Narrativas fotográficas da cultura digital: o acontecimento no campo do sensível



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Narrativas fotográficas da cultura digital: o acontecimento no campo do sensível
Beatriz Sallet1

Nota introdutória

O fotojornalismo está próximo a completar duas décadas de uma nova cultura – a digital – e é nossa intenção, nesta proposta de tese, pousar nosso olhar para este momento quando se consolidam práticas que já podemos afirmar próprias do ambiente comunicacional contemporâneo. Estas práxis delimitam espaços narrativos importantes que se insere nos processos de convergência entre diferentes plataformas que se conectam em rede. Entre elas, destacam-se os blogs fotográficos.

Quando falamos em práticas do fotojornalismo contemporâneo, estamos nos referindo às rotinas produtivas das redações dos jornais on line, desde a pauta, sua produção e seus desdobramentos em canais diversos da cultura digital, em multiplataformas e que perpassam as trajetórias diversas - produção, recepção, circulação -, pois na ambiência da cultura digital não devemos entender estes processos comunicacionais como estanques; pelo menos no âmbito geral devemos entender estes três processos como sistêmicos.

Ou seja, estamos olhando a pauta fotojornalística numa perspectiva semiótica2, uma vez que ela é dinâmica e sofre desdobramentos que nem sempre respeitam a prospecção do agendamento, e percebemos, nesta perspectiva de redação, para além da produção fotográfica para dar conta do jornalismo on line (além do impresso), os blogs constituídos pelas equipes dos fotojornalistas dos jornais diários como nosso objeto de pesquisa.

Os blogs constituídos pelas equipes dos jornais diários3 se constituem em novos veículos comunicacionais onde a fotografia é o principal ator da comunicação. Nascidos já na cultura digital, estes veículos são seguidos/acompanhados por fotojornalistas, jornalistas e leitores diversos. Além dos blogs das equipes dos jornais, há fotojornalistas que desenvolvem blogs individuais que para fins de pesquisa exploratória também nos servem como referências4.

Seguramente podemos dizer que os blogs das equipes ou coletivos de fotojornalistas das redações dos veículos tradicionais vêm constituindo outras formas de narrar os acontecimentos fotojornalísticos e produzindo formatos diferenciados. Talvez a principal característica que assistimos a partir deles é a ampliação do nosso campo de visão de uma mesma pauta fotográfica, pois no jornalismo tradicional o acontecimento era narrado a partir da cultura da foto única ou foto síntese do acontecimento5. Os blogs potencializam a narrativa sequencial de uma pauta, constituindo estas narrativas com as principais imagens que foram produzidas em cada pauta. Respeitando critérios de edição, as melhores imagens que compõe a pauta ou saída fotográfica na perspectiva de quem as produz (os fotojornalistas) são então visibilizadas e, com isto, amplia-se o espaço para a fotografia jornalística, e, principalmente, o que antes ficava de fora, agora produz sentido.

Também, em função desta ampliação do espaço editorial para a fotografia nos blogs, além da possibilidade de publicação de imagens em maior número, é facultada agora uma prática que sempre foi reclamada pelos profissionais nos veículos tradicionais: o repórter-fotográfico participa/interfere mais efetivamente nas escolhas de quais fotos que serão publicadas.

Dentro deste novo veículo/ambiente digital, com os profissionais participando também coletivamente (aspecto que sugere práxis distinta dos processos coletivos convencionais das redações) com imagens que normalmente eram desprezadas pelas decisões editoriais tradicionais6, podemos aferir que no ambiente digital, as práticas fotojornalísticas em consolidação alteram a cultura do jornalismo e introduzem questões estéticas e performativas distintas, o que estamos entendendo como uma linguagem que dá lugar ao sensível.

A proposta de tese assim debruça-se sobre estas novas narrativas, estes novos lugares – olhando principalmente para os blogs coletivos das editorias de Fotografia dos veículos7, porém podendo ampliar nosso olhar para outras narrativas fotojornalísticas que emergem da e na cultura digital, como os blogs individuais/pessoais de fotojornalistas, lugares aonde o fotojornalismo vem escoando na ambiência digital; ou, ainda os aplicativos tipo Instagram8 que se refere a uma prática individual de postagem imediata, portanto de característica mais factual quando percebemos do fundamental ponto de vista que nos interessa: o do acontecimento jornalístico. Podemos dizer que o Instagram está para a cultura digital como a Polaroid esteve para a cultura impressa, cada com níveis tecnológicos e de recepção próprios de seu tempo e natureza.

Para fins de exemplificação do que pretendemos para a tese, apresentaremos mais adiante neste texto uma amostra empírica sobre o blog Diário da Foto, do jornal Diário Gaúcho9, de Porto Alegre/RS. Criado pela editoria do jornal impresso e on line, o blog é editado por André Feltes (editor de Fotografia do DG desde sua fundação), com a colaboração da equipe de repórteres fotográficos que o acompanha no jornal, a finalidade principal deste blog é dar vazão para as principais pautas fotográficas, que chamamos aqui de narrativas fotográficas e que compõe este novo cenário do fotojornalismo em convergência.

A falta de espaço para mais imagens em meio às matérias jornalísticas e a escolha das fotos sem a participação de quem as produziu (ficando, na maioria das vezes, por conta do editor de fotografia dos veículos) sempre foram motivos de insatisfação generalizada dos fotojornalistas (no jornalismo tradicional), em suas práticas produtivas. Dessa forma, buscamos compreender nas narrativas fotojornalísticas contemporâneas - que escoam no ambiente dos blogs - justamente as suas potencialidades em relação aos acontecimentos, ao texto, às poéticas de criação de novas estéticas e a própria satisfação profissional do fotojornalista.

Esta prática, que se encontra em expansão, produz pelo menos dois problemas que se interligam: o acontecimento, como objeto semiótico das narrativas jornalísticas, encontraria nestes blogs condições para ter um pouco mais de sua complexidade contemplada; isso também implicaria em um deslizamento do acontecimento assim constituído para o campo do sensível, aspecto que desburocratizaria a linguagem jornalística. (HENN e SALLET, 2012)

Em se voltando para uma observação mais sistêmica do fotojornalismo operado na cultura digital, para além de nosso principal objeto - os blogs das editorias de fotografia dos veículos tradicionais -, as principais questões que norteiam as preocupações propostas na pesquisa giram em torno das assertivas: (1) Quais possibilidades de narrativas fotojornalísticas, em geral, emergem no ambiente da Cultura Digital? (2) Que novas configurações de acontecimentos constituem estas narrativas? (3) E quais são específicas dos blogs? (4) O que no ambiente da cultura digital se constitui como espaço de criação e o que se origina da linguagem própria do fotográfico?

Objetivos geral e específicos da tese:
Geral: Investigar e problematizar a constituição das novas formas de narrar o fotoacontecimento da cultura digital, principalmente os blogs constituídos por editorias de Fotografia dos veículos tradicionais.
Específicos:


  1. Mapear categorias/tipologia dos fotoacontecimentos que vem surgindo a partir da Era digital.

  2. Problematizar o protagonismo dos fotoacontecimentos relacionados à ambiência digital (jornalismo on-line; redes sociais; blogs pessoais e coletivos fotojornalísticos).

  3. Perceber os três processos que circunscrevem o fotojornalismo no ambiente dos blogs das editorias dos veículos tradicionais: produção, recepção e circulação.

  4. Elencar as novas formas de narrar que fazem parte do fotojornalismo da Cultura Digital, principalmente enfatizando as que se instauram como novas estéticas (do sensível), e que ventilam (fornecem os brancos no sentido baudrilhardiano do termo) aos/os enunciados fotojornalisticos que imperaram na cultura anterior (do impresso).

O mapa conceitual desse trabalho envolve três eixos que se entrecruzam. O primeiro centra-se na linguagem fotojornalística e suas transmutações nos processos digitais contemporâneos (RUSCH, 2005; MACEK, 2005; JENKINS, 2008). O segundo pretende dar conta das questões de narratividade que se estabelecem dentro daquilo que já se entende como narrativas fotojornalísticas (SOUSA, 2004; LONGHI, 2009 e 2010; RICOUER, 1994 e RESENDE, 2010 e 2011). O terceiro envolve as relações entre linguagens e narrativas fotojornalísticas com as teorias do acontecimento no entendimento de que novas camadas do acontecer emergem nesses processos (PEIRCE, 2002; QUÉRÉ, 2005; HENN, 2011 e 2012).


Questões de transições que envolvem as novas práticas

A prática dos blogs de editorias de fotografia se encontra em expansão nos veículos tradicionais e visibiliza a produção dos fotojornalistas. Também, produz pelo menos dois problemas que se interligam: o acontecimento, como objeto semiótico das narrativas jornalísticas, encontraria nestes blogs condições para ter um pouco mais de sua complexidade contemplada; isso também implicaria em um deslizamento do acontecimento assim constituído para o campo do sensível, aspecto que desburocratizaria a linguagem jornalística. Podemos dizer que as fotos assumem caráter mais dinâmico e em algumas coberturas muitas vezes dispensam o texto verbal e contam suas próprias histórias fotográficas/narrativas fotográficas, situação que por si só já traz elementos instigantes para a reflexão sobre a nova estatura que essa linguagem atinge (HENN e SALLET, 2012).

A fotografia adquiriu proporções antes inimagináveis na ambiência da internet. A revolução digital que se instaurou, a partir da década de 1990, e que ainda está em curso, transformou as formas de comunicação entre as pessoas desde as práticas de sociabilidade, que dinamizam a perspectiva da internet como cultura, como as que são engendradas no campo especificamente midiático (FRAGOSO; RECUERO; AMARAL, 2011). A migração dos álbuns de família para os espaços virtuais através de redes sociais como facebook, flicker, picasa, tornaram-se procedimentos hegemônicos nos hábitos culturais da sociedade contemporânea. Já no mundo do trabalho midiático em geral, e do fotojornalismo em particular, as histórias fotográficas10 que vem sendo narradas - e que são linguagens próprias do fotojornalismo online - são constitutivas de uma das mais importantes reconfigurações nas rotinas produtivas dos profissionais fotojornalistas (LONGHI, 2010).

Quando se fala em reconfigurações, elas dizem respeito tanto ao fotojornalismo impresso, quanto também ao fotojornalismo específico da web que vai se transformando na medida em que são desenvolvidas plataformas específicas de acolhimento à linguagem fotográfica. Como exemplo, cita-se a fotografia aplicada em slide show, em que várias fotos são apresentadas, normalmente junto aos títulos das matérias. Já as histórias fotográficas como narrativas fotográficas (designação que se incorpora mais aos procedimentos do jornalismo online) são muito mais abundantes em quantidade (o que não suprime qualidade11, ao contrário, permite uma poética ampliada do fotojornalismo, em função das novas linguagens) do que na cultura anterior (a do jornalismo impresso).

As práticas do fotojornalismo específicas do online também levam em conta a pauta fotojornalística, uma vez que ela é o pontapé para que outros processos se instaurem (HENN, 1996) e se coloquem de forma reconfigurada no ambiente digital12. Há uma diferença cultural entre as histórias fotográficas contadas pelo impresso e as narrativas fotográficas contadas na web. Tratar as narrativas fotojornalísticas dessa forma é colocá-las num espectro mais amplo e que diz respeito às narrativas da cultura digital. Potencialmente elas dinamizariam aquilo que Macek Jakub (2005) entende como agentes de capacitação, de reforço da liberdade individual e de enfraquecimento das formas centralizadas de poder. Os usos dos blogs por fotojornalistas, por exemplo, expandem a liberdade destes profissionais, descentralizando os discursos hegemônicos nos veículos tradicionais. A questão central das novas mídias na atualidade, conforme Felinto (2011, p. 3) já não é a transferência do labor humano para as máquinas, mas sim a expansão do potencial criativo do homem através das tecnologias de informação e comunicação.

Breve histórico sobre a transição do impresso ao on line na fotografia
O fotojornalismo ainda vive a transição tecnológica (que não cessa, portanto, merece um olhar vigilante). A fotografia analógica (dos processos fotoquímicos) foi, durante a década de 1990, totalmente ultrapassada pelos processos da fotografia digital (dos processos fotoelétricos), tendo tido, entre os dois processos, um período de interoperabilidade, quando se fotografava analogicamente para então escanear os negativos coloridos e transportar os dados, através da digitalização da imagem, para o computador, a fim de tratar a imagem no photoshop. Nessa etapa, chamada de pré-adaptativa por José Afonso da Silva Júnior (2012), a produção esteve orientada, prioritariamente, para o jornalismo impresso, e migrando para a Internet.

Silva Jr. (2012, p.36) entende por pré-adaptativa, adaptativa e de convergência as fases que representam o período anterior, entre meio, e posterior à troca do processo analógico para o digital na fotografia. Conforme ele, o período representado pela fase pré-adaptativa significou quando o cenário de práticas correspondia à coexistência de sistemas de imagem e rotinas baseados numa interoperabilidade entre o digital e a analógica. A fase adaptativa é referendada pelo conjunto de práticas caracterizadas pela total eliminação de dispositivos de ordem analógica; sobre a terceira fase, de convergência, segundo Silva, pesam dois prismas, o primeiro prisma estaria presente nas dinâmicas internas da redação pressupondo a justaposição empresarial (fusão de empresas); tecnológica (adoção de dispositivos capazes de lidar com multitarefas); de plataformas (produzir um mesmo núcleo de conteúdo para vários meios); e profissional, que diz respeito ao fotógrafo tendo que ter capacidade de atuar com outras competências. Já o segundo prisma, segundo este mesmo autor, está baseado em Jenkins (2008), e é da ordem da cultura da profissão, onde a cadeia de produção é concebida como um processo que afeta tanto o modo de produção do conteúdo como o seu consequente consumo.

No período de transição tecnológica13, os repórteres-fotográficos viviam sob a tensão de um deadline: embora cada pauta tivesse seu próprio deadline, era no final da tarde, próximo ao fechamento do impresso, que a redação esquentava. Hoje, a necessidade da alimentação dos webjornais faz com que os repórteres-fotográficos desdobrem-se para enviar as fotos o mais rápido possível, muitas vezes antes mesmo de o evento/acontecimento ter alcançado o clímax. Vale qualquer foto, desde que entregue e que se alimente o jornalismo on-line. Não se prima pelo sentido que a foto aporta, mas pela agilidade da entrega, o “chegar antes”.

Uma das constatações fundamentais sobre as mudanças nas rotinas dos repórteres-fotográficos é justamente a pressão existente em função do fator tempo, exigência quase simultânea para o jornalismo on-line, porque o lugar do furo, hoje, é na web, não importando se a imagem não for a mais expressiva ou o quanto conte sobre o acontecimento. Para o jornalismo on-line, a fotografia que sintetiza o acontecimento passou para o a segundo plano, ela encontra guarida no impresso e ou nos blogs que são editados posteriormente. Claro que devemos registrar aqui que em alguns casos, quando a foto boa ou eficiente (GURAN, 2002) é conseguida, alguns veículos se ocupam de atualizar as suas matérias on line, melhorando os enunciados visuais das matérias jornalísticas. Conforme Sousa (2004, p.14),

A história do fotojornalismo é uma história de tensões e rupturas, uma história do aparecimento, superação e rompimento de rotinas e convenções profissionais, uma história de oposições entre a busca da objetividade e a assunção da subjetividade e do ponto de vista, entre o realismo e outras formas de expressão, entre o matizado e o contraste, entre o valor noticioso e a estética, entre o cultivo da pose e o privilégio concedido ao espontâneo e à ação, entre a foto única e as várias fotos, entre a estética do horror e outras formas de abordar temas potencialmente chocantes e entre variadíssimos outros fatores. E é também uma história que assiste, gradualmente, ao aumento dos temas fotografáveis, o mesmo é dizer, a uma história que assiste à expansão do que merece ser olhado e fotografado.

As questões que permeiam o fotojornalismo anterior à Era digital interessam a esta pesquisa apenas para referenciar a cultura da profissão dentro de suas rotinas produtivas como ancoradouro à percepção do que persiste e do que morre daquela cultura, e sobre o que se assiste no fotojornalismo contemporâneo.

. Metodologia que compreende a pesquisa

Olhar o fotojornalismo em suas expansões na Internet, buscando apreendê-lo em seus processos principais - produção, recepção e circulação -, compreende - acreditamos - em acompanhar os processos produtivos do fotojornalismo on line desde seu ponto de partida, no caso, desde a pauta fotojornalística, uma vez que ela é o inicio para que os demais processos semióticos se instaurem (HENN, 1996), passando em seguida para o trabalho da edição e alimentação do on line para perceber como os fotojornalistas vêm produzindo para estes veículos, e como os materiais fotojornalísticos vêm sendo aproveitados pelo on line, e deste para as outras extensões, principalmente no ambiente dos blogs tocados pelas equipes das editorias dos jornais tradicionais, objeto principal que nos interessa na pesquisa. Perceber estes movimentos, em semiose, nos faz, com Jenkins, entende que

A convergência não depende de qualquer mecanismo de distribuição singular. Ao invés disso, a convergência representa um deslocamento de conteúdo de mídia específico em direção a conteúdos que fluem por vários canais rumo a uma elevada interdependência de sistemas de comunicação. Isso implica em múltiplos modos de acesso de conteúdos de mídia e em relações cada vez mais complexas entre a mídia corporativa, de cima para baixo, e a cultura participativa, de baixo para cima (JENKINS, 2008, p.325).
O blog Diário da Foto

O blog Diário da Foto14 nasceu de uma tendência quase que generalizada das editorias de fotografia dos jornais tradicionais. O veículo consiste na criação de novos modos de narrar - a partir das plataformas digitais - com a utilização de fotografias das mais importantes pautas fotográficas produzidas pelos fotojornalistas do jornal Diário Gaúcho. No Diário da Foto, esse procedimento é ancorado por uma abertura de texto que o contextualiza, e a peridiocidade dos posts varia de acordo com a demanda e com o material que as pautas geram.

O topo do blog é o mesmo desde a sua criação e é composto por imagens que ajudam a credenciar a linha editorial da linguagem fotográfica aplicada ao jornal impresso. São fotos de pessoas, as quais identificam (ou se identificam, pois é este o objetivo editorial fotográfico do jornal Diário Gaúcho) o público leitor ou o leitor-modelo para o qual o veículo se dirige.

No http://wp.clicrbs.com.br/diariodafoto/?topo=52,1,1,,186,e186 o primeiro post (realizado no dia 12/11/2012), cujo título é Grêmio 2x1 São Paulo, traz uma narrativa imagética, realizada no domingo, 11/11/12, do repórter-fotográfico. Na abertura do post há um texto contextualizado do evento que, no caso do jogo, informa que a equipe do Grêmio venceu o São Paulo de virada, garantindo sua participação na Libertadores e o vice-campeonato do Brasileirão.

Também especificamente nesta narrativa, há uma inauguração tecnológica que é testada (o texto de abertura mostra disso) pelo repórter-fotográfico: a câmera remota.
“Utilizado pelas principais agências de notícias, a câmera remota funciona da seguinte maneira: com um transmissor, o equipamento recebe comandos via ondas de rádio,  disparando exatamente no mesmo momento que outra máquina fotográfica (também com um transmissor) é acionada.

(...)A câmera remota foi posicionada atrás da goleira, e enquanto Marcelo Oliveira fazia fotos de lances do jogo, ela simultâneamente registrava imagens da movimentação na pequena área e gol”.15

Com as constantes novidades tecnológicas que surgem no mercado ocorrem também mudanças nas convenções e consequentemente nas rotinas de trabalho dos repórteres-fotográficos. A inserção de posts videofotografados (recentemente inaugurada pelo blog) está cada vez mais sendo realizada pelos profissionais que, ao mesmo tempo em que fotografam, produzem vídeos sobre o acontecimento a fim de aproveitarem o material em multiplataformas.

As imagens realizadas a partir do controle remoto acionado por Marcelo Olliveira revelam uma novidade - critério para seu valor notícia. Paralelamente às fotos feitas pelo modo tradicional – quando o fotógrafo aciona diretamente o obturador da câmera -, outra câmera (que captura as fotos detrás da goleira) é acionada no mesmo instante. Estas fotos contam a história dos gols do time vencedor. Um enquadramento exato por detrás da trave do gol: foto 1 mostrando a bola entrando no primeiro gol; foto 2 revelando um dos ataques do goleiro do time do São Paulo; e terceiro post, momento exato do gol, bola na rede no segundo gol do time gremista.

Podemos dizer que a tecnologia neste caso corrobora por um valor notícia de imagem (SOUSA, 1998). Esse é um momento decisivo (bressoniano) de um acontecimento: o fotógrafo ter a foto do (s) gol (s) é fundamental numa cobertura de jogo, é o momento ápice do acontecimento, esperado por todos.

O segundo post do dia 06 de novembro de 2012 (capturado em 16/11/12) traz fotos do repórter-fotográfico Mateus Bruxel e é composto por oito imagens de uma pauta intitulada Já é Natal. Trata-se de uma pauta que para o veículo tradicional impresso Diário Gaúcho deve ter sido publicada com no máximo duas fotos, enquanto que no blog uma narrativa da pauta fotográfica se estabeleceu com muito mais imagens, um dos propósitos do veículo digital que é contemplar aquelas fotos que não foram contempladas pelo impresso.

Observando cada uma das oito imagens publicadas no blog podemos ter uma noção completa do que a matéria propõe. Ou seja, o veículo blog conta uma história com imagens. Assim, propondo uma narrativa visual, em detrimento do texto escrito, ao contrário do que acontece com o jornal impresso.

O terceiro post (realizado em 05 de novembro de 2012, capturado em 16/11/12) intitulado GrêmioX Ponte Preta, revela nove imagens do repórter fotográfico Marcelo de Oliveira, cujos closes são bem elaborados/enquadrados e o conteúdo imagético se aproxima bastante ao que temos vindo observando e que nos interessa como problemática para a tese: o que está para nós no campo do sensível. Nove imagens pensadas para contar através de um ensaio uma pauta fotográfica em narrativa visual de conteúdo dificilmente publicado pelo jornalismo tradicional.

As nove imagens, por serem capturadas com teleobjetiva (provavelmente acima de 300 mm de distância focal), trazem em foco o principal: os lances do jogo, envolvendo jogadores em seus embates pela bola, e desfocam um campo visual interessante (público que assiste ao jogo, cuja cor completa a ideia de que são os torcedores do mesmo time, o Grêmio), emprestando uma beleza estética à narrativa.
Considerações finais

Propõe-se organizar uma espécie de mapeamento sobre o fotojornalismo da Cultura Digital, observando os processos de produção em um veículo tradicional, deste o on line e potencializar a observação participante no (s) blog (s) das equipes de fotojornalistas16, compreendendo acompanhar o trabalho em níveis de produção, edição (observação participante) e recepção (aqui no caso do blog, a partir dos comentários gerados pelas postagens), além de perceber a circulação (observando os percursos possíveis da pauta, desde seu início até as narrativas de que se apropriam os blogs), tencionando estas três etapas com os conceitos comunicacionais próprios da cultura digital, com pesquisas que já vem sendo trabalhadas/desenvolvidos por autores de referência supracitados.

O estado atual da pesquisa diz respeito às escolhas que deveremos fazer efetivamente para contemplar o que é mais pertinente para investigar e que vá falar de nossa proposta O que se quer enfatizar são as oportunidades de construções que permitam o trânsito entre processos subjetivos, mesmo que inscritos em processos culturais dados, e as práticas convencionais do sistema jornalístico.

Na chamada cultura digital, e principalmente a que interessa para fins da pesquisa que se propõe – a que diz respeito ao jornalismo on line e suas multiplataformas – a fotografia vem ganhando destaque na arquitetura editorial. Ela conquista tratamentos próprios dos suportes que a web comporta, e expande esses espaços em caminhos diversos. Nesse domínio, a fotografia recebe reconfigurações nos âmbitos da produção, da recepção e da circulação bastante diversas, em relação ao destinado pelo fotojornalismo impresso. A comparação com o impresso cabe aqui em função de que nos primeiros anos do jornalismo on-line os conteúdos iniciais migravam do impresso para o on-line como uma “versão on-line” do impresso. Hoje, no on-line, (de quarta geração) as fotos assumem um caráter mais complexo. Na notícia, muitas vezes, dispensam textos e contam suas próprias “histórias fotográficas” como narrativas. Situações que merecem reflexão e pesquisa.

As histórias fotográficas aqui narradas para exemplificar sobre nosso campo de pesquisa são acontecimentos jornalísticos que foram pautados e apropriados, num primeiro momento, ou pelo jornal on line, ou pelo jornal impresso, e num segundo momento reconfigurado para outra mediação tecnológica que enquadra ambos os acontecimentos na plataforma do blog, suscetível de intervenções via feedbacks por parte dos leitores das histórias/narrativas.

Falamos em histórias fotográficas como narrativas fotográficas, pois enxergamos este último termo já mais incorporado aos procedimentos do jornalismo on line. E isto se refere ao fato de que as fotos narradas nos blogs fotojornalísticos se apresentam em quantidade (maior número de fotos para contar uma história, reclamatória eterna dos fotojornalistas no impresso!), e qualidade, porque pelo que estamos observando estas narrativas permitem uma poética ampliada do fotojornalismo em função das novas linguagens em relação à cultura anterior (a do jornalismo impresso).

As experiências percebidas nos blogs que os repórteres fotográficos mantém como atividade paralela ao que desenvolvem nos veículos tradicionais apontam para outras possibilidades narrativas que, de certa forma, superam algumas discussões iniciais tanto no que diz respeito à transição do analógico para o digital como na migração do fotojornalismo para o ambiente do ciberjornalismo.

Referências bibliográficas:
FRAGOSO, Suely, RECUERO, Raquel e AMARAL, Adriana. Métodos de pesquisa para internet. Porto Alegre: Sulina, 2011.
HENN, Ronaldo e SALLET, Beatriz. Novas narrativas fotográficas no ciberjornalismo: o acontecimento no campo do sensível (2012). Artigo aceito para publicação na revista ECO-PÓS, editada pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da UFRJ.
HENN, Ronaldo. Pauta e notícia: uma abordagem semiótica. Canoas: Ulbra, 1996.
HENN, Ronaldo. O acontecimento em sua dimensão semiótica. In: Marcia Benetti; Virgínia Fonseca. (Org.). Jornalismo e acontecimento, mapeamentos críticos. Florianópolis: Insular, 2010a, v. 1, p. 77-93.
JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008.
QUÉRÉ, Louis. Entre facto e sentido: a dualidade do acontecimento. Trajectos, Revista de Comunicação, Cultura e Educação, n. 6, 2005. P. 59-76.

LONGHI, Raquel Ritter. Narrativas webjornalísticas em multimídia: breve estudo da cobertura do NYTimes.com na morte de Michael Jackson. VII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. São Paulo: SBPJOR/USP, 2009

LONGHI, Raquel Ritter. Formatos de linguagem no webjornalismo convergente: a fotorreportagem revisitada. VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. São Luís: SBPJOR/UFMA, 2010.

RESENDE, Fernando. O Jornalismo e suas Narrativas: as Brechas do Discurso e as Possibilidades do Encontro. Revista Galáxia, São Paulo, n. 18, p.31-43, dez. 2009.

RICOEUR, P., Tempo e Narrativa. v.1. Campinas: Papirus, 1994.

RUSCH Doris C. The onlinejournalistic article as “extensive audiovisual event”.

Revista Ghrebh-, v. 1, n. 07 , 2005, São Paulo. Disoponível em http://www.revista.cisc.org.br/ghrebh/index.php?journal=ghrebh&page=article&op=view&path%5B%5D=196&path%5B%5D=207. Acessado em 02/04/2012
SALLET, Beatriz. Histórias e “estórias” fotográficas: afirmação e rompimento das rotinas produtivas no fotojornalismo de Zero Hora. Dissertação de Mestrado. Unisinos, 2006.
SILVA JUNIOR, José Afonso.Cinco hipóteses sobre o fotojornalismo em tempos de convergência. Discursos Fotográficos. Universidade Estadual de Londrina – UEL, 2012.
SOUSA, Jorge Pedro. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental.Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004.
Referências on line:
MACEK, Jakub. “Defining Cyberculture”. Disponível em . 2005.

http://wp.clicrbs.com.br/diariodafoto/?topo, acessado em 22/10/2012.
http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2012/09/04/como-sera-a-noticia-do-futuro-entrevista-com-ramon-salaverria/



1 Doutoranda em Comunicação- UNISINOS, sob orientação do Prof. Dr Ronaldo Henn.

2 Semiótica no sentido de que todo o processo de produção de linguagens converte-se em semiose: uma ação sígnica com desdobramentos no tempo e no espaço e com potencial de geração de novos arranjos narrativos.

3 Entre os Coletivos destacamos como exploratório

Focoblog http://wp.clicrbs.com.br/focoblog/?topo=13,1,1,,,13


Garapa http://garapa.org/
The Big Picture http://www.boston.com/bigpicture/
Diário da Foto http://wp.clicrbs.com.br/diariodafoto/?topo=52,1,1,,186,e186
Favela em Foco http://favelaemfoco.wordpress.com/
LightBox (LIFE) http://lightbox.time.com/
Cia de Foto http://ciadefoto.com.br/blog/
Estadão - Olhar sobre o mundo http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/
Lens (NY Times) http://lens.blogs.nytimes.com/
FotoCorreio http://www.correiodopovo.com.br/blogs/fotocorreio
O Globo http://oglobo.globo.com/blogs/fotoglobo/
OlhavÊ http://www.olhave.com.br/blog/
Veja http://veja.abril.com.br/blog/sobre-imagens/tag/fotojornalismo/
MediaStorm http://mediastorm.com/blog/
Magnum http://www.magnumphotos.com/C.aspx?VP3=CMS3&VF=MAGO31_3


4 Entre os individuais podemos citar

Henrique Manreza http://www.manreza.com.br/blog/
Carlos Macedo http://reporternarua.wordpress.com/
Daniel Marenco http://provacontato.blogspot.com.br/
Ricardo Duarte http://fotografandoeandando.blogspot.com.br/
Mateus Bruxel http://mateusbruxel.wordpress.com/
Rafael Andrade http://dezesseistrintaecinco.blogspot.com.br/
Pedro Martinelli http://www.pedromartinelli.com.br/blog/
Daniel Kfouri http://danielkfouri.tumblr.com/
Danilo Verpa http://daniloverpa.blogspot.com.br/
Anna Carolina Negri http://www.acnegri.blogspot.com.br/
Eduardo Anizelli http://www.eduardoanizelli.blogspot.com.br/




5 Herança do fotojornalismo moderno, escola bressoniana - Henry-Cartier Bresson – 1908-1994 - que preconizava, na Era analógica, o momento decisivo.

6 Importante lembrar que em um jornal impresso diário, ou mesmo nos primeiros tempos do on line, aproveitava-se uma ou duas fotos para cada matéria jornalística, exceto quando se faziam reportagens. Geralmente a escolha da foto era do editor e nem sempre correspondia ao que o repórter-fotográfico que tinha vivido a história/pauta queria.

7 Para fins deste texto de Seminário de Tese estamos trazendo o exemplo empírico do blog Diário da Foto, que é um veículo pertencente do jornal Diário Gaúcho. O objeto empírico total que constituirá nosso estudo ainda deverá ser definido em conjunto com o orientador da tese.

8 Instagram é um aplicativo gratuito que permite aos usuários tirar uma foto, aplicar um filtro para posteriormente compartilhá-la nas redes sociais e no próprio Instagram. Esse aplicativo foi desenvolvido e projetado pelo brasileiro Mike Krieger e pelo norte americano Kevin Systrom, num primeiro momento para uso em dispositivos móveis da Apple iOS, porém posteriormente foi disponibilizado para o sistema Android. Entre as redes sociais mais utilizadas para compartilhamento estão o Twitter, Facebook, Foursquare e Tumblr.

9 O Diário Gaúcho é um jornal do Grupo RBS e auto designa-se como popular. Segundo dados da Associação Brasileira de Jornais (http://www.anj.org.br/a-industria-jornalistica/jornais-no-brasil/maiores-jornais-do-brasil, acessado em 25/10/2012), o periódico atingiu uma média de circulação de 155.853 exemplares, a oitava maior do Brasil em 2011. O jornal mantém versão online abrigada no portal ClicRBS (http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/diario-gaucho/capa,220,233,0,1547,Capa.html). A pesquisadora Márcia Franz Amaral defendeu tese de doutorado no PPGCOM da UFRGS em 2004 sobre esse veículo intitulada Lugares de Fala do Leitor do Diário Gaúcho. A tese problematiza a presença dos leitores que, na época, ultrapassavam a um milhão de pessoas, no âmbito da categoria popular e ganhou versão em livro (AMARAL, M. F. Jornalismo Popular, São Paulo: Contexto, 2006)

10 Tanto pesquisadores quanto profissionais fotojornalistas utilizam-se do termo histórias fotográficas para mencionar uma narrativa visual por meio de fotografias jornalísticas. Uma história fotográfica, na perspectiva do fotojornalismo, significa uma pauta contada por várias fotos que dão a ver a sequencialidade da cobertura do acontecimento (publicadas pós-seleção e edição, normalmente), e apoiadas por legendas, textos etc. Diferentemente das práticas do fotojornalismo impresso diário, no qual cada pauta é contada, na maioria das vezes, por uma única foto, ou, no máximo, três fotos - em se tratando de uma pauta especial - no jornalismo online, uma pauta fotográfica é contada como uma história fotográfica.

11 Queremos, ao nos referir à qualidade de uma fotografia, justificar que esta (qualidade) não se limita às questões técnicas da mesma – e que dizem respeito ao resultado satisfatório de luz, escolha de ângulo, objetivas etc – mas também às escolhas dos fotógrafos para a elaboração de sentido empregados nas mesmas. A nosso ver, uma fotografia jornalística não produz sentido somente por estar tecnicamente bem resolvida, mas depende dos vários elementos que compõe os enunciados que produzem sentido.Ou seja, ao nos referirmos à qualidade aqui estamos olhando para a poética ampliada do fotojornalismo, em função das novas linguagens.

12 A pauta é entendida aqui como instância de produção jornalística que potencialmente pode trabalhar elementos de criatividade dentro da lógica abdutiva dos modos de raciocínio previstos por C. Sander Peirce (HENN, 1996; SALLES, 1992)

13 Em 2006, durante nossa pesquisa de Mestrado, coincidiu de testemunharmos/presenciarmos o último repórter-fotográfico - Carlos Edler, então da equipe do jornal Zero Hora -, a abandonar de vez a fotografia analógica em seu modus operandi.

14 No site http://wp.clicrbs.com.br/diariodafoto/?topo, acessado em 16/11/2012.

15 http://wp.clicrbs.com.br/diariodafoto/?topo=52,1,1,,186,e186, acessado em 16/11/2012.

16 Campo a ser definido com o orientador da pesquisa.


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