“Nada para fazer”: nova(s) epistemologia(s) do tempo social



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TEMPO EM ABUNDÂNCIA” VERSUS “FALTA DE TEMPO”

Emilia Araújo

Universidade do Minho, Departamento de Sociologia, CECS, Portugal



era@ics.uminho.pt

Eduardo Duque

Universidade Católica e CICS da Universidade do Minho, Portugal



ejduque@gmail.com

Mónica Franch


Universidade da Paraíba, Brasil

mfranch2004@yahoo.com.br


Resumo
Neste trabalho pretende-se analisar as expressões “tempo em abundancia” e “falta de tempo”, no contexto das sociedades modernas, marcadas por uma série de acontecimentos que fazem por lado.

Esta comunicação discute o sentido das expressões “não fazer nada” e “não ter nada para fazer”, no contexto das sociedades modernas que surgem nomeadas como sociedades marcadas, cada vez mais, por uma experiência social mediada pelo paradoxo entre experiência da “falta de tempo” e a experiência do “tempo em abundância”- tempo imediata e correntemente classificado como “vazio”, sem “nada para fazer”. Ambas as expressões marcam os discursos e as ações dos actores sociais nos seus quotidianos e ambas são sociologicamente significativas, por sinalizarem um distanciamento entre as formas de organização social e cultural do mundo – o mundo tal como este se dispõe e oferece aos sentidos dos sujeitos sociais, com as suas múltiplas e diversas alternativas – e as subjectividades individuais – os modos como o sujeito se compreende a si e à sua experiência quotidiana nesse mundo e lhe atribui sentido.



Palavra-chave: tempo social, não fazer nada, valores, falta de tempo

Introdução
Os estudos sociológicos estiveram até ao presente largamente concentrados sobre o fenómeno da construção social do tempo, ligando-a e religando-a, de forma continuada e persistente, aos modos de organização produtiva. Entre muitas outras implicações, esta estrutura teórica sustentou uma enorme produção de estudos especificamente orientados por dois princípios: i) a separação entre o tempo de trabalho (dominante) e o tempo livre e de lazer (dominados); e ii) a tendência crescente da falta de tempo, generalizável a toda a população. Estes modos de abordagem ao tempo fixaram-se bastante na dimensão métrica e quantificável do tempo, pois através dela era possível concluir sobre o índice de justiça na própria distribuição do tempo, na sociedade, nos grupos, nas organizações de trabalho, na administração, na política e nas relações sociais. Sob esse ângulo de análise, por um lado, as experiências do “não fazer nada”, ou do “não ter nada para fazer”, configurariam experiencias vazias de actividade e de sentido (do) social. Mas, por outro, e simultaneamente, continuariam ainda a configurar a experiencia-limite do tempo de ócio e do tempo livre. Com as recentes alterações nos modelos de organização do tempo de trabalho e a instalação da crise económica nas sociedades americana e europeia, é expectável que surjam novos modelos de interpretação e de experiência do tempo, em contextos cada vez mais marcados pela abundância de tempo livre, de tempo não diretamente marcado, de tempo involuntariamente não ocupado em tarefas remuneradas, porque inexistentes. Em que medida essas novas experiências afetam a valorização social dos diferentes tempos – tempos de trabalho remunerado e não remunerado, tempos de ócio e de “não ter o que fazer”? E até que ponto essas “novas” experiências se articulam com “velhas” experiências de “não fazer nada”, que somente agora passam a ser exergadas? Estas são algumas questões a considerar neste texto que, à luz dos paradigmas teóricos interpretativos, assim como de algumas abordagens mais recentes que versam sobre as modificações nas experiencias subjectivas do tempo, tem como grande objetivo explorar os padrões desses vários sentidos do “não fazer nada”, atendendo a contextos culturais e categorias sociais diferenciadas. Trabalha-se no sentido de alavancar uma construção das principais linhas analíticas do “não fazer nada”, assim como do seu valor heurístico para a problematização das metodologias e das formas de estudo da realidade dos tempos sociais em sociedades de elevada complexidade e de sentidos de tempo multimodais. Portanto, o foco da atenção está na apresentação de evidências empíricas demonstrativas tanto da diversidade de sentidos, como das suas convergências, no espectro mais amplo das temporalidades sociais que constituem as estruturas das sociedades, os contextos culturais, os grupos sociais e classes de idade e de género. É por essa razão que construímos esta comunicação baseando-nos em resultados de três investigações: i) o inquérito europeu aos valores, com dados mais recentemente publicados, para 2008 e realizado pela Comissão Europeia; ii) uma investigação sobre tempo e tecnologia conduzido em Portugal entre 2010 e 2012 e envolvendo a população do distrito de Braga e de Castelo Branco em que participam autores da comunicação; e iii) uma etnografia junto a jovens brasileiros sobre os usos do tempo. Trazendo para a discussão dados desses diferentes estudos, procuramos destacar a importância, a relevância e o sentido desses dois tipos de “nada” – o tempo liberado e o tempo “sobrante”, também participada por autores da comunicação. Temos em conta algumas variáveis relevantes, como a idade, o sexo e a classe social, assim como os contextos de vida e cultura modernas. Incluímos, nesse sentido, dois contextos histórico-geográficos – Portugal e Brasil – na tentativa de ampliar o escopo de nosso debate. Por fim, destacamos que nossas pesquisas nos levaram a priorizar, nesta comunicação, as experiências de dois segmentos, as mulheres e os jovens, que têm sido considerados pela literatura especializada como os mais sensíveis às mudanças na organização temporal na contemporaneidade, seguindo de perto teses de autores como Carmen Leccardi (2005), Hartmut Rosa (2009) e Barbara Adam (1990).

A falta de tempo como reflexo do tempo social


A permanente falta de tempo constitui uma das categorias mais relevantes da construção social do tempo da pós-industrialização. Tal como mostram Zerubavel (1981;1982), Weber, Simmel (1978), Grossin (1974) e Thompson (1967), o tempo mecânico constitui-se como um tempo sujeito a avaliação monetária. Esta equivalência entre tempo e dinheiro revela-se como estrutura objetivada nas instituições, nos sistemas de horário e nos modelos de organização. É, igualmente, estrutura interiorizada, internalizada e, portanto, componente do habitus. Está inscrita na socialização e molda a maneira de estar do individuo e dos grupos na sociedade. Não ter tempo, ou ter pouco tempo, constituem marcas da valorização e do reconhecimento social, não da atividade realizada, mas do seu executante (Jahoda et al 2000). Sabe-se que, ao longo dos últimos séculos, foi-se alterando a maneira de lidar com os conteúdos do tempo, assim como com diferentes definições de atividades ou durações associadas à existência do tempo em abundância. Este era apenas permitido a certos grupos populacionais e indivíduos, conforme o seu prestígio e papel social. Mas, é certo que ainda hoje está interiorizada a valorização do ficar “sem tempo” ou ter “falta de tempo”. No fundo, isso sinaliza socialmente o ato de estar ocupado e ter prestígio (porque se é solicitado para). Além disso, atesta a ideia basilar de Elias (1997) na defesa da formação histórica e institucional e, simultaneamente, psicológica, dos modos disciplinados de usar o tempo.
O problema do tempo entre a falta e a abundância
A principal questão que se põe neste texto prende-se com o paradoxo que caracteriza a experiência humana e social atual: por um lado, a oferta de hipóteses diversas de usos do tempo bastante voltadas para o hedonismo e valorização individual do tempo livre (o tempo próprio) que é concomitante com a redução do tempo de trabalho e, por vezes, o seu desaparecimento (desemprego); por outro lado, a dificuldade dos actores sociais, indivíduos, famílias, organizarem e experienciarem esse tempo em “abundância”. Em sociedades dominadas pela temporalidade e ritmo agrícolas, marcadas pelo domínio direto do Homem sobre o mundo natural, o tempo social possui uma estrutura única, pois tempo de trabalho e tempo livre (tal como se definem e separam hoje) estão co-determinados e dependem, por sua vez, dos ciclos circadinos e das colheitas. Mas, em sociedades industrializadas, o tempo social está determinado pelo princípio da separação entre tempo de trabalho ocupado, administrado, regido por entidades externas (remunerado e ligado a um espaço físico definido) e tempo “livre” dessa disciplina abstracta, regível pelo próprio indivíduo. Nesta linha, o tempo livre é uma decorrência do tempo de trabalho, um tempo cuja legitimidade está no tempo de trabalho, daí a centralidade deste ao nível das práticas e das representações dos indivíduos e das instituições (lugares em que as máximas da produtividade individual se conjugam com o aumento da idade de reforma, redução de tempos de baixa médica, entre outros). Não por acaso, pensadores sociais do século XIX como K. Marx, P. Naville, A. Comte e C. Proudhon realizaram as primeiras discussões sobre o lazer moderno, motivados por interesses de caráter político e sócio-económico. Paradoxalmente, seria Paul Lafargue, genro de Karl Marx, o primeiro a lançar um panfleto exaltando as virtudes do ócio, O direito à Preguiça, publicado originalmente em 1883. Sua obra, comprometida com a desmistificação do trabalho, foi o estopim de uma série de denúncias à ideologia produtiva capitalista, que tem em pensadores recentes como Domenico De Masi, ou não tão contemporâneos, a exemplo de Paul Ricoeur e Bertrand Russel, seus representantes mais significativos. Contrários à exaltação do trabalho, esses autores têm visto, no aumento do tempo livre tanto o corolário dos processos de automação como o “caminho para a felicidade e para a prosperidade” (Russel, 1977, p.11). Outras interpretações problematizam a esfera dos lazeres a partir da sua relação com o capitalismo e, especificamente, com os media, questionando, em última instância, a possibilidade emancipatória dos tempos livres. Marcuse, o autor de Eros e Civilização (1955) e de O Homem Unidimensional (1964) argumentava, sob influência de Freud, que a qualidade de vida estava ameaçada pelo gosto do sistema capitalista em criar falsas necessidades sustentadas por um forte sentido de inexorabilidade e de normalização. Estas, na perspectiva daquele autor, impõem, sobre a camuflagem da cultura, padrões compartimentais sujeitos a sanção simbólica e, por vezes, transcendental, também materializada pela necessidade de disciplina rigorosa dos usos do tempo que não se pode perder, que deve visar a realização de atividades materiais e úteis. De modo semelhante David Riesman (1971), no seu livro A multidão solitária, relaciona a aparição dos lazeres de massa com a perda de autonomia do homem moderno, que passaria a ser movido por normas e valores veiculados pelos meios de comunicação de massa e pelos grupos de pares. Baudrillard (2008) advogava, nesta linha, que o grande “drama” dos lazeres era a contraditória necessidade de não perder tempo e deixar penetrar a paciência, a espera e a lentidão na esfera do tempo não formalmente remunerado. Com efeito, o tempo social é, simultaneamente, social e político. Por definição, o tempo “não ocupado” constitui o quotidiano dos sujeitos, dotando-os de escolha sobre certas zonas de autonomia e de rotura perante a rigidez do modelo disciplinar.De qualquer modo, sabemos que esta “autonomia” também é o resultado do tempo social dominante e dos seus próprios esquemas de organização e formatação temporais que criam zonas de “escape” ao tempo de trabalho externo e, na ótica de muitos autores, alienante. Nas sociedades globais e dominadas pelas tecnologias de alta sofisticação, a “redução do mundo” da qual fala Harvey (1989), a dicotomia entre tempo de trabalho e tempo livre não é tão nítida, embora não perca o caráter disciplinar inscrito no tempo de trabalho. Além disso, o tempo de trabalho é cada vez mais flexível, escasso, variável, alternativo, não oferecendo o mesmo esquema de legitimidade para ter e usar o tempo “livre”. Algumas iniciativas começam a preocupar-se com a emergência de uma sociedade com tempo livre “involuntário”, implementando algumas medidas de intervenção que envolvem, genericamente, a definição de actividades e de agendas para quem tem esse tempo em abundância - sobretudo desempregados e reformados, mas também para jovens que, não obstante terem sido dedicados pelos sistemas ideológicos a um tempo integral de estudo, se afiguram cada vez mais afastados da escola e do mundo da educação formal e que, apesar de tecnicamente integrados, se apresentam á sociedade com níveis vários de inaptidão, incluindo a falta de envolvimento direto em actividades concretas (intelectuais e manuais). Por isso, damos particular atenção, na investigação que conduzimos no Brasil, às experiências de adolescentes e jovens de grupos populares. Convém mencionar que a relação com o mundo do trabalho é apenas uma das que precisam ser levadas em consideração na hora de refletir sobre os “tempos livres”. Também devem ser consideradas a relação dos jovens com a escola (pois há jovens estudantes e jovens dropouts), com a família (relevante na determinação da possível autonomia no tempo livre), com os media, e com os “projetos sociais” que, juntamente com as possíveis inserções no mundo do trabalho, definem usos e sentidos muito diversos para o tempo livre. Importa precisar que o que parece estar em causa, globalmente, não é apenas o crescendo do tempo livre, mas a forma como os indivíduos reagem a esse aumento, face à continuidade galopante do valor do tempo de trabalho, como principal fonte de rendimento, mas também face à crescente importância da atitude blasé, por parte das novas gerações perante o mundo. De forma muito sucinta, qual é o valor do tempo de trabalho e que influência pode fazer essa representação sobre a experiencia do tempo (livre)? Como vivem os indivíduos a fronteira entre tempo de trabalho e tempo livre? Qual é o estatuto que tem o “não fazer nada” na sua experiência quotidiana? E, mais especificamente, como vivem os desempregados (portanto, sem acesso ao tempo ocupado remunerado), a experiência de ter tempo livre em abundância? Há diferenças a observar em termos de sexo relevantes para pensar a representação do tempo livre? Há diferenças entre grupos etários e subculturas juvenis? O que pode haver de especifico a explorar a respeito dos jovens, na temporalidade do presente? Para todos os efeitos, no contexto da nossa problemática, entende-se o trabalho como actividade de transformação e não necessariamente trabalho remunerado de forma direta (atente-se, a título de exemplo, ao trabalho de cuidado ou ao trabalho doméstico que é trabalho que, a maior parte das vezes, não é remunerado). Além da definição de trabalho é importante também, para um bom entendimento do que aqui se pretende desenvolver, diferenciar duas expressões: não fazer nada e não ter nada para fazer. A primeira expressão associa-se ao princípio da separação entre tempo de trabalho remunerado e o seu domínio sobre o tempo livre. A segunda marca especificamente os discursos e as experiências de quem sente ter tempo livre a mais, não discernindo formas de o ocupar.

Nota metodológica
A informação empírica com que lidamos tem um caráter disperso, já que reúne num mesmo texto dados recolhidos em diferentes anos e referentes a fontes diferenciadas, entre elas o European Values Survey (EVS) de 2008 e um estudo conduzido no âmbito do projeto “Tempo e Tecnologia" e realizado entre 2010 e 2012, com recurso a inquérito por questionário a uma amostra de 400 indivíduos nos distritos de Braga e Castelo Branco, entrevistas a 11 casais e 4 grupos de foco, dois dos quais com desempregados. A discussão sobre usos do tempo no contexto brasileiro tem por base duas pesquisas de caráter etnográfico. Na primeira delas, a investigadora acompanhou o quotidiano de jovens moradores de uma comunidade de baixa renda na cidade de Recife durante seis meses, buscando compreender a variedade de usos e sentidos atribuídos ao tempo livre. Foram feitos 80 questionários com adolescentes e jovens de ambos os sexos, de idades compreendidas entre os 11 e os 25 anos, e realizadas 30 entrevistas divididas em quatro categorias – jovens, líderes comunitários, genitores e responsáveis por espaços de lazer (Franch, 1998; 2002a; 2002b). A segunda pesquisa acompanhou adolescentes e jovens de três bairros populares, porém a pesquisa aprofundada ocorreu numa única comunidade. Desta vez, o foco recaiu na experiência da temporalidade de um modo mais amplo, incluindo a organização quotidiana e o tempo biográfico. Além da observação participante, foram aplicados 48 questionários, incluindo uma versão simplificada do orçamento do tempo, e realizadas 45 entrevistas com adolescentes e jovens, dos 11 aos 29 anos (Franch, 2004).
Representações sobre o tempo de trabalho (dados referentes a Portugal)
Os dados para Portugal, com origem no último inquérito aos valores dos europeus (referimo-nos ao EVS de 2008), mostra a centralidade do trabalho nas representações dos portugueses. Mostra também a dependência dos tempos livres e de lazer, face ao tempo de trabalho. A maioria dos inquiridos (53,4%) considera que o trabalho deve ser sempre mais importante, mesmo que isso signifique menos tempo livre. Se analisarmos esta questão por grupos etários - em que ao grupo mais jovem, dos 18-24 anos, é atribuída a categoria de estudante; ao grupo de meia-idade, dos 25-59 anos, a categoria de trabalhador ativo e ao grupo mais velho, dos 60 e mais anos, a categoria de pré-reformado ou reformado -, percebemos que o valor que se atribui ao tempo dedicado ao trabalho, mesmo que isso represente menos tempo livre, é mais alto na categoria dos que se situam em idade ativa.

Tabela 1

Indivíduos que referem que o trabalho devia ser sempre mais importante, mesmo

que isso significasse menos tempo livre, segundo a idade





Concordo

Não concordo nem discordo

Discordo

NN

18-24

48,7

22,8

28,4

197

25-59

53,1

28,8

18,0

1231

60 e + anos

63,2

29,9

6,8

117

Fonte: Elaboração própria a partir do EVS, 2008. Dados em percentagem

Os mais novos valorizam menos o trabalho como ocupação do seu tempo, uma vez que, na fase em que se encontram, de idade formativa, ainda não experienciaram o trabalho como dimensão de realização e de segurança na vida. Os indivíduos que atribuem mais importância do tempo dedicado ao trabalho e que já tiveram a oportunidade de experienciar a sua importância como realização do seu tempo vivem do usufruto do tempo dedicado ao trabalho, atribuem-lhe mais significado, por comparação com o tempo de lazer.



Tabela 2

Importância atribuída ao tempo de lazer, segundo a idade





Muito

importante



Importante

Não muito

importante



Nada

importante



NN

18-24

37,1

56,3

6,6

0,0

197

25-59

26,6

62,9

9,6

0,9

1231

60 e + anos

19,5

58,5

19,5

2,5

117

Fonte: Elaboração própria a partir do EVS, 2008. Dados em percentagem.

A maioria dos indivíduos com trabalho remunerado (55,4%) concorda que o trabalho devia ser sempre o mais importante, mesmo que isso significasse menos tempo livre. Esta conclusão não se adequa aos que se encontram numa situação de desemprego, uma vez que só 45,3% invoca trabalho sobre o lazer. Portanto, quanto mais vinculado está o indivíduo ao trabalho, maior parece ser a importância que confere ao tempo que lhe dedica.


Tabela 3

Indivíduos que referem que o trabalho devia ser sempre mais importante, mesmo

que isso significasse menos tempo livre, segundo a condição perante o trabalho





Concordo

Não concordo

nem discordo



Discordo

NN

Trabalha

55,4

25,9

18,8

1609

Reformado

64,9

26,8

8,2

98

Estudante

42,2

25,7

32,1

108

Desempregado

45,3

39,8

14,9

160

Outro

44,9

37,2

17,9

80

Fonte: Elaboração própria a partir do EVS, 2008. Dados em percentagem

O valor do tempo tem sido continuamente associado ao do trabalho remunerado subestimando-se outras formas de trabalho, não menos importantes, tais como o trabalho não remunerado desenvolvido em espaço doméstico, as práticas e solidariedades informais, o investimento na participação cívica e o tempo de lazer, para além de outras. A evolução que se tem processado ao longo dos últimos tempos não esconde uma realidade fundamental: o trabalho remunerado tornou-se a principal forma de ocupação do tempo, e a forma manifestamente mais importante de lhe reconhecer e imputar valor. Se tivermos em conta a opinião dos indivíduos sobre esses fatores na sua vida vemos que, quando questionados sobre a importância que o trabalho e o tempo de lazer têm na sua vida, a maioria dos indivíduos (58%) considera o trabalho muito importante. Já quanto ao lazer, apenas 27% dos indivíduos lhe atribui muita importância na sua vida.


Tabela 4

Importância que atribui a cada dimensão na sua vida: trabalho e tempo de lazer


Dimensão

Muito

Importante



Importante

Não muito

Importante



Nada

importante



NN

Trabalho

58,4

38,1

2,7

0,8

1541

Tempo de lazer

27,4

61,8

10,0

0,9

1553

Fonte: Elaboração própria a partir do EVS, 2008. Dados em percentagem

A importância atribuída a estas duas dimensões está diretamente relacionada com a forma como os indivíduos ocupam o seu tempo: a maioria dos desempregados - também porque a sua condição de vida lhes impõe mais tempo livre, deixando-os numa situação de “não ter nada para fazer” -, atribui ao trabalho muita importância (55%). Mas são os trabalhadores remunerados que mais elevam o trabalho a um elemento muito importante na sua vida (62,6%).


Tabela 5

Importância atribuída ao trabalho, segundo a condição perante o trabalho





Muito

Importante



Importante

Não muito

Importante



Nada importante

NN

Trabalha

62,6

36,3

1,1

0,0

1609

Reformado

33,7

43,9

12,2

10,2

98

Estudante

51,0

43,0

6,0

0,0

108

Desempregado

55,0

38,1

5,6

1,2

160

Outro

49,4

46,8

3,8

0,0

80

Fonte: Elaboração própria a partir do EVS, 2008. Dados em percentagem

Não obstante esta valorização do tempo ocupado pelo trabalho, os que se encontram numa situação de desemprego - como tal, com mais disponibilidade de tempo, imbuídos do sentimento de desvalorização social e em convivência com a ”desestruturação” do tempo – não evidenciam ter estratégias de valorização do seu tempo livre, mesmo face ao facto de serem cada vez mais frequentes oportunidades de “ocupação” útil do tempo. Esta realidade evidencia-se na baixa percentagem de indivíduos desempregados que refere pertencer a uma organização (6,2%) ou fazer voluntariado (4,4%). Os sentimentos de angústia e incerteza quanto ao futuro podem estar a sobrepor-se, em muitos casos, a qualquer outro elemento eventualmente positivo no desempego, tal como o acesso ao lazer, ao passeio e a disponibilidade do tempo. Já os indivíduos que têm o tempo ocupado com um trabalho remunerado apresentam na sua distribuição do tempo, mais espaço para se dedicar a actividades de solidariedade, seja na pertença a organizações (21,5%), seja na prática de ações voluntárias (15,8%).


Tabela 6

Indivíduos que fazem voluntariado não pago, segundo a condição perante o trabalho





Trabalham

Reformado

Estudante

Desempregado

Outro

É voluntário

15,8

8,2

19,4

4,4

11,4

Não é voluntário

84,2

91,8

80,6

95,6

85,9

NN

1096

98

108

160

80

Fonte: Elaboração própria a partir do EVS, 2008. Dados em percentagem



Como temos vindo a dizer, o trabalho tornou-se, nas sociedades contemporâneas, uma actividade central na história do ser humano, no seu processo de sociabilidade, na sua realização pessoal e cultural, sendo condição básica para a sua existência. Assim se compreende que o trabalho seja entendido como a base para a humanização do ser social. É, todavia, importante distinguir entre trabalho remunerado e não remunerado, pois é do primeiro que temos vindo a falar. Com efeito, o emprego refere-se a relações estáveis de trabalho assalariado, é formal e está consagrado nas leis laborais com direitos e deveres, como é o caso do descanso semanal, a indeminização em caso de acidente, período de férias, etc. Sabemos bem a reconfiguração por que está a passar este tipo de emprego. De ano para ano, aumentam as taxas de desemprego e, não obstante o surgimento de novos empregos, estes são, na maior parte das vezes, temporários e com baixas remunerações. Alguns especialistas crêem que chegamos ao fim do emprego dito “clássico” e que o seu desaparecimento total é uma mera questão de tempo. Outros preferem dizer que, com o advento das novas tecnologias, o trabalho humano é cada vez mais indispensável, o que será só tarefa de alguns, enquanto representação de trabalho estável. Não obstante esta reconfiguração contemporânea do emprego, há trabalho (a maior parte das vezes não remunerado) que não é contabilizado, nem protegido pelos cânones do trabalho e que configura atividades de ocupação criativa do tempo. O seu preço é, muitas vezes, medido pelo cansaço, pela dedicação ao que se faz, mas não é taxado, nem cotado e quase sempre não valorizado e reconhecido, tal como o trabalho doméstico que entra na esfera do tempo livre e inviabiliza o lazer, ainda para grande parte das mulheres-mães. A realidade social do tempo e dos tempos aparece-nos, neste quadro, não só como cada vez mais complexa na sua objectividade, como também cada vez mais alterada, reconfigurada pelas organziações, pelos media, pelos próprias representações dos indivíduos acerca do que deve ser a sua vida e quais os elementos que devem valorizar. Tanto é assim, que a própria ideia de “ocupar” o tempo é vaga, variável e notoriamente dependente do discurso mediático: “quebrar a rotina”, por exemplo, começa a ser uma componente da conversão e da praxis quotidiana dos sujeitos, aptos a deixarem de fazer actividades tradicionalmente sob o seu domínio, para reterem tempo individual, tempo de não fazer nada. Embora o terreno seja assaz potenciador de análises moralizadoras, interessa-nos distanciar-nos dessa vertente e reiterar a escassez de recursos analíticos, conceptuais e metodológicos que facilitem a compreensão do fenómeno da multiplicidade, conflito e sobreposição de tempos e de significados no interior dessa complexidade. Mas concretamente, o que quer dizer a narrativa de uma mulher-mãe, quando ela afirma “vou pôr os meus filhos na creche, para ter um bocadinho de tempo para não fazer nada, sabes, quebrar a rotina, um tempo só meu”..? O quadro analítico, não negando nada do que se afirmou antes, remete necessariamente para a mudança nos valores ? A adaptação dos indivíduos aos discursos dominantes? Emergência de novos papéis? A emergência de novos sentidos de vida de homens e de mulheres e das famílias, como um todo? As interrogações são retóricas, pois a informação que apresentamos a seguir só contribuem para densificar as vertentes do problema.



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