Narrativas e poéticas da condiçÃo juvenil feminina



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NARRATIVAS E POÉTICAS DA CONDIÇÃO JUVENIL FEMININA


Sueli Salva - UFRGS

No ano de 2003, ao concluir a pesquisa de mestrado deparei-me com uma realidade, que em minha opinião, carecia de entendimento. A pesquisa desenvolvida no mestrado teve como objetivo investigar as significações sobre a dança na escola, construídas por adolescentes1 que faziam parte de um grupo de dança e ocorria no turno inverso às aulas. A pesquisa2 revelou que a participação no grupo de dança tinha diferentes significações, algumas muito marcantes que tinham também relação com a diferença de gênero.

Essa diferença fez-me interessar pela temática de gênero e juventude e desejar compreender como as jovens de periferia urbana narram a vivência da sua condição juvenil. As narrativas estão sendo construídas através de diversas linguagens: a escrita, a fotografia e a fala: a escrita, através dos diários elaborados pelas próprias jovens, aos quais, após prévio acordo estabelecido entre mim e as referidas jovens, foi-me permitido o acesso; a fotografia, através da disponibilidade de uma câmera fotográfica pela pesquisadora, com a qual elas podem reproduzir imagens que no seu entender se constitui em algo significativo; a fala, por meio das entrevistas elaboradas com questões fechadas e questões abertas, direcionadas à temática da educação, visto que estas jovens pouco ou nada escrevem sobre o tema.

Até o momento, foi possível perceber que essas jovens compartilham de uma mesma dificuldade: ultrapassar o primeiro ano do Ensino Médio. Se falarmos dos jovens em sua totalidade os pesquisadores Enrique M. Criado(1998) e Marilia P. Sposito (1997) afirmam que eles compartilham apenas da idade. O que desejo com o projeto é compreender a diversidade dos modos de viver a condição juvenil de algumas jovens de periferia urbana de Porto Alegre, estudantes de Ensino Fundamental e Médio, conhecidas nesse texto como Jô, Raissa, Drica, Gil, Elaine, Mirela e Tânia. A partir de alguns dados inicio uma pequena reflexão sobre a “moratória social” (Margulis e Urresti, 1998), o ingresso no Ensino Médio e as concepções de amizade que as jovens expressam em seus diários.

Quando as jovens da pesquisa de mestrado, expressavam que participavam do grupo de dança porque não queriam ficar em casa trabalhando, estavam reivindicando o direito a “moratória social” (Margullis e Urresti, 1998), conceito utilizado para falar de um tempo da vida em que o jovem pode não fazer nada, experimentar coisas novas e ter tempo para “o ensaio e erro”. (DAYRELL, 2005). Para os meninos de periferia esse tempo torna-se uma densa e nebulosa vivência de culpas e sentimentos de incompetência por não estarem inseridos no mercado de trabalho, pois eles desejam e necessitam trabalhar para sobreviver. Entre as jovens a moratória parece quase inexistente, pois desde cedo começam a envolver-se com o trabalho doméstico e com responsabilidades da casa. Mas, mesmo sem usufruir plenamente da moratória, as jovens encontram outras formas para viver a sua condição juvenil.

Em relação à escolarização o ingresso no Ensino Médio se apresenta como um imenso desafio a ser superado. Quando ingressam no ensino publico estadual, elas se deparam com conteúdos que julgam difíceis de acompanhar, professores sem criatividade para ensinar, falta de professores e sofrem discriminação como relatou Jô no seu primeiro dia de aula em que um professor perguntou quem era procedente de escolas por ciclos3 e ao se identificar, ele disse: “–Então podes estar certa que não vais conseguir passar”. Das cinco jovens que estão, a mais de um ano, no Ensino Médio, nenhuma conseguiu ser aprovada no primeiro ano. Isso revela que existe um imenso vazio entre um e outro nível de ensino fazendo com que muitos alunos abandonem ou não consigam ter sucesso na escola de Ensino Médio. A escola parece não se constituir como uma instituição capaz de seduzir os alunos para que permaneçam nela e tenham sucesso.

Na cidade de Porto Alegre, com a implantação do sistema de ciclos que prevê, entre outras coisas, o avanço contínuo, aumentou significativamente o número de alunos que concluem o Ensino Fundamental. Muitos desses alunos iniciam a sua escolarização nas escolas de Ensino Médio, mas pouco tempo depois, as abandonam e quando conseguem manter-se a reprovação é uma constante.

Nos diários as jovens escrevem muito sobre amor e amizade, neste momento me deterei sobre a amizade, pois essa temática logo nos leva a pensar em uma relação de afeto, significada pela presença do outro. Ortega (2002) nos oferece a história da constituição da amizade, dando-lhe um caráter processual, não natural, expresso nos escritos de pensadores e filósofos da Antiguidade até a Modernidade. Os primeiros escritos sobre a amizade são marcados por um caráter político e público, para depois ir se estruturando sobre bases filosóficas, ligadas a intimidade e a familialização.

Uma diversidade que se expressa nos diários de cinco jovens. Em geral percebe-se nesses escritos um desejo para viver as relações de amizade fora do espaço privado, há um ensaio para viver outras formas de socialização, para experimentar um novo modo de vida comunitário, como o de Jô.

Amigas: FDC( facção das cocos), esse é o nome que damos a nove gurias e um guri, que considero muito além das outras, né também gosto delas! São minhas amigas de infância e tem o chefe que é o irmão de uma de nós, estamos sempre juntas, uma sabe da outra! Não escondemos nada entre nós! Tenho um amigo chamado “Renan4” que ele é muito especial pra mim! (sem malícia) ele é um grande amigo.

O mundo da amizade de Jô parece ser o da confiança, um mundo livre da sensualidade, que reserva o lugar para o afeto, para o estar junto, para criar códigos. Revela uma cultura patriarcal em que a figura masculina exerce um poder respaldado pelo próprio grupo de meninas. Não manifesta perigo em ser amiga de um jovem, entretanto, não pode haver sedução, sensualidade. Os amigos possibilitam, de certa forma, a busca pela liberdade, que poderia ser vivida longe do controle da família, mas se enredam na trama da sociedade patriarcal e instituem um chefe, seguindo o modelo familiar. Amizade e parentesco se fundem.

Drica expressa muitos conflitos e interrogações em sua escrita, parece querer encontrar um sentido para o seu existir. Tem uma forma particular de expressar seu modo pensar a amizade.

Hoje não estou muito bem, ‘tô’ preocupada com um amigo... (...) Eu dou importância pra coisas que ninguém se importa, eu vejo egoísmo e falsidade naquele ‘grupo de amigos’ que se dizem amigos de verdade. Felizmente meus amigos são realmente meus amigos.(...) O meu amigo me ajuda muito, a gente se entende...eu o conheci este ano, mas sabe quando tu conhece alguém mas, parece que já conhece há muitos anos? É assim com nós dois, eu cuido dele e ele cuida de mim. (...) Nada como estar com os amigos, rir, contar piadas, cantar, rezar.

Os amigos são aqueles para compartilhar momentos de alegria como dizem os escritos de Santo Agostinho em sua primeira fase de desenvolvimento sobre a amizade, com base no modelo greco-romano. “Havia neles outros prazeres que me seduziam: conversar e rir, prestar obséquios com amabilidade uns aos outros, ler em comum livros deleitosos, gracejar, honrar-se mutuamente, discordar de tempos em tempos (...)”. (ORTEGA, 2002, p.66).

Drica expressa também uma amizade modulada pela racionalidade, que a genealogia a apresenta ligada à corte francesa, envolta pela “superficialidade, cerimônia, conversação.” (ORTEGA, 2002). Drica se questiona sobre o mascaramento que reveste alguns que se dizem amigos, mas escondem uma falsidade. De acordo com Ortega o espaço da amizade é a liberdade, o risco e assim o enfrentamento da falsidade que pode emanar da relação, mas essa falsidade, esse mascaramento não é aceito pois vivemos sobre o domínio de uma lógica instrumental, vinculada aos preceitos familialistas. Em outro momento Drica fala do amigo que morre e se torna o amigo amado e guardado para sempre na memória. De algum modo Drica se utiliza de uma retórica que “visa construir uma imagem ideal do amigo.” (ORTEGA, 2000)

Hoje foi um dia triste. Ontem, um amigo meu morreu e mais uma vez a vida nos prova que o amanhã pode não existir e que devemos estar preparados para o fim. (...) ‘sentirei tua falta amigo, não tive chance de dizer adeus e nem o quanto te amo, mas onde quer que esteja saiba que o meu carinho e admiração por ti são eternos. Até mais ver’.

Montaigne expressa o que ele considera a verdadeira amizade que para ele “é uma plenitude afetiva, que não precisa de qualidades objetivas; um prazer espiritual que não diminui com a sua satisfação.” (ORTEGA, 2002, p. 94). A amizade vivida por Mantaigne ocorre no espaço privado e se engrandece após a morte do amigo. Como ocorre com Drica em relação ao amigo que morre.



Dessa forma começo a delinear os primeiros passos da pesquisa. Posso, desde agora, perceber que entre as jovens de periferia urbana existem algumas semelhanças, mas existem também diferenças que ainda serão reveladas à medida que a pesquisa avançar. Essa pesquisa é um modo de dar visibilidade a jovens anônimas de periferia urbana, que travam uma luta constante de inserção em um universo sócio-cultural de reconhecimento.

REFERÊNCIAS
CRIADO, Henrique Martín. Producir la Juventud – Critica de la Sociologia de la Juventud. Madri: ISTMO, 1998.
DAYRELL, Juarez. A Música Entra em Cena – O Rap e o Funk na Socialização da Juventude. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005.
FABBRINI, Anna; MELUCCI, Alberto. L’età Dell’oro: Adolescenti tra sogno ed esperienza. Milano: Giangiacomo Feltrinelli Editore, 2000.
MARGULIS, Mario; URRESTI, Marcelo. La Construcción Social de La Condición de La Juventud. In Viviendo a Toda: Jovenes, Territórios Culturales Y Nuevas Sensibilidades. Santafé de Bogotá: Siglo del Hombre Editores; Departamento de Universidad Central: 1998.
ORTEGA, Francisco. Genealogias da Amizade. São Paulo: Iluminuras, 2002.
PORTO ALEGRE Secretaria Municipal de Educação. Ciclos de Formação - Proposta Político Pedagógica da Escola Cidadã. Cadernos Pedagógicos SMED, Porto Alegre, nº9, p. 1 a 112, abr. 1999.
SALVA, Sueli. Vai Ter Dança Hoje? Itinerários Juvenis no Espaço Escolar. Porto Alegre: UFRGS, 2003. Dissertação de Mestrado em Educação. Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003.
SPOSITO, Marilia Pontes. In. Estudos Sobre Juventude em Educação. Revista Brasileira de Educação. Anped, nº5 e 6, p.37-52. Mai. jun. jul. ago – set. out. nov. dez. 1997.

1 Utilizo a palavra adolescente para expressar o tempo da vida que inicia a juventude como defende o sociólogo Alberto Melucci e a psicóloga Anna Fabbrini (2000). Doravante utilizarei a expressão jovem.

2 A Dissertação: “Vai ter dança Hoje – Itinerários Juvenis no Espaço Escolar” (SALVA, 2003), foi desenvolvida em uma escola da rede pública municipal de Porto Alegre e encontra-se disponível na biblioteca da FACED.

3 A Proposta Curricular da secretaria municipal de educação “organizada em três ciclos de três anos cada um, atendendo os educandos, dos 6 aos 14 anos, de acordo com a sua faixa etária”. A proposta curricular por ciclos de formação visa “à reorganização do tempo e espaços da escola, de forma global e totalizante que garanta o ingresso e a permanência do aluno na escola e o acesso ao conhecimento”. (SMED, abril de 1999).

4 Os nomes são fictícios.



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