Nasio, J. D. et al. Os Grandes Casos de Psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001



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NASIO, J.-D. et al. Os Grandes Casos de Psicose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
Página 01
Os grandes casos de psicose
Página 02
Transmissão da Piscanálise
Diretor: Marco Antonio Coutinho Jorge
Página 03
Sob a direção de J. – D. Nasio
Os grandes casos de psicose
Com a colaboração de Annie – Marguerite Arcangioli, Dominique Berthon, Araon Coriat, Yanick Francois, Tristan Garcia-Fons, Anee Lefevre, Francisco Xavier Moya-Plana, J.-D. Nasio, Christian Pisani, Michelle Varieras, Marie- Claude Veney-Perez, Genéviève Vialet-Bine, Liliane Zolty.
Tradução: Vera Ribeiro Psicanalista
RevisãoTécnica: Marco Antonio Coutinho Jorge
Jorge Zahar Editor
Rio de Janeiro
Página 04
A preparação deste livro foi supervisionado por L. Zoltry
Título original: Les grands cas de psychose
Tradução autorizada da primeira edição francesa publicada em 2000 poréditions Payot & Rivages, de Paris, França, na coleção Désir/Payot, dirigida por J.-D. Násio
Os grandes casos de psicose / sob a direção de, J.-D. Nasio; com a coloração de Annie – Marguerite Arcangioli... [et al.]; tradução, Vera Ribeiro; revusçai técnica, Marco Antonio Coutinho Jorge. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001 (Transmissão da psicanálise; 64)
Tradução de: Les grands cas de psychose

Inclui bibliografia

ISBN 85 – 7110-591 – X
1. Psicose – Estudo de casos. 1. Nasio, Juan – David II. Arcangiolli, Annie-Marguerite. III. Série.

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SUMÁRIO

Preâmbulo – 7

Que é um caso? – 9

Observações psicanalíticas sobre as psicoses – 33

Um caso de S. Freud: Schreber ou a paranóia – 41

Um caso de M. Klein: Dick ou o sadismo – 65

Um caso de D. W. Winnicott: A pequena Piggle ou a mãe suficientemente boa – 85

Um caso de B. Bettelheim: Joey ou o autismo – 109

Um caso de criança de F. Dolto: A menina do espelho ou a imagem inconsciente do corpo – 133

Um caso de adolescente de F. Dolto: Dominique ou o adolescente psicótico – 159

Um caso de J. Lacan: As irmãs Papin ou a loucura a dois – 189

As psicoses transitórias à luz do conceito de foraclusão localizada – 217

Notas do conjunto dos cápitulos – 237

Índice geral – 240

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Um caso de J. Lacan: As irmãs Papin ou a loucura a dois – 189

As psicoses transitórias à luz do conceito de foraclusão localizada – 217

Notas do conjunto dos capítulos – 237

Índice geral – 240

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PREÂMBULO

Todos os grandes psicanalistas deixaram-nos o testemunho excepcional de uma experiência clínica perturbadora e rica em ensinamentos. Aqui estão, comentados pela primeira vez, os mais célebres casos de psicose da história da psicanálise: Schreber, cujas Memórias revelaram a Freud os mecanismos mais íntimos da paranóia e do narcisismo; Dick, o menino autista cuja análise permitiu a Melanie Klein confirmar sua hipótese de que o sadismo é um componente sadio do homem normal; A pequena Piggle, menina desestruturada que pôs Winnicott no caminho do conceito de mãe suficientemente boa; Joey, o menino autista cuja cura impressionante reforçou a convicção de Bettelheim em seu projeto de tratar o autismo no meio institucional (a Escola Ortogênica); a menina esquizofrênica tratada por Dolto e a quem dei o nome de “Menina do espelho”, para sublinhar o poder alienante da imagem especular; Dominique, o adolescente psicótico cujo tratamento, também realizado por Françoise Dolto, foi um campo de pesquisa fecundo para sua teoria das castrações simboligênicas; e, por áltimo, As irmãs Papin, que Lacan jamais conheceu, mas cuja loucura assassina foi a ilustração mais exemplar da passagem ao ato paranóica.

Os autores que deram sua colaboração a este livro quiseram, acima de tudo, sublinhar a originalidade de cada observação clínica e expor os avanços teóricos por ela suscitados. Empenharam-se particularmente em nos fazer reviver a emoção sentida por esses pioneiros, quando de seu encontro com um paciente gravemente afetado, e o impacto espantoso que ele produziu em seu pensamento.

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Os comentadores redigiram suas contribuições não apenas com a preocupação de expor a história da doença, o processo da análise e os novos subsídios teóricos induzidos pela observação, mas também desejosos de mostrar que a clínica dos grandes mestres está tão viva
quanto nossa clínica atual.

Independentemente da época e do lugar, jamais deixaremos de nos surpreender, a exemplo dos que nos antecederam, com o mistério da loucura e com o poder insuspeitado de uma escuta analítica capaz de aliviar o sofrimento do paciente psicótico. Por isso, queremos que este livro seja para o leitor, mais do que um manual de historia, um poderoso


estímulo para a reflexão sobre as novas formas da doença mental. E desejamos também que a leitura destas páginas seja uma incitação à consulta direta dos documentos originais em que foram consignadas as observações clínicas aqui comentadas.

Cada capítulo que leremos organiza-se em três partes: a vida do paciente, seus sintomas e o desenrolar da análise; a importância do caso para a teoria e uma seleta bibliográfica relativa ao caso.

Além disso, o livro traz um capítulo sobre a teoria psicanalítica das psicoses e outro, que o encerra, sobre o conceito deforaclusão localizada que desenvolvi em continuidade à obra de Freud e à de Lacan, conceito este empregado através de um caso clínico de psicose transi tória
Por último, fiz questão de introduzir nossa obra coletiva com um texto que mostra como um psicanalista, no exercício da escuta, é levado a produzir o texto singular a que damos o nome de “caso clínico”.

Os capítulos dedicados aos casos são uma versão profundamente reformulada dos textos de conferências proferidas durante o ciclo de ensino Os grandes casos de psicose, organizado pelos Seminários Psicanalíticos de Paris.

J.D-Nasio

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Que é um caso?

J.D-Nasio

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As três funções de um caso: didática, metafórica e heurística.

O caso é uma ficção.

A gestação de um caso clínico: o papel do “esquema da análise”.

O sigilo.

Excertos das obras da S. Freud e J. Lacan sobre a idéia de “caso clínico”.

Seleta bibliográfica.

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(Início da citação) “Eu mesmo me surpreendo ao constatar que minhas observações dos pacientes podem ser lidas como romances e não trazem, por assim dizer, a chancela de seriedade que é própria dos escritos científicos.” S. Freud. (Fim da citação)

Em sua acepção mais comum, a expressão “caso” designa, para analista, o interesse muito particular que ele dedica a um de seus pacientes. Na maioria das vezes, esse interesse leva a um intercâmbio de sua experiência com seus colegas (supervisão, grupos de estudo clínico


etc.), mas, vez por outra, dá margem a uma observação escrita, que constitui então o que realmente chamamos de caso clínico.

Mas convém lembrar que, no discurso médico, a palavra “caso” assume um sentido muito diferente, ou até oposto ao sentido psicanalítico que desenvolveremos neste livro. Enquanto, na medicina, o caso remete ao sujeito anônimo que é representativo de uma doença -


diz-se, por exemplo, “um caso de listeriose” —, para nós, ao contrário, o caso exprime a própria singularidade do ser que sofre e da fala que ele nos dirige.

Assim, em psicanálise, definimos o caso como o relato de uma experiência singular, escrito por um terapeuta para atestar seu encontro com um paciente e respaldar um avanço teórico. Quer se trate do relato de uma sessão, do desenrolar de uma análise ou da exposição da vida e

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dos sintomas de um analisando, um caso é sempre um texto escrito para ser lido e discutido.

Um texto que, através de seu estilo narrativo, põe em cena uma situação clínica que ilustra uma elaboração teórica. É por essa razão que podemos considerar o caso como a passagem de uma demonstração inteligível a uma mostra sensível, a imersão de uma idéia no fluxo móvel de um fragmento de vida, e podemos, finalmente, concebê-lo como a pintura viva de um pensamento abstrato.

As três funções de um caso: didática, metafórica e heurística

Função didática. É justamente esse caráter cênico e figurado que confere ao estudo de casos um poder incontestável de sugestão e de ensino. Por quê? O que distingue o relato de um caso de outros textos didáticos? Sua particularidade prende-se a isto: ele transmite a teoria, dirigindo-se a imaginação e a emoção do leitor. Imperceptivelmente, o jovem clínico aprende a psicanálise de maneira ativa e concreta. Como leitor atento, imagina-se ocupando alternadamente o lugar do terapeuta e o do paciente, e sente aquilo que sentem os protagonistas do encontro clínico.

O caso se apresenta, portanto, como uma fantasia em que voejamos livremente de um personagem para outro, no seio de um mundo virtual, estando dispensados de qualquer confronto direto com a realidade. Assim, o exemplo clínico mostra os conceitos e, ao mostrá-los, transforma o leitor num ator que, pela encenação improvisada de um papel, inicia-se na prática e assimila a teoria. E essa afunção didática do caso: transmitir a psicanálise por intermédio da imagem, ou, mais exatamente, por intermédio da disposição em imagens de uma situação clínica, o que favorece a empatia do leitor e o introduz sutilmente no universo abstrato dos conceitos.

Note-se que a importância evocadora dessa colocação em imagens que é o caso aproxima-se da idéia aristotélica de catarse. Em sua Poética, Aristóteles explica a atração que a tragédia grega exerce sobre o espectador através do fenômeno da “purificação (catharsis) das paixões”; (1). O espectador livra-se da tensão de suas paixões ao ver encenar- se diante dele o espetáculo de seu drama íntimo. Vê desenrolar-se do lado de fora o conflito que está em seu interior. Eis, numa fórmula, o

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princípio do fenômeno catártico: o semelhante se trata através do semelhante. As paixões que agitam em silêncio o inconsciente do espectador aplacam-se, quando ele vê essas mesmas paixões desencadeadas no palco; assim, a violência das pulsões recalcadas é exorcizada pela violência das paixões teatralizadas. Graças a identificações imaginárias com os personagens da tragédia, o espectador participa ativamente da trama; de espectador, transforma-se em ator. Ora, é exatamente esse mesmo princípio que confere à leitura do caso clínico seu poder sugestivo. Para nosso leitor transformado em ator, o semelhante é aprendido pelo semelhante; ao ler o relato das sessões, ele se imagina sofrendo o que o paciente sofre e intervindo como intervém o terapeuta.

Mas surge uma questão. De que maneira a escrita figurada facilita o acesso ao pensamento abstrato? Como pode o leitor, a partir de uma observação clínica, deduzir a teoria? Deixando de lado o prazer narcísico de ler um caso — verdadeiro espelho que remete o leitor a si mesmo —, como explicar, por exemplo, por que o relato da Pequena Piggle nos permite compreender de maneira tão sutil o conceito winni-cottiano de “mãe suficientemente boa”? Dissemos que o caso — visto pelo lado daquele que o redige — é uma colocação do conceito em imagens, uma passagem do abstrato ao concreto, mas agora querem conhecer o movimento inverso. Queremos saber como se produz, no espírito do leitor, o trajeto que vai do texto ilustrado ao conceito pensado, da cena à idéia, do concreto ao abstrato.

Nossa resposta pode resumir-se no seguinte encadeamento. Num
primeiro tempo, e para respaldar uma proposição teórica, o clínico redige o relato do desenrolar de uma análise, descrevendo a vida e sintomas de seu paciente. Em seguida, o leitor aborda esse texto e identifica com os personagens principais da história do sujeito, e depois generaliza o caso, comparando-o com outras situações análogas, para enfim discernir o conceito que até então continuava não formulado. É nesse momento que ele deixa a cena clínica e, guiado pelo conceito emergente, vasculha seu espaço mental, povoado por outros conceitos conhecidos e outras experiências vividas.

Em suma, depois que nosso leitor vira a primeira página do célebre diário de uma análise que é A pequena Piggle, ele compreende que um dos eixos do livro é a idéia de “mãe suficientemente boa”. Compree de que a “mãe suficientemente boa” é a mãe simbólica, isto é, a duplicação psíquica da pessoa real da mãe, uma estatueta mental que a criança pode maltratar e agredir, sem destruí-la e sem destruir a si mesma.

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A partir daí, só resta ao leitor dar um último passo — um passo que ele dá sem dificuldade: estender a idéia de “mãe suficientemente boa” ao campo mais geral da relação transferencial entre paciente e analista. Pensando nessa noção e observando como se conclui a análise de Piggle, nosso leitor passa então a saber que, de acordo com os princípios winnicottianos, a meta última da ação do psicanalista é criar no analisando, ao final de seu tratamento, a certeza de que ele pôde amar e agredir seu terapeuta de maneira simbólica, isto é, sem tê-lo realmente possuído nem destruído. A partir da experiência concreta da Pequena Piggle, nós, leitores, acedemos ao conceito de “mãe suficientemente boa” e, partindo desse trampolim, saltamos para um novo conceito mais amplo, que denominarei, parafraseando Winnicott, de “analista suficientemente simbolizável”. Suficientemente simbolizável para sobreviver, como representação psíquica, às projeções pulsionais do analisando; um analista que trabalhou, na realidade da análise, de maneira suficientemente pertinente para imprimir no psiquismo do paciente a imagem simbólica de um terapeuta inalterável, condição essencial para que o analisando termine sua análise sem culpa em relação àquele que se prestou à dominação da transferência.


Em suma, o valor didático de um caso reside no poder irresistível da história clínica para captar o ser imaginário do leitor e conduzi-lo sutilmente, quase sem que ele se aperceba, a descobrir um conceito e a elaborar outros.

Dramatizar o conceito. Entretanto, devo esclarecer aqui — ainda no tema da função didática do caso — que existe uma outra maneira de pôr um conceito em cena, mas sem recorrer ao testemunho de um caso clínico. Como? Já não se trata de uma ilustração na qual o conceito é empregado numa cena humana, mas de ver o próprio conceito tornar-se humano e vivo, de antropomorfizá-lo, de fazê-lo falar e agir como falaria e agiria um ser que quisesse fazer-se entender. Assim, movido por meu pensamento visual, ocorreu-me imitar as idéias mais abstratas e formais. Quando tenho que lecionar num contexto restrito como o de meu Seminário fechado, às vezes sou levado a exprimir a significação de uma idéia através de gestos, mímicas ou entonações. Mas, fora dessas situações particulares, quando tenho que expor por escrito uma entidade formal, esforço-me por apresentar suas articulações, sinuosas

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e amiúde complicadas, à maneira de um diretor cênico que fizesse do conceito teórico o personagem central de uma trama, que tem um começo, atinge um clímax e tem um desfecho; um diretor que procurasse criar em seu espectador uma tensão tão cativante quanto o suspense de um drama.

Tomemos o exemplo do conceito de complexo de Édipo no menino. Quando tive que expô-lo, recentemente, quis que o estilo de minha exposição se coadunasse o mais de perto possível com o movimento psíquico que ele designa. Como o Édipo é, antes de mais nada, travessia de uma prova, a passagem brusca de um estado a outro, era preciso que minha formulação refletisse a mesma tensão que antecipa o salto, a mesma emoção da transposição e o mesmo relaxamento que se segue à crise. Assim, como enunciar o conceito, permanecendo fiel a um processo tão móvel e fluido? Ocorreu-me a idéia de forjar um artifício de exposição que desse voz ao inconsciente do menino edipiano. Falando na primeira pessoa, o inconsciente dele nos contaria peripécias de sua crise edipiana. Eis o que ele nos confiaria:

“Eu, o inconsciente, falo: sinto excitações penianas —> Tenho o falo e me acredito onipotente —> Desejo, ao mesmo tempo, possuir e ser possuído por meus pais, além de eliminar meu pai —> Sinto prazer em fantasiar —> Meu pai ameaça me castigar, castrando-me —> Vejo a ausência do pênis-falo numa menina e em minha mãe —> Angustio-me —> Paro de desejar meus pais e salvo meu pênis —> Assim, supero a angústia —> Esqueço tudo: desejo, fantasias e angústia —> Separo-me sexualmente de meus pais e faço minha a moral deles —> Começo a compreender que meu pai é um homem e minha mãe é uma mulher, e, aos poucos, começo a me aperceber de que também pertenço à linhagem dos homens(...).”

São essas as emoções sucessivas que pontuam o movimento dramático da fantasia edipiana masculina. Cada frase enunciada na primeira pessoa encerra uma vasta rede de conceitos, que o leitor não necessariamente discerne, mas que ainda assim assimila. Ele lê apenas os “eu sinto”, “eu desejo”, “eu me angustio” ou “eu esqueço” com os quais se identifica, e, ao fazê-lo, integra espontaneamente entidades abstratas.

Numa palavra, dramatizar um conceito significa personificá-lo e pô-lo em jogo numa unidade de lugar, tempo e ação, a fim de captar o leitor e levá-lo ao cerne da teoria.

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Função metafórica. Voltemos agora ao caso clínico e a seu valor metafórico. É frequente — e estou pensando sobretudo nos casos célebres da psicanálise — a observação clínica e o conceito que ela ilustra estarem tão intimamente imbricados, que a observação substitui o conceito e se torna uma metáfora dele. O recurso repetido dos psicanalistas a alguns grandes casos, sempre os mesmos, para exemplificar um dado conceito, acarretou, ao longo dos anos, um deslizamento de significação. O sentido inicial de uma idéia tornou-se, pouco a pouco, o próprio sentido de seu exemplo, a tal ponto que basta a simples menção do nome próprio do caso (Joey, irmãs Papin, Dominique etc.) para fazer com que jorre instantaneamente a significação conceitual.

Por exemplo, em vez de estudar a psicose em termos abstratos, sucede-nos evocar espontaneamente um dado episódio da história do delirante presidente Schreber, e, ao fazê-lo, teorizamos sem saber que estamos teorizando. Penso aqui no momento exato em que eclode o delírio paranóico do célebre presidente. Eis a cena: ainda mal despertado de uma noite de sono, Schreber imagina que seria belíssimo ser uma mulher vivenciando um coito. Já essa simples evocação presentifica a hipótese freudiana que faz da paranóia masculina a expressão mórbida de uma fantasia infantil e inconsciente, de conteúdo homossexual: a de ser sexualmente possuído pelo pai e gozar com isso. Em seu devaneio erótico, Schreber é uma mulher inebriada com a volúpia da penetração, mas, em sua fantasia subjacente, é, na verdade, um garotinho que goza ao se entregar ao desejo sexual do pai. Por isso, o fato de um psicanalista evocar esse chavão, esse episódio marcante da doença de nosso presidente neuropata, equivale a afirmar uma das principais proposições que explicam a origem da paranóia: o amor inconsciente pelo pai é projetado para fora, na pessoa de um homem perseguidor a quem se odeia e de quem se tem medo. A causa da paranóia é a reativação aguda de uma fantasia homossexual edipiana. Como vemos claramente, o conceito de projeção paranóica apaga-se diante do exemplo que se tornou seu substituto.

E até possível que o caso-metáfora seja estudado, comentado e incansavelmente retomado, na comunidade dos praticantes, a ponto de adquirir um valor emblemático, ou mesmo de fetiche. Que são Schreber, Dora e Hans, senão histórias consagradas pela tradição psicanalítica como os arquétipos da psicose, da histeria e da fobia?

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Será preciso acrescentarmos que as numerosas observações clínicas que povoam a teoria analítica lembram a impossibilidade de pensamento conceitual dizer a verdade da experiência, unicamente por meio do raciocínio formal?

Função heurística. Sucede, além disso, o caso ultrapassar seu papel de ilustração e de metáfora emblemática, tornando-se, em si mesmo, gerador de conceitos. É a isso que chamo “função heurística de um caso”. Às vezes, a fecundidade demonstrativa de um exemplo clínico é tão frutífera, que vemos proliferarem novas hipóteses que enriquece e adensam a trama da teoria. Retomando a figura do presidente Schreber, foi justamente graças às espantosas Memórias de um doente de nervos, comentadas por Freud, que Lacan pôde conceber pela primeira vez a idéia de significante do Nome-do-Pai e a idéia correlata de foraclusão, noções que desde então renovaram a compreensão do fenômeno no psicótico; (2). Para completar, não nos esqueçamos do papel desempanhado pelo célebre caso do Homem dos Lobos (episódio da alucinação do dedo cortado) no nascimento do conceito lacaniano de foraclusão.

O caso é uma ficção.

Todavia, mesmo que um caso tenha uma função didática, como exemplo que corrobora uma tese, uma função metafórica, como metáfora de um conceito, ou uma função heurística, como centelha que está na origem de um novo saber, ainda assim o relato de um encontro clínico nunca é o reflexo fiel de um fato concreto, mas sua reconstituição fictícia, O exemplo nunca é um acontecimento puro, mas sempre uma história reformulada.

O caso se define, portanto, como o relato criado por um clínico, quando ele reconstrói a lembrança de uma experiência terapêutica marcante. Tal reconstrução só pode ser uma ficção, uma vez que o encontro com o analisando é rememorado através do filtro da vivência do analista, readaptado segundo a teoria que ele precisa validar e, não nos esqueçamos, redigido de acordo com as leis restritivas da escrita. O analista participa da experiência com seu desejo, reencontra-a em

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sua lembrança, pensa nela por meio de sua teoria e a escreve na língua de todos. Podemos ver como todos esses planos sucessivos deturpam o fato real, que acaba por se transformar em outro.

Por isso é que o caso clínico resulta sempre de uma distância inevitável entre o real de que provém e o relato em que se materializa. De uma experiência verdadeira, extraímos uma ficção, e, através dessa ficção, induzimos efeitos reais no leitor. A partir do real, criamos a ficção, e com a ficção, recriamos o real.

A gestação de um caso clínico: o papel do “esquema da analise”.

Mas, de que modo um psicanalista chega a fazer nascer um caso? O que o leva a escrever? Em seu vaivém permanente entre a prática e a teoria, duas condições mínimas são necessárias para que o analista possa transformar uma experiência singular num documento destinado a seus colegas.

Primeiro, o praticante será tão mais sensível e receptivo ao encontro clínico quanto mais for capaz de se surpreender, e será tão mais capaz de se surpreender quanto mais sólida for sua formação teórica. Viço e rigor, inocência e saber são as qualidades primordiais de um clínico receptivo ao acontecimento transferencial que convoca à escrita.

Depois, a outra condição mínima para produzir um caso é colocar- se à escuta do paciente guardando na pré-consciência o que chamo de “esquema da análise”, isto é, um conjunto de hipóteses que definem a problemática principal de um dado paciente. Esse esquema, que é o resultado, no analista, de uma reflexão madura sobre os conflitos pulsionais do paciente, personaliza a escuta de cada analisando. É evidente que não escuto Sarah, uma jovem anoréxica, com a mesma abordagem conceitual — ainda que muito flexível — com que escuto Diana, também anoréxica, ou Julien, que sofre de agorafobia. Com cada um desses pacientes, a inteligência pré-consciente de minha escuta é incontestavelmente diferente, uma vez que, a partir da teoria psicanalítica geral, faço uma reconstrução das principais fantasias subjacentes aos sintomas próprios do analisando.

Mas, por que falar aqui num esquema da análise? Qual é seu papel na redação de um caso clínico? É um papel determinante, porque esse

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esquema, essa construção, por mais intelectual que seja, é indispensável para levar o analista a fantasiar o inconsciente do paciente no momento mais vivo da escuta, imediatamente antes de interpretar. Pois bem, esse momento, favorecido pela existência prévia do esquema conceitual, pode revelar-se tão pregnante que impele o clínico a escrever.



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