Nando parrado



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NANDO PARRADO

COM VINSE RAUSE
MILAGRE NOS ANDES
A verdadeira história contada pelo homem que salvou a vida dos 15 sobreviventes
Tradução Inês Castro
Casa das letras

Nota da badana da capa:


Em 1972, o avião que transportava uma equipa de râguebi do Uruguai, os seus familiares e amigos, para um jogo no Chile, despenhou-se nos Andes. Vinte e nove pessoas,

das quarenta e cinco que iam no avião, sobreviveram à queda, mas, no final, apenas dezasseis sobreviveram.

Mais de trinta anos depois, Nando Parrado, um dos sobreviventes, revela como lutou pela vida durante setenta e dois longos dias. Preso num glaciar árido a 3650 metros

de altitude, sem provisões ou meios para pedir ajuda, lutando para suportar temperaturas gélidas, avalanches mortíferas, e, por fim, a notícia devastadora de que

as buscas tinham terminado, Nando decide, então, que ou voltava para casa ou morreria a tentá-lo.

Este livro revela aspectos inexplorados da história, sobretudo os emocionais e afectivos. O autor consegue levar-nos para dentro da fuselagem nos dias cruéis que

se seguiram ao acidente e narra, pormenorizadamente, situações nunca antes reveladas sobre a luta interna, as emoções violentas e as piores privações que aquele

grupo de jovens teve de suportar para sobreviver.

Milagre nos Andes é a história arrebatadora de uma verdadeira aventura e uma reflexão sobre a vida à beira da morte e sobre o poder do amor.

Nota da badana da contracapa:


NANDO PARRADO tornou-se conhecido como um dos jovens heróis do desastre de 1972, nos Andes. Actualmente, é proprietário de várias empresas sedeadas no Uruguai, seu

país de origem, incluindo uma cadeia de lojas de ferragens, empresas de publicidade e de marketing e uma produtora de televisão, para a qual produz e apresenta programas

sobre viagens, moda, temas da actualidade e desportos motorizados. Ex-piloto de competição, ainda gosta de pilotar carros, motos e barcos de corrida. Vive em Montevideu,

no Uruguai, com a esposa e as filhas. Parrado pode ser contactado em nando1@parrado.com.


VINCE RAUSE é escritor e colabora em várias revistas. Alguns contos foram publicados no The New York Times Magazine, Los Angeles Times Magazine, Reader's Digest

e Sports lllustrated, entre outras publicações. A sua obra mais recente, Why God Won't Go Away: Brain Science and the Biology of Belief, foi escrita em parceria

com o investigador Andrew Newberg. Vive em Pittsburgh com a mulher e a filha.

Nota da contracapa:


"NÃO FOI A INTELIGÊNCIA OU A CORAGEM QUE NOS SALVOU. FOI TÃO-SOMENTE O AMOR, O AMOR PELAS NOSSAS FAMÍLIAS, PELAS VIDAS QUE DESEJÁVAMOS TÃO DESESPERADAMENTE VIVER."
"Nando Parrado não apenas sobreviveu, como demonstrou uma força e uma determinação que salvaram a sua vida e a dos seus 15 amigos. Agora ele relata a sua experiência

penosa - cativante, esclarecedora, modesta e tocante. Um testemunho impressionante do que o amor pode alcançar."

Piers Paul Read, autor de Os Sobreviventes
"Milagre nos Andes é o relato surpreendente de uma provação inimaginável. Escrevendo com uma assombrosa honestidade, transmitindo toda a gama de sensações e emoções,

Nando Parrado dá-nos conta da perseverança, coragem e criatividade necessárias para sobreviver nos Andes por 72 dias, após ter sido dado como morto. Se começar a

ler este livro, não vai conseguir largá-lo."

Jon Krakauer, autor de Into Thin Air


"A experiência assustadora de Nando Parrado - contada de modo envolvente, honesto e reflexivo - está entre as histórias de sobrevivência mais dramáticas dos últimos

dois séculos."

Peter Stark, autor de Last Breath: The Limits of Adventure

ISBN 978-972-46-1702-2

(Edição original: ISBN 1-4000-9767-3

Nando Parrado, 2006

Direitos reservados para Portugal

CASA DAS LETRAS

Rua Bento de Jesus Caraça, 17

1495-686 Cruz Quebrada

Tel: 21 005 23 50, Fax: 2] 005 23 40

E-mail: info@casadasletras.pt


Título original: Miracle in the Andes

Tradução: Inês Castro

Revisão: Sofia Graça Moura

Capa: Casa das Letras


Edição: 10 060071

1.ª edição: Janeiro de 2007

Depósito legal n.° 252 292/06
Pré-impressão: JCT

Impressão e acabamento: Multitipo - Artes Gráficas, Lda.

Para Veronique, Verónica e Cecilia.

Tudo valeu a pena. Faria tudo de novo por vocês.

ÍNDICE
Prólogo 13

1. Antes 19

2. Tudo de mais precioso 49

3. Uma promessa 61

4. Respira mais uma vez 89

5. Abandonados 117

6. Sepultura 143

7. Leste 159

8. O oposto da morte 197

9. "Estou a ver um homem..." 225

10. Depois 259

Epílogo 289

Agradecimentos 309

PRÓLOGO
Nas primeiras horas não havia nada, nem medo nem tristeza, nenhuma sensação da passagem do tempo, nem sequer um vislumbre de pensamento ou de memória, apenas um

silêncio negro e perfeito. Depois apareceu a luz, uma fina mancha cinzenta de luz do dia, e ergui-me das trevas na sua direção, como um mergulhador nadando lentamente

para a superfície. A consciência inundou-me o cérebro como uma hemorragia lenta e acordei, com grande dificuldade, para um mundo de lusco-fusco a meio caminho entre

o sonho e o despertar. Ouvi vozes e senti movimento à minha volta, mas os meus pensamentos estavam obscurecidos e a minha visão enevoada. Só conseguia ver silhuetas

escuras e poças de luz e sombra. Enquanto olhava, confuso, para essas formas vagas, vi que algumas das sombras se moviam e por fim percebi que uma delas se debruçava

sobre mim.

- Nando, podes oírme? Ouves-me? Estás bem?

A sombra aproximou-se ainda mais e ao fitá-la, emudecido, convergiu num rosto humano. Vi uma massa emaranhada de cabelo escuro e um par de profundos olhos castanhos.

Havia afabilidade neles - era alguém que me conhecia -, mas por trás da afabilidade havia mais alguma coisa, uma turbulência, uma dureza, uma sensação de desespero

contido.

- Vamos lá, Nando, acorda!

Por que é que tenho tanto frio? Por que é que a cabeça me dói tanto? Tentei desesperadamente pronunciar estes pensamentos, mas os meus lábios não conseguiam formar

as palavras e o esforço depressa esgotou as minhas forças. Fechei os olhos e deixei-me resvalar de novo para as sombras. Mas logo ouvi outras vozes e quando abri

os olhos, mais rostos pairavam sobre mim.

- Está acordado? Consegue ouvir-te?

- Diz alguma coisa, Nando!

- Não desistas, Nando. Estamos aqui contigo. Acorda! Tentei de novo falar, mas só consegui proferir um sussurro

rouco. Depois alguém se inclinou junto a mim e falou muito lentamente ao meu ouvido.

- Nando, el avión se estrelló! Caímos en las montañas.

Despenhámo-nos, disse ele. O avião caiu. Caímos nas montanhas.

- Compreendes, Nando?

Não compreendia. Percebi, pelo tom de calma urgência das palavras, que era uma notícia de grande importância. Mas não conseguia alcançar o seu significado ou apreender

o facto de que tinha alguma coisa a ver comigo. A realidade parecia distante e amortecida, como se eu estivesse preso num sonho e não conseguisse forçar-me a despertar.

Flutuei neste estado de confusão durante horas, mas por fim os meus sentidos começaram a clarear e fui capaz de perscrutar o que me rodeava. Desde os meus primeiros

momentos turvos de consciência, tinha ficado intrigado com uma fileira de suaves luzes circulares por cima da minha cabeça. Agora reconhecia que estas luzes eram

as pequenas janelas redondas de um avião. Percebi que estava deitado no chão da cabina de passageiros de um avião comercial, mas quando olhei em frente para a cabina

do piloto, vi que nada neste avião parecia certo. A fuselagem tinha rolado para um dos lados, de forma que as minhas costas e a cabeça

estavam apoiadas contra a parede inferior do lado direito do avião, enquanto as minhas pernas se estendiam pelo corredor central inclinado para cima. A maioria dos

assentos do avião desaparecera. Tubos e fios baloiçavam do tecto danificado e pontas rasgadas do material de isolamento pendiam como remendos sujos de buracos nas

paredes amassadas. O chão à minha volta estava espargido de pedaços de plástico rachado, fragmentos de metal retorcido e outros escombros soltos. Era de dia. O ar

estava gelado e, mesmo no meu estado de torpor, a ferocidade daquele frio deixou-me atónito. Vivera toda a minha vida no Uruguai, um país quente, onde mesmo os Invernos

são suaves. A minha única experiência efectiva do Inverno fora quando, aos dezasseis anos, morei em Saginaw, no Michigan, como estudante num programa de intercâmbio

estudantil. Não levara quaisquer roupas quentes para Saginaw e recordo-me da minha primeira experiência com uma verdadeira rajada invernosa da zona central dos Estados

Unidos, como o vento cortou através do meu fino casaco primaveril e como os meus pés se transformaram em gelo dentro dos mocassins leves. Mas nunca imaginara nada

parecido com as penetrantes rajadas abaixo de zero que sopravam através da fuselagem. Era um frio selvagem, que esmagava os ossos, que queimava a minha pele como

ácido. Sentia dor em todas as células do meu corpo e, enquanto tremia espasmodicamente nas garras daquele frio, cada instante parecia durar uma eternidade.

Deitado no chão do avião cheio de correntes de ar, não havia hipótese de me aquecer. Mas o frio não era a minha única preocupação. Havia também uma dor latejante

na minha cabeça, um martelar tão brutal e feroz que parecia que um animal selvagem tinha sido encerrado dentro do meu crânio e estava desesperadamente a raspar com

as patas para escapar. Com cuidado, estendi a mão para tocar no cimo da cabeça. Coágulos de sangue seco emplastravam o meu cabelo e três cortes ensanguentados formavam

um triângulo denteado de cerca de dez

centímetros acima da minha orelha direita. Senti arestas ásperas de osso quebrado por baixo do sangue coagulado e, quando pressionei levemente, tive uma sensação

esponjosa de algo a ceder. O meu estômago contraiu-se quando percebi o que isso significava - estava a pressionar pedaços quebrados do meu crânio contra a superfície

do meu cérebro. O coração bateu--me contra o peito. A respiração saiu-me aos arranques. Mesmo quando estava prestes a entrar em pânico, vi aqueles olhos castanhos

por cima de mim e reconheci por fim o rosto do meu amigo Roberto Canessa.

- O que aconteceu? - perguntei-lhe. - Onde estamos?

Roberto franziu o sobrolho enquanto se inclinava para examinar os ferimentos na minha cabeça. Fora sempre um indivíduo sério, determinado e forte e, quando lhe fitei

os olhos, vi toda a tenacidade e confiança em si próprio por que era conhecido. Mas havia qualquer coisa nova no seu rosto, algo indistinto e perturbante que nunca

vira antes. Era o olhar atormentado de um homem que lutava por acreditar em alguma coisa inacreditável, de alguém a vacilar perante uma surpresa avassaladora.

- Estiveste inconsciente durante três dias - disse, sem nenhuma emoção na voz. - Já tínhamos desistido de ti.

Estas palavras não faziam qualquer sentido.

- O que é que me aconteceu? - perguntei. - Por que é que está tanto frio?

- Compreendes o que digo, Nando? - contrapôs Roberto. - Despenhámo-nos nas montanhas. O avião caiu. Estamos aqui perdidos.

Abanei fracamente a cabeça em confusão, ou negação, mas não podia negar durante muito tempo o que acontecia à minha volta. Ouvi gemidos fracos e gritos súbitos de

dor e comecei a entender que eram os sons de outras pessoas a sofrer. Vi os feridos deitados em camas e redes improvisadas por toda a fuselagem e outros vultos inclinados

para os ajudarem, falando

baixinho uns com os outros enquanto iam e vinham pela cabina com serena determinação. Reparei, pela primeira vez, que a parte da frente da minha camisa estava coberta

por uma crosta húmida castanha. Estava peganhenta e grumosa quando lhe toquei com a ponta de um dedo e percebi que esta triste imundície era o meu próprio sangue

seco.

- Compreendes, Nando? - perguntou Roberto de novo. - Lembras-te, estávamos no avião... íamos para o Chile...



Fechei os olhos e assenti com a cabeça. Tinha saído das sombras, a minha confusão já não me conseguia escudar da verdade. Compreendi tudo e, enquanto Roberto limpava

delicadamente a crosta de sangue do meu rosto, comecei a recordar.


1

ANTES
Era sexta-feira, dia 13 de Outubro. Brincámos com o facto de sobrevoarmos os Andes numa data tão agoirenta, mas os jovens dizem piadas deste género com tanta facilidade.

O nosso voo tinha saído um dia antes de Montevideu, a minha cidade natal, com destino a Santiago do Chile. Era um voo fretado num bimotor Fairchild com propulsão

a jacto e transportava a minha equipa de râguebi - o clube de râguebi Old Christians - para um jogo amistoso contra uma grande equipa chilena. Havia quarenta e cinco

pessoas a bordo, incluindo quatro membros da tripulação - piloto, co-piloto, mecânico e comissário de bordo. A maioria dos passageiros era formada pelos meus colegas

de equipa, mas também nos acompanhavam amigos, familiares e outros apoiantes da equipa, incluindo a minha mãe Eugenia e a minha irmã mais nova, Susy, que estavam

sentadas do outro lado do corredor, uma fila à minha frente. O nosso plano original era voarmos sem qualquer escala até Santiago, uma viagem de cerca de três horas

e meia. Porém, após apenas algumas horas de voo, as notícias de mau tempo nas montanhas à nossa frente forçaram o piloto do Fairchild, Julio Ferradas, a aterrar

na velha cidade colonial espanhola de Mendoza, que fica a leste das colinas no sopé dos Andes.

Aterrámos em Mendoza à hora do almoço com a esperança de partirmos de novo dentro de poucas horas. Mas o boletim meteorológico não era animador e em breve se tornou

claro que teríamos de passar a noite na cidade. Nenhum de nós gostou da ideia de perder um dia de viagem, mas Mendoza era um sítio encantador e assim decidimos tirar

o maior partido da nossa estada no local. Alguns dos rapazes sentaram-se nos cafés nos passeios das ruas largas e bordejadas de árvores de Mendoza ou foram visitar

os bairros históricos da cidade. Eu passei a tarde com alguns amigos assistindo a uma corrida de automóveis numa pista fora da cidade. A noite, fomos ao cinema,

enquanto alguns dos outros foram dançar com umas raparigas argentinas que tinham conhecido. A minha mãe e a Susy passaram o tempo a explorar as lojas fantásticas

de Mendoza, comprando presentes para os amigos no Chile e lembranças para a família. A minha mãe ficou especialmente satisfeita por descobrir um par de sapatinhos

encarnados para bebé numa pequena loja, pois achou que seria uma prenda perfeita para o novo bebé da minha irmã Graciela.

A maioria de nós dormiu até tarde na manhã seguinte e quando acordámos estávamos ansiosos para nos irmos embora, mas não havia ainda notícias sobre a nossa partida;

por isso, separámo-nos para vermos um pouco mais de Mendoza. Por fim, fomos avisados para nos reunirmos no aeroporto às treze em ponto, mas quando lá chegámos descobrimos

que Ferradas e o seu co-piloto, Dante Lagurara, não tinham ainda decidido se partiríamos ou não. Reagimos a esta notícia com frustração e raiva, mas nenhum de nós

entendia a decisão difícil que os pilotos tinham de tomar. O boletim meteorológico dessa manhã avisava que havia alguma turbulência na nossa rota de voo, mas depois

de falar com o piloto de um avião de carga que acabara de chegar de Santiago, Ferradas estava confiante que o Fair-child poderia enfrentar com segurança o mau tempo.

O problema mais grave era a hora do dia. Já estávamos no início da tarde.

Quando os passageiros acabassem de embarcar e tudo estivesse acertado com os funcionários do aeroporto, já passaria muito das duas. A tarde, o ar quente sobe das

colinas argentinas e encontra-se com o ar gelado acima da linha da neve gerando uma instabilidade traiçoeira na atmosfera sobre as montanhas. Os nossos pilotos sabiam

que essa era a altura mais perigosa para sobrevoar os Andes. Não havia forma de prever onde essas correntes em redemoinho poderiam atacar e, se nos atingissem, o

nosso avião seria atirado de um lado para o outro como um brinquedo.

Por outro lado, não podíamos ficar parados em Mendoza. O nosso avião era um Fairchild F-227 que tínhamos alugado à Força Aérea uruguaia. As leis da Argentina proibiam

que um avião militar estrangeiro permanecesse em solo argentino por mais de vinte e quatro horas. Como o nosso tempo estava quase a esgotar-se, Ferradas e Lagurara

tinham de tomar uma decisão rápida: deveriam partir para Santiago e enfrentar os céus vespertinos ou regressar a Montevideu com o Fairchild e acabar assim com as

nossas férias?

Enquanto os pilotos ponderavam as suas opções, a nossa impaciência cresceu. Já tínhamos perdido um dia da nossa viagem ao Chile e estávamos frustrados com a possibilidade

de perdermos mais dias. Éramos jovens corajosos, destemidos e cheios de si, e irritava-nos o facto de as nossas férias estarem a ir por água abaixo por causa do

que considerávamos um receio infundado dos nossos pilotos. Não escondemos esses sentimentos. Assobiámos e zombámos dos pilotos quando os vimos no aeroporto. Provocámo-los

e pusemos em causa a sua competência.

- Contratámo-los para nos levarem ao Chile - alguém gritou - e é isso que queremos que façam!.

Não é possível saber se o nosso comportamento influenciou a decisão deles - sem dúvida que pareceu desestabilizá-los - mas, por fim, após uma última discussão com

Lagurara, Ferradas
olhou para o grupo que esperava impaciente por uma resposta e anunciou que o voo para Santiago iria prosseguir. Acolhemos esta notícia com um ruidoso aplauso.

O Fairchild partiu finalmente do aeroporto de Mendoza dezoito minutos depois das duas, hora local. Subimos, o avião inclinou-se fazendo uma curva abrupta para a

esquerda e em breve estávamos a voar para sul, com os Andes argentinos a elevarem-se no nosso lado direito, no horizonte a ocidente. Pelas janelas do lado direito

da fuselagem contemplei as montanhas, que se erguiam retumbantes do planalto seco abaixo de nós como uma miragem negra, tão sombrias e majestosas, tão assombrosamente

vastas e enormes, que só o facto de olhar para elas fez o meu coração bater mais depressa. Enraizadas em leitos de rocha maciça com bases colossais que se estendiam

por vários quilómetros, os seus cumes negros erguiam-se das planícies, cada pico impelindo o seguinte, de forma que pareciam formar uma colossal muralha fortificada.

Eu não era um jovem com tendências poéticas, mas parecia existir um aviso na grande autoridade com que estas montanhas se mantinham ali firmes e era impossível não

pensar nelas como seres vivos, dotadas de mente e coração e de uma consciência antiga e cismática. Não surpreende que os Antigos considerassem estas montanhas como

lugares sagrados, como a entrada para o paraíso e a morada dos deuses.

O Uruguai é um país de baixa altitude e, como a maior parte dos meus amigos no avião, o meu conhecimento sobre os Andes, ou sobre qualquer outro tipo de montanha,

limitava-se ao que lera nos livros. Na escola aprendêramos que a cordilheira dos Andes é o sistema montanhoso mais extenso do mundo, atravessando a América do Sul

desde a Venezuela, no norte, até à ponta meridional do continente, na Tierra del Fuego. Eu também sabia que os Andes são a segunda cordilheira mais elevada do planeta;

em termos de altura média, só os Himalaias são mais altos.

Ouvira pessoas referir-se aos Andes como uma das maiores maravilhas geológicas da Terra e a visão que tive do avião fez-me entender de forma visceral o que isso

significava. Para norte, sul e ocidente, as montanhas estendiam-se até onde a vista alcançava e, apesar de se encontrarem a muitos quilómetros de distância, a sua

altura e massa faziam com que parecessem intransponíveis. De facto, pelo que nos dizia respeito, eram-no realmente. O nosso destino, Santiago, fica quase directamente

a oeste de Mendoza, mas a região dos Andes que separa as duas cidades é uma das secções mais elevadas de toda a cordilheira e alberga algumas das montanhas mais

altas do mundo. Aí algures, por exemplo, encontra-se Aconcágua, a montanha mais alta do hemisfério ocidental e uma das sete mais altas do planeta. Com um cume de

6959 metros, é apenas 1890 metros mais baixa do que o Everest e as suas vizinhas são gigantes, incluindo o monte Mercedario de 6705 metros e o monte Tupongato que

se ergue a 6569 metros. Rodeando estes autênticos monstros encontram-se outros grandes picos com alturas entre 4800 e 6000 metros, que ninguém nesses lugares remotos

se deu ao trabalho de baptizar.

Com estes cumes tão elevados erguendo-se no nosso caminho, o Fairchild, com a sua altitude máxima de cruzeiro de 6858 metros, não podia de forma alguma estabelecer

uma rota directa leste-oeste para Santiago. Os pilotos tinham assim traçado um percurso que nos levaria cerca de 150 quilómetros para sul de Mendoza até ao desfiladeiro

El Planchón, um estreito corredor através das montanhas com picos suficientemente baixos para o avião passar. Voaríamos para sul, ao longo das colinas a leste no

sopé dos Andes, com as montanhas sempre à nossa direita, até chegarmos ao desfiladeiro. Então curvaríamos para oeste e atravessaríamos as montanhas. Depois de passar

as montanhas, do lado chileno, viraríamos para a direita e voaríamos para norte, para Santiago. O voo deveria levar cerca de uma hora e meia. Estaríamos em Santiago

antes do escurecer.Na primeira parte da viagem, o céu estava ameno e chegámos perto do desfiladeiro El Planchón em menos de uma hora. É claro que eu não sabia o nome do desfiladeiro,

nem nenhum dos detalhes do voo. Mas não pude deixar de reparar que depois de voarmos durante quilómetros com as montanhas sempre distantes a ocidente, tínhamos virado

para oeste e estávamos agora a voar directamente para o coração da cordilheira. Eu estava sentado à janela no lado esquerdo do avião e, enquanto observava, a paisagem

plana e incaracterística lá em baixo pareceu saltar da terra, formando, primeiro, colinas escarpadas e depois elevando-se e arqueando-se nas extraordinárias convoluções

de verdadeiras montanhas. Cumes em forma de barbatanas de tubarão erguiam-se como velas pretas a pairar no ar. Picos ameaçadores espetavam-se como lanças gigantescas

ou lâminas partidas de machados de guerra. Estreitos vales glaciares cortavam as encostas íngremes, formando fiadas de corredores profundos, sinuosos e cobertos

de neve que se amontoavam e se dobravam uns sobre os outros, criando um labirinto selvagem e interminável de gelo e pedra. No hemisfério sul, o Inverno já dera lugar

ao começo da Primavera, mas nos Andes as temperaturas ainda desciam de forma rotineira aos dois graus abaixo de zero e o ar era tão seco como num deserto. Eu sabia

que as avalanches, tempestades de neve e ventos muito fortes eram vulgares nestas montanhas e que o Inverno anterior fora um dos mais rigorosos registados até à

data, com quedas de neve de várias centenas de metros nalgumas zonas. Não vi cor nenhuma nas montanhas, apenas manchas mudas de preto e cinza. Não havia suavidade,

nem vida, apenas rocha e neve e gelo e, quando olhei para baixo para toda aquela imensidão escarpada, tive de rir da arrogância dos que alguma vez acreditaram que



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