Narrativas da Nação proporcionadas pelas vitórias desportivas e seus heróis



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Narrativas da Nação proporcionadas pelas vitórias desportivas e seus

heróis

Ana Santos1

_________________________________________________________________



1. Introdução

Os heróis desportivos enquanto figuras proeminentes de "afectos

identitários" permitem aceder a um conjunto de narrativas da Nação.

Esta comunicação pretende ser apenas um ensaio de exploração desta

temática, e neste sentido trata apenas alguns discursos, produzidos pela

Imprensa escrita, relacionados com grandes competições internacionais, como os

Jogos Olímpicos e os Campeonatos da Europa de futebol.

Por questões de economia de escrita são, de momento, excluídos de

análise textos produzidos pelos "confrontos" desportivos e/ou "regionais", os quais

são profícuos ao entendimento da forma como se constrói, e até inventa, a

identidade local / regional a partir das qualidades (também elas construídas e

efabuladas) dos respectivos heróis.

Da "vida" do desporto português, um fenómeno com apenas um século de

existência, seleccionei três momentos distintos, dois deles fundadores, como o

são a primeira participação de atletas portugueses nos Jogos Olímpicos, e a

primeira participação de mulheres na maratona Olímpica, e um outro ligado com

as vitórias do futebol na década de 60.

São três momentos desportivos distintos, entre os quais não se pretende

estabelecer qualquer linha de continuidade, interessa apenas ver como em

contextos sociais, e político-económicos completamente diferentes se discursam

as vitórias desportivas.

2. Vitórias de virilidade

"Coube a Francisco Lázaro a honra de empunhar o estandarte português, agora com

nova bandeira de novas cores, encarnado e verde, que o pintor Columbano Bordalo

Pinheiro (1857-1929) concebera e o governo da jovem República oficializara. Só o



Hino da Carta, da Monarquia, continuava a aparecer, teimoso, pois nas solenidades

ainda não se conheciam as estrófes de A Portuguesa..." (Correia, 1988: 100)

A participação portuguesa na V Olimpíada constitui um marco negativo no

desporto português porque, e logo na primeira vez que Portugal participa no

evento, morre Francisco Lázaro na corrida da maratona.

"O team português que foi a Estocolmo volta dizimado pela morte. Francisco Lázaro,

aquele heróico e valente rapaz que tantas vezes aplaudimos e em quem depositámos

as melhores esperanças de que saberia defender com o brio indomável, esta forte e

destemida raça portuguesa, lá ficou dormindo o sono eterno (...).

(...) Não tinha ele uma noção rigorosa - longe disso - dos métodos de treino, nem das

medidas higiénicas que têm de adoptar os atletas quando pretendem pôr em prática

altos empreendimentos. E o que Lázaro pretendia era nem mais nem menos do que

atacar o recorde da hora pedestre.

(...) Na pureza ingénua de modesto filho do povo, Lázaro era um "sportsman", no que

a palavra tem de mais perfeito e de mais sincero; simples operário, ele tinha a

grandeza da alma de um ianque, curvando-se resignado perante a própria derrota,

não deprimindo e rebaixando os vencidos.

1 Bolseira do Ministério da Educação

IV Congresso Português de Sociologia

(...) O atleta da minha eleição caiu para sempre, morreu; não volta coberto de louros

(...)

Mas na sua queda, na queda do herói não foi arrastada a bandeira da Pátria, essa



ergueu-se alta e tremula ovante como a flâmula italiana de Dorando Pietro na

Olímpiada de Londres e como a bandeira helénica solta ao vento, quando o soldado

de Maratona caía exâmine ás portas de Atenas depois de anunciar a vitória sobre os

persas."


A Luta, 16 de Julho de 1912

Morre de insolação, morre envenenado, anunciam e especulam os jornais

da época, morre em resultado de uma ignorância que devia espelhar um pouco "o

povo" que o jovem representa. Lázaro ensebou-se antes do início da corrida para

não transpirar, para não perder água, e o pobre morreu, sobre-aquecido!

A morte do atleta torna-o um herói mítico, não falta na retórica da sua

produção a evocação de Philippides, o primeiro guerreiro-corredor, que fez o

trajecto Marathon (campo de batalha) - Atenas, para anunciar aos atenienses a

vitória sobre os invasores persas no ano 490 ac gritando nenikikamen (vencemos)

para logo de seguida entregar a alma. Este percurso foi considerado como sendo

a distância limite da endurance humana.

Nos elogios póstumos discursa-se a origem modesta e pobre, a sua

persistência nas corridas e o desejo de vencer como características opostas. A

excelência do corredor discursada a partir de categorias extremas que em tudo a

negariam: um carpinteiro, humilde e simples. Ser pobre e um bom "sportsman" é

como ser cego e bom atirador.

Num primeiro momento, para os burgueses e aristocratas, que

incrementaram os desportos nas práticas de lazer, a figura do sportsman

português é uma demonstração de identidade de classe através da qual podiam

estabelecer uma distinção horizontal com os seus congéneres europeus, pela a

adesão a práticas "modernas", e uma distinção vertical com o "povo".

O «Sport2» é uma prática de lazer inventada no século XIX pela

aristocracia inglesa. Alguns destes «Sports» eram considerados práticas

violentas. Na Imprensa portuguesa, o «Sport», nomeadamente os jogos

colectivos, são considerados por uns uma ameaça à civilização dos costumes, e

receia-se o regresso à barbárie, enquanto que para outros são um meio de

salvação da alma e da raça porque combatem o corpo mole e enfermo. «Sport» e

raça aliados na máxima mens sana in corpore sano.

Em Portugal, como em todos os outros países, o «Sport» nasce da vontade

dos indivíduos e dos grupos privados. "É uma inovação social que mergulha as

suas raízes na aparição de novas formas de sociabilidade. Desporto e

modernidade estão ligados e inscrevem-se nas mutações industriais e

económicas do século." (ARNAUD, 1988: 12)

A representação nacional que vai a Estocolmo, participar nesta V

Olimpíada, ainda não é uma representação de Estado, e parte sem qualquer

apoio financeiro do mesmo. Improvisa-se um pouco, nem mesmo a simbólica

nacional, hino e bandeira, consegue actualizar-se atempadamente e de acordo

com a República recém-implantada: à nova bandeira verde e vermelha junta-se o

antigo hino, incólume até ás Olimpíadas de 1918.

Em Portugal, seguindo um pouco os outros países, será apenas entre as

duas guerras que a internacionalização do desporto e sua audiência suscitam o

interesse dos homens de Estado3.

"Confirmou-se o facto. O governo não tem recursos monetários, nem verba para no

orçamento para a constituição de uma equipa portuguesa, que fosse concorrente aos

jogos atléticos da V Olimpíada, Em Estocolmo. Assim o declarou o ministro do Interior

2 A terminologia inglesa vai ser utilizada até à década de 30.

3 Ver o estudo elaborado por ARNAUD, Pierre, RIORDAN, James (1988) Sport et Relations Internationales

(1900-1940). Paris: L'Harmattan.

IV Congresso Português de Sociologia

à direcção do Ginásio Clube Português, há quatro dias, quando desejou informar-se

dos auxílios oficiais com que podia contar.

(...) A sua presença fica ignorada, até 1916, entre um lote formidável dos amadores

de todo o Mundo, vindos de países europeus, vindos de países distantes, para

afirmarem as suas condições físicas, de força e de resistência. (...)

A Alemanha, cuja potência económica e política se deve impor, pelo menos com o

número, envia a Estocolmo verdadeiras falanges de Hércules. Os Estados Unidos da

América, como o fizeram em Londres em 1908, serão representados pela élite

desportiva de 110 milhões de habitantes, por uma centena de formidáveis atletas. (...)

A Inglaterra, o Canadá, a África do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia, uniram os

esforços do imperialismo inglês para o triunfo da bandeira britânica. O próprio Japão,

que há muitos anos rivaliza na ciência e na actividade com a civilização europeia, já

indicou, em princípios de Janeiro, a dúzia de campeões, aos quais foi confiada a

difícil, mas honrosa empresa, de representar o império do Sol nascente.

(...) Só Portugal e Espanha não concorrem! Andamos afastados da Europa e da sua

gente civilizada e os avanços evolutivos de um sistema completo de educação são

menos conhecidos em Portugal que na Oceânia! Esses ecos de civilização têm mais

dificuldade em transpor os Pirinéus que atravessar o Atlântico!"

Os Sports Illustrados, 10 de Fevereiro de 1912

O progresso da Nação tem agora mais um indicador para a sua avaliação,

o desporto, já considerado um "eco de civilização", e uns "outros" bem definidos e

caracterizados face aos quais esse mesmo progresso deve ser aferido. Os

"outros" são, na Europa, a Inglaterra e a Alemanha, e na América os Estados-

Unidos.


Não obstante as dificuldades, a representação portuguesa segue para

Estocolmo financiada pelos grupos privados que ajudaram a introduzir e

implementar a prática do «Sport». Dos seis representantes apenas Lázaro faz

parte do "povo" pouco habituado a usos distintos como o fraque e talheres:

(...) Era um grupo muito amigo. Mesmo o Lázaro que se afastava socialmente de

nós, era um camarada esplêndido. Um rapaz muito simples, muito simpático. Ainda

me lembro, quando, a bordo do paquete da Mala Real Inglesa, tínhamos de ir de

smoking para a mesa, e ele, coitado, muito aflito a pôr o laço... E lá fui eu e o

Fernando Correia ajudá-lo a fazer o laço do smoking. Mesmo à mesa, nós o

aconselhávamos a comedir-se: «Não faça isso... não coma com a faca...» bom rapaz,

o Lázaro! A sua morte marcou-nos para toda a vida."4

São todos homens, tal como os restantes participantes dos outros países

em confronto desportivo e, acreditava-se que, fraterno. As demonstrações de

virilidade e masculinidade das Nações representadas são sempre medidas pelo

número de vitórias e recordes batidos.

Os Jogos Olímpicos para além de emprestar o cunho nacionalista à

competição desportiva, uma vez que ajudam a criar uma rivalidade simbólica

entre os países que os atletas representam, contribuem de forma decisiva para a

tornar num acto viril por excelência. A olimpíada feminina é considerada, por

Coubertin, impensável, inestética e incorrecta5. O Desporto aparece assim não só

como prática moderna mas também como reduto de afirmação da masculinidade.

4 Entrevista dada por Armando Cortesão a Romeu Correia. (CORREIA, 1988 :86)

Grupo de representantes portugueses na V Olimpíada: Armando Cortesão, finalista do Instituto Superior de

Agronomia, António Stromp, estudante de medicina, Fernando Correia, empregado superior do Montepio

Geral, Joaquim Vital, empregado do Comércio e Lázaro, carpinteiro.

5 MONDENARD, J.P. (1985) La femme peut-elle dépasser l'homme. Revue de l'AEFA 90: 5-16

IV Congresso Português de Sociologia



2. Vitórias da raça lusa

"Para que a alegoria da realeza fosse completa e desse a sugestão perfeita da glória

madridista, tudo se conjugava na grande cidade, onde aliás muitos nomes de

instituições ou de empresas levam esse antecipado designativo, desde a «Royal

Dutch» dos setróleor até à KLM dos aviões, tão grata e estreitamente ligada a nós

nesta jornada à Holanda.

Em suma: Real, Real, Real. Nas ruas e canais, nas festas populares e recepções

privadas, nos cálculos sobre o jogo e no momento soleníssimo do Estádio Olímpico.

Pois esse único «plebeu» que era o Benfica, com as suas falanges de apoio

geralmente recrutadas entre o povo anónimo e a sua pequena aura de popularidade

num centro onde outro colosso lhe levava a palma, virou tudo ao contrário: encerrou

no coração dos holandeses as suas festas de alegria exuberante e desfiles marciais,

implantou os seus estandartes rubros na confluência de todas as artérias, lançou o

seu grito de incitamento venceu o Real e proclamou o direito à glória, de uma vez

para sempre. Tudo se passou em 45 minutos de uma arrancada fulgurante. Melhor

dizendo, tudo se passou num momento decisivo, o 50º, quando o moreno Coluna,

expressão bem elucidativa, naquele instante, do Portugal Ultramarino, levantou o

Estádio com um tiro fulminante, que deixou o adversário esmagado no terreno (...)."

A Bola, 5 de Maio de 1962

O Benfica, após vencer a Taça dos Campeões Europeus em 1962, pela

segunda vez consecutiva, é aclamado e aplaudido por todas as instâncias sociais

e políticas da época.

As parangonas dos jornais comentam a excelência do resultado obtido pelo

Benfica dando relevo a aspectos que à partida pareciam negar o alcance da

vitória: um "clube popular" contra um "Clube Real", uma equipa "exótica" com

africanos a protagonizarem os golos, a "raça" contra os milhões.

Considerar o Benfica um "clube popular" é tão só um epíteto de distinção e

marcação de um traço identitário, construído em oposição ao Sporting, clube rival.

Ou seja, é tão popular como Clube do Porto, o Belenenses e o próprio Sporting.

De que se fala quando se fala de "popular"? Dos dirigentes do clube? Da "massa"

associativa? A popularização dos desportos colectivos, e particularmente o futebol

(pelos meios rudimentares necessários à sua prática) deve-se muito ao contraste

com a ginástica educativa muito disciplinar; são um pouco os "radicais" do início

do século: não tem de se estar em linha, nem fazer nada sincronizado, não

exigem postura, antes pelo contrário, quando surge a sua prática em Portugal,

chegam a ser comparados, em certos artigos de imprensa, como uma espécie de

regresso à barbarie.

O Real de Madrid é antes de mais um clube de Espanha, de onde "nem

bons ventos nem bons casamentos". Um Benfica / Real de Madrid rapidamente se

transforma num Portugal / Espanha, não é à toa que a metáfora da guerra tão

bem se aplica ao confronto que as equipas têm no "campo de batalha": os

remates são "tiros fulminantes" que "esmagam" o adversário, as fintas fazem

parte de "estratégias de ataque e de defesa", etc. Portugal um país pequeno, mas

com raça, contra um país de milhões como é a Espanha, vence! A exaltação de

aspectos que parecem menorizar o Benfica, ou Portugal, apenas servem para

vincar a excelência da equipa.

Salazar ao receber a equipa cumprimenta Eusébio e intitula-o património

nacional. Esta ideia de património nunca esteve ligada a nenhuma fonte jurídica

mas a uma simbólica de perpetuação de um corpo essencial à congregação da

comunidade. O Eusébio é, sem perceber, tornado monumento, protegido e

inalienável.

Para justificar e manter a guerra colonial Salazar alega que "essas colónias

eram parte integrante de uma comunidade nacional, multirracial e

IV Congresso Português de Sociologia



multicontinental" (Medina, 1993: 227). A par das vitórias no futebol vão as

derrotas na política externa6.

Glória para o Desporto Português

O «Drama de Amesterdão» teve uma apoteose - Benfica e Portugal

(...)

Coluna e Eusébio



"... Dois casos de força, de poder e de habilidade, têm por si aquele ar de felinos que

distingue os homens de cor. Na verdade era impressionante a cadência das suas

passadas, o equilíbrio das suas intervenções. Esses predicados que até em nós

causam admiração, dão aos nórdicos, racialmente mais extremados e diferenciados,

uma sugestão que os avassala. É a sugestão do exótico, do incomum, do

desconhecido. As avançadas de Coluna e Eusébio tinham alguma coisa de uma

ofensiva estranha ao jogo, uma espécie de elemento novo para os hábitos de um

público que talvez não tenha também compreendido que Portugal, sem deixar de ser

Portugal, é uma nação plurirracial e que pode reunir numa equipa, sem operações de

importação alfandegária, jogadores de todas as etnias conhecidas.

Muitos jornalistas perguntaram a procedência desses dois homens de cor, cujas

surtidas pelo campo, cujos remates fulminantes, cujos golos monumentais os tinham

presos de assombro. Lá tive de explicar tudo e de acrescentar que as vitórias do

Benfica tinham esse sabor especial, incomparavelmente mais expressivo que as do

Real de se deverem a gente da casa, por muita pigmentação da pele deixasse

suspeitar aos incautos o contrário. E como argumento decisivo desta última asserção,

lá citei Costa Pereira e Águas, vindos das mesmas paragens, pertencentes aos

mesmos círculos futebolísticos do Ultramar - sem distinção de raças.

Silva Resende

Bola, 5 de Maio 1962, p.1, 4

A equipa do Benfica fornece os elementos simbólicos que ilustram o ideal

de população: jovens do Continente e jovens das já então chamadas Províncias

Ultramarinas7 a colaborar em equipa, disciplinados na conquista de um objectivo

comum.


Nesta época a equipa simboliza o colonialismo ideal, um grupo unido e

coerente na sua acção a lutar em torno de objectivos comuns e igualmente

partilhados por todos.

A alegoria à nação é muito fácil de se realizar, ambas comunidades

multirraciais e multicontinentais: tanto a equipa como a nação são tidas como um

corpo, uma entidade única, espaço de consenso de ideais.

A criação do termo raça lusitana vem a propósito de uma distinção que é

necessária ser feita para não confundir os portugueses brancos com os outros. O

facto de serem negros não perturba o discurso nacionalista porque Eusébio e

Coluna, pela sua garra e fibra, são lusitanos, cumprem muito bem os ideais

nacionalistas porque engrandecem a imagem de Portugal. E, no discurso de

defesa do colonialismo a excelência dos jogadores deve-se ao papel

desempenhado por Portugal na disciplina do corpo dos africanos. Portugal,

através do futebol, consegue um feito fantástico transformar negros em jogadores



lusitanos. O desporto e seus heróis foram indispensáveis na afirmação do

discurso da pluralidade, e revelaram-se cruciais na (re)definição de novas

hierarquias.

6 em Março de 1961 "o embaixador dos EUA comunica formalmente a Salazar a alteração da administração

Kennedy quanto à política colonial portuguesa. Washington insta por mudanças no sentido da

autodeterminação e da independência das colónias e afirma que , a não se verificarem, os EUA não poderão

continuar a apoiar Portugal na ONU" (Rosas, 1998: 476).

7 "As colónias portuguesas designavam-se «províncias» sob a I República e passaram a «colónias» com o



Acto Colonial, promulgado quando Salazar era Ministro das Colónias. (...) A revisão constitucional de 1951

voltou a designar as colónias como províncias ultramarinas continuando a vigorar o Estatuto do Indigenato

que vinha dos anos 30." OLIVEIRA (1989:85).

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O desporto é, neste sentido, usado pelo Estado para manter a coesão

nacional em torno dos ideais de manutenção do Império colonial. Ao nível

internacional as vitórias do Benfica, e da Selecção, foram usadas como

instrumento de pressão, e contribuem para reforçar uma imagem de marca, força

e eficácia, ler legitimidade do regime de Salazar.

O Estado estabelece uma relação de cumplicidade com os jogadores, trataos

como "embaixadores", representantes oficiais de um "regime político".

Honra ao desporto

O Chefe de Estado entregou várias medalhas de «mérito desportivo»

GALARDÃO - O Presidente da República entrega a Medalha de Mérito Desportivo a

Eusébio, campeão europeu de 1962 —... O Almirante Américo Tomás fez o elogio da

proeza dos jogadores benfiquistas, classificando-a de altamente dignificante do nome

do clube do Desporto nacional e do próprio País; declarou que até nos muitos

convites que o Benfica tem recebido se pode ver um excelente meio de propaganda

de Portugal (...).

—(No fim foi servido um «Porto de Honra».)

Bola, 26 de Maio de 1962, p.8

A propaganda dos resultados é um indicador disso mesmo. Os campeões

europeus ao fazer uma digressão por Angola e Moçambique são recebidos com

honras de Chefe de Estado.

(Numa foto uma carrinha com a bandeira portuguesa escoltada por inúmeras motos

policiais, lembra a recepção a chefes de Estado)

Leg 1: CORTEJO APOTEÓTICO - foi assim, com centenas de carros e o povoléu em

desvario, aclamando os seus ídolos, que o Benfica desfilou, do aeroporto «Craveiro

Lopes» até ao centro de Luanda, depois da sua chegada a Angola. —Leg 2:

TRAVESSIA DE LUANDA - Sob indescritíveis manifestações de entusiasmo popular,

foi assim - apoteoticamente! - que a embaixada do Benfica atravessou as ruas de

Luanda, a caminho do hotel. Centenas de pessoas, de todas as raças, aclamaram

vibrantemente os campeões europeus.

5 de Julho de 62, p.1,5,6

Lourenço Marques - pois é, amigos! A menina pacata, pura, tímida, tão bela como

colorida, que é esta orgulhosa cidade portuguesa, «perdeu o juízo». Abandonou a

pacatez; pôs de lado o seu ar tímido; tornou-se nervosa como donzela ao escutar a

primeira declaração de amor. Motivo: a visita do Benfica, na pessoa dos seus

famosos campeões europeus de futebol!

—...Pois bem amigos: «pela primeira vez vi, aqui, uma equipa metropolitana que veio

ás «paragens negras e misteriosas do continente africano» não para se embasbacar

com o leão, mas, sim, para jogar futebol. ....

9 de Julho de 62, p.1,5,6

Ao nível da Nação existe como uma espécie de solidariedade entre o povo

e a sua representação nacional, o que impulsiona de certa forma uma imaginação

do "nós", enquanto "carácter nacional".

O jogo de meia-final disputado com Inglaterra coloca a Pátria em

expectativa, e um telegrama enviado por Amália à selecção é um bom indicador

da apoteose que se viveu em Portugal, com a possibilidade da equipa vir a

ganhar o Campeonato do Mundo:

- «Nós conquistámos o mundo pelo Mar fora de lés a lés e a

conquista continua desta vez a pontapés».

- «Orgulhosamente agradecida».

- «Beijinhos do meu coração».

E a ilustrar o epíteto é colocada a imagem de um galo de Barcelos vestido

de cavaleiro medieval com uma bola nos pés calçados com umas chuteiras.

IV Congresso Português de Sociologia

Magriços: "O apodo nasceu do jornal «A Bola», que simbolizou num galo de Barcelos

a figura do grande cavaleiro que triunfou em Inglaterra e, assim, consubstanciava a

esperança de todos nós de um digno comportamento da equipa de nós todos, na

dura empresa que a esperava em solo britânico."

"Com efeito, o Magriço, toda uma ressurreição de justas medievais de cavalaria, uma

afirmação excepcionalmente expressiva desse génio lusitano, não podia vir a melhor

carácter. Todo o episódio em que intervém o Magriço (...) é a exaltação da valentia

lusitana (...). Segundo a versão camoniana, (...) doze damas nobres inglesas foram

ofendidas por outros tantos cavaleiros (...). Os ofensores logo reptam a quem

sustente o contrário para uma luta de morte, à moda do tempo. (...)" F.P.F. (1969: 6)

Resumindo, entre os ingleses não conseguem achar quem as defenda e é então que

recorrem ao Duque de Lencastre que lhes sugere os portugueses. Feita a escolha

dos doze cavaleiros portugueses, entre estes está o magriço. "Aprestam-se todos a



embarcar no Porto rumo a Inglaterra. Porém, o Magriço pediu aos demais para ir por

terra no desejo de ver paragens estranhas e não querer perder essa oportunidade.

Garantiu que estaria em Inglaterra; (...). O que é certo é que chegou o dia de entrar

em campo e o Magriço sem aparecer - o que fez com que a dama que lhe competia

desagravar se vestisse de luto. Vai começar a pugna de doze ingleses contra onze

portugueses; e sùbitamente a multidão agita-se porque chega à arena, pronto para a

peleja, o Magriço! No calor da refrega, os ingleses são desbaratados, alguns mesmo

mortos (...)." F.P.F. (1969: 6)

Em suma, o galo de Barcelos, um objecto por excelência do artesanato

português, a representa a gesta nacional: o povo aldeão e castiço, guardião

seguro dos valores essenciais da raça lusitana. O galinho, equipado com

chuteiras e de bola nos pés, a apagar a ligação do futebol com o espaço urbano,

com a cidade que o viu nascer e lhe deu força. O aspecto cómico do ícone reside

no facto de uma equipa recheada de africanos ser representada por um símbolo

de Cruzada, de expulsão dos Mouros da Península. A evocação da Idade Média

através dos cavaleiros e das justas a dar ancestralidade a um fenómeno muito

recente em Portugal: o futebol. Não esquecer que o primeiro desafio Internacional

em que participa uma equipa a representar Portugal data de 1921.

"Com o futebol português dá-se um caso curioso: realizou o seu primeiro desafio

internacional em 18 de Dezembro de 1921 sem ter ainda intramuros uma competição

de plano nacional." Ornellas (1949-50:14)

Este galo, e o avivar da lenda do magriço, é uma síntese brilhante das

múltiplas tentativas que foram feitas com o intuito de aportuguesamento das

colónias.

Esquecido o Império nesta simbologia, sobrou o reino, o povo cristão da

orla da Europa com as quinas no suporte heráldico habitual - o escudo. De

acrescentar aliás, entre parêntesis, que a expressão "bandeira das quinas" é

desde a época de Camões em textos mais ou menos épicos sinónimo da

bandeira lusitana.

"Cartoon de Camões ao leme de uma caravela a ouvir o relato pelo transístor

O Benfica visto do Brasil

A própria Pátria ...em calção e chuteiras

[Uma saborosa crónica de Nelson Rodrigues, em «O Globo»]

(...)

***


4- Dois a zero, era a vitória dos milhões sobre a raça... Pensei nos azulejos de São

Januário, evocativos das desportivas. Aqui o Brasil sofria e pelo seguinte: - cada

brasileiro é, na pior das hipóteses, um neto retardatário de Bocage. Pois sabemos

praguejar também e com fúria bocagiana.

***

IV Congresso Português de Sociologia



5- Mas ia começar a lusa reacção. Primeiro e segundo «goals». Empatada a partida.

Já não era o Benfica. Amigos, um simples clube não faria tanto. Era Portugal. Há

momentos em que um clube é a própria pátria em calções e chuteiras. De repente,

um cheiro de oceanos sepultos, de velhos mares espectrais encheu Amesterdão"

***

(...)


9- E, súbito, houve o milagre. Reagiram os lusos, novamente. O público, começou a

ver os milhões do Real Madrid, a meio pau. Todo o mundo começou a torcer pelos

portugueses. Dir-se-ia que o estádio estava entupido de barões. Nas arquibancadas,

as mulheres tinham delíquios de Inês de Castro. Terceiro, quarto, quinto «goals» do

Benfica. Pensei, então com uma dessas certezas frenéticas: «Eu já fui português em

alguma encarnação!» amigos, não é português quem não chora. Após a vitória, saí

para a rua. Na primeira esquina, vi um latagão luso. Chorava lágrimas de esguicho. E

creio que, ao soar o apito final, os azulejos de São Januário deviam exalar um cheiro

de algas fantásticas. Por mim confesso: - foi tal a minha integração lusa que, no

quinto «goal» cheguei a me sentir de ôlho vazado como um Camões."

O cartoon e parte do texto deste artigo são primeira página do jornal a Bola

de 7 de Maio de 1962. O papel da imprensa é fundamental, tanto na propensão

de dar voz à opinião publica, como no veicular das ideias de Estado. O controlo

da Imprensa, através da censura, nos anos 60, é fundamental para a manutenção

do estereótipo de Nação valente e imortal, capitalizando as vitórias desportivas de

forma a estas poderem ser um sucedâneo de outras vitórias e conquistas do

passado. Estabelece-se uma linha de continuidade entre feitos, obliterado as

diferenças fulcrais da sua natureza, servindo as vitórias desportivas para

(re)actualizar o discurso macilento da gesta portuguesa e da sua predestinação

para grandes feitos.



3. Vitórias no feminino

"Rosa Mota não queria Roberto Carneiro em Seul



Só me faltava mais esta

(...) O feito de Carlos Lopes, em Los Angeles, estava repetido.

O triunfo de Rosa Mota na maratona Olímpica de ontem - a vitória que lhe faltava

para juntar aos títulos europeu e mundial - foi, para além de tudo, uma inequívoca

demonstração de classe.

(...) Teve palavras de apreço para as restantes competidoras que «valorizaram o

espectáculo» e, como sempre dedicou a vitória a Portugal:

«Um pequenino país que, neste momento, é tão grande como qualquer outro."

Lyn Owen e Robin Lusting

Expresso, 25 de Agosto de 1984

As vitórias de Rosa Mota e Carlos Lopes, nos anos 80, acompanham

períodos conturbados da política portuguesa e oferecem ao povo português um

espectáculo de inversão da ordem das coisas: Portugal a derrotar os países de

que depende economicamente como os Estados Unidos e a Alemanha.

A entrada das mulheres nas diferentes provas desportivas foi durante muito

tempo objecto de grande resistência por parte das instituições organizadoras dos

eventos. A figura do herói desportivo feminino sempre representou uma espécie

de ameaça à preservação de identidades históricas, como a família e a

maternidade.

Rosa Mota, uma mulher comum torna-se celebridade através de um feito

atlético ímpar: vence 14 maratonas. Em primeiro lugar, antes dela nenhuma outra

mulher o poderia ter feito, pelo simples facto da prova ter sido vedada à

participação das mulheres até 1982 nos Campeonatos da Europa, e até 1984 nos

Jogos Olímpicos. Com base num pseudo-argumento fisiológico, acreditou-se

durante muito tempo que a endurance da mulher era inferior à do homem, e que,

IV Congresso Português de Sociologia

por isso mesmo, a mulher sucumbiria a esforços prolongados, como os exigidos

pela maratona ou pelas provas de fundo e meio-fundo em geral. Em segundo

lugar, a maratona, prova mítica do atletismo, fundadora e trágica, foi durante anos

considerada uma prova de fim de carreira. Em Portugal, para esta crença muito

contribuiu a, pouco esclarecida, morte do primeiro maratonista internacional

Francisco Lázaro.

Lázaro e Rosa Mota, em comum o facto dele ser o primeiro português na

maratona Olímpica e ela a primeira portuguesa na mesma prova. Separa-os 70

anos, tempo necessário para que a Maratona Olímpica pudesse ser uma prova

disputada por mulheres. Só que desta feita, Rosa não treina, como Lázaro, a

correr atrás dos eléctricos lisboetas, mas em Boulder, nos Estados Unidos,

seguindo um plano de preparação física que nem sequer descura o pormenor da

altitude8.

O Estado, desligado da primeira representação olímpica portuguesa,

intervém agora de forma decisiva, na figura do Ministro da Educação, Roberto

Carneiro, de forma a garantir que Rosa corra com o equipamento da selecção

nacional.

"A Federação diz que sem estar filiada, Rosa não vai aos Jogos. A eventualidade de

Rosa surgir em Seul em representação de uma outra bandeira começa a enervar o

país. É obviamente altura de o Governo entrar em acção. O Ministro da Educação vai

puxar dos galões, como relatará mais tarde o Independente: «Antes dos Jogos

Olímpicos, Roberto Carneiro entrou em cena. Publicamente opôs-se com tacto, à

FPA. Nunca se soube como é que o ministro pôs fim à teimosia. O ministro pergunta

à Federação e ao Comité Olímpico Português se é ou não importante para o país o

contributo de Rosa nos Jogos de Seul. Os dois organismos dizem que, de facto, é. O

ministro então lembra à Federação que, segundo os próprios estatutos federativos,

'tem de colaborar com o governo'. (...)" (PINHÃO, 1999: 66)

A atleta dedica a vitória à Nação em que nasceu. Um acto simbólico. Rosa

Mota estava já inserida em formas de organização desportiva transnacionais. A

ameaça de filiação num quadro federativo que não o português, deu grande poder

de manobra ao técnico-treinador-empresário da atleta e, foi decisiva nas vitórias

fora de pista disputadas com a Federação Portuguesa de Atletismo.

Um discurso sobre a força da raça lusa, possível umas décadas antes, tem

agora dificuldades de sobrevivência. A mobilidade dos atletas e a universalidade

dos métodos de treino embaraçam qualquer discurso tendente a naturalizar as

capacidades dos portugueses para grandes feitos.



5. Conclusão

No início do século, a primeira representação nacional na V Olimpíada não

tem sequer o apoio do Estado, o sport, enquanto actividade de lazer moderna, é

discursado como prática de distinção de classe. Os Jogos Olímpicos emprestam o

cunho nacionalista ao desporto, que neste contexto é também um reduto de

afirmação da virilidade masculina Quando Lázaro morre as categorias usadas na

descrição da sua excelência relacionam-se com a pobreza e a humildade,

exactamente características extremas das da natureza do spotsman.

Na década de 60, o projecto colonial é a grande aposta de Salazar, e as

vitórias do futebol reforçam o seu ideário de suporte: uma equipa com jogadores

africanos negros e brancos. Uma novidade no contexto das equipas europeias,

Inglaterra também tinha jogadores africanos, mas brancos! Quando, em 1962, o

Benfica ganha a final dos Campeões Europeus a excelência da equipa é discutida

a partir do exotismo da equipa (e na altura o exotismo refere-se concretamente a

8 . A altitude favorece o aumento dos níveis de hemoglobina no sangue e por consequência aumento do

transporte de oxigénio e capacidade de resistência.

IV Congresso Português de Sociologia

jogadores como Coluna e Eusébio), como sai vencedora uma equipa assim

constituída? Nos textos da imprensa portuguesa da altura, esta é a questão de

partida que sugestiona textos inflamados sobre a raça lusitana e a predestinação

para grandes feitos, evocam-se as Descobertas, aliás por que é dessas terras

"portuguesas" que provém os portentos como Eusébio e Coluna. A vitória

conseguida, como se ainda não bastasse, foi contra o Real de Madrid, contra

Espanha, mais exalta o "carácter nacional", que se sobrepõe aos "carácteres"

locais, regionais, e até provinciais. O Estado condecora os jogadores, a equipa, o

clube, e assimila e rentabiliza a vitória. A equipa faz uma digressão pelas colónias

e é recebida em apoteose, a Imprensa estará sempre presente para fotografar,

divulgar e ampliar a coesão nacional em torno de uma equipa símbolo da

convivência multirracial e multicontinental.

É com desconfiança que os artigos de imprensa dos anos 60 tratam a

participação das mulheres nas provas desportivas. Nos anos 80 quer as vitórias

de Carlos Lopes quer as de Rosa Mota ou Aurora Cunha servem o propósito de

exaltar a identidade nacional. Parte dos textos dedicados ao comentário

desportivo não raramente tratam a Nação como um indivíduo colectivo, com uma

psicologia própria, as derrotas fazem parte de uma patologia histórica, traumas

não resolvidos, e as vitórias como o ensejo de luta para resolver complexos de

inferioridade. Naturalmente que o termo de comparação são sempre as Nações

como os Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, os mesmos países que também

serviram de modelo aos jornalistas do início do século.

Mas o fenómeno mais interessante dos anos 80 é o esforço que o Estado

desenvolve para que uma atleta como Rosa Mota não deixe de representar a

Nação nas competições internacionais. O território nacional é estreito à ambição

de um atleta que aspire ser um grande maratonista, o treino em altitude é

essencial para aumentar a qualidade de resistência. O discurso da supremacia da

raça, ou da virilidade, usado para explicar as vitórias desportivas, é tornado

anacrónico pela tecnologia de suporte e métodos "científicos" usados na

rentabilização das performances. No entanto, não deixa de ser interessante que

tanto o desporto como a identidade nacional ainda sejam discursados com base

em categorias de género e raça.

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