidade nacional, em qualquer das tendências indicadas pelo autor, parecem claros. Novas identidades emergem como concorrentes à nacional. Por um lado, reforçam-se lealdades locais (p. 73, 84); por outro, identificações amplas, para além da escala nacional, se projetam no “mercado” cultural.

Em qual dessas tendências poder-se-ia enquadrar o discurso nacionalista de Luiz Inácio Lula da Silva? A rigor em nenhuma delas.

O nacionalismo de Lula nada tem a ver com xenofobia ou fundamentalismo religioso; não apela para superioridade racial, nem cultural; também não se apóia em aparato militar. O discurso presidencial também elege a prioridade ao capital nacional em detrimento ao estrangeiro de forma bastante discreta.

Após dizer o que o nacionalismo lulista não é, convém defini-lo, agora, de forma afirmativa. Ele é um discurso que procura aumentar/levantar/produzir auto-estima entre os brasileiros. Esses são convidados e mesmo instados a “acreditarem” no país, a se orgulharem da nação que constituem. Por quais razões? Diversas. A começar porque o país estaria vivendo um momento diferente em sua história, o que se revelaria pela própria vitória do presidente

Se, para alguns, a vitória significa a eleição de um homem ou de uma mulher, no meu caso é diferente, porque a minha vitória significa a vitória da história e não de um homem, mas da história da própria classe trabalhadora brasileira (SILVA, 24 de março de 2003, p. 6).

Além do fato extraordinário da sua eleição, Lula afirma que a marca diferencial desse novo tempo é o otimismo que estaria presente entre os brasileiros e uma disposição única em abraçar causas coletivas

Eu sei a expectativa que estou gerando nas mulheres, nos homens e nas crianças. Eu nunca vi, na história do Brasil, tanta expectativa, tanta esperança e tanta gente pedindo a Deus para a gente acertar. E tanta gente pedindo, não emprego, mas dizendo para mim: “Lula, como é que eu faço para ajudar o nosso Governo a dar certo? (SILVA, 24/01/2003, p.4).

Eu nunca vi tanto entusiasmo e tanta disposição por parte da sociedade para ajudar a resolver esse problema que atinge tanta gente. Empresários, trabalhadores, pobres, ricos, todo mundo está querendo colaborar com o Fome Zero. Eu tenho certeza de que o Brasil não vai perder essa oportunidade de conquistar a cidadania para todo o nosso povo. (SILVA, 27/03/2003, p. 5)

Nesse novo momento, os brasileiros são convidados a entrarem em guerra contra a fome. O país apenas se reencontrará consigo mesmo quando vencer esse inimigo que separa os seus irmãos:

Transformemos o fim da fome em uma grande causa nacional, como foram no passado a criação da Petrobras e a memorável luta pela redemocratização do País. Essa é uma causa que pode e deve ser de todos, sem distinção de classe, partido, ideologia. O que nós estamos vivendo hoje, neste momento, meus companheiros e minhas companheiras, meus irmãos e minhas irmãs de todo o Brasil, pode ser resumido em poucas palavras: hoje é o dia do reencontro do Brasil consigo mesmo. (SILVA, 01/01/2003, p. 8)
A imagem da guerra não é utilizada por acaso. Ela é uma constante no discurso do presidente e aparece sempre associada à idéia de mobilização, de união de todos os brasileiros em uma causa comum. É instrutivo notar, também, como o Lula coloca a luta contra a fome em uma perspectiva histórica, ligando-a a outros momentos de grande mobilização nacional como foram a campanha “O Petróleo é Nosso” de 1953-1954 e o processo de redemocratização. Significativamente, nesses dois momentos, os mais diferentes segmentos da sociedade estavam engajados, fazendo esmaecer, por conseguinte, as diferenças políticas e sociais.

Apelar para a união de todos e dizer que ela é visível na conjuntura corrente é comum nas falas presidenciais. Quando da instalação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico, órgão criado exatamente para reunir representantes de diversos setores sociais e produzir, segundo a versão oficial, subsídios para os planos do governo federal, o presidente afirmou

Neste Conselho, independentemente do pensamento de cada um de nós sobre as reformas, é fundamental que coloquemos, acima dos interesses particulares ou setoriais, os interesses gerais do país e do povo brasileiro. Acredito que essa seja uma condição preliminar e essencial para alcançarmos um patamar mais alto de civilidade democrática nos nossos trabalhos e para construirmos um pacto social pelas mudanças indispensáveis ao país.

Neste novo patamar, as diferenças não acabam, mas se reconstroem num nível mais elevado, priorizando-se os pontos de convergência (SILVA, 13/02/2003, p.6)



No Congresso Nacional, apelando para a conciliação e para o entendimento, Lula volta a falar em subordinar interesses particulares a um “interesse do país”

Esta é a hora de cada brasileiro e brasileira pensar menos em si mesmo e mais no país. (...) Louvável tem sido a conduta política dos governadores e governadoras, prefeitos e prefeitas, de todos os partidos, que vêm colocando seus compromissos com a nação acima de seus interesses particulares. (...)

De fato, acima das diferenças partidárias, estamos diante de um momento histórico em que é preciso razão, entendimento e unidade em torno dos interesses nacionais. (SILVA, 17/02/2003, p.4)

Além das diferenças partidárias e classistas, o presidente menciona, também, as diferenças religiosas e de gênero. Semelhantemente, ele reclama a necessidade de união de todas em favor de um projeto maior:
Olhem, nesta hora, para a gente mudar este país, a gente vai juntar todos os homens e todas as mulheres de bem, para a gente poder fazer a revolução moral e ética de que o nosso país necessita. Quem quiser ajudar, eu não quero saber se é de direita ou de esquerda, branco ou preto, baixo ou alto, católico, evangélico ou ateu. Eu quero saber se as pessoas estão dispostas a ajudar, quem está disposto a ajudar a melhorar a qualidade de vida desse povo. (SILVA, 10/01/2003, p. 7-8)

Normalmente, o discurso da identidade cultural da nação procura encobrir a diferença, procurando “representa[r] a diferença como unidade”, como explica Stuart Hall (2004, p. 62). As diferenças que se manifestam nas dimensões das classes, dos partidos, do gênero, parecem unificadas sob uma identidade maior que abarca, ou procura fazê-lo, todas as demais. É interessante que, no discurso de Lula, as diferenças são reconhecias. Não se trata de negá-las ou ignora-las, mas de convidar a todos, com suas diferenças, a um engajamento e reconhecimento em um discurso identitário mais abrangente.

Para dizer de forma mais simples: não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional busca unifica-los numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à mesma grande família nacional. (HALL, 2004, p. 59)

No conjunto, o discurso presidencial é muito otimista e investe, constantemente, na afirmação de um novo tempo em que haveria uma disposição coletiva em priorizar os “interesses do país” acima dos interesses setoriais, partidários e individuais, em que o Brasil se encontraria consigo mesmo e no qual os brasileiros “levantariam a cabeça” (SILVA, 10/03/2003, p. 6), teriam sua auto-estima elevada (SILVA, 25/03/2003, p. 11) e se orgulhariam do país a que pertencem (SILVA, 04/04/2003, p. 3-4).

O maior exemplo da marca diferencial do Brasil de Lula seria o próprio Lula. Seu nome, sua família e sua biografia ocupam grande espaço nos seus pronunciamentos. Além de facilitar a compreensão do seu discurso, especialmente entre os setores menos escolarizados, ao personalizar seus discursos e ao utilizar as imagens e metáforas da mãe e do pai, o presidente parece se servir da conhecida cordialidade brasileira de que fala Sérgio Buarque de Holanda (HOLANDA, 2000) cujas origens remontam ao tempo colonial. Na fala de Lula, sua história confunde-se com a história do país. E isso é fundamental no argumento que ele parece querer construir.

Lula cita-se a si mesmo com freqüência. Pode-se agrupar essas citações em dois tipos ou circunstâncias. No primeiro, ele é citado/reclamado/invocado como exemplo de um brasileiro comum que, não obstante todos os obstáculos colocados pela natureza – seca nordestina –, pelos conflitos familiares – maldades do pai -, pela estrutura social – pobreza da família -, pelas condições políticas – ditadura militar –, pela cultura elitista – preconceito contra a sua pessoa, formação e estilo – obteve êxito na vida.

O povo brasileiro, mesmo com fome, já deu inúmeras provas de seu talento, de sua criatividade, de sua capacidade e de sua tolerância. Minha própria história pessoal é uma prova disso. Imaginem, então, a Nação que seremos, no dia em que todos os brasileiros puderem fazer três refeições ao dia! (SILVA, 30/01/2003, p. 4)
Quem viveu a vida que eu vivi, na porta dessas fábricas, quem enfrentou a polícia, como nós enfrentamos aqui, quem viu milhares de trabalhadores serem mandados embora, quem já subiu aquele prédio lá, para defender a Diretoria da empresa porque a peãozada queria invadir o prédio, quem sobreviveu a tudo isso e está aqui, hoje, como Presidente da República, não tem por que não acreditar que nós vamos fazer deste país uma grande Nação, e que o seu povo possa viver com dignidade e com respeito.” (SILVA, 10/03/2003, p. 7)

Em termos mais claros, Lula se coloca como a prova concreta de um país que “dá certo”,

No segundo caso, a biografia de Lula é utilizada para falar para empresários nacionais e estrangeiros, diplomatas e presidentes de outros países, como a representação visível de um novo Brasil, que saiu de uma condição de inferioridade para ser um país respeitado mundo afora. Falando no Fórum Econômico de Davos, o presidente refere-se a si mesmo
Eu sou de uma terra onde, se as pessoas não morrem até completar um ano de idade, já é um milagre. E eu não morri, cheguei a Presidente da República. E podem ficar certos que vocês vão ouvir falar muito de um Presidente briguento e que defende os interesses da sua Nação (SILVA, 26/01/2003, p. 5)

A chegada de alguém com o perfil de Lula à presidência seria a prova da maturidade democrática do Brasil e de superação de seus problemas internos, entre eles a fome que quase ceifou a vida do presidente na sua infância. É precisamente esse líder, com essa biografia, que estaria mais interessado e motivado a brigar pelos “interesses da sua Nação.” Repercutindo sua fala em Davos, Lula diz aos empresários em São Paulo:

Vamos ser francos. Alguns de vocês, em algum momento da vida, imaginaram que eu pudesse ir a Davos? Algum de vocês, algum dia, imaginou que eu pudesse ser o Presidente mais aplaudido na história de Davos? Sabem por quê? Porque, antes, nós tínhamos tido uma reunião ibero-americana, com todos os países da América Latina. E comecei a perceber que os governantes do Terceiro Mundo agem como se fossem inferiores: nós somos sempre “coitadinhos”, estamos sempre procurando um culpado para as nossas causas. (SILVA, 27/03/2003, p. 11)

Nesse ponto reside, possivelmente, a mais forte marca do discurso nacionalista que se examina aqui. O orgulho de ser brasileiro está indelevelmente ligado, na fala do presidente, a uma nova imagem e protagonismo do Brasil no plano externo.

Falando para uma platéia de empresários reunidos na Feira Internacional do Plástico em São Paulo, o presidente afirma que o Brasil precisa mudar a percepção que se tem dele no exterior:

É preciso acabar o tempo de brasileiro viajar para o exterior e falar só de mortalidade infantil, de criminalidade, de carnaval ou de futebol. Tudo isto existe, mas existe também o outro lado do Brasil competente, do Brasil competitivo, e nós não temos que nos apresentar ao mundo como se fôssemos os pobrezinhos.

Este país é grande, tem uma base industrial, tem tecnologia, tem uma base universitária, tem uma classe trabalhadora bem formada. É só a gente querer que a gente passa a ser respeitado no mundo (SILVA, 10/03/2003 p.2).
Na lógica lulista, mudar a imagem externa é um calculo econômico e estratégico. A política externa, materializada no aumento das exportações, na diversificação dos parceiros comerciais e em um novo papel do Brasil nos fóruns internacionais, constituiu uma das marcas diferenciais do governo do PT, conforme observam Eli Diniz e Renato Boschi (2007, p. 31, 35, 68).

Nas palavras do presidente,


O nosso país, durante 500 anos, ficou olhando para a Europa. Está na hora de olhar para a África e para a América do Sul. Está na hora de se estabelecer novas parcerias, para que a gente possa ser mais independente, fortalecer o Mercosul e estabelecer uma força política para negociar (SILVA, 24/01/2003, p.9).
A estratégia de Lula é, simultaneamente, estimular as exportações de produtos e capitais brasileiros, item no qual caberia grande papel ao setor privado, e exercer maior influência nas instâncias decisórias da política e economia internacionais, seara em que o Estado brasileiro seria o mais importante. A convergência desses dois itens se dá com nitidez nas freqüentes críticas do presidente ao protecionismo dos países ricos: “O Brasil não deve a nenhum país do mundo em competência agrícola. O Brasil está preparado para disputar com qualquer país do mundo. A única coisa que exigimos é regra de jogo igual para todo mundo” (SILVA, 12/04/3003, p. 2).

A freqüência com que Lula fala em política externa não é gratuita. A inserção do país no mercado globalizado requer ações de coordenação e intervenção seletivas do Estado e o enfrentamento de verdadeiras batalhas em órgãos como a Organização Mundial do Comércio/OMC, observam Eli Diniz e Renato Boschi (2007, p. 30-32) e é precisamente nesse terreno que reside um dos caminhos possíveis para o desenvolvimento econômico pós-consenso neoliberal.

De fato, no discurso lulista, os objetivos da política externa incisiva são amplos. São econômicos e sociais:

Por meio do comércio exterior, da capacitação de tecnologias avançadas e da busca de investimentos produtivos, o relacionamento externo do Brasil deverá contribuir para a melhoria das condições de vida da mulher e do homem brasileiros, elevando os níveis de renda e gerando empregos dignos (SILVA, 01/01/2003, p. 17-18).


São também humanitários. Na fala de Lula, o Brasil teria grande contribuição a dar para todos os povos:

temos uma mensagem a dar ao mundo: temos de colocar nosso projeto nacional democraticamente, em diálogo aberto, como as demais nações do planeta, porque nós somos o novo, somos a novidade de uma civilização que se desenhou sem temor, porque se desenhou no corpo, na alma e no coração do povo, muitas vezes, à revelia das elites, das instituições e até mesmo do Estado (SILVA, 01/01/2003, p. 21-22).


O presidente Lula estabelece uma relação estreita e complexa entre imagem externa do país e auto-imagem e auto-estima do brasileiro. Em quase todos os seus pronunciamentos ele estabelece essa relação. Ora o presidente diz que os brasileiros devem rever e reformular as representações que tem de si mesmos, ora ele diz que esse processo passa pela mudança da representação que “o outro”, os estrangeiros, tem de “nós”. No primeiro caso, ele afirma
Eu digo todo santo dia: o Brasil precisa dar uma chance a si mesmo, o Brasil precisa acreditar em si mesmo. Não há espaço para a gente ser pessimista (...)

E toda vez que a gente falar lá fora, tem que falar elevando a nossa auto-estima. Porque, quem vai ter que acreditar em nós somos nós mesmos. Ninguém vai dar “colher de chá” para o Brasil. Nenhum país do mundo vai dar “colher de chá” para o Brasil e dizer: “vocês são pobrezinhos, venham aqui, tragam seus produtos para cá e exportem”. Não vai. Cada um vai querer vender mais para nós. Nós é que temos que ajudar a modernizar a nossa indústria. Nós é que temos que desonerar as exportações. E nós é que temos que fazer propaganda da capacidade das coisas que nós produzimos neste país (SILVA, 04/04/2003, p.10-11)


Todavia, parece que mais freqüentemente a auto-estima está na dependência desse novo papel externo do país. É se projetando no mundo e tendo o reconhecimento dele que o Brasil se tornará uma nação de fato. Essa tese é recorrente nos discursos do presidente. O caso mais expressivo, entre os estudados até agora, ocorreu em maio de 2003, quando da inauguração de uma termelétrica em Ribeirão Preto/SP. No inicio o presidente conclama a todos os brasileiros a uma luta contra o desemprego. Em seqüência, compara a sua história com a história de Nelson Mandela, e a luta dos trabalhadores brasileiros com a luta dos negros sul-africanos (SILVA, 02/05/2003, p.4). Apesar dessa discutível e arriscada comparação, ainda não é nesse ponto que o presidente se apóia para estimular a auto-estima dos brasileiros:

Eu já ouvi do Presidente da Volkswagen, eu já ouvi do Presidente da Mercedes, eu já ouvi do Presidente da Scania, eu já ouvi de uma centena de empresários estrangeiros que o trabalhador brasileiro é, possivelmente, o mais competente do mundo. Já cansei de ouvir. Eles dizem, inclusive, que os trabalhadores da Alemanha, os trabalhadores da Inglaterra não têm a mesma criatividade e a mesma capacidade de produção que tem o trabalhador brasileiro (SILVA, 02/05/2003, p. 5).

Depois desse aval estrangeiro, Lula se sente seguro para afirmar a capacidade do brasileiro e, então, evocar a memória e a imagem de grandes personagens do esporte:

Se nós somos capazes de fazer isso, se nós somos capazes de fazer o que nós fazemos neste país, e se nós somos capazes de ter trabalhadores como vocês, de ter uma Zeferina, de ter um Pelé, de ter um Ayrton Senna, significa que nós podemos muito mais (SILVA, 02/05/2003, p.5)

Daí a certeza do que o Brasil pode ser:

É por isso que nós precisamos acordar todo santo dia acreditando que a gente tem capacidade de fazer mais do que a gente fez no dia anterior. E andar de cabeça erguida, brigar pelos nossos direitos. É assim que a gente constrói uma Nação, é assim que a gente constrói uma cidadania, e é assim que a gente recupera a nossa auto-estima (SILVA, 02/05/2003, p. 5-6).

Como conclusão, o presidente reúne a ênfase na sua pessoa, a recuperação da auto-estima dos brasileiros e a nova política externa e diplomática do país como a obra que marcará o seu mandato:

Um homem não é marcado pela quantidade de anos que ele vive ou pela quantidade de anos em que ele fica no mandato. Um homem é marcado pela grandeza da sua obra, e a minha obra é recuperar a auto-estima do povo brasileiro e colocar o Brasil no mundo de cabeça erguida, porque nós não somos uma raça inferior, nós somos iguais a qualquer outro no mundo e precisamos entrar nas negociações, sejam políticas, culturais ou comerciais de cabeça erguida (SILVA, 02/05/2003, p.7).


A nação de Lula é, dessa forma, uma nação que se reconhece como tal à medida que conquista respeito e credibilidade no plano externo. A auto-estima e o orgulho de ser brasileiros, no entanto, não eram aspectos puramente discursivos. Na fala do presidente, o protagonismo externo é uma estratégia que incluiu objetivos materiais claros: é um instrumento para incrementar os rendimentos dos empresários brasileiros e, também, gerar empregos e recursos para investir em programas sociais.

A expansão do comércio externo brasileiro foi real no primeiro governo Lula. Conforme dados de Eli Diniz e Renato Boschi, as exportações brasileiras aumentaram em quase 100% nos três primeiros anos da gestão petista, passando de US$ 60,4 bilhões em 2002 para US$ 118,3 bilhões em 2005 (DINIZ, BOSCHI, 2007, p. 98-99).

Ao longo dos sete anos e meio do governo do PT, o capital privado brasileiro, com todo o incentivo do Estado, avançou consideravelmente para fora das fronteiras nacionais. Esse processo é coerente com os discursos do presidente desde o seu primeiro ano de mandato. A exportação de capitais brasileiros já pode ser apreciada como uma ação imperialista (CAMPOS, 2009). Atualmente, o Brasil desempenha importante papel no sistema econômico internacional, participando ativamente do modelo hegemônico que reproduz as desigualdades entre classes e entre países.

Dessa forma, o nacionalismo de Lula é, no limite, uma ação imperialista. Trata-se de uma situação quase que irônica: herdeiro de uma cultura política de esquerda em que a nação sempre foi uma antítese do imperialismo, o governo do operário que se tornou presidente busca construir a nação, em grande medida, na expansão do capital sobre outros territórios, aproveitando as vantagens e oportunidades que a chamada globalização oferece e como é próprio dos marcos da produção capitalista, explorando os trabalhadores de outros países.




Referências

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.


ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 6 ed. São Paulo: Boitempo, 2002.
BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
BIELSCHOWSKY, Ricardo. Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do

desenvolvimentismo. 3. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.


CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. O imperialismo brasileiro nos séculos XX e XXI: uma discussão teórica. IACR 2009. Disponível em www.uff.br/iacr/arrtigospdf/23t.pdf. acesso: 10/02/2010.
CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: LTC, 1970.
CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da república no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1987.
CASTEL, Robert; WANDERLEY, Luiz Eduardo W.; BELFIORE-WANDERLEY, Mariangela. Desigualdade e a questão social. 3 ed. São Paulo: EDUC, 2008.
DEL ROIO, Marcos. A teoria da revolução brasileira: tentativa de particularização de uma revolução burguesa em processo. In: MORAES, João Quartin de; DEL ROIO, Marcos (Orgs.) História do Marxismo no Brasil. Campinas: Unicamp, 2000, vol. IV, p. 69-122.
DINIZ, Eli; BOSCHI, Renato. A difícil rota do desenvolvimento: Empresários e a Agenda Pós-Neoliberal. Belo Horizonte: UFMG, Rio de Janeiro: IUPERJ, 2007.
GOMES, Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
GORENDER, Jacob. Combate nas trevas: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Ática, 1998.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 9 ed. Rio de Janeiro: DP & A, 2004.
HARVEY, David. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 15 ed. São Paulo: Loyola, 2006.
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

MENDONÇA, Sônia Regina de. Estado e economia no Brasil: opções de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Graal, 1986.


MOREIRA, Vânia Maria Losada. Os anos JK: industrialização e modelo oligárquico de desenvolvimento rural. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (Orgs.) O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v. 3.
OLIVEIRA, Francisco de. A economia da dependência imperfeita. 5. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989.
REIS FILHO, Daniel Aarão. Estado e trabalhadores: o populismo em questão. Locus: Revista de História. Juiz de Fora: UFJF, 1997, v. 13, n. 02, p. 87-108.
RIDENTI, Marcelo. Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança. In: DELGADO, Lucília de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (Orgs.). O Brasil Republicano: o tempo da ditadura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 133-166.

SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do presidente da República na cerimônia de posse no Congresso Nacional no dia 01/01/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 13/02/2010.

SILVA, Luiz Inácio Lula. Discurso do Presidente da República na visita à Vila Irmã Dulce Teresina – PI, 10/01/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 14/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República no III Fórum Social Mundial - Anfiteatro Pôr do Sol Porto Alegre/RS, no dia 24/01/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 15/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula. Discurso do Presidente da República no XXXIII Fórum Econômico Mundial. Davos – Suíça, 26/012003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 18/02/2010
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na cerimônia de lançamento institucional do programa Fome Zero e instalação do Consea – Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Palácio do Planalto, 30/01/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 27/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na cerimônia de instalação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Palácio do Planalto, 13/02/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 19/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Mensagem do Presidente da República ao Congresso Nacional, por ocasião da solenidade de abertura dos trabalhos do Poder Legislativo. Congresso Nacional, 17/02/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 19/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da Discurso do Presidente da República na cerimônia de abertura da IX Feira Internacional do Plástico São Paulo – SP, 10/03/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 25/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na cerimônia de inauguração da nova unidade da empresa Polibrasil. Mauá – SP, 10/03/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 25/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na exposição de produtos da fábrica Daimler Chrysler do Brasil. São Paulo – SP, 10/03/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 27/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na cerimônia de comemoração dos 50 anos de atividades da Volkswagen no Brasil. São Bernardo do Campo – SP, 24/03/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 15/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República no Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Palácio do Planalto, 25/03/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 26/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na cerimônia de posse do Presidente da Associação Comercial de São Paulo. Clube Monte Líbano – São Paulo – SP, 27/03/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 27/02/2010.

SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República em visita ao Parque de Exposições Laucídio Coelho – 65ª Expogrande Campo Grande – MS, 27/03/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 18/02/2010.


SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na cerimônia de inauguração da terceira linha da cadeia de produção da Alunorte, refinaria de alumina da Vale do Rio Doce. Barcarena – PA, 04/04/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso em 26/02/2010.
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na visita à Via Rural (Fazendinha) Londrina - PR, 12/04/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso: 24/05/2010
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Discurso do Presidente da República na cerimônia de inauguração da Termelétrica da Companhia Energética Santa Elisa. Ribeirão Preto – SP, 02/05/2003. Disponível em www.info.planalto.gov.br. Acesso: 02/06/2010
TOLEDO, Caio Navarro de. ISEB: fábrica de ideologias. São Paulo: Ática, 1997.


1 Esse trabalho conta com o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG.

2 Trata-se do projeto “A herança de Vargas no Governo Lula: a questão social e a nação”, financiado pela FAPEMIG. Esse projeto teve seus objetivos reformulados após o inicio da sua execução. Assim, atualmente, não se discute mais a era Vargas. O objetivo agora é investigar as temáticas apresentadas no titulo especificamente no governo Lula.




Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal